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quinta-feira, 17 de março de 2011

O CÉU E O INFERNO


Autor: J. Herculano Pires


Allan Kardec apresenta a verdadeira face do desejado Céu, do temido Inferno, como também do chamado Purgatório. Põe fim às penas eternas, demonstrando que tudo no universo evolui.

Lendo-se este livro com atenção vê-se que a sua estrutura corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na primeira parte temos a exposição dos fatos que o motivaram e a apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos, com a devida acentuação dos casos de infração da lei. Na segunda parte o depoimento das testemunhas. Cada uma delas caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante dos confrontos necessários o juiz pronuncia a sua sentença definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia. Estamos ante um tribunal divino.

Os homens e suas instituições são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e atenuantes são levados em consideração à luz de um critério superior.

A 30 de Setembro de 1863, como se pode ver em Obras Póstumas, Kardec recebeu dos Espíritos Superiores este aviso: "Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez de sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que conduziu os espíritos". Esse julgamento começava com a preliminar constituída pelo Evangelho Segundo o Espiritismo e devia continuar com O Céu e o Inferno. Dentro de dois anos, em seu número de Setembro de 1865, a Revista Espírita publicaria em sua seção bibliográfica a notícia do lançamento do quarto livro de Codificação Espírita: O Céu e o Inferno. Faltava apenas A Gênese para completar a obra da Codificação da III Revelação.

Dois capítulos de O Céu e o Inferno foram publicados antecipadamente na Revista: o capítulo intitulado Da apreensão da morte, vigorosa peça de acusação, no número de Janeiro de 1865, e o capítulo Onde é o Céu, no número de Março do mesmo ano. Apareceram ambos como se fossem simples artigos para a Revista, mas o último trazia uma nota final anunciando que ambos pertenciam a uma "nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente". Em Setembro a obra já aparece anunciada como à venda.

Kardec declara que, não podendo elogiá-la nem criticá-la, a Revista se limitava a publicar um resumo do seu prefácio, revelando o seu conteúdo. Os capítulos antecipadamente publicados aparecem, o primeiro com o mesmo título com que saíra e o segundo com o título reduzido para O Céu.

Estava dado o golpe de misericórdia nos dogmas fundamentais da teologia do cristianismo formalista, tipo inegável de sincretismo religioso com que o Cristianismo verdadeiro, essencial e não formal conseguira penetrar na massa impura do mundo e levedá-la à custa de enormes sacrifícios. Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo. Como ciência de observação a nova doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece. A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã. Bastaria isso para justificar o Renascimento. O mergulho da humanidade no sorvedouro medieval levou a natureza humana a um retrocesso histórico só comparável ao do nazi-fascismo em nosso tempo. Os intelectuais materialistas assustaram-se com o retrocesso do homem nos anos 40 do nosso século e puseram em dúvida a teoria da evolução. Se houvessem lido este livro de Kardec, saberiam que a evolução não se processa em linha reta; mas em ascensão espiralada.

Vemos assim que este livro de Kardec tem muito para ensinar, não só aos espíritas, mas também aos luminares da inteligência néo-pagã que perdem o seu tempo combatendo o Espiritismo, como gregos e romanos combateram inutilmente o Cristianismo. O processo espírita se desenvolve na linha de sequência do processo cristão. A conversão do mundo ainda não se completou. Cabe ao Espiritismo dar-lhe a última demão, como desenvolvimento natural, histórico e profético do Cristianismo em nosso tempo.

A leitura e o estudo sistemático deste livro se impõem a espíritas e não-espíritas, a todos os que realmente desejam compreender o sentido da vida humana na Terra. Mesmo entre os espíritas este livro é quase desconhecido. A maioria dos que o conhecem nunca se inteirou do seu verdadeiro significado. Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da evolução moral e espiritual da humanidade terrena até os nossos dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da evolução futura. As penas e recompensas de após a morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois o seu objetivo não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno e contemporâneo.

O grave problema da continuidade da vida após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida.



texto - http://www.oespiritismo.com.br/textos
imagem - http://malvinas-net.blogspot.com

sábado, 9 de outubro de 2010

ALLAN KARDEC - O LIBERTADOR DE CONSCIÊNCIAS


A. Merci Spada Borges

"Se me amardes, guardareis os meus mandamentos e eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador para que fique convosco para sempre, o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber porque não o vê e nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos! Voltarei para vós! Mas aquele Consolador, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito". (João, 14:15-18 e 26)

A marcha evolutiva da Humanidade prosseguiu lenta, ininterrupta... Séculos dobraram sobre séculos; lutas intermináveis, perseguições constantes contra os seguidores do Cristo; testemunhos e mortes dolorosas, guerras, violências marcaram o carreiro evolutivo do homem sobre a Terra. Todavia, dos Planos Maiores o Divino Nazareno permanece velando pelas ovelhas que o Pai lhe destinara.

Finalmente soam os clarins, desponta a alvorada do século XIX. Século em que a Filosofia, após atingir, no século anterior, o apogeu do Iluminismo, expande-se em todas as direções. A Ciência, rompidos os grilhões que a atavam ao Clero, desprende-se da Filosofia e parte para a comprovação dos fatos através das múltiplas experimentações. Prenuncia-se a liberdade de pensamento em prol da evolução intelectual.

Campo preparado! Semeadores a postos! Em pontos estratégicos, renascem os cultivadores. A sementeira do bem, fecundada lentamente durante a noite prolongada dos tempos, eclode no silêncio dos corações.

Nenhum outro país, senão a França apresenta condições tão favoráveis para a implantação do Consolador que Jesus prenunciara. E, Paris, a capital francesa, mais do que nunca, se encontra em condições de oferecer campo fértil para as conquistas culturais e expandir o desenvolvimento intelectual, não somente para a Europa, como também para uma grande parte do Planeta. Preparado o local, a Terra se engalana para acolher o Mensageiro de Jesus. É o momento de apresentar ao mundo o Consolador, descortinando a Era do Espírito Imortal.

A escolha recaíra sobre um Espírito que, em remota encarnação, fora um sacerdote druida, com o nome de Allan Kardec, ali mesmo nas Gálias de outros tempos. Por amor ao Cristo tornou-se mártir por mais de uma encarnação; cresceu em experiências relevantes e em sabedoria.

