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quinta-feira, 29 de abril de 2010

A DEPRESSÃO NA VISÃO ESPÍRITA


Dr. Wilson Ayub Lopes
Médico Cardiologista

A depressão pode ser conceituada como uma alteração do estado de humor, uma tristeza intensa, um abatimento profundo, com desinteresse pelas coisas. Tudo perde a graça, o mundo fica cinza, viver torna-se tarefa difícil, pesada, com idéias fixas e pessimistas.

Poderíamos considerá-la como uma emoção estragada. As emoções naturais devem ser passageiras, circularem normalmente, sem desequilibrar o ser. A tristeza, por exemplo, é uma emoção natural, que nos leva a entrar em contato conosco, à introspecção e à reflexão sobre nossas atitudes. Agora, uma vez estagnada, prolongada, acompanhada de sentimento de culpa, nos leva a depressão.

Podemos dividir a "depressão" em três formas, de acordo com o fator causal:

  • Depressão Reativa ou Neurose Depressiva: esta depende de um fator externo desencadeante, geralmente perdas ou frustrações, tais como separação, perda de um ente querido, etc.
  • Depressão Secundária a Doenças Orgânicas: acidente vascular cerebral ("Derrame"), tumor cerebral, doenças da tireóide, etc.
  • Depressão Endógena: por deficiência de neurotransmissores. Exemplos: depressão do velho, depressão familiar e psicose maníaco-depressiva.
Estima-se que a depressão incida em cerca de 14% da população, ou seja, temos no Brasil cerca de 21 milhões de deprimidos.

Ela afeta todo o ser, acarretando uma série de desequilíbrios orgânicos, sobretudo, comprometendo a qualidade de vida, tornando a criatura infeliz e com queda do seu rendimento pessoal.

André Luiz cita nas suas obras que os estados da mente são projetados sobre o corpo através dos bióforos que são unidades de força psicossomáticas, que se localizam nas mitocôndrias. A mente transmite seus estados felizes ou infelizes a todas as células do nosso organismo, através dos bióforos. Ela funciona ora como um sol irradiando calor e luz, equilibrando e harmonizando todas as células do nosso organismo, e ora como tempestades, gerando raios e faíscas destruidoras que desequilibram o ser.

Segundo Emmanuel, a depressão interfere na mitose (divisão) celular, contribuindo para o aparecimento do câncer e de outras doenças imunológicas, sobretudo a deficiência imunitária facilitando às infecções.

Na depressão existe uma perda de energia vital no organismo, num processo de desvitalização. O indivíduo perde energia por dois mecanismos principais:

  1. Perde sintonia com a Fonte Divina de Energia Vital: o indivíduo não se armando como deve, com sentimento de auto-estima em baixa, afasta de si mesmo, da sua natureza divina, elo de ligação com a fonte inesgotável do Amor Divino. Além do mais, o indivíduo ao se fechar em seus problemas e suas mágoas, cria um ambiente vibracional negativo, que dificulta o acesso da espiritualidade Maior em seu benefício.
  2. Gasto Energético Improdutivo: o indivíduo ao invés de utilizar o seu potencial energético para desenvolver potencialidades evolutivas, vivendo intensamente as experiências e os desafios que a vida lhe apresenta, desperdiça energia nos sentimentos de auto-compaixão, tristeza e lamentações. Sofre e não evolui.
Causas principais

A depressão está freqüentemente associada a dois sentimentos básicos: a tristeza e culpa degenerada em remorso.

Quando por algum motivo infringimos a lei natural, ao tomarmos consciência do erro cometido, temos dois caminhos a seguir:

  1. Erro > Consciência > Arrependimento > Tristeza > Reparação.
  2. Erro > Consciência > Culpa-remorso (idéia fixa) > Depressão.
O primeiro caminho é meio natural de nosso aperfeiçoamento. Uma vez tomando consciência de nossas imperfeições e erros cometidos, empreendemos o processo de regeneração através de lições reparadoras.

De outra maneira, se ao invés nos motivarmos a nos recuperarmos, nós nos abatermos, com sentimento de desvalia, de auto-punição, e permanecermos atrelados ao passado de erros, com idéias fixas e auto-obsessivas, nós estaremos caminhando para o estado de depressão, que é improdutivo no sentido de nossa evolução.

Outra condição que nos leva à depressão é citada pelo espírito de François de Geneve no Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo V, Item 5 (A Melancolia), onde relata que uma das causas da tristeza que se apodera de nossos corações fazendo com que achemos a vida amarga é quando o Espírito aspira a liberdade e a felicidade da vida espiritual, mas, vendo-se preso ao corpo, se frustra, cai no desencorajamento e transmite para o corpo apatia e abatimento, se sentindo infeliz. Para François Geneve então, a causa inicial é esta ânsia frustrada de felicidade, liberdade almejada pelo espírito encarnado, acrescido das atribulações da vida com suas dificuldades de relacionamento interpessoal, intensificada pelas influências negativas de espíritos encarnados e desencarnados.

Outro fator que está determinando esta incidência alarmante de depressão nos nossos dias é o isolamento, a insegurança e o medo que estão acometendo as pessoas na sociedade contemporânea.

Absorvido pelos valores imperantes como o consumismo, a busca do prazer imediato, a competitividade, a necessidade de não perder, de ser o melhor, de não falhar, o homem está de afastando de si e de sua natureza. Adota então uma máscara (persona), que utiliza para representar um "papel" na sociedade. E, nesta vivência neurotizante, ele deixa de desenvolver sua potencialidades, não se abre, nem expõe suas emoções, pois estas demonstram que de fato ele é. Enclausurado, fechado nesta carapaça de orgulho e egoísmo, ele se isola e se sente sozinho. Solidão, não no sentido de estar só, mas de se sentir só. Mais do que se sentir só é a insatisfação da pessoa com a vida e consigo mesma.

O indivíduo nessa situação precisa se cercar de pessoas e de coisas para ficar bem, pois, desconhece que ele se basta pelo potencial divino que tem.

A solidão é conseqüência de sua insegurança, de sua imaturidade psicológica. Nos primeiros anos de vida, a criança enquanto frágil e insegura, é natural que tenha necessidade de que as pessoas vivam em função delas, dando-lhes atenção e proteção. É a fase do egocentrismo, predominantemente receptiva. Com o seu amadurecimento, começa a criar uma boa imagem de si, tornando-se mais seguro, e a partir de então, passa a se doar, a se envolver e a participar mais do mundo. O que acontece é que certas pessoas, por algum motivo, têm dificuldades neste processo de amadurecimento afetivo, mantendo-se essencialmente receptivas e não participativas, exigindo carinho, respeito e atenção, sem se preocuparem da mesma forma com os outros. Fazem-se de vítimas, pobre coitados, sem as responsabilizarem por si.

Conseguem o seu equilíbrio às custas das conquistas exteriores. A primeira frustração que se deparam, não toleram, pois expõe suas fraquezas e isto motiva um quadro de depressão.

Em alguns idiomas, doença e vazio têm a mesma tradução. A doença seria decorrente de um vazio de sentimentos que gera depressão e adoece o ser.

Um indivíduo quando perde a capacidade de se amar, quando a auto-estima está debilitada, passa a ter dificuldade de amar o semelhante, pois o sentimento de amor, de generosidade para com o próximo, é um sentir de dentro para fora. Este sentimento de amor ao próximo, nada mais é do que uma extensão do nosso amor, da nossa sintonia com o Deus interior que nós temos em nós. A pessoa que tem dificuldade nesta composição de amar a si e, por conseqüência, amar o próximo, deixa de receber o amor e a simpatia do outro, e não consegue entra em sintonia com a fonte sublime inesgotável do Amor Divino. Nós limitamos aquilo que recebemos de Deus, na medida do quanto doamos ao próximo. Quem ama muito, muito recebe. Quem pouco ama, pouco recebe. Esse afastamento de si, e por conseguinte de Deus, gera a tristeza, o vazio, a depressão e a doença.

Tratamento

A depressão é um sintoma que nos diz que não estamos nos amando como deveríamos.

O caminho para sairmos dela é preencher este vazio com a recuperação da auto-estima e do amor em todos os sentidos. Primeiro, procurando nos conhecer e nos analisar, com o intuito de nos descobrirmos, sem nos julgarmos, sem nos punirmos ou nos culparmos. E depois, nos aceitarmos como somos, com todas as nossas limitações, mas sabendo que temos toda potencialidade divina dentro de nós, esperando para desabrochar como sementes de luz. Isto nada mais é do que desenvolver a fé em si e no criador, sentimento este que transforma e que nos liga diretamente a Deus.

Uma pessoa consciente de sua riqueza interior passa a ter segurança e fé nas suas potencialidades infinitas, começando a gostar e acreditar em si, amando-se e a partir de então, sentindo necessidade de expandir este sentimento a tudo e todos. Começa assim a se despertar para os verdadeiros valores da vida espiritual, se transformando numa pessoa feliz e sorridente, pois onde existe seriedade, há algo de errado; a seriedade está ligada ao ser doente. Sorria e seja feliz amando e servindo sempre.

