quarta-feira, 6 de julho de 2011

O VASTO UNIVERSO HINDU


"TERCEIRA CRENÇA COM MAIS ADEPTOS NO MUNDO,
O HINDUÍSMO CARACTERIZA-SE PELA PROFUSÃO DE
DEUSES, PELOS RITUAIS E ANIMAIS SAGRADOS.ENTRE
UM FESTIVAL RELIGIOSO E OUTRO, OS HINDUS BUSCAM
O CAMINHO DA LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL."

Mal cai a noite, e o antigo centro urbano de Varanasi, no norte da India, começa a ficar agitado. As margens do Rio Ganges, as vielas, as esquinas apertadas e os templos são tomados por uma massa de peregrinos vindos de várias partes do país. É uma celebração coletiva em homenagem a Shiva, o mais incensado dos deuses do panteão hindu, que, segundo a mitologia indiana, teria escolhido Varanasi para viver na Terra. A atmosfera está impregnada pela cantoria de hinos sagrados, pelo aroma doce dos incensos e pelo constante tilintar de sinos ressoando das casas e dos templos shivaístas. Até a manhã seguinte, ninguém deve dormir: quem presta vigília em homenagem a Shiva, dizem os hindus, pode colher benefícios nesta e na próxima vida.

Num dos templos, fiéis se espremem para observar os movimentos precisos de um sacerdote hindu que executa um ritual incomum aos olhos ocidentais. Ele lava a imagem do Shiva-lingam - objeto fálico que simboliza o poder supremo da criação, a união dos sexos masculino e feminino - a princípio, com a água do Ganges, depois com iogurte, leite e, finalmente, mel. Esses são elementos considerados sagrados, dádivas dos deuses. No fim de cada uma dessas etapas, esse profissional de cerimônias, chamado pujari (autoridade religiosa que serve de conexão entre os homens e os deuses), recita em sânscrito trechos de alguma escritura sagrada. Os devotos respondem em voz alta e repetidamente o mantra Om Namo Shivaya.

NO VALE DO RIO KARIMABAD, NO PAQUISTÃO, OS PERSAS
CHAMAVAM ESSE RIO DE SHINDUS E, DEPOIS COMEÇARAM
A DENOMINAR OS POVOS QUE MORAVAM NAQUELA REGIÃO
DE "HINDUS".

Essa celebração, conhecida como Mahashivaratri ou "a grande noite de Shiva", é apenas um dos inúmeros festivais religiosos que ocorrem quase diariamente em toda a Índia. São celebrações inevitáveis em terras hindus, onde há milhares de deuses, santos, profetas e gurus para serem adorados, agradecidos ou simplesmente lembrados. Comemoram-se ainda eventos mitológicos, como a vitória de algum deus sobre terríveis inimiigos, e, às vezes, até datas religiosas de outra fé que foram assimiladas pelo caldeirão cultural hindu.

"Desde os primórdios, o Hinduíssmo desenvolve-se gradativamente, assimilando todas as religiões e movimentos culturais da Índia", diz o professor K.M. Tripathi, diretor da Universidade Hindu de Benares, na Índia, uma respeitada instituição humanística fundada no início do sécuulo 20. "E, ao contrário das grandes religiões do mundo, como o Cristianissmo e o Islamismo, a religião hindu não teve um fundador. Também não conta com um livro a ser seguido, como a Bíblia e o Corão."

JUNTO ÀS MONTANHAS DO HIMALAIA, O VALE DO RIO INDO
É O BERÇO DO HINDUÍSMO. IRONICAMENTE, A REGIÃO QUE
OUTRORA SERVIU AO FLORESCIMENTO DA RELIGIÃO, HOJE,
LOCALIZA-SE NO PAQUISTÃO, PAÍS GOVERNADO SOB AS LEIS
DO ISLÃ. A CRENÇA HINDU, PORÉM, CONTINUA FORTE NA ÍNDIA
E NO NEPAL."

Atrás dos óculos de lentes grossas, Tripathi expressa-se com serenidade, sem pressa. Nascido em Varanasi e acostumado desde criança a participar da incrível diversidade de ritos, ele é um entusiasta do fascinante universo hindu - uma profusão de deuses, mitos, heróis, rituais e animais sagrados.

O Hinduísmo representa hoje a terceira religião com mais adeptos no planeta, depois da crença católica e da islâmica. Estima-se que existam aproximadamente 900 milhões de devotos no mundo. Apenas na Índia, eles somam cerca de 80% da população de 1 bilhão de habitantes. Essa fé também é majoritária no Nepal, na Ilha de Bali e nas Ilhas Maurício.

