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quinta-feira, 28 de julho de 2011

ESCLARECIMENTOS DE ALLAN KARDEC


Autor: Allan Kardec

Carta à Sua Alteza o Príncipe G.
Revista Espírita, janeiro de 1859


PRÍNCIPE,

Vossa Alteza honrou-me dirigindo-me várias perguntas referentes ao Espiritismo; vou tentar respondê-las, tanto quanto o permita o estado dos conhecimentos atuais sobre a matéria, resumindo em poucas palavras o que o estudo e a observação nos ensinaram a esse respeito. Essas questões repousam sobre os princípios da própria ciência: para dar maior clareza à solução, é necessário ter esses princípios presentes no pensamento; permita-me, pois, tomar a coisa de um ponto mais alto, colocando como preliminares certas proposições fundamentais que, de resto, elas mesmas servirão de resposta a algumas de vossas perguntas.
Há, fora do mundo corporal visível, seres invisíveis que constituem o mundo dos Espíritos. Os Espíritos não são seres à parte, mas as próprias almas daqueles que viveram na Terra ou em outras esferas, e que deixaram seus envoltórios materiais. Os Espíritos apresentam todos os graus de desenvolvimento intelectual e moral. Há, por conseqüência, bons e maus, esclarecidos e ignorantes, levianos, mentirosos, velhacos, hipócritas, que procuram enganar e induzir ao mal, como os há muitos superiores em tudo, e que não procuram senão fazer o bem. Essa distinção é um ponto capital. Os Espíritos nos cercam sem cessar, com o nosso desconhecimento, dirigem os nossos pensamentos e as nossas ações, e por aí influem sobre os acontecimentos e os destinos da Humanidade. Os Espíritos, freqüentemente, atestam sua presença por efeitos materiais. Esses efeitos nada têm de sobrenatural; não nos parecem tal senão porque repousam sobre bases fora das leis conhecidas da matéria. Uma vez conhecidas essas bases, o efeito entra na categoria dos fenômenos naturais; é assim que os Espíritos podem agir sobre os corpos inertes e fazê-los mover sem o concurso de nossos agentes exteriores. Negar a existência de agentes desconhecidos, unicamente porque não são compreendidos, seria colocar limites ao poder de Deus, e crer que a Natureza nos disse sua última palavra. Todo efeito tem uma causa; ninguém o contesta. É, pois, ilógico negar a causa unicamente porque seja desconhecida. Se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente. Quando se vê o braço do telégrafo fazer sinais que respondem a um pensamento, disso se conclui, não que esses braços sejam inteligentes, mas que uma inteligência fá-los moverem-se. Ocorre o mesmo com os fenômenos espíritas. Se a inteligência que os produz não é a nossa, é evidente que ela está fora de nós. Nos fenômenos das ciências naturais, atua-se sobre a matéria inerte, que se manipula à vontade; nos fenômenos espíritas age-se sobre inteligências que têm seu livre arbítrio, e não estão submetidas à nossa vontade. Há, pois, entre os fenômenos usuais e os fenômenos espíritas uma diferença radical quanto ao princípio: por isso, a ciência vulgar é incompetente para julgá-los. O Espírito encarnado tem dois envoltórios, um material que é o corpo, o outro semi-material e indestrutível que é o perispírito. Deixando o primeiro, conserva o segundo que constitui para ele uma espécie de corpo, mas cujas propriedades são essencialmente diferentes. Em seu estado normal, é invisível para nós, mas pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível: tal é a causa do fenômeno das aparições. Os Espíritos não são, pois, seres abstratos, indefinidos, mas seres reais e limitados, tendo sua própria existência, que pensam e agem em virtude de seu livre arbítrio. Estão por toda parte, ao redor de nós; povoam os espaços e se transportam com a rapidez do pensamento. Os homens podem entrar em relação com os Espíritos e deles receberem comunicações diretas pela escrita, pela palavra e por outros meios. Os Espíritos, estando ao nosso lado e podendo virem ao nosso chamado, pode-se, por certos intermediários, estabelecer com eles comunicações seguidas, como um cego pode fazê-lo com as pessoas que ele não vê. Certas pessoas são dotadas, mais do que outras, de uma aptidão especial para transmitirem as comunicações dos Espíritos: são os médiuns. O papel do médium é o de um intérprete; é um instrumento do qual se servem os Espíritos: esse instrumento pode ser mais ou menos perfeito, e daí as comunicações mais ou menos fáceis. Os fenômenos espíritas são de duas ordens: as manifestações físicas e materiais, e as comunicações inteligentes. Os efeitos físicos são produzidos por Espíritos inferiores; os Espíritos elevados não se ocupam mais dessas coisas quanto nossos sábios não se ocupam em fazerem grandes esforços: seu papel é de instruir pelo raciocínio.As comunicações podem emanar de Espíritos inferiores, como de Espíritos superiores. Reconhecem-se os Espíritos, como os homens, pela sua linguagem: a dos Espíritos superiores é sempre séria, digna, nobre e marcada de benevolência; toda expressão trivial ou inconveniente, todo pensamento que choque a razão ou o bom senso, que denote orgulho, acrimônia ou malevolência, necessariamente, emana de um Espírito inferior. Os Espíritos elevados não ensinam senão coisas boas; sua moral é a do Evangelho, não pregam senão a união e a caridade, e jamais enganam. Os Espíritos inferiores dizem absurdos, mentiras, e, freqüentemente, grosserias mesmo. A bondade de um médium não consiste somente na facilidade das comunicações, mas, sobretudo, na natureza das comunicações que recebe. Um bom médium é aquele que simpatiza com os bons Espíritos e não recebe senão boas comunicações.Todos temos um Espírito familiar que se liga a nós desde o nosso nascimento, nos guia, nos aconselha e nos protege; esse Espírito é sempre bom. Além do Espírito familiar, há Espíritos que são atraídos para nós por sua simpatia por nossas qualidades e nossos defeitos, ou por antigas afeições terrestres. Donde se segue que, em toda reunião, há uma multidão de Espíritos mais ou menos bons, segundo a natureza do meio.
Podem os Espíritos revelar o futuro? Os Espíritos não conhecem o futuro senão em razão de sua elevação. Os que são inferiores não conhecem mesmo o seu, por mais forte razão o dos outros. Os Espíritos superiores o conhecem, mas não lhes é sempre permitido revelá-lo. Em princípio, e por um desígnio muito sábio da Providência, o futuro deve nos ser ocultado; se o conhecêssemos, nosso livre arbítrio seria por isso entravado. A certeza do sucesso nos tiraria o desejo de nada fazer, porque não veríamos a necessidade de nos dar ao trabalho; a certeza de uma infelicidade nos desencorajaria. Todavia, há casos em que o conhecimento do futuro pode ser útil, mas deles jamais podemos ser juizes: os Espíritos no-los revelam quando crêem útil e têm a permissão de Deus; fazem-no espontaneamente e não ao nosso pedido. E preciso esperar, com confiança a oportunidade, e sobretudo não insistir em caso de recusa, de outro modo se arrisca a relacionar-se com Espíritos levianos que se divertem às nossas custas.