A terapia contra a depressão se baseia no amar e no servir, se envolvendo em trabalhos úteis e no serviço do bem. Seja no trabalho profissional, no trabalho do lazer, ou no trabalho de servir ao próximo, o indivíduo se ocupa, exercita o amor, e deixa de se envolver com as lamentações, pois a infelicidade faz seu ninho no escuro dos sentimentos de cada um. Dificilmente conheceremos um deprimido, entre aqueles que trabalham a serviço do bem.

Para doarmos este amor, não basta somente fazermos obras de caridade, temos que nos tornarmos caridosos; antes de fazermos o bem temos que ser bons. Darmos um pão, um agasalho, mais junto colocarmos uma boa dose de afeto e carinho. Ser acima de tudo generosos, que é a caridade com afeto. As pessoas estão com fome de amor, de calor humano, um ombro amigo, um abraço, um aconchego e uma palavra de carinho.

Às vezes, com um simples sorriso, um bom dia, um olhar afetuoso, nós estamos doando energia e transmitindo vida.

O homem alcançou um enorme progresso intelectual, satisfazendo suas necessidades materiais com os avanços tecnológicos. Porém, ainda se depara com enormes dificuldades na convivência fraterna com o seu semelhante. Estamos cada vez mais próximos um dos outros através dos meios de comunicação e, no entanto, mais afastados emocionalmente. Agora, o homem está sentindo a necessidade premente de desenvolver a afetividade, de se envolver, amar e sentir o seu semelhante.

Temos que ressuscitar e liberar a criança que está esquecida dentro de nós. Para resgatarmos esta criança que adormece em nós, é necessário que vejamos o mundo de forma positiva e otimista. A nossa criança interior, geralmente se encontra retraída e oprimida, porque a vida nos apresenta de forma desagradável; ainda não vivemos de forma natural, espontânea e isto gera ansiedade e sofrimento. Como a criança é movida pelo prazer, ela se recolhe e não se manifesta.

A criança não se julga, não se pune. Ela apenas vive o hoje, o agora, integrada perfeitamente a Deus e à natureza. "Deixai vir a mim as criancinhas porque o reino dos céus é de quem vos assemelham" - com estas palavras quis Jesus dizer que teremos que ser puros, autênticos, integrados com a nossa natureza divina, sem fugas ou máscaras, para alcançarmos a nossa evolução espiritual. Ter atitudes simples, como lidar com animais, brincar com crianças, atividades criativas como a pintura, tocar um instrumento, fazer pequenas tarefas domésticas, cozinhar, manter uma conversa amena, contar um caso, ver um bom filme, escutar uma música, cantar, sorrir, ouvir com atenção, olhar com ternura, tocar as pessoas, abraçar, fazer um elogio sincero, curtir a natureza, admirar o por do sol, etc. Estas são tarefas que muito lhe ajudará a reencontrar o equilíbrio e a harmonia interior.

Manter sempre o bom humor. Aquele que tem no ideal de servir uma meta de vida, será sempre uma pessoa feliz. Na vida o que mais importa é o amor e o bem querer das pessoas, viver suas emoções; não se deixar afetar por coisas pequenas. Muitas vezes nos deixamos abater por problemas, que se olharmos com olhos de Espíritos Eternos em passagem pela Terra, não valorizaríamos.

Substituir sentimentos de auto-piedade por vibrações em favor dos que sofrem. Se olharmos com atenção e interesse ao nosso redor, veremos que existem pessoas com problemas muito piores, que o nosso a pedir socorro.

Procurar praticar atividades físicas regulares, como a caminhada, um esporte, um lazer. A mente parada começa a criar pensamentos negativos, que se assemelham a lixos amontoados dentro de casa. Com estas atividades, você estará desviando sua mente destes pensamentos deletérios.

Tornar-se empreendedor, dinâmico, criando idéias novas e construtivas em benefício do semelhante, com motivação para implementá-las, junto ao grupo ou a comunidade que pertence. Não fique estagnado esperando que a coisas aconteçam em seu favor. Aja em favor do próximo e não se surpreenda se você for o mais beneficiado.

Leituras edificantes, uma conversa com um amigo, um terapeuta ou um orientador espiritual, ajuda você a ver o problema por um outro ângulo.

A oração é um recurso indispensável no processo de recuperação. Através dela estabelecemos sintonia com a Espiritualidade Maior, facilitando o caminho para que nos inspirem e revigorem nossas energias.

Não nascemos para sofrer. A vontade de Deus é a nossa alegria e a nossa felicidade. Se sofrermos é por nossa causa. Os nossos problemas e nossas dificuldades devem ser interpretadas como instrumentos para nossa evolução.

Nunca devemos nos deprimir ou nos revoltar contra eles. O melhor aprendizado, é aquele que tiramos de nossa própria vida.

Vocábulo "crise" em algumas línguas pode ter dois significados: a oportunidade ou perigo. Oportunidade de crescimento ou perigo de queda.

O que importa é sabermos que os problemas, que deparamos na vida só surgem quando já temos condições de solucioná-los. Como disse o Mestre Jesus: "O Pai não coloca fardos pesados em ombros fracos". Deste modo, ficamos mais fortes ao saber que temos todas as condições interiores, para enfrentar as dificuldades que a vida nos apresenta.

Ter consciência, que acima de tudo, tem um Deus maior a zelar por nós e que nunca nos abandona. Confiar em Jesus e seguir seu exemplo de vida: "Eu sou o Bom Pastor; tende bom ânimo; não se turbe o vosso coração; vinde a mim vós que andais fatigados, cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei".

Suicídio

Uma das causas de suicídio é o indivíduo se achar impotente e fraco para enfrentar suas dificuldades. Ele se julga inferior, incapaz, vítima da sociedade, desprezando a força que tem. Aí os problemas passam uma dimensão muito maior, e ele se vê impossibilitado para resolvê-los.

Segundo esta linha de raciocínio, não existe pessoa "fraca" a ponto de não suportar um problema, que ele julga, de certa forma, demasiado para si. O que de fato ocorre é que esta criatura não teve força de mobilizar a sua vontade própria para enfrentar aquele desafio. Preferiu fugir, acreditando poder se libertar daquela situação. Só que não irá conseguir, pois a morte é apenas uma mudança de estado. A pessoa continua sendo a mesma, com os mesmos sentimentos e os mesmos problemas.

O mais grave é que o suicida acarreta danos ao seu perispírito. Quando voltar a reencarnar, além de enfrentar os velhos problemas ainda não solucionados, terá acrescido a necessidade de reajustar a sua lesão perispiritual.

Devemos ter a vontade firme de eliminar o mal invasivo da depressão, e vários caminhos podem ser percorridos: tratamento medicamentoso (às vezes necessário), trabalho espiritual incluindo a desobsessão, água fluidificada, passes magnéticos, trabalho beneficente, mudança de atitude mental, etc.

Após iniciado o processo de recuperação é necessário que nos tornemos vigilantes, pois é muito comum a melhora cíclica, com altos e baixos. "Vigiai e orai". É importante aproveitar os períodos de melhora para empreender trabalhos edificantes no bem, consolidando as conquistas efetuadas.

Uma coisa fundamental que devemos ter consciência é que ninguém e nada tem a capacidade de nos fazer infelizes se não quisermos. O centro de gravidade do nosso equilíbrio psico-emocional tem que estar localizado dentro de nós e não nas coisas exteriores.

Não se deve condicionar a sua felicidade a algo que aconteça ou esperar que alguém o faça feliz. Estando com o seu centro de equilíbrio estável, se amando e se aceitando como é, você passa a viver o agora e aceitar as pessoas e as circunstâncias como elas são. Além disto, passamos a ver as qualidades do outro e não os seus defeitos, pois, geralmente vemos o outro como um reflexo do nosso estado íntimo.

Não aceite o convite para sofrer, que venha de outra pessoa ou de você para você mesmo. Proteja-se. Emita pensamentos bons.

Nada pode abalar aquele que alcançou o amor, a paz, a harmonia interior e sobretudo a Fé em Deus.

Bibliografia

Kardec, Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo - 2ª edição - FEB - Capítulo V, Item 25.
Franco, Divaldo Pereira - O Homem Integral - 3ª edição - Livraria Espírita Alvorada.
Xavier, Francisco Cândido - Missionários da Luz - FEB - 21ª edição.
Revista Espírita Allan Kardec - Ano X - n. 37.
Xavier, Francisco Cândido - O Consolador - FEB - 13ª edição.
Silva, Marco Aurélio (Dr) - Editora Best.

