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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O CÉREBRO TRINO E A NOSSA CASA MENTAL


Irvênia L. S. Prada *


Na recente publicação “Minds behind the Brain (2000), de STANLEY FINGER, encontra-se logo no Prefácio, a expressão “The Organ of Mind”, referente ao cérebro. ANDRÉ LUIZ já emitia esse mesmo conceito em “No Mundo Maior” (1947, cap. 4), ao assinalar: “O cérebro é o órgão sagrado de manifestação da mente, em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana.”
É interessante atinarmos para a segunda parte desse enunciado de ANDRÉ LUIZ, pois também na ciência acadêmica tem-se o conceito de que o cérebro apresenta, do ponto de vista evolutivo, nas diferentes espécies (desenvolvimento filogenético), um “continuum” que se vidência pelo acréscimo de novas estruturas às que já existiam no estágio anterior, resguardadas as características de cada grupo. Portanto, o cérebro dos animais e o do ser humano são constituídos segundo um mesmo modelo.

Para ERNEST HAECKEL (naturalista alemão do séc. XIX), “a ontogênese (do grego ontos =ser) recapitula a filogênese”, pois que ao se constituir um novo ser, durante o seu processo de desenvolvimento (ontogênese), ele passa por fases que por assim dizer “recordam”, “recapitulam” estágios que caracterizam espécies mais primitivas. Assim é que, entre inúmeros exemplos, são encontrados nos embriões de mamíferos, arcos e fendas branquiais, que são estruturas próprias dos peixes. Este mesmo aspecto permeia a organização não apenas do cérebro mas, de todo o sistema nervoso (SN) do ser humano, que reflete hoje a somatória de diferentes estágios que encontramos entre os animais.

Conforme refere CARL SAGAN em seu livro “Os Dragões do Éden” (1977 - cap. III – “O Cérebro e a Carroça”), o principal expoente contemporâneo desse estudo evolutivo do SN humano é PAUL MAC LEAN que aborda em seu trabalho, diferentes espécies animais, desde lagartos até macacos, alem do homem. Este autor postula que, no SN Central humano, a medula espinal e o tronco encefálico representam partes formadas por unidades que se sucedem, enquanto o cérebro e o cerebelo tem formação concêntrica, ou seja, em camadas que se justapõem sobre um núcleo inicial. Observando a estrutura dessas diferentes partes, em diferentes grupos de animais, MAC LEAN estabeleceu o que chamou de “Lei de Maturidade e de Estabilidade Evolutiva”. Assim, considera que a medula espinal (Complexo Segmentar ou “S”) já se apresenta estabilizada desde os peixes, ou seja, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos exibem (apesar das características próprias), o mesmo modelo básico de estruturação da medula espinal.

Quanto ao tronco encefálico (Complexo Reptiliano ou “R”), estabilizou-se apenas a partir dos répteis. Poderíamos pensar que a natureza tentou um modelo nos peixes, depois nos anfíbios mas, foi a partir dos répteis que esse modelo teve aval para continuar, como continuou, a caracterizar o tronco encefálico de aves e de mamíferos, inclusive o homem.

Por sua vez, o cérebro (Complexo de Cerebralização), representado pelos sub-estágios Opto-Estriado (ou Tálamo-Estriado), Sistema Límbico e Córtex Cerebral, encontra-se ainda instável, o que sinaliza a possibilidade de mudanças futuras.

Em “The Triune Brain in Evolution” (1968), MAC LEAN comenta que a medula espinal e o tronco encefálico representam a maior parte da maquinaria requerida para o desempenho das funções de autopreservação e de perpetuação da espécie. Muitos dos vertebrados mais desenvolvidos são providos desse “chassi neural”, guiado não apenas por um “motorista” mas, por uma combinação simultânea de três condutores, cada um deles com idade evolutiva diferente e também com características radicais próprias em estrutura orgânica, metabolismo bioquímico e organização funcional.

A partir de experiências realizadas com macacos, MAC LEAN concebeu interessante modêlo (“Cérebro Trino”) da estruturação evolutiva do cérebro humano. Diz ele: “Somos obrigados a nos olhar e a olhar o mundo através dos olhos de três mentalidades bastante diferentes, duas das quais carecem do poder da fala”. Reconhece assim, no encéfalo (melhor aqui usar-se a expressão encéfalo que cérebro, pois que a formação reptiliana envolve também porção do tronco encefálico), a existência de três formações que se dispõem concentricamente: a reptiliana, a paleomamífera e a neomamífera.

Temos muitas razões para focalizar com interesse, o estágio reptiliano de desenvolvimento do cérebro. Em “Evolução em dois Mundos” (1958), ANDRÉ LUIZ estabelece, no cap. IX (Evolução e Cérebro), que “A massa de células nervosas que precede a formação do cérebro, nos invertebrados, dá lugar à invaginação do ectoderma, nos vertebrados, constituindo-se, lentamente, a vesícula anterior ou prosencéfalo, a vesícula média ou mesencéfalo e a vesícula posterior ou rombencéfalo. Nos peixes, os hemisférios cerebrais mostram-se ainda muito reduzidos, nos anfíbios denotam desenvolvimento encorajador e nos répteis avançam em progresso mais vasto...aprimorando-se, com mais segurança, em semelhante fase, na forma espiritual, o centro coronário do psicossoma futuro, a refletir-se na glândula pineal, já razoavelmente plasmada em alguns lacertídeos (entenda-se lagartos)... é aí que a epífise começa a consolidar-se, por fulcro energético de sensações sutis para a tradução e seleção dos estados mentais diversos, nos mecanismos da reflexão e do pensamento, da meditação e do discernimento...”
Voltando ao relato de MAC LEAN, encontramos a consideração de que a Formação Reptiliana, Complexo “R” ou Cérebro Arcaico continua-se do próprio tronco encefálico (portanto, mantendo o compromisso das funções de auto-preservação e de perpetuação da espécie) e compreende também um conjunto de núcleos de substância cinzenta, localizados na profundidade dos hemisférios cerebrais em répteis, aves e mamíferos. Entende-se que esses núcleos representam o corpo estriado, sobreposto à região talâmica. O tálamo (chamado antigamente de tálamo-óptico, por acolher a inserção dos tratos ópticos) e o corpo estriado compõem conjuntamente um complexo sensitivo - motor (tálamo-estriado ou opto-estriado).

MAC LEAN ainda comenta, em “The Triune Cerebrum in Evolution” , que os resultados de experimentos neuro-comportamentais em répteis e macacos indicam que o Complexo “R” é basicamente implicado na integração dos componentes somático e autonômico envolvidos na expressão de vários comportamentos. Indicam ainda que o Complexo R encontra-se envolvido com fatores cognitivos que lideram a evocação de alguns comportamentos. MAC LEAN acrescenta que, assim sendo, pode-se dizer que o Complexo R tem uma mente própria (“has a mind of its own”).

