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segunda-feira, 7 de março de 2011

OS AVANÇOS DA BIOLOGIA PERANTE O ESPIRITISMO


Jorge Cecílio Daher Júnior

jdaher@genetic.com.br

O Espiritismo surgiu em uma época em que a Ciência alcançava notáveis feitos. O final do século dezenove assistia às descobertas das ruínas dos Incas, à decifração dos hieróglifos egípcios e às escavações dos templos gregos, a mecânica impulsionava a indústria com suas descobertas, o microscópio seria o instrumento de perquirição da Biologia, levando o homem a devassar seu corpo, para curar doenças e buscar suas origens.

A época de Kardec é a época de Darwin, é um pouco antes da época de Mendel, mas é a época da glória da sociedade burguesa, do caldeirão de filosofias de exaltação do homem, que nos levaria a duas grandes guerras, sem que perdêssemos a empolgação com as conquistas, tornando a Ciência, definitivamente, possessão do homem, que o aproximava em pés de igualdade à divindade.

Charles Darwin, talvez o homem de Ciências mais genial de sua época, não inventou a idéia que o homem descende do macaco, derrubando a mitologia judaico-cristã da descendência adâmica.Coube a ele muito mais, além de concluir que o homem e o macaco tiveram, em alguma ocasião temporal, ancestrais comuns, do mesmo tronco, que depois se diversificariam naquilo que coube a ele desenvolver com primazia, a seleção natural. Seleção natural não é a lei do mais forte, mas sim a constatação que os seres evoluem graças a mutações aleatórias em seu interior, capazes de fazê-los modificar sua interação com o meio externo, tornando-os, nessa interação, mais aptos a sobreviverem. As idéias de Darwin influenciam não apenas a Biologia, mas mesmo a Filosofia, a Psicologia, a Sociologia.

Muitos se utilizam de sua teoria com fins notadamente racistas e muita polêmica gerou no meio acadêmico o livro A Curva de Bell, uma abordagem racista, que associa a miséria de negros e hispânicos a questões raciais, de seleção de uma raça mais apta, no caso os brancos caucasianos, sobre as demais. Os autores dessa obra esqueceram do grande legado de Darwin, que diz: “Se a pobreza e a miséria de um homem for causada não pelas leis da Natureza, e sim por nossas instituições, grande é nossa sina.”

Separados pelo distante tempo interior, pois se Darwin se interessava pelo palco da Ciência, o monge Gregor Mendel, que por seu amor à Botânica e acurado senso científico descreveu as leis da hereditariedade e as regras por elas seguidas, permitiu ao homem a estruturação da idéia de transmissão de um sistema de memória capaz de determinar características dos pais aos descendentes, que hoje sabemos estar em sequências de DNA que chamamos genes. A genética começa com Mendel mas apenas o descobriu no século XX, apesar de seus trabalhos datarem do final do século XIX, mais precisamente 1885.

Com a caracterização que os cromossomas eram formados de DNA, e que esse era composto de ácidos nucleicos, dois pares desses ácidos nucleicos, que suas sequências formavam uma espécie de alfabeto que codificavam a formação de componentes das proteínas, gerou-se uma corrida para determinar-se a forma estrutural do DNA. Coube a Linus Pauling a descoberta que as proteínas tem estrutura tridimensional e algumas delas uma estrutura helicoidal, mas o mérito quanto ao DNA coube à dupla Watson e Crick, que descreveram o DNA como dupla-hélice, que se abria na sua face interior para que fosse feita a “leitura” do alfabeto genético.

A sequência de nucleotídeos que formam cada um dos vinte aminoácidos essenciais do organismo humano, seguida do avanço na codificação das sequências genéticas e localização dos genes nos cromossomas, abriu as infindáveis possibilidades de pensar e sonhar que a mente humana é capaz. Os genes tornaram-se explicações de tudo o que ocorre no homem, quer em seu organismo quer em sua vida de relação, quer ainda em seu estado mental, sua capacidade de amar, de ser egoísta ou altruísta. Poderosos, os genes eram o código de Deus nos seres vivos que agora o homem era capaz não apenas de identificar, mas de manipular.

Conta-nos a mitologia grega que Zeus, o supremo deus do Olimpo, vendo que Prometeu, que criara os homens, detinha enorme prestígio e poder, desceu à terra em seu carro de fogo, e tirou dos homens a luz, num castigo ao titã e às suas criaturas. Em meio à escuridão que reinava, partiu em rota ascendente ao Olimpo, mas Prometeu, com um graveto, rouba o fogo do carro de Zeus, devolvendo aos homens aquilo que lhes havia sido tirado. Os deuses ficaram furiosos e prepararam vingança. Coube a Afrodite criar Pandora, uma mulher belíssima que trazia em suas mãos uma caixa, onde todas as pragas que abateriam os homens estavam comprimidas, saindo assim que fosse a tampa retirada. Não aceitando o presente de Afrodite, Prometeu, o que pensa antes, talvez não imaginasse que seu irmão, Epimeteu, o que pensa depois, ficasse encantado com Pandora e pedisse o presente a Afrodite. Recebeu Epimeteu a Pandora, junto com sua caixa, que, depois de aberta, espalhou sobre os homens todas as pragas e maldições ainda hoje conhecidas e que nos afetam. Da caixa de Pandora, a última a sair será a Esperança.

Impossível não relacionar o presente recebido por Epimeteu, principalmente a caixa que Pandora trazia, com o momento em que vivemos no que tange às conquistas da Biologia. Desde a década de sessenta que a genética molecular alcança progressos incríveis no diagnóstico de doenças raras, desde o período intra-uterino. Muito se fala em tratamento gênico de doenças, bastando identificar o gene deficiente e substituí-lo. Até hoje, mesmo conhecendo os genes de doenças letais, ainda não se foi capaz de promover terapia gênica adequada. Muita expectativa se criou entre os portadores de Fibrose Cística, mas ninguém foi curado por terapia gênica. A manipulação gênica é a proposta de avanço da ciência a ser analisada nessa palestra, pois assim pude entender a partir da correlação entre fertilização in vitro, clonagem e transplante de órgãos.

Para entendermos um pouco da caixa de Pandora aberta a partir daquilo que os colegas médicos da Associação Médica Católica da Inglaterra e Gales chamam de “o homem brincando de ser Deus”.

Desde a década de 50 os investimentos na Genética Molecular são enormes, não faltando verbas de pesquisas e isso propiciou a capacidade de sequenciar e manipular genes. À época do projeto Genoma Humano, especulava-se muito sobre as descobertas que estariam no cromossoma 22, pois dali sairia a cura da Esquizofrenia, a doença mais cara do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Nada se descobriu, para a frustração de muitos cientistas. Isso não impediu de sequenciar-se genes importantes e outros ainda pouco conhecidos. Questão de grave impacto, quando tratamos de manipulação gênica, é a evidência de que permanece vivo o Eugenismo, que é a tentativa de aprimoramento da raça humana. Essas idéias marcaram dolorosamente o homem durante o Nazismo, quando atingiu o clímax no sacrifício de milhares de judeus, na quase erradicação dos povos ciganos, no uso de cobaias humanas em experiências somente permitidas com animais.

A eugenia é uma idéia atuante na mente de alguns brilhantes cientistas que, ou não se apercebem do risco em promover tal idéia, pelas consequências que o homem já experimentou, ou simplesmente desconsideram qualquer risco em favor de seus ideais. O racismo a partir dos estudos científicos sempre foi encoberto por elaborações estatísticas complexas, que manipulavam dados em favor de determinado objetivo, ou era encoberto por visão viciada do pesquisador. O conhecido psiquiatra forense italiano, que se consagrou no Espiritismo a partir de sua conversão, Césare Lombroso, defendia que os criminosos tinham um crânio típico, menor em volume, que se apresentava exteriormente pela fronte pequena, mãos e pés grosseiros e sulcos faciais acentuados.