Espírito de escol, sabia que a missão exigia enfrentar os mais árduos obstáculos, as mais dolorosas vicissitudes, mas também sabia que Jesus velaria incansável: " Não vos deixarei órfãos! Eu estarei convosco!".

Assim, reencarna um plêiade de Espíritos que deveria colaborar com o Mensageiro do Cristo na divulgação dos conhecimentos não só morais e doutrinários, mas também científicos, filosóficos e artísticos em diferentes países, a fim de preparar o alicerce para a grande edificação moral que haveria de alcançar a Humanidade cansada e aflita: O Consolador.

Completa-se nos Planos Luminares a estrutura de toda a programação e, no dia 3 de outubro de 1804, na cidade francesa de Lyon, Jeanne Louise Duhamel e o esposo, Jean Baptiste Antoine Rivail, acolhem nos braços o filhinho que recebe o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail, aquele que seria o Codificador do Espiritismo: a "Religião do Amor que viria empreender a batalha da transformação moral (...) religando em perfeita união o Criador e a criatura".

Desde a primeira infância Rivail já revela desenvoltura e inteligência ímpares.

Aos dez anos inicia os seus estudos no instituto de Yverdon, na Suíça, dirigido pelo famoso pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi, que fora influenciado pelas idéias de Jean-Jacques Rousseau. O objetivo do grande educador suíço é assimilado desde cedo pelo pequeno Rivail: " Melhorar a educação e a instrução das crianças pobres".

Esse Instituto abrigou e preparou uma grande parte dos maiores vultos da intelectualidade européia.

Após os longos estudos, instala-se, o jovem Rivail, em Paris, "a capital cultural do mundo", iniciando suas atividades de professor.

Sua primeira grande preocupação é pôr em prática os ideais sedimentados na moderna educação que recebera: "(...) auxiliar os pequeninos nas difíceis (...) e aborrecidas questões de cálculos aritméticos (...)". Entregou-se ao estudo e à pesquisa dos melhores e mais avançados métodos para solucionar o problema.

De sua dedicação surge seu primeiro livro: Cours d’Arithmétique. Apenas 20 anos tem o jovem escritor!

Esse livro é o marco inicial de uma série de obras educacionais e pedagógicas que vão surgindo ao longo de sua brilhante e árdua carreira de educador. Aos 28 anos casa-se com a jovem Amélie Boudet, que haveria de tornar os seus dias mais suaves.

Pesquisador por excelência, o jovem Rivail entra em contato com a nova ciência do Magnetismo que se introduz na França pelas mãos do médico e cientista alemão, formado por Viena, Franz Anton Mesmer.

Descobrira Mesmer, através de múltiplas experimentações, que o magnetismo é uma energia produzida pelo próprio homem e que se exterioriza pelo poder da vontade. E que, direcionada para o bem, produz efeitos curativos.

Constataram os adeptos da nova ciência que extraordinárias curas se efetuam através da imposição das mãos dos magnetizadores.

Essa ciência nada mais faz do que revelar a lei, embora desconhecida dos homens, utilizada por Jesus na cura de doentes e obsidiados, durante sua peregrinação terrena. Rivail, com grande interesse, acompanha o desenvolvimento desse fenômeno ao lado de inúmeros magnetizadores que compõem o rol de seus amigos.

Mais tarde, Allan Kardec associa o fluido magnético à Doutrina Espírita, como elemento indispensável ao tratamento do corpo e da alma, bem como dos processos obsessivos, destacando sua importância na comunicabilidade dos Espíritos. Hoje, popularizado com o nome de Passe ou Bioenergia.

Atinge, o emérito professor, a madureza dos 50 anos, forjados no trabalho digno. Ouve falar, pela primeira vez, sobre um estranho fenômeno que começa a intensificar-se nos salões elegantes da época: o fenômeno das mesas girantes. No início, o experiente educador não demonstra interesse; acredita tratar-se de frivolidades passageiras, quando então, seu amigo, o Senhor Fortier, antigo magnetizador, o informa:

- "Já sabe da singular propriedade que se acaba de descobrir no magnetismo? Parece que já não são somente as pessoas que se podem magnetizar, mas também as mesas, conseguindo-se que elas girem e caminhem à vontade".

Para o grande pensador aquilo não parecia tão estranho, pois, pela lógica, o magnetismo é energia e como tal pode ser capaz de movimentar objetos. Algum tempo depois o mesmo amigo retorna:

- "Temos uma coisa muito mais extraordinária; não só se consegue que uma mesa se mova, magnetizando-a, como também que fale. Interrogada, ela responde".

"Isto agora - replica o Prof. Rivail - é outra questão. Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que possa tornar-se sonâmbula. Até lá, permita que eu não veja no caso mais do que um conto para fazer-nos dormir em pé".

Os fenômenos se multiplicavam por toda parte, os amigos não se cansavam de falar-lhe sobre o fato; finalmente Rivail aceita o convite de um outro amigo, o Sr. Pâtier, para assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. de Plainemaison. " Foi aí - diz o Prof. Rivail - que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida."

Em todas as épocas, em todos os lugares sempre ocorreram os mais diferentes gêneros de comunicações dos Espíritos; contudo, o fenômeno das mesas girantes é considerado o ponto de partida do Espiritismo, termo, esse, criado por Allan Kardec.

Assim, o ilustre educador passou a observar atentamente os fatos, chegando à conclusão de que os movimentos e as comunicações eram provocados por seres inteligentes. Percebeu que a inteligência que atuava sobre a mesa era obediente às ordens dadas. Todavia, para que o fenômeno se realizasse era necessária a presença de pessoas portadoras de mediunidade. Notou-se também que o material ou o tipo de mesa não influenciava a comunicação.

A partir de então, através dos movimentos da mesa o Espírito passa a responder por um sim ou um não, segundo o número de pancadas convencionadas.

"Aperfeiçoou-se essa arte de comunicação pelo sistema alfabético de pancadas." Todavia, a lentidão levou a outros métodos. Após vários estudos concluiu-se que os diferentes meios adotados (cestas, pranchetas, mesas, etc.) poderiam ser substituídos pelas mãos dos médiuns. A esse novo método o eminente Codificador denominou psicografia direta ou manual.

Em casa da família Baudin, através da mediunidade das duas senhoritas Baudin, Hippolyte Léon Denizard Rivail entra em contato com o Espírito Zéfiro que se tornou grande auxiliar de seus trabalhos.