Fonte:
Boletim Informativo da Associação Médico-Espírita do Estado do Espírito Santo. Outubro de 1998. Ano 1. Número 1.


endereço: http://www.ameees.org.br/p070004.htm

imagem: logon.prozis.pt


sexta-feira, 2 de abril de 2010

MUITAS FORMAS DE CÂNCERES TÊM SUA GÊNESE NO COMPORTAMENTO MORAL


Recentemente, na Califórnia, nos Estados Unidos, Hannah Powell-Auslam, uma menina de 10 anos de idade, foi diagnosticada com câncer de mama, um caso considerado, extremamente, raro (carcinoma secretório invasivo). Os médicos fizeram uma mastectomia, mas o câncer se espalhou para um nódulo e Hannah terá que passar por outra cirurgia, ou por tratamento de radioterapia. Outro caso instigante é o das duas gêmeas idênticas britânicas, diagnosticadas com leucemia, com apenas duas semanas de intervalo. O drama das meninas Megan e Gracie Garwood, de 4 anos, começou em agosto de 2009. "Receber a notícia de que você tem três filhos e dois deles têm câncer é inimaginável", afirmou a mãe das meninas. "Você fica pensando o que fez para merecer isso". Câncer é uma palavra derivada do grego "karkinos", a figura mitológica de um caranguejo gigante, escolhida por Hipócrates, para representar úlceras de difícil cicatrização e que, ao longo do tempo, consagrou-se como sinônimo genérico das neoplasias malignas. Há mais de cem tipos diferentes de câncer, que variam, ao extremo, em suas causas, manifestações e prognósticos.

Diferentemente do câncer em adultos, em que se leva em conta aspectos do comportamento como fumo, alcoolismo, alimentação, sedentarismo e exposição ao sol, a medicina, ainda, não conseguiu estabelecer os verdadeiros fatores de risco do câncer pediátrico. Os casos de Hannah Powell-Auslam, Megan e Gracie Garwood bem que podem entrar nas estatísticas brasileiras do câncer infanto-juvenil, que atinge crianças e adolescentes de um a 19 anos. Segundo pesquisa divulgada pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) e pela Sobop (Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica), o câncer é a doença que mais mata os jovens, na faixa dos cinco aos 18 anos, no Brasil. Pesquisa indica o surgimento de, aproximadamente, 10 mil casos de câncer infanto-juvenil, a cada ano, no Brasil, a partir do biênio 2008/2009. O agravante é que o câncer, nos adolescentes, costuma ser mais agressivo do que nos adultos, e é mais difícil de ser diagnosticado, segundo Luiz Henrique Gebrin, Diretor do Departamento de Mastologia do Hospital Pérola Biynton, em São Paulo (SP).

Será o câncer, então, uma obra do acaso, uma "punição divina" ou um "carma" do espírito? Hoje, à luz da Ciência médica, pode-se afirmar que o fator predominante da carcinogênese é, sem dúvida, o comportamento humano: tabagismo, abuso de álcool, maus hábitos alimentares e de higiene, obesidade e sedentarismo, os quais são responsáveis por quatro, em cada cinco casos de câncer e por 70% do total de mortes. Os cânceres por herança genética pura, ou seja, que não dependem de fatores comportamentais e ambientais, são menos de 5% do total.

A experiência corrobora, pois, que o câncer é uma enfermidade, potencialmente, "cármica". Estamos submetidos a um mecanismo de causa e efeito que nos premia com a saúde ou corrige com a doença, de acordo com nossas ações. A criança de hoje foi o adulto de antanho. "O corpo físico reflete o corpo espiritual que, por sua vez, reflete o corpo mental, detentor da forma". (1) "Os que se envenenaram, conforme os tóxicos de que se valeram, renascem, trazendo as afecções valvulares, os achaques do aparelho digestivo, as doenças do sangue e as disfunções endocrínicas, tanto quanto outros males de etiologia obscura; os que incendiaram a própria carne amargam as agruras da ictiose ou do pênfigo; os que se asfixiaram, seja no leito das águas ou nas correntes de gás, exibem os processos mórbidos das vias respiratórias, como no caso do enfisema ou dos cistos pulmonares; os que se enforcaram carreiam consigo os dolorosos distúrbios do sistema nervoso, como sejam as neoplasias diversas e a paralisia cerebral infantil; os que estilhaçaram o crânio ou deitaram a própria cabeça sob rodas destruidoras, experimentam desarmonias da mesma espécie, notadamente as que se relacionam com o cretinismo, e os que se atiraram de grande altura reaparecem, portando os padecimentos da distrofia muscular progressiva ou da osteíte difusa." (2)

"A cura para o câncer não deverá surgir nos próximos dez anos" (3) é o que afirma o articulista da Revista Time, Shannon Browlee. Talvez os cientistas nunca encontrem uma única resposta, um único medicamento capaz de restaurar a saúde de todos os pacientes com câncer, porque um tumor não é igual ao outro. Os espíritas sabem que não existem doenças e sim doentes. Em verdade, "todos os sintomas mentais depressivos influenciam as células em estado de mitose, estabelecendo fatores de desagregação." (4) Apesar dos consideráveis avanços tecnológicos, em busca do diagnóstico precoce e do tratamento eficaz, a Medicina e a Ciência, em geral, estão, ainda, distantes de dominarem o comportamento descontrolado das células neoplásicas.

Obviamente, não precisamos insistir na busca de vidas passadas para justificar o câncer: As estatísticas demonstram grande incidência de câncer no pulmão, em pessoas que fumam na atual encarnação. Muitas formas de cânceres têm sua gênese no comportamento moral insano atual, nas atitudes mentais agressivas, nas postulações emocionais enfermiças. "O mau-humor é fator cancerígeno que ora ataca uma larga faixa da sociedade estúrdia." (5) O ódio, o rancor, a mágoa, a ira são tóxicos fulminantes no oxigênio da saúde mental e física, consomem a energia vital e abrem espaços intercelulares para a distonia e a instalação de doenças. São "agentes poluidores e responsáveis por distúrbios emocionais de grande porte, são eles os geradores de perturbações dos aparelhos respiratório, digestivo, circulatório. Responsáveis por cânceres físicos, são as matrizes das desordens mentais e sociais que abalam a vida" (6)

Falando sobre doença cármica, "o câncer pode, até, eliminar as sombras do passado, mas não ilumina a estrada do porvir. Isso depende de nossas ações, da maneira como arrostamos problemas e doenças.

Quando a nossa reação diante da dor não oprime aqueles que nos rodeiam, estamos nos redimindo, habilitados a um futuro luminoso. "Quando nos rendemos ao desequilíbrio ou estabelecemos perturbações em prejuízo contra nós (...), plasmamos nos tecidos fisiopsicossomáticos determinados campos de ruptura na harmonia celular, criando predisposições mórbidas para essa ou aquela enfermidade e, conseqüentemente, toda a zona atingida torna-se passível de invasão microbiana." (7) Outra situação complicada é o aborto que "oferece funestas intercorrências para as mulheres que a ele se submetem, impelindo-as à desencarnação prematura, seja pelo câncer ou por outras moléstias de formação obscura, quando não se anulam em aflitivo processo de obsessão." (8)

O conhecimento espírita nos auxilia a transformar a carga mental da culpa, incrustada no perispírito, e nos possibilita maior serenidade ante os desafios da doença. Isso influenciará no sistema imunológico. Os reflexos dos sentimentos e pensamentos negativos que alimentamos se voltam sobre nós mesmos, depois de transformados em ondas mentais, tumultuando nossas funções orgânicas.

Para todos os males e quaisquer doenças, centremos nossos pensamentos em Jesus, pois nosso bálsamo restaurador da saúde é, e será sempre, o Cristo. Ajustemo-nos ao Evangelho Redentor, pois o Mestre dos mestres é o médico das nossas almas enfermas.


FONTES:
(1) Xavier, Francisco Cândido. Evolução em Dois Mundos , ditado pelo espírito André Luis 15ª edição, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1997.
(2) Xavier Francisco Cândido. Religião dos Espíritos, Rio de Janeiro: 11ª Edição Ed. FEB - (Mensagem psicografada por em reunião pública de 03/07/1959)
(3) Transcrita em um caderno especial na Folha de São Paulo de 4 de novembro de 1999
(4) Xavier, Francisco Cândido. Pensamento e Vida, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2000
(5) Franco, Divaldo. Receita de Paz, ditado pelo espírito Joanna de Angelis, Salvador: Ed. Leal, 1999
(6) FRANCO, Divaldo Pereira. O Ser Consciente, Bahia, Livraria Espírita Alvorada Editora, 1993
(7) Artigo "Uma Visão Integral do Homem", Grupo Espírita Socorrista Eurípides Barsanulfo, disponível no site http://www.geocities.com/Athens/9319/chacras.htm, acessado em 25/04/2006
(8) Xavier Francisco Cândido e Vieira Waldo. Leis de Amor, São Paulo: Edição FEESP, 1981



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sábado, 16 de janeiro de 2010

MECANISMO DA DOENÇA, UM ENSAIO - O CÂNCER


Claudio C. Conti

ccconti@bol.com.br

Para ser considerada como uma “Revelação”, num sentido religioso, uma doutrina deve responder as perguntas interiores de ordem moral; quando esta doutrina almeja ser um pouco mais completa, ela deve também suprir as necessidades existenciais dos seus seguidores, contendo em seu corpo doutrinário explicações de ordem filosófica. A Doutrina Espírita, trazida como a “Terceira Revelação”, a primeira foi trazida na pessoa de Moisés e a segunda foi trazida na pessoa do próprio Jesus, engloba o caráter religioso, filosófico e também o caráter científico, de forma a apresentar explicações para os fenômenos considerados sobrenaturais, mostrando que tais fenômenos são tão naturais quanto quaisquer outros.

