O primeiro livro da Bíblia, a Gênese mosaica, traz em seu primeiro capítulo a história da criação. No capítulo 1, vers. 1 encontramos: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Já no capítulo 2, vers. 7 podemos observar a criação do homem: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente”. Ainda no mesmo capítulo 2, mas nos vers. 21 e 22 encontramos o aparecimento da mulher: “Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o Senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem”.
Todos já devem ter ouvido, algum dia, esta história bíblica da criação dos céus, da terra, dos animais, do homem, da mulher, etc. À isto dá-se o nome de Criacionismo, ou seja, para toda criação houve um Criador, e Este seria Deus.
Até o século 19, o ocidente tinha o relato bíblico como a única explicação para o surgimento do planeta e de tudo que há nele, apesar de que na época, já haviam ocorrido algumas manifestações contrárias a esta forma de pensar, mas poucos tinham coragem de ir contra a influência da Igreja Romana.
Em 1859, o inglês Charles Darwin publicou o livro “A origem das espécies”. Antes dele, como foi dito anteriormente, outros cientistas já haviam sugerido que os seres vivos mudam ao longo do tempo. Mas Darwin, que fez observações de fósseis, plantas e animais durante uma viagem ao redor do mundo, foi o primeiro a propor uma explicação lógica para a evolução. Nascia aí uma visão científica do aparecimento do homem e de todos os animais: o Evolucionismo.
Segundo Darwin, os seres vivos evoluíram ao longo dos anos dando origem ao homem, aos animais e às plantas que observamos no meio ambiente. Disso decorre que as espécies mais bem adaptadas às mudanças do ambiente sobreviveriam e transmitiriam para os descendentes esta melhor adaptação. Enquanto que as espécies que não obtiveram esta adaptação foram desaparecendo. É por isso que até hoje encontramos fósseis de animais que viveram a milhares ou a milhões de anos atrás.
Pode-se, a partir daí, perceber o embate que apareceu entre Criacionismo e Evolucionismo. De um lado, religiosos classificando os cientistas de hereges. De outro, toda uma comunidade científica se aprofundando sobre a questão da formação do Universo, do planeta Terra e dos seres vivos.
Para alguns teólogos, o planeta teria em torno de 6500 anos. Para os cientistas, a média seria de 5 bilhões de anos. Hoje não há dúvida sobre esta datação. As técnicas radiológicas, que usam a chamada meia-vida dos elementos radioativos, mostram-nos que é impossível uma idade tão curta para o planeta como querem afirmar os Criacionistas.
A igreja Católica, depois de relutar tanto com os cientistas, já aceita a evolução das espécies como verdade irrefutável. A mesma Igreja que outrora combateu o Evolucionismo de Darwin, hoje prega que a história bíblica da criação é uma alegoria que deve ser discernida pelas luzes da Ciência.
O Espiritismo desde sua fundação com o lançamento de “O livro dos Espíritos” já demonstrava uma posição evolucionista, sem para isso tirar Deus da temática da Criação.
A igreja Católica de hoje e o Espiritismo possuem um posicionamento bem semelhante quanto à formação do Universo. As duas correntes religiosas aceitam as descobertas científicas, mas não aceitam o aparecimento de tudo como obra do acaso.
Nós espíritas sabemos que Deus é o princípio de tudo, mas nem por isso precisa derrogar Suas Leis e criar tudo como um passe de mágica. Se assim fosse, Deus não seria Deus, seria um mandraque que através de uma palavra criaria tudo que existe no Universo e no planeta Terra. Temos a convicção de que a Ciência tem feito seu papel ao desvendar como se originou a vida no planeta. A evolução é um fato, e contra fatos não existem argumentos.
O que nos impressiona hoje, apesar de todo avanço tecnológico, é que existem pessoas que não abrem mão de acreditar no Criacionismo bíblico conforme encontramos literalmente na Gênese mosaica. Está incluída neste grupo a maioria das denominações protestantes. Há inclusive um forte movimento nos EUA que tenta abolir o ensino da Evolução nas escolas americanas. No Aquário da Flórida, na cidade de Tampa, não há aquela arvorezinha do tempo mostrando a escala evolutiva dos animais ali expostos. A direção do Aquário informa que visitantes americanos que defendem o Criacionismo bíblico se sentem insultados com a escala evolutiva. É uma questão político-religiosa, explica a direção do Aquário.
Se fizermos uma análise destes criacionistas bíblicos, chegamos à conclusão que para os que encaram a Bíblia como um livro infalível, não há como aceitar a história da Criação como uma alegoria, levando em conta o contexto histórico-cultural do povo hebreu. Se assim eles fizerem, terão também de aceitar outras passagens como ficção ou entender que aquilo fazia parte do costume de um povo. Sendo assim, eles teriam que concordar que a proibição de Moisés em não consultar os mortos é na verdade uma mensagem de acautelamento com as comunicações mediúnicas, e não obra de feiticeiro, como muitos teimam em nos atacar. Quando alguém é mergulhado anos numa cultura religiosa, sendo bombardeado com informações de que a Bíblia é a palavra de Deus e tudo que está literalmente escrito é verdade pura e absoluta, dificilmente aceitará as conclusões das pesquisas científicas.
Hoje percebemos pelos avanços tecnológicos que não é possível conciliar a Bíblia levada ao pé da letra com a Ciência. Talvez seja por isso que dentro de famílias religiosas tradicionais tenham saído muitos incrédulos e céticos. Agora mais do que nunca é necessário que estas Religiões mais tradicionais repensem sobre o que está sendo pregado aos seus jovens para que não tenham que sofrer uma reforma na base da força.
O Espiritismo, muito pelo contrário, está lado a lado com a Ciência seguindo a orientação de Kardec: “Ou o Espiritismo caminha com a Ciência, ou não sobreviverá”. Não podemos esquecer que as descobertas científicas também vêm de Deus, pois nada é revelado ao homem sem que antes seja aprovado pela Espiritualidade Superior. O problema é que, infelizmente, por causa do livre-arbítrio, nós seres humanos utilizamos para o mal aquilo que foi criado primariamente para o bem. Mas isso é uma outra história e que fica para uma outra vez...
Autor: Anderson Luiz da Silva Membro da União Espírita Beneficente Jesus, Maria e José.
Os problemas que poderão obstar à existência de vida num planeta não têm a ver apenas com a dificuldade da sua origem, mas também com a sua sobrevivência nesse planeta. Um dos factores determinantes é a existência de uma atmosfera em redor do planeta. Esta tem a dupla função de suportar os fenómenos respiratórios dos seres vivos, mas também o de travar os objectos celestes que se despenham sobre o planeta, pondo em causa a sobrevivência dos seres.
Planetas habitados: quantos?
Outro factor a ter em conta é a intensidade da chuva de meteoritos, asteróides e cometas a que um planeta pode estar sujeito. Estima-se que a Terra tenha sido durante milhões de anos bombardeada por estes corpos, de tal forma que mesmo que a vida emergisse nalgum local do planeta, as probabilidades de ela subsistir seriam muito reduzidas. Por fim há que ter em conta um outro factor que até há bem pouco tempo era uma preocupação fundamental da Humanidade e que muitos pensadores ponderavam se seria uma vocação das sociedades tecnolo-gicamente avançadas: a autodestruição. Tendo em conta alguns destes factores, Frank Drake, presidente do Instituto de Pesquisa de Vida Extraterrestre (SETI), estabeleceu uma equação que estima o número (N) de civilizações tecnológicas detectáveis no universo: N = R * fp * ne * fl * fi * fc * L O significado dos parâmetros desta equação é descrito no final deste artigo, para que o leitor possa fazer os seus cálculos. De acordo com tal fórmula, resolvemos fazer um cálculo, usando alguns números que não são os mais optimistas:
a=Idade do Universo: 15.000 milhões de anos
b=Nº de Galáxias: 100.000 milhões
c=Nº médio de estrelas por galáxia: 300.000 milhões
d=b x c: total de estrelas do Universo: 30.000.000.000.000.000 milhões
arbitrando fp = 10%, ne = 0.1%, fl = fi = fc = 1% (probabilidades não muito optimistas) para os parâme-tros da equação de Drake e L=100 anos (uma estimativa pessimista para a duração de uma sociedade tecnologicamente avançada), calculando R = d/a, obtém-se o valor de N= 20.000 planetas.