A cidade de Varanasi ocupa lugar de destaque para essa imensa massa de fiéis: além de ser a morada terrena de Shiva, é banhada pelo sagrado rio Ganges. Para os hindus, o Ganges - personifiicado como a deusa Ganga - é um rio com poderes purificadores que teria descido dos céus após os pedidos de um santo chamado Bhagiratha. As águas, porém, desceram com tamanha violência que Shiva precisou aplacar tal fúria com seus longos cabelos. Os movimentos da cabeleira do deus acabaram por formar o percurso do rio na Terra. Desde um passado remoto, milhões de peregrinos rumam até Varanasi com o propósito de serem cremados às margens do Ganges. Com tal ato, estariam se libertando do carma (o destino moldado com base nas boas e más ações) de sua vida presente e futura.

BERÇO HINDU

Para entender o Hinduísmo, porém, é preciso voltar a roda do tempo. Há cerca de 5 mil anos, nos arredores das montanhas do Himalaia, floresceu uma avançada civilização no Vale do Rio Indo, onde hoje é o Paquistão. Escavações arqueológicas nas regiões de Mohenjodaro e Harappa indicam que, ao redor do ano 2500 a.c., aquele povo tinha uma religião com aspectos muito próximos ao Hinduísmo atual. Ainda há mistérios sobre a vida religiosa no Indo, mas sabe-se que deuses e deusas eram objetos de adoração.

Por volta do ano 1 500 a.c., quando a civilização do Indo entrava em declínio, a região começou a ser invadida por povos oriundos provavelmente das redondezas do Mar Cáspio e do atual Irã. Eles se autodenominavam arianos ("nobres", "bons"). Politeístas, veneravam vários deuses, muitos deles representantes de fenômenos da natureza, como o vento, o sol, a água e o fogo. Os arianos impuseram sua mitologia na região do Indo e, ao mesmo tempo, absorveram crenças locais. Foi a época em que vieram à luz os quatro livros sagrados mais antigos da fé hindu: os Vedas ("Conhecimento Divino"). O primeiro deles, o Rigveda, teria sido composto no terceiro milênio a.c. e é considerado a escritura sagrada mais ancestral do mundo.

Divulgados também oralmente, os Vedas tornaram-se referência e fonte de inspiração para a produção de uma vasta série de textos sagrados, como os Upanishads. Escritos por volta do ano 800 a.c., versam sobre a origem do universo, a natureza das divindades, além da conexão da mente com a matéria. Contêm ainda investigações metafísicas, base da filosofia hindu.

O Mahabharata, ou ''A Grande Guerra dos Bharatas", é outro texto respeitado entre os hindus. Trata-se de um dos épicos mais extensos do mundo: divide-se em 18 livros, com cerca de 220 mil linhas. Os poemas narram a guerra entre os Kauravas e os Pandavas, descendentes de uma dinastia que governava o mundo há milhares de anos. Os conflitos discorrem sobre o dharma, a lei que rege a ordem secreta e pessoal que cada um traz em si. Seu episódio mais celebrado devido à beleza narrativa é o Bhagavad-Gita, um diálogo filosófico entre a "Divindade Suprema" Krishna e o guerreiro Arjuna.

Para o professor Tripathi, o Hinduísmo destaca-se por sua tendência natural em admitir e respeitar os mais diversos ensinamentos religiosos. De fato, no passado a crença hindu incorporou lições de budistas e jainistas. Religião contemporânea do Budismo, fundada pelo profeta Mahavira por volta do ano 500 a.c., o Jainismo tem como lei o ahimsa, a total obediência à não-violência. Adotada pelos hindus, tal prátiica ficou internacionalmente famosa após o Mahatma Gandhi usá-la na luta contra o imperialismo britânico na Índia, na primeira metade do século 20.

Por volta do ano 1000 da era cristã, enquanto o império muçulmano fortalecia-se em terras indianas, o Hinduísmo assimilava aspectos culturais do Islã - como a arquitetura e a música, por exemplo. Da fé hindu brotaram ainda novas ramificações. É o caso do Sikhismo, religião com características doutrinais do Hinduísmo e do Islamismo. Algumas práticas básicas do Sikhismo são seguidas pela maioria dos hindus", conta Alakha Shakti, diretora da tradicional Escola de Yoga de Bihar, no estado indiano de Bihar. Entre elas, estão a yoga e o puja. Muitas vezes confundido com "ginástica" no Ocidente, a yoga faz parte de uma tradição ancestral, que busca o autoconhecimento por meio do controle da mente e, dependendo da escola a que pertence, do treino do corpo. Já o puja refere-se às orações e cerimônias de oferendas aos deuses. "O sacrifício é outra prática hindu, que objetiva a elevação espiritual", afirma ela.

Faz muitos anos que Rama Krishna Das, um dos mestres espirituais de Alakha, obedece a um rigoroso sacrifício imposto por ele próprio. "Desde 1986, resolvi alimentar-me apenas de leite e de chá. Não como nada sólido. Aos poucos, liberto-me de todos os desejos, até mesmo do cheiro e do sabor da comida", diz ele, sentado em posição de lótus num tapete surrado de seu kuti, o pequeno templo onde vive solitário, em Pashupatinath, famoso destino de peregrinação no Nepal.