Diria então:

"(...) percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas idéias e nas crenças (...)".

A partir de então Rivail passou a levar "para cada sessão uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas. Eram sempre respondidas com precisão, profundeza e lógica (...) Eu, a princípio, cuidara apenas de instruir-me; mais tarde, quando vi que aquilo constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a idéia de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente. Foram aquelas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e completadas, constituíram a base de O Livro dos Espíritos".

Estava pronto o alicerce da Doutrina que Rivail denominou Espiritismo, a Doutrina revelada pelos Espíritos. O Codificador era educador emérito, com vários livros publicados, e a doutrina dos Espíritos não poderia permanecer sob a sua sombra, haveria de crescer por si só e transformar-se numa árvore frondosa. Em sua humildade de Embaixador do Cristo apagou-se o grande professor Rivail e surgiu o desconhecido Allan Kardec, nome que tivera, havia muitos séculos, como sacerdote druida.

Assim "O Livro dos Espíritos", compêndio de Filosofia Espiritualista, foi publicado em 18 de abril de 1857. A obra alcançou êxito extraordinário, despertou a atenção de muitos. Os pedidos se sucediam e a primeira edição esgotou-se rapidamente. Em 18 de março de 1869 vem a lume a 2ª edição, inteiramente refundida e consideravelmente ampliada, com 1.019 questões elaboradas por Allan Kardec e respondidas pelos Espíritos. O alicerce da grande construção está concluído.

Logo após a publicação da primeira edição de "O Livro dos Espíritos", Allan Kardec se entrega à elaboração da Revista Espírita.

As dificuldades foram enormes, o trabalho incansável, mas o grande batalhador não se deixa esmorecer e a 1º de janeiro de 1858 vem a público o primeiro número da Revista Espírita. A partir de então "(...) os números se sucediam mensalmente, sem interrupção". A Revista foi o porta-voz, o grande auxiliar na divulgação e expansão da Doutrina Espírita. Tornou-se a mensageira, o elo de ligação entre Paris e as diversas partes do Mundo. No mesmo ano, 1858, em 1º de abril, Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Instituição que, sob a sua presidência, passa a abrigar todas as reuniões do grupo espírita.

Muitas vezes, tentou afastar-se da direção, não o conseguindo por insistência dos seus colaboradores e dos Espíritos Reveladores. Consultas e orientações são solicitadas de todos os continentes para a instalação de novos núcleos. O trabalho é árduo. Entre os colaboradores fiéis se infiltram os detratores, mas o Mensageiro do Cristo não desanima, luta e prossegue na sua tarefa de reerguimento moral. Ele sabe que o tempo urge, não se detém, a obra não pode ser prejudicada.

A 15 de janeiro de 1861 publica mais uma obra da Codificação - "O Livro dos Médiuns"- que contém as bases científicas e experimentais da Doutrina.

As paredes do grande edifício educacional da Humanidade começam a erguer-se. O combate dos inimigos recrudesce. Em setembro desse mesmo ano o Sr. Lachâtre, amigo de Allan Kardec, residente, então, em Barcelona, na Espanha, encomenda-lhe 300 volumes, entre os quais "O Livros dos Espíritos", "O Livros dos Médiuns", coleções da Revista Espírita, obras e brochuras diversas sobre o assunto. Aportando no seu destina, as obras são apreendidas sob as ordens do Bispo, que ordena a queima delas em praça pública pelas mãos do carrasco, através do Auto-de-Fé.

Um abuso de poder, a mercadoria tinha dono e entrara legalmente no país. "A execução da sentença foi marcada para 9 de outubro de 1861. (...) no local onde são executados os criminosos condenados ao derradeiro suplício (...)".

Resquícios de Inquisição! Os jornais de maior circulação da Espanha noticiam o fato. Um pintor, ali mesmo no local da execução, desenhou uma aquarela representando o ato abominável e apressa-se em enviá-la ao Codificador. Outros lhe enviam porções das cinzas com fragmentos legíveis das folhas queimadas, que o Codificador teve o cuidado de conservar em uma urna de cristal.

Este foi um fato histórico de grande relevância para os anais do Espiritismo, conforme previra o Espírito de Verdade, em comunicação de 21 de setembro de 1861, quando Kardec lhe indaga se conviria prosseguir na reclamação para restituição das obras apreendidas:

"Mas, ao meu parecer, desse auto-de-fé resultará maior bem do que o que adviria da leitura de alguns volumes. A perda material nada é, a par da repercussão que semelhante fato produzirá em favor da Doutrina (...) A queima dos livros determinará uma grande expansão das idéias espíritas e uma procura febricitante das obras dessa doutrina".

Uma nova obra está em vias de se completar. Silenciosamente ele vai estruturando-a. Ele sabe que sua publicação provocará a reação do clero, pois seu conteúdo ataca "as penas eternas e outros pontos nos quais ele baseia sua influência e seu crédito".

Recorre aos Espíritos; o reconforto vem do mais Alto: "Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o Espiritismo qual ele é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo. (...) Ao te escolherem, os Espíritos conheciam a solidez das tuas convicções e sabiam que a tua fé, qual muro de aço, resistiria a todos os ataques".

"Com esta obra, o edifício começa a libertar-se dos andaimes e já se lhe pode ver a cúpula a desenhar-se no horizonte. Continua, pois, sem impaciência e sem fadiga; o monumento estará pronto na hora determinada".

O mês de abril é pródigo em realizações. Assim, mais uma vez, em abril de 1864 surge a primeira edição da obra monumental: "Imitação de O Evangelho segundo o Espiritismo". Nas edições subseqüentes o seu título é substituído por "O Evangelho segundo o Espiritismo", atendendo à insistência de seus amigos e em especial de seu editor, o Sr. Didier.

A ira do Clero explode violenta e, a 1º de maio do mesmo ano, Roma inclui as obras espíritas no Index (Catálogo de obras perigosas, portanto, proibidas pela Igreja).

Mais uma vez a atitude do Clero favoreceu a expansão da Doutrina Espírita.

A partir de então "a maioria das livrarias apressaram-se a pôr essas obras em evidência". E como normalmente acontece com as coisas proibidas, a curiosidade humana facilitou a sua divulgação. As emoções se sucedem, o trabalho é árduo, o discípulo do Cristo prossegue sem descanso, chega a pôr-lhe em risco a própria saúde.