Resumindo, com base em números pessimistas, e nos nossos conhecimentos actuais, seria de esperar que o número de planetas habitados semelhantes ao nosso fosse da ordem das dezenas de milhar, só na parte do Universo por nós conhecido! Note-se que este cálculo diz respeito apenas a civilizações com tecnologia avançada (segundo os nossos prismas), com capacidade de usar sinais inteligentes para comunicar no Espaço. Na realidade, o número de "civilizações" poderá ser muito maior, e o número de planetas habitados (mas sem sociedades organizadas) poderá ser muitíssimo superior, tendo em conta as probabilidades. Se os números parecem ser tão optimistas, por que não detectam os pesquisadores outras civilizações no Espaço? Que pesquisas estão a ser feitas?
Pesquisas de vida extraterrestre
A Agência Espacial Norte-Americana (NASA) suporta já há longos anos um programa de pesquisa de inteligência extraterrestre (o programa SETI) que actualmente foca a vizinhança de mil estrelas do tipo do Sol (usando 28 milhões de canais de radiotelescópio) para tentar detectar sinais de civilizações com um grau de evolução tecnológico equiparado ou superior ao nosso. A Sociedade Planetária (sediada nos Estados Unidos) tem suportado projectos de pesquisa baseados nos mesmos princípios tecnológicos, embora pesquisando diferentes zonas do Espaço. Actualmente, esta sociedade implementou um dos mais ambiciosos e caros projectos nesta área, utilizando centenas de milhões de canais de radiotelescópio em simultâneo na sua tentativa de detecção de sinais inteligentes. Para além disso, lembramos que todas as missões de sondas espaciais enviadas a outros planetas do nosso Sistema Solar (Lua e Marte sobretudo) fazem recolha de amostras bioquímicas, tendo como um dos objectivos a pesquisa de vida ou pelo menos de matéria orgânica na superfície desses planetas. Não se pode dizer, portanto, que no nosso século a ciência e a tecnologia tenham descurado a pesquisa de vida fora da Terra. Quanto aos resultados, eles são bem menos animadores: a matéria orgânica tem sido detectada em corpos celestes como meteoritos e asteróides, mas não mais do que isso. Quanto à pesquisa de sinais de rádio no Espaço, alguns sinais intrigantes têm sido detectados, mas sem se poder concluir que se trata de mensagens com conteúdo inteligente. A realidade deste tipo de pesquisa é que ela é bastante exigente em termos de recursos tecnológicos e as probabilidades de se conseguir receber sinais são baixas, uma vez que os radiotelescópios são geralmente apontados a uma pequena faixa do firmamento. Estas áreas do universo são seleccionadas para pesquisa com base no conhecimento dos astrónomos em relação à presença de estrelas com possíveis sistemas planetários — trata-se na realidade de um jogo probabilístico. Cobrir toda a esfera celeste neste tipo de missão seria impraticável.
Visitantes de outros planetas?
Se o tema da existência de extraterrestres tem dado lugar a aceso debate, mais candente ainda é a questão do seu aparecimento na Terra vulgarmente conhecida pela designação de fenómeno OVNI. Não se pode tentar sustentar uma posição relativa a este assunto sem conhecimentos empíricos. Mas, a menos que uma posição preconceituosa nos leve à partida a negá-lo, pode abordar-se a questão da possibilidade do fenómeno, sob um ponto de vista teórico. Uma das questões que se coloca quando se fala de viajantes interestelares é a incomensurabilidade das distâncias a percorrer, relativamente à duração da vida de um ser do tipo humano. Ora a teoria da relatividade restrita veio já há alguns anos dar uma achega à questão, demonstrando que o tempo não passa da mesma forma para observadores em repouso e para observadores em movimento — concretamente, tal como foi já provado experimentalmente, o tempo passa mais lentamente para os observadores em movimento. Assim, para um ser a viajar a uma velocidade próxima da luz, o tempo passaria muito lentamente e dar-lhe-ia a possibilidade de viajar enormes distâncias no Espaço, no tempo correspondente à duração da sua vida. Exemplificando, para um viajante numa nave espacial, a 99,999% da velocidade da luz, o tempo passaria 224 vezes mais lentamente do que para um irmão seu que tivesse ficado na Terra. Em 10 anos, o viajante percorreria 2239,98 anos-luz; na Terra teriam passado 2240 anos, enquanto para ele teriam passado apenas 10 anos! Como efeito colateral, o nosso astronauta teria viajado não só no espaço, mas também no tempo. É claro que viajar à velocidade da luz, ou próximo disso, é um feito tecnologicamente inalcançável para a nossa civilização actual. Mas não podemos estabelecer limites aonde nos poderá levar o progresso, se nos for dado o tempo suficiente. Mais recentemente, outras descobertas da física-matemática vieram reequacionar as possibilidades de viajar no espaço-tempo(21). Derivadas da teoria da relatividade de Einstein, começaram a surgir novas teorias que incluem fenómenos tão exóticos como os buracos-negros e os buracos-de-verme. Segundo alguns dos mais conceituados físicos da actualidade, o Universo estará permeado de buracos-de-verme, que são túneis no espaço-tempo que poderiam ser usados e até construídos por civilizações muito avançadas para viajar, ultrapassando as limitações teóricas impostas pela velocidade-limite da luz. Estes túneis do espaço-tempo permitiriam, entre outras coisas, passar de um Universo para outro.
À luz do espiritismo
Não podemos deixar de esboçar por vezes um ligeiro sorriso, quando deparamos com algumas das conclusões científicas como as acima referidas, e por dois motivos: um pelo reconhecimento daquilo que algumas revelações espíritas têm vindo a afirmar ainda antes de os cientistas estarem dispostos a aceitar tais teses; o outro, perante uma certa ingenuidade da abordagem científica. Tentemos refinar estas duas afirmações. Em primeiro lugar, o espiritismo não vem tentando aproveitar da ciência aquilo que lhe interessa para suporte das suas teses, rejeitando tudo o que com elas não se compatibiliza. Acontece na realidade que o espiritismo tem tido uma capacidade de previsão e de explicação notável dos fenómenos, o que em ciência é sempre considerado como a melhor prova da correcção de uma teoria. Em segundo lugar, nós espíritas não podemos deixar de sorrir por vezes perante o preconceito com que a ciência oficial encara toda a fenomenologia que escapa às ferramentas do seu método habitual. É interessante assinalar, por exemplo a posição de um dos autores atrás citados sobre este tema da origem da vida, quando classifica de «recurso ao sobrenatural» as teses que recorram a intervenções externas para dinami-zar a vida no nosso planeta. É uma atitude equivalente a desprezar o pensamento de um indígena que, ao encontrar um relógio perdido num deserto, associasse o maravilhoso do mecanismo à intervenção de outros seres mais evoluídos. Se não se deve, na realidade, em ciência, fomentar o mito, também não é adequado deitar fora elementos de trabalho que poderiam revelar-se fundamentais. Por fim, uma palavra de apreço à ciência por muito do que sabemos e outra de advertência. Foi com o método científico que aprendemos a ser meticulosos nas nossas observações e cautelosos nas nossas conclusões. Allan Kardec ensinou-nos a respeitar estes princípios e dessa forma incorporou o método científico no espiritismo. Em ciência, constrói-se passo a passo, sem precipitações, aproveitando os alicerces e o edifício já edificado por outros anteriormente, sempre na esperança de que esses precursores tenham tido o mesmo cuidado na sua construção. Mas por vezes alguns dos que se dizem cientistas não estão livres de preconceito, nem escapam à tentação de querer ver apenas aquilo que querem ver. A história da pesquisa científica sobre a origem da vida está eivada de casos deste género, que contaminarão durante muito tempo o edifício científico nesta área. É necessário separar o trigo do joio.
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Parâmetros da fórmula de Drake: R : Taxa de formação de estrelas susceptíveis de gerar condições para a vida. fp : fracção de estrelas com sistemas planetários. ne: fracção de planetas com condições ambientais para suportar vida. fl : fracção de planetas com condições apropriadas, que suportam vida actualmente. fi : fracção de planetas com vida, que terão vida inteligente. fc : fracção de civilizações com capacidade tecnológica para serem detectadas no espaço. L :indicador da duração de uma civilização capaz de enviar para o espaço sinais inteligentes detectáveis. N = número de civilizações tecnológicas detectáveis no Universo.
Referências bibliográficas:
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Revista de Espiritismo nº. 33, Outubro/Dezembro 1996
Uma das maiores preocupações dos pesquisadores preocupados com a formação do nosso mundo, o planeta Terra, sem dúvida, tem sido a de saber como pôde aparecer vida nele, após seu provável resfriamento, segundo os conceitos primitivos correlatos com esta formação.
A primeira suposição sugerida foi admitir que a vida tenha aparecido, inicialmente, por geração espontânea, ou seja, surgido do nada ou das próprias cinzas remanescentes da massa incandescente que, segundo os arqueólogos, formaria o planeta.
