
Com permissão do dalailam
J. Herculano Pires
texto - http://tamoporai.blogspot.com/
imagem - autoresespiritasclassicos.com

Com permissão do dalailam
J. Herculano Pires
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"TERCEIRA CRENÇA COM MAIS ADEPTOS NO MUNDO,
O HINDUÍSMO CARACTERIZA-SE PELA PROFUSÃO DE
DEUSES, PELOS RITUAIS E ANIMAIS SAGRADOS.ENTRE
UM FESTIVAL RELIGIOSO E OUTRO, OS HINDUS BUSCAM
O CAMINHO DA LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL."
Mal cai a noite, e o antigo centro urbano de Varanasi, no norte da India, começa a ficar agitado. As margens do Rio Ganges, as vielas, as esquinas apertadas e os templos são tomados por uma massa de peregrinos vindos de várias partes do país. É uma celebração coletiva em homenagem a Shiva, o mais incensado dos deuses do panteão hindu, que, segundo a mitologia indiana, teria escolhido Varanasi para viver na Terra. A atmosfera está impregnada pela cantoria de hinos sagrados, pelo aroma doce dos incensos e pelo constante tilintar de sinos ressoando das casas e dos templos shivaístas. Até a manhã seguinte, ninguém deve dormir: quem presta vigília em homenagem a Shiva, dizem os hindus, pode colher benefícios nesta e na próxima vida.
Num dos templos, fiéis se espremem para observar os movimentos precisos de um sacerdote hindu que executa um ritual incomum aos olhos ocidentais. Ele lava a imagem do Shiva-lingam - objeto fálico que simboliza o poder supremo da criação, a união dos sexos masculino e feminino - a princípio, com a água do Ganges, depois com iogurte, leite e, finalmente, mel. Esses são elementos considerados sagrados, dádivas dos deuses. No fim de cada uma dessas etapas, esse profissional de cerimônias, chamado pujari (autoridade religiosa que serve de conexão entre os homens e os deuses), recita em sânscrito trechos de alguma escritura sagrada. Os devotos respondem em voz alta e repetidamente o mantra Om Namo Shivaya.
NO VALE DO RIO KARIMABAD, NO PAQUISTÃO, OS PERSAS
CHAMAVAM ESSE RIO DE SHINDUS E, DEPOIS COMEÇARAM
A DENOMINAR OS POVOS QUE MORAVAM NAQUELA REGIÃO
DE "HINDUS".
Essa celebração, conhecida como Mahashivaratri ou "a grande noite de Shiva", é apenas um dos inúmeros festivais religiosos que ocorrem quase diariamente em toda a Índia. São celebrações inevitáveis em terras hindus, onde há milhares de deuses, santos, profetas e gurus para serem adorados, agradecidos ou simplesmente lembrados. Comemoram-se ainda eventos mitológicos, como a vitória de algum deus sobre terríveis inimiigos, e, às vezes, até datas religiosas de outra fé que foram assimiladas pelo caldeirão cultural hindu.
"Desde os primórdios, o Hinduíssmo desenvolve-se gradativamente, assimilando todas as religiões e movimentos culturais da Índia", diz o professor K.M. Tripathi, diretor da Universidade Hindu de Benares, na Índia, uma respeitada instituição humanística fundada no início do sécuulo 20. "E, ao contrário das grandes religiões do mundo, como o Cristianissmo e o Islamismo, a religião hindu não teve um fundador. Também não conta com um livro a ser seguido, como a Bíblia e o Corão."
JUNTO ÀS MONTANHAS DO HIMALAIA, O VALE DO RIO INDO
É O BERÇO DO HINDUÍSMO. IRONICAMENTE, A REGIÃO QUE
OUTRORA SERVIU AO FLORESCIMENTO DA RELIGIÃO, HOJE,
LOCALIZA-SE NO PAQUISTÃO, PAÍS GOVERNADO SOB AS LEIS
DO ISLÃ. A CRENÇA HINDU, PORÉM, CONTINUA FORTE NA ÍNDIA
E NO NEPAL."
Atrás dos óculos de lentes grossas, Tripathi expressa-se com serenidade, sem pressa. Nascido em Varanasi e acostumado desde criança a participar da incrível diversidade de ritos, ele é um entusiasta do fascinante universo hindu - uma profusão de deuses, mitos, heróis, rituais e animais sagrados.
O Hinduísmo representa hoje a terceira religião com mais adeptos no planeta, depois da crença católica e da islâmica. Estima-se que existam aproximadamente 900 milhões de devotos no mundo. Apenas na Índia, eles somam cerca de 80% da população de 1 bilhão de habitantes. Essa fé também é majoritária no Nepal, na Ilha de Bali e nas Ilhas Maurício.
A cidade de Varanasi ocupa lugar de destaque para essa imensa massa de fiéis: além de ser a morada terrena de Shiva, é banhada pelo sagrado rio Ganges. Para os hindus, o Ganges - personifiicado como a deusa Ganga - é um rio com poderes purificadores que teria descido dos céus após os pedidos de um santo chamado Bhagiratha. As águas, porém, desceram com tamanha violência que Shiva precisou aplacar tal fúria com seus longos cabelos. Os movimentos da cabeleira do deus acabaram por formar o percurso do rio na Terra. Desde um passado remoto, milhões de peregrinos rumam até Varanasi com o propósito de serem cremados às margens do Ganges. Com tal ato, estariam se libertando do carma (o destino moldado com base nas boas e más ações) de sua vida presente e futura.
BERÇO HINDU
Para entender o Hinduísmo, porém, é preciso voltar a roda do tempo. Há cerca de 5 mil anos, nos arredores das montanhas do Himalaia, floresceu uma avançada civilização no Vale do Rio Indo, onde hoje é o Paquistão. Escavações arqueológicas nas regiões de Mohenjodaro e Harappa indicam que, ao redor do ano 2500 a.c., aquele povo tinha uma religião com aspectos muito próximos ao Hinduísmo atual. Ainda há mistérios sobre a vida religiosa no Indo, mas sabe-se que deuses e deusas eram objetos de adoração.
Por volta do ano 1 500 a.c., quando a civilização do Indo entrava em declínio, a região começou a ser invadida por povos oriundos provavelmente das redondezas do Mar Cáspio e do atual Irã. Eles se autodenominavam arianos ("nobres", "bons"). Politeístas, veneravam vários deuses, muitos deles representantes de fenômenos da natureza, como o vento, o sol, a água e o fogo. Os arianos impuseram sua mitologia na região do Indo e, ao mesmo tempo, absorveram crenças locais. Foi a época em que vieram à luz os quatro livros sagrados mais antigos da fé hindu: os Vedas ("Conhecimento Divino"). O primeiro deles, o Rigveda, teria sido composto no terceiro milênio a.c. e é considerado a escritura sagrada mais ancestral do mundo.