O Espírito amigo Dr. Demeure alerta-o: " Precisas de repouso; as forcas humanas têm limites que o desejo de que o ensino progrida te leva muitas vezes a ultrapassar. Estás errado, porquanto, procedendo assim não apressarás a marcha da Doutrina, mas arruinarás a tua saúde e te colocarás na impossibilidade material de acabar a tarefa que vieste desempenhar neste mundo (...)".

Mais ponderado, o Codificador prossegue. Não importam as injustiças, a ingratidão, os ataques constantes, ele não pode parar: palestras, viagens de orientações, auxílio aos necessitados. Por toda parte florescem os seus princípios de Amor e Caridade para com os desvalidos da sorte.

Ressalta como máxima da Doutrina nascente: "Fora da Caridade não há salvação".

No ano seguinte, em 1º de agosto de 1865, segundo Henri Sausse, vem a público "O Céu e o Inferno". Em 6 de janeiro de 1868 era editado o quinto livro da Codificação: "A Gênese".

A Doutrina Espírita está Codificada: Ciência, Filosofia e Religião, os três pilares da monumental edificação - produto da aliança estabelecida entre os dois planos da vida.

O Espiritismo se expande por toda parte, levando a todos os corações O Consolador prometido por Jesus. O Mensageiro do Cristo já não tem a saúde dos primeiros tempos; o coração cansado, pelo excesso de trabalho e por fortes emoções, resolve retirar-se para local onde já tinha casa de sua propriedade. Os colaboradores estão em condições de prosseguir na tarefa de divulgação.

Último dia de março, 1869, nos escritórios da Revista Espírita Allan Kardec ultima os preparativos, ordenando tudo a fim de poder transferir-se para a Avenida e Vila Ségur, 39.

Não há tempo, "o bom-senso encarnado" ali mesmo tomba em conseqüência da ruptura de um aneurisma. E o Codificador, aos 65 anos, retorna à Pátria Espiritual com a consciência tranqüila pelo dever bem cumprido.

"Todos os jornais consagram um artigo especial à memória daquele homem" que, com saber, dignidade e renúncia erigiu, com as revelações dos Espíritos, um monumental corpo de doutrina.

Assim, o Espiritismo, nos seus aspectos filosófico, científico e religioso, vem demonstrar ao homem, de forma lógica e racional, que a dor é produto de seus próprios erros e o progresso depende do esforço encetado nas diferentes reencarnações, instrumento da justiça suprema do Eterno Pai.


Referências Bibliográficas:

  1. Novo Testamento, João, 14:15-18 e 26.
  2. WANTUIL, Zêus e THIESEN, Francisco. Allan Kardec, vol. I, 4ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1990, 210p.
  3. Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Ed. Larousse do Brasil.
  4. KARDEC, Allan. Obras Póstumas, 28ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998, 398p.
  5. KARDEC, Allan. O Livros dos Médiuns, 63ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998, 488p.
  6. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, 114ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1997, 437p.
  7. KARDEC, Allan. Revista Espírita, Anos 1860 e 1869. Ed. Edicel, São Paulo.

Fonte: Reformador (Edição Internet)


texto - http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo717.html

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

KARDEC E DARWIN


José Reis Chaves

Kardec e Darwin foram dois grandes cientistas que vieram ao mundo no alvorecer do Século 19. O primeiro, um médico francês e aluno de Pestalozzi, foi o Codificador do Espiritismo, o segundo era um naturalista e fisiologista inglês. Kardec pesquisou a evolução dos espíritos, Darwin, a dos corpos biológicos.

Nós somos espíritos imortais. E o Nazareno disse que nós devemos buscar a perfeição de Deus, o Pai. Nós somos hoje os espíritos dos homens de ontem, inclusive os dos homens das cavernas. E depois de inúmeras reencarnações, chegamos à evolução e perfeição em que nos encontramos atualmente. Se não houvesse evolução e as reencarnações que a possibilitam, seríamos forçados a pensar que Deus foi muito injusto com aqueles espíritos de outrora dos homens da caverna, que só teriam vivido mais como bichos do que como seres humanos propriamente ditos! A evolução é, pois, uma lei natural tão real como o é a da Gravidade, e é até sagrada.

A Igreja, como afirma o sábio francês padre François Brune, acredita na vida após a morte, ou a chamada vida eterna, mas na prática, tem agido como se ela não existisse, pois não a estuda, e é até contrária ao seu estudo. A mesma coisa se pode dizer dos nossos irmãos protestantes. Isso nos faz lembrar do que o Mestre afirmou, ao referir-se aos sacerdotes judeus de sua época: "Não entram no reino dos céus, e não deixam outros entrarem!". É necessário, pois, que os católicos e protestantes despertem também para o estudo do espírito, e não só do corpo, como vêm fazendo há séculos, pois o espírito é mais importante do que o corpo. "A carne para nada aproveita, o que importa é o espírito que dá vida" (João 6, 63).

Foi revolucionário o livro de Darwin: "Da Origem das Espécies" (1859), principalmente porque ele entrou em choque com as idéias da interpretação literal da Bíblia, quando a exegese e a hermenêutica ainda eram muito elementares e tímidas. A Igreja estava, pois, sem força moral para enfrentar aquele poderoso materialismo efervescente, após a Revolução Francesa, o que se agravava mais ainda pelo fato de ela estar, justamente naquela época, deixando a Inquisição. Foi quando surgiram também os não menos revolucionários livros científicos e espiritualistas de Kardec, entre eles o "O Livro dos Espíritos" (1857), os quais deram um verdadeiro "chega-pra-lá" nas idéias materialistas e anti-religiosas de Darwin e de seus contemporâneos Marx e Compte. Por isso dizemos com o escritor e pastor presbiteriano do Rio de Janeiro, Neemias Marien": "O maior reformador do Cristianismo não é Lutero, mas Allan Kardec." De fato, até Kardec, não se tinha feito ainda um estudo racional e científico da Bíblia.

