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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A MULHER NA BÍBLIA


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Para os que lêem a Bíblia, sem nenhum espírito pré-concebido e, principalmente, sem se apegar aos dogmas teológicos do passado, verá que nela a figura da mulher é sempre de inferioridade em relação ao homem. É óbvio que debitamos isso aos homens, portanto nada de ser a vontade de Deus.

Por ser, naquele tempo, uma sociedade extremamente machista, ou ao menos muito mais que a atual, a mulher está retratada, no Livro Sagrado, sempre como uma personagem inexpressiva. Refletindo, pois, a nosso ver, e até que nos provem o contrário, apenas a fatores culturais de um povo, ou talvez até mesmo de toda uma época, onde o machismo era o fator que preponderava nas relações entre homens e mulheres.

Fizemos uma pesquisa, e, por ela, chegamos à conclusão que a Bíblia é um livro no qual o machismo é colocado de forma bem evidente. Causa-nos estranheza é o comportamento da mulher, pois apesar disso é ela quem mais se apega a esse livro.

Vejamos então os seguintes questionamentos: Quem foi criado em primeiro lugar, o homem ou a mulher? A mulher sendo tirada da costela do homem não induz a pensarmos (ou, quem sabe, é o que querem que pensemos) que a mulher estaria em condições de inferioridade em relação ao homem? A quem normalmente se atribui a “culpa” pelo pecado “original”, ao homem ou à mulher? Todas as genealogias constantes da Bíblia são feitas em relação aos homens ou em relação às mulheres? A maioria dos personagens em destaque na Bíblia são homens ou mulheres? Entre os 12 discípulos de Jesus tinha algum que não era homem?

Para confirmar o que estamos dizendo, vejamos, nas passagens bíblicas a seguir, alguns exemplos que nos comprovam o evidente machismo impregnado nela:

Deuteronômio 5, 21: Não cobice a mulher do próximo. (mandamento para os homens).

Deuteronômio 22, 13-15: Se um homem se casa com uma mulher e começa a detestá-la depois de ter tido relações com ela, acusando-a de atos vergonhosos e difamando-a publicamente, dizendo: ‘Casei-me com esta mulher mas, quando me aproximei dela, descobri que não era virgem, o pai e a mãe da jovem pegarão a prova da virgindade dela e levarão a prova aos anciãos da cidade para que julguem o caso.

Deuteronômio 24, 1: Quando um homem se casa com uma mulher e consuma o matrimônio, se depois ele não gostar mais dela, por ter visto nela alguma coisa inconveniente, escreva para ela um documento de divórcio e o entregue a ela, deixando-a sair de casa em liberdade.

Eclesiastes 7, 26: Então descobri que a mulher é mais amarga do que a morte, porque ela é uma armadilha, o seu coração é uma rede e os seus braços são cadeias. Quem agrada a Deus consegue dela escapar, mas o pecador se deixa prender por ela.

Eclesiástico 7, 25: Arrume casamento para sua filha, e terá realizado uma grande tarefa, mas faça que ela se casa com homem sensato.

Eclesiástico 9, 2: Não se entregue a uma mulher, para que ela não o domine.

Eclesiástico 25, 24: Foi pela mulher que começou o pecado, e é por culpa dela que todos morremos.

Eclesiástico 42, 14: É melhor a maldade do homem do que a bondade da mulher: a mulher cobre de vergonha e chega a expor ao insulto.

E para que não fiquemos somente no Antigo Testamento, já que alguém pode alegar que isso é coisa do “Velho”, vejamos também no Novo:

1 Coríntios 11, 7-9: O homem não deve cobrir a cabeça, porque ele é a imagem e o reflexo de Deus, a mulher, no entanto, é o reflexo do homem. Porque o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem. Nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem.

1 Coríntios 14, 34-35: Que as mulheres fiquem caladas nas assembléias, como se faz em todas as igrejas dos cristãos, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar submissas, como diz também a lei. Se desejam instruir-se sobre algum ponto, perguntem aos maridos em casa; não é conveniente que a mulher fale nas assembléias.

Colossenses 3, 18: Mulheres, sejam submissas a seus maridos, pois assim convém a mulheres cristãs.

1 Timóteo 2, 9-14: Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes e se enfeitem com pudor e modéstia. Não usem tranças, nem objetos de ouro, pérolas ou vestuário suntuoso; pelo contrário, enfeitem-se com boas obras, como convém a mulheres que dizem ser piedosas. Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com toda a submissão. Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Portanto, que ela conserve o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, pecou. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na santidade.

Todos nós conhecemos aquela passagem em que os escribas e fariseus apresentando a Jesus uma mulher surpreendida em adultério perguntaram-Lhe se deveriam cumprir a Lei de Moisés que exigia o apedrejamento dela. É bom que ressaltemos que se trata realmente de uma Lei de Moisés, pois se fosse Lei de Deus todos os que se dizem seguidores da Bíblia ou os que acham ser ela de capa a capa a palavra de Deus a cumpririam, não é mesmo? Como não vemos, nos dias de hoje, ninguém matando homens ou mulheres que cometeram adultério, fica evidente não se tratar mesmo de uma Lei Divina. Mas, chamamos a sua atenção ao que consta dessa Lei: estabelecia que tanto o adúltero quanto a adúltera deveriam ser punidos com a morte (Levítico 20, 10). Perguntamos, então, aonde foi parar o adúltero? Temos que convir que uma mulher não tem como adulterar sozinha já que, para isso, é necessário um homem. É a velha questão, numa sociedade machista em que também os homens é que julgavam, será que iriam condenar um homem adúltero? Achamos muito difícil. Assim, a pena cabia apenas às pobres mulheres que cometessem tal delito, contrariando, portanto, o que consta na Bíblia.

