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domingo, 1 de novembro de 2009

A TÊNUE FRONTEIRA



Renato Costa


Ramos da Ciência surgidos no Século XX permitem novo entendimento quanto à fronteira entre a Inteligência e o Instinto

O tema Inteligência e Instinto é desenvolvido na Codifi­cação, da Questão 71 à Questão 75 de O Livro dos Espíritos e, com mais detalhe, do item 11 ao item 19 do Capítulo III de A Gênese. Por falta de espaço em um artigo desta natureza, não transcreveremos as questões, as respostas dos Espíritos e o raciocínio do Codificador, nem teceremos comen­tários a eles. Uma clara compreensão de nosso trabalho, no entanto, não prescinde de tal estudo, motivo pelo qual incenti­vamos nosso amável leitor que não as deixe de estudar antes de prosseguir.

Como dissemos em nosso artigo de maio/2003, publi­cado nesta revista, o quadro atual de co­nhecimento no estudo do comportamento animal é fruto da maturação de duas abordagens científicas que surgiram nas décadas de 20 e 30 do século XX, quais sejam, respectiva­mente, a Psicologia Associativa e a Etologia. A primeira teve início nos EUA, com a participação de psicólogos e com enfoque nos comportamentos de exem­plares de animais testados em experi­mentos de laboratório, associando tais comportamentos a aprendizado. A se­gunda, na Europa, com a participação de zoólogos e com enfoque nos comporta­mentos espécie-específicos de exem­plares observados em seu habitat natural, associando tais comportamentos a instintos inatos ou herdados genetica­mente. Durante um certo tempo houve acirrado debate entre os estudiosos partidários das duas abordagens, debate esse que ficou conhecido em inglês como o "the nature x nurture controversy" (a controvérsia natureza x criação). Hoje em dia, no entanto, prevalece a noção de que o comportamento animal deva ser visto sempre segundo seus dois componentes, o instintivo e o aprendido, que aparecem, um e outro, em maior ou menor grau, conforme a circunstância que se apresenta.

Antes de prosseguirmos em nosso estudo, convém notarmos que nenhuma das duas abordagens ao estudo do comportamento animal que deram origem ao atual estágio de conhecimento cientí­fico havia ainda surgido por ocasião da Codificação. Em conseqüência desse fato, tudo o que vamos falar sobre comportamento animal daqui em diante são elementos de observação de que Allan Kardec não dispunha quando escreveu na Codificação sobre inteli­gência e instinto.

"Todo ato maquinal é instintivo... Ao ato instintivo falta o caráter do ato inteligente...” (GE lII, 12).

Os termos comportamento instin­tivo ou comportamento inato são usados para designar os comportamentos que os etologistas entendem como herdados e controlados geneticamente, o que nós, espíritas, entenderíamos como patri­mônio da alma. É caracterizado um comportamento instintivo quando animais de uma mesma espécie seguem todos a mesma seqüência de ações quando sob as mesmas condições ambientais. Comportamentos instintivos podem ser de três tipos: taxias, que são movimentos automáticos de um organismo, aproxi­mando-se de um estímulo ou se afas­tando dele, como ocorre com os cupins em relação à luz; reflexos, que são respostas involuntárias de um organismo frente a um estímulo, como o retrair da mão de um animal quando ela toca um objeto quente, e padrões Fixos de ação (PFA) ou ins­tintos propriamente ditos, que são padrões complexos de compor­tamento, porém, geral­mente, inflexíveis e que envolvem todo o corpo do animal, podendo necessitar de um estímulo externo para serem dispa­rados. Exemplos simples são casais de aves alimentando bocas abertas (não necessariamente filhotes), reação de medo a predadores e a resposta de fuga ou ataque de um animal frente à agressão. Um exemplo mais complexo são os mi­lhares de movimentos que uma aranha repete quase sem alteração cada vez que tece suas teias de aparência sempre igual.