Darwin foi um dos grandes cientistas da evolução da vida material, e Kardec o foi da evolução da vida do espírito na matéria e fora da matéria!


texto - http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo1540.html

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terça-feira, 10 de agosto de 2010

EINSTEIN E KARDEC - A CONEXÃO ENTRE A CIÊNCIA E A FÉ


Nelson Moraes*

Ambos os personagens históricos usaram o raciocínio em suas áreas

Albert Einstein nasceu em Ulm, pequena cidade ao sul da Alemanha, em 14 de março de 1879, dez anos após o desencarne de Allan Kardec.
Desencarnou em 18 de abril de 1955, no dia em que comemoramos 98 anos do lançamento de O Livro dos Espíritos.
Segundo os historiadores, quando criança sofreu muito com as constantes mudanças de cidade e com as falências das empresas do seu pai. Enfrentou o autoritarismo da escola alemã e os preconceitos raciais tão intensos naquela época. Para a Matemática e as Ciências Naturais, ele era mais do que bem-dotado, possuidor de grande intuição e habilidade lógica; porém, para as disciplinas que exigiam capacidade de memória era um fracasso! Seus familiares acreditavam até que ele possuía algum tipo de dislexia.
Provavelmente, essa dislexia foi providencial, pois se um espírito dotado da evolução espiritual de Albert Einstein dispusesse de um cérebro sem nenhum impedimento, poderia resgatar lembranças de sua vida passada, as quais provavelmente atrapalhariam a sua missão no campo da Ciência, pois reacenderia de uma forma muito mais intensa a sua paixão pelo transcendente, com o qual, certamente, esteve envolvido toda uma vida no passado. Essa deficiência na capacidade de memorização foi superada pela intuição, a qual possuía bastante desenvolvida.
Um espírito dessa envergadura geralmente renasce em lugares cuja cultura e costumes contribuam para que não haja uma associação com a cultura e com os cenários da vida pregressa, ficando assim livre de influências que acentuariam suas tendências, as quais poderiam levá-lo a se envolver com as mesmas questões a que se dedicou no passado.
Prêmio Nobel de Física em 1921, fugindo da Alemanha nazista, chega aos EUA em 17 de outubro de 1933, época em que se interessa por três temas: teoria da relatividade geral, teoria do campo unificado e fundamentos da mecânica quântica.
Alan Whyte e Peter Daniels, autores do livro O FBI e Albert Einstein, publicado em 2002, baseado em um dossiê secreto do FBI, revelam uma campanha de 22 anos de espionagem e calúnias do FBI contra Albert Einstein.
Segundo esse dossiê, sua vida esteve constantemente sob a vigilância do FBI, que não queria que o mesmo viesse conquistar popularidade entre os norte-americanos, pois suas idéias pacifistas, anti-raciais e humanistas não se enquadravam à política adotada pelo governo americano.
O esforço para denegrir a imagem do sábio cientista foi muito acirrado; o fracasso do seu primeiro casamento contribuiu para que lhe atribuíssem atos e afirmações que não condiziam com a sua conduta e com o seu caráter.
Temos de considerar que na história dos grandes homens sempre surgiram boatos construídos nos celeiros da inveja e da vaidade humana, prática comum aos adversários do sucesso alheio. Também é muito comum a construção do mito por parte dos apaixonados.
Todavia, biógrafos como Abraham Pais (que privou da sua amizade), Gerald Holton, Jürgen Renn, Robert Schulmann e Phillip Frank constituem fontes fidedignas, a partir das quais podemos repor a verdade histórica.
Seu suposto envolvimento com a bomba nuclear foi uma das maiores controvérsias geradas pela imprensa para denegrir a imagem desse maravilhoso homem de ciência.
Sua participação na construção da bomba nuclear se iguala à dos filósofos da antigüidade que falavam da existência do átomo e também se iguala à dos cientistas do início do século XIX, que estabeleceram as leis do eletromagnetismo, fundamentais para o estudo das interações nucleares.
Poucos se ocuparam de estudar Einstein o Homem, cujo exemplo traz à baila um trabalho, talvez mais importante do que o de Einstein o Cientista. Sua fé raciocinada revelou durante toda a sua vida uma religiosidade genuína e uma integração cósmica com a realidade que transcende a diminuta realidade em que vivemos, por isso afirmou:
“Existe uma coisa que a longa existência me ensinou: toda a nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e inocente; e, portanto, é o que temos de mais valioso.”
Embora sua origem, não se prendeu à ortodoxia judaica. Sua visão de realidade ampliada lhe permitiu enxergar e reconhecer os valores filosóficos e científicos contidos nos conceitos cristãos, levando-o a afirmar:
“Os mais elevados princípios para nossas aspirações e juízos nos são dados pela tradição religiosa judaico-cristã. Trata-se de uma meta muito elevada que, com nossos parcos poderes, só podemos atingir de maneira muito insatisfatória, mas que dá um sólido fundamento às nossas aspirações e avaliações. Se quiséssemos tirar essa meta de sua forma religiosa e considerar apenas seu aspecto puramente humano, talvez pudéssemos formulá-la assim: desenvolvimento livre e responsável do indivíduo, de modo que ele possa por suas capacidades, com liberdade e alegria, se colocar a serviço de toda a humanidade.”
Percebe-se na vida desse extraordinário cientista uma preocupação com os valores do espírito, levando-o a um esforço muito grande para aproximar a Ciência da Religião:
“Ora, ainda que os âmbitos da Religião e da Ciência sejam em si claramente separados um do outro, existem entre os dois fortes relações recíprocas e dependências.
“Embora possa ser ela o que determina a meta, a Religião aprendeu com a Ciência, no sentido mais amplo, que meios poderão contribuir para que se alcancem as metas que ela estabeleceu. A Ciência, porém, só pode ser criada por quem esteja plenamente imbuído da aspiração da verdade e do entendimento. A fonte desse sentimento, no entanto, brota na esfera da Religião. A esta se liga também a fé na possibilidade de que as regulações válidas para o mundo da existência sejam racionais, isto é, compreensíveis à razão. Não posso conceber um autêntico cientista sem essa fé profunda. A situação pode ser expressa por uma imagem: a ciência sem religião é aleijada, a religião sem ciência é cega.”
“Um conflito surge, por exemplo, quando uma comunidade religiosa insiste na absoluta veracidade de todos os relatos registrados na Bíblia. Isso significa uma intervenção da religião na esfera da ciência; é aí que se insere a luta da Igreja contra as doutrinas de Galileu e Darwin. Por outro lado, representantes da Ciência têm constantemente tentado chegar a juízos fundamentais com respeito a valores e fins com base no método científico, pondo-se assim em oposição à Religião. Todos esses conflitos nasceram de erros fatais.
“Se um dos objetivos da Religião é libertar a humanidade, tanto quanto possível, da servidão dos anseios, desejos e temores egocêntricos, o raciocínio científico pode ajudar a Religião em mais de um sentido.”
Percebe-se claramente em seus conceitos uma profunda preocupação em dilatar as fronteiras da Fé e da Ciência, procurando despertar em ambas uma visão em torno do que transcende às acanhadas fronteiras estabelecidas pela vã cultura humana.
Sua transcendência lhe permitia uma integração prática com a realidade cósmica, demonstrando um grau bastante elevado de espiritualidade; isso fica patente quando afirma:
“Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio e eis que a verdade se me revela.”
Essa característica se consolida quando se refere aos companheiros que se aventuraram a transpor essas limitadas fronteiras:
“É nessa busca da unificação racional do múltiplo (aqui se refere ao transcendente) que a Ciência logra seus maiores êxitos, embora seja precisamente essa tentativa que a faz correr os maiores riscos de se tornar uma presa das ilusões. Mas todo aquele que experimentou intensamente os avanços bem-sucedidos feitos nesse domínio é movido por uma profunda reverência pela racionalidade que se manifesta na existência. Através da compreensão, ele conquista uma emancipação de amplas conseqüências dos grilhões das esperanças e desejos pessoais, atingindo, assim, uma atitude mental de humildade perante a grandeza da razão que se encarna na existência e que, em seus recônditos mais profundos, é inacessível ao homem. Essa atitude, contudo, parece-me ser religiosa, no mais elevado sentido da palavra. A meu ver, portanto, a Ciência não só purifica o impulso religioso do entulho de seu antropomorfismo, como contribui para uma espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.”
O interessante é que nas observações e conceitos desse gênio da ciência surge uma incrível semelhança com os conceitos espíritas. Dá-nos a impressão de que ele os conhecia, ao menos de forma intuitiva. Suas afirmações e a sua visão de mundo são muito parecidas até mesmo na forma com que desenvolve os seus pensamentos.
Vejamos alguns dos pensamentos de Einstein e de Kardec sobre a fé:
Kardec: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.”
Einstein: “Pois uma doutrina que não é capaz de se sustentar à “plena luz”, mas apenas na escuridão, está fadada a perder sua influência sobre a humanidade, com incalculável prejuízo para o progresso humano.”
A linha de raciocínio seguida pelo pensamento de ambos é algo realmente surpreendente, principalmente pelo fato de exercerem atividades em campos diferentes.
Vejamos o pensamento desenvolvido por ambos sobre como reconhecer um criador:
Kardec: “Lançando o olhar em torno de si, sobre as obras da Natureza, notando a providência, a sabedoria, a harmonia que presidem a essas obras, reconhece o observador não haver nenhuma que não ultrapasse os limites da mais portentosa inteligência humana. Ora, desde que o homem não as pode produzir, é que elas são produto de uma inteligência superior à Humanidade, a menos se sustente que há efeitos sem causa.”
Einstein: “A religiosidade de um sábio consiste em espantar-se e extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que, todos os pensamentos humanos e todo seu talento, não podem desvendar. Esse sentimento desenvolve a regra dominante da sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a escravidão dos desejos egoístas.”
Kardec revela a lei de causa e efeito atuando sobre a vida humana.
Einstein a define de forma muito peculiar aos sábios:
“A vida é como jogar uma bola na parede: se jogar uma bola azul, ela voltará azul; se jogar uma bola verde, ela voltará verde; se jogar a bola fraca, ela voltará fraca; se jogar a bola com força, ela voltará com força. Por isso, nunca “jogue uma bola na vida” de forma que você não esteja pronto a recebê-la. A vida não dá, nem empresta; não se comove, nem se apieda. Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos”.
Vimos também como ele elegeu a tradição cristã como meta a ser alcançada pela humanidade. Vejamos como se manifestou o Espírito de Verdade no livro Obras Póstumas a respeito de como Kardec deveria proclamar a Doutrina Espírita:
“Eis que a hora se aproxima em que será preciso declarar abertamente o Espiritismo por aquilo que ele é, e mostrar a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo; a hora se aproxima em que, diante do céu e da Terra, deverás proclamar o Espiritismo como a única tradição realmente cristã, a única instituição verdadeiramente divina e humana.”
Com certeza, a prática cristã raciocinada e liberta dos conceitos equivocados, e tão sonhada por Einstein e Kardec, tende a se consolidar na prática do Espiritismo-Cristão.
Diante dessas comparações, faço uma pergunta: será que ele teve contato com o conhecimento espírita? Isso não posso afirmar, mas, uma coisa é certa: se não teve enquanto encarnado nesta sua última existência, deve ter tido em outra, onde se preparou para realizar tão importante obra. No meu ver, com o trabalho desenvolvido em torno da Energia, ele estabeleceu no cenário científico a incontestável hipótese de que existe uma força intangível atuando sobre a Energia, imprimindo nela a condensação que estabelece a ponderabilidade das formas.