Assim eram os criminosos que Dr. Lombroso conheceu, alguns cérebros que analisou, mas são características de uma raça explorada pelos europeus, que viveram à margem de qualquer conquista social na Europa do século passado. Hoje a Eugenia está presente nas propostas de concepção a partir de Fertilização In Vitro após cuidadosa análise genética dos embriões, descartando os menos aptos em favor dos que os comprometidos com a seleção de raça pura chamam de amostra selecionada. Fazem às avessas aquilo que a Natureza faz de modo aleatório, escondndo uma sabedoria capaz de ser analisada apenas sob as vistas da Moral, despida de moralismo barato, mas sustentada por uma visão que garanta ao homem a autonomia e a dignidade desde as formas iniciais de vida. Autonomia e dignidade, devendo ser respeitadas no homem desde sua fase embrionária, faz com que a manipulação gênica de embriões fira profundamente esses princípios chave da Bioética? Caso consideremos o embrião como dotado de vida, a partir de quando isso se dá legalmente? A Inglaterra, tentando resolver essa questão do ponto de vista legal mas sem comprometer-se em sua regulamentação, talvez por temor de perder a corrida da biotecnologia aplicada a embriões, determinou que qualquer manipulação do embrião deva ser feita somente vida, mas a partir do 6º dia o embrião já não mais é viável para o implante no útero.

Ao manipularmos genes, bucando aprimoramento de raças, gerando vidas que são sacrificadas a centenas para preservar uma vida, até que ponto nos comprometemos nessa brincadeira de fazer de conta que somos Deus? É inegável a necessidade do aprimoramento científico, mas não justifica o sacrifício de vidas humanas quando alternativas outras se visíveis e viáveis. O simples fazer para mostrar-se ao mundo lembra-no muito a sentença do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo no mundo é vaidade, não existe nada de novo sob o sol”.

O Espiritismo traz o conceito transcendente de vida, que não se inicia no berço, nem se encerra no túmulo. Se a visão muçulmana, expressa pelo geneticista radicado na Inglaterra, Abid Sharim, permite a manipulação gênica de embriões por entender que a alma se liga ao embrião a partir do 40º dia, muito ainda temos que avançar, inclusive para determinar quando a ligação do espírito com o corpo efetivamente se dá no estrito senso da palavra ligação. Os genes não transmitem caráter, não dão as características da alma. Quando o projeto genoma demonstrou que temos poucos genes a mais que os animais vulgares, como camundongos, muitos deixaram o queixa cair. Aqueles que afirmaram em alto e bom tom: “Dêem-me o programa genético que farei um homem”, pouco falaram, agora já sem o tom bravatoso. Muitos pensaram ter descoberto o Espírito, não para exaltá-lo, mas para rebaixá-lo a epifenômeno, não do cérebro, mas resultante dos genes. Caindo na realidade, a programação genética serve apenas para estocar informações para o maquinário celular. Ela não explica as sinapses cerebrais, pois precisaríamos de um número de genes três vezes maior que o contido em nosso DNA para justuficar as sinapses já conhecidas, que contam-se a menos de um terço das que possivelmente existam. DNA é molécula morta, tanto é que é encontrada em fósseis, sem o maquinário celular nada pode fazer. Na verdade, quem faz é a célula, esse ser microscópio quem utiliza as informações dos genes no processar de seu metabolismo. André Luiz, em seu livro Evolução em Dois Mundos, dá ênfase à célula, um non-sense na opinião de muitos, um anacronismo, na opinião de outros, mas uma sabedoria, na opinião de poucos. Naquela obra, afirma o autor que no campo de estudos a que ele se filia, naquele estágio de conhecimento que se encontravam, estavam eles estudando a estrutura mental da célula. Para ilustrar um pouco as repercussões da capacidade obtida, que são extremamente complexas, comecemos com o episódio ocorrido com o casal do estado do Colorado, nos EUA, pais de uma filha que apresentava Anemia de Fanconi. Essa doença rara e grave é passível de cura através de transplante de medula óssea, mas o sucesso dobra de 40% para 80% quando o transplante é feito a partir de células do cordão umbilical de doador plenamente compatível. Os pais de Molly haviam tentado, atravésde Fertilização In Vitro, por quatro anos, um embrião geneticamente compatível para salvar Molly. Adam Nash nasceria após ser o escolhido entre 15 embriões, o único capaz e fornecer as células do cordão umbilical que salvaram Molly. O que serve de reflexão é que uma apurada técnica obtida a partir de sérios e prolongados estudos, permitiu que, para salvar-se uma vida, quase cem embriões fossem gerados, testados e sacrificados, pois apenas um foi implantado e mesmo assim com a finalidade única de servir como doador de células-tronco capazes de dobrar a taxa de sucesso na tentativa de cura de sua irmã. Por mais que o médico responsável por esse tratamento diga que o sucesso obtido justifica qualquer sacrifício, mesmo de vidas, não se pode deixar de lembrar que estudos mostram que células-tronco obtidas de adulto podem se diferenciar e se comportar adequadamente, além do que já existem bancos de cordões-umbilicais, extraídos de fetos gerados com os fins habituais ou acidentais, que podem fornecer material àqueles que são compatíveis imunologicamente. Outro caso que chamou a atenção da mídia, encontrando repercussão, foi o de uma jovem mulher, de pouco mais de 30 anos, portadora de grave síndrome neurológica, de origem genética,que submeteu-se à Fertilização In Vitro, gerando um número grande de embriões, que foram geneticamente testados para a doença que a mãe era portadora, e os afetados foram descartados, os pouquíssimos preservados foram congelados para uso futuro, pelo desejo ardente dela de deixar descendentes.

Os testes genéticos muitas vezes são oferecidos como um pacote para descobrir-se as doenças que acometerão o indivíduo no futuro, numa clara enganação de incautos, quer pela imprecisão dos testes, quer pela não seleção dos testados, quer pelo desconhecimento que o gene não gera por si só a doença. Muito se tem explorado, muito dinheiro tem sido gasto para alimentar pavores infundados ou certezas cada vez mais incertas, em nome do ganho, da celebração da fama.

A genética nunca esteve em tamanha evidência entre os leigos e não iniciados quanto a partir de 1997, ano em que foi anunciado, na Escócia, o nascimento de Dolly, primeiro ser vivo clonado através de uma técnica chamada Transferência de DNA. Os cientistas recolheram o material genético da mãe de Dolly e implantaram em células mamárias cujos núcleos foram esvaziados visando receber o material que formaria Dolly. A equipe do Dr. Willmutt formou 277 embriões e apenas um mostrou-se capaz de desenvolver, no caso a ovelha tão famosa.

Com Dolly o vislubre de clonar-se humanos passou a tornar-se realidade quase palpável. Número crescente de publicações dão conta da clonagem de vários animais de laboratório, a partir da transferência de DNA, gernado já uma estatística de taxa de sucesso de 2%, com um gritante fracasso de 98%. Interessantemente, desses 2% de sucesso, um número grande deles apresenta doenças graves e já são descritas pelo menos 150 doenças entre os animais gerados por clonagem através da transferência de DNA. O porquê da alta taxa de fracasso ainda não se sabe.Se o clone humano virou realidade entre nós a partir da novela, a China anunciou, mesmo antes do médico italiano Severino Antinori, que tinha dez clones humanos. Estabeleceu-se uma corrida para saber-se quem será o primeiro a mostrar seu clone humano, um troféu que terá o prêmio não apenas da opinião pública, mas o grave peso político.

A técnica que fez gerar Dolly é aparentemente simples, mas a pífia taxa de sucesso mostra como é complexo o processo. Quando o espermatozóide funde-se ao óvulo, descarregando seu material genético a fundir-se com aquele da célula receptora, esse par de cromossomas diferentes entre si, partindo de um estado de repouso engendra no mecanismo celular um processo de rápida multiplicação celular, o que virá a ser um embrião.

Esse processo de reprodução a partir de cromossomas em repouso garante um risco mínimo de alterações nos cromossomas que, em alguns casos, geram doenças como a Síndrome de Down e em outros são incompatíveis com a vida. Na técnica de clonagem, uma célula receptora tem seu núcleo vazio preenchido pelo material genético do doador. Não se tem garantia de que esses cromossomas estão em estado de repouso e o fato de se ter uma probabilidade elevada de estarem atividade, faz surgir o alto índice de fracasso e, mesmo nos poucos casos de sucesso, o risco de alterações cromossomiais é grande. Isso nos leva fatalmente à pergunta para mais essa questão saída da caixa de Pandora, supondo o sucesso e a aceitação plena da clonagem humana, que tipos de desenvolvimento anormal deveremos aceitar? Aceitar para quem?