Divulgados também oralmente, os Vedas tornaram-se referência e fonte de inspiração para a produção de uma vasta série de textos sagrados, como os Upanishads. Escritos por volta do ano 800 a.c., versam sobre a origem do universo, a natureza das divindades, além da conexão da mente com a matéria. Contêm ainda investigações metafísicas, base da filosofia hindu.
O Mahabharata, ou ''A Grande Guerra dos Bharatas", é outro texto respeitado entre os hindus. Trata-se de um dos épicos mais extensos do mundo: divide-se em 18 livros, com cerca de 220 mil linhas. Os poemas narram a guerra entre os Kauravas e os Pandavas, descendentes de uma dinastia que governava o mundo há milhares de anos. Os conflitos discorrem sobre o dharma, a lei que rege a ordem secreta e pessoal que cada um traz em si. Seu episódio mais celebrado devido à beleza narrativa é o Bhagavad-Gita, um diálogo filosófico entre a "Divindade Suprema" Krishna e o guerreiro Arjuna.
Para o professor Tripathi, o Hinduísmo destaca-se por sua tendência natural em admitir e respeitar os mais diversos ensinamentos religiosos. De fato, no passado a crença hindu incorporou lições de budistas e jainistas. Religião contemporânea do Budismo, fundada pelo profeta Mahavira por volta do ano 500 a.c., o Jainismo tem como lei o ahimsa, a total obediência à não-violência. Adotada pelos hindus, tal prátiica ficou internacionalmente famosa após o Mahatma Gandhi usá-la na luta contra o imperialismo britânico na Índia, na primeira metade do século 20.
Por volta do ano 1000 da era cristã, enquanto o império muçulmano fortalecia-se em terras indianas, o Hinduísmo assimilava aspectos culturais do Islã - como a arquitetura e a música, por exemplo. Da fé hindu brotaram ainda novas ramificações. É o caso do Sikhismo, religião com características doutrinais do Hinduísmo e do Islamismo. Algumas práticas básicas do Sikhismo são seguidas pela maioria dos hindus", conta Alakha Shakti, diretora da tradicional Escola de Yoga de Bihar, no estado indiano de Bihar. Entre elas, estão a yoga e o puja. Muitas vezes confundido com "ginástica" no Ocidente, a yoga faz parte de uma tradição ancestral, que busca o autoconhecimento por meio do controle da mente e, dependendo da escola a que pertence, do treino do corpo. Já o puja refere-se às orações e cerimônias de oferendas aos deuses. "O sacrifício é outra prática hindu, que objetiva a elevação espiritual", afirma ela.
Faz muitos anos que Rama Krishna Das, um dos mestres espirituais de Alakha, obedece a um rigoroso sacrifício imposto por ele próprio. "Desde 1986, resolvi alimentar-me apenas de leite e de chá. Não como nada sólido. Aos poucos, liberto-me de todos os desejos, até mesmo do cheiro e do sabor da comida", diz ele, sentado em posição de lótus num tapete surrado de seu kuti, o pequeno templo onde vive solitário, em Pashupatinath, famoso destino de peregrinação no Nepal.
Aos 74 anos e dono de uma disposição jovial, Krishna Das é devoto fervoroso de Rama, uma das encarnações de Vishnu, deus que estabelece a verdade na Terra. Assim, ele nunca inicia um só dia sem antes prestar homenagens a Rama, o que pode incluir a repetição
sistemática de um mantra devocional à entidade por cerca de 6 mil vezes. Aos 18 anos, quando abandonou família, amigos e emprego, Krishna Das virou um sadhu - ou seja, dedica-se exclusivamente à vida espiritual e às regras místicas dos ascetas.
Tornar-se sadhu é libertar-se de um peso da cultura hindu: o regime de castas. Sadhus não têm castas. "Desde a chegada dos invasores ao Vale do Indo, a sociedade era dividida em três classes: os brámanes (sacerdotes), os kshatryas (guerreiros e nobres) e os vaishyas (comerciantes e artesãos)", afirma o historiador Nand Kishore Sharma, diretor de um museu em Jaisalmer, cidade no noroeste da Índia. "Mais tarde, formou-se a classe dos serventes, os sudras, que serviam às três classes superiores." Por fim, existem os párias, ou intocáveis, que muitas vezes nem mesmo são considerados como uma casta. Na verdade, essas divisões ainda se subdividem num vasto mosaico que obedece a uma série de hierarquias.
LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL
O mundo hindu é repleto de códigos e símbolos, que identificam castas e devoras. Na cidade de Jodhpur, no estado do Rajastão, moradores da casta brâmane vivem em Bramhpuri, um bairro com casas e comércio pintados de azul. Para os brâmanes, essa é a cor que remete à pureza espiritual. Nas ruas, não é difícil discernir os crentes e seus deuses. Seguidores de Vishnu, por exemplo, pintam o "u" entre as sobrancelhas. Shivaístas fazem três linhas horizontais na testa.
Complicado, porém, é identificar o vasto panteão hindu. Há perto de 330 milhões de divindades. Os deuse reencarnam e são representados sob diferentes formas. Os mais importantes deles, porém, compõem a sagrada trindade formada por Brahma, deus da criação, Vishnu, o que preserva, Shiva, o destruidor e recriador. Muitas vezes, os deuses estão associados com suas parceiras. Em uma de suas muitas encarnações, Vishnu vem acompanhado de Lakshmi, deusa da prosperidade, enquanto Brahma tem como cônjuge Sarasvati, divindade do conhecimento e das artes.
De acordo com Ramakrishna, conhecido mestre espiritual do século 19, tais manifestações divinas, e simbólicas, ajudam - aos que sabem invocá-las com fervor - a obter libertação do mundo e de suas provações. "Os deuses são os intermediários da fonte de luz, de toda a sabedoria", escreveu ele.
"O Hinduísmo ensina que progredimos por meio dos renascimentos e reencarnações, ou seja, temos oportunidades de melhorarmos, sermos mais dignos", conta o professor Tripathi. A meta hinduísta é alcançar moksha, a libertação espiritual que encerra o eterno ciclo do morrer e renascer. São muitos os hindus que escolhem o caminho da austeridade e do sacrifício em busca de tal libertação: por toda a Índia, é comum ver pessoas que renunciaram a todos os bens materiais para viver como peregrinos, portando apenas um pequeno jarro para a água e a comida.
Para muitos fiéis, o ritual da cremação representa o "último sacrifício". Afinal, os hindus não enterram seus mortos. Quem conduz a cerimônia, que sempre ocorre na beira de um rio, geralmente é o filho mais velho, que circula em volta da pira funerária no sentido horário antes de atear o fogo. Após a cremação, ritos, como a oferta diária de arroz ao morto, serão obedecidos pela família durante 11 dias. Esse é o tempo que ele levará para chegar aos céus. No décimo segundo dia, a alma terá alcançado seu destino. Para os hindus, a morte não é o contrário da vida. Na verdade, significa apenas o oposto do nascimento. É a porta para se chegar à moksha.