Podem os Espíritos nos guiar, por conselhos diretos, nas coisas da vida? Sim, eles o podem e o fazem voluntariamente. Esses conselhos nos chegam diariamente pelos pensamentos que nos sugerem. Freqüentemente, fazemos coisas das quais nos atribuímos o mérito, e que não são, na realidade, senão o resultado de uma inspiração que nos foi transmitida. Ora, como estamos cercados de Espíritos que nos solicitam, uns num sentido, os outros no outro, temos sempre o nosso livre arbítrio para nos guiar na escolha, feliz para nós quando damos a preferência ao nosso bom gênio. Além desses conselhos ocultos, pode-se tê-los diretos por um médium; mas é aqui o caso de se lembrar dos princípios fundamentais que emitimos a toda hora. A primeira coisa a considerar é a qualidade do médium, senão o for por si mesmo. Médium que não tem senão boas comunicações, que, pelas suas qualidades pessoais não simpatiza senão com os bons Espíritos, é um ser precioso do qual podem-se esperar grandes coisas, se todavia for secundado pela pureza de suas próprias instruções e se tomadas convenientemente: digo mais, é um instrumento providencial. O segundo ponto, que não é menos importante, consiste na natureza dos Espíritos aos quais se dirigem, e não é preciso crer que o primeiro que chegue possa nos guiar utilmente. Quem não visse nas comunicações espíritas senão um meio de adivinhação, e em um médium uma espécie de ledor de sorte, se enganaria estranhamente. É preciso considerar que temos, no mundo dos Espíritos, amigos que se interessam por nós, mais sinceros e mais devotados do que aqueles que tomam esse título na Terra, e que não têm nenhum interesse em nos bajular e em nos enganar. Além do nosso Espírito protetor, são parentes ou pessoas que se nos afeiçoaram em sua vida, ou Espíritos que nos querem o bem por simpatia. Aqueles vêm voluntariamente quando são chamados, e vêm mesmo sem que sejam chamados; temo-los, freqüentemente, ao nosso lado sem disso desconfiar. São aqueles aos quais pode-se pedir conselhos pela via direta dos médiuns, e que os dão mesmo espontaneamente sem que lhes peça. Fazem-no sobretudo n a intimidade, no silêncio, e então quando nenhuma influência venha perturbá-los: aliás, são muito prudentes, e não se tem a temer da sua parte uma indiscrição imprópria: eles se calam quando há ouvidos demais. Fazem-no, ainda com mais bom grado, quando estão em comunicação freqüente conosco; como eles não dizem as coisas senão com o propósito e segundo a oportunidade, é preciso esperar a sua boa vontade e não crer que, à primeira vista, vão satisfazer a todos os nossos pedidos; querem nos provar com isso que não estão às nossas ordens. A natureza das respostas depende muito do modo como se colocam as perguntas; é preciso aprender a conversar com os Espíritos como se aprende a conversar com os homens: em todas as coisas é preciso a experiência. Por outro lado, o hábito faz com que os Espíritos se identifiquem conosco e com o médium, os fluidos se combinam e as comunicações são mais fáceis; então se estabelece, entre eles e nós, verdadeiras conversações familiares; o que não dizem num dia, dizem-no em outro; eles se habituam à nossa maneira de ser, como nós à sua: fica-se, reciprocamente, mais cômodo. Quanto à ingerência de maus Espíritos e de Espíritos enganadores, o que é o grande escolho, a experiência ensina a combatê-los, e pode-se sempre evitá-los. Se não se lhes expuser, não vêm mais onde sabem perder seu tempo.
Qual pode ser a utilidade da propagação das idéias espíritas? O Espiritismo, sendo a prova palpável, evidente da existência, da individualidade e da imortalidade da alma, é a destruição do Materialismo. Essa negação de toda religião, essa praga de toda sociedade. O número dos materialistas que foram conduzidos a idéias mais sadias é considerável e aumenta todos os dias: só isso seria um benefício social. Ele não prova somente a existência da alma e sua imortalidade; mostra o estado feliz ou infeliz delas segundo os méritos desta vida. As penas e as recompensas futuras não são mais uma teoria, são um fato patente que se tem sob os olhos. Ora, como não há religião possível sem a crença em Deus, na imortalidade da alma, nas penas e nas recompensas futuras, se o Espiritismo conduz a essas crenças aqueles em que estavam apagadas, disso resulta que é o mais poderoso auxiliar das idéias religiosas: dá a religião àqueles que não a têm; fortifica-a naqueles em que ela é vacilante; consola pela certeza do futuro, faz aceitar com paciência e resignação as tribulações desta vida, e afasta do pensamento do suicídio, pensamento que se repele naturalmente quando se lhe vê as conseqüências: eis porque aqueles que penetraram esses mistérios estão felizes com isso; é para eles uma luz que dissipa as trevas e as angústias da dúvida.Se considerarmos agora a moral ensinada pelos Espíritos superiores, ela é toda evangélica, é dizer tudo: prega a caridade cristã em toda a sua sublimidade; faz mais, mostra a necessidade para a felicidade presente e futura, porque as conseqüências do bem e do mal que fizermos estão ali diante dos nossos olhos. Conduzindo os homens aos sentimentos de seus deveres recíprocos, o Espiritismo neutraliza o efeito das doutrinas subversivas da ordem social.
Essas crenças não podem ser um perigo para a razão? Todas as ciências não forneceram seu contingente às casas de alienados? É preciso condená-las por isso? As crenças religiosas não estão ali largamente representadas? Seria justo, por isso, proscrever a religião? Conhecem-se todos os loucos que o medo do diabo produziu? Todas as grandes preocupações intelectuais levam à exaltação, e podem reagir lastimavelmente sobre um cérebro fraco; teria fundamento ver-se no Espiritismo um perigo especial a esse respeito, se ele fosse a causa única, ou mesmo preponderante, dos casos de loucura. Faz-se grande barulho de dois ou três casos aos quais não se daria nenhuma atenção em outra circunstância; não se levam em conta, ainda, as causas predisponentes anteriores. Eu poderia citar outras nas quais as idéias espíritas, bem compreendidas, detiveram o desenvolvimento da loucura. Em resumo, o Espiritismo não oferece, sob esse aspecto, mais perigo que as mil e uma causas que a produzem diariamente; digo mais, que ele as oferece muito menos, naquilo que ele carrega em si mesmo seu corretivo, e que pode, pela direção que dá às idéias, pela calma que proporciona ao espírito daqueles que o compreende, neutralizar o efeito de causas estranhas. O desespero é uma dessas causas; ora, o Espiritismo, fazendo-nos encarar as coisas mais lamentáveis com sangue frio e resignação, nos dá a força de suportá-las com coragem e resignação, e atenua os funestos efeitos do desespero.
As crenças espíritas não são a consagração das idéias supersticiosas da Antigüidade e da Idade Média, e não podem recomendá-las? As pessoas sem religião não taxam de superstição a maioria das crenças religiosas? Uma idéia não é supersticiosa senão porque ela é falsa; cessa de sê-lo se se torna uma verdade. Está provado que, no fundo da maioria das superstições, há uma verdade ampliada e desnaturada pela imaginação. Ora, tirar a essas idéias todo seu aparelho fantástico, e não deixar senão a realidade, é destruir a superstição: tal é o efeito da ciência espírita, que coloca a nu o que há de verdade ou de falso nas crenças populares. Por muito tempo, as aparições foram vistas como uma crença supersticiosa; hoje, que são um fato provado, e, mais que isso, perfeitamente explicado, elas entram no domínio dos fenômenos naturais. Seria inútil condená-las, não as impediria de se produzirem; mas aqueles que delas tomam conhecimento e as compreendem, não somente não se amedrontam, mas com elas ficam satisfeitos, e é a tal ponto que aqueles que não as têm desejam tê-las. Os fenômenos incompreendidos deixam o campo livre à imaginação, são a fonte de uma multidão de idéias acessórias, absurdas, que degeneram em superstição. Mostrai a realidade, explicai a causa, e a imaginação se detém no limite do possível; o maravilhoso, o absurdo e o impossível desaparecem, e com eles a superstição; tais são, entre outras, as práticas cabalísticas, a virtude dos sinais e das palavras mágicas, as fórmulas sacramentais, os amuletos, os dias nefastos, as horas diabólicas, e tantas outras coisas das quais o Espiritismo, bem compreendido, demonstra o ridículo.
Tais são, Príncipe, as respostas que acreditei dever fazer às perguntas que me haveis dado a honra em me endereçar, feliz se elas podem corroborar as idéias que Vossa Alteza já possui sobre essas matérias, e vos levar a aprofundar uma questão de tão alto interesse; mais feliz ainda se meu concurso ulterior puder ser para vós de alguma utilidade.

Com o mais profundo respeito, sou, de Vossa Alteza, o muito humilde e muito obediente servidor,

Allan Kardec


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sábado, 19 de fevereiro de 2011

CONFISSÃO DE VOLTAIRE


Revista Espírita, setembro de 1859

Um dos nossos correspondentes de Boulogne, a propósito da entrevista de Voltaire e Frédéric, que publicamos no último número da Revista, nos dirige a seguinte, comunicação que aqui inserimos com tanto maior bom grado porque ela apresenta um lado eminentemente instrutivo do ponto de vista espírita. Nosso correspondente fá-la preceder de algumas reflexões que nossos leitores ficarão contentes por não omiti-las.
"Se jamais um homem, mais que um outro, deve sofrer os castigos eternos, esse homem é Voltaire. A cólera, a vingança de Deus persegui-lo-ão para sempre. Eis o que nos dizem os teólogos da velha escola.
"Agora que dizem os mestres da teologia moderna? Pode ocorrer, dizem, que desconheçais o homem, não menos que o Deus do qual falais; guardai para vós vossas baixas paixões de ódio e de vingança e não enlameais com elas vosso Deus. Se Deus se inquieta por esse pobre pecador, se toca o inseto, isso será para arrancar seu ferrão, para reconduzir a ele uma cabeça exaltada, um coração extraviado. Dizemos, além disso, que Deus sabe ler nos corações, de outro modo que vós, encontra ali o bem onde não encontrais senão o mal. Se dotou esse homem de um grande gênio, foi para o bem da raça, não para a sua infelicidade.
Que importam, pois, essas primeiras extravagâncias, esses passos de livre condutor entre vós? Uma alma dessa tempera não poderia, em quase nada, fazer outras: a mediocridade ser-lhe-ia impossível no que quer que fosse. Agora que está orientado, qual um potro indomável e jogou as patas e os dentes na sua pastagem terrestre, que vem a Deus como corcel dócil, mas sempre grande, soberbo para o bem tanto quanto fora para o mau. No artigo que segue, veremos por quais meios operou-se essa transformação; veremos nosso garanhão do deserto, a crina ainda alta, as narinas ao vento, fazer sua corrida através dos espaços do Universo. Foi que ali, ele, o pensamento soerguido, encontrou essa liberdade que era sua essência, e se deu a plenos pulmões dessa respiração de onde tirava sua vida! Que lhe aconteceu? Ele se perdeu, ele se confundiu; o grande pregador do nada enfim encontrou o nada, mas não como ele o compreendia; humilhado, decaído por si mesmo, ferido em sua pequenez, ele que se acreditava tão grande foi aniquilado diante de seu Deus; ei-lo com a face ao chão; espera sua sentença; essa sentença é:
Reabilita-te, meu filho, ou vai-te, miserável! Encontrar-se-á o veredito na comunicação que se segue.
"Esta confissão de Voltaire terá maior valor na Revista Espírita porque ela o mostra sob seu duplo aspecto. Vimos alguns Espíritos naturalistas e materialistas que, de cabeça alterada, tanto quanto seu mestre, mas sem ter seu coração, persistiam em glorificar-se em seu cinismo. Que estes permaneçam no inferno tanto quanto lhes agrada desafiar o céu, a zombar de tudo o que faz a felicidade do homem, é lógico, é seu lugar próprio; mas encontramos lógica também em que aqueles que reconhecem seus erros lhes recolham o fruto. Também, ter-se-á a bondade de crer que não nos pomos como apologistas do velho Voltaire; aceitamo-lo somente em seu novo papel e nos regozijamos com a sua conversão, a qual glorifica a Deus, e não pode deixar de impressionar profundamente aqueles que, hoje ainda, se deixam arrastar por seus escritos. Ali está o veneno, aqui está o antídoto.
"Esta comunicação, traduzida do inglês, foi extraída da obra do juiz Edmonds, publicada nos Estados Unidos. Ela toma a forma de uma conversação entre Voltaire e Wolsey, o célebre cardeal inglês do tempo de Henrique VIII. Dois médiuns foram impressionados separadamente para transmitirem esse diálogo."

Voltaire. - Que imensa revolução no pensamento humano ocorreu desde que deixei a Terra!