Não esqueçamos que não estamos formando um objeto, mas estamos diante de uma vida humana que surge. Ainda refletindo sobre o que vai saindo da caixa de Pandora, superando essas questões graves sobre o desenvolvimento do embrião humano clonado, caímos em questões éticas mais graves. Se uma mãe tem um filho morto em acidente, mas dele é retirado tecido vivo, qual o limite a ser aplicado ao desejo dessa mãe em fabricar um clone dessa criança? Por mais que saibamos o processo gera corpos, e não espíritos, como mais adiante iremos debater, se é válido o desejo de substituir o filhomorto por um geneticamente quase idêntico, será válido o desejo de outra mãe querer ter um filho sobressalente congelado no nitrogênio líquido, pronto para vir ao mundo após implante em um útero receptor, em caso de morte ou doença grave do original? Existe fronteira demarcada entre o desejo de uma e de outra?

Continuando o raciocínio, um homem casado, pai de três filhos, por algum motivo é levado a clonar um embrião a partir de seu material genético, quem seram os pais de direito da criança, uma vez que geneticamente os pais seram os pais daquele que forneceu o material genético. Essa criança não terá irmãos genéticos, pois não compartilhará da mesma carga genética dos irmãos. Terá ele poder successório sobre o doador caso a esposa dele, o doador, não conscinta com a adoção?

Clonar seres humanos com finalidades reprodutivas tem gerado tanto problema atualmente que quase já não se fala nesse tipo de clonagem, não ser nas saudades da novela, pois a moda agora é falar-se em clonagem terapêutica, a utilização da clonagem para que se formem doadores de células-tronco, que se transformarão em qualquer tecido ou órgão humano. Chama a atenção que, em Março de 97, um mês após o anúncio de Dolly, o Senado Norte-Americano convocou reunião através de um comitê específico de Saúde pública, seguindo também a convocação presidencial e a instalação de um Comitê Nacional de Bioética. Tratando de clonagem reprodutiva, representantes das indústrias de biotecnologia anunciaram que não tinham interesse na clonagem reprodutiva, mas na utilização da técnica para clonagem terapêutica, para a fabricação de órgãos.

Como falamos de indústrias, falamos de venda de tecnologia, ou seja de um comércio de seres vivos. O processo de clonagem terapêutica visa formar embrião de cerca de oito dias de vida, onde se apresenta a fase de blastocisto, momento em que o embrião está repleto de células-tronco, objeto dos almejados transplantes de órgãos. Até aqui o processo é o mesmo da clonagem reprodutiva, mas a partir dessa fase o embrião tem seu desenvolvimento interrompido, passando a ser apenas um rico banco de células. Como cada célula se diferencia em tecidos específicos não se sabe, mas já foi possível fabricar-se tecido renal implantando-se células-tronco em rim de bovinos. Essas células desenvolveram-se formando um aparelho renal.O processo pelo qual ocorreu ainda é uma incógnita.

O que é mais grave é que a clonagem terapêutica será oferecida a um custo, pois é uma técnica que está sendo desenvolvida com fins puramente comerciais, acima da questão humanitária, além do que, saindo mais um problema da famosa caixa, cumpre-nos questionar a questão venda de órgãos, no já existente mercado de órgãos humanos.

Quem não se lembra da prostituta de “Os Miseráveis”, que, para manter a filha após o desemprego, vende inicialmente seu corpo, uma vez adoecida, vende seus cabelos e, por fim, os dentes. Victor Hugo acenava para um mercado real, que hoje existe sob a forte condenação dos preceitos éticos, mas que tende à legalização através do reconhecimento de patentes, não de órgãos ou células humanas, pois são proibidas, mas de técnicas de clonagem, de armazenamento de embriões e de manipulação desses embriões para o desenvolvimento de órgãos e tecidos.

Um número crescente de transplantes de coração se dá pelas consequências dos processos isquêmicos, como a doença arterial ateromatosa, que gera angina, infarto e insuficiência do coração. As causas desses problemas são multifatoriais, a incidência deles é crescente, apesar das várias intervenções sobre a população, ao longo dos anos. Ter a possibilidadede um coração reserva a desenvolver-se se necessário for é consoladora talvez, mas nos lembra muito o caso de Molly, que teve a vida salva por seu irmão, que para poder nascer para esse único objetivo, viu quase 100 outros embriões serem descartados.

Os transplantes de órgãos realizam-se com uma taxa de sucesso importante, chegando, no caso de transplante de rins, a uma sobrevida de 85% em dez anos, isso desde a década de 80, graças à descoberta de uma substância imunossupressora chamada Ciclosporina. Essa droga revolucionou os transplantes, mudou todos os parâmetros de sobrevida.

Os argumentos a favor da clonagem terapêutica pesam pela escasses de doadores em todo o mundo mas o peso de se usar órgãos como mercadorias os prudentes, engana os afoitos. Continuando a sair da caixa, mais uma questão se põe à reflexão: uma vez desenvolvida a técnica de clonagem terapêutica, é justo que toda a população tenha um clone como reserva técnica de órgãos? Aqueles que já nascerem com problemas não podem fazê-lo, pois o clone também teria problemas, mas não seriam esses com predisposições e doenças genéticas os que mais seriam favorecidos com o transplante de órgãos obtidos a partir de células-tronco. Para confundir um pouco mais, estudos de há poucos anos mostram que pâncreas transplantados a pacientes diabéticos também desenvolveram diabetes, após 11anos, em 100% dos casos. Com órgãos fabricados a partir da reserva de um embrião clonado teriam destino diferente? Infelizmente, creio que a resposta ainda é não. Continua aberta a caixa de Pandora, dela saindo todas as pragas e males que o homem poderia experimentar. Todavia, lembra-nos a Mitologia que a última coisa a sair da caixa que trazia a bela Pandora era a Esperança. Apesar de todos os males, de todas as pragas, deveria por último dali sair um sentimento de renovação, mostrando que os deuses do Olimpo não condenaram perpetuamente a humanidade e que o mito de Pandora talvez seja o mito da ciência moderna. Para nós, essa Esperança tem nome, pderíamos chamá-la de Consolador, sem que carreguemos o rótulo religioso, mas ampliando sua perspectiva a todos os movimentos de regeneração surgidos na Terra, desde o final do século XIX. Cabe à Ciência Espírita o estudo do Princípio Espiritual e sua relação com o Mundo Espiritual, sendo a mediunidade um instrumento para se alcançar esse fim. Assim nos diz Allan Kardec em A Gênese, ao tratar da aliança da ciência material com a ciência espírita. Ao distinguir duas ciências, pois utilizam elas meios, materiais e métodos totalmente diferentes, não quis Allan Kardec separá-las, mas vislumbrava a união dessas fontes de saber, que trariam ao homem não somente o conhecimento de si mesmo enquanto ser biológico, mas de suas origens, sua destinação final, seu real objetivo na Terra. O Codificador percebeu que a Ciência teria um limite, que não avançaria além das leis materiais e a aliança com a Ciência Espírita, que trata do que está além da matéria, seria a instrumentação que propiciaria o conhecimento pleno e útil ao homem. Mas a tão esperada aliança entre as ciências espírita e material não ocorreu. Especificamente na questão da clonagem, que causa espanto a muitos, como se relaciona o princípio espiritual com o corpo que se forma? Existe total identidade entre clone e doador? O que transmitem os genes, realmente? A idéia que transmitimos pelo sangue características não apenas do corpo, mas também as características da alma, sempre esteve presente entre os homens e passou a se fazer mais forte desde o final do século XIX, reforçado pelo com a Ciência, a mãe de todas as descobertas que impulsionaram o homem ao auge conquistado no século XX e ainda hoje desfrutado. O romance do genial Charles Dickens, chamado Oliver Twist é exemplar modelo dessa idéia.