No livro A Gênese [1], Kardec aborda uma larga gama do conhecimento científico da época mas, mais importante do que analisar este conhecimento, que por si só é transitório e que se encontra em constante modificação devido aos avanços científicos e tecnológicos, neste livro, Kardec nos ensina a pensar de forma lógica, analisando tudo que nos é apresentado como ciência.

Devemos aprender a discernir entre estudo científico e verdade absoluta. A ciência segue um processo progressista, onde o aprendizado ocorre de forma gradual mas com possibilidades de desvios do correto. A verdade absoluta somente a Deus pertence; o homem, por mais inteligente, é passível de erros. Os avanços realizados pela ciência devem ser considerados como tal e, na medida do possível, ser utilizados, como estudo, para a compreensão dos fenômenos espirituais.

Não se deseja aqui apresentar uma explicação definitiva para a ocorrência de doenças, no caso particular, o câncer. Baseado no ensinamento trazido por Kardec, este trabalho visa apenas a analisar as novas descobertas da área e, justamente, com o que se encontra na literatura Espírita, formular uma hipótese, deixando claro que, uma outra pessoa também com algum conhecimento de tanto da área médica quanto do Espiritismo, poderia chegar a conclusões diversas.

De acordo com o que foi publicado [2], a última descoberta sobre a formação do câncer é o que se denominou de “oncogenes”. O prefixo “onco” é relativo a tumor e a palavra “gene” é o nome dado a cada unidade funcional do ácido desoxirribonucléico, mais conhecido como DNA, então, “oncogenes” se refere a genes causadores de tumor. A tese dos oncogenes defende que a origem do câncer é um defeito minúsculo que altera apenas a bilionésima parte do DNA de alguns genes especiais, os oncogenes.

As células do corpo estão em constante processo de reprodução, todavia, esta reprodução não ocorre de forma aleatória e desordenada, as células somente se reproduzem quando o meio em que elas se encontrem esteja em condições de receber a nova célula, vale ressaltar que as células do corpo são completamente renovadas em intervalos regulares. Quanto as células nervosas, acreditava-se que não se renovavam mas, atualmente, já foi observado,em algumas estruturas, que podem se regenerar muito limitadamente.

Algumas destas células contudo, podem sofrer uma mutação no código genético, isto é, genes podem ser alterados e vários são os fatores que influenciam nestas alterações, cigarro, bebida alcoólica, fumaça, corantes, compostos orgânicos, etc.; se a alteração ocorrer em um dos oncogenes, cerca de 50 entre os 50000 genes que existem em uma célula somente, poderia desencadear o aparecimento do tumor.

Poderia-se então pensar que todos estão expostos a muitas das substâncias cancerígenas, como não ocorre o desenvolvimento do tumor em todas as pessoas? Apesar de um quadro tão desolador quanto foi exposto, a própria célula possui meios de reparar estes danos, são os “genes supressores de tumor”; quando a mutação é detectada, estes genes agem de forma a bloquear a ação do gene mutante. Para que realmente ocorra o aparecimento do tumor, é preciso que a célula que já sofreu mutação e que foi bloqueada, sofra nova mutação de forma a desativar o gene supressor.

Todas as células do corpo não agem de forma isolada, elas devem respeitar as “regras” da boa convivência, é como se existisse um código de conduta celular, enquanto este código é obedecido, todo o organismo funciona de forma satisfatória, com cada órgão cumprindo o seu papel. A célula que sofreu a dupla mutação passa a agir livremente, não mais respeitando o “código”, se multiplica livremente de forma desordenada, agressiva e o tumor cresce. Estas células modificadas podem sofrer modificações em genes que possuem funções diversas, quando atinge os genes que estimulam o crescimento de vasos sanguíneos na direção da célula, as mutantes alcançam a corrente sanguínea, migrando para outras partes do corpo, tem início o que é chamado de metástase, e o tumor disseminou-se.

Para se tentar compreender como ocorre a organização das células é preciso remontar à estrutura do perispírito, consultando a obra Evolução em Dois Mundos[3] de André Luz:

- Na pg. 27 diz que o corpo físico reflete o corpo espiritual que por sua vez reflete o corpo mental, detentor da forma. Em outras palavras, o Espírito elabora lentamente, através das inúmeras experiências, desde o início da sua existência, na condição de simples e ignorante, a sua forma, guardando todo o acervo no corpo mental e este, por sua vez, é o agente que transferirá toda a informação necessária para a formação do corpo espiritual, informação esta que é completa em seus mínimos detalhes de conformação. Com o corpo espiritual já conformado, servirá de molde para a matéria densa.

- Nos capítulos IV e V tem-se que durante o transcurso das suas existências, o Espírito “aprende” a dominar as células vivas, que são animálculos infinitesimais que nada mais são do que princípios inteligentes de feição ainda muito rudimentar que, quando sob o comando de princípios inteligentes em estágios superiores de evolução, servem de modo organizado na grande estrutura orgânica que é o corpo físico.

Analisando o que foi exposto, pergunta-se: Qual seria o comportamento de uma célula quando é retirado de um organismo vivo e colocada em um meio capaz de lhe manter a vida, um meio de cultura?

Uma célula do fígado se comporta de forma a cumprir com as funções de um fígado e, quando se reproduz, forma novas células de fígado. Esta mesma célula quando retirada do fígado e colocada em um meio de cultura, ela não mais atuará como uma célula de fígado, a reprodução será de forma desordenada, formando células sem função definida, ao final, não se terá o órgão mas apenas um aglomerado disforme de células. É fácil de se perceber que alguma coisa mudou para aquela célula que foi isolada, não recebe mais os comandos necessários para se comportar como uma célula de fígado.

As células, funcionando como máquinas diminutas compondo uma máquina muito maior, recebem a informação necessária para se especializarem, do Espírito encarnado, através dos centros vitais. Como diz André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos [3], pg. 30, “São os centros vitais fulcros energéticos que, sob a direção automática da alma, imprimem ass células a especialização extrema, pela qual o homem possui no corpo denso...”; e, na mesma página diz o seguinte: “Essas células que obedecem às ordens do espírito, diferenciando-se e adaptando-se às condições por ele criadas, procedem do elemento primitivo, comum, de que todos provimos em laboriosa marcha no decurso dos milênios...”

É através do centro coronário que o Espírito controla a forma organizada, embutindo em cada célula a especialidade que necessita para cumprir com a função que lhe é esperada.

Joanna de Ângelis, no livro O Ser Consciente, coloca com extrema clareza que as patologias estão diretamente relacionadas com o estado mental do Espírito ao dizer: “Sendo, a criatura humana, constituída pela energia que o espírito envia a todos os departamentos materiais e equipamentos nervosos, qualquer distonia que a perturbe abre campo para a irrupção de doenças, a manifestação de distúrbios, que levam aos vários desconcertos patológicos, conhecidos como enfermidades.” [4]

Ainda no livro acima mencionado, Joanna de Ângelis lista vários dos fatores que causam o desequilíbrio neste fluxo de energia, ou seja, sentimentos comuns a tantos de nós, no nível evolutivo comum das criaturas viventes neste mundo de expiação e provas. Dentre os exemplos, encontra-se: o amor, não o amor sublime mas aquele amor desenfreado, possessivo em que os participantes se entregam aos desejos, é apresentado como “grande demolidor das estruturas celulares”; a angústia é apresentada como “semelhante a densa carga tóxica que se aspira lentamente”; o rancor é apresentado como produtor de ácidos destruidores “que consomem a energia vital e abrem espaços intercelulares para a distonia e a instalação de doenças”; e finalmente, o ódio é apresentado como “tóxico fulminante no oxigênio da saúde mental e física” e seu poder tóxico é explicado como “Agentes poluidores e responsáveis por distúrbios emocionais de grande porte, são eles os geradores de perturbações dos aparelhos respiratório, digestivo, circulatório. Responsáveis por cânceres físicos, são as matrizes das desordens mentais e sociais que abalam a vida e o mundo”, grifos nossos.

De tudo o que foi exposto poder-se-ia, talvez, dizer que, devido às transgressões que todos cometem durante suas várias existências, o corpo mental, seguindo a lei de causa e efeito, imprime ao corpo espiritual certos..., que por falta de terminologia mais adequada, poder-se-ia chamar de “pontos obscuros”; em determinado momento da vida, esses pontos eclodem, dificultando a comunicação entre o Espírito e as células propiciando, assim, uma degeneração comportamental da célula. Dependendo do grau de gravidade destes pontos obscuros, dependerá também o grau de gravidade da degeneração.

É necessário ter em mente que um determinismo absoluto não existe, a encarnação é concedida para o aprimoramento do Espírito, tendo este a oportunidade da reparação das transgressões cometidas, o processo é dinâmico podendo-se, em uma única encarnação apenas, minorar ou agravar a situação em que se encontre.