Conforme ressalta CARL SAGAN, em “Os Dragões do Éden”(1977), o Complexo R desempenha importante papel no comportamento agressivo (pelo envolvimento do núcleo amigdalóide ou amígdala), na demarcação territorial, nas práticas ritualísticas (de acasalamento, por exemplo) e no estabelecimento da hierarquia social.

É surpreendente, continua SAGAN, quanto de nosso comportamento pode ser descrito em termos reptilianos. Falamos comumente em assassinatos a “sangue frio” e o conselho de Maquiavel em “O Príncipe” era o de “assumir a fera”. É impressionante a quantidade de mitos e de lendas, em várias culturas, sobre dragões e serpentes, enfim, sobre répteis (como a figura de São Jorge matando o dragão e a simbologia da “Tentação” de Adão e Eva pela serpente), o que talvez ressalte de maneira alegórica, a importância de atuação do complexo cerebral reptiliano, em nossas vidas.

Quanto à Formação Paleomamífera, na transição evolutiva entre répteis e mamíferos, três comportamentos básicos são desenvolvidos: 1) proteção e cuidados maternais; 2) comunicação audiovocal para manutenção do contato maternal com a prole; 3)comportamento lúdico. Em mamíferos, a origem do comportamento de proteção e cuidados materno/paternais marca o início da evolução da família e consequentes responsabilidades a ela associadas. Por sua vez, o “cuidar” de outro indivíduo, o importar-se com o outro, marca os primórdios dessa atitude de comportamento que, no ser humano chamamos de altruísmo.
São interessantes as implicações do Complexo “R” e da Formação Paleomamífera em questões epistêmicas e epistemológicas, segundo comentários do próprio MAC LEAN, entre as quais destacam-se:


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Nativismo - Em répteis e aves observados (ex.-perús), quando um dos indivíduos é afastado temporariamente do grupo, ao aproximar-se novamente é repelido, como se fosse um “estranho”. Essa talvez seja a resposta atávica, por exemplo, à queixa de muitos veteranos da Guerra do Vietnan de que, ao retornarem para casa, foram recebidos e tratados como indesejáveis estranhos;


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Intolerância a Marcas - Em um caso sugestivo, observou-se que em uma ninhada de patinhos, um deles, apos adquirir uma mancha de sangue no lado direito de sua cabeça, como resultado de algum traumatismo, passou a ser discriminado por sua mãe que persistentemente o afastava dos outros patinhos. Afastado de sua família, foi logo apanhado por um predador. Feita com tinta, marca similar em outro patinho, repetiu-se o mesmo comportamento de rejeição, o que sugere haver uma linguagem de sinais, de marcas. Sabemos que particularmente a cor vermelha, em animais de sangue vermelho, podem sinalizar para a mãe que um filhote ferido ponha em risco toda a ninhada, não apenas pelo seu enfraquecimento, que doente pode representar uma fonte de infecção para os outros, como pelo perigo de predadores, atraídos pelo característico cheiro do sangue. Talvez aí estejam as raízes comportamentais filogenéticas dos nossos preconceitos e razões de intolerância ao que interpretamos como “marcas”, como diferenças de cor, raça, formas étnicas de comportamento, religião e credos políticos. Uma inata propensão à intolerância de marcas talvez possa ajudar-nos a entender o comportamento agressivo até com derramamentos de sangue, que manifestam uns contra os outros, grupos radicais em características religiosas, raciais ou simplesmente culturais;


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Aspectos Educacionais - O grupo dos mamíferos surgiu com a característica social da proteção materna e uma considerável redução do numero de filhotes. Com o aumento do numero de alunos nas classes, resultando em confinamento social, cada criança recebe menos atenção pessoal, o que pode contribuir não apenas para um rebaixamento da qualidade de ensino como para comportamentos geradores de desordem e/ou ociosidade. No cérebro Arcaico temos o “pulso” de que precisamos chamar a atenção de alguém que nos cuide, para sobrevivermos.
A Formação Neomamífera corresponde ao Neocortex, complexo de diferentes funções que se torna progressivamente mais desenvolvido nos mamíferos mais evoluídos.

Segundo WILLIAM H. CALVIN, em “The Emergency of Intelligence” (Scientific American, october/94), o neocortex, intimamente relacionado aos processos de inteligência, apresenta extensão em área, correspondendo a quatro folhas de papel-ofício no homem, a uma dessas folhas no chimpanzé, a um envelope de carta nos pequenos macacos e a um selo de carta, nos ratos. No neocortex distinguem-se vários lobos: frontal,

É maravilhosa a associação que podemos efetuar desses conhecimentos que a Ciência nos traz com conteúdos de obras da Doutrina Espírita. É impressionante a óbvia ligação entre as informações exaradas por MAC LEAN e a estruturação de nossa Casa Mental, referida por ANDRÉ LUIZ em “No Mundo Maior” (1947, cap. 3 - A Casa Mental).

Diz ele, resumidamente: “No Sistema Nervoso, temos o cérebro inicial, repositório dos movimentos instintivos e sede das atividades subconscientes; figuramo-lo por porão da nossa individualidade, onde arquivamos os menores fatos da vida; aí moram hábito e automatismo. Na região do córtex motor, temos o cérebro desenvolvido consubstanciando as energias motoras de que se serve a nossa mente para as manifestações imprescindíveis no atual momento evolutivo do nosso modo de ser; aí localizamos o domínio das conquistas atuais, onde residem esforço e vontade. Nos planos dos lobos frontais, jazem materiais de ordem sublime que conquistaremos gradualmente, no esforço de ascensão, representando a parte mais nobre de nosso organismo divino em evolução; aí demoram o ideal e a meta superior a ser alcançada. Distribuímos, desse modo, nos três andares, o subconsciente, o consciente e o superconsciente. Como vemos, possuímos, em nós mesmos, o passado, o presente e o futuro”.
Portanto, ANDRÉ LUIZ também considera (antecipadamente a MAC LEAN) o encéfalo humano consubstanciado em três partes, cada uma delas interagindo com um dos três andares de nossa casa mental.