E, para que você, caro leitor, possa ter uma visão do que a Doutrina Espírita diz sobre a mulher, colocaremos algumas questões de “O Livro dos Espíritos”, cujas respostas foram dadas pelos Espíritos Superiores a Kardec. São elas:

202 – Quando se é Espírito, prefere-se encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher?

- Isso pouco importa ao Espírito; ele escolhe segundo as provas que deve suportar.

Os Espíritos se encarnam homens ou mulheres porque eles não têm sexos. Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhe oferece provas e deveres especiais, além da oportunidade de adquirir experiência. Aquele que fosse sempre homem não saberia senão o que sabem os homens.

817 – Diante de Deus, o homem e a mulher são iguais e têm os mesmos direitos?

- Deus não deu a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir?

818 – De onde se origina a inferioridade moral da mulher em certos países?

- Do império injusto e cruel que o homem tomou sobre ela. É um resultado das instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza. Entre os homens pouco avançados do ponto de vista moral, a força faz o direito.

819 – Com que objetivo a mulher é fisicamente mais fraca que o homem?

- Para lhe assinalar funções particulares. O homem é para os trabalhos rudes, por ser o mais forte; a mulher para os trabalhos suaves, e ambos para se entreajudarem nas provas de uma vida plena de amargura.

820 – A fraqueza física da mulher não a coloca naturalmente sob a dependência do homem?

- Deus deu a uns a força para proteger o fraco, e não para se servir dele.

Deus conformou a organização de cada ser às funções que deve cumprir. Se deu à mulher uma força física menor, dotou-a, ao mesmo tempo, de maior sensibilidade, relacionada com a delicadeza das funções maternais e a fraqueza dos seres confiados aos seus cuidados.

821 – As funções para as quais a mulher está destinada pela Natureza, têm uma importância tão grande quanto às dos homens?

- Sim, e maiores; é ela que lhe dá as primeiras noções da vida.

822 – Os homens, sendo iguais diante da lei de Deus, devem sê-lo, igualmente, diante da lei dos homens?

- É o primeiro princípio de justiça: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem.

- Segundo isso, uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade dos direitos entre o homem e a mulher?

- De direitos, sim: de funções não. É preciso que cada um esteja colocado no seu lugar. Que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior, cada um segundo a sua aptidão. A lei humana, para ser eqüitativa, deve consagrar a igualdade dos direitos entre o homem e a mulher, pois todo privilégio concedido a um, ou a outro, é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o progresso da civilização, sua subjugação caminha com a barbárie. Os sexos, aliás, não existem senão pela organização física, visto que os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferença entre eles sob esse aspecto, e, por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos.

A Filosofia Espírita nos deixa bem claro que a condição de se ser mulher não indica que o homem deve subjugá-la, quer física ou moralmente, já que ambos possuem os mesmos direitos, apenas são diferentes as suas funções, que estão intimamente relacionadas à natureza da organização física de cada um.

Mas, é bem interessante que, muito antes de qualquer tipo de movimento pela emancipação da mulher sair a “campo” para lutar pela sua igualdade com o homem, o Espiritismo tratava desta questão de forma clara e objetiva, dizendo sobre a igualdade entre ambos, como fruto das orientações dos Espíritos Superiores. Se a própria sociedade como um todo vem pregando isso, temos um questionamento aos que dizem coisas sobre o Espiritismo que ele não é, qual seja: Será que todos os Espíritos que se manifestam nas Casas Espíritas são mesmo demônios como sempre apregoam determinadas correntes religiosas? Se o são, temos que convir, que devem ter se tornado bonzinhos, pelo menos os “demônios” que se manifestam nos dias de hoje, pois aconselham exatamente o que a própria sociedade vem fazendo e, diga-se de passagem, todos concordamos que isso representa mesmo uma evolução dessa sociedade, ou seja, a igualdade entre todos, até mesmo entre homens e mulheres.

Out/2002.

(Publicado na Revista Universo Espírita, nº 01, junho/2003, Ed. Universo.)


Bibliografia

  • A Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, SP, 43ª Edição, 2001.
  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, IDE, Araras, SP, 37ª Edição, 1987.


texto - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/paulosns
imagem - eternamentreamojesus.blogspot.com

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A ARCA DE NOÉ


Paulo da Silva Neto Sobrinho


Iremos estudar, numa análise crítica, longe do fanatismo religioso, a Bíblia para que tenhamos uma visão sobre este assunto: ficção ou realidade?

Tomaremos, para isto, alguns versículos dos capítulos 6 a 9 da Gênesis.

“O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de intima dor”. (Gênesis 6, 6).

Que Deus é este que chega ao absurdo de arrepender-se de ter criado o homem. Onde estava a sua onisciência? Talvez seja um Deus humano, ou seja, de carne e osso como um ser humano, pois até coração Ele tinha.

“E disse: ‘Exterminarei da superfície da terra o homem que criei, e com ele os animais, os répteis e as aves dos céus, porque me arrependo de os haver criado’”. (Gênesis 6, 7).

Se Deus após ver a maldade dos homens (O Senhor viu que a maldade dos homens era grande na terra, e que todos os pensamentos do seu coração estavam continuamente voltado para o mal, conforme se lê em Gênesis 6, 5) arrepende-se e resolve eliminar os homens da face da terra, até que tinha seus motivos, mas os animais, os répteis e as aves dos céus não tinha nenhum motivo para exterminá-los, a não ser por pura “maldade”, coisa que foi o motivo da condenação dos homens. E os animais que vivem nas águas eram inocentes?

“Noé era um homem justo e perfeito no meio dos homens de sua geração. Ele andava com Deus”. (Gênesis 6, 9).