Artigo originalmente publicado na Revista Internacional de Espiritismo – agosto de 2002.

Referência:

[1] Kardec A.; “A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo”; 36ª edição, FEB, 1995.

[2] Revista Super Interessante, Editora Abril, ano 15, no 1, janeiro de 2001

[3] ANDRÉ LUIS; “Evolução em Dois Mundos” (Psicografia de F. C. Xavier.); 15ª edição, FEB, 1997.

[4] Joanna de Angelis; “O Ser Consciente” (Psicografia de Divaldo Franco); 8a edição, Livraria Espírita Alvorada Nova Editora, 1995, pg 42.



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domingo, 10 de janeiro de 2010

NAS FRONTEIRAS DA EPILEPSIA




Autor: Núbor Orlando Facure

Dostoiewisk e Machado de Assis, portadores de epilepsia, utilizaram-se de protagonista de seus romances para descreverem suas próprias crises. Vultos ilustres da História tiveram epilepsia, mas, para o homem comum, é na sarjeta das ruas que ele costuma tomar contato e se amedrontar com a violência da crise convulsiva.
Embora Hipócrates tenha feito em seus escritos uma brilhante descrição da crise do Grande Mal, indicando o cérebro como o responsável por toda essa sintomatologia, a Epilepsia foi tida como uma doença mental pelos séculos afora e só depois do surgimento da Neurologia, no século passado, é que a Epilepsia passou a ser compreendida com uma síndrome decorrente de uma lesão orgânica no cérebro.
Hoje entende-se a epilepsia como uma descarga elétrica desorganizada que atinge os neurônios cerebrais, provocando sintomas correlacionados com a área cerebral afetada.
Embora os relatos mediúnicos do porte de No Mundo Maior e Nos Domínios da Mediunidade ditados pelo Espírito André Luiz, façam descrições inconfundíveis de sintomatologia epiléptica em seus protagonistas, submissos à interferência espiritual francamente obsessora, a medicina de hoje rejeita qualquer presença espiritual na gênese de crises epilépticas, especialmente pelo temor de ver ressurgir a nefasta participação de "demônios" dos antigos textos bíblicos, versão da qual a Idade Média e a Inquisição souberam tirar proveito.
Os exames sofisticados de hoje identificam os traumas, as infeções, os tumores e as degenerações entre diversas outras causas de natureza orgânica para a etiologia da Epilepsia, entretanto, nenhum desses exames está apropriado para detectar as vibrações do plano espiritual que nos fariam compreender mais profundamente a natureza essencial do problema da Epilepsia.
Nem sequer de longe pretendemos excluir a gênese cerebral da manifestação epiléptica, mas a visão exclusivamente materialista da Medicina tradicional a envolve de um obscurantismo estúpido que não lhe permite identificar um outro universo de interferência situado na dimensão espiritual que, como causa ou como agravante, interfere na freqüência e na constelação de sintomas que o epiléptico manifesta.
Negando a interferência do Espírito, a Medicina não consegue enxergar que, através do próprio estudo da Epilepsia, ela teria muito o que aprender, por exemplo, com o que os pacientes epilépticos vivenciam durante as chamadas "crises psíquicas", nas quais observa-se uma riqueza de expressão clínica cognitiva, que o simples desarranjo de neurônios em "curto-circuito" não tem argumentos para justificar.
Na classificação das crises epilépticas, a Neurologia destaca um tipo de crise chamada Crise Focal ou Parcial em que não há comprometimento da consciência e a sintomatologia será decorrente do local no cérebro afetado pela descarga neuronal desorganizada. Na área motora, o paciente irá apresentar contrações musculares na mão, no braço, na perna ou em qualquer outra parte do corpo correspondente à região motora do cérebro afetado.
Numa área sensitiva, os sintomas serão referidos como adormecimentos, sensações estranhas ou deformações no membro atingido.
No grupo das crises focais é que estão incluídas as crises psíquicas nas quais o paciente relata sensações subjetivas que experimenta espontaneamente, podendo ter duração de minutos, horas ou dias.
As descrições clássicas das crises psíquicas fazem referência mais comumente às crises de "Dejá vú" e de "Jamais Vú". Esses dois quadros são reconhecidos como decorrentes de lesões na base do cérebro na região dos lobos temporais.
No "Dejá vú" (já visto), o paciente relata uma sensação de familiaridade com o ambiente ou com as pessoas, mesmo que lhe sejam estranhas e que ele as esteja vendo pela primeira vez. Num local que lhe seja completamente desconhecido, o paciente, ao ter sua crise, sente uma forte impressão de que já conhece ou já esteve naquele lugar.
Na crise do "Jamais vú" (jamais visto), o paciente manifesta sensação de estranheza em lugares conhecidos ou por pessoas da sua convivência.
Ambas as situações que descrevemos podem ocorrer ocasionalmente com qualquer pessoa normal, mas, no epiléptico, essas sensações são comumente repetitivas e duradouras.
Muitos epilépticos apresentam crises psíquicas freqüentes mas que têm merecido pouco destaque por parecerem corriqueiras, como as mudanças súbitas de humor, um entristecimento súbito ou uma agressividade imotivada e desproporcional que pode beirar a violência.
Neste artigo, estou interessado em relatar outros tipos de crises psíquicas, relativamente raras, em que os próprios pacientes têm muita dificuldade em achar termos adequados para descrevê-las. Elas merecem, ao meu ver, um estudo meticuloso, procurando-se valorizar as verdadeiras sensações dessas experiências subjetivas, que os pacientes procuram nos passar, sentindo inclusive, com freqüência, a incredulidade que a maioria dos médicos manifesta ao ouvi-los.
Os relatos dessas crises, à primeira vista, parecem inconsistentes, inverossímeis, superficiais, misturando-se com os sintomas da própria ansiedade com que os pacientes convivem quando vítimas desse tipo de crise. Elas podem ser muito demoradas e não tem o caráter ictal de subtaniedade das crises convulsivas. Não há uma afetação da consciência mas sim da percepção de funções complexas como da noção de tempo, do espaço, da realidade, do movimento, da noção do Eu e até do pensamento.
Essas várias sensações no nível de vivência psíquica do indivíduo, a mim parecem fornecer preciosa observação da fronteira entre as experiências vividas física ou espiritualmente por esses pacientes.
Uns poucos relatos que fizeram esses pacientes ajudaram-me a confirmar que o mundo mental de cada um de nós transita numa dimensão espiritual que transcende a experiência física.
Um deles é médico, freqüenta meu consultório desde garoto, por ter convulsões decorrentes de neurocisticercose e, recentemente, procurou-me, acompanhado da esposa, com uma certa inquietação, tentando relatar que, nos últimos dois dias, tinha perdido a capacidade de acompanhar a passagem do tempo. Não era a identificação do tempo, das horas ou do dia e da noite. Ele dizia ser uma perda da "noção do tempo". Os acontecimentos processavam-se na sua mente e quando ele se dava conta, esses acontecimentos já tinham acabado de ocorrer. Ao dirigir-se para seu consultório, conduzindo seu carro pela estrada, fazia as curvas, mas sempre com a idéia de que isso não lhe tomava tempo, porque ocorria na sua mente, literalmente falando, antes de acontecerem fisicamente. O que tinha em mente, do trajeto que percorria, não era uma imaginação, era o próprio acontecimento. Dizia que não lhe fazia sentido o antes ou o depois, porque, tudo o que ocorria em seqüência, ele vivenciava ocorrendo simultaneamente. Sua esposa o auxiliava como auxiliar de anestesia e na entrevista me contava que apesar de permanecer o tempo todo com essas sensações que descrevia. Ele procedia normalmente enquanto anestesiava seus pacientes, apenas dizia que toda atitude que tomava já lhe parecia ter ocorrido não como uma premonição, mas com um acontecimento "já feito", se assim podemos dizer, por ele, e, ao terminar a anestesia, para sua mente, os fatos lhe pareciam continuar acontecendo.
A neurologia descreve, também um estado de crise psíquica em que o paciente tem a sensação constante de estar vivendo um sonho. É chamado de "Dreamy States" pelos clássicos.
Tivemos dois pacientes que nos relataram episódios em que sentiam uma alteração no que eles chamavam de "realidade". Uma jovem senhora referia que essas sensações a perturbavam a anos, principalmente à noite e se estivesse perto de muitas pessoas. Isto a deixava insegura. Parecia fazer as coisas por instinto. Insistia em dizer que nas crises tinha a sensação de estar vivendo em um "estágio antes da realidade".
Um outro paciente com crises semelhantes a acrescentava que também tinha a impressão de "não estar vivendo a realidade" e tudo que fazia, para ele, "não tinha conteúdo emocional".
Duas crianças e dois adultos jovens, que já acompanhávamos por antecedentes de convulsões, nos relataram episódios de percepção alterada no movimento dos objetos e do próprio pensamento.
Ouvi deles expressões do tipo: "os movimentos das coisas e das pessoas parecem aceleradas": "quando estendo as mãos para pegar um objeto, parece que meus gestos são muito rápidos"; as pessoas atravessam a rua muito depressa"; "fica difícil atravessar a rua com os carros todos correndo"; "tudo ao redor parece estar acelerado"; "as pessoas parecem falar muito rápido". Um dos garotos dizia ser acordado pela crise. Para um deles, o seu próprio pensamento, quando em crise, parecia acelerado.
Nessas horas ele evitava o diálogo com receio de demonstrar aos outros alguma perturbação. Um desses pacientes, com 23 anos, é pintor e dizia que nas crises sentia que tudo passava lentamente, seus próprios gestos ao lidar com o pincel lhe pareciam ser feito em câmara lenta, embora seus colegas não confirmavam essa vagareza. Ele se sentia assim por mais de uma semana seguida, entrando e saindo das crises sem qualquer motivo aparente.
Uma senhora que também acompanhávamos por ter desmaios, tinha um eletrencéfalo com alterações focais no hemisfério esquerdo e uma tomografia cerebral típica de neurocisticercose. Ela contava que vinha tendo episódios em que parecia se deslocar, sentia-se estar muito longe, "como se num outro mundo", "ocupando um outro espaço". Esses episódios duravam 20 minutos e, a seguir, mantendo-se sempre muito lúcida, ela sentia a cabeça vazia, ficava pálida e ofegante. Outros quadros, mais complexos e às vezes muito elaborados, têm sido rotulados como alucinatórios e comumente relacionados com as disritmias do lobo temporal ou as patologias do sono.
Alguns pacientes dizem sentir-se fora do corpo, sensação que a neurologia chama de "despersonalização". Para outros, os objetos que vêem ou os sons que ouvem, estão aumentados, diminuídos ou distorcidos. Às vezes há uma concentração de cenas e episódios memorizados e o paciente, num relance, recapitula toda a sua existência. Dá-se o nome de "visão panorâmica" da vida.
Tivemos, entre muitos outros, o caso de uma garota de nove anos que nos consultava devido manifestações comuns de epilepsia.
Ela nos relatou que por algumas ocasiões, estando absolutamente desperta, se sente saindo do seu corpo em completa lucidez. Numa dessas últimas crises estava sentada no sofá, assistindo televisão quando, subitamente, se vê, ao lado do corpo físico. Questionei sobres seus medos nesta hora e qual sua atitude ao se ver nessa duplicidade.
Ela respondeu-nos com muita simplicidade que, assustada, procurou se dirigir para perto da televisão para ver se o seu corpo ali sentado a acompanhava.
Os quadros que descrevemos não surpreenderiam qualquer neurologista habituado a atender casos de epilepsia. Seguramente serão atribuídos à presença de distúrbios da atividade neuronal, especialmente do lobo temporal e a maioria deles vai se ver livre dessas crises com medicação disponível para atuar especificamente nas disritmias dessa região.
É curioso, entretanto, que, essas descrições, os relatos de como esses pacientes vivenciam ou "decodificam" a noção do sentido do tempo, da apreensão da realidade, da relação espaço-tempo no deslocamento dos objetos, da síntese e projeção do pensamento, nos permite despretensiosamente conjeturar uma série de semelhanças com certas descrições não acadêmicas na literatura espiritualista.
Os textos especializados em descrições sobre técnicas de meditação, por exemplo, revelam que os "grandes mestres" e "místicos" que atingem os graus mais profundos de interiorização da consciência, fazem interessantes descrições em relação ao sentido do tempo, ao espaço ocupado pela matéria, à velocidade das partículas de matéria/energia que sintonizam, bem como, o turbilhão do fluxo do pensamento, descrições estas, que ao meu ver, têm correspondência muito provocativa com as dos epilépticos que aqui registramos.
Para nós, espíritas, os conceitos de tempo no mundo espiritual, de espaço na dimensão extra-física, de projeções do pensamento, de deslocamento do corpo espiritual podem ser facilmente reconhecidos nessa série de histórias que registramos. As lesões objetivas que a massa cerebral evidencia nesses quadros são, para mim, nada mais que portas de intercessões entre as duas dimensões, a expressão física de uma realidade que o corpo nos permite palpar e a percepção espiritual que vivenciamos sem os sentidos perceberem.