Wolsey. - Com efeito, essa infidelidade que censuráveis então, aumentou desmesuradamente desde aquela época. Não é que ela tenha maiores pretensões hoje, mas é mais profunda e mais universal, e ao menos que seja detida, ela ameaça tragar a Humanidade no
materialismo, mais do que o fez durante séculos.

Voltaire. - Infidelidade em quê e contra quem? Está na lei de Deus e do homem? Pretendes me acusar de infidelidade porque não me submeti aos estreitos preconceitos de seitas que me rodeavam? É que minha alma estava a pedir uma amplidão de pensamento, um raio de luz, além das doutrinas humanas. Sim, minha alma nas trevas tinha sede de luz.

Wolsey. - Também eu não quis falar senão da infidelidade que se vos imputava, e, ah! não sabeis que muito essa imputação vos pesa ainda. Eu me permito não vos censurar, mas vos dirigir as queixas, porque vosso desprezo pelas doutrinas de hoje, em tanto que estas não eram senão materiais e inventadas pelos homens, não poderiam lesar Espíritos semelhantes ao vosso. Mas essa mesma causa que agia sobre o vosso Espírito, operava igualmente sobre outros, os quais eram muito fracos e muito pequenos para alcançarem os mesmos resultados que vós. Eis, portanto, como aquilo que, em vós, não era senão uma negação dos dogmas dos homens, se traduzia nos outros em reino de Deus. Foi dessa fonte que se espalhou, com uma rapidez assustadora, a dúvida sobre o futuro do homem. Eis também porque o homem, limitando as suas aspirações a este único mundo, caiu cada vez mais no egoísmo e no ódio ao próximo. É a causa, sim, a causa desse estado de coisas que importa procurar porque uma vez encontrada, o remédio será comparativamente fácil. Dizei-me: conheceis essa causa?

Voltaire.- Minhas opiniões, tais como foram dadas ao mundo, foram marcadas, é verdade, por um sentimento de amargura e de sátira; mas, notai bem, quando eu tinha o Espírito importunado, por assim dizer, por uma luta interior. Eu olhava a Humanidade como me sendo inferior em inteligência e em penetração; não a via senão como marionetes que poderiam ser conduzidas por todo homem dotado de uma vontade forte, e me indignava por ver essa Humanidade que se arrogava uma existência imortal, estar repleta de elementos ignóbeis.
Era necessário, portanto, crer que um ser dessa espécie partira da Divindade, e que poderia, por sua medíocre mão, assenhorar-se da imortalidade? Essa lacuna entre duas existências tão desproporcionadas me chocava, e eu não podia preenchê-la. Eu não via senão o animal no homem, não o Deus.
Reconheço que, em alguns casos, minhas opiniões tiveram tendências deploráveis; mas tenho a convicção de que, em outros aspectos, tiveram o seu lado bom. Elas chegaram a reerguer várias almas que estavam degradadas na escravidão; elas quebraram as cadeias do pensamento e deram asas às grandes aspirações. Mas, ah! eu também, que planava tão alto, perdi-me como os outros.
Se em mim a parte espiritual estivesse tão desenvolvida quanto a parte material, raciocinaria com mais discernimento; mas confundindo-as, perdi de vista essa imortalidade da alma que eu procurava, e que não pedia mais do que encontrar; também, dominado que estava com a minha luta com o mundo, com isso cheguei, quase apesar de mim, a negar a existência de um futuro. A oposição que eu fazia às tolas opiniões e à cega credulidade dos homens, impeliam-me a negá-lo ao mesmo tempo, e a contrapor todo o bem que a religião cristã poderia fazer. Entretanto, por infiel que fosse, sentia que era superior aos meus adversários; sim, bem além da importância de sua inteligência; a bela face da Natureza revelava-me o Universo, inspirava-me o sentimento de uma vaga veneração, misturado ao desejo de uma liberdade ilimitada, sentimento que jamais estes experimentaram, agachados que estavam nas trevas da escravidão.
Minhas obras têm, portanto, seu lado bom, porque sem elas o mal que viria para a Humanidade poderia ser pior, sem oposição nenhuma. Vários homens não quiseram mais a sua subjugação; muitos deles se libertaram, e se o que eu preguei lhes deu um único pensamento elevado, ou lhes fez dar um único passo no caminho da ciência, não foi abrir-lhes os olhos quanto à sua verdadeira condição? O que eu lamento é ter vivido tanto tempo na Terra sem saber o que poderia ser, e o que poderia fazer. O que eu não faria, se fosse abençoado com as luzes do Espiritismo, que despertam hoje no Espírito dos homens!
Incrédulo e incerto entrei no mundo dos Espíritos. Só minha presença bastava para banir todo vislumbre de luz que pudesse esclarecer minha alma obscurecida; fora a parte material de meu ser que se desenvolveu na Terra; quanto à parte espiritual, ela se perdera no meio de meus descaminhos procurando a luz; ela se achava presa como numa jaula de ferro.
Altivo e zombador, eu aí iniciava, não conhecendo, nem me importando em conhecer, esse futuro que tanto combatera quando no corpo. Mas fazemos aqui esta confissão: sempre encontrei, em minha alma, uma pequena voz que se fazia ouvir através das barreiras materiais, e que pedia a luz. Era uma luta incessante entre o desejo de saber e uma obstinação em não saber. Assim, pois, minha entrada ficou longe de ser agradável, não vinha descobrir a falsidade, a coisa nenhuma das opiniões que sustentara com toda a força de minhas faculdades? O homem se achava imortal, afinal de contas, eu não poderia deixar de ver e deveria existir um Deus, um Espírito imortal, que estava acima e que governava esse espaço ilimitado que me rodeava.
Como eu viajasse sem cessar, sem me conceder nenhum repouso, a fim de me convencer que isso poderia muito bem, ainda, ser um mundo material, ali onde eu estava, minha alma lutou contra a verdade que me esmagava! Não pude me realizar como Espírito que acabara de deixar sua morada mortal! Não tive aí ninguém com quem pudesse entabular relações, porque recusara a imortalidade a todos. Não existia repouso para mim: eu estava sempre errante e incerto; o Espírito em mim, tenebroso e amargo, talhado do maníaco, impossibilitado de seguir alguma coisa ou deter-se.
Foi, eu o digo, zombador e desconfiado que abordei o mundo espírita. Primeiro fui conduzido para longe das habitações dos Espíritos, e percorri o espaço imenso. Em seguida, me foi permitido lançar os olhos sobre as construções maravilhosas das moradas espíritas e, com efeito, elas me pareceram surpreendentes; fui impelido, aqui e ali, por uma força irresistível; tive que ver, e ver até que minha alma transbordasse pelos esplendores, e derrotada diante do poder que controlava tais maravilhas. Enfim, quis me esconder e me agachar no oco das rochas, mas não pude.
Foi nesse momento que meu coração começou a sentir a necessidade de se expandir; uma associação qualquer tornou-se urgente, porque eu queimava para dizer o quanto fora induzido ao erro, não por outros, mas pelos meus próprios sonhos. Não me restava mais a ilusão quanto à minha importância pessoal, porque eu não sentia senão muito o quanto era pouca coisa nesse grande mundo dos Espíritos. Estava, enfim, de tal modo caído de desgosto e de humilhação, que me foi permitido juntar-me a alguns dos habitantes. Foi dali que pude
contemplar a posição que me fizera na Terra, e o que disso resultou, para mim no mundo espírita. Eu vos deixo o acreditar se essa apreciação foi-me risonha.
Uma revolução completa, um transtorno total ocorreu no meu organismo espírita, e professor que fora, tornei-me o mais ardente aluno. Com a expansão intelectual que trazia comigo, quanto progresso fiz! Minha alma se sentia iluminada e abraçada pelo amor divino; suas aspirações rumo à imortalidade, de comprimidas que estavam, tomaram impulsos gigantescos. Eu via o quanto meus erros foram grandes, e o quanto a reparação a fazer deveria ser grande para expiar tudo o que fizera ou dissera, que pudera seduzir e enganar a
Humanidade. Como são magníficas essas lições da sabedoria e da beleza celestes! Elas ultrapassam tudo o que imaginara na Terra.
Em resumo, vivi bastante para reconhecer, na minha existência terrestre, uma guerra encarniçada entre o mundo e a minha natureza espiritual. Lamentei profundamente as opiniões que promulguei e que deveram desencaminhar muitos do mundo; mas, ao mesmo tempo, foi penetrado de gratidão pelo Criador, o infinitamente sábio, que eu me sinto haver sido um instrumento com ajuda do qual os Espíritos dos homens puderam se portar na direção do exame e do progresso.