Tudo baseado nos conhecimentos do passado, calcados nas parcas observações de nossos cientistas, sem grandes amparos nos mesmos, por falta de condições para obter dados precisos ou, quando muito, satisfatórios. E que girava em torno de possíveis fatos conhecidos.
Para provar a geração espontânea, os biólogos colocavam um pedaço de carne ao ar livre e, em pouco tempo, nele apareciam larvas dando a idéia de que haviam brotado da própria carne. Ali, tudo indicava que esta forma de vida teria vindo do nada, mas, Louis Pasteur, para provar que a vida não aparecia do dito nada, simplesmente, cobriu a fatia de carne com uma tela metálica que não permitisse que a mosca varejeira depositasse seus ovos na mesma, destruindo a hipotética afirmativa de que aquelas larvas teriam surgido sem causa senão a transformação a partir da própria carne. Ou seja, que haviam sido espontaneamente geradas.
Mas, evidentemente, naquela época, a ciência era muito mais empírica do que experimental e calcada nos sulcos religiosos – como comenta A. Kardec em A Gênese – que não lhe permitia maiores rasgos em seus estudos. E, de sobejo, estava o conceito religioso da “Vontade de Deus”, causa de tudo, que não podia ser discutido, sob pena de inflamar-se a Sua ira.
Apesar disso, foram engendradas as mais curiosas e estapafúrdias sugestões, a partir da idéia de que a vida primitiva se resumia em formas invisíveis, rudimentares que teriam resistido às altas temperaturas da possível lava que se resfriara para formar nosso planeta até a possibilidade de seres oriundos do espaço que teriam penetrado em nossa atmosfera nos primórdios da existência planetária. Eram os cientistas procurando algo plausível como justificativa para suas teses.
De qualquer maneira, as pesquisas confirmam que a mais primitiva forma de vida biológica é a dos plânctons, que teria se formado da reunião de substâncias orgânicas elementares encontradas na água e quiçá do próprio dióxido de carbono provavelmente existente em nossa atmosfera. Neste segundo caso restaria saber como o gás poderia ter permitido que as formas orgânicas primitivas tivessem capacidade de se estruturar a partir do ambiente atmosférico; na primeira e mais simples, admite-se a existência de alguma cadeia carbônica que poderia ter sido o metano.
Por ser justamente a mais simples forma orgânica –composta por quatro átomos de hidrogênio e um de carbono –, o metano, inicialmente, adviria de rochas carbônicas submersas nas águas; mas, esta conclusão, leva os químicos a admitirem que outras substâncias mais complexas poderiam ter surgido a partir das mesmas lavas incandescentes como as que até hoje os vulcões expelem, vindo cair em mananciais ou depósitos hídricos da superfície terrestre retidos pela crosta já esfriada.
Contudo, paira a dúvida da forma pela qual a substância mineral carbônica teria se transformado num ser biológico orgânico e, então, voltaria a se admitir que esta transformação nada mais seria do que uma forma de geração biológica espontânea peculiar.
E retornava-se à estaca inicial.
Restava a hipótese da semente espacial.
Os seres vivos mais elementares existentes no espaço sideral encontrariam a atmosfera do nosso planeta, introduzindo-se nela a partir do que, sua gravidade faria o resto da caminhada até a superfície terrena. As sementes caídas na água gerariam os plânctons primitivos.
O único embargo a esta hipótese é imaginar-se de onde teriam vindo estas sementes. Provavelmente de planetas distantes já que os mais próximos de nós não sugerem nenhuma forma de vida capaz de nos semear com tal elemento. Mas como estas vidas caminhariam errantes pelo espaço sideral? E como se proveriam do sustento enquanto errantes?
A coisa se agrava quando se verifica que não se penetra tão facilmente em nossa atmosfera sem passar por grande risco. Isto faria com que, provavelmente, tais sementes não resistissem às intempéries das quais fossem vítimas.
Um novo alento para hipóteses mais atualizadas surgiu quando os astrônomos verificaram que a formação de um sistema planetário não está ligada ao esfacelamento de nenhum astro luminoso capaz de se fragmentar em peças resfriáveis e de se tornarem planetas. Pelo contrário, tudo indica que uma ação de forças estranhas ao Universo atue sobre a poeira cósmica agregando-a sob forma de astro e, justamente, no efeito da compressão é que geraria as camadas internas incandescentes.
Os observatórios do Haway, mais especificamente o Keck II descobriram este fato estudando tais reações em torno da estrela Alfa Centaurus.
A vida biológica, pois, não poderia ter surgido junto com a criação do planeta, em que pesem informação em contrário, baseadas nas velhas tradições a respeito da formação da Terra. No caso, sem dúvida, Kardec, na Gênese, apresenta hipóteses bem mais condizentes com a realidade atual.
E volta-se à indagação inicial: então, como poderia ter surgido a vida na Terra, sem que fosse pela geração espontânea?
A migração pelo espaço cósmico completamente improvável levaria à conclusão de que a vida seria anterior à Terra e muito próxima dela, contudo, até hoje, apesar das novas técnicas, não se pôde constatar tal fato. E tudo indica que esta forma de vida que se apresenta entre nós seja exclusividade do nosso planeta. O que não elimina a possibilidade de existir algum ser em outro astro com formação diversa. Mas esta não seria a fonte migratória da que existe em nosso orbe.
Por outro lado, admitir que o material primitivo que veio a se constituir na formação terráquea já traria a vida latente também nos leva a indagação: de onde teria vindo tal matéria contendo, mesmo que seja, a semente inicial dos aludidos plânctons?
Recaímos no caso anterior: a vida já existiria bem próxima de nós. Mas, onde?
Tem-se que ressaltar que todas essas explicações materialistas só admitem uma única forma de vida: biologicamente oriunda de algum outro sistema que a contivesse e de onde houvesse migrado para a Terra. Talvez aí esteja a grande dificuldade de se encontrar algo satisfatório e justificável.
Todavia, infelizmente, na área biológica, os conceitos continuam arraigadamente materialistas, como se a energia em si pudesse gerar tudo, inclusive o princípio vital dos seres vivos, contrariando, evidentemente o que já se sabe a seu respeito, ou seja, que a energia universal é amorfa e se encontra em expansão. Como tal, incapaz de se alterar por si mesma.
Os novos rumos da Ciência
Se, por um lado, os cientistas não conseguem encontrar uma justificativa para a existência da vida biológica em nosso planeta, já não se pode dizer o mesmo dos físicos, embora estes jamais tenham se excursionado no campo dos organismos conhecidos como seres vivos.
Foi em 1975 que Murray Gell Mann deu início às suas descobertas pesquisando, no acelerador de partículas da Stanford University o que ocorreria com a colisão de elétrons e seu correspondente antimaterial, o pósitron.
Evidentemente, nestes últimos vinte e nove anos, a evolução dos seus estudos foi enorme e hoje, tem-se como mais provável a tese de que, como a energia universal, por si só, seria incapaz de se alterar, e mais, como – já dizia Werner Heisenberg que certas partículas tinham vontade própria – os elementos atômicos se portam de maneira que permitiram a Gell Mann equacionar a possível existência de um agente externo ao Universo com capacidade para estruturá-los e comandá-los (a provável vontade própria), a conclusão óbvia é a de que, até mesmo as sub-partículas só se formariam se tais agentes estruturadores – atualmente conhecidos como frameworkers – de fato, fossem capazes de atuar sobre a dita energia, modulando-a e dando-lhe as formas que seriam as mais elementares partículas atômicas.
Ainda, dentro da mesma hipótese de estudo, agentes estruturadores mais elevados reuniriam estas partículas para formarem o átomo e, assim, sucessivamente, na constituição da molécula e dos corpos, agentes esses elementares e incapazes de dotarem tais corpos de estrutura biológica.
Em que estas pesquisas e descobertas poderiam contribuir para se imaginar a maneira pela qual teria nascido a vida primitiva em nosso planeta?
O princípio da formação universal é único, logo, o que vale para n =1 também vale para n+1 em linguagem matemática, ou seja, o que acontece no micro se repete no macro e assim por diante, portanto, se é válido para a formação da partícula em si também o será para a concepção da forma biológica primitiva.
E, então, Allan Kardec estava certo quando supunha que a geração espontânea biológica como é por ele exposta seria a causa da existência do princípio vital em nosso planeta, independente de qualquer migração biológica de algures que jamais foi detectada.
Por analogia aos estudos da partícula, imaginemos que, de fato, nas águas do planeta fossem encontradas cadeias carbônicas as mais diversas, provocadas pela queima mineral a altas temperaturas em que esteve sujeito nosso planeta durante sua formação.