Particularmente, ANDRÉ LUIZ coloca em um só bloco, o complexo reptiliano e o sistema límbico (de MAC LEAN), desdobrando a atuação do neocortex em dois níveis: a região do córtex motor e a dos lobos frontais. Para o meu entendimento, a colocação de ANDRÉ LUIZ é, do ponto de vista funcional, mais adequada na interação com os três níveis considerados, para a casa mental. ANDRÉ LUIZ que me perdoe o atrevimento, mas poderíamos considerar no bloco relativo ao córtex motor, também todas as áreas sensitivas. Diríamos, então “córtex sensorio-motor”, à maneira de PIAGET. Não que se transmita a idéia de um córtex que atue simultaneamente em sensibilidade e motricidade. Quase sempre podemos separar áreas corticais sensitivas e áreas motoras. Entenda-se, portanto, que o córtex sensorio-motor compreenderia as áreas do córtex, sensíveis à recepção e processamento de estímulos (de dor, temperatura, tato, pressão, visuais, auditivos, etc.) bem como áreas motoras das quais se destaca, pela importância funcional, a chamada área motora piramidal ou voluntária, pois interage com os comandos de nossa vontade. Ao focalizar diretamente o córtex motor, ANDRÉ LUIZ foi direto ao assunto considerando, no complexo “estímulo - resposta”, o componente final, a resposta, que é efetuada, realmente, pelo córtex motor. Entretanto, como esse contendo é muito técnico, julgo que o fato de considerarmos o passo anterior do processo, isto é, a necessidade da atuação das áreas sensitivas, facilita o nosso entendimento.

Voltando à associação de complexo reptiliano e sistema límbico em um mesmo bloco, isso é coerente porque o sistema límbico vai trabalhar com a expressão de comportamentos acompanhados de emoções (primárias), e esses comportamentos são particularmente ligados a funções básicas, isto é, sexuais e reprodutivas (perpetuação da espécie) e de auto-preservação (marcação de seu território, ataque - defesa, funções alimentares, etc.).

Por sua vez, o lobo frontal, particularmente a porção mais anterior dos lobos frontais possui um neocortex de aquisição filogenética recentíssima! Representa a chamada área pré-frontal do neocortex. Ela é considerada a base funcional das chamadas funções psíquicas superiores, tais como capacidade de julgamento, crítica de situações, estratégias de comportamentos, livre - arbítrio, capacidade de aprendizado e de associação de idéias, ideação futura, planejamento, censura, etc. Enfim, as nossas mais nobres funções mentais são manifestadas fenomenicamente por intermédio da atuação das áreas pré-frontais.

Este neocortex também tem sua historia evolutiva, pois ele já se encontra relativamente desenvolvido em alguns animais, como é o caso dos chimpanzés. Aliás, em relação a isso encontramos interessante comentário de CARL SAGAN em “Os Dragões do Éden”: - “Se os chimpanzés tem consciência, se tem capacidade de abstração, não devem eles ter acesso aquilo que se convencionou chamar até agora de direitos humanos? Que inteligência terão de atingir até que seu assassínio seja considerado crime?”
Temos também no mesmo cap. 3 de “No Mundo Maior”, de ANDRÉ LUIZ:“Não somos criaturas milagrosas, destinadas ao adorno de um paraíso de papelão. Somos filhos de Deus e herdeiros dos séculos, conquistando valores, de experiência em experiência, de milênio a milênio. A crisálida de consciência, que reside no cristal a rolar na corrente do rio, aí se acha em processo liberatório; as árvores que por vezes se aprumam centenas de anos, a suportar os golpes de Inverno e acalentadas pelas carícias da Primavera, estão conquistando a memória; a fêmea do tigre lambendo os filhinhos recém-natos, aprende rudimentos do amor; o símio, guinchando, organiza as faculdades da palavra”.

Assim se estrutura a casa mental, de experiência em experiência, interagindo com a matéria e orientando a organização morfo-funcional do cérebro. Não estaria Jesus se referindo à casa mental, ao discorrer sobre a edificação de nossa casa sobre a rocha ou sobre a areia? Vamos rever a passagem? Está em MATEUS 7: 24-27 “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína”.

A simbologia de “a casa desabar” é registrada na ocorrência dos processos obsessivos graves, principalmente na subjugação, quando a
vontade do obsidiado é dominada pelo espírito obsessor, sendo então rebaixada”. O indivíduo como que se recolhe ao seu porão. Perde a capacidade de comandar sua própria vida.
Refere ANDRÉ LUIZ em “No Mundo Maior”, cap.3 e 4, ao analisar a situação das mentes do obsessor - obsidiado, unidas no processo simbiótico do ódio e da vingança: “Espiritualmente, rolaram do terceiro andar, onde situamos as concepções superiores, e entregando-se ao relaxamento da vontade, deixaram de acolher-se no segundo andar, sede do esforço próprio, perdendo valiosa oportunidade de reerguer-se; caíram, destarte, na esfera dos impulsos instintivos, onde se arquivam todas as experiências da animalidade anterior. E completa: “Outra seria a situação de ambos se houvessem esquecido a queda, reerguendo-se pelo trabalho construtivo e pelo entendimento fraternal, no santuário do perdão legítimo”.

A figura de Nabucodonosor, rei babilônico, relatada em DN 4.30 parece expressar bem a situação do espírito que rolou as escadas de sua casa mental, retomando a vivência de seus estágios primitivos, de sua “animalidade anterior”. “Foi expulso entre os homens e passou a comer erva como os bois, o seu corpo foi molhado pelo orvalho do céu, até que lhe cresceram os cabelos como as penas da águia e as suas unhas como as das aves...” No versículo seguinte, entendemos como Nabucodonosor consegui vencer o processo obsessivo, pois aí lemos: “...levantei eu, Nabucodonosor, os meus olhos ao céu e tornou-me a vir o sentido; e eu bendisse ao Altíssimo e louvei, glorifiquei ao que vive eternamente”.
Para o confrade F.E. MINGHELLI, em “A Reencarnação - out/92 - FERGS, nos processos obsessivos que atingem funções mentais mais elevadas, há uma espécie de “desligamento” dessas atividades superiores. Quem assume o comando do corpo, então, são as áreas mais primárias e instintivas, que fazem o corpo executar automaticamente suas funções, independentemente da vontade, da razão e dos sentimentos, como nos casos de subjugação grave.

Em contra partida, a passagem de Daniel (DN.6.22), lançado à cova dos leões, é significativa: “O meu deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele”.

Daniel, sempre entregue a orações, certamente vivia sintonizado no 3º andar de usa casa mental, tendo consequentemente serenado já, as suas “feras”, entenda-se, os seus impulsos instintivos, primários.

É conveniente nos lembrarmos de que expressões como “estágios animais”, “animalidade” e outras similares, em absoluto não tem o significado de maldade, violência, coisa ruim, mas sim aludem a fases primitivas, fases iniciais da evolução do ser.

Em resumo, em nossa milenar trajetória, fomos conquistando, passo a passo, os elementos estruturais que nos garantiram o cérebro que temos, “órgão” de expressão de nossa mente. Em sua profundidade, os elementos que intermediam as funções orgânicas básicas e, no córtex, particularmente o do lobo frontal, a possibilidade de transdução das chamadas funções psíquicas superiores. Detentores de livre-arbítrio, cabe-nos a opção de sintonia com ideais e nobres metas de ascensão espiritual ou, no relaxamento da vontade, com patamares primitivos de nossa casa mental.