Nota. Não acrescentaremos nenhuma reflexão nesta comunicação, da qual cada um apreciará a profundeza e alta importância e onde se encontra toda a superioridade do gênio. Nunca talvez um quadro mais grandioso e mais impressionante foi dado do mundo espírita, e da influência das idéias terrestres sobre as idéias de além-túmulo. Na conversa que publicamos no nosso último número, encontramos o mesmo fundo de pensamentos, embora menos desenvolvidos e, sobretudo, menos poeticamente exprimidos. Aqueles que não se apegam senão à forma dirão, sem dúvida, que não reconhecem o mesmo Espírito nessas duas comunicações, e que a última, sobretudo, não lhes pareça à altura de Voltaire; de onde concluirão que uma das duas não é dele.
Seguramente, quando nós o chamamos, ele não nos trouxe sua certidão de nascimento, mas quem veja abaixo da superfície, será tocado pela identidade de vistas e de princípios que existe entre essas duas comunicações, obtidas em épocas diversas, a uma tão grande distância, e em línguas diferentes. Se o estilo não for o mesmo, não há contradição no pensamento, e é o essencial. Mas se foi o mesmo Espírito que falou nessas duas comunicações, por que foi tão explícito, tão poético numa, ao passo que foi tão lacônico, tão vulgar na outra? Fora preciso não estudar os fenômenos espíritas para disso não se dar conta. Isso prende-se à mesma causa que faz que o mesmo Espírito dê formosas poesias por um médium, e não possa ditar um único verso por um outro. Conhecemos médiuns que não são poetas, pelo menos do mundo, e que obtêm versos admiráveis, como há outros que jamais aprenderam a desenhar e que fazem em desenho coisas maravilhosas. É necessário, pois, reconhecer que, abstração feita das qualidades intelectuais, há nos médiuns aptidões especiais que os tornam, para certos Espíritos, instrumentos mais ou menos flexíveis, mais ou menos cômodos. Dizemos para certos Espíritos, porque os Espíritos têm também suas preferências, fundadas sobre razões que nem sempre conhecemos; assim, o mesmo Espírito será mais ou menos explícito, segundo o médium que lhe sirva de intérprete, e sobretudo segundo o hábito que tem dele servir-se; porque é certo, por outro lado, que um Espírito que se comunica freqüentemente pela mesma pessoa o faz com maior facilidade que aquele que vem pela primeira vez. O impulso do pensamento, portanto, pode ser entravado por uma multidão de causas, mas quando é o mesmo Espírito, o fundo do pensamento é o mesmo, embora a forma seja diferente, e o observador um pouco atento reconhece-lo-á facilmente em certos traços característicos. Narraremos, a esse respeito, o fato seguinte:
O Espírito de um soberano, que desempenhou no mundo um papel importante, chamado em uma de nossas reuniões, iniciou por ato de cólera rasgando o papel e quebrando o lápis. Sua linguagem esteve longe de ser benevolente, porque se achava humilhado por vir entre nós, e
perguntou se acreditávamos que ele deveria se abaixar para nos responder. Conviu, entretanto, que, se o fazia, era como constrangido e forçado por uma força superior à sua; mas se isso dependesse dele não o faria. Um dos nossos correspondentes da África, que não tinha nenhum conhecimento do fato, escreveu-nos que, em uma reunião da qual fazia parte, quiseram evocar o mesmo Espírito. Sua linguagem foi sob todos os pontos idêntica: "Credes, disse ele, que se fosse voluntariamente, viria aqui, nesta casa de negociantes, que talvez um dos meus súditos não gostaria de morar? Eu não vos respondo; isso me lembra meu reino onde era tão feliz; eu tinha autoridade sobre todas as minhas gentes, agora é necessário que eu seja submisso." O Espírito de uma rainha que, durante sua vida, não se distinguiu pela bondade, respondeu no mesmo círculo: "Não me interrogueis mais, pois me aborreceis; se tivesse ainda o poder que tive na Terra, vos faria muito se arrependerem, mas zombais de mim, da minha miséria, agora que não posso nada sobre vós; sou bem infeliz!" - Não está aí um curioso estudo de costumes espíritas?


texto - Revista Espírita, set.1859
imagem - comunidademaconica.com.br

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

DO PRINCÍPIO DA NÃO-RETROGRADAÇÃO DOS ESPÍRITOS


Tendo sido levantadas, várias vezes, questões sobre o princípio da não retrogradação dos Espíritos, princípio diversamente interpretado, iremos tentar resolvê-las.
O Espiritismo quer ser claro para todo o mundo, e não deixar aos seus futuros filhos nenhum assunto de querelas de palavras, por isso todos os pontos suscetíveis de interpretação serão sucessivamente elucidados.
Os Espíritos não retrogradam, nesse sentido de que não perdem nada do progresso realizado; podem ficar momentaneamente estacionados; mas de bons, não podem se tornar maus, nem de sábios, ignorantes. Tal é o princípio geral, que não se aplica senão ao estado moral, e não à situação material, que de boa pode se tornar má, se o Espírito a mereceu.
Citemos uma comparação. Suponhamos um homem do mundo, instruído, mas culpado de um crime que o conduziu às galés; certamente, há para ele uma grande queda como posição social e como bem-estar material; à estima e à consideração sucederam o desprezo e a abjeção; e, no entanto, nada perdeu quanto ao desenvolvimento da inteligência; levará à prisão suas faculdades, seus talentos, seus conhecimentos; é um homem caído, e é assim que é preciso entender os Espíritos decaídos. Deus pode, pois, ao cabo de um certo tempo de prova, retirar, de um mundo onde não terão progredido moralmente, aqueles que o terão desconhecido, que terão sido rebeldes às suas leis, para enviá-los para expiar seus erros e seu endurecimento num mundo inferior, entre os seres ainda menos avançados; lá serão o que eram antes, moral e intelectualmente, mas numa condição tornada infinitamente mais penosa, pela própria natureza do globo, e sobretudo pelo meio no qual se encontrarão; estarão, em uma palavra, na posição de um homem civilizado forçado a viver entre os selvagens, ou de um homem bem educado condenado à sociedade dos forçados. Perderam sua posição, suas vantagens, mas não retrogradaram ao seu estado primitivo; de homens adultos não se tornaram crianças; eis o que é preciso entender pela não-retrogradação. Não tendo aproveitado o tempo, é para eles um trabalho a recomeçar; Deus, em sua bondade, não quer deixá-los mais por muito tempo entre os bons, dos quais perturbariam a paz; por isso envia-os entre os homens que terão por missão fazer avançar, comunicando-lhes o que sabem; por esse trabalho eles mesmos poderão avançar e resgatar tudo, expiando suas faltas passadas, como o escravo que amontoa, pouco a pouco, o que comprar com a sua liberdade; mas, como o escravo, muitos não amontoam senão o dinheiro em lugar de amontoar as virtudes, as únicas que podem pagar seu resgate.
Tal é até este dia a situação de nossa Terra, mundo de expiação e de prova, onde a raça adâmica, raça inteligente, foi exilada entre as raças primitivas inferiores, que a habitavam antes dela. Tal é razão pela qual há tanta amargura neste mundo, amarguras que estão longe de sentirem no mesmo grau dos povos selvagens. Há certamente retrogradação do Espírito nesse sentido que recua seu adiantamento, mas não do ponto de vista de suas aquisições, em razão das quais e do desenvolvimento de sua inteligência, sua decaída social lhe é mais penosa; é assim que o homem do mundo sofre mais num meio abjeto do que aquele que sempre viveu na lama.
Segundo um sistema, que tem alguma coisa de especial à primeira vista, os Espíritos não teriam sido criados para serem encarnados, e a encarnação não seria senão o resultado de suas faltas. Esse sistema cai por esta consideração de que, se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens sobre a Terra nem sobre os outros mundos; ora, como a presença do homem é necessária para a melhoria material dos mundos; que ele concorre pela sua inteligência e sua atividade à obra geral, é um dos órgãos essenciais da criação. Deus não podia subordinar o cumprimento dessa parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que não contasse para isso sobre um número sempre suficiente de culpados para alimentar de obreiros os mundos criados e a criar. O bom senso repele tal pensamento.
A encarnação é, pois, uma necessidade para o Espírito que, para cumprir sua missão providencial, trabalha em seu próprio adiantamento pela atividade e a inteligência que lhe é preciso empregar para prover à sua vida e ao seu bem-estar; mas a encarnação se torna uma punição quando o Espírito, não tendo feito o que deve, é constrangido a recomeçar sua tarefa e multiplica suas existências corpóreas penosas pela sua própria falta.
Um escolar não chega a colar seus graus senão depois de ter passado pela fieira de todas as classes; são essas classes uma punição? Não: são uma necessidade, uma condição indispensável de seu adiantamento; mas se, por sua preguiça, é obrigado a repeti-las, aí está a punição; poder passar algumas delas é um mérito. Portanto, o que é verdade é que a encarnação sobre a Terra é uma punição para muitos daqueles que a habitam, porque teriam podido evitá-la, ao passo que, talvez, a dobraram, triplicaram, centuplicaram por sua falta, retardando assim sua a entrada nos mundos melhores. O que é falso é admitir em princípio a encarnação como um castigo.
Uma outra questão freqüentemente agitada é esta: O Espírito sendo criado simples e ignorante com liberdade de fazer o bem ou o mal, não há queda moral para aquele que toma o mau caminho, uma vez que chega a fazer o mal que não fazia antes?
Esta proposição não é mais sustentável do que a precedente. Não há queda senão na passagem de um estado relativamente bom a um estado pior; ora, o Espírito criado simples e ignorante está, em sua origem, num estado de nulidade moral e intelectual, como a criança que acaba de nascer; se não fez o mal, não fez, não mais, o bem; não é nem feliz nem infeliz; age sem consciência e sem responsabilidade; uma vez que nada tem, nada pode perder, e não pode, não mais, retrogradar; sua responsabilidade não começa senão do momento em que se desenvolve nele o livre arbítrio; seu estado primitivo não é, pois, um estado de inocência inteligente e racional; por conseqüência, o mal que faz mais tarde infringindo as leis de Deus, abusando das faculdades que lhes foram dadas, não é um retorno do bem ao mal, mas a conseqüência do mau caminho em que se empenhou.
Isso nos conduz a uma outra questão. Nero, por exemplo, pode, enquanto Nero, ter feito mais mal do que em sua precedente encarnação? A isto respondemos sim, o que não implica que na existência em que teria feito menos mal fosse melhor. Primeiro, o mal pode mudar de forma sem ser pior ou menos mal; a posição de Nero, como imperador, tendo-o colocado em evidência, o que ele fez foi mais notado; numa existência obscura pôde cometer atos também repreensíveis, embora sobre uma menor escala, e que passaram desapercebidos; como soberano pôde fazer queimar uma cidade; como simples particular pôde queimar uma casa e ali fazer perecer uma família; tal assassino vulgar que mata alguns viajantes para despojá-los, se estivesse sobre um trono, seria um tirano sanguinário, fazendo em grande o que sua posição não lhe permitia fazer senão em pequeno.
Tomando a questão sob um outro ponto de vista, diremos que um homem pode fazer mais mal numa existência do que na precedente, mostrar vícios que não tinha, sem que isso implique uma degenerescência moral; freqüentemente, o que faltam são as ocasiões para fazer o mal, quando o princípio existe em estado latente; chega a ocasião, e os maus instintos se mostram a nu. A vida comum disso nos oferece numerosos exemplos: tal homem que se acreditava bom, mostra de repente vícios que não se supunha, e disso se admira; muito simplesmente é que soube dissimular, ou que uma causa provocou o desenvolvimento de um mau germe. É muito certo que aquele em que os bons sentimentos estão enraizados não tem mesmo o pensamento do mal; quando este pensamento existe, é que o germe existe: não falta senão a execução.
Depois, como dissemos, o mal, embora sob diferentes formas, não é por isso menos o mal. O mesmo princípio vicioso pode ser a fonte de uma multidão de atos diversos provindo de uma mesma causa; o orgulho, por exemplo, pode fazer cometer um grande número de faltas, às quais se está exposto, enquanto o princípio radical não for extirpado.
Um homem pode, pois, numa existência, ter defeitos que não teriam se manifestado numa outra, e que não são senão conseqüências variadas de um mesmo princípio vicioso. Nero é para nós um monstro, porque cometeu atrocidades; mas crê-se que esses homens pérfidos, hipócritas, verdadeiras víboras que semeiam o veneno da calúnia, despojam as famílias pela astúcia e os abusos de confiança, que cobrem suas torpezas com a máscara da virtude para chegar, mais seguramente, aos seus fins e receberem os elogios quando merecem a execração, crê-se, dizemos, que valem mais do que Nero? Seguramente não; ser reencarnado num Nero não seria para eles uma decaída, mas uma ocasião de se mostrarem sob uma nova face; como tais exibirão os vícios que escondiam; ousarão fazer pela força o que faziam pela astúcia, eis toda a diferença. Mas essa nova prova não lhe tornará o castigo senão mais terrível, se, em lugar de aproveitar os meios que lhe são dados de reparar, servem-se deles para o mal. E, no entanto, cada existência, por má que ela seja, é uma ocasião de progresso para o Espírito; desenvolve a sua inteligência, adquire da experiência e dos conhecimentos que, mais tarde, ajudá-lo-ão a progredir moralmente.