E que, sobre estas cadeias, agentes biológicos primitivos, externos ao Universo, pudessem atuar para dar-lhes estrutura, não mais mineral, porém, com vida vegetativa. Evidentemente, em vez de estruturarem uma partícula atômica, gerariam uma célula orgânica. O princípio é o mesmo. A origem destes agentes também procede do mesmo domínio ao qual pertencem os frameworkers, e que, como tal, externo ao Universo, para que possa atuar em nosso sistema.
Claro e evidente que os estruturadores teriam que ser compatíveis com as formas estruturadas, daí imaginar-se que o domínio de sua existência possa ser o mesmo. E que nele existam todas as formas capazes de se materializarem no Universo, o que explicaria, até, o fenômeno observado em torno da Alfa Centauro, em outras proporções.
Não seria uma geração espontânea do nada, embora os cientistas já tenham conseguido detectar a existência desse nada (peso sem massa), mas a partir de um estruturador que, por pertencer a outro domínio interligado com o Universo e do qual possam agir sobre este, porém, espontânea no sentido de não ter tido anteriormente nenhuma outra causa biológica plausível para sua formação ligada ao sistema puramente material.
E Kardec estaria absolutamente certo.
Todavia, o grande problema é que os biólogos insistem em querer encontrar na matéria pura a causa de tudo, mesmo depois que ficou provado que, sendo efeito da condensação de energia, esta matéria jamais poderá ser causa de nada.
Resta, agora, provar que o domínio de existência dos agentes estruturadores é a própria espiritualidade e teremos chegado à conclusão final de que sua existência explicaria até a própria Gênese universal.
8. Quantas enzimas o acaso colocaria dentro de uma célula?
A vida é um fenômeno tão complexo que os especialistas ainda não conseguiram chegar a um consenso para defini-la. E é exatamente esta complexidade que nos permite rejeitar a tentativa de explicá-la mediante o acaso. E a esta tarefa se tem dedicado grupos de pesquisadores a partir dos extraordinários avanços da biologia molecular que lhes tem permitido devassar a intimidade da célula, demonstrando a incapacidade das teorias do acaso explicarem o fenômeno vida.
Nesse sentido, encontramos o livro Deus e a Ciência, escrito pelo filósofo Jean Guitton e dois doutores em Física teórica, Igor e Grichka Bogdonov.
Tomemos um caso concreto relatado por Grichka Bogdonov.24
Uma célula viva é composta de uns vinte aminoácidos que formam uma cadeia compacta.; esses aminoácidos, para funcionarem, dependem de cerca de duas mil enzimas específicas. Biólogos e matemáticos calcularam a probabilidade de que mil enzimas diferentes, portanto a metade do necessário, pudessem juntar-se ao acaso, de modo ordenado, para formar uma célula viva ao longo de uma evolução de bilhões de anos: a probabilidade de que isto viesse a acontecer é da ordem de 10 elevado a 1.000 contra um. Uma impossibilidade estatística: a vida, portanto, não pode ter surgido por acaso.
Daí concluir Igor Bogdanov25 que a aventura da vida desde as formas primárias até as mais elevadas conduzem à admissão de um princípio organizador que as conduzisse através de uma escada ascendente. Há, portanto, "um fenômeno de ordem subjacente" que conduz inelutavelmente ao surgimento da vida. O Grande Planejador de Behe é a Sublime Consciência do Universo ¬ Deus ¬, que estaria por trás dessa ordem subjacente. Ele seria o Supremo despenseiro da Vida.
Isso nos leva a concluir que a vida é, sim, um bem outorgado, indisponível, inalienável, que transcende os limites estreitos da matéria.
9. Por que ordem a partir da desordem?
Desde os filósofos gregos, tomamos conhecimento do movimento perpétuo dos átomos, mas só no século dezenove ele foi confirmado, sendo também chamado de agitação térmica, apresentando-se, de modo geral, completamente desordenado. Eles movem-se, vibram, rodopiam, colidem, naturalmente, sem que necessitem de nenhuma força motriz para isso. Nos organismos vivos, porém, os átomos abandonam esse movimento caótico natural, e passam a ter um comportamento ordenado. Não deixa de ser impressionante, como observou E. Schrödinger26, a capacidade do organismo vivo de concentrar um "fluxo de ordem" para si mesmo e escapar, dessa forma, de decaimento no caos atômico ¬ de "absorver ordem" de um ambiente conveniente.
Ao contrário, portanto, do que ocorre com a matéria inanimada, o Universo do vivente é caracterizado por um grau de ordem crescente: enquanto o Universo físico caminha em direção a uma entropia cada vez mais elevada, o vivente percorre, de certo modo, a corrente contrária, para criar cada vez mais ordem.
Por que razão o ser vivo surge, assim, como uma estrutura ordenada no seio do caos?
Segundo a visão reducionista, a explicação estaria na constituição da molécula orgânica que possui um número muito grande de átomos; com a cooperação entre eles, as leis estatísticas começam a operar e a manter um controle sobre o comportamento desses conjuntos, passando o movimento a ser ordenado. É o que acontece com toda a expressão de vida até hoje conhecida na Terra, que se baseia em uma ou duas centenas de unidades ¬ as chamadas "moléculas da vida" ¬ os aminoácidos e os nucleotídeos ¬ , que contêm entre 10 e 100 átomos. Sem dúvida, a constituição da molécula orgânica é importante, mas, por si só, não explica a complexidade da vida, razão pela qual a célula é "lixiviada". E mais ainda, o organismo vivo tem um modo específico de organização, nele, o ser e o fazer são inseparáveis.
Com a impossibilidade de se explicar a vida através do paradigma cartesiano ¬ que reduz o funcionamento de um sistema complexo como o do ser vivo às propriedades de suas partes ¬ especialistas introduziram na biologia, nas primeiras décadas do século XX, o pensamento sistêmico. Para estes, os organismos seriam descritos por seus elementos químicos, mais relações organizadoras. Desse modo, os seus componentes estariam relacionados à maneira de rede; tudo o que acontece num ponto dela influenciaria o conjunto. Surgiu assim, em contraposição ao reducionismo, a teoria da auto-organização, fundamentada, principalmente, nas idéias de Maturana e Varela, Gregory Bateson e Prigogine, associadas às da matemática da complexidade, de Kaufmann.27
Embora tenha trazido esclarecimentos importantes, esta teoria não oferece, todavia, nenhuma pista aceitável quanto à transição do inanimado para o animado.
Uma outra teoria bem antiga é a do vitalismo, que preconiza a presença de uma estrutura imaterial no ser vivo, responsável por sua estrutura ordenada no seio do caos e pelo armazenamento de todas as suas experiências. Embora a maioria dos pesquisadores a rejeite, para os que a aceitam, chamados atualmente de neovitalistas, ela permanece como única explicação plausível.
10. Por que a vida obedece a convenções?
Além de gerar ordem, o ser vivo obedece a convenções inexplicáveis que denunciam um princípio diretor que não o acaso. Na intimidade dos átomos, os elétrons promovem ligações entre eles ¬ ligações covalentes ¬, possibilitando, assim, a construção de moléculas mais duráveis. Além desta convenção, há uma considerada universal: a dos aminoácidos "esquerdos", isto é, que possuem quiralidade esquerda, e a dos açúcares "direitos" , de quiralidade direita.
Entende-se por quiralidade a propriedade geométrica que caracteriza a não identidade de um objeto em relação à sua imagem no espelho. A mão direita e a esquerda são exemplos de objetos quirais, antípodas um do outro (imagens um do outro no espelho). A respeito desse arranjo, Cairns-Smith indaga: "O fato de esta simples convenção ser universal constitui uma das características mais singulares da unidade da bioquímica. Qual terá sido a origem deste acordo?"28
Abdus Salam, notável físico que, juntamente com Steven Weinberg e Sheldon Glashow, obteve o Prêmio Nobel de Física em 1979, pelo trabalho sobre a unificação da força eletromagnética com a nuclear fraca (força eletrofraca) acredita que a resposta esteja na Sabedoria de Deus, que criou a força organizativa da vida. Suas pesquisas demonstraram "que os aminoácidos de quiralidade esquerda e os açúcares de quiralidade direita são muito mais estáveis que as moléculas de quiralidades opostas", sendo essa a razão pela qual a natureza escolheu unicamente esse tipo de arranjo vital.29 Salam acredita que a força eletrofraca é de origem divina, e que Deus criou a partícula Zo para fornecer quiralidade às "moléculas da vida".