Aos 74 anos e dono de uma disposição jovial, Krishna Das é devoto fervoroso de Rama, uma das encarnações de Vishnu, deus que estabelece a verdade na Terra. Assim, ele nunca inicia um só dia sem antes prestar homenagens a Rama, o que pode incluir a repetição
sistemática de um mantra devocional à entidade por cerca de 6 mil vezes. Aos 18 anos, quando abandonou família, amigos e emprego, Krishna Das virou um sadhu - ou seja, dedica-se exclusivamente à vida espiritual e às regras místicas dos ascetas.

Tornar-se sadhu é libertar-se de um peso da cultura hindu: o regime de castas. Sadhus não têm castas. "Desde a chegada dos invasores ao Vale do Indo, a sociedade era dividida em três classes: os brámanes (sacerdotes), os kshatryas (guerreiros e nobres) e os vaishyas (comerciantes e artesãos)", afirma o historiador Nand Kishore Sharma, diretor de um museu em Jaisalmer, cidade no noroeste da Índia. "Mais tarde, formou-se a classe dos serventes, os sudras, que serviam às três classes superiores." Por fim, existem os párias, ou intocáveis, que muitas vezes nem mesmo são considerados como uma casta. Na verdade, essas divisões ainda se subdividem num vasto mosaico que obedece a uma série de hierarquias.

LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL

O mundo hindu é repleto de códigos e símbolos, que identificam castas e devoras. Na cidade de Jodhpur, no estado do Rajastão, moradores da casta brâmane vivem em Bramhpuri, um bairro com casas e comércio pintados de azul. Para os brâmanes, essa é a cor que remete à pureza espiritual. Nas ruas, não é difícil discernir os crentes e seus deuses. Seguidores de Vishnu, por exemplo, pintam o "u" entre as sobrancelhas. Shivaístas fazem três linhas horizontais na testa.

Complicado, porém, é identificar o vasto panteão hindu. Há perto de 330 milhões de divindades. Os deuse reencarnam e são representados sob diferentes formas. Os mais importantes deles, porém, compõem a sagrada trindade formada por Brahma, deus da criação, Vishnu, o que preserva, Shiva, o destruidor e recriador. Muitas vezes, os deuses estão associados com suas parceiras. Em uma de suas muitas encarnações, Vishnu vem acompanhado de Lakshmi, deusa da prosperidade, enquanto Brahma tem como cônjuge Sarasvati, divindade do conhecimento e das artes.

De acordo com Ramakrishna, conhecido mestre espiritual do século 19, tais manifestações divinas, e simbólicas, ajudam - aos que sabem invocá-las com fervor - a obter libertação do mundo e de suas provações. "Os deuses são os intermediários da fonte de luz, de toda a sabedoria", escreveu ele.

"O Hinduísmo ensina que progredimos por meio dos renascimentos e reencarnações, ou seja, temos oportunidades de melhorarmos, sermos mais dignos", conta o professor Tripathi. A meta hinduísta é alcançar moksha, a libertação espiritual que encerra o eterno ciclo do morrer e renascer. São muitos os hindus que escolhem o caminho da austeridade e do sacrifício em busca de tal libertação: por toda a Índia, é comum ver pessoas que renunciaram a todos os bens materiais para viver como peregrinos, portando apenas um pequeno jarro para a água e a comida.

Para muitos fiéis, o ritual da cremação representa o "último sacrifício". Afinal, os hindus não enterram seus mortos. Quem conduz a cerimônia, que sempre ocorre na beira de um rio, geralmente é o filho mais velho, que circula em volta da pira funerária no sentido horário antes de atear o fogo. Após a cremação, ritos, como a oferta diária de arroz ao morto, serão obedecidos pela família durante 11 dias. Esse é o tempo que ele levará para chegar aos céus. No décimo segundo dia, a alma terá alcançado seu destino. Para os hindus, a morte não é o contrário da vida. Na verdade, significa apenas o oposto do nascimento. É a porta para se chegar à moksha.

Sergio T.Caldas - Revista Religião - Super interessante


texto - http://www.comunidadeespirita.com.br

imagem - magodamtarot.blogspot.com

Um comentário:

Vera Lucia Marques disse...

os hindus levam muito a sério isso de aniquilar o Ego, a personalidade, e o fazem com relativa facilidade, porque sabem que é este o único caminho para deixar que se manifeste em nós o Cristo Interno. Já para nós ocidentais, até mudar um hábito, um simples hábito, é difícil, um sacrifício, uma tortura. A matéria ainda nos domina __e quanto! Anseio pelo dia em que atingiremos maturidade espiritual, mas não tenho ilusões, sei que é coisa para séculos, talvez. Abrs!

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