O primeiro encontro de Oliver Twist e o pequeno trapaceiro Jack Dawkins numa rua de Londres mostra o contraste entre eles. Oliver, filho de nobre donzela, deixado órfão em uma instituição, apesar de criado sem qualquer requinte de educação, longe das finezas da corte, e, ressalta o autor, sem qualquer manifestação de amor, tem a postura digna, a face fina, de nariz afilado, cabelos louros e cacheados e, muito mais, a inata postura nobre, não arrogante, porém recheada pela honestidade, pelo brio do caráter, pela força do espírito. O jovem menino de rua, ao contrário, tem a face grosseira, nariz achatado, como qualquer menino de rua. O romance mostra que Oliver, em sua jornada ao encontro de suas origens, tem essa postura nobre herdada pelas características de seu sangue, pois é nobre como os pais, que transmitiram a ele esse poder, o poder da natureza, contra a natureza. A idéia que transmitimos características muito além de físicas, mas morais, através de nosso sangue persiste ainda hoje, mas já não chamamos mais de sangue nobre, mas, talvez, de genes nobres.

Existe um estudo onde o caule de uma planta mãe foi dividido em três porções e cada uma dessas partes plantadas em altitudes diferentes. Essas plantas eram clones da planta original, que serviu de modelo de comparação. A depender da altitude, as plantas reagiam de modo diferente, gerando plantas outras distintas em maior ou menor intensidade em relação à matriz.

Outro ponto de estudo interessantíssimo é o da evolução dos rinocerontes. Temos dois tipos de rinocerontes, que surgiram no mesmo período cronológico, um na África, que tem dois chifres no nariz, outro na Índia, que tem apena um pequeno chifre em seu nariz. Partiram da mesma matriz e não se explica a diferença entre eles por alterações em seus genes. O que está além dos genes e nos toca diretamente o sentido, chama-se fenótipo. Por fenótipo podemos descrever todas as palpáveis, mensuráveis do ser vivo, as plantas geneticamente idênticas têm fenótipos distintos, o mesmo se dá com os rinocerontes. O que faz a diferença de resultados entre o que seria esperado para determinado genótipo e o fenótipo efetivamente encontrado é chamado pela ciência de normas de reação.

Essas normas de reação são as alternativas de resultados oferecidos ao genótipo, que podem ser totalmente distinto do esperado. Se ainda não se pode descrever os fatores responsáveis pelas normas de reação que interferem no genótipo para a formação de fenótipos (seres!) distintos, permitam-nos especular, vamos buscar no Princípio Espiritual, objeto da Ciência Espírita, a causa! Ao campo mental das células, que já é um fator a determinar normas de reação distintas, sobrepõe-se o campo mental do espírito, expresso através do perispírito que, ao reencarnar, impõe sua programação própria, sua identidade. Esse ser complexo, descrito como energético por partilhar de leis sutis e interferir nas leis biológicas que regem o corpo físico, influenciado por essas leis enquanto reencarnado e no instante mais ou menos longo da desencarnação, serve de molde, não de cópia, para comportamentos celulares únicos, no campo hoje limitado da genética. Os estudos do Dr. Ian Stevenson, principalmente seu último livro, chamado A Biologia em Face da Reencarnação, mostram a ocorrência de marcas de nascença, que ocorrem no ser reencarnante sem substrato genético, relacionando com eventos que geraram a morte traumática do ser, em reencarnação imediatamente anterior. O Dr. Ian Stevenson publicou o trabalho com o peso de um autor consagrado no meio científico, respeitado pela seriedade de seus trabalhos, ocupando dois volumes de obra extensamente documentada.

Mais que fatores genéticos a influenciar nos resultados do fenótipo, existem características humanas como a linguagem, o comportamento, as emoções, que não são transmitidas geneticamente. O clone de um brasileiro criado no Japão, falará japonês, pois a linguagem não é transmitida pelos genes. Sua capacidade mental será única e poderá ser totalmente distinta de seu molde, pois as sinapses cerebrais não obedecem modelos genéticos para seus desenvolvimentos. Mais que isso, o clone poderá apresentar doenças que jamais serão apresentadas pelo molde, uma vez que alterações estruturais nos cromossomas são muito plausíveis de ocorrer em clones. O Espírito é elemento constitutivo da Natureza e anima as formas materiais dos seres vivos, inicialmente como princípio espiritual, mas nas formas humanas encontram a plenitude do que entendemos por marcas do Criador em cada criatura, de forma mais vibrante e desafiadora, somente no homem o princípio espiritual torna-se Espírito com conotação moral, pois somos seres morais. Se temos a de gerar e aprimorar corpos, não temos a capacidade de gerar espíritos. A primazia sobre o corpo não é obtida através dos genes, mas a partir do corpo espiritual que o espírito reencarnante traz. Ainda que tentemos aliviar doenças, porque algumas doenças são perfeitamente evitáveis, talvez estejamos distantes da capacidade de aliviarmos sofrimentos. O ser não sofre porque adoece ou tem a morte próxima.

Esse erro é da visão utilirarista da sociedade ocidental, desenvolvido nos últimos 60 anos. Paradoxalmente, a necessidade de erradicar-se toda forma de,desde as mais legítimas, que dizimam pela miséria vidas inocentes, até as mais bizarras, que visam retardar o envelhecimento e prolongar a vida no corpo, vendem a idéia de que tudo o que é contrário ao bem estar físico é causa de sofrimento. Os espíritos amigos, tratando da medida da felicidade que podemos obter, lembram-nos, em O Livro dos Espíritos, que temos um senso que diz o que é abuso, que são nossos sentidos. A comida excessiva, que às vezes gera prazer, é causa de doenças que matam mais que a fome; as emoções obtidas por experiências quase extremas, desequilibram a homeostase; a necessidade de ser feliz, traduzida pelo consumo de bens pouco duráveis, pelas aparências que não enganam a si mesmos, por não viver conforme as próprias convicções, ou não ter qualquer convicção própria, geram a depressão e a demência. Ante as pragas saídas da caixa de Pandora, calmamente espera o Espiritismo sua vez de ser auscutado pelos homens, pois é o hino de esperança a lembrar-nos que nossa pátria verdadeira não se conta entre os limites do mundo físico, que somos essencialmente espíritos, que nossos corpos são sagradas vestes, mas apenas vestes que teremos de despir quanto estiverem rotas e sem serventia.

Fonte: http://www.ipepe.com.br/biologia.html


texto - http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo

imagem universitas.locaweb.com.br

domingo, 26 de dezembro de 2010

UMA ÉTICA PARA A GENÉTICA


Todo um universo de insuspeitadas dimensões está surgindo da penetração da pesquisa pelos domínios da Biologia.

Tamanha é a massa de informações que está sendo colhida e tão extraordinário o seu conteúdo que muitos cientistas, fascinados pela excitação intelectual do êxito, imaginam-se novos deuses capazes de criar a vida à sua imagem e semelhança. Não sabem que longe disso, estão apenas começando a descobrir os maravilhosos segredos que Deus coloca nas coisas que faz.

O nosso futuro está sendo jogado em partidas pesadas nos laboratórios do presente, por homens e mulheres de ciência que têm o seu próprio código de ética, que talvez não seja o que melhor convém à sociedade humana. É que nesse verdadeiro exército de cientistas são percentagem desprezível aqueles que têm consciência da grandeza de Deus e do sentido espiritual da vida. Vendo-os trabalharem nos seus magníficos laboratórios, concentrados no estudo do homem, ocorre a nós, que estamos voltados para a realidade espiritual, a nítida expressão de que estão estudando os componentes materiais de marionetes, mas ignorando totalmente a consciência e as motivações que fazem os bonecos se moverem. Ah! Que falta nos fazem cientistas espíritas que se dediquem, com reverência e amor, ao estudo das forças que impulsionam a vida e que lhe dão forma e sentido, não apenas dos componentes materiais em que ela se apóia!

Surgem, por isso, dilemas atrozes que envolvem milhões de seres. "Se permitirmos que os fracos e os deformados vivam - diz o doutor Theodosius Dobzhansky - e propaguem a sua espécie, teremos que enfrentar um crepúsculo genético. Mas, se os deixarmos morrerem ou sofrerem quando podemos salvá-los, enfrentaremos a certeza de um crepúsculo moral".