O físico Grichka Bogdonov comenta a respeito dessas forças e afirma que o acaso não pode explicá-las. "Por exemplo, existe na química um princípio hoje conhecido pelo nome de "estabilização topológica de cargas". Essa "lei" implica que as moléculas que comportam, em sua estrutura, cadeias de átomos em alternância (especialmente o carbono, o nitrogênio e o oxigênio) formam, ao se reunir, sistemas estáveis. De que sistemas se trata? Estes elementos nada mais são do que as peças fundamentais que compõem a mecânica do vivente: os aminoácidos. Sempre segundo a mesma lei de afinidade atômica, eles vão reunir-se, por sua vez, para formar as primeiras cadeias desses preciosos materiais de vida que são os peptídeos".30
E há ainda mais convenções e mais incógnitas: como os genes aprenderam a se recopiar? Como se dá a ligação gene-proteína? Enfim, é preciso que se explique como se dá o perfeito entrosamento entre o hardware e software, a razão da escolha exata do alfabeto de aminoácidos e do conjunto de correspondências entre as letras de aminoácidos e as palavras de ácido nucleico ¬ o código genético.
Para isso, é preciso relembrar uma outra "lei" inscrita na matéria que permitiu o prodígio da reprodução. Vejamos como a explica o físico Igor Bogdanov: "os aminoácidos mais polares (isto é, os que comportam uma carga eletrostática elevada) são espontaneamente atraídos por moléculas nitrogenadas, enquanto os menos polares agregam-se antes a outras famílias, como a da citosina. Assim nasceu o primeiro esboço do código genético: ao se aproximar de certos nucleotídeos (e não de alguns outros), nossos famosos aminoácidos elaboraram lentamente os planos de sua própria construção, depois os instrumentos e materiais destinados a fabricá-los".31
Estas operações poderiam ser produzidas pelo acaso? Um acaso mais inteligente do que a inteligência humana? Como um jogo de loteria poderia explicar a vida e a própria inteligência do homem? A palavra mistério com que muitos investigadores procuram esconder a própria ignorância sobre a origem da vida não resolve o problema. É um modo apenas de escamotear a verdade: o acaso não pode explicá-la.
Nos elementos infinitesimais que compõem a célula, nas chamadas nanoferramentas, há ordem a partir da desordem, entrosamento perfeito de informações incrivelmente complexas e produtividade total, incomparavelmente superior à mais organizada das fábricas terrenas. Esta constatação levou Paul Davies a escrever: "O milagre da vida não é que ela seja feita de nanoferramentas, mas que essas diversas partes minúsculas estejam integradas de um modo altamente organizado".32
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O inventário minucioso do fenômeno vida levou-nos invariavelmente à mesma conclusão: A vida é uma concessão, um bem outorgado, do qual não se pode dispor.
O fato é que o ser humano nem de longe, nem de perto, "fabricou" moléculas da vida. Nunca conseguiu, nos tubos de ensaio, utilizando as condições prebióticas, a síntese de ribossomos, proteínas, nucleotídeos, enfim, de substâncias químicas básicas que entram na fórmula do ser vivo. Isto só vem reforçar a certeza da existência de uma Inteligência Superior na base do planejamento da vida, que não consegue ser entendida ainda dados os parcos recursos da inteligência humana.
Diante de um organismo vivo, a questão básica é esta: Quem tem o direito de eliminá-lo? O médico? A mãe? O pai? O Estado? Do ponto de vista ético, quem deve decidir se um ser vive ou morre?
Fernando de Magalhães, ilustre jurista de nosso país, responde, com convicção, "o embrião é um sujeito de Direito e pelo Código Civil todo sujeito de Direito é uma pessoa, é um indivíduo, é alguém. E pelo Código Penal, matar alguém é crime".33
Este é o ponto de vista da Ciência também.
O embrião, portanto, não pertence à mãe, ao pai, ao juiz, à equipe médica, ao Estado. Pertence, exclusivamente, a ele mesmo, porque a vida lhe foi outorgada, é um patrimônio intrínseco, inerente à sua condição de organismo humano vivo. Mesmo no caso do feto anencéfalo, é crime, porque o fenômeno vida não é da alçada humana, a não ser para salvá-la ; para eliminá-la, jamais.
Aprendemos, com a genética, que a diversidade é a nossa maior riqueza coletiva. E o feto anômalo, mesmo o portador de grave deficiência, como é o caso do anencéfalo, faz parte dessa diversidade. Deve ser, portanto, respeitado. Reconhecemos que a mulher, ao gerar um feto deficiente, pode precisar de ajuda psicológica. Mas uma mulher que abortar intencionalmente encontrar-se-á em situação muito pior, carregando o complexo de culpa a carecer ainda mais de ajuda psicológica. Isto é algo que os defensores do aborto nunca comentam, mas é comum e traz muito sofrimento. Trata-se da depressão que surge, geralmente, à época da menopausa, tendo como causa o complexo de culpa por aborto praticado. Hanna Wolff, analista junguiana, entre outros psicoterapeutas, constatou, ao longo de sua experiência como terapeuta, essa ligação muito próxima entre aborto e depressão: "É precisamente a facilidade com que, hoje, é possível abortar, a causa das depressões de tantas mulheres na idade da menopausa. Aquelas que antes eram as primeiras a defender o direito de 'gerir o próprio corpo', vemo-las, depois, prostradas em sua própria infelicidade. A psique não conseguiu superar a barbárie do aborto. É que, sobre isso, os nossos legisladores nada entendem, e muito menos os tais 'especializados' a que estes mesmos legisladores recorrem para resolver o assunto".34
Não se pode deixar de aplaudir o extraordinário esforço desenvolvido pelas clínicas de Medicina Fetal que realizam, rotineiramente, graças aos avanços da tecnologia, intervenções cirúrgicas intra-uterinas, com vistas à cura de doenças que poderiam se agravar ou tornarem-se irreversíveis, após o parto. Já não podemos concordar quando elas aconselham às mães o abortamento no caso de anomalias fetais.
Constatamos, com pesar, que setores do Governo, do Judiciário, e da sociedade têm incentivado, de forma contundente, a legalização do aborto em nosso país. Esperamos que esta triste hipótese não venha a se concretizar, contudo, é impossível deixar de imaginar como seria a aplicação da prática abortiva às camadas mais pobres de nossa população, tendo em vista a insuficiência de leitos até mesmo para as nossas gestantes. Diante dessa situação, não seriam as clínicas particulares as mais interessadas na legalização? E seria razoável em-pregar o dinheiro arrecadado com os impostos para sustentar clínicas comprometidas com a morte e não com a vida, em evidente distorção da verdadeira missão da Medicina? Não seria muito mais lógico empregá-lo em campanhas educativas maciças sobre maternidade e paternidade responsáveis, com a implantação efetiva e permanente de um programa de planejamento familiar?
Esperamos, com toda sinceridade, que o bom-senso e o verdadeiro espírito de fraternidade prevaleçam nas decisões dos legisladores de nosso país, porque é certo que tudo aquilo que um povo coloca na Constituição, como lei máxima a reger-lhe os destinos, isto mesmo recolherá da Justiça Divina ¬ Instância Superior à qual todos nós estamos subordinados.
Por tudo quanto vimos, fica evidente, para nós, que aqueles que se envolvem, qualquer que seja sua profissão, na causa pró-aborto, estão contribuindo, de forma efetiva, para o crescimento da violência no mundo.
- FIM -
Marlene Rossi Severino Nobre, Presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil e da Associação Médico-Espírita Internacional.
BIBLIOGRAFIA
24. Deus e a Ciência, O Mistério do Vivente, p. 49. 25. Deus e a Ciência, cap. O Mistério do Vivente, p. 4. 26. Ver comentário de E. Schrödinger em O Que é Vida, cap. 7, p. 88. 27. Ver F. Capra em A Teia da Vida, cap. 7, p. 136. 28. As Sete Pistas da Origem da Vida, cap. 6. 29. Em Busca da Unificação, p. 54. 30. Deus e a Ciência, O Mistério do Vivente, pp. 50 e 51. 31. Deus e a Ciência, O Mistério do Vivente, p. 52. 32. O Quinto Milagre, Prefácio, p. 19; cap. 4, p. 115 e cap. 1, p. 32. 33. Aborto e Contracepção, Celso Cezar Papaleo. 34. Jesus Psicoterapeuta, p. 111.
3. É o feto inteiramente dependente do organismo materno?
Os defensores do aborto ressaltam a autonomia da mulher, defendendo um pseudodireito de escolher quanto à interrupção da gestação. Para estes o feto não teria personalidade e estaria em total dependência do organismo materno.