Sergio T.Caldas - Revista Religião - Super interessante
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Albert Einstein
Durante o século passado e em parte do que o precedeu, a existência de um conflito insolúvel entre conhecimento e crença foi amplamente sustentada. Prevalecia entre mentes avançadas a opinião de que chegara a hora de substituir, cada vez mais, a crença pelo conhecimento; toda crença que não se fundasse ela própria em conhecimento era superstição e, como tal, devia ser combatida. Segundo essa concepção, a função exclusiva da educação seria abrir caminho para o pensamento e o conhecimento, devendo a escola, como o órgão por excelência para a educação do povo, servir exclusivamente a esse fim.
É provável que raramente, ou mesmo nunca, possamos encontrar o ponto de vista racionalista expresso com tanta crueza; pois todo homem sensível veria de imediato o quanto essa formulação é tendenciosa. Mas é conveniente formular uma tese de maneira nua e crua quando se quer aclarar a própria mente com relação a sua natureza.
É verdade que a experiência e o pensamento claro são a melhor maneira de fundamentar as convicções. Quanto a isto, podemos concordar irrestritamente com o racionalista extremado. O ponto fraco dessa concepção, contudo, e que as convicções necessárias e determinantes para nossa conduta e nossos juízos não podem ser encontradas unicamente nessa sólida via cientifica.
Pois o método cientifico não nos pode ensinar outra coisa além do modo como os fatos se relacionam e são condicionados uns pelos outros. A aspiração a esse conhecimento objetivo está entre as mais elevadas de que o homem e capaz, e certamente ninguém pode suspeitar que eu deseje subestimar as realizações e os heróicos esforços do homem nessa esfera.
É igualmente claro, no entanto, que o conhecimento do que é, não abre diretamente a porta para o que deve ser. Podemos ter o mais claro e completo conhecimento do que é, sem contudo sermos capazes de deduzir disso qual deveria ser a meta de nossas aspirações humanas. O conhecimento objetivo nos fornece poderosos instrumentos para atingir certos fins, mas a meta final em si é a mesma, e o desejo de atingi-la devem emanar de outra fonte. E é praticamente desnecessário defender a idéia de que nossa existência e nossa atividade só adquirem 'sentido' mediante o estabelecimento de uma meta como essa e dos valores correspondentes. O conhecimento da verdade como tal é maravilhoso, mas é tão pouco capaz de servir de guia que não consegue provar sequer a justificação e o valor da aspiração a esse mesmo conhecimento da verdade.
Aqui defrontamos, portanto, com os limites da concepção puramente racional de nossa existência.
Mas não se deve presumir que o pensamento inteligente não possa desempenhar nenhum papel na formação da meta e de juízos éticos. Quando alguém se dá conta de que certo meio seria útil para a consecução de um fim, isto faz com que o próprio meio se torne um fim. A inteligência elucida para nós a inter-relação entre meios e fins. O mero pensamento não pode, contudo, nos dar uma consciência dos fins últimos e fundamentais. Elucidar esses fins e valores fundamentais é engastá-los firmemente na vida emocional do indivíduo; parece-me, precisamente, a mais importante função que a religião tem a desempenhar na vida social do homem. E se alguém pergunta de onde provém a autoridade desses fins fundamentais, já que eles não podem ser formulados e justificados puramente pela razão, só há uma resposta: eles existem numa sociedade saudável na forma de tradições vigorosas, que agem sobre a conduta, as aspirações e os juízos dos indivíduos; eles existem, isto é, vivem dentro dela, sem que seja preciso encontrar justificação para sua existência. Nascem, não através da demonstração, mas da revelação, por meio de personalidades excepcionais. Não se deve tentar justificá-los, mas antes, sentir, simples e claramente, sua natureza. Os mais elevados princípios para nossas aspirações e juízos nos são dados pela tradição religiosa judáico-cristã. Trata-se de uma meta muito elevada, que, com nossos parcos poderes, só podemos atingir de maneira muito insatisfatória, mas que da um sólido fundamento a nossas aspirações e avaliações. Se quiséssemos tirar essa meta de sua forma religiosa e considerar apenas seu aspecto puramente humano, talvez pudéssemos formulá-la assim: desenvolvimento livre e responsável do indivíduo, de modo que ele possa por suas capacidades, com liberdade e alegria a serviço de toda a humanidade.
Não há lugar nisso para a divinização de uma nação, de uma classe, nem muito menos de um indivíduo. Não somos todos filhos de um só pai, como se diz na linguagem religiosa? Na verdade, mesmo a divinização da humanidade, como totalidade abstrata, não estaria no espírito desse ideal. E somente ao indivíduo que é dada uma alma. E o 'sublime' destino do indivíduo é antes servir que comandar, ou impor-se de qualquer outra maneira.
Se considerarmos mais a substância que a forma, poderemos ver também nestas palavras a expressão da postura democrática fundamental. Ao verdadeiro democrata e tão inviável idolatrar sua nação quanto ao homem religioso, no sentido que damos ao termo.
Qual será então, em tudo isto, a função da educação e da escola? Elas devem ajudar o jovem a crescer num espírito tal que esses princípios fundamentais sejam para ele como o ar que respira. O mero ensino não pode fazer isso.
Se mantemos esses princípios elevados claramente diante de nossos olhos, e os comparamos com a vida e o espírito de nosso tempo, revela-se flagrantemente que a própria humanidade civilizada encontra-se, neste momento, em grave perigo. Nos Estados totalitários, são os próprios governantes que se empenham hoje em destruir esse espírito de humanidade. Em lugares menos ameaçados, são o nacionalismo e a intolerância, bem com a opressão dos indivíduos por meios econômicos, que ameaçam sufocar essas tão preciosas tradições.
A clareza da enormidade do perigo está se difundindo, no entanto, entre as pessoas que pensam, e há uma grande procura de meios que permitam enfrentar o perigo - meios no campo da política nacional e internacional, da legislação, da organização em geral. Esses esforços são, sem dúvida, extremamente necessários. Contudo, os antigos sabiam algo que parecemos ter esquecido. "Todos os meios mostram-se um instrumento grosseiro quando não tem atrás de si um espírito vivo". Se o desejo de alcançar a meta estiver vigorosamente vivo dentro de nós, porém, não nos faltarão forças para encontrar os meios de alcançar a meta e traduzi-la em atos.
Não seria difícil chegar a um acordo quanto ao que entendemos por ciência. Ciência é o esforço secular de reunir, através do pensamento sistemático, os fenômenos perceptíveis deste mundo, numa associação tão completa quanto possível. Falando claramente, é a tentativa de reconstrução posterior da existência pelo processo da conceituação. Mas, quando pergunto a mim mesmo o que é a religião, a resposta não me ocorre tão facilmente. E, mesmo depois de encontrar uma resposta que possa me satisfazer num momento particular, continuo convencido de que nunca consigo, em nenhuma circunstância, criar um acordo, mesmo que muito limitado, entre todos os que refletem seriamente sobre essa questão.