Ainda uma outra coisa se torna patente: ambos trabalharam na mesma obra:

Albert Eisntein atuou na ciência sem se descuidar da importância do transcendente; Allan Kardec trabalhou o transcendente sem se descuidar da importância da ciência. Com isso, construíram um caminho para o encontro da Ciência com a Fé.

Allan Kardec foi o cientista da alma, Albert Einstein deu alma à ciência!

Essas duas admiráveis personalidades trabalharam animadas pelo mesmo espírito de compreensão, almejando o mesmo objetivo: contribuir para desenvolver nos corações humanos uma religiosidade genuína, fundamentada no conhecimento mais amplo e mais profundo da natureza humana.

É inegável que marchamos para o desenvolvimento de uma religiosidade cósmica resultante do encontro da ciência com a fé, o qual trará à lume a natureza espiritual do ser humano e o reconhecimento do Grande Autor das maravilhas do Universo.

O conhecimento espiritual de que dispomos, nós espíritas, reveste-nos da intransferível responsabilidade de estruturarmos nossos celeiros da fé raciocinada despidos do ranço remanescente das religiões dogmáticas e mesmo do ranço acadêmico, entendendo que, enquanto a Ciência prepara as inteligências para esse inevitável encontro, a nós, espíritas, compete prepararmos os corações para essa nova era que se aproxima.


Bibliografia:

  • “Ciência e Religião” (1939-1941) - Págs. 25 a 34. Einstein, Albert, 1870-1955 Título original: “Out of my later years.”
  • Escritos da Maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges - RJ: Editora Nova Fronteira, 1994.
  • “Einstein & Kardec” – A Conexão Entre a Ciência e a Fé – Nelson Moraes – Editora Aulus Ltda. – SP - SP.