A equação não está bem armada porque a pesquisa ainda não recebeu o impulso certo na direção correta. O pensamento deve ser reformulado. Que processos espirituais ou psicossomáticos desencadeiam deficiências físicas? Podem ser revertidos? Podem ser evitados? Podemos impedir que se propaguem? Certamente que essas possibilidades poderão ser exploradas com segurança, a partir do instante em que o cientista se convencer de que o homem não é meramente um mecanismo biológico, mas um ser espiritual. O problema é realmente difícil para aquele que não aceita nem como hipótese de trabalho, a realidade espiritual. É que, para atuar no mundo material, o espírito precisa ter na matéria os contatos e as "tomadas" necessárias, junto aos quais atua através do seu perispírito.

Até que assuma tal posição, no entanto, muita desorientação ainda há de provocar danos imprevisíveis aos processos da vida e, por conseguinte, ao homem das futuras gerações. É que, sem o saber, a ciência está interferindo em alguns dos dispositivos da própria reencarnação, ao manipular genes, na tentativa de acelerar ou provocar desvios no sistema evolucionista da vida. O homem moderno tem pressa; não quer esperar pela sabedoria das leis divinas. Está, assim, tentando obrigar a natureza a dar saltos, coisa que ele nunca fez. Os planos são muitos e cada qual mais mirabolante. Ainda na infância espiritual, os homens de ciência descobriram no universo do ser um imenso e imprevisto quarto de brinquedos, os brinquedos da vida. Os projetos são inúmeros e o limite é a imaginação de cada um. Um deles é aumentar a caixa craniana para ter homens mais inteligentes. E fazer o que com a inteligência? - perguntamos nós. Os astronautas não precisam de pernas, portanto, vamos mexer nos genes para criar homens sem pernas. A mulher deseja filhos? Ë fácil: faça-se nela a inseminação com material genético devidamente estudado e preparado. Quer filhos, mas não deseja a gravidez? Implante-se seu óvulo em mãe mercenária. Quer filhos homens, de olhos azuis e cabelos louros? Basta alterar os genes, no ponto certo, tirando partículas e acrescentando outras. Se homens e mulheres desejarem conservar do sexo apenas o prazer momentâneo, então os seres poderão ser criados em úteros artificiais, em série, fabricados em incubadeiras coletivas, às quais qualquer um poderá encomendar seus filhos pelo crediário, com rígidas especificações, com se fosse um novo automóvel. Se o país precisa de um novo exército, "gera-se" um, clonizando células de grandes militares. Para transmitir conhecimentos, basta injetar as "células da memória" de um ser que sabe noutro que não sabe. Para preservar a vida física indefinidamente, pensam os biologistas em clonizar seres humanos de reserva, que ficariam cuidadosamente depositados em congeladores para fornecerem "sobressalentes", tais como coração, pulmões, rins, braços ou pernas, e até cabeças novas para aqueles desgastados pelo uso ou abuso.

Há planos para criar um monstro meio homem meio máquina, chamado "cyborg", que seria um cérebro vivo, ligado a um mecanismo que apenas servisse às suas limitadíssimas necessidades. Já se pratica a técnica da criogenia, segundo a qual se congelam as pessoas doentes ou desgostosas da vida para no futuro, quando for possível resolver os seus problemas biológicos ou psicológicos , sejam trazidas de volta à vida ativa. E o Espírito? Disso ninguém cuida, dele ninguém sabe, por ele ninguém se interessa.

Os centros das sensações estão sendo identificados e "mapeados" nas ignotas regiões do cérebro. A introdução de eletrodos em determinados pontos provoca sensações novas e extraordinárias. Experiências feitas em ratos levaram os pobres animais a uma completa alucinação na busca desesperada do prazer, até a morte por exaustão, completamente desinteressados de tudo o mais, inclusive alimentação e atividade sexual. Descobertas como estas criam problemas imprevisíveis de comportamento futuro. Já há quem preveja "centros de experimentação" em substituição às drogas aos bares e aos cafés, onde as criaturas se reuniriam para viver horas de prazeres nunca dantes experimentados, ligados a uma aparelhagem verdadeiramente diabólica.(...)

Acham outros cientistas que, retirando de um indivíduo alguns componentes genéticos, podem reproduzi-lo à vontade, com todas as suas características físicas - cor de pele, dos olhos e dos cabelos - e, ainda, com absoluta identidade mental e espiritual. Seria, assim, fácil criar um milhão ou dois de novos Lincolns ou Esteins. é claro que, se isso fosse possível, não faltaria quem desejasse criar uma quadrilha inteira de Al Capones ou nação de Hitlers. Nesse ponto, o embriologista Robert T. Francoeur, diz um basta! - que é um brado de alerta: "Xerox de gente? Não deveria ser praticada em laboratório, nem mesmo uma só vez, com seres humanos".

A questão é que os cientistas escolhem seus métodos e decidem sua própria ética. E é por isso que já se pensa nos Estados Unidos, a sério, na proposição de leis que instituam um código ético básico para traçar limites ao que pode ou não pode ou não deve ser realizado, em laboratórios com o ser humano. O problema é, no entanto, muitíssimo mais complexo, porque a tais atitudes respondem muitos cientistas declarando a impossibilidade de pesquisar dentro de faixas rigidamente estabelecidas por legisladores que não estão preparados para decidir questões de âmbito científico.

Por outro lado, mesmo que seja possível estabelecerem, os próprios cientistas um código voluntário de ética, quem poderá assegurar a aplicação ética das descobertas que forem realizadas? Isso porque a ciência pura não se interessa - em princípio - pela utilização de seus "achados". Os homens que começaram a desvendar os segredos do átomo talvez não permitissem que se atirassem bombas sobre populações indefesas, se para isso tivessem autoridade política e militar, mas os que jogam bombas não são os mesmos que descobrem os processos de liberação da energia nuclear.

Não é minha intenção, neste brevíssimo e incompleto sumário, inquietar ou assustar o leitor, mas creio que é útil a todos nós dar essa espiada ligeira em alguns dos problemas que estão ocupando os melhores intelectuais do mundo moderno. Não podemos, no entanto, livrar-nos de uma pesada e opressiva sensação de melancolia, ao vermos que tanto esforço, tempo, dinheiro e talento, são colocados na tentativa infantil de "corrigir" a obra de Deus. Nesta atmosfera de ficção, onde tudo é possível para o cientista, onde está o espírito? Onde está Deus? Vemos, desalentados, que essas entidades não são tomadas em consideração nem mesmo como hipóteses de trabalho, para ajudar o raciocínio ou testar experimentações incompreensíveis, quando deveriam ser a base, o princípio dominante de toda a especulação em torno dos fenômenos da vida, manifestação legítima da grandeza de infinita de Deus.

Ao contrário, o que vemos nessas pesquisas e nesses estudos, são homens brilhantíssimos, donos das mais respeitáveis técnicas, trabalhando nos mais avançados laboratórios, mas de cabeça baixa, voltados para a matéria, só matéria, matéria sempre, sem saberem que o átomo é apenas o suporte transitório da vida, muleta de que o ser precisa por algum tempo, no início da sua carreira evolutiva na sua escalda para o infinito, na direção de Deus.

Para tomar um só exemplo, vejamos o que está sendo pesquisado em torno da memória. A história começa com a sensacional descoberta do RNA (ácido ribonucleico) e do DNA (ácido desoxirribonucleico), ingredientes básicos do gene existente nas células de todos os organismos vivos. Esse achado científico foi considerado tão importante quanto a desintegração atômica, porque foi surpreender fenômenos da vida nas suas bases de sustentação e propagação. Na realidade, as pesquisas vão de tal forma adiantadas que Arthur Kornberg, da Universidade de Stanford, conseguiu produzir uma fieira de moléculas de DNA capaz de reproduzir-se, tal como um vírus.