texto - Revista Espírita 1863 - junho
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sexta-feira, 9 de julho de 2010

CARTA SOBRE A INCREDULIDADE - parte 2/2


Revista Espírita, fevereiro de 1861

(Continuação e fim. Vede número de janeiro de 1861, página 15.)

Desde que o homem existe sobre a Terra, existem os Espíritos; e, desde então também, os Espíritos se manifestaram aos homens. A história e a tradição formigam de provas a esse respeito; mas, seja porque uns não compreendessem os fenômenos dessas manifestações, seja porque outros não ousassem divulgá-las, de medo da prisão ou da fogueira, seja que esses fatos fossem levados à conta da superstição ou do charlatanismo pelas pessoas muito prevenidas, ou que tinham interesse em que não se fizesse a luz; seja, enfim, porque fossem levadas à conta do demônio por uma outra classe de interesses, é certo que, até estes últimos tempos, esses fenômenos, embora bem constatados, não tinham ainda sido explicados de modo satisfatório, ou que, pelo menos, a verdadeira teoria não tinha ainda penetrado no domínio público, provavelmente porque a Humanidade ainda não estava madura para isso, como para muitas outras coisas maravilhosas que se cumprem em nossos dias. Estava reservado à nossa época ver eclodir, no mesmo meio século, o vapor, a eletricidade, o magnetismo animal, eu entendo, pelo menos, como ciências aplicadas, e, enfim, o Espiritismo, o mais maravilhoso de todos, quer dizer, não só a constatação material da nossa existência imaterial e da nossa imortalidade, mas ainda o estabelecimento de relações materiais, por assim dizer, e constantes entre o mundo invisível e nós. Quantas conseqüências incalculáveis não devem nascer de um acontecimento tão prodigioso! Mas, para não falar senão daquilo que, atualmente, mais impressiona a generalidade dos homens,
da morte, por exemplo, não a vemos reduzida ao seu verdadeiro papel de acidente natural, necessário, eu diria mesmo feliz, e perdendo assim todo o seu caráter de acontecimento doloroso e terrível, uma vez que, para aquele que a suporta, ela é um momento do despertar; uma vez que, desde o dia seguinte da morte de um ser querido, nós outros que ficamos, podemos continuar as nossas relações íntimas no passado! Não há de mudança senão as nossas relações materiais; não o vemos mais, não o tocamos mais, não ouvimos mais a sua voz; mas nós continuamos a trocar com ele os nossos pensamentos, como quando vivo, e, freqüentemente, muito mais frutuosamente para nós. Que resta, depois disso, de tão doloroso! E, acrescentando-se, ao que precede, essa certeza de que não estamos mais separados dele senão por alguns anos, alguns meses, alguns dias talvez, tudo isso não é feito para transformar em um simples acontecimento útil aquele que, até hoje, com quase poucas exceções, os mais decididos não podiam encarar sem medo, e que, certamente, faz o tormento incessante de toda a existência de muitos homens? Mas eu me afastei do assunto.
Antes de te explicar a prática muito simples das comunicações, eu gostaria de tentar te dar uma idéia da teoria fisiológica que me foi dado fazer. Eu não tá dou por certa, porque não a vi ainda explicada pela ciência; mas me parece, pelo menos, que deve ser alguma coisa próxima disso.
O Espírito age sobre a matéria tanto mais facilmente quanto ela esteja disposta de um modo mais próprio para receber a sua ação, é por isso que não age diretamente sobre toda a espécie de matéria, mas poderia agir indiretamente, se se encontrasse, entre essa matéria e ele, certas substâncias de uma organização graduada que colocam os dois extremos em relação, quer dizer, a matéria mais bruta em relação com o Espírito. Assim é que o Espírito de um homem vivo desloca blocos de pedras muito pesados, os configura, os coordena com outros e deles forma um todo que chama uma casa, uma coluna, uma igreja, um palácio, etc.
Foi o homem-corpo que fez tudo isso? Quem ousaria dize-lo?... Sim, foi ele que fez isso, como é uma pena que escreve esta carta; mas eu volto, porque me sinto ainda indo à deriva.
Como o Espírito se põe em relação com o pesado bloco que ele quer deslocar? Por meio da matéria escalonada entre ele e o bloco; a alavanca põe o bloco em relação com a mão; a mão põe a alavanca em relação com os músculos; os músculos colocam a mão em relação com os nervos; os nervos metem os músculos em relação com o cérebro, e o cérebro coloca os nervos em relação com o Espírito, a menos que não haja ainda uma matéria mais delicada, um fluido que coloca o cérebro em relação com o Espírito. Qualquer que seja, um intermediário de mais ou de menos, não infirma a teoria; que o Espírito agisse de primeira ou de segunda mão sobre o cérebro, trata-se sempre de muito perto; de sorte que, retomando a coloque em relação com o reverso, ou antes, em sua ordem natural, eis o Espírito agindo sobre uma matéria extremamente delicada, organizada pela sabedoria do Criador de maneira própria a receber diretamente, ou quase diretamente, a ação de sua vontade; essa matéria,
que é o cérebro, age, por meio de suas ramificações que chamamos os nervos, sobre uma outra matéria menos delicada, mas que ainda bastante para receber a ação desta, e que são os músculos; os músculos imprimindo movimento à parte sólida que são os ossos do braço e da mão, enquanto que as outras partes do vigamento ósseo, recebendo a mesma ação servem de ponto de apoio ou escora. A parte óssea, quando não é ainda bastante forte por si mesma, ou bastante extensa para agir diretamente, multiplica a sua força com a ajuda da alavanca, e, eis o pesado bloco inerte, obedecendo documente à vontade do Espírito que, sem essa hierarquia intermediária, não teria nenhuma ação sobre ele.
Procedendo do mais para o menos, eis os menores fatos do Espírito explicados, do mesmo modo que procedendo no sentido contrário, vê-se como o Espírito pode chegar a transpor as montanhas, secar os lagos etc., e em tudo isso, o corpo desaparece quase no meio da multidão de instrumentos necessários, e entre os quais não faz senão desempenhar o primeiro papel.
Eu quero escrever uma carta; o que me é necessário fazer? Colocar uma folha de papel em relação com o meu Espírito, como ainda há pouco o colocava como bloco de pedra; substituo a alavanca pela pena e a coisa está feita. Eis a folha de papel repetindo o pensamento do meu Espírito, como ainda há pouco o movimento impresso ao bloco manifestava a sua vontade.
Se meu Espírito quer transmitir mais diretamente, mais instantaneamente, seu pensamento ao teu, e que nada a isso se oponha, tais como a distância ou a interposição de um corpo sólido, sempre por meio do cérebro e dos nervos, ele põe em movimento o órgão da voz que, ferindo o ar de diversas maneiras, produz certos sons variados e convencionados representando o pensamento, os quais vão repercutir em teu órgão auditivo que o transmite ao teu Espírito, por meio de teus nervos e de teu cérebro; é sempre o pensamento manifestado e transmitido por uma série de agentes materiais, graduados e interpostos entre seu princípio e seu objeto.
Se a teoria que precede é verdadeira, parece-me que nada é mais fácil agora senão explicar o fenômeno das manifestações espíritas, e particularmente da escrita mediúnica, a única que nos ocupa neste momento.
Sendo a substância física idêntica entre todos os Espíritos, seu modo de ação sobre a matéria deve ser o mesmo para todos; só o seu poder pode variar de graus. A matéria dos nervos estando organizada de modo a poder receber a ação de um Espírito, não há razão para que ela não possa receber a ação de um outro Espírito, cuja natureza não difere da do primeiro; e uma vez que a substância de todos os Espíritos é da mesma natureza, todos os Espíritos devem estar aptos a exercer, não diria a mesma ação, mas o mesmo modo de ação sobre a mesma substância, todas as vezes que eles se colocam na medida de poder fazê-lo; ora, é o que acontece na evocação.

O que é a evocação?