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terça-feira, 3 de novembro de 2009

ALCOOLISTAS , ESCRAVOS DE TODOS OS SÉCULOS



(18.07.09)

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Olivier Ameisen, um conceituado pesquisador contemporâneo na área da saúde, "alega que ele mesmo conseguiu abandonar o vício [de bebidas alcoólicas], usando uma droga hoje receitada para relaxar os músculos chamada baclofen."(1) Todavia, muitos especialistas mantêm o ceticismo, advertindo para o perigo que está por trás das chamadas "curas milagrosas" para o problema do alcoolismo. Entre 1997 e 1999, Ameisen passou um total de nove meses confinado em clínicas para alcoólatras, mas nada funcionou. Em março de 2002, ele começou a testar a droga em si mesmo com doses diárias de cinco miligramas. Quase imediatamente, passou a sentir menos vontade de beber. Gradualmente, aumentou para a dosagem máxima de 270 mg e, então, se viu "curado". Hoje, usa, de 30mg a 50 mg por dia. Contudo, sobre isso, Alain Rigaud, presidente da Associação Nacional para a Prevenção do Alcoolismo e da Dependência da França e Michel Reynaud, membro do hospital Paul-Brousse, em Paris, "temem que a badalação da mídia, a respeito do "remédio" de Ameisen, esteja ofuscando a complexa natureza do alcoolismo."(2)

Uma droga alucinógena, popular na década de 60, pode ajudar cientistas a encontrar um tratamento para o alcoolismo. A hipótese é de um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia. "De acordo com os cientistas, pesquisas feitas com ratos, utilizando ibogaína, mostraram que a substância foi capaz de bloquear o desejo de consumir álcool, por meio do estímulo a uma proteína cerebral." (3) Estudos feitos, recentemente, sobre o uso do topiramato em voluntários alcoólatras, revelaram que essa droga, comumente usada no tratamento da epilepsia, melhora a saúde geral e reduz o desejo de beber - "embora seus efeitos colaterais preocupem o especialista britânico em psiquiatria do vício, Jonathan Chick, do Royal Edinburgh Hospital, afirmam que os resultados são positivos, especialmente os dados que mostram melhoria na saúde." (4)

Como podemos entender o vício? Para mim, é toda dependência química ou psíquica geradora de solicitudes insustentáveis, capazes de levar o dependente a repetir, incessantemente, a ação que sacia, temporariamente, essa "aflição." (5) Geralmente, decorre de uma ação repetitiva, que nem sempre proporciona prazer imediato, mas, que, ao longo do tempo, torna-se objeto de necessidade exarcebada, inconveniente e prejudicial ao indivíduo. Pode ser visto como uma forma equivocada de compensar, superficialmente, algo que deveria estar sendo preenchido interiormente, no íntimo da pessoa. Seja como for, as raízes dessas disfunções estão no passado, quer seja hereditariamente, quer seja espiritualmente, em decorrência de experiências infelizes, remanescentes de pregressas existências. Explica o Espírito Victor Hugo que "no estado de alcoolismo faz-se muito difícil a recomposição do paciente, dele exigindo um esforço muito grande para a recuperação da sanidade. A obsessão, através do alcoolismo, é mais generalizada do que parece. Num contexto social permissivo, o vício da ingestão de alcoólicos torna-se expressão de "status", atestando a decadência de um período histórico que passa lento e doído. "(6) Vale ressaltar que "ao reencarnarmos trazemos conosco os remanescentes de nossas faltas como raízes congênitas dos males que nós mesmos plantamos, a exemplo, da Sindrome de Down, da hidrocefalia, da paralisia, da cegueira, da epilepsia secundária, do idiotismo, do aleijão de nascença desde o berço." (7) Como percebemos, a Doutrina Espírita adverte sobre essa influência espiritual, oculta, ou seja, o meio espiritual que respiramos pode contribuir para o surgimento de um determinado vício. "O viciado em álcool quase sempre tem a seu lado entidades inferiores que o induzem à bebida, nele exercendo grande domínio e dele usufruindo as mesmas sensações etílicas." (8)

Para o dependente do álcool, a deterioração física, mental e social é evidente. Basta observar a figura ictérica, inchada, sem controle dos esfíncteres, perambulando pelas ruas, vítima de tremores, de delírios e alucinações, capaz de beber desodorante, álcool etílico, combustível, perfume e, até, urina [porque sabe que, através dela, parte do álcool ingerido será eliminada]. Surge a cirrose hepática, como o estágio final dos danos causados pelo álcool. Essa patologia é uma forma de dano permanente e irreversível do fígado. O acúmulo de líquido no abdômen - ascite (barriga d'água), desnutrição, confusão mental (encefalopatia) e sangramento intestinal, são alguns sinais de insuficiência hepática. Provoca lesões no coração, resultando em arritmias e outros problemas como trombos e derrames conseqüentes. "Freqüentemente, as pessoas se viciam no álcool como uma forma de mascarar seus problemas. Tratar os efeitos no cérebro não vai resolver esse outro aspecto. Também não deve resolver outros problemas de saúde, como os danos no fígado." (9) Desde 2003, os Cientistas já afirmavam ter descoberto um gene importante para a explicação dos inúmeros efeitos do álcool no cérebro, e esperavam poder produzir "um medicamento que desligasse alguns dos efeitos de prazer ligados à ingestão do álcool, e talvez tentar combater o alcoolismo com remédio."(10) Não deu certo!