De EMMANUEL, em “Roteiro”, temos a palavra de incentivo:

“Partindo dos elos que o prendem à estreita família do mundo,
o homem que desperta para

a grandeza da criação deambula na Terra, à maneira do viajante incompreendido e desajustado, peregrino sem pátria e sem lar, a sentir-se grão infinitesimal de poeira

nos domínios celestiais. Nesse homem, porém, alarga-se a acústica da alma e,

embora os sofrimentos que o afligem, é sobre ele que as inteligências

superiores estão edificando os fundamentos da Nova Humanidade”.

(eu grifei)

* Professora Catedrática e Médica Veterinária da Universidade de S. Paulo (USP), sendo uma autoridade mundial na comunidade científica sobre “Neuroanatomia Animal”, é também uma respeitada investigadora espírita em particular da “Interacção Cérebro-Mente” dos animais. Com vários livros e estudos científicos e espíritas publicados.

Ex-Presidente da Comissão de Ética da Faculdade de Medicina Veterinária da USP.

Ex-Presidente do Conselho Orientador da Fundação Parque Zoológico de São Paulo.



texto - http://ameporto.org/pt/artigos

imagem - jornallivre.com.br

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

FENÔMENOS PSICO-FÍSICOS DE NATUREZA ESPIRITUAL


Prof. Dr. Nubor Orlando Facure


A doutrina espírita contém em seus fundamentos uma série de informações que nos permitem identificar uma classe especial de fenômenos que sugerimos tratar-se de fenômenos “psico-físicos de natureza espiritual”. Correspondem ao processo de atuação da alma no corpo físico.

É muito fácil reconhecermos os fenômenos da realidade física e da esfera psicológica que fazem parte de toda nossa vida. Queremos, no entanto, pôr em destaque, uma outra classe de fenômenos que só a atuação do Espírito é capaz de explicar.

No mundo físico conhecemos a natureza da matéria e os processos que regem seu movimento e suas combinações.

No mundo psicológico identificamos os mecanismos inconscientes que impõem nossos comportamentos e aprisionam nossos desejos.

No domínio espiritual a literatura, especialmente de Kardec, André Luiz e Emmanuel, já nos indicaram mecanismos interessantes que atuam na interface corpo/alma.

O paradigma atual da Medicina, embora tenha esclarecido grande parte da anatomia e da fisiologia do organismo humano, não tem abrangência suficiente para perceber ou interpretar o complexo mecanismo de atuação do Espírito sobre o corpo. Essa será, possivelmente, a maior descoberta da Ciência.

Um modelo interessante para exemplificar a extensão dessa dificuldade é visto na glândula pineal. Conhecemos sua anatomia minúscula, sua relação com os ritmos biológicos, sua sensibilidade à luz, sua precária ligação com o cérebro, sua produção química modesta e sua expressão clínica pouco significativa.

É por isso que causaram surpresa os relatos que nos chegaram da espiritualidade, apontando expressivas atividades da glândula pineal, que ultrapassam o que até hoje fomos capazes de constatar com nossos estudos macro ou microscópicos.

Precisamos deixar claro que o que enxergamos “do lado de cá”, é apenas a expressão anátomo-funcional da glândula. Por não termos os instrumentos de acesso ao mundo espiritual, não sabemos como é que se processa sua atividade na interação cérebro/mente.

Podemos identificar as células da pineal e sua microestrutura, registrarmos suas trocas metabólicas, identificarmos as secreções dos humores e a transmissão dos influxos nervosos. Entretanto, no domínio da atividade espiritual, os possíveis componentes e como atuam, são ainda indetectáveis pelos nossos instrumentos. Extrapolar nosso conhecimento “daqui para lá” ainda permanece no campo da metafísica.

Não seria prudente imaginarmos que “por aqui” poderemos um dia conhecer toda extensão desse fenômeno que chamamos de “psico-físico de natureza espiritual”. Pressupondo, de antemão, que “do lado de lá” a dinâmica espiritual do fenômeno é muito mais ampla e significativa do que nossa anatomia pode registrar.

Aprendemos com a doutrina espírita que existem três elementos fundamentais que direcionam a fisiologia dos processos orgânicos que nos condicionam a vida: o Espírito, o perispírito e os fluidos que intermedeiam a intercessão corpo/alma.

Parece-nos ser desnecessário anotar os detalhes já bem conhecidos dos três. Os livros básicos da Doutrina são suficientes. Nosso propósito será o de apontar alguns fenômenos que nos parecem ilustrativos para a apresentação da fisiologia metafísica que estamos interessados em estudar.

§ § A fixação do pensamento

§ § A coesão da população celular

§ § Os Centros de força

§ § A corrente sangüínea e a energia vital

§ § A glândula pineal e sua fisiologia espiritual

§ § A ectoplasmia

§ § A respiração restauradora

Nossa sugestão é que fenômenos desse tipo sejam rotulados de “fenômenos espírito-somáticos” . Seu estudo abrange uma grade de fenômenos que pode nos levar conhecer leis gerais da fisiologia que integra o corpo à alma.

A fixação do pensamento

A neurofisiologia sugere que o pensamento é um processo contínuo que se expressa na atividade dos neurônios do cérebro. Nossas idéias nascem a partir de estímulos externos que atingem os órgãos dos sentidos ou por mecanismos internos de percepção e memórias acumuladas no decorrer da vida.

O neurônio foi identificado como célula fundamental a partir do momento que técnicas de coloração permitiram o reconhecimento da sua estrutura. Quando Camillo Golgi em 1873 usou uma tintura de prata para corar o cérebro, foi possível perceber que alguns neurônios se impregnavam com essa coloração revelando o corpo celular e seus prolongamentos, inaugurando, a partir daí, uma revolução extraordinária no conhecimento do cérebro.

Nessa mesma época (final do século XIX), Franz Nissl, consegui corar os neurônios com o violeta de cresil, descobrindo no citoplasma o amontoado de uma substância de aparência “tigróide” que ficou conhecida como “corpúsculos de Nissl”. Os estudos atuais revelaram que esses corpúsculos correspondem a uma estrutura membranosa denominada Retículo Endoplasmático Rugoso que tem a função de construir proteínas dentro dos neurônios. Algumas dessas proteínas farão parte das membranas celulares e outras participarão de enzimas que atuam na produção de nurotransmissores.

A membrana que reveste os neurônios é formada por duas camadas de uma substância gordurosa fosfolipídica. Essa camada é impermeável, isolando o conteúdo interno dos neurônios dos fluidos extracelulares. Ela é, porém, interrompida por “portões” de proteínas que constroem os canais que permeabilizam as membranas. É através desses canais de constituição protéica que entram ou saem íons e substâncias que afetam a atividade dos neurônios (sódio, potássio, cálcio, neurotransmissores, tranqüilizantes, antidepressivos e drogas como a cocaína, para citar exemplos mais conhecidos) .