É o ato pelo qual um Espírito, titular de um corpo, pede um outro Espírito, ou, muito simplesmente, lhe permite servir-se de seu próprio órgão, de seu próprio instrumento, para manifestar o seu pensamento ou a sua vontade.
O Espírito titular não abandona por isso o seu corpo, mas pode bem neutralizar, momentaneamente, sua própria ação sobre o órgão da transmissão, e deixá-la assim à disposição do outro que não pode, todavia, dele se servir senão quanto apraza ao primeiro permiti-lo, em virtude deste axioma do direito natural de que cada um deve ser senhor de si mesmo. Entretanto, é necessário dize-lo bem, ocorre no Espiritismo, como nas sociedades humanas, que esse direito de propriedade não é sempre escrupulosamente respeitado pelos senhores Espíritos, e que mais de um médium se encontrou, mais de uma vez, muito surpreso por ter dado hospitalidade a hóspedes que não convidara e ainda menos desejara; mas está aí um dos mil pequenos desagrados da vida, que é necessário suportar, tanto mais que, na espécie, tem sempre um lado útil, não fosse senão com o fim de nos provar, ao mesmo tempo que são a prova mais manifesta da ação de um Espírito estranho sobre o nosso órgão, nos fazendo escrever coisas que estávamos longe de prever, ou que não estamos de nenhum modo ciosos de ouvir. Contudo, isso não ocorre aos médiuns senão em seu início; quando estão formados, isso não ocorre mais, ou, pelo menos, não se deixam mais prender nisso.
Cada um está apto para ser médium? Naturalmente isso deveria ser, em graus diferentes todavia, como com aptidões diversas; está aí a opinião do Sr. Kardec. Há médiuns escreventes, médiuns videntes, médiuns audientes, médiuns intuitivos, quer dizer, os Médiuns que escrevem, que são os mais numerosos e mais úteis; os médiuns que vêem os Espíritos; outros que os ouvem e conversam com eles como com os vivos: estes são raros; outros que recebem os pensamentos do Espírito evocado em seu cérebro, e os transmitem pela palavra. Um Médium possui raramente várias dessas faculdades ao mesmo tempo. Há ainda médiuns de um outro gênero, quer dizer, cuja presença somente em um lugar qualquer permite aos Espíritos aí se manifestarem, seja por um ruído, tais como as pancadas, seja pelo movimento dos corpos, tal qual o deslocamento de uma mesinha, o erguimento de uma cadeira, de uma mesa ou de qualquer outro objeto. Foi por esse meio que os Espíritos começaram a se manifestar e a revelar a sua existência. Ouviste falar das mesas girantes e da dança das mesas, disso riste e eu também; pois bem! Foram os primeiros meios que os Espíritos empregaram para atrair a atenção; foi assim que se reconheceu a sua presença; depois do que, com a ajuda da observação e do estudo, chegou-se a descobrir, nos homens, faculdades até então ignoradas, por meio das quais se pode entrar em comunicação direta com os Espíritos. Tudo isso não é maravilhoso? E, todavia, isso não é senão natural; somente, eu o repito, estava reservado à nossa época de fazer a descoberta e a aplicação dessa ciência, como de muitos outros segredos maravilhosos da Natureza.
Agora, para se pôr em relação com os Espíritos, ou pelo menos para ver se se está apto para fazê-lo pela escrita, toma-se uma folha de papel branco e um lápis que marque bem, colocando-se em posição de escrever. É sempre bom começar dirigindo uma prece a Deus, depois evoca-se um Espírito, quer dizer, roga-se-lhe consentir em se comunicar conosco e nos fazer escrever; depois espera-se, sempre na mesma posição.
Há pessoas que têm a faculdade medianímica de tal modo desenvolvida, que escrevem tudo do início; outras, ao contrário, não vêem essa faculdade se desenvolver nelas senão com o tempo e a perseverança. Neste último caso, renova-se a sessão cada dia, e para isso um quarto de hora basta; é inútil nisso passar mais tempo; mas, tanto quanto possível, é necessário renová-la todos os dias, sendo a perseverança uma das primeiras condições de sucesso.
É necessário também fazer a prece e a evocação com fervor; repeti-la mesmo algumas vezes durante o exercício; ter uma vontade firme, um grande desejo de vencer e sobretudo, nenhuma distração. Quando uma vez se conseguiu escrever, estas últimas preocupações tornam-se inúteis.
Quando se deve logo escrever, sente-se ordinariamente um ligeiro estremecimento na mão, precedido algumas vezes de um ligeiro adormecimento da mão e do braço, algumas vezes mesmo de uma leve dor nos músculos do braço e da mão; esses são sinais precursores e quase sempre certos de que o momento do sucesso não está longe; é algumas vezes imediato, de outras vezes, se faz ainda esperar de um ou vários dias, mas jamais tarda muito; somente, para ali chegar, é necessário mais ou menos tempo, o que pode variar de um instante a seis meses, mas eu to repito, um quarto de hora de exercício por dia basta.
Quanto aos Espíritos que podem ser evocados, para essas espécies de exercícios preparatórios, é preferível dirigir-se ao seu Espírito familiar que está sempre ali e não nos deixa nunca, ao passo que os outros Espíritos podem ali não estar senão momentaneamente, e não mais se encontrar no momento em que os evocamos, e estar então, por uma causa qualquer, na impossibilidade de atender ao nosso chamado, o que ocorre algumas vezes.
O Espírito familiar, que confirma, até certo ponto, a teoria católica do anjo guardião, não é, entretanto, inteiramente tal como no-lo representa o dogma católico. É muito simplesmente o Espírito de um mortal que viveu como nós, mas que está sempre mais avançado que nós e nos é, por conseqüência, infinitamente superior em bondade e em inteligência; que cumpre aí uma missão meritória para ele, proveitosa para nós, e nos acompanha assim neste mundo e no outro, até que seja chamado para uma nova encarnação, ou até que nós mesmos, chegados a um certo grau de superioridade, sejamos chamados a cumprir, na outra vida, uma missão semelhante junto de um mortal menos avançado do que nós.
Tudo isto, meu caro amigo, entra maravilhosamente, como o vês, nas nossas idéias de solidariedade universal. Tudo isto, em nos mostrando esta solidariedade estabelecida de todos os tempos e funcionando constantemente entre o mundo invisível e nós, nos prova, certamente, que não é uma utopia de concepção humana, mas bem uma das leis da Natureza; que os primeiros pensadores que a pregaram não a inventaram, mas somente a descobriram; e que, enfim, estando nas leis da Natureza, ela está chamada fatalmente a se desenvolver nas sociedades humanas, apesar das resistências e dos obstáculos que poderão ainda lhe opor os seus cegos adversários (1-(1) Por pouco que os fatos mais naturais, mas ainda não explicados, se prestem a maravilhoso, cada um sabe com que agilidade a zombaria deles se apodera e com que audácia os explora; está aí, talvez, ainda um dos maiores obstáculos à descoberta e sobretudo à vulgarização da verdade).
Não me resta mais senão te falar da maneira de evocar. É a coisa mais simples. Não há para isso nenhuma forma cabalística, nenhuma fórmula obrigatória; tu te diriges ao Espírito nos termos que te convém; eis tudo.
Para te fazer melhor compreender, todavia, a simplicidade da coisa, vou dizer-te a fórmula que eu mesmo emprego: "Deus Todo-poderoso! Permiti ao bom anjo (ou ao Espírito de um tal, preferindo-se evocar um outro Espírito) de se comunicar comigo e de me fazer escrever." Ou bem ainda: "Em nome de Deus Todo-Poderoso, peço ao meu bom anjo (ou ao Espírito de...) se comunicar comigo."
Agora, queres saber o resultado da minha própria experiência; ei-lo: Depois de mais ou menos seis semanas de exercícios infrutíferos, um dia, senti minha mão tremer, se agitar e traçar de repente, com o lápis, caracteres informes. Nos exercícios seguintes, esses caracteres, embora sempre ininteligíveis, se tomaram mais regulares; eu escrevia linhas e páginas com a rapidez de minha escrita comum, mas sempre ilegíveis. De outras vezes, eu traçava rubricas de todas as espécies, pequenas, grandes, algumas vezes de todo o papel. Algumas vezes eram linhas direitas, ora de alto a abaixo, ora atravessadas. De outras vezes, eram círculos, ora grandes, ora pequenos, e algumas vezes tão repetidos uns sobre os outros, que a folha de papel ficava toda enegrecida pelo lápis.
Enfim, depois de um mês de exercício mais variado, mas também o mais insignificante, comecei a me aborrecer, e pedia ao meu Espírito familiar para me fazer traçar letras, ao menos se não pudesse me fazer escrever palavras; eu obtinha, então, todas as letras do alfabeto, mas não pude obter mais.
Nesses intervalos, minha mulher, que sempre teve o pressentimento de não possuir a faculdade medianímica, se decidiu entretanto tentá-la e, ao cabo de quinze dias de espera, se pôs a escrever correntemente e com uma grande facilidade; mas, mais feliz do que eu, ela o fazia muito corretamente e muito legivelmente.
Um dos nossos amigos conseguiu, desde o segundo exercício, a rabiscar como eu, mas isso foi tudo. Não nos desencorajamos por isso; estamos convencidos de que é uma prova e que, cedo ou tarde, nós escreveremos; não é preciso senão a paciência, é fácil.
Numa outra carta, eu te entreterei com as comunicações que recebemos por minha mulher, e que, bastante singulares por si mesmas, são sobretudo muito concludentes pela existência dos Espíritos. Temos bastante por hoje; tinha a te fazer uma exposição que, se bem que muito sumária, entretanto, pode abarcar o conjunto da teoria espírita. Isto bastará, eu o espero, para excitar a tua curiosidade, e sobretudo despertar o teu interesse; a leitura das obras especiais, às quais isto vai te dispor, fará o resto.
Esperando a obra prática da qual te falei, enviarei muito proximamente a obra filosófica intitulada: O Livro dos Espíritos.
Estuda, lê, relê, experimenta, trabalha, e sobretudo não desanimes nunca: a coisa vale a pena.
E, além disso, não prestes atenção aos risos; já há muitos que não riem mais, se bem que estejam ainda na posse de todos os órgãos que lhes serviam há algum tempo.