*O autor é escritor e conferencista espírita

Fonte: Revista Internacional de Espiritismo – Maio/2005


texto - http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo1515.html

imagem - sebodomessias.com.br

sábado, 10 de abril de 2010

UM DISCURSO DE ALLAN KARDEC


"NA COLEÇÃO DA REVISTA ESPÍRITA HÁ TRECHOS DE PROFUNDO ENSINAMENTO SOBRE ASSUNTOS DOUTRINÁRIOS IMPORTANTES, QUE ATÉ PARECE QUE FORAM ESCRITOS HOJE POR ALLAN KARDEC".

A Revista Espírita (Revue Spirite), cujo primeiro número saiu no dia 1° de janeiro de 1858, e que se chamou igualmente, Jornal de Estudos Psicológicos, é um repositório doutrinário de alto valor histórico e cultural para o conhecimento do Espiritismo. Nenhuma fonte de consulta, no que diz respeito ao verdadeiro pensamento da Doutrina Espírita, além da própria Codificação, poderia ser mais fiel e mais autorizada. Pena é que muita gente não leia. Se há, realmente, quem não leia porque não pode, não tem ambiente nem tempo, também há quem não goste de ler, ainda que haja tempo e vagares.

Há tanta coisa importante naquela coleção da Revista. Bastaria, se não fossem outros assuntos, que todos lessem pelo menos o que está no corpo de alguns discursos de Allan Kardec, pondo em foco, em oportunidades diversas, os mais sérios e mais frisantes problemas do Espiritismo, não apenas para aquele momento, mas para o futuro.

Há trechos, por exemplo, que se ajustam inteiramente ao momento atual; até parece que Allan Kardec estava entre nós, vivendo as nossas experiências. Um dessses discursos, que são páginas de profundo e marcante ensinamento, ainda para os espiritas de hoje, foi o de 10 de abril de 1862, na abertura do ano social, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Está na Revista Espírita de junho daquele ano, logo na primeira página. Falando, a certa altura do discurso, sobre o relativo conhecimento que têm os Espiritos desencarnados, porque não possuem toda a sabedoria, como pensam, ingenuamente, certas pessoas, frisou Allan Kardec, muito de propósito, que os Espíritos estão longe de possuir a soberana ciência, e que se podem enganar. É uma verdade pacífica, uma verdade elementar, não há dúviida, mas o certo é que muita gente não admite, nem por sombra, que um espírito possa errar alguma vez ...

A palavra de um Espírito, para algumas categorias de crentes é uma sentença definitiva: "veio do Alto é a verdade, não se discute" Isto é o que se pode chamar, em tudo por tudo, um raciocínio simplista. E com essa simplicidade, que pode ser, às vezes, muito prejudicial à compreensão da própria Doutrina Espírita, certas frases cediças, que não se sabe se vieram realmente do Espírito ou do médium, passam logo a tomar foros de dogma, como se fossem a última palavra, como se fosse a própria sapiência divina. Até mesmo uma frase literária, que apenas soa muito bem aos nossos ouvidos, mas não tem a necessária consistência científica ou filosófica, pelo simples fato de ser de um Espírito, adquire uma importância tal que termina sendo, em suma, um caso de "citação obrigatória".

Tudo isto, afinal de contas, está em desacordo com o verdaadeiro espírito da Doutrina. E bom lembrar, ainda mais, a advertência de que os Espíritos, por vezes, ensina Kardec, "emitem idéias próprias, justas ou falsas". Veja-se bem: idéias próprias, diz o Codificador. A opinião de um espírito seja qual for o médium, seja qual for a categoria desse espirito - é sempre uma opinião própria, não é um princípio doutrinário. E ainda Kardec quem fala: os espíritos superiores querem que o nossso julgamento se exercite em discernir o verdadeiro do falso, aquilo que é racional daquilo que é ilógico. Nada mais sensato, mais oportuno. O problema existe, ainda hoje, os exemplos estão aí.

As palavras de Kardec, que falava em Paris, no ano de 1861, ainda servem, inteiramente, para o momento atual.

A opinião de um Espírito - seja qual for o médium, seja qual for a categoria desse Espirito - é sempre uma opinião própria, não é um princípio doutrinário.

É preciso levar em conta, sempre, que o médium não é um oráculo, como não é um santo: é uma criatura em situação especial na vida, com uma carga pesadíssima de responsabilidade espiritual e humana. Em lugar de se endeusar o médium, querendo fazer dele um ser infalível, como se não fosse também uma criatura humana, sujeita a certos riscos do ambiente terreno, o que se deve fazer é ajudá-lo com assistência espiritual, é apoiá-lo moralmente, evitando que certas idéias perigosas, certas presunções de superioridade ou de santidade lhe penetrem a alma. Devemos orar sempre pelo médium que é um irmão, colocado em posição delicadíssima, a fim de que ele jamais se deixe envolver por influências negativas e seja um instrumento cada vez mais eficiente na missão que a sabedoria divina lhe colocou sobre os ombros.

Não é de hoje que se observa o problema dos melindres no campo mediúnico, prejudicando e desvirtuando muitos médiuns da bendita seara da caridade. Lembremo-nos, como simples ilustração histórica, que já na época de Kardec, e vai para mais de um século. havia uns tantos casos de médiuns que desconfiavam dos outros com medo que lhe fizessem sombra ou lhe apagassem a projeção. O problema vem de muito longe. Isto, na realidade, é uma porta aberta para a desorientação, podendo levar o médium a comprometer gravemente a sua missão ou sacrificar todo o seu passado.

Quando entra qualquer forma ou resquício de suscetibilidade na esfera mediúnica, começa a aparecer também o espírito de concorrência, isto é, o médium A tem receio de que o médium B venha concorrer com ele; o médium C fica prevenido com o médium D, pensando que o outro venha a suplantá-lo e assim por diante. Muitas vezes os problemas ocorrem por culpa dos comportamentos exagerados, que formam partidos ou alas no campo mediúnico, jogando um médium contra outro. Quem o maior prejudicado? O próprio médium, não é verdade? Quem sofre com ísto: A própria causa espírita, que perde, assim, um instrumento produtivo.