Vejamos como Noé era um homem justo e perfeito: “Noé, que era agricultor, plantou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda. Cam, o pai de Canaã, vendo a nudez do seu pai, saiu e foi contá-lo aos seus dois irmãos”. (Gênesis 9, 20-22) Quando Noé despertou de sua embriaguez, soube o que tinha feito o seu filho mais novo. “Maldito seja Canaã, disse ele; que ele seja o último dos escravos de seus irmãos”. (Gênesis 9, 24-25).

Que comportamento exemplar para um homem perfeito, se embebeda e sai nu pelo acampamento. Que homem justo, quando castiga a Canaã, seu neto, em vez de castigar a seu filho Cam, que não parece ser o filho mais novo e sim o do meio (“Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafet”, em Gênesis 6, 10), por ter visto a sua nudez, quando a culpa era dele mesmo Noé ao sair pelo acampamento nu como se estivesse desfilando no Sambódromo em pleno Carnaval.

“Faze para ti uma arca de madeira resinosa, dividi-la-ás em compartimentos e a untarás de betume por dentro e por fora. E eis como o farás: seu comprimento será de trezentos côvados, sua largura de cinqüenta côvados, e sua altura de trinta. Farás no cimo da arca uma abertura com dimensão dum côvado. Porás a porta da arca a um lado, e construirás três andares de compartimentos”. (Gênesis 6, 14-16).

No livro A História da Bíblia, de Hendrik Willem Van Loon, tradução de Monteiro Lobato podemos ler o seguinte: “Noé e os filhos puseram-se ao trabalho, sob a chacota dos vizinhos. Que estranha idéia construir um navio num lugar onde não havia água – rio nenhum, e o mar a mil milhas distante!”. Ora, se uma milha equivale a 1.609 metros, temos, então, que estavam a 1.609 km do mar. Pela distancia que moravam do mar é bem provável que não tinham a menor experiência sobre construção naval, não é mesmo? Assim como conseguiram construí-la?

Conforme pudemos apurar nas notas explicativas o côvado equivale a 45 cm. Então temos: comprimento 45 cm x 300 = 135 metros, largura 45 cm x 50 = 22,5 metros e altura 45 cm x 30 = 13,5 metros. Como cada um dos três andares mediria 3.037,5 metros quadrados, a área total da arca estaria pelos 9.112,5 metros quadrados. Área muito pequena para caber tudo o que Deus ordenara a Noé colocar lá dentro. Como veremos na passagem seguinte.

“De tudo o que vive, de cada espécie de animais, farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo. De cada espécie de aves, e de cada espécie de animais que se arrastam sobre a terra, entrará um casal contigo, para que lhes possa conservar a vida. Tomarás também contigo de todas as coisas para comer, e armazená-los-as para que te sirvam de alimento, a ti e aos animais”. (Gênesis 6, 19-21).

Imaginemos: Noé com sua família eram 8 pessoas, soma-se mais um casal de todos os animais vivos e mais alimentação para as pessoas e os animais que teria de durar por um ano, quando saiu Noé já tinha um neto, Canaã, qual seria o peso e o volume disto tudo? Caberia nestes poucos mais de 9.000 metros quadrados? Além de que a diversidade da alimentação dos animais, como colocar isto dentro da arca? Mais ainda, não foi ordenado a Noé colocar água dentro da arca, como os seres viveram por pouco mais de um ano sem água para beber? E o que se come não é eliminado pelo organismo? Aonde foram jogados os dejetos dos homens e dos animais, pois a arca estava quase que totalmente fechada? E o ar lá dentro, como deveria estar? Haveria ainda oxigênio para se respirar nesta arca? Será que com somente 8 pessoas eles conseguiriam alimentar todos os animais todos os dias, sem um único dia para o descanso, durante o período de um ano e pouco?

“O Senhor disse a Noé:" Entre na arca, tu e toda a tua casa, porque te reconheci justo diante dos meus olhos, entre os de tua geração. De todos os animais puros tomarás sete casais, macho e fêmea, e de todos os animais impuros tomarás um casal, macho e fêmea, das aves dos céus igualmente sete casais, machos e fêmeas, para que se conserve viva a raça sobre a terra”. (Gênesis 7, 1-3).

Aqui se fala em sete casais de animais, puros e das aves, ora, anteriormente já não havia dito ser de todos os animais um casal apenas? Não estaria em contradição?

“O dilúvio caiu sobre a terra durante quarenta dias. As águas incharam e levantaram a arca, que foi elevada acima da terra. As águas inundaram tudo com violência, e cobriram toda a terra, e a arca flutuava na superfície das águas. As águas engrossaram prodigiosamente sobre a terra, e cobriram todos os altos montes que existem debaixo dos céus; e elevaram-se quinze côvados acima dos montes que cobriam”. (Gênesis 7, 17-20).

Na terra encontramos a água nos rios e mares, na atmosfera, nas nuvens, nos lençóis subterrâneos e em forma de gelo nas altas montanhas e nos pólos. As que se encontram na superfície correm para as partes mais baixas do planeta, formando os mares. E segundo a ciência 2/3 do nosso planeta é composto de água. Ora para se ter água a ponto de cobrir todos os montes da terra, temos duas hipóteses:

1ª - afundamento de toda a superfície de terra; ou...

2ª - as águas da chuva vieram de outro lugar que não a Terra, pois água do nosso planeta é pouca para cobrir todos os montes altos (Monte Evereste 8.848 metros de altura).

Se considerarmos um dilúvio localizado, em determinada região da Terra, e não nela toda, é bem possível a 1ª hipótese, fora disto só em filmes de Steven Spielberg.