O termo comportamento aprendido é usado para designar alterações no comportamento como resultado de ex­periências vividas. As modalidades existentes são as seguintes: estampagem, que é um comportamento que possui componente inato e aprendido e é adqui­rido em um período específico e limitado de tempo na vida do organismo. Patinhos recém-nascidos, por exemplo, identifi­carão como sua "mãe" (protetora) e se­melhante (outro indivíduo da espécie à qual pertencem) um objeto de razoável tamanho que se mova e emita sons, desde que este for a primeira coisa que vejam junto a si no momento em que nascem e por um breve período após. Daí em diante seguirão o objeto onde ele for. A estampagem persiste pela vida do indi­víduo. Esse comportamento se chama de estampagem porque equivale a uma estam­pa gravada para sempre no indivíduo. Somente espécies menos evoluídas estão sujeitas à estampagem; habituação, que é uma redução em uma resposta anteriormente apresentada quando nenhuma recompensa ou punição se segue. Se um barulho estranho for ou­vido por um cão de guarda ele entra em alerta. Se esse mesmo barulho voltar a ocorrer sistematicamente na mesma hora e nas mesmas circunstâncias, dentro de certo tempo o cão se habi­tuará ao barulho e não mais entrará em alerta devido a ele; condicionamento clássico, que consiste em associar uma resposta já existente a um estímulo novo ou substituto. É uma forma importante para alterar um Padrão Fixo de Ação (Instinto) de modo ao animal poder se adequar com mais precisão a circunstâncias ambientais. Se o dono de um cão soar um sino antes de servir a ração ao animal, este se condicionará a salivar toda vez que ouvir tocar um sino, pois terá condicionado a oferta de ração ao estímulo de ouvir o sino que, a princípio, nada tem a ver com alimentação; condi­cionamento instrumental ou aprendi­zado por tentativa e erro, que consiste em se modificar uma resposta preexis­tente a um estímulo ou criar novas respostas. Ocorre, por exemplo, quando o animal aprende quais comidas são saborosas e quais não são. Testes de laboratório comuns para avaliar a capacidade que um animal tem de aprender por ten­tativa e erro são labirintos que o animal deve percorrer para receber uma recom­pensa, usualmente uma comida de que gosta. Uma vez resolvido o labirinto o animal geralmente memoriza a solução e passa a ir direto até a meta, demons­trando que aprendeu uma seqüência lógica e visual, e aprendizado por "Insight" ou discriminação, que é um tipo de comportamento que, indubitavelmente, requer inteligência, pois o animal deve analisar a situação, examinar quais os elementos de que dispõe e criar uma solução inteiramente nova para atingir sua meta. Verifica-se quando, por exemplo, um chimpanzé faz uma pilha de engradados para usar como escada de modo a obter um prêmio em comida pendurado fora de seu alcance, sem nunca ter visto antes essa solução. Ou ainda, quando um corvo da Nova Caledônia dobra um pedaço de metal com seu bico para apanhar a co­mida no fundo de um tubo após ter observado um corvo maior ter se apos­sado do único pedaço curvado de metal que havia disponível e ter conseguido com o mesmo atender à mesma meta.

"A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados, de acordo com a oportu­nidade das circunstâncias". (GE III, 12)

Agora que conhecemos os termos corretos para identificar os diversos tipos de comportamento animal é importante sabermos que o comportamento animal em cada circunstância pode ser um casa­mento de vários desses tipos, cada um deles participando em maior ou menor grau.

"Aliás, é freqüente o instinto e a inteli­gência se revelarem simultaneamente no mesmo ato. (GE III, 13)

Quando um castor constrói uma barragem, por exemplo, assume-se que a solução de construir a barragem seja um padrão fixo de ação ou instinto. Está na memória genética de sua espécie, se­gundo os cientistas, ou na memória aní­mica da espécie, segundo uma visão espírita, que a construção de barragens é uma forma de garantir a formação de um lago da profundidade conveniente para que ele possa construir sua moradia ao abrigo dos predadores e possa ter uma reserva de alimentos acessível durante o in­verno, quando a superfície do lago está congelada. Entretanto, a constatação de se o lago precisa ou não ser aprofundado e a forma como irá construir a barragem, se necessária, assim como a escolha do material de que se irá uti­lizar para tal, são todos comportamentos apren­didos, parte por tentativa e erro, quando já age sozinho na fase adulta, mas parte, certamente, sob orientação de sua mãe quando mais novo.


Um outro exemplo além do castor é o das aves que constroem ninhos, sempre se adaptando aos mate­riais encontrados nos locais para onde se mudam e às características desses locais. A maioria das interações possíveis em determinado ambiente é por demais complexa para que instintos fixos delas se incumbam. A participação do compor­tamento aprendido, tanto na forma de tentativa e erro como na forma de apren­dizado por "insight", é, portanto, muito importante para animais que se deslocam de um para outro ambiente.


Ao contrário dos instintos, que são consolidados na espécie e passados entre as gerações, os comportamentos apren­didos requerem, para sua fixação, a manu­tenção por longos períodos das circuns­tâncias que os permitiram ou provocaram seu aparecimento. É desse modo que comunidades de determinada espécie que migraram há séculos de uma para outra região, vão, aos poucos, constituindo uma nova espécie, com instintos modi­ficados em função da adaptação às novas condições. A modificação de instintos a partir de comportamento aprendido, após a consolidação desse último, sugere, para os cientistas, que houve uma mudança genética na espécie e, para nós, espíritas, que mais um aprendizado foi adicionado ao seu patrimônio anímico.