Quando o médium chega a ponto de não aceitar críticas nem advertências sensatas e amigas, naturalmente já está fora das verdadeiras diretrizes da misssão mediúnica. Para rematar, vamos reproduzir, aqui, mais uma oportuníssima observação de Allan Kardec, no magistral discurso de 1862: como discutir comunicações com médiuns que não suportam a menor controvérsia, que se melindram com uma observação crítica, com uma simples observação e acham mau que não se aplaudam as coisas que recebem, mesmo aquelas inçadas de grosseiras heresias cientificas? Eis, aí, uma advertência ainda necessária, porque o problema se repete, ainda hoje, e a cada passo de nosso movimento.

Se a comunicação é do Espírito, pois o médium é apenas instrumento, não há motivo para qualquer indisposição ou mágoa do "aparelho mediúnico" diante das criticas, especialmente quando as criticas são construtivas e caridosas. Vem, por fim, nova e judiciosa observação do Codificador: Disso resulta que o médium que se acha em tais disposições está sob o império de um Espírito que merece pouca confiança, desde que mostra mais orgulho do que saber. Deixemos o resto do discurso de Allan Kardec para outros comentários, naturalmente quando houver oportunidade. A fonte está ai, já traduzída para a nossa língua, e, portanto, aberta a qualquer pessoa que se interesse pelo assunto. Seria bom, na realidade, que o maior número possível de espíritas, simpatizantes e principiantes lesse a preciosa coleção da Revista Espírita.

Não nos esqueçamos de que o médium precisa ser livre para ouvir e julgar as crííticas que se lhe fazem e, por isso mesmo, o médium não pode ficar preso a uma instituição, nem a um grupo nem a uma pessoa, como se fosse propriedade particular. O médium precisa mais de oração e solidariedade espiritual do que propriamente de aplausos ou de preferências incondicionais. E' um erro querer transformar o médium em motivo de puro vedetismo. A experiência que o diga.

Deolindo Amorim - Jornal Espírita - julho/07



endereço: http://www.comunidadeespirita.com.br/
imagem: internet


domingo, 27 de setembro de 2009

NECESSIDADE DE ESTUDO DE KARDEC PARA DISCERNIMENTO DOUTRINÁRIO




Autor: J. Herculano Pires

Há muitas confusões, feitas intencionalmente ou não, entre o Espiritismo e numerosas formas de crendice popular, inclusive as formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, hoje largamente difundidas. adversários da doutrina espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões, com o fim de afastar do Espiritismo as pessoas cultas. Por outro lado, alguns espíritas mal-orientados, que não conhecem a própria doutrina, colaboram nesse trabalho de confusão, admitindo como doutrinárias as mais estranhas manifestações mediúnicas e as mais evidentes mistificações.

Alguns leitores se mostram justamente alarmados com a larga aceitação que vem tendo, em certos meios doutrinários, práticas de Umbanda e comunicações de Ramatis. E nos escrevem a respeito, pedindo uma palavra nossa sobre esses assuntos. Na verdade, já escreve­mos numerosas crônicas tratando da necessidade de vigilância nos meios espíritas, de maior e mais seguro conhecimento dos nossos princípios, e apontando os perigos decorrentes do entusiasmo fácil, da aceitação apressada de certas inovações. Mas, para atender às solicitações, voltaremos hoje ao assunto.

Kardec dizia, com muita razão, que os adeptos demasiado entusiastas são mais perigosos para a doutrina do que os próprios adversários. Porque estes, com­batendo o que não conhecem, evidenciam a própria fraqueza e contribuem para o esclarecimento do povo, enquanto os adeptos de entusiasmo fácil comprometem a causa. O que estamos vendo hoje, no meio espírita brasileiro, não é mais do que a confirmação dessa assertiva do codificador. Espíritas demasiado entusiastas estão sempre prontos a receber qualquer “nova revelação” que lhes seja oferecida, e a divulgá-la sofregadamente, como verdades incontestáveis. Que diferença entre o equilíbrio e a ponderação de Kardec e essa afoiteza inútil e prejudicial!

No tocante à Umbanda, já dissemos aqui, numerosas vezes, que se trata de uma forma de sincretismo religioso, ou seja, de mistura de religiões e cultos, com a qual o Espiritismo nada tem a ver. As formas de sincretismo religioso são, praticamente, as nebulosas sociais de que nascem as novas religiões. A Umbanda já superou a fase inicial de nebulosa, estando agora em plena fase de condensação. E por isso que ela se difunde com mais intensidade. Já se pode dizer que é uma nova religião, formada com elementos das crenças africanas e indígenas, misturados a crenças e formas de culto do catolicismo e do islamismo em franco desenvolvimento entre nós. O Espiritismo não participou da sua formação, embora os nossos sociólogos, em geral, exatamente por desconhecerem o Espiritismo, digam o contrário, pois confundem o mediunismo primitivo, de origem africana e indígena, com os princípios de uma doutrina moderna. Nós, espíritas, devemos respeitar na Umbanda uma religião nascente, mas não pode­mos admitir confusões entre as suas práticas sincréticas e as práticas espíritas.

Quanto às mensagens de Ramatis, também já tive­mos ocasião de declarar que se trata de mensagens mediúnicas a serem examinadas. De nossa parte, consideramo-las como mensagens confusas, dogmáticas, vaza­das na linguagem típica dos espíritos pseudo-sábios, a que Kardec se refere na escala espírita de O Livro dos Espíritos. Cheias de afirmações absurdas, e até mesmo contraditórias, essas mensagens revelam uma fonte que devia ser encarada com menos entusiasmo e com mais cautela pelos espíritas. Em geral, nossos confrades se entusiasmam com “as novas revelações” aparentemente contidas nas mesmas, esquecendo-se de passá-las, como aconselhava Kardec, pelo crivo da razão.

O que temos de aconselhar a todos, pelo menos a todos os que nos consultam a respeito, é mais leitura e mais estudo de Kardec, e menos atenção a espíritos que tudo sabem e a tudo respondem com tanta facilidade, usando sempre uma linguagem envolvente, em que nem todos sabem dividir a verdade do erro. “O Espiritismo”, dizia Cairbar Schutel, “é uma questão de bom-senso”. Procuremos andar de maneira sensata, na aceitação de mensagens mediúnicas.


Extraído do livro: O Mistério do Bem e do Mal



endereço:http://www.oespiritismo.com.br/textos/ver.php?id1=238
imagem: internet



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