Experiências posteriores, partindo do conhecimento obtido acerca do conhecimento obtido acerca do comportamento do RNA, sugerem a possibilidade de transferir informações armazenadas na memória de um ser para a memória de outro, mas os próprios cientistas ainda têm muitas dúvidas sobre a validade dos dois testes feitos, que não acham bastante conclusivo. No entanto, já se partiu para a especulação das possibilidades e perspectivas resultantes da experimentação. Alguém imaginou as "pílulas do conhecimento" que, compradas na drogaria ali na esquina, poderiam proporcionar àquele que as ingerisse conhecimento de línguas, de arte ou de matemática. A coisa, porém, não é tão simples assim, porque então, como diz James Mac Connell, psicólogo da Universidade de Michigan, para que desperdiçar todo o vasto conhecimento adquirido por um eminente professor? Em lugar de aposentá-lo ao cabo de uma vida de trabalho, a solução melhor seria os alunos comerem o mestre...

Brincadeira, ou não, o certo é que as aventuras no domínio da genética e da biologia prosseguem na ignorância total da condição espiritual do homem.

Wilder Penfield, um cirurgião canadense, ao realizar uma operação cerebral com anestesia local descobriu que certos pontos do cérebro, eletricamente estimulados, levavam o paciente a ouvir uma canção antiga, ou a reviver, com todos os seus vívidos pormenores, uma esquecida cena da infância, ou uma senhora a experimentar, novamente as sensações de uma antiga gravidez. Daí, concluíram alguns cientistas que o cérebro tem capacidade para registrar e conservar com precisão incrível todas as sensações que recebe, por menos importantes que sejam. O ESPIRITISMO sabe disso há muito tempo, ensinando que esse registro se faz no perispírito, mesmo porque as memórias que guardamos não são apenas as desta vida, mas as das anteriores também, até onde alcançar a nossa consciência. A demonstração disso está no fenômeno da regressão da memória. (...)

Abismado pelas complexidades e grandezas da biologia molecular, o homem ainda não aprendeu a ser humilde diante da obra de Deus e perguntar, como George W. Carver, o que desejou o Criador dizer com as maravilhosas coisas que fez. Em lugar disso, o homem quer criar e corrigir a obra da natureza, uma obra da qual ele ainda não entendeu sequer os princípios fundamentais.

Todas essas descobertas e debates estão preocupando os pensadores, teólogos e filósofos dos tempos modernos. Que vai sair desses laboratórios ameaçadores? Um ser artificial? Um "cyborg" a ditar ordens implacáveis? Multidões clonizadas por cópias, como xerox? Seres sem alma? Nada disso! Se forem criadas artificialmente as condições existentes na mais profunda e sagrada intimidade do organismo materno, o espírito aí se encarnará, mas o homem não poderá criar a vida, isto é, um ser humano pensante, mesmo que tente copiá-lo de um já existente! (...)

Esse é o quadro que a biologia molecular e a genética estão compondo neste exato momento em que o leitor lê estas linhas. O homem está brincando é de aprendiz de feiticeiro e se os poderes espirituais não tomassem as medidas necessárias, no tempo oportuno, a civilização moderna se suicidaria em poucos decênios. Muitas dores por certo ainda hão de vir enquanto brilhar a inteligência divorciada da moral, mas não está muito longe o dia em que Deus vai mostrar, mais uma vez, que o Universo que Ele criou não anda à matroca, nem precisa de correções, a não ser aquelas que forem necessárias para corrigir os desvios provocados pela vaidade humana.

Há, pois, uma urgente necessidade, neste ponto de civilização: uma ética para a genética.

O nosso futuro está sendo jogado em partidas pesadas nos laboratórios do presente, por homens e mulheres de ciência que têm o seu próprio código de ética.

Hermínio C. Miranda

Da Revista Reformador jun/1971

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1998)


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terça-feira, 30 de março de 2010

HEREDITARIEDADE E ESPIRITISMO


Iaponan Albuquerque da Silva

Na intimidade do átomo, molécula ou célula, dos reinos mineral, vegetal ou animal, vige a grandiosidade da Inteligência Divina, plasmando a organização do Micro ao Macrocosmo, pacientemente provando a presença de DEUS em toda a Criação.

I - INTRÓITO

É fato comum a todos nós o sabermos da existência de pequenas vilas, de cidades agitadas pelo labor de seus habitantes e de verdadeiras megalópolis, estas últimas frutos diretos das multifárias atividades humanas, com as quais buscam freneticamente a satisfação dos seus mais variados intentos.

De modo geral, atores e participantes desses redemoinhos humanos dificilmente se apercebem da necessidade absoluta de se ligarem ao Pai Criador, nele buscando paz íntima, reconforto espiritual ou orientação para seus destinos.

A dinâmica da vida, a busca pela supremacia, o desejo de ganho muitas vezes transfundindo-se em ambição desmedida, a preocupação de parecer e aparecer ao invés de simplesmente ser, levaram o homem da craveira comum a investir em si mesmo, e a desprezar o contato com DEUS.

Triste miopia espiritual que vem afetando grande parte da Humanidade.

Não há tempo para que seja divisada, em tudo e em todos, a augusta presença de DEUS - poderosa e imanente - conclamando-nos à compreensão de suas Leis.

A geração de hoje é resultado de inúmeras outras de antanho, que se perdem na diáfana noite dos milênios sem fim, sempre constantes em sua morfologia somática, formando uma cadeia inumerável de populações, que a despeito de suas mais desencontradas metas e modus vivendi, guardam sempre a condição primordial de serem catalogadas como seres homo sapiens.

A partir dessa classificação antropológica, que caracteriza e entroniza cada um de nós como detentor da Razão, conseqüentemente rei no Plano Criado, não seria absurdo, posto que necessário, o dever de nos reportarmos aos chamados “mistérios da Criação”, especialmente à Genética, a fim de que nos compenetremos de que o ser vivente de hoje é o somatório de vários fenômenos proporcionados pela Natureza, para sua existência, permanência, mutação e evolução, através dos milênios.

II - A FILOSOFIA DA CRIAÇÃO

É clássico e notório o saber-se que a concepção no reino animal tem seu início na junção do espermatozóide com o óvulo feminino.

A fecundação reflete não somente a atuante e estuante força da Natureza, na busca de perpetuação da espécie, mas igualmente, e de forma inequívoca, a Lei Maior de DEUS, que através do automatismo, do desejo ou do amor, faz perpetuar as espécies, a fim de que elas se multipliquem e se aprimorem.

Sem dúvida, poderia parecer à primeira vista que a única finalidade da multiplicação dos seres seria a de cobrir a Terra de seres viventes, dando ensejo ao funcionamento das leis genéticas, incluindo, por exemplo, a prevalência do mais forte, através do processo seletivo.

Concepção multiplicação, mutação e seleção, todos esses fenômenos têm sido estudados exaustivamente, há séculos, para que melhor se conhecessem as leis que regem a Natureza.

Esforços ingentes, labores incalculáveis sempre buscaram insistentemente o porquê da Vida, seus mais difíceis e intrincados meandros, na permanente porfia entre a ignorância e o saber. Ignorância e saber humanos que se digladiam como feras acuadas ante a superioridade da Sabedoria Divina, que muitas vezes os pesquisadores negam, afoitos e presunçosos, erguendo altares ao seu próprio ego.

Todas as instâncias do saber humano periclitam em suas bases, sem o convívio permanente e necessário com o Hausto Divino.

A supremacia da Divindade é fato inconteste a estadear-se no Plano da Criação, do micro ao macrocosmo.

A esse respeito, cumpre-nos prazerosamente consultar “O Livro dos Espíritos” que, no capítulo III da 1ª parte - Da Criação - Formação dos Mundos, diz-nos:

“O Universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que o enchem”.

Mais adiante, de maneira genérica, ainda em “O Livro dos Espíritos”, em Formação dos seres vivos, como resposta à questão 43, responderam os Espíritos:

“No começo tudo era caos, os elementos estavam em confusão. Pouco a pouco cada coisa tomou o seu lugar. Apareceram então os seres vivos apropriados ao estado do globo”.

Nesta incursão à gênese da Criação, feita de forma humilde e despretensiosa, sente-se a grandeza das Leis Divinas a coordenar fatos e princípios. Não há vácuo no Plano Criador.