Esses argumentos são contestados pela pesquisa científica. Claude Sureau, professor emérito da universidade Paris V, questiona esse pseudodireito soberano, que se pretende conferir à mãe, de decidir sobre a vida do filho em gestação, atribuindo a ela toda "competência" e "autonomia" sem levar em consideração um outro direito primordial, inerente a todo ser humano, o da "indisponibilidade" da vida.8
Estudos científicos demonstram que há uma individualidade embriofetal muito nítida, tanto imunológica quanto psicológica, que pode ser acompanhada, desde muito cedo, por meio da ultra-sonografia. Na realidade, há até mesmo um conflito de interesses materno-fetais, o que prova a personalidade distinta do feto. Por ser um corpo estranho no organismo materno, ele tem de lutar para manter-se vivo, para não ser rejeitado.
Estudo recente realizado pela equipe do prof. Andrew L. Mellor, do Medical College, Georgia, EUA, publicado na conceituada revista Nature (27/8/98), mostrou que há um mecanismo bioquímico de defesa do feto que procura driblar o da mãe. Ele produziria uma enzima, a IDO, que procuraria neutralizar a ação do triptofano, aminoácido responsável pela produção de células de defesa tipo T do organismo materno.
Esta pesquisa coloca em xeque, portanto, o argumento de que a mulher grávida tem o direito de decidir se o embrião deve viver ou morrer, porque este não seria um ser à parte, não teria personalidade própria. Tanto a possui que ele é detentor de um patrimônio genético exclusivo. E, desde o período inicial da gestação, extravasa a sua inteligência através da capacidade de autogerir-se mentalmente; de adaptar-se e adequar-se a situações novas; de selecionar condições e aproveitar experiências, empregando aprendizado e memória. Tem, portanto, inteligência própria.
E podemos afirmar, com base na pesquisa, que é tão distinto da mãe que necessita produzir substâncias apropriadas para poder manter-se vivo, dentro do útero, fugindo do perigo de ser eliminado pelo sistema imunológico da hospedeira. E o mais interessante é que o organismo materno aceita a defesa do hóspede, concordando, tacitamente, com a gestação.
Esta luta do embrião para sobreviver dá-lhe o status de pessoa e demonstra que ele apenas se hospeda no organismo materno. A propalada autonomia da mãe, o seu direito de decidir, não se sustenta, portanto.
Mas há ainda muito mais certezas, quanto à verdadeira natureza do embrião, quando estudamos os novos aportes e derradeiras descobertas da ciência no campo da memória e do psiquismo fetal.
4. O feto possui uma psique própria?
A Dra. Alessandra Piontelli, psicanalista italiana, acompanhou durante vários meses, onze (11) fetos: quatro (4) gestações gemelares e três (3) singulares, a partir da 16 semana de gravidez. Dentre as gestações gemelares, observou, através do ultra-som, 5 a 6 vezes ao mês, um caso de gêmeos dizigóticos ou bivitelinos (formados por dois ovos distintos), uma menininha e um menininho. Seguindo-os por vários meses, familiarizou-se tanto com o "jeitão" deles que foi capaz de descrever para a mãe qual seria o comportamento de ambos após o parto. Ao ultra-som, observou que a menina era expansiva, buscava o contato com o irmão, mas este se retraía e enfiava a cabeça na placenta ou tapava o rosto com as mãos, fugindo dela. Com base nisso, a Dra. Piontelli previu que a menina seria agitada, nervosinha, ao passo que o irmãozinho seria de temperamento retraído e acanhado. Para espanto da mãe, após o nascimento, tudo se confirmou: realmente ele era do tipo quieto e a menina fazia o gênero nervosinha, irrequieta.9
Com suas observações, a psicanalista aclarou muitos aspectos da personalidade dos fetos observados durante sua pesquisa, antes mesmo do nascimento. Via-os chupando o dedinho, espreguiçando-se, esfregando os pezinhos e as mãozinhas, coçando-se, enfim, aproveitando a liberdade de movimentos dentro do líquido amniótico. Cada feto apresentava um comportamento muito próprio, tinha o seu "jeito" de ser. A Dra. Piontelli assinalava o traço marcante de cada um, se era calmo, nervosinho, pensativo ou se trazia, por exemplo, a característica de uma bailarina. Ela os acompanhou não apenas durante o período pré-natal, mas também no decorrer do primeiro ano de vida e muitos até completar cinco anos. E pôde constatar que o padrão de comportamento se confirmava, em todos os casos, no decorrer do desenvolvimento.
Verificou-se que, cada feto, assim como cada recém-nascido, é um ser altamente individualizado. Não é de modo algum uma tabula rasa, como se poderia supor , esperando ser moldado, exclusivamente, pelo meio ambiente. Tem vida emocional própria: experimenta prazer e desprazer, dor, tristeza, angústia ou bem-estar e tem um relacionamento intenso com sua mãe, sendo capaz de captar seus estados emocionais e sentir quais os sentimentos de afetividade dela em relação a ele.
Outra experiência interessante a demonstrar a existência da individualidade própria do feto foi realizada em 1982, por Anthony DeCasper, pesquisador norte-americano: ele instruiu um grupo de mulheres grávidas para que lessem, em voz alta, cinco semanas antes do parto, determinada estória infantil. Três dias após o nascimento, duas estorinhas foram lidas para os bebês: a que eles já conheciam, desde o final da gestação e uma outra desconhecida. As reações foram medidas, através do número de sucções do bebê. Verificou-se que eles sugavam, com mais freqüência, quando ouviam a estorinha conhecida.
Os problemas psicológicos ocorridos na fase pré-natal afetam a vida ultra-uterina. A Dra. Myriam Szejer, psicanalista de bebês, tem importante casuística de suas "conversas" com recém-nascidos, que demonstram o valor terapêutico delas no alívio e na solução desses conflitos. Um dos casos, relatado no seu livro Palavras para Nascer, é particularmente doloroso.10 Numa gravidez gemelar, havia uma malformação muito grave em uma das gêmeas. Segundo prognósticos médicos, ela poderia nascer, mas teria um curto período de sobrevivência. Como na França, onde a Dra. Szejer vive, o aborto é legal, os médicos aconselharam aos pais a interrupção in utero da vida do feto. Uma vez aceita a sugestão, a interrupção foi feita, tardiamente, tendo o feto morto permanecido no útero até o nascimento da irmã, o que se deu, por cesariana, 15 dias depois. Mas tal como previra a Dra. Szejer, a gêmea sobrevivente, de nome Léa, teve sérios problemas, logo após o nascimento: não se alimentava e quando era amamentada à força, regurgitava sem parar, colocando em sério risco a sua vida. Os problemas eram óbvios para a psicanalista: Lea tinha atrás de si vários meses de companheirismo com a irmã gêmea, e esta, de repente, ficara inerte, desaparecendo depois, completamente, do seu contato. Foi preciso um trabalho muito intenso da Dra. Szejer, muitas "conversas" com Lea, até que a recém-nascida conseguisse se recuperar do luto da irmã, aprendendo a mamar sozinha, e em grande quantidade, para finalmente ganhar peso e alta hospitalar duas semanas depois.
Um caso interessante também para demonstrar também o psiquismo independente do feto é o narrado por Thomas Verny e John Kelly no livro A Vida secreta da criança, que influenciou especialistas em muitos países, inclusive no Brasil.
Verny ressalta a influência da mãe sobre o filho em gestação e diz que é preciso estar atento às diferenças. Há emoções negativas passageiras ou acontecimentos geradores de estresse que não vão prejudicar a formação dos elos intra-uterinos da dupla. Mas há outras fortes, no campo da rejeição. "O perigo existe, quando ele (o feto) se sente rejeitado pela mãe ou quando suas necessidades físicas ou psicológicas são sistematicamente ignoradas", enfatiza ele.11
Verny conta o caso do bebê Kristina que lhe foi relatado pelo Dr. Peter F. Freybergh, professor de obstetrícia e ginecologia da Universidade de Upsala, na Suécia.
Kristina era um bebê robusto e comportado que revelou um estranho comportamento: recusava-se a mamar no seio da mãe. Aceitava mamadeira ou o seio de outras mães, mas não queria nada com o alimento materno.
O Dr. Peter, indagando da mãe a razão de tal comportamento, recebeu um "não sei" como resposta. Ela dizia não saber o motivo. Quando, porém, Dr. Peter foi mais incisivo na pergunta : "Mas você desejava realmente esta gravidez?" Ela esclareceu: "eu queria abortar, mas meu marido desejava esta criança, então, mantive-a".