De início, portanto, em vez de perguntar o que é religião, eu preferiria indagar o que caracteriza as aspirações de uma pessoa que me dá a impressão de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tanto quanto lhe foi possível, libertou-se dos grilhões, de seus desejos egoístas e está preocupada com pensamentos, sentimentos e aspirações a que se apega em razão de seu valor suprapessoal. Parece-me que o que importa é a força desse conteúdo suprapessoal, e a profundidade da convicção na superioridade de seu significado, quer se faça ou não alguma tentativa de unir esse conteúdo com um Ser divino, pois, de outro modo, não poderíamos considerar Buda e Spinoza como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa é devota no sentido de não ter nenhuma dúvida quanto ao valor e eminência dos objetivos e metas suprapessoais que não exigem nem admitem fundamentação racional. Eles existem, tão necessária e corriqueiramente quanto ela própria. Nesse sentido, a religião é o antiqüíssimo esforço da humanidade para atingir uma clara e completa consciência desses valores e metas e reforçar e ampliar incessantemente seu efeito. Quando concebemos a religião e a ciência segundo estas definições, um conflito entre elas parece impossível. Pois a ciência pode apenas determinar o que é, não o que deve ser, está fora de seu domínio, todos os tipos de juízos de valor continuam sendo necessários. A religião, por outro lado, lida somente com avaliações do pensamento e da ação humanos: não lhe é lícito falar de fatos e das relações entre os fatos. Segundo esta interpretação, os famosos conflitos ocorridos entre religião e ciência no passado devem ser todos atribuídos a uma apreensão equivocada da situação descrita.
Um conflito surge, por exemplo, quando uma comunidade religiosa insiste na absoluta veracidade de todos os relatos registrados na Bíblia. Isso significa uma intervenção da religião na esfera da ciência; é aí que se insere a luta da Igreja contra as doutrinas de Galileu e Darwin. Por outro lado, representantes da ciência tem constantemente tentado chegar a juízos fundamentais com respeito a valores e fins com base no método científico, pondo-se assim em oposição a religião. Todos esses conflitos nasceram de erros fatais.
Ora, ainda que os âmbitos da religião e da ciência sejam em si claramente separados um do outro, existem entre os dois fortes relações recíprocas e dependências. Embora possa ser ela o que determina a meta, a religião aprendeu com a ciência, no sentido mais amplo, que meios poderão contribuir para que se alcancem as metas que ela estabeleceu. A ciência, porém, só pode ser criada por quem esteja plenamente imbuído da aspiração e verdade, e ao entendimento. A fonte desse sentimento, no entanto, brota na esfera da religião. A esta se liga também a fé na possibilidade de que as regulações válidas para o mundo da existência sejam racionais, isto é, compreensíveis à razão.
Não posso conceber um autêntico cientista sem essa fé profunda. A situação pode ser expressa por uma imagem: a ciência sem religião e aleijada, a religião sem ciência e cega.
Embora eu tenha afirmado acima que um conflito legítimo entre religião e ciência não pode existir verdadeiramente, devo fazer uma ressalva a esta afirmação, mais uma vez, num ponto essencial, com referencia ao conteúdo efetivo das religiões históricas. Esta ressalva tem a ver com o conceito de Deus. Durante o período juvenil da evolução espiritual da humanidade, a fantasia humana criou a sua própria imagem 'deuses' que, por seus atos de vontade, supostamente determinariam ou, pelo menos, influenciariam o mundo fenomênico. O homem procurava alterar a disposição desses deuses a seu próprio favor, por meio da magia e da prece. A idéia de Deus, nas religiões ensinadas atualmente, é uma sublimação dessa antiga concepção dos deuses. Seu caráter antropomórfico se revela, por exemplo, no fato de os homens recorrerem ao Ser Divino em preces, a suplicarem a realização de seus desejos.
Certamente, ninguém negará que a idéia da existência de um Deus pessoal, onipotente, justo e todo-misericordioso é capaz de dar ao homem consolo, ajuda e orientação; e também, em virtude de sua simplicidade, acessível as mentes menos desenvolvidas. Por outro lado, porem, esta idéia traz em si aspectos vulneráveis e decisivos, que se fizeram sentir penosamente desde o início da história. Ou seja, se esse ser é onipotente, então tudo o que acontece, aí incluídos cada ação, cada pensamento, cada sentimento e aspiração do homem, é também obra Sua; nesse caso, como é possível pensar em responsabilizar o homem por seus atos e pensamentos perante esse Ser 'todo-poderoso'? Ao distribuir punições e recompensas, Ele estaria, até certo ponto, julgando a Si mesmo. Como conciliar isso com a bondade e a justiça a Ele atribuídas?
A principal fonte dos conflitos atuais entre as esferas da religião e da ciência reside nesse conceito de um Deus pessoal. A ciência tem por objetivo estabelecer regras gerais que determinem a conexão recíproca de objetos e eventos no tempo e no espaço. A validade absolutamente geral dessas regras, ou leis da natureza, e algo que se pretende - mas não se prova. Trata-se sobretudo de um projeto, e a confiança na possibilidade de sua realização, por princípio, funda-se apenas em sucessos parciais. Seria difícil, porém, encontrar alguém que negasse esses sucessos parciais e os atribuísse a ilusão humana. O fato de sermos capazes, com base nessas leis, de predizer o comportamento temporal dos fenômenos de certos domínios, com grande precisão e certeza, está profundamente enraizado na consciência do homem moderno, ainda que possamos ter apreendido muito pouco do conteúdo dessas leis. Basta considerarmos que as trajetórias planetárias do sistema solar podem ser antecipadamente calculadas, com grande exatidão, com base num número limitado de leis simples. De maneira similar, embora não com a mesma precisão, é possível calcular antecipadamente o modo de funcionamento de um motor elétrico, de um sistema de transmissão ou de um aparelho de rádio, mesmo quando estamos lidando com uma invenção inédita.
É bem verdade que, quando o número de fatores em jogo num complexo fenomenólogico é grande demais, o método científico nos decepciona na maioria dos casos. Basta pensarmos nas condições do tempo, cuja previsão, mesmo para alguns dias à frente, é impossível. Ninguém duvida, contudo, de que estamos diante de uma conexão causal cujos componentes causais nos são essencialmente conhecidos. As ocorrências nessa esfera estão fora do alcance da predição exata por causa da multiplicidade de fatores em ação, e não por alguma falta de ordem na natureza.
Penetramos muito menos profundamente nas regularidades que prevalecem no âmbito das coisas vivas, mas o suficiente, de todo modo, para pelo menos perceber a existência de uma regra necessária. Basta pensarmos na ordem sistemática presente na hereditariedade e no efeito que provocam os venenos - como o álcool, por exemplo - no comportamento dos seres orgânicos. O que ainda falta aqui é uma compreensão de caráter profundamente geral das conexões, não um conhecimento da ordem enquanto tal.