A ti e até breve, CANU.


endereço: Revista Espírita - fev/1861
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terça-feira, 6 de julho de 2010

CARTA SOBRE A INCREDULIDADE - parte 1/2



Revista Espírita, janeiro de 1861

(Primeira parte.)

Um dos nossos colegas, o Sr. Canu, outrora fortemente imbuído dos princípios materialistas, e que o Espiritismo levou a uma sadia apreciação das coisas, se censurava pelo fato de ser propagador de doutrinas que considera agora como subversivas da ordem social; na intenção de reparar isso que ele considera com razão como uma falta, e de esclarecer aqueles que ele desviou, escreveu, a um de seus amigos, uma carta sobre a qual quis pedir a nossa opinião.
Ela nos pareceu tão bem responder ao objetivo que se propunha, que rogamos nos permitir publicá-la, do que os nossos leitores, sem dúvida, estarão agradecidos. Em lugar de abordar decididamente a questão do Espiritismo, que seria repelida por pessoas não admitindo a alma que lhe é a base; em lugar, sobretudo, de exibir aos seus olhos fenômenos estranhos que tivessem negado, ou atribuído a causas vulgares, ele remonta à sua fonte. Procura, com razão, torná-los espiritualistas antes de torná-los Espíritas; por um encadeamento de idéias perfeitamente lógico, chega à idéia espírita como conseqüência. Este caminho, evidentemente, é o mais racional. A extensão dessa carta nos obriga a dividir-lhe a publicação.

Paris, 10 de novembro de 1860.

Meu caro amigo.