"Isto era novidade para Peter, mas obviamente não o era para Kristina", comenta o Dr. Verny. E acentua:
"Ela havia percebido há muito tempo a rejeição de sua mãe e recusava-se a formar a ligação com esta, após o nascimento. Afetivamente rejeitada no útero, Kristina, com apenas quatro dias de vida e inteiramente dependente, estava firmemente decidida a rejeitar sua mãe." E concluiu:
"É provável que, com tempo, amor e paciência, a mãe de Kristina ganhe, de novo, a afeição da criança. Mas esta já existiria se a ligação tivesse sido formada antes do nascimento", concluiu.12
Como e quando Kristina "soube" da rejeição? Os pesquisadores não têm ainda todas as respostas. Sabe-se, no entanto, que, desde o zigoto, existe a comunicação fisiológica ou biológica intensa, entre os dois seres, intermediada por hormônios, neurotransmissores, substâncias do sistema de defesa etc.; tudo devidamente registrado pela extraordinária capacidade de memorização do embrião, desde a formação da célula-ovo.
Por esses e outros dados, a Dra. Joanna Wilheim afirmou, com justa razão:13 "Se conceituarmos inteligência como a capacidade para autogerir-se mentalmente; adaptar-se e adequar-se a situações novas; selecionar condições e aproveitar experiências o que implica aprendizado e memória , podemos concluir que de fato elas estão presentes no feto desde o período inicial da gestação".
Por tudo isso, concluímos que existe uma individualidade no feto que não pode ser marginalizada como se fosse a massa amorfa de um tumor que se pudesse extrair por decisão da mulher.
5. O feto teria memória antes da formação do cérebro?
Em meados da década de 1980, a neurocientista Candace Pert14 e colaboradores, no National Institute of Mental Health, em Maryland, realizaram pesquisas com neurocondutores e os resultados causaram verdadeira revolução conceitual. A Dra. Pert identificou um grupo de neuropeptídeos moléculas fabricadas pelo Sistema Nervoso , que permitem o diálogo entre os sistemas nervoso, imunológico e endócrino. Ela chegou a esses resultados, realizando o mapeamento através de moléculas radioativas, o que lhe permitiu rastrear as ações nas diferentes partes do organismo.
O sistema nervoso, constituído do encéfalo e da rede de células nervosas espalhadas por todo o corpo, é a sede da memória, do pensamento e da emoção. O sistema endócrino, formado pelas glândulas endócrinas e os hormônios, é o regulador do organismo, integrando as várias funções somáticas. O sistema imunológico, que abarca o baço, a medula óssea, os nódulos linfáticos e células imunológicas que circulam no corpo, é o sistema de defesa do organismo, responsável pela integridade dos tecidos, controle e cura das feridas, restauração dos tecidos e combate aos ataques à economia orgânica. Pois bem, as pesquisas da Dra. Pert demonstraram que estes sistemas estão interligados, formando uma única rede psicossomática. Constatou-se que cerca de 60 a 70 desses neuropeptídeos, antes somente conhecidos como hormônios, neurotransmissores, endorfinas, fatores de crescimento, etc., constituem o principal meio de veiculação de informações dentro do cérebro e do corpo, contando para isso com receptores específicos. Estes estão espalhados na superfície de todas as células, transformando o corpo-cérebro em um único sistema de comunicação interacional.
É preciso enfatizar, portanto, que o corpo-cérebro representa o substrato físico da memória ou mente que, além deste, conta ainda com um outro, imaterial, a informação que circula dentro dele. A memória, assim, está espalhada pelo corpo todo e expressa-se por outras vias que não aquelas comumente relacionadas.
A partir desses estudos, é possível compreender que, além dos vários tipos de memória comumente considerados: recente, antiga, semântica, autobiográfica, afetiva, perceptiva, motora, de reconhecimento, de recordação etc., há os registros embrionários, inclusive a "memória celular". Neste último caso, é preciso considerar os registros mnemônicos (imprints) das experiências vividas pelas duas células reprodutoras básicas espermatozóide e óvulo que trazem, assim, um patrimônio de "memórias" para o zigoto ou célula-ovo. A descoberta da memória celular com o mapeamento de 60 neuropeptídeos que estocam informações imunológicas, endocrinológicas e neurológicas, fazendo circular informação em todo o corpo, entusiasma os especialistas, que têm agora , não só importantes explicações para melhor compreensão das patologias de sua área de atuação, como também perspectivas maiores de ampliar os recursos terapêuticos.
Esses resultados indicam, claramente, a potencialidade extraordinária de uma única célula o zigoto ou célula-ovo , que traz em si mesma um patrimônio considerável de força, vitalidade e criatividade.
Por essas experiências da Dra. Candace Pert, constatamos que a memória independe de sistema nervoso perfeitamente estruturado e funcionante, porque já existem dezenas de neuropeptídeos circulando, desde o início da embriogênese. Por exemplo, em um embrião de 7 semanas, já se detecta a presença de endorfinas, uma dessas substâncias que faz o diálogo entre os sistemas nervoso, endocrinológico e imunológico. Mesmo no anencéfalo, feto que possui somente parte do córtex ou apenas o diencéfalo, cérebro ligado à função inconsciente, vegetativa, estes neuropeptídeos já circulam, desde o começo da gestação, ainda que de forma imperfeita.
Ainda com relação à memória há um outro contexto da investigação. A psicoterapia transpessoal já detectou o armazenamento, na fase adulta, de lembranças que ocorreram muito no início da vida intra-uterina e que, sob hipnose, o indivíduo é capaz de resgatar. Muitos bebês rejeitam suas mães ao nascerem por guardarem lembranças desagradáveis da vida intra-uterina, como o pensamento de rejeição ou a tentativa de aborto, conforme tivemos oportunidade de ver no caso do bebê Kristina.
Para concluir este resumo sobre a memória, queremos lembrar um dos grandes paradoxos da Biologia Molecular, que ainda está para ser decifrado pelos neurobiólogos, o da renovação perpétua das moléculas do sistema nervoso, em contraposição ao armazenamento da memória por 80 anos ou mais da vida do indivíduo. Com a breve duração das moléculas que compõem as sinapses do sistema nervoso, fica difícil explicar, com a teoria reducionista materialista, a persistência da memória por décadas a fio.
O mesmo já não acontece se recorrermos às hipóteses explicativas de Rupert Sheldrake e Hernani Guimarães Andrade, uma vez que a memória ficaria armazenada no campo imaterial estruturador da forma, independentemente, da matéria física, cuja característica é a da renovação constante.
6. O acaso explicaria a origem da vida?
A partir deste ponto, o debate sobre o aborto provocado nos leva a um nível ainda mais profundo. Pois o mistério da complexidade do feto é o mistério da própria vida, de modo que temos de nos debruçar sobre esse tema fascinante se quisermos responder por completo à pergunta: "Onde começa a vida?"
Não há dúvida de que o assunto "origem da vida" é bastante complexo, mas é indispensável tocar nele, quando se pretende descobrir o real significado da existência humana. Não será possível desenvolvê-lo mais amplamente, aqui, como o fizemos em O Clamor da Vida (NOBRE, 2000), apenas tocaremos em alguns pontos relevantes para o encaminhamento da discussão.
A teoria darwiniana não pode explicar suficientemente todo o processo evolutivo, isto é, o surgimento da vida. A teoria do acaso tem sido a maneira fácil de retratar a ignorância sobre o assunto. Em O Acaso e a Necessidade, um dos seus defensores Jacques Monod, sustenta a idéia: ensaios, erros e acertos teriam levado as primeiras moléculas ao pleno desenvolvimento; a evolução poderia ser compreendida como um jogo: de um lado, haveria a intervenção das mutações no material genético dos seres vivos; de outro, a seleção natural, tal como a concebeu Darwin.
No entanto, François Jacob,15 que compartilhou o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1965, com Monod, destrói o argumento da casualidade. Em La Logique du Vivant (A Lógica do Ser Vivo), ele demonstra que o tempo e a aritmética se opõem a essa evolução patrocinada por microeventos, com as mutações acontecendo cada uma ao acaso: para se extrair de uma roleta, golpe a golpe, cada uma das 100 mil cadeias protéicas que compõem o corpo de um mamífero seria preciso um tempo muito superior àquele da duração do sistema solar, segundo os cálculos da própria ciência, o que, por si só, elimina a tese de que a vida possa ter surgido por acaso.
Outro cientista que demonstra a impossibilidade de ater-se ao acaso para explicar a transformação de átomos em corpos humanos é Michael Behe, professor-adjunto de bioquímica da Universidade de Lehigh, Pensilvânia, EUA, autor do instigante livro, A Caixa Preta de Darwin, que faz críticas à teoria darwiniana, e apresenta a sua própria, a Teoria do Planejamento Inteligente.