Por outro lado, as enzimas são indispensáveis para a produção dos neurotransmissores que realizam toda transmissão da informação entre os neurônios.

Pode-se depreender que os corpúsculos de Nissl, estando diretamente ligados a produção de proteínas, exercem um papel fundamental na fisiologia cerebral.

André Luiz, em psicografia de 1958 (Evolução em dois Mundos), destacou a importância dos corpúsculos de Nissl ensinando que aí a mente fixa seus propósitos transmitindo pelo pensamento as idéias que o Espírito projeta no cérebro. A partir das percepções dos sentidos, o Espírito renova suas idéias, projeta na rede de neurônios sua energia que resulta em pensamentos capazes de se adequarem no cérebro, produzindo nossos atos.

Um neurônio, em constante atividade, vai expandindo suas sinapses fixando o aprendizado que a experiência vai lhe fornecendo. Em cada sinapse se ajustam os canais de transporte químico fundamentais a troca de informações entre os neurônios. Tanto esses canais, como os neurotransmissores, são construídos a partir de proteínas montadas, principalmente, dentro dos corpúsculos de Nissl. Portanto, afirmar que o Espírito exerce atuação direta nos corpúsculos de Nissl, como ensinou André Luiz, nos permite supor que é o Espírito que em última análise constrói o tipo de neurônios que estrutura o cérebro de cada um de nós.

A coesão da população celular

O organismo humano é formado por mais de 300 trilhões de células em constante renovação. Os diversos órgãos que o compõem, se estruturam em diferentes camadas de tecidos que reúnem células típicas e variadas. Temos em nosso corpo para mais de 250 tipos diferentes de células, incluindo os neurônios, as células da glia que sustentam o cérebro, os hepatócitos, as células musculares, as gordurosas, as epiteliais que revestem a pele e assim por diante.

A Ciência atribui ao programa impresso no genoma todo esse projeto de distribuição e organização do gigantesco universo celular que constrói nosso corpo. Falta-nos, entretanto, uma teoria adequada ao gigantismo dessa tarefa, já que, só de neurônios temos dezenas de tipos morfológicos, num total de 100 bilhões de células, exigindo conexões sinápticas que ultrapassam a trilhões de ligações absolutamente precisas. Precisamos lembrar que no útero materno o embrião constrói 250 mil neurônios por minuto. Torna-se uma tarefa espantosa para os poucos 33 mil genes que trazemos como patrimônio genético.

A doutrina espírita ensina que o molde que nos estrutura o corpo físico é função do perispírito que nos ajusta ao mundo espiritual. Estão nesse perispírito todos os traços que identificam nosso mundo mental. Entretanto, a feição física que aparentamos e os estigmas de doenças nos marcam não se reproduzem como uma cópia fotográfica fiel do nosso perispírito. As pessoas de aparência simples mas de Espírito nobre irradiam uma tessitura espiritual que se sobressai diante das imagens de beleza que a mídia costuma dar destaque, especialmente para o corpo feminino. A presença de deformidades físicas está ligada aos nossos méritos e necessidades, adequadas aos débitos pretéritos que acumulamos, mais do que a aparência do perispírito. Nem sempre os aleijões acompanharão o Espírito após a desencarnação.

Allan Kardec sugere que o conhecimento do perispírito tem muito a colaborar com a Medicina para esclarecimento de nossas doenças. Mas recorremos de novo a André Luiz para nos surpreender com suas revelações. Ele ensina que pela atuação de nossa mente, mantemos coesas as trilhões de células que compõem o nosso corpo. Essa atividade dá às nossas atitudes uma responsabilidade enorme no compromisso que temos em zelar pelo nosso equilíbrio físico. Porém, as surpresas não param por aqui. André Luiz afirma que cada uma dessas células é um universo microscópico onde estagia o princípio inteligente, constituindo cada célula que abrigamos em nosso corpo uma unidade com individualidade própria, sobre as quais temos imensa responsabilidade de sustentar e conservar. São “almas” irmãs, que em estágio primitivo, percorrem conosco as lutas da vida física, emprestando ao Espírito humano a dádiva do seu metabolismo.

Os centros de força

A cultura milenar do oriente registra em seus livros sagrados a existência de centros de força, ou chacras, de localização constante no corpo espiritual de todos nós. Eles se localizam no cérebro e em plexos distribuídos pelo nosso corpo nas regiões da laringe, do estômago, do baço, do plexo celíaco relacionado com o trato digestivo e região genital.

São em número de dois no cérebro, o chacra cerebral localizado na região frontal e o chacra coronário nas regiões centrais do cérebro.

Os lobos frontais passaram por um processo extraordinário de expansão quando se iniciou a evolução do ser humano na Terra. O lobo frontal é a região que mais nos distingue do cérebro de um chimpanzé. Estão relacionados com nossos pensamentos abstratos, com nossa capacidade de classificar os objetos, de organizar nossos atos e programar nosso futuro. Sem o lobo frontal o homem se torna irresponsável, perde a capacidade de organizar as coisas num ambiente, deixa de se preocupar com os outros, pode se tornar jocoso e não percebe a gravidade da situação em que vive. É o lobo frontal o que mais nos torna humanos.

André Luiz nos diz que o chacra cerebral, de localização frontal, nos permite estar em união com as esferas mais altas que direcionam nossos destinos na Terra. Através da oração, projetando a súplica piedosa ou o agradecimento sincero, mantemos contato com os seres sublimes que nos orientam e protegem.

Na região coronária podemos apontar três níveis estratificados anatomicamente. O córtex, os núcleos da base e o diencéfalo. O córtex cerebral da região coronária se relaciona com a atividade motora que nos facilita os movimentos voluntários. Nos núcleos basais (tálamo, putamem, globo pálido e caudado) são organizados nossos movimentos automáticos, que nos permitem realizar a respiração, a deglutição, a mastigação e a marcha, para citar exemplos fáceis de compreendermos. E, finalmente, o diencéfalo reúne um agrupamento de células que desempenham papel importantíssimo no controle de nossas funções metabólicas, intimamente associadas a nossa sobrevivência. No hipotálamo, que compõe parte importante do diencéfalo, são produzidas dezenas de substâncias que controlam a atividade das nossas glândulas, funcionando como estimuladores da produção de hormônios na hipófise, na tireóide, na supra-renal, nos ovários e nos testículos entre tantas outras glândulas.

André Luiz ensina que no chacra coronário estão situadas as forças que mantém em equilíbrio a atividade dos trilhões de células que obedecem nosso comando mental, mantendo a forma e as funções do nosso corpo físico.