Desejas uma longa carta sobre o Espiritismo, vou tratar de satisfazer-te com o meu melhor, esperando o envio de uma obra importante sobre a matéria, a qual deverá aparecer no fim do ano.
Serei obrigado a começar por algumas considerações gerais, e nos seria preciso remontar à origem do homem; isto alongará um pouco a minha carta, mas é indispensável para a inteligência da coisa.
Tudo passa! diz-se geralmente.
Sim, tudo passa; mas geralmente também dá-se a esta expressão um significado bem distante daquele que lhe pertence.
Tudo passa, mas nada se acaba, senão a forma.
Tudo passa, nesse sentido de que tudo caminha e segue o seu curso, mas não um curso cego e sem objetivo, se bem que não deva jamais acabar.
O movimento é a grande lei do Universo, na ordem moral como na ordem física, e o objetivo do movimento é o progresso para o melhor; é um trabalho ativo, incessante e universal; é o que chamamos o progresso.
Tudo está submetido a essa lei, com exceção de Deus. Deus é o autor; a criatura é um instrumento e o objeto.
A criação se compõe de duas naturezas distintas: a natureza material e a natureza intelectual; esta é o instrumento ativo; a outra é o instrumento passivo.
Estes dois instrumentos são o complemento um do outro, quer dizer, um sem o outro seria de uso completamente nulo.
Sem a natureza intelectual, ou o espírito inteligente e ativo, a natureza material, quer dizer, a matéria ininteligente e inerte, seria perfeitamente inútil, não podendo nada por si mesma.
Sem a matéria inerte, o Espírito inteligente não teria poder maior.
Mesmo o mais perfeito instrumento seria como se não existisse, se não houvesse alguém para dele se servir.
O obreiro mais hábil, o sábio da ordem mais elevada, seriam também impotentes quanto o mais completo idiota, se não tivessem instrumentos para desenvolver a sua ciência e manifestá-la.
É agora aqui o lugar de fazer notar que o instrumento material não consiste somente na plaina do marceneiro, na tesoura do escultor, na paleta do pintor, no escalpelo do cirurgião, no compasso ou na luneta do astrônomo; consiste também na mão, na língua, nos olhos, no cérebro, em uma palavra, na reunião de todos os órgãos materiais necessários à manifestação do pensamento, o que implica, naturalmente, na denominação de instrumento passivo, a matéria, ela mesma, sobre a qual a inteligência opera por meio do instrumento propriamente dito. Assim é que uma mesa, uma casa, um quadro, considerados nos elementos que os compõem, não são menos instrumentos do que a serra, a plaina, o esquadro, a colher de pedreiro, o pincel que os produziu, do que a mão e os olhos que dirigiram estes últimos, do que o cérebro, enfim, que presidiu a essa direção. Ora, tudo isso o cumpriu o cérebro, foi o instrumento complexo do qual se serviu a inteligência para manifestar o seu pensamento, a sua vontade, que era a de produzir uma forma, e essa forma era ou uma mesa, ou uma casa, ou um quadro, etc.
A matéria, inerte pela sua natureza, informe em sua essência, não adquire propriedades úteis senão pela forma que se lhe imprime; o que fez um célebre fisiologista dizer que a forma era mais necessária do que a matéria; proposição um pouco paradoxal talvez, mas que prova a superioridade do papel que a forma desempenha nas modificações da matéria. É segundo esta lei que o próprio Deus, se assim posso me exprimir, dispôs e modifica sem cessar os mundos e as criaturas que os habitam, segundo as formas que melhor convém aos seus objetivos para a harmonização do Universo; e é sempre segundo essa lei que as criaturas inteligentes agem incessantemente sobre a matéria, como o próprio Deus, mas secundariamente concorrem para a sua transformação contínua, transformação da qual cada grau, cada escalão é um passo no progresso, ao mesmo tempo que é a manifestação da inteligência que lhos mandou fazer.
Assim é que tudo, na criação, está em movimento e sempre em progresso; que a missão da criatura inteligente é a de ativar esse movimento no sentido do progresso, o que ela cumpre, freqüentemente mesmo, sem o saber; que o papel da criatura material é o de obedecer a esse movimento e o de manifestar o progresso da criatura inteligente; que a criação, enfim, considerada em seu conjunto ou em suas partes, cumpre incessantemente os objetivos de Deus.
Quantas criaturas ditas inteligentes (sem sair do nosso planeta), cumprem uma missão da qual estão longe de desconfiar! E confesso que, de minha parte, não faz muito tempo ainda, eu era desse número. Eu não seria mesmo inoportuno, a esse respeito, em colocar aqui algumas palavras de minha própria história; tu me perdoarás esta pequena digressão que pode ter o seu lado útil.
Aluno da escola do dogma católico, e a reflexão e o exame não tendo se desenvolvido em mim senão bastante tarde, fui por muito tempo fervoroso e cego crente; sem dúvida, não o esqueceste.
Mas sabes também que, mais tarde, caí num excesso contrário; da negação de certos princípios que a minha razão não podia admitir, conclui pela negação absoluta. O dogma da eternidade das penas sobretudo me revoltava; eu não podia conciliar a idéia de um Deus que se dizia infinitamente misericordioso com a de um castigo perpétuo por uma falta passageira; o quadro do inferno, com as suas fornalhas, as suas torturas materiais, me parecia ridículo e uma paródia do Tártaro dos Pagãos. Recapitulava as minhas impressões de infância, e as minhas lembranças que, quando da minha primeira comunhão, se nos dizia que não era preciso orar pelos condenados, porque isso não lhes serviria de nada; quem não tivesse a fé era votado às chamas, e que bastava a alguém duvidar da infalibilidade da Igreja para ser condenado; que mesmo o bem que se fizesse neste mundo não poderia salvar, tendo em vista que Deus colocava a fé acima das melhores ações humanas. Esta doutrina me tornara impiedoso e havia endurecido o meu coração; eu olhava os homens com desconfiança, e, ao menor pecadilho acreditava ter ao meu lado um condenado de quem tinha que fugir como da peste, e ao qual, na minha indignação, teria recusado um copo de água, dizendo-me que Deus lhe recusaria um dia bem mais. Se existissem ainda fogueiras, teria de bom grado nela empurrado todos aqueles que não tinham a fé ortodoxa, fosse mesmo o meu pai. Nesta situação de espírito, eu não podia amar a Deus: dele tinha medo.
Mais tarde, uma multidão de circunstâncias, muito longas para enumerar, vieram me abrir os olhos, e rejeitei os dogmas que não concordavam com a minha razão, porque nada me ensinara a colocar a moral acima da forma; do fanatismo religioso, caí no fanatismo da incredulidade, a exemplo de tantos dos meus companheiros de infância.
Não entrarei nos detalhes que nos levariam muito longe; acrescentarei somente que, depois de ter perdido, durante quinze anos, a doce ilusão da existência de um Deus infinitamente bom, poderoso e sábio, da existência e da imortalidade da alma, eu reencontrei, enfim, hoje, não mais a minha ilusão, mas uma certeza tão completa quanto a de minha existência atual, que é a que te escreve neste momento.
Eis, meu amigo, o grande acontecimento de nossa época, o grande acontecimento que nos é dado ver se cumprir em nossos dias: a prova material da existência e da imortalidade da alma.
Retornemos ao fato; mas para te fazer compreender melhor o Espiritismo, vamos remontar à origem do homem, e aí estaremos por muito tempo.
É evidente que os globos que povoam a imensidade não são feitos tendo em vista unicamente a sua ornamentação; eles têm também um objetivo útil ao lado do agradável: o de produzir e de alimentar seres materiais vivos que sejam instrumentos apropriados e dóceis a essa multidão de criaturas inteligentes que povoam o espaço, e que são, em definitivo, a obra-prima, ou melhor, o objetivo da criação, uma vez que só elas têm a faculdade de conhecê-lo, admirá-lo e de adorar o seu autor.
Cada um dos globos espalhados no espaço teve o seu começo, quanto à sua forma, num tempo mais ou menos recuado. Quanto à idade da matéria que o compõe, é um segredo que não nos importa aqui conhecer, sendo a forma tudo para o objeto que nos ocupa. Com efeito, pouco nos importa que a matéria seja eterna, ou unicamente criação anterior à formação do astro, ou enfim contemporânea a essa formação; o que é preciso saber é que o astro foi formado para ser habitado. Não é talvez fora de propósito acrescentar que essas formações não se fazem em um dia, como dizem as Escrituras; que um globo não sai de repente do nada coberto de florestas, de campinas e de habitantes, como Minerva saiu armada dos pés à cabeça de Júpiter. Não, Deus procede seguramente, mas lentamente; tudo segue uma lei lenta e progressiva, não que Deus hesite ou tenha necessidade da lentidão, mas porque as sua leis são tais e que são imutáveis. Aliás, o que chamamos lentidão, nós, seres efêmeros, não o é para Deus para quem o tempo nada é.
Eis, pois, um globo em formação, ou se quiseres todo formado; devem se passar ainda muitos séculos, ou milhares de séculos antes que seja habitável, mas enfim esse momento chega. Depois de modificações numerosas e sucessivas em sua superfície, ele começa a se cobrir pouco a pouco de vegetação; (falo da Terra, não pretendendo fazer, a menos que por analogia, a história dos outros astros, cujo objetivo é evidentemente o mesmo, mas cujas modificações físicas podem variar). Ao lado da vegetação aparece a vida animal, uma e outra em sua maior simplicidade, esses dois ramos do reino orgânico sendo necessários um ao outro, se fecundam mutuamente alimentando-se reciprocamente, elaborando, de acordo, a matéria inorgânica, para torná-la cada vez mais própria para a formação de seres cada vez mais perfeitos, até que ela tenha chegado ao ponto de produzir e alimentar o corpo que deve servir de habitação e de instrumento ao ser por excelência, quer dizer, ao ser intelectual que deve dele se servir, que o espera, por assim dizer, para se manifestar, e que não poderia se manifestar sem ele.
Eis-nos chegados ao homem! Como é formado? Aí não está ainda a questão; está formado segundo a grande lei da formação dos seres, eis tudo. Por não ser conhecida, essa lei não existe menos. Como se formaram os indivíduos de cada espécie de plantas? Os primeiros indivíduos de cada espécie de animais? Formaram-se cada um à sua maneira, segundo a mesma lei. Tudo o que há de certo é que Deus não teve necessidade de se transformar em fabricante de louça, nem de sujar as mãos na lama para formar o homem, nem de lhe arrancar um pedaço para fazer a mulher. Essa fábula, em aparência absurda e ridícula, pode bem ser uma figura engenhosa escondendo um sentido penetrável a espíritos mais perspicazes do que o meu; mas como disso não compreendo nada, me detenho aqui.
Eis, pois, o homem material habitando a Terra, e habitado ele mesmo por um ser imaterial do qual não é senão o instrumento. Incapaz de nada por si mesmo, como a matéria em geral, não se torna próprio para alguma coisa senão pela inteligência que o move; mas essa inteligência, ela mesma, criatura imperfeita como tudo o que é criatura, quer dizer, como tudo o que não é Deus, tem necessidade de se aperfeiçoar, é precisamente em vista desse aperfeiçoamento que o corpo lhe foi dado, uma vez que sem a matéria o Espírito não poderia se manifestar, nem conseqüentemente se melhorar, se esclarecer, progredir enfim.
A Humanidade, considerada coletivamente é comparada ao indivíduo; ignorante na infância, ela se esclarece à medida que avança em idade; o que se explica naturalmente pelo próprio estado de imperfeição em que estão os Espíritos para o adiantamento dos quais essa Humanidade foi feita; mas quanto ao Espírito considerado individualmente, não é numa só existência que ele pode adquirir a soma de progresso que está chamado a cumprir; é porque um maior ou menor número de existências corpóreas lhe são necessárias, segundo o uso que fará de cada uma delas. Mais ele terá trabalhado para o seu adiantamento em cada existência, menos terá que sofrê-las. E como cada existência corpórea é uma prova, uma expiação, um verdadeiro purgatório, tem interesse em progredir o mais prontamente possível, para ter a sofrer menos provas , porque o Espírito não retrograda; cada progresso cumprido por ele é uma conquista assegurada que nada poderia lhe tirar. Segundo este princípio, hoje averiguado, é evidente que quanto mais ele caminhar depressa, mais cedo chegará ao objetivo.
Resulta do que precede que cada um de nós, hoje, não está em sua primeira existência corpórea, muito longe disso, está mais distante ainda de sua última, porque as nossas existências primitivas deveram se passar em mundos bem inferiores à Terra, sobre a qual não chegamos senão quando o nosso Espírito chegou a um estado de perfeição em relação com este astro; do mesmo modo que, à medida que progredirmos, passaremos para mundos mais bem avançados do que a Terra sob todos os aspectos, e isso, de degrau em degrau, avançando sempre para o melhor. Mas, antes de deixar um globo, parece que se deve sofrer nele geralmente várias existências, cujo número, todavia, não é limitado, mas muito subordinado à soma do progresso que se terá adquirido.
Prevejo uma objeção que vejo sobre os teus lábios. Tudo isso, dir-me-ás, pode ser verdadeiro, mas como não me lembro de nada, e que ocorre o mesmo com cada um de nós, tudo o que se passou em nossas existências precedentes é para nós como nulo; e se ocorre o mesmo em cada existência, pouco importa ao meu Espírito ser imortal ou morrer com o corpo, se, conservando a sua individualidade, não tem consciência de sua identidade. Com efeito, isso seria para nós a mesma coisa, mas não ocorre assim; não perdemos a lembrança do passado senão durante a vida corpórea, para reencontrá-la na morte, quer dizer, no despertar do Espírito, cuja verdadeira existência é a do Espírito livre, e para a qual as existências corpóreas podem ser comparadas ao sono para o corpo.
Em que se tornam as almas dos mortos, esperando uma nova encarnação?
As que não deixam a Terra, permanecem errantes em sua superfície, vão onde lhes apraz, sem dúvida, ou pelo menos onde podem, segundo o seu grau de adiantamento, mas, em geral, pouco se distanciam dos vivos, e sobretudo daqueles a quem se afeiçoam, quando se afeiçoam com alguém, a menos que não lhe sejam impostos deveres a serem cumpridos alhures. Somos, pois, a cada instante, cercados de uma multidão de Espíritos conhecidos e desconhecidos, amigos e inimigos, que nos vêem, nos observam, nos ouvem; dos quais uns tomam parte em nossas penas como em nossas alegrias, enquanto outros sofrem com os nossos gozos, ou gozam com as nossas dores, e enquanto outros, enfim, são indiferentes a tudo, exatamente como isso se passa sobre a Terra entre os mortais, dos quais conservam, no outro mundo, as afeições, as antipatias, os vícios e as virtudes. A diferença é que os bons gozam na outra vida de uma felicidade desconhecida sobre a Terra, e isso se concebe: não tendo mais necessidades materiais a satisfazer, nem obstáculos do mesmo gênero a superar; se bem viveram, quer dizer, se não têm nada ou senão pouca coisa a se censurar em sua última existência corpórea, gozam em paz do testemunho de sua consciência e do bem que fizeram. Se viveram mal, se foram maus, como estão lá a descoberto, não podem mais se dissimular sob o seu envoltório material, sofrem da vergonha de se verem conhecidos, apreciados; sofrem da presença daqueles que ofenderam, desprezaram, oprimiram, e da impossibilidade em que estão de se furtar aos olhares de todos. Eles sofrem, enfim, do remorso que os rói, até que o arrependimento venha aliviá-los, o que ocorre cedo ou tarde, ou até que uma nova encarnação os subtraia, não da visão dos outros Espíritos, mas de sua
própria visão, em lhes tirando, momentaneamente, a consciência de sua identidade, e, perdendo, então, a lembrança do seu passado, são aliviados. Mas é então também que começa para eles uma nova prova; se têm a felicidade de dela saírem melhorados, gozam do progresso que fizeram; se não se melhoraram, reencontram os mesmos tormentos, até que, enfim, se arrependam ou aproveitem uma nova existência.
Há um outro gênero de sofrimento: daquele que experimentam os maus Espíritos, os mais perversos. Aqueles, inacessíveis à vergonha e ao remorso, não lhe sofrem o tormento; mas os seus sofrimentos são mais vivos ainda, porque, sempre levados ao mal e impotentes em fazê-lo, sofrem da inveja de ver os outros mais felizes ou melhores do que eles, e da raiva, ao mesmo tempo, de não poderem saciar os seus ódios e se entregarem a todos os seus maus pendores. Oh! Aqueles sofrem muito; mas, como te disse, eles não sofrerão senão o tempo que não se melhorem, ou, em outras palavras, até o dia em que se melhorem.
Freqüentemente, eles não prevêem esse fim; se são maus, se cegos pelo mal, que não suponham a existência ou a possibilidade da existência de um estado de coisas melhor, e não desconfiando, por conseqüência, de que os seus sofrimentos devem acabar um dia, é o que lhes endurece no mal e agrava os seus tormentos; mas, como não podem fugir sempre da sorte comum que Deus reserva a todas as suas criaturas, sem exceção, vem um momento em que lhe é necessário seguir, enfim, o caminho comum, e esse dia está, algumas vezes, mais próximo que não se seria tentado em crê-lo observando-se a sua perversidade. Viu-se os que se converteram de repente, e de repente os seus sofrimentos cessaram; entretanto, resta-lhes ainda rudes provas a sofrerem sobre a Terra em sua próxima encarnação; é necessário que se depurem expiando as suas faltas, e isso, em definitivo, não é senão justo; mas ao menos não têm mais medo de perderem o progresso adquirido, não podem retrogradar.
Eis, meu amigo, o mais sucintamente, e o mais claramente, que me foi possível fazê-lo, a exposição da filosofia do Espiritismo, tal, ao menos, como me foi possível fazê-lo em uma carta; dele encontrarás os desenvolvimentos mais completos, até este dia, e os mais satisfatórios em O Livro dos Espíritos, fonte onde eu mesmo hauri o que me fez o que sou.
Passemos agora à prática.

(O final no próximo número.)



endereço: Revista Espírita - jan/1861
imagem: novavidacaxias.com.br


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