Interessante a nota de rodapé constante, nesta passagem, na Bíblia Sagrada, Editora Vozes: O dilúvio não foi universal mas uma grande inundação que cobriu o horizonte geográfico de Noé. A existência de histórias do dilúvio em outros povos primitivos mostra que há uma consciência geral sobre uma catástrofe que ameaçou a humanidade dos primórdios. Ótimo, confirma a possibilidade de ser localizado, entretanto o que não compreendemos é que apesar disso ainda teimam em dizer que ele foi universal.

“No ano seiscentos da vida de Noé, no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês, romperam-se naquele dia todas as fontes do grande abismo e abriram-se as barreiras dos céus". (Gênesis 7, 11).

“No ano seiscentos e um, no primeiro mês, no primeiro dia do mês, as águas tinham secado sobre a terra. Noé descobriu o teto da arca, olhou e viu que a superfície do solo estava seca. No segundo mês, no vigésimo sétimo dia do mês, a terra estava seca". (Gênesis 8, 13-14).

Do início do dilúvio e até o dia em que a terra estava toda seca, passaram-se 1 ano e 10 dias (considerando-se o mês de 30 dias). Período confirmado pelo nascimento de Canaã, neto de Noé, filho de Cam.

Observar que Noé descobriu o teto da arca, o que leva a crer que neste período todo a arca estava completamente fechada, numa escuridão total. Como viveram os que lá estavam, neste período todo, sem a luz do sol?

“Ora, Deus lembrou-se de Noé, e de todos os animais e de todos os animais domésticos que estavam com ele na arca”. (Gênesis 8, 1).

Ainda bem que Deus se lembrou, pois se isto não tivesse acontecido estaria chovendo até hoje, assim as águas já teriam transbordado do planeta, atingindo o espaço sideral.

“E Noé levantou um altar ao Senhor: tomou de todos os animais puros e de todas as aves puras, e ofereceu-os em holocausto ao Senhor sobre o altar”. (Gênesis 8, 20).

É incrível que depois de todo sacrifício para salvar os animais, queima-os ao Senhor, o mesmo Deus que ordenara a Noé salvar os animais.

“O Senhor respirou um agradável odor, e disse em seu coração: ‘Doravante, não mais amaldiçoarei a terra por causa do homem – porque os pensamentos do seu coração são maus desde a sua juventude -, e não ferirei mais todos os seres vivos, como o fiz’”. (Gênesis 8, 21).

Os animais sendo oferecidos em sacrifício, queimando no altar, e Deus respirando o cheiro “agradável” de carne queimada. Aqui, novamente, Deus é de carne e osso, pois até respira e sente cheiro. Na fala entendemos que Deus, finalmente, por compreender que o homem tinha os pensamentos maus desde a juventude se arrepende de o ter eliminado, então promete não mais ferir os seres vivos.

“Vós sereis objeto de terror e espanto para todo o animal da terra, toda a ave do céu, tudo que se arrasta sobre o solo e todos os peixes do mar: eles vos são entregues nas mãos”. (Gênesis 9, 2).

Bom, deve ter havido algum engano, pois se estiver em nossa frente um leão faminto ele não vai tremer por estarmos diante dele, com certeza, depois de nos almoçar, vai deitar e roncar feliz da vida.

“Deus disse:" Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras. Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra. Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens, e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo ser vivo de toda a espécie e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura. Dirigindo a Noé, Deus acrescentou: “Este é o sinal da aliança que faço entre mim e todas as criaturas que estão na terra”. (Gênesis 9, 12-15, 17).

Como quase esqueceu que Noé estava na arca durante o dilúvio, e para não correr o risco de esquecer-se da aliança que agora fazia com Noé, resolve colocar um arco nas nuvens, assim como nós que amarramos fitinha nos dedos para não esquecermos de algo que não podemos deixar de fazer.

Afinal, sabe que arco é esse? Não? Então vamos ver o que é na Bíblia Sagrada, Editora Vozes Ltda., 8ª Edição, em Gênesis 9, 14, 16: “Quando cobrir de nuvens a terra, aparecerá o arco-íris. Quando o arco-íris estiver nas nuvens eu o olharei como recordação da aliança eterna entre Deus e todos os seres vivos, com todas as criaturas que existem sobre a terra”. É isto mesmo, o famoso arco-íris que aparece no céu após uma chuva como fenômeno natural, os raios do sol refletindo nas águas das nuvens se decompõem em 7 cores principais. Processo também obtido com um prisma de cristal. Mas Deus ainda não tinha conhecimento disto, não é mesmo?

“Noé viveu ainda depois do dilúvio trezentos e cinqüenta anos; a duração total da vida de Noé foi de novecentos e cinqüenta anos, e morreu”. (Gênesis 9, 28-29).

Entre outros de longa vida, temos Noé com 950 anos, frontalmente contra os argumentos dos cientistas que colocam a vida humana bem abaixo disto, com um tempo próximo desta narrativa: “O Senhor então disse: ‘ Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será só de cento e vinte anos’”. (Gênesis 6, 3) É de se perguntar, será que Deus não se lembrou de Noé e ele conseguiu ultrapassar a duração da vida que Ele tinha fixado em 120 anos?

Como conclusão, podemos verificar que existem fatos na Bíblia que fogem ao censo lógico e científico. Não deixando de citar as adulterações efetuadas (como no caso do arco-íris, que não consta da Bíblia editada pela Editora Ave Maria), sabe-se lá porque motivos. Assim podemos aceitar que a história de Noé como relatada é fantasiosa, entretanto como a questão do dilúvio parece constar da cultura de outros povos, poderemos até aceitar, mas somente se ele tiver sido algo localizado e não sobre a terra toda.