Os milhares de anos que nos separam do espiritualismo oriental não trouxeram maiores esclarecimentos à ciência médica, que não consegue identificar em seus fundamentos qualquer sinal da existência dos chacras. Mesmo assim, convém considerarmos alguma hipótese para tentarmos relacionar os chacras com a atividade cerebral. É clássico estudarmos o cérebro em seu aspectos modulares destacando as funções motoras, sensoriais, linguagem, memória, calculo, emoções entre tantos outros. Essas atividades são processadas por circuitos limitados a uma determinada área cerebral. Existe, porém, um outro arranjo funcional que a neurologia destaca como um conjunto de agrupamentos neurais que exercem sua ação de modo difuso, incluindo múltiplas vias neurais e suas áreas de repercussão. É o caso, por exemplo, dos sistemas de ativação ascendente que tem a propriedade de nos manter alertas ou em pleno sono.

De maneira simplificada, podemos considerar pelo menos três sistemas de atuação global, habitualmente rotulados de “sistemas modulatórios de projeção difusa”. O sistema hipotálamo-secretor, o sistema neurovegetativo e, o sistema de relação com neurotransmissores como o dopaminérgico, o seratoninérgico e o noradrenérgico, estando os três fortemente relacionados com transtornos mentais diversos. São eles que, nesse artigo, queremos sugerir, com hipótese, estarem relacionados com os chacras cerebral e coronário.

Considerando os chacras que se expressam no cérebro, podemos notar sua coincidência com os “sistemas de atuação difusa”. No chacra frontal, predomina o sistema dopaminérgico responsável pela expressão do pensamento abstrato e insersão na realidade física. Doenças como a epilepsia e as demências frontais levam a uma deteriorização da mente desses pacientes que se tornam completamente dissociados do mundo físico em que vivemos. Na região do chacra coronário, vimos o significado do controle endócrino realizado pelo eixo diencéfalo-hipofisário. Essa atividade glandular orquestrada é indispensável para a manutenção do nosso metabolismo, sem o qual a vida nos seria impossível.

A Corrente Sanguínea e a Energia Vital

É muito fácil de se aceitar a idéia de que nossa vida está intimamente ligada ao coração. Aristóteles afirmava que a Alma aí se localiza porque qualquer ferimento nele leva imediatamente à morte.

Nos dias de hoje, alunos do primário já aprendem que os batimentos do coração impulsionam o sangue pelas aterias, que depois se difundem pelos capilares e retorna pelas veias. Nesse retorno o sangue passa pelos pulmões de onde retira o oxigênio que a respiração fornece. Temos cerca de seis litros de sangue circulando pelo nosso corpo e mais ou menos vinte por cento dele vai para o cérebro. Enquanto entra pelas artérias e sai pelas veias, o sangue circula dentro do cérebro em exatos seis segundos.

Assim que ocorre a morte, as artérias do cadáver estão vazias, já que a última batida impulsiona todo sangue para as veias. Essa observação levou Galeno a sugerir que as artérias estariam sempre cheias de ar. Ele propunha, também, que circula junto com o sangue um elemento imaterial que denominou pneuma vital. Esse fluido nasce no coração, distribui-se pelo corpo e, se transforma no pneuma animal ao atingir o cérebro, nos permitindo perceber o mundo pelos sentidos e a reagir com os nossos movimentos aos seus estímulos. A idéia de um “espírito animal” produzindo nossos reflexos, foi também adotada por René Descartes e por Thomas Willians, tendo aceitação médica por muitos séculos. Para Willians, os corpúsculos do “espírito animal”, percorreriam os nervos para pôr em ação os nossos movimentos.

Nos dias de hoje, sabemos da importância da circulação sanguínea distribuindo por todo organismo não só o oxigênio que nos sustenta a vida mas um número insuspeitável de substâncias ligadas à manutenção do metabolismo celular e de todo sistema imunológico.

André Luiz nos traz conhecimentos novos nessa área também. Diz o conhecido Espírito que junto com a circulação sanguínea circula o “princípio vital” indispensável à sustentação da vida. Ensina Kardec que é o princípio vital quem dá vida à matéria orgânica. Cada um de nós o tem disponível enquanto encarnados, consumindo nossa cota com o decorrer dos anos. Ele procede do “fluido cósmico universal” que nos abastece conforme nossas atitudes nos compromissos da vida. A meditação, a prece e o impulso que nos predispõe a amar ao próximo, fornecem a substância e a renovação do princípio vital. Ele nos penetra pela respiração, o que nos faz lembrar um dos mais belos versos da Bíblia – E Deus fez o Homem do barro da Terra e soprou em suas narinas o sopro da vida.

Anaxágoras considerava que o ar era a substância primitiva de onde procede tudo que existe. A relação do ar com a vida sempre foi aceita em muitas culturas. Nos livros de Galeno, as expressões espíritos e pneumas (ar) são equivalentes.

Aprendemos com André Luiz que o princípio vital é absorvido pela respiração e percorre todo organismo acompanhando a circulação do sangue.

A Glândula Pineal e sua fisiologia espiritual

Essa glândula situada no meio do cérebro já é conhecida há mais de dois mil anos e, mesmo assim, o que sabemos sobre ela é tão pouco que, nos tratados clássicos da neurologia, ela ainda não despertou interesse para merecer mais que citações curtas de algumas linhas sobre o hormônio que ela secreta - a melatonina.

A pineal é o relógio biológico que sinaliza um dos momentos mais importantes da vida, o despontar da sexualidade. Por ocasião da adolescência a pineal reduz a produção da melatonina ocorrendo, a partir daí, o desenvolvimento dos órgãos externos ligados a atividade sexual.

Até hoje é possível de se perceber, em determinados animais, que a pineal pode se comportar funcionalmente como um terceiro olho. Nesses animais a pineal está situada acima do crânio funcionando a modo de um periscópio que exerce um papel de vigilância para o animal. Não se deve estranhar, portanto, a forte sensibilidade que a nossa pineal tem para com a luz. A entrada da luz, que atinge a pineal pelas fibras nervosas que nosso nervo óptico conduz, reduz a produção de melatonina. No ambiente escuro, aumenta acentuadamente a produção do hormônio. Todos sabemos que os ursos hibernam em cavernas durante meses de escuridão e, nessa ocasião, o aumento da melatonina produz o entorpecimento do seu interesse sexual, que depois volta a se revelar no alvorecer da primavera.

O hormônio da pineal tem ligação direta com o depósito de melanina na nossa pele. Ele tem um efeito clareador diminuindo a pigmentação da pele. Isso justifica, por exemplo, a cor esbranquiçada dos bagres que vivem nas profundezas de águas escuras.

A melatonina tem sido utilizada como tranqüilizante produzindo relaxamento e sonolência. Foi experimentada também no tratamento de dores de cabeça e de epilepsia, mas em todos esses quadros o efeito da melatonina é muito pobre.