O que se nos parece sem vida ganha cor; o estático aparente apenas mimetiza a dinâmica sempre atuante.

Ao leitor espírita ou espiritualista não há como conceber um Universo sem DEUS, ou o Acaso gerando formas e situações.

O Acaso é o nada e o nada não existe.

Eis porque é lógico, crível e até científico chegar-se à CRIAÇÃO, com DEUS a presidi-la.

Na publicação “Ciência Ilustrada” da Editora Abril Cultural Ltda., sob o título O homem descobre o Mundo, que versa sobre a matéria “Ciência é saber ver um Universo claro e exato”, deparamos com bela foto de uma esponja que na simetria do seus esqueleto “fixa o padrão de sua espécie”. “Na simetria do 'esqueleto' da esponja da foto, o padrão da espécie está indelevelmente fixado.

Em cada geração a mesma forma se repete graças aos mecanismos genéticos.

Compreender uma estrutura conhecer suas leis gerais é também fazer Ciência”.

A cada passo, ante a imensidade daquilo que foi desvendado no campo da Ciência, e diante do que falta desvendar, vê-se claramente - como numa operação matemática - a presença de DEUS e a negação do acaso.

A Doutrina dos Espíritos, que é Filosofia, Ciência e Religião, traz em seu bojo salutares esclarecimentos, que não infirmam as descobertas científicas, antes as iluminam e ampliam, imprimindo-lhes o sinete da Presença Divina em tudo e em todos.

Compreende-se de uma vez por todas, que a Criação não é obra do Acaso, que o vazio nela não existe, e que os reinos mineral, vegetal e animal se agitam e reproduzem, mercê de Leis Sábias e absolutamente equânimes, com vistas ao povoamento e perpetuação das espécies em todos os departamentos do Planeta.

III - HEREDITARIEDADE: APENAS UMA LEI DA NATUREZA?

Alguns menos avisados hão de querer julgar que ao Espiritismo e aos espíritas faltam-lhes o mediano senso de crítica, responsável por uma análise mais perfeita dos fatos, das pessoas e das coisas.

Dentre os que seriamente aderiram ao Espiritismo, desde a sua origem, encontram-se dos simples operários aos homens notáveis pelo saber e pela cultura.

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“Na Doutrina Espírita aprendemos a amar, mas igualmente a estudar, para enfrentarmos a Razão face a face”

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Quem conhece a História do Espiritismo sabe muito bem que, afastado o aspecto burlesco das comunicações iniciais das mesas girantes e falantes, ficou a mensagem, a seriedade, aquilo que fala à alma e ao coração, a sapiência sem peias, e, junto a tudo isso, a nata da inteligência francesa, sem sombra de dúvidas, protagonizada no mestre lionês - Hippolyte León Denizard Rivail (Allan Kardec) e todos os que àquela altura o acompanhavam, conquistando a Doutrina dos Espíritos - mais adiante - inúmeros cidadãos de invejável cultura que a História registra como marcos inconfundíveis de grandes vitórias (vide a obra de “Allan Kardec”, em 3 volumes, autoria de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, Editora FEB). Essa obra é, inquestionavelmente, uma extraordinária e meticulosa pesquisa bibliográfica.

Ser espírita, portanto, não é somente ser deísta, crer na imortalidade da alma, admitir-lhe as comunicações, modificar-se interiormente, mas, de igual maneira, buscar a Verdade através do Saber.

Na Doutrina Espírita aprendemos a amar, mas igualmente a estudar, para enfrentarmos a Razão face a face.

O fanatismo pode rondar os nossos arraiais, mas não os penetra, pois dele somos a própria antítese.

Eis por que nem sempre andamos de mãos dadas com certas afirmações que, a despeito de serem consagradas, respeitamo-las, mas não as endossamos.

Vejamos, por exemplo, o problema da Hereditariedade, capitulado no campo da Biologia, mais especificamente na Genética.

Transcreveremos do ótimo livro didático “Biologia Moderna” (Maria Luiza Beçak e Willty Beçak - volume 2 - Livraria Nobel S.A. - 1975), o que se lê na página 11, encimado pelo subtítulo Herança e Meio:

“Um dos problemas mais antigos em Biologia é o estudo das causas fundamentais, que condicionam a grande variabilidade existente entre os seres vivos. Plantas e animais apresentam grande variedade de caracteres relacionados à cor, tamanho, forma e atividades fisiológicas.

As causas fundamentais que condicionam a variabilidade biológica são a hereditariedade e o ambiente. Genética é a ciência que estuda as semelhanças e as diferenças entre seres vivos e as suas causas. É a ciência que estuda a hereditariedade e o ambiente. (...)

Resultando os caracteres tanto da influência de herança, como do ambiente, a hereditariedade não implica que os filhos sejam necessariamente idênticos aos pais. Indivíduos com igual patrimônio hereditário poderão ser diferentes, quando se desenvolvem em meios diversos. (...)

JOHANNSEN, em 1911, propôs o termo "genótipo” para designar a constituição hereditária, (...) e “fenótipo” para designar a aparência de um indivíduo, ou seja, a soma total de suas peculiaridades de forma, tamanho, cor, comportamento externo e interno. (...)

O que o indivíduo herda é o genótipo e não o fenótipo."

De posse dessas informações, fica o indivíduo que somente deseja saber, restrito ao aspecto meramente didático e prático, ciente de que somos, inapelavelmente, no campo físico, o somatório de contingências hereditárias, aliadas aos problemas de meio ambiente, etc. Enfim, herdamos por genotipia e nos modificamos através de processos outros, que nos levam à fenotipia.

Em que pese o nosso mais profundo respeito por todas essas conceituações científicas, grande parte delas irrefutáveis, cumpre-nos lembrar que não podemos encarar o problema da hereditariedade somente sob o frio aspecto com que ele nos é mostrado pela Ciência. Há que se perquirir, perguntar, estudar, levantar hipóteses acerca do fenômeno da hereditariedade, que está inserido no Plano da Criação Divina.

Exatamente aí, neste campo em que se cruzam os fatores materiais e espirituais, é que está o cerne da questão.

Ocorre que, ao sermos informados por aqueles que residem no Além, vemo-nos obrigados por uma questão de consciência, a expender conceitos que nem sempre se afinizam com outros já conhecidos e consagrados. No caso em apreço, sem dúvida, é a Ciência Espírita em ação.

Sobre hereditariedade, herança morfológica, etc., vale lembrar ensinamentos valiosos de André Luiz, médico que foi na Terra, ora vivendo no Plano Espiritual, em sua obra “Evolução em dois Mundos”, psicografada por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira editado pela FEB.

À guisa de antelóquio dessa obra, sob o título Anotação, ensina-nos Emmanuel:

"O Apóstolo Paulo, no versículo 44 do capítulo 15 de sua primeira epístola aos coríntios, asseverou, convincente:

-Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual”.

Ao espírita não há como fugir à conceituação da existência do corpo animal e do corpo espiritual, sendo que aquele é posterior ao segundo.

A existência do Espírito eterno, imortal, e sua configuração perispirítica, profundamente estudada nas obras espíritas, faz-nos atentar para o fato de que a vida, ou seja, o ser configurado sob as vestes carnais, não é somente reflexo de leis naturais fixadas sob o império da hereditariedade.

Cada indivíduo, cada ser vivente, deixa os estreitos limites onde é analisado, para surgir como junção de dois elementos - corpo e espírito – distintos porém entrelaçados, agindo e reagindo reciprocamente.

Na obra “A Evolução Anímica”, de Gabriel Delanne, encontramos esta jóia de informação científica, que bem explica a junção espírito-matéria e suas conseqüências, sob o título A utilidade fisiológica do perispírito:

“Estabelecemos de princípio, por experimentações espiríticas, que os Espíritos conservavam a forma humana e isto não só por se apresentarem tipicamente, assim, como porque o perispírito encerra todo um organismo fluídico-modelo, pelo qual a matéria se há de organizar, no condicionamento do corpo físico”.