Para o psicanalista Luis Alberto Pinheiro de Freitas, autor de "Adolescência, família e drogas" (Editora Mauad), "a liberalidade de muitas famílias com o álcool é um dos maiores problemas para a prevenção:- Há o mito de que a maconha leva os jovens a outras drogas. Mas é o álcool que faz esse papel. E a própria família incentiva o consumo. Tenho pacientes, diz Alberto, que começaram a beber quando o pai, orgulhoso do filho que virava homem, os chamava para drinques." (11) Outro especialista, Frederico Vasconcelos, atesta que o "álcool gera uma doença de longa evolução (dez anos em média) e o abuso entre jovens os leva a drogas maiores: - Uma delas é o ecstasy, encontrado em dois tipos de pastilha: a MAP (meta-anfetamina) e a MDMA (metil-dietil- MA), esta com propriedades alucinógenas e ambas vendidas nas boates da Zona Sul e da Barra da Tijuca. O adolescente se expõe hoje muito mais ao álcool. Está se formando uma geração de dependência de álcool. Além dos riscos à saúde, há os perigos de dirigir embriagado, da violência e de traumatismos decorrentes do abuso de álcool." (12)

Sabemos que tudo se inicia no primeiro gole. Depois, vem a necessidade do segundo, do terceiro e o alcoolismo se instala em nossas vidas. A sede, o sabor, a oportunidade social, as comemorações, a obrigatoriedade em aceitar um drinque oferecido por um "amigo" são as muitas desculpas, nas quais nos apoiamos para ingerir as doses que, mais tarde, serão letais. Precisamos estar atentos para não cometer exageros, abusos, e não resvalar por esse "hábito social", que pode terminar por nos condicionar a ele e nos transformar num trapo de gente, num farrapo humano. Ressalte-se que os limites entre o uso "social" e a dependência nem sempre são claros.

O que se vê nos hospitais, durante a autópsia do cadáver de um alcoólatra crônico, é algo horripilante. O panorama interno do cadáver pode ser comparado ao de uma cidade completamente destruída por um bombardeio atômico. Mudam-se os tipos de bebidas: das mais populares, ao alcance do trabalhador braçal, às mais sofisticadas, para os homens de "status". No entanto, o costume é o mesmo, os prejuízos, iguais. Em verdade o alcoolismo possui um forte estigma social. O número de casos ligados ao abuso de álcool, atendidos nos hospitais na Inglaterra, mais que dobrou nos últimos anos. "Em 2007, houve 207.800 admissões hospitalares vítimas do álcool, comparadas com 93.500 em 1996, segundo um relatório divulgado, recentemente, pelo "Centro de Informação do NHS (National Health Service), o serviço público da saúde do país." (13) Desse total, 57.142 casos tiveram, como causa direta, o abuso de álcool, como embriaguez profunda, dependência, cirrose e intoxicação aguda. "O estudo revelou, ainda, que 9% desses casos envolveram jovens com menos de 18 anos e 30% dos adolescentes de 15 anos consideram aceitável ficar bêbado pelo menos uma vez por semana." (14)

Apesar dos danos que o Álcool provoca na estrutura fisiopsicossomática, existem aqueles especialistas que alegam que "o corpo físico necessita de pequenas quantidades dele". Ledo engano! Isso é, veementemente, contestado pelos Drs. Edgar Berger e Oldmar Beskow, no livro intitulado: ESCRAVOS DO SÉCULO XX. Como vimos acima, o alcoolista não é somente um destruidor de si mesmo, é, também, um veículo das trevas, ponte viva para as investidas arrasadoras do mal. Joanna de Ângelis nos ensina que "a pretexto de comemorações, festas e decisões, não nos comprometamos com o hábito da bebida. O oceano é constituído de gotículas, e as praias, de inumeráveis grãos. Libertemo-nos do chavão "HOJE SÓ", e quando impelidos a comprometimentos nocivos, não encampemos o célebre desculpismo "SÓ UM POUQUINHO", porquanto uma picada que injeta veneno letal, não obstante em pequena dose, produz morte imediata." (15) (destaque meu)

No meu site, publiquei um artigo que escrevi, em 2005, que, ante o desculpismo, que procura arrazoar o hábito de beber, eis uma lenda que, um dia, li em um calendário, com frases e pensamentos orientais:

"Um homem chega ao líder de sua religião, que proíbe a bebida e indaga:

- Grande mestre, as uvas são proibidas?

- Não.

- E o suco de uva é contra a nossa religião?

- Absolutamente.

- E se as uvas fermentarem na água, seremos culpados?

- De jeito nenhum.

- Pois ao fermentar, elas produzem o vinho. Por que é pecado então bebê-lo?

- Bem, respondeu o Grande mestre, - se eu lhe atirar um punhado de terra à cabeça, não lhe farei mal algum.

- Claro!

- Se lhe jogar água misturada com terra, também não o ferirei.

- Certo!

- Mas, se eu pegar nesse punhado de terra misturado com água e o meter no forno para cozimento, transformando-o num tijolo e o atirar na sua cabeça, o que será que pode acontecer?"(16)

Vale refletir!


FONTES:
(1) Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/12/081206_cura_alcoolismorg.shtml
(2) idem
(3) Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2005/01/050119_alcoolismobg.shtml
(4) Cf. revistas científicas Archives of Internal Medicine e Proceedings of the National Academy of Sciences disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/06/080610_alcoolismo_tratamentos_mv.shtml
(5) Do ponto de vista médico, o alcoolismo é uma doença crônica, com aspectos comportamentais e socioeconômicos, caracterizada pelo consumo compulsivo de álcool, na qual o usuário se torna progressivamente tolerante à intoxicação produzida pela droga e desenvolve sinais e sintomas de abstinência, quando a mesma é retirada.
(6) Franco, Divaldo Pereira. Calvário de Libertação - ditado pelo Espírito Victor Hugo , Salvador: 1a. Ed. ALVORADA, 1979
(7) Xavier, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade, ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed FEB, 2000, p.139-140
(8) Peres, Ney Prieto Manual prático do espírita, SP: Ed. Pensamento, 1984, p.55).
(9) Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2004/03/040312_alcoolas.shtml
(10) A pesquisa foi publicada na revista científica Cell , Cf. http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2003/12/031212_alcoholfn.shtml
(11) Alberto , Luis Pinheiro de Freitas.Adolescência, família e drogas, RJ: Editora Mauad, 2002, In Revista "Época" de 29 de julho de 2002, (Marcia Cezimbra, jornal O Globo)
(12) Disponível no site www.alcoolismo.com.br, acesso em 18-07-09
(13) http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/05/080523_bebidajovens_mp.shtml
(14) idem
(15) Franco, Divaldo Pereira. Estudos Espíritas, ditado pelo Espírito Joanna de Angelis 1a. Ed. Ed FEB, RJ: 1983
(16) Hessen, Jorge. Artigo OS CÉLEBRES DESCULPISMOS DO "SÓ UM POUQUINHO!" "HOJE SÓ!", publicado no site http://jorgehessen.net em 14-05-05



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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