André Luiz, através de Chico Xavier, trouxe-nos informações inéditas e surpreendentes sobre o papel da pineal quando observada a partir do plano espiritual.

Sensível às irradiações eletromagnéticas, nossa pineal é sintonizador dos fenômenos de comunicação mental, mantendo-nos em permanente ligação com todos aqueles que compartilham conosco a mesma faixa de vibração.

Nos processos mediúnicos, a aproximação espiritual se vale da pineal para difundir sua mensagem até as diversas áreas cerebrais que ressoam sua transmissão.

Nas encarnações, que a misericórdia divina nos permitiu transitar pela Terra, nos enredamos em situações onde tivemos oportunidade de cultivar relações afetivas profundas, ao mesmo tempo em que fomentamos rivalidades e discórdias das mais variadas conseqüências. Como a Lei divina não exclui ninguém dos reajustes necessários, será através da pineal que iremos encontrar, mais cedo ou mais tarde, aqueles mesmos amores sinceros que nos incentivarão a progredir e os inimigos do passado que nos exigirão saldar as dívidas e os compromissos.

Entretanto, por mais que a anatomia cerebral possa nos revelar, não reconhecemos nas vias que emergem da pineal qualquer indicação dessa extraordinária participação da glândula em nossa vida mental. Como explicar, em vista disso, o que nos esclarece André Luiz? Pressuponho que será necessário conhecermos qual é o mecanismo de atuação do Espírito sobre o cérebro. Daí, nosso propósito de reunirmos esse conjunto de fenômenos que sugerimos sejam tratados de fenômenos “espírito-somático”.

No quadro dessa notória “fisiologia espiritual” que André Luiz dá destaque, creio que a chave para sua compreensão está na participação do chamado “fluido universal”, tão conhecido no meio espírita.

Ensinam os Espíritos que elaboraram a doutrina com Allan Kardec que os fluidos servem de veículos para a transmissão do pensamento. Derivado do fluido cósmico universal, ele inunda o Universo, nos envolvendo a todos, nos permitindo compartilhar do “Hálito Divino” que nos alimenta.

Na vida física, atuamos pelas vias nervosas que nos estrutura os neurônios, suas imensas redes de comunicação e sua extraordinária química que sintetiza e conjuga os neurotransmissores. Na dimensão espiritual estaremos usando esse elemento sutil, fluídico, que obedece a vontade que a mente direciona, permitindo-nos criar através da fisiologia espiritual uma dispersão muito mais ampla nos seus efeitos fisiológicos.

Quando Louis Pasteur, descortinou o imenso campo da microbiologia, esse conhecimento novo nos permitiu esclarecer a dinâmica da etiologia das doenças infecciosas. A descoberta do DNA abriu novas áreas para esclarecimento das chamadas doenças de origem genética. Entretanto, o estudo dos fluidos e suas propriedades poderá nos revelar uma nova fisiologia e, como conseqüência, as doenças que seus desvios provocam. A presença desses fluidos, está intimamente relacionada com nosso padrão de atividade mental. A literatura espírita é farta em afirmar que, todos nós, somos expressão da vida mental que nós mesmos escolhemos construir e refletimos em nossa aparência a composição fluídica que selecionamos.

Os desequilíbrios mentais, que a neurobiologia de hoje entende como decorrentes das alterações em neurotransmissores, com certeza, iniciam sua perturbação a partir dos fluidos que permitimos nossa mente projetar no cérebro, desviando a química que nos preside o equilíbrio do pensamento.

A Ectoplasmia

A partir dos fenômenos das mesas girantes, a mediunidade proporcionou aos pesquisadores do século XIX uma imensa variedade de manifestações físicas, entre elas a materializações de entidades espirituais. Nessa fenomenologia é mobilizada uma grande quantidade de ectoplasma permitindo o estudo da sua elaboração e constituição química. Todos os que estão presentes no ambiente da experimentação estarão doando uma cota maior ou menor de fluidos mas é do médium que sae, por todos seus poros e orifícios de excreção, o material mais ou menos denso que permitirá a presença das silhuetas que se corporificarão no ambiente onde o público aguarda.

No âmbito do estudo que estamos abordando, interessa anotar que o conteúdo bioquímico do ectoplasma procede na esfera física, do citoplasma das células do aparelho mediúnico. Em conjugação com os fluidos dos dois planos da vida é que o fenômeno adquire as propriedades de transição que permitem aos espíritos adentrarem a nossa dimensão.

A Respiração restauradora

O ar, como fonte insubstituível de vida, é percepção do senso comum a qualquer de nós. O ato de respirar está intimamente ligado a nossa sobrevivência. Anaxágoras atribuía ao ar a origem de tudo. A Bíblia registra que recebemos a vida a partir do sopro de Deus. Nos textos de Galeno, como já notamos, as expressões espírito e pneuma (ar) eram equivalentes. Para ele o pneuma vital era absorvido pelos pulmões e circulava do coração até ao cérebro para nos manter vivos. Na cultura oriental os exercícios respiratórios têm indicação mais importante que a atividade muscular.

Um dos fundamentos da doutrina espírita é de que a vida decorre da presença do principio vital que vivifica a matéria orgânica dando-lhe a propriedades de reagir.

A atividade constante dos nossos órgãos se faz as custas desse princípio vital e seu esgotamento leva o corpo a morte. Por outro lado, nossa atividade mental nos permite absorver da espiritualidade os fluidos que agregam elementos para sustentação do principio vital. Mais atividade corresponde a mais vida, tanto do ponto de vista físico como espiritual.

André Luiz nos aponta em seus textos que a respiração é porta de entrada restauradora para a realimentação de nossas energias vitais.



Fonte: www.geocities.com/chibeni/artigos.htm em 26/06/205
Endereço: http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo1539.html
imagem: internet

domingo, 28 de novembro de 2010

A MENTE QUE NÃO MENTE


Autor: Hermínio C. Miranda


A ortodoxia religiosa sempre andou preocupada com a eclosão de doutrinas reformistas e renovadoras que classifica sumariamente de heréticas. Essa vigilância tem levado a muita perseguição injusta e a não poucos arrependimentos e recuos. Alguns heréticos chegaram mesmo a passar da condição de réprobos à canonização, como Joana D’ Arc, quando foi revisto o seu processo. Outros, como Giodarno Bruno e Galileu, constituem até hoje pontos sensíveis na história eclesiástica, como pecados da juventude que não relembramos sem angústia.

O problema, porém, tornou-se muito mais sério nestes últimos tempos, nos quais o arcabouço teológico começa a estalar ao peso insuportável da modernização do pensamento. Ainda que a ciência também tenha seus dogmas e seus hereges, muito do que ela vai revelando adquire foros de conquista irreversível, geralmente em sacrifício de velhos conceitos superados.