"Dizer que a evolução darwiniana não pode explicar tudo na natureza, não equivale a dizer que a evolução, a mutação e a seleção natural não ocorram", ressalta ele, reconhecendo que ela constituiu um grande avanço conceitual.16
Coloca-a, no entanto, em xeque, demonstrando, ao estudar a macroevolução, a impossibilidade de explicar-se, através da seleção natural e das mutações aleatórias, os grandes saltos evolutivos, como, por exemplo, o que ocorreu no período cambriano, com o aparecimento de uma fauna e flora luxuriantes, em contraste com o longo silêncio dos períodos anteriores. Na verdade, esses longos períodos estáveis são a norma, de modo que as súbitas transições não podem ser explicadas pelas mutações aleatórias da teoria darwinista.
A tentativa de Stephen Jay Gould e Niels Eldredge com a teoria do Equilíbrio Pontuado para explicar esses períodos muito breves de grande explosão de novos animais e plantas, em meio a outros, em que milhões de anos transcorrem, sem grandes mudanças, é obrigada a socorrer-se do acaso criador, transformado assim em um deus. Outro embasamento não possui a teoria Neutralista do geneticista Motoo Kimura (The Neutral Theory of Molecular Evolution) ao pretender explicar as flutuações estatísticas aleatórias (ou desvio genético): elas ocorreriam também "ao acaso". Na mesma linha de pensamento, reconhecendo que a teoria darwiniana tem falhas, o matemático Stuart Kauffman (Teoria da Complexidade) socorre-se da hipótese do acaso, ao afirmar que os fundamentos do ser vivo podem surgir espontaneamente através da auto-organização, uma maneira de eludir a dificuldade.17
Michael Behe comenta que nenhum dos dois, nem Kimura nem Kauffman, explicam como as estruturas bioquímicas específicas surgiram. No caso da teoria de Kauffman, ficam de fora todos os aspectos específicos dos organismos, porque ele os reduz à categoria de símbolos matemáticos, manipulando-os em seguida. Mas "a natureza é lixiviada", acentua Behe. De fato, a matemática é instrumento poderoso, mas "útil à ciência apenas quando os pressupostos com que inicia a análise são verdadeiros".18 A teoria de Kauffman seria, assim, uma ilusão, insuficiente como as explicações de Darwin e de Dawkins acerca dos sistemas bioquímicos complexos.
7. Seria casual o arranjo das partes de uma célula?
Aos que continuam ainda aferrados às forças cegas do acaso, Michael Behe pede explicações científicas quanto à formação de estruturas complexas, tais como o olho humano, o cílio ou flagelo; a coagulação sangüínea etc. É preciso que os defensores dessas forças dêem uma descrição detalhada, passo a passo, do processo pelo qual a mutação aleatória e a seleção natural foram capazes de construí-las ao longo de bilhões de anos de evolução. Não vale apenas dizer que isto se deu por acaso, é preciso que se demonstre, através de explicações bioquímicas genuínas quais foram e como se uniram os componentes dessas estruturas.
Até agora, o seu pedido não obteve nenhuma resposta plausível.
Ao contrário dos apologistas do acaso, Behe concluiu, tomando por base o espantoso progresso das pesquisas, que a célula obedece a uma programação e afirma, corajosamente, que os cientistas não têm mais como se omitir: o ser vivo só pode ser explicado pela Teoria do Planejamento Inteligente. Do estudo bioquímico da célula, diz ele, vem um grito de certeza: "Planejamento!", nela existe o "arranjo intencional das partes".19
Enfim, não há como fugir: a investigação da célula deixa claro o planejamento. A questão volta-se toda para o planejador. Muitos acham que "não constitui boa ciência oferecer o sobrenatural como explicação de um evento natural". Em realidade, a interferência do acaso, como força criadora e organizadora, seria mais sobrenatural do que agente inteligente desta ordem.
Behe não vê razão para o temor de que as explicações sobrenaturais derrotem a ciência: "O compromisso filosófico de alguns indivíduos com o princípio de que nada existe além da natureza não deve ter permissão de interferir em uma teoria que flui naturalmente de dados científicos observáveis".20 Respeitemos as conquistas da ciência aconselha , porque sobreviveremos a todas as suas mudanças conceituais tal como já o fizemos no passado.
Outros pesquisadores também já estão convencidos de que as explicações com fundamento na casualidade são absolutamente insatisfatórias.
M. Schutzenberg afirma que é preciso "ter uma fé quase cega na teoria darwiniana para acreditar que apenas o acaso poderia ter produzido na linhagem dos pássaros todas as modificações necessárias para transformá-los em máquinas voadoras altamente eficientes. Ou que as mutações aleatórias teriam levado à linhagem de mamíferos depois da extinção dos dinossauros dado que os mamíferos estão muito longe dos dinossauros ao longo do caminho que conduz dos peixes aos répteis".21
Lynn Margulis, professora emérita de biologia da Universidade de Massachusetts, ecologista, escritora, afirma que o neodarwinismo é fundamentalmente falho, porque está baseado no paradigma reducionista, e acentua que a história acabará por julgá-lo uma "pequena seita religiosa do século XX, dentro da fé religiosa da biologia anglo-saxônica".22 Margulis tem também uma hipótese explicativa para a evolução: em lugar da competição e da luta, propostas por Darwin, o progresso na escala filogenética dar-se-ia, através de cooperação e simbiose. Nesse caso, os organismos se ajudam, conjugam forças, e realizam juntos o que não podem fazer separados.
O que temos visto é que o ser vivo é um mistério para os cientistas, embora eles não gostem de confessá-lo publicamente. De onde vem esse desânimo? O que há de verdade sobre as origens? Sabe-se muito pouco, apesar dos esforços exaustivos de cientistas notáveis, a maioria deles justamente condecorados com o Prêmio Nobel, pela excelência de suas produções, em suas áreas de especialização.
Francis Crick, um dos descobridores da dupla hélice de DNA, morto recentemente, diante do mistério das origens, declarou: "Um homem sensato, armado de todo o saber à nossa disposição hoje, teria a obrigação de afirmar que a origem da vida parece atualmente dever-se a um milagre, tantas são as condições a reunir para viabilizá-la".23
De fato, um estudo desapaixonado revela que a vida dança no fio da navalha: se uma das constantes físicas universais, por exemplo a velocidade da luz, a constante gravitacional ou a de Planck tivesse sido submetida, na origem, a uma alteração ínfima, o Universo não teria tido nenhuma chance de abrigar seres vivos e inteligentes. Este simples fato deveria alertar os defensores das teorias embasadas no acaso quanto à existência de um projeto, de uma finalidade no Universo. Se fossem mais humildes, perceberiam a imensa sabedoria por detrás de tudo isso e o tamanho da nossa ignorância em abarcá-la e reconhecê-la.
Continua...
Marlene Rossi Severino Nobre, Presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil e da Associação Médico-Espírita Internacional.
BIBLIOGRAFIA
8. L'Embryon Humain, est-il humain?, p. 13, 1a ed. Presses Universitaires de France, 1996.
9. Do Feto à Criança, cap. 3, pp. 115 a 133.
10. Veja os importantes livros da Dra. Myriam Szejer, entre eles: Palavras para Nascer: A escuta psicanalítica de bebês em maternidade: nove meses na vida da mulher.
11. A Vida Secreta da Criança Antes de Nascer, cap. 4.
12. A Vida Secreta da Criança Antes de Nascer, cap. 4.
13. O Que é Psicologia Pré-Natal.
14. Veja as referências sobre esse trabalho feitas pela Dra. Joanna Wilheim em O Que É Psicologia Fetal, p. 57 e A Caminho do Nascimento, pp. 152 a 158 e as do físico Fritjof Capra em A Teia da Vida, cap. 11.
15. Entrevista no livro Dieu? Existe-t-il? Non... répondent, p. 20.
16. Acompanhe o raciocínio de Behe em A Caixa Preta de Darwin, Parte III, cap. 8 , p 179.
17. A Caixa Preta de Darwin, Parte III, 8, p. 179.
18. Citado por Michael Behe em A Caixa Preta de Darwin, Parte III, cap. 8, p. 182.
19. Acompanhe o raciocínio de Behe em A Caixa Preta de Darwin, Parte I, pp. 24 a 34; Parte III, cap. 9 e 10.
20. A Caixa Preta de Darwin, cap. 11, p. 253 e 251
21. Citado por Ervin Laszlo em Conexão Cósmica, cap. 7, p. 93.
22. Lynn Margulis é citada por Michael Behe, A Caixa Preta de Darwin, Parte I, cap 2, p. 35 e 190.
23. Citado por Igor Bogdanov, Deus e a Ciência, p. 49.