DEPRESSÃO, DOENÇA DA ALMA



A depressão é uma doença tão antiga quanto o próprio homem. Nascida nas profundezas da alma, pode-se dizer que a depressão nasceu quando o homem experimentou a dúvida, o medo e o vazio existencial causado pela perda do paraíso. Entre os vários relatos bíblicos de personagens que em algum momento sofreram de depressão, encontraremos em Jô um dos exemplos mais clássicos. No capítulo 3, versículos 20 a 22, podemos ler: “porque se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ânimo, que esperam a morte, e ela não vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros ocultos; que de alegria saltam, e exultam, achando a sepultura”.
Entre os apóstolos de Jesus, Pedro e Judas experimentaram a depressão em circunstâncias distintas e com repercussões diferentes. Ao longo da história muitos foram aqueles que sofreram com a depressão: Shakespeare, Beethoven, Lincoln, Fernando Pessoa, Virgínia Woof, Hemingway, M.Monroe, Lady Di e outros.
É difícil obter-se números precisos sobre a doença, contudo estima-se que 5% da população mundial seria de pessoas depressivas. A depressão é a quarta doença mais comum entre a população geral segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, sendo duas vezes mais freqüente no sexo feminino. A depressão pode afetar pessoas de todas as faixas etárias e condições sócio-econômicas e culturais, sem distinção de raça ou credo. O suicídio é responsável por 15% das mortes de pessoas deprimidas. Ainda segundo a OMS, a depressão será a segunda moléstia que mais roubará anos de vida da população em 2020. Como ainda não surgiu nenhum tratamento preventivo, estima-se que a cada ano surgirão mais dois milhões de novos deprimidos clínicos por ano no mundo. No Brasil calcula-se que existam 10 milhões de sofredores patológicos.
A depressão é classificada como um transtorno do humor. Para tanto é preciso diferenciar a doença depressão da tristeza. Além dos critérios de sintomas que caracterizam a doença, é necessário que estes subsistam por mais três semanas; a depressão é muito mais profunda e resistente do que a tristeza. O psiquiatra Peter Whybrow, da UCLA, descreve a depressão com uma imagem: “imagine o desconforto de várias noites sem dormir misturado à dor da perda de um ente querido que não acaba nunca. Depressão é isso”.
A depressão é vista como uma doença de múltiplas causas. Em se considerando que a doença depressão é, também, denominada doença da alma, podemos entender que as causas estão diretamente relacionadas com o perfil psico-emocional do indivíduo. A alma, ou o Espírito, é que se apresenta doente. Em termos puramente psicológicos encontramos as raízes da depressão em comportamentos imaturos, no materialismo, nas perdas de qualquer natureza, nos ressentimentos e na culpa.
A imaturidade psicológica pode ser vista nos comportamentos de pessoas que se negam a crescer e a assumir responsabilidades. Tal comportamento foi descrito como sendo uma “Síndrome de Peter Pan”, onde o ser foge para um mundo ilusório a fim de não ter de arcar com as responsabilidades do dia-a-dia. A qualquer momento evita tomar decisões, tomar atitudes ou posturas resolutivas ante os problemas. A imaturidade psicológica reflete um espírito cristalizado em um padrão comportamental infantil, sonhador. Na hora em que as dores e as decepções da vida se anunciam, trazendo o sofrimento, estes indivíduos optam por tentar fugir à responsabilidade, desistindo da luta, passando a viver num mundo de sonhos que, aos poucos, vai se transformando em pesadelos.
O materialismo é um dos grandes males da humanidade. A falta de uma postura idealista e de valores morais e éticos torna o ser humano vazio. Num primeiro momento o homem busca evitar a sensação de vazio lançando-se compulsivamente à conquista de bens materiais. Somos nós, quando nos entregamos a um ritmo de vida ditado pela satisfação dos automatismos de natureza fisiológica, vivendo em função do luxo, do conforto e do prazer pelo prazer. Esquecendo-nos dos ideais que elevam a alma ao Criador ficamos vazios, vazios de amor, vazios de solidariedade, vazios de paz. No poço vazio das nossas almas a depressão verte o seu veneno enchendo os nossos Espíritos de dor e sofrimento.
O apego excessivo às coisas e às pessoas à nossa volta contribui para agravar os sintomas depressivos. Na Gênesis, capítulo 3, versículo 19, lemos que do pó viemos e ao pó retornaremos. Se auscultássemos a palavra divina e dirigíssemos a nossa vida por ela muitas dores poderiam ser evitadas. Mas à medida em que vamos saindo do berço para ocuparmos o nosso lugar na sociedade passamos a cultivar o TER, o desejo de possuir. Este apego ao sentimento de posse, tanto das coisas materiais como das pessoas, será causa das nossas mais terríveis dores. A incapacidade de lidarmos com as perdas que farão parte das nossas vidas pode se constituir num grande fator gerador da depressão.
A culpa e o ressentimento guardados em nossos corações destroem a possibilidade de sermos felizes. Todo sentimento de culpa é lixo inútil que carregamos ao longo da vida e que acaba sufocando a nós próprios e como tal não serve para nada. O ressentimento, além de ser lixo, é ainda mais perigoso do que a culpa, posto que este último é lixo tóxico. Ressentimento significa sentir novamente, ficar recordando. Tudo bem, se nós ficássemos a recordar ou a ressentir coisas boas, coisas alegres. Mas com freqüência esquecemos rapidamente de nossas alegrias para nos dedicarmos a relembrar e a ressentir as nossas dores. Em recordando um fato doloroso eu passo a sentir novamente a mesma dor que vivenciei no passado. O ressentimento, como tóxico que é, corroi nossas almas.
Se vimos as causas da depressão, é preciso que vejamos quais as suas conseqüências. A depressão pode ser extremamente devastadora para o doente e para todos aqueles que convivem com ele.
O depressivo compromete o seu sistema imunológico, tornando-se alvo fácil de outras doenças que, aproveitando a fragilidade do indivíduo, tomarão conta do corpo. A depressão pode ser a porta de entrada para muitas outras doenças físicas como as úlceras gástricas, problemas hepáticos ou intestinais (como por exemplo, a constipação crônica), problemas cardíacos, infecções, doenças degenerativas e até do câncer.
A depressão é uma das principais causas do suicídio, sendo este a mais terrível conseqüência. A Doutrina Espírita nos ensina que o suicídio, ao invés de ser a solução dos problemas que nos afligem, é causa de maiores dores e sofrimentos.
A depressão não fica restrita ao paciente depressivo, ela se estende por todos que compartilham do ambiente doméstico. Sendo assim, a depressão é um fator de desagregação familiar. O comportamento depressivo faz com que o ser se afaste das pessoas, torne-se relaxado com as obrigações em relação ao grupo, afaste-se do trabalho chegando por vezes ao abandono do mesmo o que acarreta novos e maiores problemas para o núcleo familiar.
Como então poderemos nos livrar da depressão? Qual é o tratamento ou tratamentos de que dispomos para nos livrarmos desse mal?
Os tratamentos para depressão são tão variados como as causas das doenças. É preciso que em primeiro lugar queiramos nos curar. Para tanto teremos que reconhecer e admitirmos que estamos doentes e que precisamos de ajuda. Esta tomada de consciência da nossa própria condição como doentes é o primeiro tratamento ao nosso alcance. Quando nos conscientizamos da nossa verdadeira condição criamos em nossos Espíritos as condições de cura. Renova-se a vontade de viver e a disposição para renovarmos atitudes e emoções. Passamos a redecorar a nossa casa interior, jogando fora os móveis velhos e adquirindo móveis novos.
O desejo de nos curarmos vai nos levar a buscar a medicina. Dentro dos seus limites e da sua capacidade, a medicina pode nos ajudar através de medicamentos que diminuem os sintomas. Mas remédio nenhum pode tocar nosso Espírito. Necessário se faz que busquemos o auxílio psicológico. Será somente através de nossa reforma íntima que poderemos alcançar a cura da depressão.
Comecemos por nos tornarmos emocionalmente maduros. Assumindo o compromisso de superar as emoções infantis, passando a termos o controle da nossa vida. Surgindo os problemas vamos encara-los de frente examinando-os com serenidade e lucidez, objetivando encontrar soluções possíveis e realistas frente às nossas possibilidades. O exercício da nossa maturidade emocional nos tornará fortes e seguros, confiantes e serenos.
Ao conquistarmos a nossa maturidade emocional, vamos precisar de novas metas na vida. É a hora de voltarmos os olhos para dentro de nós mesmos, buscando sentir os anseios mais nobres e elevados que dormem em nossas almas. Vamos em busca da nossa realização interior conquistando valores morais e éticos. Esta é a hora de nos voltarmos para o sentimento religioso e de retomarmos o diálogo com o Pai Criador.
Maduros e em comunhão com o Pai, vamos entender que as únicas coisas que realmente nos pertencem são os tesouros da alma. Seguindo as palavras de Jesus narradas por Mateus, cap. 6, vv. 19-21, não percamos tempo juntando tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões roubam. Busquemos SER e não TER. Desta maneira as perdas dos bens materiais e dos status social não nos afligirão, pois são riquezas que vieram da terra e a ela pertencem. A comunhão com o Pai vai nos fazer compreender que o Espírito é imortal e que o ente querido perdido será reencontrado em breve. Para aqueles que amam verdadeiramente não existe separação.
Agora, mais fortalecidos e renovados é o momento de nos livrarmos daqueles lixos velhos que pesam em nossas almas. Vamos passar a limpo os sentimentos de rancor, de mágoas e as culpas. Através do esquecimento vamos nos livrar dos ressentimentos, voltando a nossa atenção para o futuro e para todo o bem e felicidade que podemos construir em nossas vidas a partir de hoje, de agora. Livres de ressentir as dores velhas estamos prontos para o perdão que será como bálsamo divino a derramar-nos o coração e nos acalentando. Livre das culpas, aprenderemos a ver os erros que cometemos no passado como um ensinamento doloroso. Vamos aprender, então, que o erro foi formar mais útil e fácil ao nosso alcance para aprendermos como não devíamos fazer alguma coisa. Agora que aprendemos como não fazer, lancemo-nos novamente ao trabalho e à vida fazendo a coisa de maneira certa.
Mas, o melhor tratamento para a depressão é o conjunto de ensinos trazidos por Jesus. A mensagem evangélica que Jesus nos trouxe e que foi legada à humanidade pelos escritos que constituem o novo Evangelho é o mais poderoso e eficaz remédio para a cura da depressão. Através do perdão, do trabalho produtivo em benefício do próximo, da solidariedade e do amor poderemos alcançar a cura, não apenas da depressão, mas de todos os nossos males.

David Monducci
(extraído do jornal “O Semeador” de set/2000)

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