Quanto mais o homem esta imbuído da regularidade ordenada de todos os eventos, mais firme se torna sua convicção de que não sobra lugar, ao lado dessa regularidade ordenada, para causas de natureza diferente. Para ele, nem o domínio da vontade humana, nem o da vontade divina existirão como causa independente dos eventos naturais. Não há dúvida de que a doutrina de um Deus pessoal que interfere nos eventos naturais jamais poderia ser refratada, no sentido verdadeiro, pela ciência, pois essa doutrina pode sempre procurar refúgio nos campos em que o conhecimento científico ainda não foi capaz de se firmar. Estou convencido, porém, de que tal comportamento por parte dos representantes da religião seria não só indigno como desastroso. Pois uma doutrina que não é capaz de se sustentar à "plena luz", mas apenas na escuridão, está fadada a perder sua influência sobre a humanidade, com incalculável prejuízo para o progresso humano. Em sua luta pelo bem ético, os professores de religião precisam ter a envergadura para abrir mão da doutrina de um Deus pessoal, isto é, renunciar a fonte de medo e esperança que, no passado, concentrou um poder tão amplo nas mãos dos sacerdotes. Em seu ofício, terão de se valer daqueles forças que são capazes de cultivar o Bom, o Verdadeiro e o Belo na própria humanidade. Trata-se, sem dúvida, de uma tarefa mais difícil, mas incomparavelmente mais valiosa. Quando tiverem realizado esse processo de depuração, os professores da religião certamente hão de reconhecer com alegria que a verdadeira religião ficou enobrecida e mais profunda graças ao conhecimento científico.
Se um dos objetivos da religião é libertar a humanidade, tanto quanto possível, da servidão dos anseios, desejos e temores egocêntricos, o raciocínio científico pode ajudar a religião em mais um sentido. Embora seja verdade que a meta da ciência é descobrir regras que permitam associar e prever os fatos, essa não é sua única finalidade. Ela procura também reduzir as conexões descobertas ao menor número possível de elementos conceituais mutuamente independentes.
E nessa busca da unificação racional do múltiplo que a ciência logra seus maiores êxitos, embora seja precisamente essa tentativa que a faz correr os maiores riscos de se tornar uma presa das ilusões. Mas todo aquele que experimentou intensamente os avanços bem-sucedidos feitos nesse domínio é movido por uma profunda reverência pela racionalidade que se manifesta na existência. Através da compreensão, ele conquista uma emancipação de amplas conseqüências dos grilhões das esperanças e desejos pessoais, atingindo assim uma atitude mental de humildade perante a grandeza da razão que se encarna na existência e que, em seus recônditos mais profundos, é inacessível ao homem. Essa atitude, contudo, parece-me ser religiosa, no mais elevado sentido da palavra. A meu ver, portanto, a ciência não só purifica o impulso religioso do entulho de seu antropomorfismo, como contribui para uma 'espiritualização' religiosa de nossa compreensão da vida.
Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, mais certo me parece que o caminho para a religiosidade genuína não passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, ou pela fé cega, mas pelo esforço em busca do conhecimento racional.
Neste sentido, acredito que o sacerdote, se quiser fazer jus a sua 'sublime' missão educacional, deve tornar-se um professor.
"Ciência e Religião" (1939-1941) - Págs. 25 a 34. Einstein, Albert, 1870-1955 Título original: "Out of my later years."
Escritos da Maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião.
Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges - Rio de Janeiro : Editora Nova Fronteira, 1994.
endereço: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/ciencia/ciencia-e-religiao.html
imagem: teachers.egfi-k12.org
Introdução
Atualmente no Brasil e no mundo, há uma grande variedade de Igrejas derivadas do Cristianismo. Nesse artigo procuro mostrar como os principais grupos se desenvolveram e porque seguem essa ou aquela doutrina. Possuindo esse conhecimento fica mais fácil de entendermos o significado da conjuntura atual, e como nos posicionarmos perante a diversidade de crenças. É interessante, dessa forma, iniciarmos o nosso estudo buscando a fonte inicial, ou seja, os ensinamentos de Jesus, que apesar de nada ter escrito, chegaram até nós os fragmentos das anotações de alguns de seus primeiros seguidores contidos nos Evangelhos.
A Doutrina de Jesus
Todo o conteúdo do Novo Testamento, ou Evangelho, pode ser resumido em uma palavra: Jesus. Jesus é o ser humano histórico que viveu na Palestina no tempo do imperador Tibério e que morreu crucificado sob Pontius Pilatus; como “Salvador” expressa a transcendência divina dessa pessoa que segundo a tradição, foi ressuscitada por Deus, e elevada por seus seguidores à dignidade de Senhor do mundo e da história. Embora o Novo Testamento tenha suas raízes na vida e morte de Jesus, ele foi em grande parte criado pelas primitivas comunidades cristãs, que nele colocaram suas próprias concepções e a idealização de seus interesses, projetando-os no passado, na vida de seu protagonista.
A moral cristã está centrada em um núcleo de amor, ao redor do qual gravitam virtudes essenciais que, se conseguidas, levam inevitavelmente à fraternidade e à paz de espírito: ser humilde, perdoar as ofensas, e ser caridosos. Toda a moral de Jesus, assim, se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. E não se limita a recomendar caridade; põe-na claramente e em termos explícitos como condição absoluta da felicidade futura.
Àqueles que o ouviam, Jesus trouxe a mensagem de que o Reino de Deus estava próximo e de que Ele próprio era o seu arauto. Ensinou que este mundo de pecado e aflições em breve chegaria ao fim e que os filhos de Deus entrariam num novo reino de justiça e paz, onde estariam na própria presença de Deus. A morte e a ressurreição de Jesus pareceram a seus seguidores simbolizar a salvação dos homens e a transição para a nova era de bem-aventurança.
O Catolicismo
A mensagem cristã surgiu entre os judeus, considerados bárbaros pela civilização romana. E, apesar de choques e hostilidades, conseguiu firmar-se no Império. No século III d.C. o Império Romano encontrava-se à beira da derrocada; suas fronteiras estavam ameaçadas e os imperadores, sucedendo-se ininterruptamente, eram impotentes para garantir a segurança das províncias. A aristocracia, ameaçada, começou a constituir Estados independentes. A população sofria privações de todo tipo e praticava atos de banditismo.
Assim é que, no ano 313, Constantino concede a liberdade religiosa aos cidadãos do Império através do Edito de Milão. Segundo os relatos de Lactâncio e Eusébio, esta atitude foi em conseqüência de uma visão. Já outros afirmam que o ato de Constantino foi realizado por motivos predominantemente políticos. Em todo caso teve um significado transcendental, pois, posteriormente, o cristianismo tornar-se-ia a religião oficial do império no reinado do Imperador Teodósio.