Qualquer menino de ginásio sabe hoje que um corpo humano não pode subir ao céu como querem os dogmas da ascensão do Cristo e de Maria.

Mesmo admitindo-se a atuação de uma força propulsora que os projetasse para além da gravidade terrestre, os corpos assim deslocados, ficariam suspensos no espaço a circular na órbita da terra ou de seu satélite.

Esse tipo de conhecimento leva o homem moderno às trilhas da descrença por não saber como conciliar razão e fé. Os grandes filósofos do cristianismo ortodoxo conseguiram, com enorme sucesso e por largo espaço de tempo, convencer fiéis de que a fé era uma coisa e razão outra, e que aquela não poderia ser subordinada a esta.

Ainda há quem admita esse conceito absurdo; outros, porém, preferem pensar por sua própria cabeça e submeter à crítica da razão aquilo que lhes chega envolvido pela atmosfera abafada da teologia escolástica. Estes derivam para descrença e desanimam na busca da verdade ou partem para o estudo sistemático de qualquer sistema que ofereça alguma luz ao entendimento do universo.

O Espiritismo é a doutrina que conseguiu, pela primeira vez, conciliar fé e razão, não admitindo aquilo que não puder passar no teste do racionalismo inteligente e esclarecido.

Por isso vai se impondo metodicamente, seguramente, ampliando cada vez mais sua área de influência, pois atrai a todos aqueles que, sem poderem mais aceitar a velha crença divorciada da razão, estão prontos para acatar uma verdade superior que não exige o sacrifício do raciocínio. Mas ainda: o Espiritismo expõe uma doutrina do mais profundo sentido humanista. A sua racionalidade não a levou à frieza dos símbolos matemáticos ou dos meros conceitos filosóficos – é, antes, uma norma de vida, um roteiro para compreensão do universo e posicionamento do homem na escala cósmica.

Por isso, muitos nos procuram, o que preocupa, como é natural, os responsáveis pela perpetuação do superado sistema dogmático. Através dos séculos, chegou a ser desenvolvida uma verdadeira técnica de combate às novas idéias que ameaçam a estabilidade da ortodoxia. Essa técnica se aperfeiçoa com o passar do tempo, mas continua basicamente a mesma.

O Espiritismo é uma das doutrinas que muito vem incomodando a igreja especialmente a brasileira, ou seja, a porção brasileira do catolicismo romano. Para combatê-los, vários e ilustres sacerdotes têm sido investidos dos necessários poderes e dos competentes “Imprimatur” e “Nihil Obstat”. Essa é a técnica básica.

Há algum tempo, entretanto, a dominante do plano de ataque era a velha doutrina de interferência do diabo nas manifestações mediúnicas. Hoje isto seria inadmissível, pois até mesmo os sacerdotes já descobriram que essa história de demônio é fantasia pura. A prova está nas declarações de alguns eminentes teólogos perante o Concílio Vaticano-II. Impedidos assim de invocar o demônio de atacar a ciência nas suas conquistas mais legítimas, buscam qualquer princípio científico que ofereça a mínima possibilidade de apoio. Esse é o ponto em que variou a técnica.

Um dos recursos de que estão se socorrendo os nossos queridos irmãos sacerdotes é a Parapsicologia, na qual vêm depositando grandes e infundadas esperanças.

A Parapsicologia ainda não está muito segura de si e sofre dum renitente mal de origem, que poderíamos chamar, recorrendo ao velho grego, de pneumofobia, ou seja, medo do espírito. A jovem ciência que nós espíritas, poderíamos classificar como autêntica reencarnação da Metapsíquica, treme à idéia de acabar descobrindo o espírito humano e foge da palavra como, segundo se dizia, o desmoralizado diabo fugia da cruz. Os modernos tratados de Parapsicologia giram todos em torno do mesmo “leit motiv”: “O Alcance da Mente”, “O Novo Mundo da Mente”, “Ciência Fronteiriça da Mente”, “Canais Ocultos da Mente”. É tudo mente e nada de espírito. Sobrevivência?! Deus nos livre! Pois se nem quererem concordar em que o espírito exista, como vão admitir que sobrevive? Nada disso; tudo se explica pela faculdade extra-sensorial da mente. Mas que faculdade é essa e que “Mente” é essa?

Vêm, então, os nossos inevitáveis sacerdotes parapsicológicos deitar sabedoria extra-sensorial, contaminados irremediavelmente pela mesmíssima pneumofobia e tudo para eles é Mente também.

Topamos, assim, como esta incongruência, difícil de se admitir em homens que devem ter estudado a sua filosofia:

1 – a mente dispõe de faculdades extra-sensoriais (postulado cientifico que aceitam e ensinam);

2 – o espírito (alma) que não pode existir sem a mente; sobrevive à morte física (postulado teológico que também aceitam e pregam);

3 – a mente (ou espírito ou alma) não está sujeita a limitação de tempo ou de espaço (também pacífico).

No entanto, qual a conclusão: A mente do espírito sobrevivente que ligada ao corpo, tinha recursos tão notáveis, não pode manifestá-los quando se separa do corpo pela morte física, a não ser através do “milagre”(!).

E os livros que contam essas coisas merecem ingênuos e inadvertidos “Imprimatur” e “Nihil Obstat”, o que vale dizer que são aprovados, confiantemente para o leitor católico; autoridades Eclesiásticas respeitáveis dão cobertura do ponto de vista teológico a obras que, do ângulo científico, estão oferecendo uma visão deformada e incompleta da realidade. A Parapsicologia não tem substância suficiente para oferecer base à teologia ortodoxa e jamais a terá, enquanto permanecer contida nos seus gabinetes atuais.

No dia em que o mecanismo do espírito (chamem de mente se quiserem) for pesquisado por cientistas corajosos e despidos de preconceitos, vão ser “revelados” os seguintes pontos que o Espiritismo conhece há mais de cem anos:

1- que espírito existe, preexiste e sobrevive;

2- que há um intercâmbio ativo entre os homens que já viveram na Terra e os espíritos dos que vivem como homens;

3- que o espírito se reencarna, evolui e é responsável pelo que faz aqui e no mundo espiritual.

Diante disso, como é que vão ficar os nossos padres parapsicólogos? Quando voltarem para o espaço, depois da chamada "crise da morte" e quiserem transmitir a realidade da sobrevivência ao companheiro encarnado, este poderá dizer muito simplesmente que não é preciso admitir a comunicação espírita; basta a pantomnésia ou a hiperestesia direta, ou indireta. E o pobre espírito, dentro duma realidade irrecusável, irá amargar alhures a repercussão de sua vaidade teológica e científica.




endereço: http://www.oespiritismo.com.br/textos/ver.php?id1=95
imagem: palavrasdoguma.blogspot.com

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