E para confirmar que a história de Noé, não passa de uma lenda, vamos ver o que consta da Revista Galileu, Fevereiro/2001, nº 115:



As raízes de Noé

Lendas sobre grandes dilúvios estão espalhadas entre diferentes culturas. Estima-se que cerca de 300 histórias desse tipo já tenham sido registradas. A de Noé, no entanto, é a mais famosa na civilização ocidental.

Estudiosos apontam que o Dilúvio, parte do livro do Gênesis, tenha sido escrito entre 550 a.C. e 450 a.C., período em que os judeus mais influentes de Jerusalém foram aprisionados na Babilônia. “O Gênesis cumpria o papel de reforçar a identidade desse povo”, explica Fernando Altemeyer, professor de teologia da PUC. Inspirado na literatura babilônica, o livro mostrava que os judeus tinham uma história e um passado respeitável e deveriam buscar seu futuro a partir daqueles ensinamentos de seus antepassados.

A história de Noé tem muito em comum com um poema babilônico escrito por volta de 1600 a.C., que faz parte do Épico de Gilgamesh. O poema trata de um rei mítico chamado Atrahasis, que é avisado a tempo pelos deuses de que um dilúvio está prestes a destruir a humanidade. Atrahasis constrói então uma enorme embarcação, e nela coloca sua família, seus pertences e alguns animais. As semelhanças entre o Gênesis e Gilgamesh são muitas. A lenda babilônica, por sua vez, também não é original, mas baseada em uma história suméria cerca de mil anos mais antiga, provavelmente assimilada pelos babilônicos durante a conquista da região.

A versão babilônica não influenciou somente o Antigo Testamento. Entre os gregos, a lenda era muito popular, pois eles mesmos já tinham presenciado a fúria das águas devido à erupção de um vulcão no século 15 a.C. Dos gregos, a história passou aos romanos, e dessa vez, quem assume a autoria do dilúvio é o deus Júpiter, enfurecido com a má conduta humana.


Fev/2001.

Bibliografia:
Bíblia Sagrada, Editora Ave Maria Ltda., 68ª edição;
Bíblia Sagrada, Editora Vozes, 8ª Edição.
A História da Bíblia, Hendrik Willem Van Loon, tradução de Monteiro Lobato, Editora Cultrix, São Paulo, 1981.
Revista Galileu, fevereiro/2001, Ano 10, nº 115, Editora Globo.


imagem - scb.org.br

sábado, 20 de março de 2010

A TRAIÇÃO DE JUDAS - UMA HISTÓRIA MAL CONTADA


“Afaste-se da boca enganosa e fique longe dos lábios falsos” (Pv 4, 24)

Introdução

É interessante como alguns temas bíblicos não resistem a uma análise mais profunda. Vários deles, que já tratamos em outros textos, nos levam a uma certeza que muitos trechos constantes da Bíblia são uma deliberada e sutil montagem para se chegar a um objetivo previamente definido. Daí que muitos textos foram amoldados a esse objetivo, passando por cima da verdade histórica que deveria conter tais escritos.

Muitas pessoas se chocam com atitudes como essa, a de uma análise crítica. Entretanto, não abrimos mão de fazer uso da inteligência com a qual nos dotou o Criador. Nós seres humanos racionais, que efetivamente somos, temos que usar esse dom, pois, não usá-lo é abdicar da única capacidade que nos difere dos animais, por isso, acreditamos que só ofendemos a Deus, quando não utilizamos a nossa inteligência plenamente.

Reconhecemos, entretanto, ser muito difícil a inúmeras pessoas, principalmente as que não pesquisam, abandonar conhecimentos adquiridos, especialmente quando foram passados como verdades divinas sob coação ideológica. Ou seja, o simples questionamento da veracidade das mesmas já era, por si só, considerado como grave ofensa à divindade. Essa possibilidade de heresia acaba gerando um bloqueio mental em função do medo do conseqüente castigo por esse tipo de “pecado”. Assim, aceitamos sem o mínimo questionamento o que nos foi imposto como verdade absoluta. Com o tempo, passamos a defender idéias que nunca analisamos ou criticamos, como se nossas fossem.

O assunto que iremos tratar, desta vez, está relacionado a uma suposta traição a Jesus, que teria sido realizada por Judas Iscariotes, um de seus discípulos. Inclusive, tudo que consta na Bíblia sobre ele está somente nas passagens que iremos ver a seguir.

Análise das narrativas

Em Lucas 22,3-6, está escrito que, após satanás ter entrado em Judas, ele foi procurar os sacerdotes para ver de que maneira entregaria Jesus. Os sacerdotes ficaram tão satisfeitos com isso que combinaram em dar-lhe dinheiro, uma vez que eles desejavam, de há muito, eliminar esse herético. Tal acontecimento se deu, na versão de Lucas, antes da festa dos Ázimos, evidentemente, antes da ceia de páscoa, cujo prato principal eram os cordeiros que matavam especificamente para essa finalidade. No entretanto, segundo João, esse fato se deu após a ceia (Jo 13,26-29), apesar de que, um pouco antes, ele ter dito: “Enquanto ceavam, tendo já o diabo posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse” (Jo 13,2), sendo, por conseguinte, omisso sobre qualquer combinação anterior entre Judas e os sacerdotes. Portanto, podemos verificar que há conflito entre as narrativas.