A organização institucional da Igreja foi o resultado de uma evolução gradativa. Os bispos eram considerados descendentes diretos dos Apóstolos. Várias vezes, durante os conflitos disciplinares e doutrinários do fim do século II e no século III, os bispos de Roma reivindicaram uma autoridade de arbítrio e quase toda a cristandade ocidental se dispunha a aceitá-la. Continuamente a igreja de cristã de Roma (Igreja Católica Apostólica Romana), foi se fortalecendo e dominando o poder religioso até o século XVI de uma forma absoluta no mundo ocidental.
Duas secessões, ao longo desses vinte séculos, marcaram o desligamento de ramos importantes, que vieram dividir a cristandade primitiva e constituir formas de civilização até por vezes antagônicas, mas sem ferir a unidade original do tronco. A primeira dessas secessões foi a bizantina, provocada pela separação entre Roma e Constantinopla, devido a discussões irredutíveis em torno de problemas teológicos. Formou-se, assim, a Igreja Ortodoxa. A segunda secessão foi a Reforma protestante, no século XVI, que arrastou consigo a separação da Alemanha, da Inglaterra e mais tarde dos Estados Unidos, na base da exaltação do livre exame individual das Escrituras sagradas contra a autoridade e a tradição, invariavelmente afirmadas pela Igreja Romana, como cimento da unidade cristã.
Os Dogmas
Dogma é o termo da religião cristã – especialmente do catolicismo – que designa a afirmação de caráter doutrinário definida e transmitida pela igreja como revelação de Deus. O dogma, portanto, representa uma verdade fundamental e imutável, dada aos cristãos para crerem, como norma imposta por decreto. É vedado crer de outro modo. Num sentido mais genérico, dogma é um ponto fundamental e indiscutível de qualquer doutrina ou sistema.
As Igrejas chamadas protestantes e a Anglicana negam igualmente a infalibilidade tanto do Papa como de todos os concílios, de modo que a formulação dogmática é, teoricamente, um fenômeno vivo, porque está sempre submetida ao juízo de Cristo.
1 – A divindade de Jesus e a Santíssima Trindade
A divindade de Jesus foi proclamada pelo concílio de Nicéia , em 325, nestes termos:
“A Igreja de Deus, católica e apostólica, anatematiza os que dizem que houve um
tempo em que o Filho não existia, ou que não existia antes de haver sido gerado.”
A conceituação mais recente da Trindade estabelece não que Deus seja uma pessoa, mas uma natureza em três pessoas, das quais uma delas (Jesus) é uma pessoa divina em duas naturezas - humana e divina. Dessa forma Deus seria “algo” que se manifesta à humanidade sob três “formas” diferentes.
2 - O Pecado Original
Apresentado em seu aspecto dogmático, o pecado original, que aplica-se à toda a posteridade de Adão, isto é, a Humanidade inteira, pela desobediência do primeiro par, para depois salvá-la por meio de um a imolação de Jesus, apresentado como cordeiro de Deus.
O pecado original é o dogma fundamental em que repousa todo o edifício dos dogmas cristãos - idéia verdadeira, no fundo, mas falsa em sua forma e desnaturada pela Igreja -, verdadeira, no sentido de que o homem sofre com a intuição que conserva das faltas cometidas em suas vidas anteriores, e pelas conseqüências que acarretam para ele.
3 – As Penas Eternas
A Igreja estabeleceu então que somente aqueles que seguissem a sua orientação ( “Fora da Igreja não há salvação”) podiam alcançar a vida futura no paraíso. Os demais, em função do pecado original estariam condenados as penalidades eternas em um terrível inferno. Em plena contradição com a infinita bondade de Deus, que manda perdoar até mesmos os inimigos.
4 – A Ressurreição da Carne
Dogma segundo o qual os átomos do nosso corpo carnal, disseminados, dispersos por mil novos corpos, devem reunir-se um dia, reconstituir nosso invólucro e figurar no juízo final. Em desacordo com a ciência e o bom senso.
5 – A Infalibilidade Papal
Em 1870, através do Concílio Vaticano I, foi proclamada a infalibilidade do papa, ou seja, qualquer semente de dúvida a respeito de doutrina cristã o papa daria a última palavra, como se o papa fosse infalível, o detentor de toda a verdade, o Senhor da Verdade absoluta.
Os Sacramentos
a) Batismo, o rito de iniciação do cristianismo, pelo qual a parte que o indivíduo tinha no pecado original de Adão era lavada, tornando-o passível de salvação. Esse rito era normalmente administrado à criança recém-nascida, enquanto seus fiadores, chamados padrinhos, prometiam em seu nome que ela seria criada na religião cristã.
b) A Confirmação era administrada à entrada na adolescência. Não era encarada como essencial à salvação, mas considerada como dando ao indivíduo maior força moral para encarar as vicissitudes morais da vida adulta.
c) A Penitência era o rito (habitualmente abrangendo confissão a um padre) pelo qual o crente obtinha perdão dos sérios pecados que ele próprio cometera desde que o batismo removera o pecado que herdara pelo nascimento.
d) A Eucaristia, ou Sagrada Comunhão, formava a parte central do maior ritual público da Igreja, que era a celebração da Missa. Nesse sacramento, o pão e o vinho consagrados transformavam-se miraculosamente no corpo e no sangue de Jesus Cristo. Esse milagre chamava-se transubstanciação e a ação do padre ao realizá-lo era encarada como uma reprodução da Última Ceia de Jesus e seus discípulos. Após a transubstanciação, o padre consumia uma parte de seus elementos e distribuía parte aos adoradores que quisessem participar da ceia. Não se exigia que o crente cristão participasse dessa comunhão como pré-requisito necessário à sua salvação, mas esse sacramento era considerado como dando-lhe forças à alma para salvar-se. Ele devia assistir à Missa freqüentemente.
e) A Extrema Unção era o rito realizado para os que se achavam à beira da morte, a fim de preparar sua alma para o outro mundo. No curso normal dos acontecimentos, todos os cristãos passariam por esses cinco ritos, pelo menos uma vez na vida.
As Reformas Protestantes
No séc. XV no apogeu de domínio político-religioso, a “Igreja Católica” tornara-se um governo civil como os outros, com secretarias, um corpo de funcionários, diplomatas e técnicos de muitos ofícios. É uma época caracterizada pela mistura de um misticismo doentio com os maiores desregramentos morais. Há um comércio desenfreado de ossos de santos. Há pedaços de pão que sobraram da Ceia final de Jesus com seus apóstolos, etc.