Consultando-se a citada obra “Evolução em dois Mundos”, cuja leitura recomendamos, nela encontraremos resposta adequada à extensa linha de quesitos que se possa propor, enfocando corpo e espírito. A bem da verdade, essa obra é um extraordinário vade-mécum a quem desejar conhecer a gênese dos Espíritos, e, conseqüentemente, da matéria.

Nela se aprende que o chamado “elo perdido”, que medeia entre formas rudimentares do ser vivo e outras mais adiantadas foi resultado da intervenção dos Mentores espirituais na alteração psicossomática de formas que viveram na Terra, dando prosseguimento ao Plano Criador, sempre se justapondo o corpo carnal à matriz espiritual.

IV - A QUESTÃO DA HEREDITARIEDADE PSICOLÓGICA

Levantamos aqui uma propositura, que nos parece bem interessante, sobre a questão da hereditariedade e psicologia humanas.

É exatamente aí, e mais do que nunca nesta questão, que se sente a presença do Espírito, agindo e reagindo, atestando-se fruto de si mesmo, segundo a já citada afirmação do Apóstolo Paulo. É a presença inequívoca do Espírito no Plano da Criação.

Subtraindo-se às injunções de todo o processo genético, desde a fusão do espermatozóide com o óvulo até às linhas cromossômicas, que tipificam morfologicamente o ser, permanece imune a presença do ser espiritual, na sua caminhada evolutiva em busca da Luz e da Perfeição.

Atado mas não escravo, resguardando suas características próprias, ele (O Espírito) busca sua movimentação própria no que concerne ao psiquismo, dando margem à formulação de questionamentos a seu respeito.

A sua presença, que guarda certa independência, há de espantar aqueles que tudo julgam sob o critério único do imediatismo fisiológico.

Dentro da literatura espírita são clássicas e inúmeras as citações a respeito do problema da hereditariedade, principalmente a de origem psicológica. Vejamos algumas.

Na obra “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, autoria de Léon Denis, no capítulo XV, que trata das vidas sucessivas, das crianças-prodígio e da hereditariedade, encontramos:

“Podem-se considerar certas manifestações precoces do gênio como outras tantas provas das preexistências, no sentido de serem uma revelação dos trabalhos realizados pela alma em outros ciclos anteriores. (...)

Cada encarnação encontra, na alma que começa vida nova, uma cultura particular, aptidões e aquisições mentais que explicam sua facilidade para o trabalho e seu poder de assimilação, por isso dizia Platão: 'Aprender e recordar-se'."

Seguem-se, na mesma obra, inúmeras citações que comprovam, à saciedade, que o ser espiritual preexiste à matéria, mantém suas características de evolução, e foge aos liames da “ditadura escravizante” das leis genéticas, estereotipadas na hereditariedade. Esta, se é total na genotipia e quase o é na fenotipia, deixa de sê-lo no campo psicológico.

O Espírito não é fruto da carne.

Após essas oportunas e esclarecedoras afirmações, não há como contestá-las, mas apenas referendá-las, sob a ótica da Filosofia e Ciência Espíritas. Vai-se fechando, dessa maneira, o elo necessário à grande corrente do Saber Espiritual, que nos aponta a existência e preexistência do Espírito, a manifestar-se no jogo da vida sem clausura total nas leis da reprodução.

Aproveitando a idéia de tempo que nos veio à mente, é de se notar que os Espíritos de Luz, fiéis mensageiros do Senhor, continuam insistindo na tese contrária à legitimidade de uma herança psicológica.

A Federação Espírita Brasileira, através de seu Departamento Editorial, publicou em 1989 a obra “Temas da Vida e da Morte”, pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, psicografada por Divaldo Pereira Franco, na qual encontramos matéria alusiva à hereditariedade psicológica, inserida sob o título Tendência, aptidões e reminiscências:

"É evidente que os processos da reencarnação se fazem mediante as leis de afinidade espiritual, por impositivos anteriores, o que resulta em identificações e choques nos clãs, onde se reencontram seres simpáticos, ou adversários que o berço volta a reunir. (...)

As aptidões e tendências só raramente correspondem às leis de hereditariedade, especialmente hoje, quando as opções para a conduta e a ação se fazem um leque imenso de possibilidades, ensejando a identificação do homem com suas próprias realidades. (...)

Eis por que as tendências, as aptidões humanas, sem descartar-se a contribuição dos genes e cromossomas, procedem das experiências do passado, em que o espírito armazenou valores que lhe pesam na economia evolutiva como poderosos plasmadores da personalidade, da inclinação para uma como para outra área de conhecimento, para a vivência da virtude ou do vício."

Eis considerações exatas, perfeitas e atuais, sobre o assunto em tela, enumeradas do Plano Espiritual.

Um fato nos preocupou seriamente: o da longevidade das informações.

Mas como já ficou claro que o tempo não passa em vão, e é iconoclástico como sempre o foi, ele poderia ter derrubado antigos mitos e opiniões. Veja-se, por exemplo, essa nota da Editora da FEB (1952), inserida antes do índice da obra “A Evolução Anímica”, de Gabriel Delanne, onde o Autor trata da Hereditariedade Psicológica:

“Devemos lembrar ao leitor que esta obra foi publicada em 1895. Muitos conhecimentos científicos aqui expostos sofreram, no correr dos anos, sua natural transformação e progresso, o que, entretanto, não invalidou o vigor e a firmeza dos conceitos espiritistas emitidos pelo Autor, mas, antes vieram afirmá-los cada vez mais”.

Compulsando ambas, a nota editorial e a mensagem da obra “Temas da Vida e da Morte”, deixamos para trás nossas preocupações sobre a possibilidade de serem longevos ou ultrapassados os estudos espíritas sobre o assunto Hereditariedade, mais especificamente Hereditariedade Psicológica.

Considerando-se que, há cerca de um século, os Espíritos iluminados mantêm o mesmo pensamento sobre o assunto, há que aceitá-lo como certo.

Com Kardec aprendemos que a “universalidade dos ensinos” dá-nos a certeza da veracidade.

No caso em apreço, verifica-se que Delanne fez publicar sua obra em 1895, na qual apreciou a hereditariedade psicológica, e hoje, um século após os conceitos espíritas por ele emitidos, são corroborados na obra “Temas da Vida e da Morte”, do Espírito Manoel Philomeno de Miranda.

Em face dos nossos limitados conhecimentos, cremos não haver mais nada a acrescentar ao tema em estudo.

Os Espíritos de Luz, Vanguardeiros da Eterna Verdade, continuam nos alertando para a necessidade de amarmos e estudarmos.

E certo será que burilando-nos internamente no campo das Virtudes, e estudando, por certo chegaremos à meta a que nos propusemos.


Referências Bibliográficas:

(Pela ordem de apresentação do trabalho.)

- KARDEC, Allan. O Livros dos Espíritos, parte 1ª, Cap. III, Formação dos

Mundos, 79ª ed. Rio de Janeiro; FEB, 1997, 495p., pp. 64-65.

- Ibidem, questão 43.

- Ciência Ilustrada, Editora Abril Cultural Ltda., 1969, p. 11.

- BEÇAK, Maria Luiza e BEÇAK Willy, Biologia Moderna, volume 2, Livraria

Nobel S.A., 1975.

- XAVIER, Frnacisco C, e VIEIRA, Waldo. Evolução em dois Mundos, pelo

Espírito André Luiz, 15ª ed. Rio de Janeiro. FEB, 1997, 224p.

-DELANNI, Gabriel. A Evolução Anímica, 8ª ed. Rio de Janeiro; FEB,. 1995, 256p.,

p 37, Cap. I.

- DENIS, Léon .O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 19ª ed. Rio de Janeiro

FEB, 1997, 416p., p. 236.

DELANNE, Gabriel. A Evolução Anímica, 8ª ed. Rio de Janeiro; FEB 1995, 256p.,

pp. 230-231.

FRANCO, Divaldo Pereira. Temas da Vida e da Morte, pelo Espírito Manoel

Philomeno de Miranda, 4ª ed. Rio de Janeiro, FEB, 1996, 160p., pp. 42-43.

Fonte: Revista Reformador – julho/1998


ENDEREÇO: http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo2019.html
IMAGEM: karina15fabio14marta.blogspot.com



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