Quanto à questão dessa combinação com os sacerdotes, Mateus (26,15) diz que Judas pediu dinheiro para lhes entregar Jesus, enquanto que Marcos (14,11) e Lucas (22,5) afirmam que foram os sacerdotes é quem tomaram a iniciativa de retribuir ao discípulo, dando-lhe dinheiro como recompensa pelo seu ato ignominioso. Um bom observador irá perceber que, pelas suas narrativas, Mateus teve uma evidente preocupação, qual seja a de relacionar Jesus com as profecias, inclusive, muito mais que os outros Evangelistas. Daí ser ele o único que diz sobre o quanto Judas teria recebido, dando como certa a importância de trinta moedas de prata (Mt 26,15; 27,3). Essas passagens que falam disso são relacionadas a Zc 11,12-13, no pressuposto de que ela seja uma profecia, entretanto, os fatos ali narrados se referem ao próprio profeta Zacarias, não é, por conseguinte, uma revelação sobre algo que viesse a ocorrer no futuro.

Ao narrar os acontecimentos durante a ceia, Mateus relata que Jesus, ao responder aos discípulos sobre quem o iria trair, teria dito: “Quem vai me trair, é aquele que comigo põe a mão no prato. O Filho do Homem vai morrer, conforme a Escritura fala a respeito dele..." (Mt 26,23-24). Passagem relacionada ao Sl 41,10, onde Davi reclama sobre um amigo que o trai. O que nos leva a concluir que tal passagem não é uma profecia, assim, não poderia estar relacionada a Jesus, como querem os que buscam, nas Escrituras, apoio para seus dogmas. Davi foi traído por um amigo, seu próprio conselheiro, de nome Aquitofel, conforme narrativa em 2Sm 15,12.31. O final trágico da vida desse “amigo da onça” foi enforcar-se (2Sm17,23), por isso, querem, igualmente, atribuir esse mesmo destino a Judas, como iremos ver mais à frente.

Outra coisa que nos parece sem nenhum sentido, principalmente por tudo que Ele fez, é que Jesus tenha realmente se preocupado em delatar o seu traidor, conforme narra Jo 13,26, quando, para identificar quem o trairia, diz aos que o acompanhava, naquela ceia, que seria a quem desse um pão molhado, dito isso, imediatamente, entrega-o a Judas. Talvez a preocupação aqui seja buscar mais uma forma de relacionar tal episódio a uma suposta profecia sobre esse acontecimento.

Mateus (26,48) e Marcos (14,44) dizem que Judas havia combinado com os sacerdotes um sinal – o beijo – para que pudessem identificar quem era Jesus. Lucas, apesar de não relatar absolutamente nada sobre esse sinal, diz que Judas aproximando-se de Jesus o saúda com um beijo (Lc 22,47). Enquanto que João não fala de ter havido uma combinação de sinal, nem que Jesus teria dito algo a respeito e nem mesmo coloca Judas beijando a Jesus, já que, para ele, foi o Mestre que se adiantou aos guardas acompanhados de Judas se identificando a eles como sendo Jesus, o Nazareno, a quem procuravam (Jo 18,3-5). Fatos novamente conflitantes.

Nenhum outro evangelista, a não ser João, coloca Judas como sendo aquele que, entre os discípulos, cuidava da “bolsa” (Jo 13,29). Vai mais longe ainda, o acusa de ladrão (12,6). Como uma acusação grave dessa não foi feita por mais ninguém? Se Judas fosse realmente ladrão, por que motivo o deixaram tomando conta do dinheiro? Alguém colocaria um ladrão como seu administrador financeiro? Não seria, evidentemente, para colocar a honra desse discípulo em jogo, fórmula encontrada para se justificar que, por ser assim, ele não teria também nenhum escrúpulo em trair o seu próprio Mestre?

Não bastassem os que já encontramos, aparecem-nos agora mais dois evidentes conflitos.

O primeiro está relacionado à forma pela qual Judas deu cabo à sua vida, movido, segundo relata Mateus, por profundo remorso. Estranhamente ele é o único evangelista que fala disso, nenhum outro apresenta uma linha sequer sobre Judas ter se arrependido. Continuando seu relato Mateus diz que Judas enforcou-se (27,5), entretanto em Atos (1,18) está se afirmando que ele “precipitando-se, caiu prostrado e arrebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram”, mudando-se, desta maneira, a versão anterior a respeito de sua morte. Encontramos a seguinte explicação para esse passo: “Possivelmente a narração da morte de Judas enforcando-se, está inspirada na história da morte de Aquitofel (cf. 2Sm 17,23)” (Bíblia Sagrada Santuário, p. 1463). Conforme citamos anteriormente Aquitofel enforcou-se, mas querer daí, apenas por inspiração, atribuir a Judas uma morte semelhante é lamentável, pois os fatos bíblicos deveriam ter sido relatados fielmente como ocorrido, não como o autor quer que tenha acontecido, o que nos coloca diante de uma mera suposição.

O segundo diz respeito ao destino dado às moedas. Mateus menciona que Judas as teria devolvido, atirando-as dentro do santuário, que recolhidas pelos sacerdotes foram, por deliberação, destinadas à compra do campo do oleiro, para servir de cemitério aos estrangeiros (27,3-10). Citando que isso aconteceu para se cumprir o que dissera o profeta Jeremias. Mas essa história parece-nos mal contada, pois em Atos se diz que o próprio Judas teria comprado um campo (At 1,18), que até poderia ser esse do oleiro, mas, de qualquer forma, está em conflito com a versão anterior.

Na maioria das Bíblias em que consultamos, dizem que as profecias relacionadas a Mt 27,9, cujo teor é: “Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, a quem certos filhos de Israel avaliaram e deram-nas pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor”, seriam: Zc 11,12-13 e Jr 32,5-16, ou Jr 18,1-4 e 19,1-3, havendo, portanto, sérias dúvidas quanto à identificação da profecia especifica relacionada ao episódio. Como já falamos sobre a citação de Zacarias, fica-nos, por conseguinte, apenas as de Jeremias para dizermos alguma coisa. Em notas explicativas sobre elas encontramos que: “A citação é uma combinação artificial de Jr 32,6-9 e Zc 11,12-12(Bíblia do Peregrino, p. 2386), isso deixa-nos diante da realidade de que, por se admitir que seja “uma combinação artificial”, estamos, sem dúvida, diante de mais uma tentativa de se relacionar acontecimentos no Novo Testamento com ocorrências registradas no Antigo Testamento tidas como se fossem verdadeiras profecias.