A Igreja Católica define e implanta as indulgências. Que são a “remissão de Deus a uma punição temporal que ainda se deve, depois que a culpa foi perdoada”. Ou seja, o culpado pleiteia o perdão e o consegue, mas não se livra da punição ou, como diríamos em linguagem espírita, da reparação. Na prática o uso da indulgência degenerou completamente, pois virou fonte de renda e fator de corrupção incontrolável
A Reforma protestante do séc. XVI originou-se no desejo de recuperar a vida e a vitalidade da Igreja e do Novo Testamento, deformada, segundo os reformadores, pelo poder temporal do papado, a imoralidade do clero e por desvios doutrinários. Ao tempo de Martinho Lutero, monge agostiniano de origem humilde, o comércio das indulgências era amplo, aberto, feito às claras e sem nenhum escrúpulo tornando-se uma indigna mercantilização.
Lutero não tinha a intenção de fundar uma nova Igreja. Ele acreditava que, ao retornar ao Evangelho, a Igreja (Católica) se reformaria por si própria. Mas as divergências e interpretação das Escrituras e os movimentos extremistas conduzem-no a algumas posições doutrinárias e a um mínimo de organização, iniciando a partir daí um movimento independente que ficou conhecido como “protestante”.
Principais reivindicações de Lutero
a) Rejeita tudo aquilo que, na tradição da Igreja, contraria o primado das Escrituras e da fé;
b) Rejeita aquilo que aparece como um meio, como uma pretensão do homem no sentido de merecer sua salvação: o culto dos santos, as indulgências, os votos religiosos, os sacramentos não atestados no Novo Testamento.
c) Tudo o que não é explicitamente afirmado nas Escrituras não possui valor. A Bíblia era a única autoridade em matéria de religião;
d) Admite o sacerdócio universal dos fiéis, em contrapartida ao sacerdócio organizado da Igreja Católica;
e) A Igreja, comunidade dos crentes, realidade invisível, não deve ser organizada de uma maneira exterior nem tampouco possuir bens;
f) Consciente de ser radicalmente pecador, o homem descobre nas Escrituras que a salvação chega a ele de Deus, em função unicamente da fé. Deus faz tudo, o homem não faz nada. As boas obras não fazem o homem bom, mas o homem justificado por Deus faz boas obras.
Essa doutrina esposada por Lutero feria o próprio coração do sistema sacerdotal da Igreja. Se, de fato, a fé sozinha fosse suficiente para a salvação, então os homens não necessitavam do ministério dos padres nem de tomar parte nos sacramentos.
Com o apoio de muitos líderes políticos e humanistas alemães, Lutero passou a atacar ainda outros princípios e práticas da Igreja. Lutero organizou seus seguidores numa nova Igreja, para tomar o lugar da antiga. Nessa organização, introduziu ele certo número de inovações em matéria de práticas - principalmente, permitiu que o clero se casasse. Quanto à eucaristia, contudo, entenderam os reformistas que fora realmente instituída, porém, sob duas espécies, isto é, pão e vinho. Nada de hóstia, portanto. Negou que a confirmação, o matrimônio, a extrema unção e a ordem fossem sacramentos. Manteve os outros três dos sete sacramentos tradicionais: batismo, penitência e eucaristia. Contudo, mudou o sentido de “penitência” para “arrependimento” e alterou a explicação da miraculosa mudança do pão e do vinho na carne e no sangue de Cristo, no rito comemorativo da Última ceia.
A teologia de Lutero concentra-se na doutrina paulina da justificação pela fé. Com isso Lutero ressaltava a obra salvadora de Deus em Cristo sem qualquer reconhecimento dos méritos das obras humanas. Vê o homem submerso em pecado, distanciado de Deus, incapacitado de alcançar a salvação. Somente pela graça pode o homem aproximar-se de Deus e ser salvo, não obstante o seu pecado. O homem se apropria dessa graça através da fé e passa a viver o Evangelho com absoluta liberdade. A fé é um milagre e como tal não pode ser entendida por nossos critérios racionais comuns. A justificação pela fé significa que Deus aceita o pecador e não que o homem, ao ser aceito, deixe de ser pecador. O que importa, logo se vê, é a atitude de Deus, a iniciativa que Ele toma em Cristo em favor do homem. De uma forma geral manteve-se os dogmas católicos, exceto evidentemente a “Infalibilidade papal”, que ainda não havia sido promulgada.
O rompimento de Martinho Lutero com o catolicismo romano não foi um fenômeno isolado, mas uma de várias rebeliões religiosas que ocorreram mais ou menos ao mesmo tempo em diversos lugares. O sucesso do luteranismo deu encorajamento às outras rebeliões, mas estas bem poderiam ter-se verificado sem tal estímulo, pois a crítica à antiga Igreja estava no ar, em toda a Europa católica. Duas das mais importantes entre essas rebeliões, aconteceram na Suíça, primeiramente sob a liderança de Ulrico Zwinglio (1484-1531) e, posteriormente, com João Calvino (1509-1564).
A Catequese Católica no Brasil
A Igreja Católica Romana fora abalada em seus fundamentos pela revolta iniciada por Lutero, Zwínglio e Calvino. Essa catástrofe, que representava a perda da maior parte da Europa Ocidental, induziu os líderes do catolicismo a fazerem um tríplice esforço a fim de restituir à Igreja sua antiga posição de autoridade universal. Esses esforços foram a realização do Concílio de Trento, onde os principais eclesiásticos da Cristandade católica empreenderam a reafirmação da doutrina católica; A re-implantação do tribunal eclesiástico chamado Inquisição, que fora o instrumento tradicional para assinalar e extirpar a heresia; e finalmente a organização da ordem missionária militante denominada Companhia de Jesus, os jesuítas.
Para o Brasil, que naquela época era colônia de Portugal, foram enviados os missionários jesuítas como uma forma de garantir a hegemonia da fé católica nas novas terras ainda não “contaminadas” pelas idéias protestantes. Dentre os mais importantes nomes desse período podemos lembrar os nomes dos padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega que realizaram um reconhecido trabalho de evangelização entre os índios e colonos em geral. Essa ação, aliada às condições sociais e econômicas do Brasil garantiram que mesmo após séculos a Igreja Católica Romana, mantivesse o predomínio sobre as terras do Brasil e similarmente em toda a América latina.
O Protestantismo no Brasil
O protestantismo chegou ao Brasil trazido por imigrantes Europeus, principalmente alemães, e se estabeleceram nos estados do sul. onde fundam, em 1824, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, quase 400 anos após o movimento original das reformas. As igrejas do protestantismo de missão são instituídas no país na segunda metade do século XIX, por missionários norte-americanos vindos principalmente do sul dos Estados Unidos e por europeus. Em 1855, o escocês Robert Reid Kelley funda, no Rio de Janeiro, a Igreja Congregacional do Brasil.
Atualmente as Igrejas Luteranas, Metodistas, Presbiterianos. Adventistas e Batistas representam as correntes que mais se aproximam dos ideais da reforma. Porém conforme a livre interpretação das escrituras, apresentam pequenas divergências doutrinarias e de organização. Nas últimas décadas, com exceção da Batista, as igrejas protestantes brasileiras ou estão estagnadas, apenas em crescimento vegetativo, ou em declínio.
O Pentecostalismo
Herdeiro do protestantismo, distingue-se dele em alguns pontos. Um dos principais é a questão da contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. Os integrantes do movimento pentecostal, que nasceu nos Estados Unidos, em 1901, crêem que o Espírito Santo continua a se manifestar nos dias de hoje, da mesma forma que em Pentecostes, na narrativa do Novo Testamento (Atos 2). Nessa passagem, o Espírito Santo manifestou-se aos apóstolos por meio de línguas de fogo e fez com que eles pudessem falar em outros idiomas para serem entendidos pela multidão heterogênea que os ouvia. Para eles, sobressaem os dons da glossolalia (o de falar línguas desconhecidas), da cura e da profecia. Orientam seus seguidores para uma vida regrada evitando as “coisas do mundo”, e até mesmo a forma de vestir-se.
O pentecostalismo chega ao país em 1910, com a fundação da Congregação Cristã no Brasil, na cidade de São Paulo. Atualmente, existem centenas de igrejas, e as principais, além da Congregação Cristã no Brasil, são: Assembléia de Deus; Evangelho Quadrangular; Deus é Amor, dentre outras. A partir dessa época tanto no Brasil, quanto na América Latina, passou-se a chamar pelo termo genérico “Evangélicos” todos os cristãos-não-católicos com origem no protestantismo, apesar de nem sempre seguirem os princípios originais da reforma.
Neo-Pentecostalismo
As igrejas dessa corrente pregam a Teologia da Prosperidade, pela qual o cristão está destinado à prosperidade terrena, e rejeitam os tradicionais usos e costumes pentecostais. A questão da “salvação” foi relegado a um plano secundário. As principais igrejas são as que se instalam no país na segunda metade da década de 70 foram fundadas por brasileiros. A Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro, 1977), a Internacional da Graça de Deus (Rio de Janeiro, 1980), a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Goiás e Distrito Federal, 1976) e a Renascer em Cristo (São Paulo, 1986) estão entre as principais. Encabeçado pela Igreja Universal, o neo-pentecostalismo constitui a vertente cristã que mais cresce.
A Teologia da Prosperidade ou Confissão Positiva teve sua origem na década de 40 nos Estados Unidos, sendo reconhecida como doutrina na década de 70, quando se difundiu pelo meio evangélico. Possuía um forte cunho de auto-ajuda e valorização do indivíduo, agregando crenças sobre cura, prosperidade e poder da fé através da confissão da "Palavra" em voz alta e "No Nome de Jesus" para recebimento das bênçãos almejadas; por meio da Confissão Positiva, o cristão compreende que tem direito a tudo de bom e de melhor que a vida pode oferecer: saúde perfeita, riqueza material, poder para subjugar Satanás, uma vida plena de felicidade e sem problemas. Em contrapartida, dele é esperado que não duvide minimamente do recebimento da bênção, pois isto acarretaria em sua perda, bem como o triunfo do Diabo. A relação entre o fiel e Deus ocorre pela reciprocidade, o cristão semeando através de dízimos e ofertas e Deus cumprindo suas promessas.
Atualmente, segundo o sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais, Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), o neopentecostalismo expande-se principalmente entre os mais pobres e os menos escolarizados da população. No Brasil, o crescimento vertiginoso dos cristãos independentes está associado ao uso intensivo da mídia eletrônica e ao método empresarial de funcionamento.
O Espiritismo
Os cristãos na sua esmagadora maioria não aceitam o espiritismo como sendo uma vertente do Cristianismo. Argumentam que pouco o espiritismo tem a ver com o cristianismo e segundo eles em alguns pontos são mesmo inconciliáveis, como no caso do intercambio mediúnico e da reencarnação. Para muitos a convergência no aspecto moral não é levada em conta.
Como vimos no presente estudo, o que conhecemos hoje como Cristianismo é a doutrina da Igreja Católica e das suas derivadas que ao longo desses 2.000 anos acrescentaram muitos pontos doutrinários aos ensinamentos de Jesus. Desse cristianismo "incrementado" realmente o espiritismo diverge significantemente. O espiritismo rejeita de forma clara e lógica todos os dogmas estabelecidos durante esse largo período de tempo, procurando retornar ao ponto inicial dos ensinamentos de Jesus, e a partir daí introduzir novos conceitos, de acordo com o nível de conhecimento humano dos tempos modernos e esclarecendo pontos obscuros no evangelho que careciam de maiores entendimentos devido a falta da chave filosófica apropriada.
De acordo com os seus princípios doutrinários, não faz sentido a discussão sobre o tema da “salvação unicamente pela fé em Cristo” das Igrejas reformadas e muito menos da teologia da prosperidade dos neo-petencostais. Introduz o novo conceito de evolução espiritual, onde cada um é o responsável direto pelo seu próprio crescimento, e ao mesmo tempo há uma co-responsabilidade pelo crescimento de todos, a fraternidade universal.
CONCLUSÃO
A instituição Igreja Católica de uma forma Hegemônica cumpriu o seu papel na condução da humanidade durante séculos. Podemos sem muito esforço reconhecer os pontos positivos dessa condução, assim como os pontos negativos. Atualmente temos uma diversificação até certo ponto exagerada de igrejas cristãs, mas convém observarmos que aí também temos pontos positivos e negativos. Parece-me que a liberdade de cada um escolher de acordo com o seu livre-arbítrio a qual corrente religiosa se afiliar no presente momento, cobre qualquer ponto negativo que se apresente. Além do mais nunca é demais lembrar que a providência divina, dirige a tudo e a todos, não permitindo que injustiças sejam cometidas e providenciando para que cada um tenha o condutor que merece, e principalmente que precisa.
Apontando alguns erros dessas agremiações ou desses sistemas estamos tão somente mostrando os nossos próprios erros, uma vez que nós mesmos fomos no passado os seus construtores. É fácil perceber que foi o espírito humano, conscientemente ou não, o causador de todos os abusos, de todos os males que corromperam o pensamento cristalino de Jesus. Através dessa exemplificação poderá o adepto espírita, conscientizar-se do quão difícil e árdua foi a caminhada até aqui, e o quanto é importante que o espiritismo mantenha a unidade de ação, mesmo que hajam pequenas discordâncias doutrinárias e principalmente devido a divergências "políticas" ou pessoais.
Por outro lado não podemos incorrer no erro de em nome da unidade doutrinária anatematizar aqueles que pensam diferente da maioria, lembrando que Allan Kardec definiu o espiritismo como uma ciência, e portanto sujeito a correções e incorporação de novos conhecimentos desde que devidamente comprovados. Isso certamente é o que irá garantir a unidade da doutrina no longo prazo. O que atrapalha nossa caminhada é a dificuldade em mantermos sob controle as nossas feras do orgulho e do egoísmo demonstrando assim o quão pequenos ainda somos pequenos perante esse gigante que chamamos Jesus.
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