Quem tiver a curiosidade de consultar a passagem citada de Zacarias não encontrará nela nenhum aspecto de profecia, são apenas fatos relacionados àquele momento vivido por esse profeta. E quanto a Jeremias, não se encontra absolutamente nada que ele tenha comprado alguma coisa por trinta moedas. Sobre a compra de um terreno, sim, como podemos ver em 32,1-44, mas uma situação circunstancial, explicada da seguinte forma:

À primeira vista se trata de um incidente: a compra e venda de um terreno segundo as normas e o procedimento da legislação judaica. O narrador se compraz em registrar todos os detalhes, mostrando que a lei foi estritamente cumprida e que o ato é juridicamente válido. O surpreendente dessa compra-e-venda é que se realiza às vésperas da catástrofe inevitável. Que sentido tem nesse momento comprar um terreno para que fique em poder da família? Tudo já está perdido. Mas o absurdo do ato é a chave do seu sentido. Para efeitos legais imediatos, a compra nada servirá; para efeitos proféticos, é admirável ato de esperança no futuro. É um oráculo em ação, Jeremias profetiza ao vivo: não só palavras, nem ação simbólica, mas ato real jurídico. Esse ato significa o futuro que ele antecipa: a jarra de barro onde se guarda o contrato é um penhor que Deus concede. Apesar do que está para acontecer, a terra continua sendo propriedade dos judaítas: a terra prometida aos patriarcas e possuída durante séculos... (Bíblia do Peregrino, p. 1928).

Podemos ainda confirmar isso com a seguinte explicação: “A citação [Mt 27,9] é tirada na realidade de Zacarias (11,12-13). Mas, ele lembra também diversos versículos de Jeremias onde se faz menção do campo e do oleiro (32,6-6; 18,2-12)”. (Bíblia Ave Maria, p. 1319). Ressaltamos que a expressão “ela lembra”, é uma afirmativa que depõe contra o próprio texto que, positivamente, diz ser de Jeremias essa profecia.

Conclusão

Percebemos que as narrativas possuem diversos fatos conflitantes entre si, deixando-nos na convicção que tudo não passa, na melhor das hipóteses, de um ajuste dos textos para se chegar a um objetivo pré-determinado, conforme já falávamos, desde o início. Para se ter uma idéia mais exata sobre isso, colocaremos a passagem Mateus 27,1-26, que, para tornar a explicação mais fácil de ser entendida, iremos dividi-la em três partes:

I) 1-2: De manhã cedo, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um conselho contra Jesus, para o condenarem à morte. Eles o amarraram e o levaram, e o entregaram a Pilatos, o governador.

II) 3-10: Então Judas, o traidor, ao ver que Jesus fora condenado, sentiu remorso, e foi devolver as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e anciãos, dizendo: "Pequei, entregando à morte sangue inocente". Eles responderam: "E o que temos nós com isso? O problema é seu". Judas jogou as moedas no santuário, saiu, e foi enforcar-se. Recolhendo as moedas, os chefes dos sacerdotes disseram: "É contra a Lei colocá-las no tesouro do Templo, porque é preço de sangue". Então discutiram em conselho, e as deram em troca pelo Campo do Oleiro, para aí fazer o cemitério dos estrangeiros. É por isso que esse campo até hoje é chamado de "Campo de Sangue". Assim se cumpriu o que tinha dito o profeta Jeremias: "Eles pegaram as trinta moedas de prata - preço com que os israelitas o avaliaram - e as deram em troca pelo Campo do Oleiro, conforme o Senhor me ordenou".

III) 11-26: Jesus foi posto diante do governador, e este o interrogou: "Tu és o rei dos judeus?" Jesus declarou: "É você que está dizendo isso". E nada respondeu quando foi acusado pelos chefes dos sacerdotes e anciãos. Então Pilatos perguntou: "Não estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?" Mas Jesus não respondeu uma só palavra, e o governador ficou vivamente impressionado. Na festa da Páscoa, o governador costumava soltar o prisioneiro que a multidão quisesse...”

Para o que queremos colocar não é necessário citar toda a narrativa, assim omitimos o restante da seqüência dessa última (vv. 16-26), pois até aqui, no versículo 15, já encontramos o suficiente para entendermos e percebermos que os versículos de 3-10 nada têm a ver com o contexto geral daquilo relatado na passagem. Inclusive, no versículo 3 está dito que Judas viu que Jesus havia sido condenado, quando, no desenrolar do texto, esse fato ainda não havia acontecido, que só veio acontecer mais à frente. A quebra brusca na seqüência dessa narrativa, não deixou de ser percebida pelo tradutor da Bíblia do Peregrino, conforme nos explica:

O episódio da morte de Judas interrompe estranhamente o curso do relato, como se a entrega de Jesus ao governador ultrapassasse suas previsões. Sabemos que a figura de Judas alimentou desde cedo fantasias legendárias. Lucas dá versão diferente (At 1,18-20). A morte violenta do perseguidor ou culpado é tema literário conhecido (p. ex. Absalão, 2Sm 18: Antíoco Epífanes, 2Mc9; em versão poética vários oráculos proféticos, p.ex. Is 14; Ez 28). Antes de morrer, Judas acrescenta seu testemunho sobre a inocência de Jesus. Confessa o pecado, mas desespera do perdão... (pp. 2385-2386).

Isso vem confirmar todas as nossas suspeitas de que tudo foi um calculado arranjo visando ajustar os textos às conveniências dos interessados para que eles tivessem referências às suas idiossincrasias. E, em relação ao assunto tratado, temos fortes suspeitas de que vários outros trechos foram intercalados às narrativas bíblicas, para amoldá-los a um propósito determinado. Podemos citar, como exemplo, Mt 26,14-16, 21-25, Mc 10,10-11; 14, 18-21, Lc 22,3-6, 21-23, para que você, caro leitor, faça uma análise mais aprofundada.

Podemos ainda recorrer a Ernest Renan, que disse:

[...] Segundo uma tradição, ele se matou10. Segundo uma outra, ele levou um tombo na sua propriedade e, como consequência, suas entranhas se espalharam pelo chão11. Segundo outras, ele morreu de uma espécie de hidropsia, acompanhada de circunstâncias repugnantes que foram tomadas como castigo do céu12. O desejo de comprar Judas a Achitofel13 e de mostrar nele o cumprimento das ameaças que o Salmista pronunciou contra o amigo pérfido14 pode ter dado ensejo a essas lendas.

10. Mat. XXVII, 5.

11. Atos, l.c.; Pápias, em Ecumenius, Enarr, in Act. Apost., II e em Fr. Münter, Fragm. Patrum graec. (Hafniae, 1788, fasc. I, p. 17 e seg.; Teofilacto, em Mat., XXVII, 5.

12. Pápias, em Münter, l.c., Teofilacto, l.c.

13. II Sam., XVII,23.

14. Salmos LXIX e CIX.

(RENAN, 2004, p. 397). (grifo nosso).

Ficamos a pensar como se sentiu e como ainda pode estar se sentido Judas sobre tudo quanto lhe imputaram como procedimento. O pobre coitado ainda é julgado e condenado, anos após anos, pelos ditos “cristãos”, que, com certeza, não cumprem: “Não julgueis os outros para não serdes julgados, porque com o julgamento com que julgardes, sereis julgados e com a medida que medirdes sereis medidos” (Mt 7,1-2). Não bastasse isso ainda é humilhado, malhado e, ao final, é espetacularmente “detonado”. Infelizmente esse nos parece ser o seu destino cruel, que se perpetua anualmente nas comemorações da Semana Santa realizadas por determinadas religiões cristãs tradicionais.

Reabrimos esse “processo”, pois chega-nos às mãos a revista Discovery Magazine desse mês de mar/2005, com uma interessante reportagem intitulada Últimos momentos de Jesus, assinada por Walter Falceta Jr, da qual transcrevemos os seguintes trechos:

(...) Mas pesquisas mais recentes lançam novos olhares especialmente sobre o odiado Judas – aquela figura que, vertida em boneco de trapos, mobiliza os malhadores nos Sábados de Aleluia.

Ao contrário da tradição, os estudos modernos são mais complacentes com o discípulo dissidente, tido no imaginário popular como um homem ambicioso e sem caráter. O magistrado israelense Haim Cohn, ex-juiz da Suprema Corte de Israel, autor de O Julgamento e a Morte de Jesus, defende que, à época da Paixão, Jesus já era conhecido em Jerusalém e sabia-se de seu costume de meditar no Monte das Oliveiras. “Não seria necessário, portanto, que alguém indicasse seu refúgio”, diz Cohn. Dessa forma, o episódio do “beijo da traição”, que teria sido protagonizado por Judas para indicar aos soldados romanos o momento adequado da captura de Jesus, pertenceria ao campo da lenda e não da realidade...

Para outros especialistas, o perfil de Judas foi moldado para representar os arquétipos da maldade. De acordo com o bispo da Igreja Anglicana John Spong, de Newark (EUA), até o nome de Judas teria sido escolhido para remeter o inconsciente coletivo ao termo “judaísmo”, numa estratégia para marcar negativamente a imagem dos primeiros opositores do cristianismo.

FICÇÃO NOS EVANGELHOS

Na década passada, o padre Raymond Brown, ex-professor do Seminário Teológico União, de Nova York, produziu o mais detalhado estudo sobre o que aconteceu nos últimos dias da vida de Cristo. Um calhamaço de 1.600 páginas, o livro The Death of J. B. Howell the Messiah (“A morte do Messias”, ainda não editado no Brasil) compara os argumentos de vários intérpretes da Bíblia, os chamados exegetas, à luz de dados históricos. Em seus textos, Brown dá crédito aos escritos oficiais e estimula uma leitura conservadora das Escrituras. Mesmo assim, admite que o objetivo dos autores dos textos sagrados era evangelizar e não reconstituir fatos históricos. Segundo ele, é natural que tenham recorrido à ficção para expor suas idéias. Brown considera, por exemplo, que a história das 30 moedas que, segundo a Bíblia, Judas recebeu dos sacerdotes do Sinédrio para entregar Cristo passou a simbolizar o suposto gosto dos judeus pelo dinheiro. (p. 28-33).

Isso vem, de certa forma, em apoio ao que deduzimos de nossos estudos bíblicos, sinal que não estamos sendo heréticos sozinhos. Embora isso não nos preocupe, pois para nós o que é mais importante e deve ser restabelecido é a verdade.


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Set/2004.


Referência bibliográfica

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 2001.

Bíblia Sagrada. Aparecida, SP: Santuário,1984.

Bíblia Sagrada. Brasília, DF: SBB, 1969.

Bíblia Sagrada. São Paulo: Ave Maria, 1989.

FALCETA JR., W., Últimos momentos de Jesus, Discovery Magazine, edição 08, São Paulo: Synapse, mar/2005.

RENAN, E. Vida de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004.


endereço: http://www.apologiaespirita.org/

imagem: internet


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