Como vemos, a fronteira que separa a inteligência do instinto é bastante tênue. Não só porque vários comportamentos que eram tidos como instintivos hoje são ditos inteligentes, como pelo fato, constatado pelos estudiosos, de que os comportamentos aprendidos por tenta­tiva e erro e por "insight", que requerem inteligência para ocorrer, podem, ao cabo de várias gerações, ser consolidados como instintos. O instinto, portanto, ou, pelo menos, a parte dele conquistada após a definição da individualidade, pode ser visto como uma espécie de inteli­gência fóssil enterrada nas profundas camadas da mente .



Comentários de Kardec*

A inteligência é uma faculdade especial, peculiar a algumas classes de seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem suas necessidades.

O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteli­gência propriamente dita, em que suas manifestações são quase sempre espontâneas, ao passo que as da inteligência resultam de uma combinação e de um ato deliberado. O instinto varia em suas manifestações, conforme as espécies e as suas necessidades. Nos seres que têm a consciência e a percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, isto é, à vontade e à liberdade.

*Constantes das questões 71 e 75 de O Livro dos Espíritos (80' edição da FEB, tradução de Guillon Ribeiro, Rio de Janeiro, agosto/98). Sugerimos ainda consulta ao livro A Gênese, conforme indicado pelo autor nesta matéria.



Bibliografia

Cardoso, Silvia Helena, PhD e Sabbatini, Renato M. E., PhD. Aprendendo quem é a sua Mãe - O comportamento de Imprin­ting. Obtido em março de 2003 de http:// www.epub.org.brlcm/n 14/experimento/ lorenz/index-lorenz_p.htmI.

Animal Behavior, Chapter 20. Obtido em março de 2003, de http://clab.cecil.cc.md.us/ facu lty/bio/ogy1 /behavior.htm.

Beaver. Canadian Wildlife Service Hinterland Who's Who. Obtido em junho de 2003, de http://www.cws-scf.ec.gc.ca
Costa, Renato. Os Diversos Caminhos da Evolução Anímica. In Revista Interna­cional do Espiritismo, Maio de 2003.

Domestic Animal Behavior. Obtido, em março de 2003, de http://asci.uvm.edu/ course/asci001 /behavior. html.

Swanson David, Dr. Behavior. Obtido, em março de 2003, de http://www.usd.edu/ bol/faculty/swa nson/orn ith/lec16. htm.

Innate Behavior. Obtido, em março de 2003, de http://users.rcn.com/ j kim ba 11. ma. ultra ne t/BilogyPa ges/1 / InnateBehavior.html.

Kardec, AIlan. O Livro dos Espíritos. FEB, 76 ed., 1995.

---' __ o A Gênese. FEB, 36 ed, 1995. Kohler's Work on Insight Behavior.

Animal Cognition Home Page. Obtido, em março de 2003, de http:// www.piegon.psy.tufts.edu/psych26/ hohler.htm.

Nota:O autor é engenheiro e expositor espírita no Rio de Janeiro


Revista Internacional de Espiritismo - Dezembro de 2003


endereço: http://www.panoramaespirita.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=7656
imagem: matorres.com.br



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

MEDITAÇÕES ACERCA DA INTELIGÊNCIA


Hermínio C. Miranda

Ninguém diria com maior autoridade que o próprio Kardec que o Espiritismo é doutrina essencialmente evolutiva, o que significa dizer que não nos foi trazida inteira acebada, cristalizada e dogmática. O Espiritismo é um corpo vivo de pensamento e, como tal, suscetível de desdobramentos cujos limites não temos condições de alcançar ou prever. É preciso observar bem, no entanto, onde e quando, como e porque devemos e podemos trabalhar as suas inúmeras sínteses a fim de que, movidos pela intenção de desenvolver certos aspectos doutrinários, não cometamos o desacerto de deformá-los irreparavelmente. E isto é fácil de ilustrar, quando nos lembramos de que toda a complexa teologia moderna cita cristã não é mais do que o “desdobramento” dos simples e luminoso conceitos evangélicos formulados pelo Cristo. Como foi possível partir de afirmativas como “... não busco minha vontade e sim a vontade daquele que me enviou”, para chegar-se, por exemplo, à formulação da divindade de Jesus? Por onde entrou, nessa teologia, o dogma do pecado original? Como nasceu a doutrina das penas eternas? Ou o conceito de uma só existência para o ser humano, com um julgamento final e irrecorrível?

Enfim, os exemplos poderiam ser multiplicados, se a finalidade aqui não fosse apenas a de ilustrar uma idéia, ou seja, a diretiva de que os comentaristas da Doutrina Espírita precisam manter um elevado padrão de lucidez e de humildade intelectual para não contaminarem o Espiritismo com os seus preconceitos e não o retransmitirem sob uma ótica que, em lugar de ampliar determinados aspectos, o deformem grotescamente, a ponto de torná-lo irreconhecível. A Doutrina não é um cadáver sobre o qual poderemos, à vontade, realizar nossas experimentações mutiladoras, nem um aparelho, ao qual possamos substituir peças e adaptar a outras finalidades. Repitamos: é um organismo vivo e dever ser tratado como tal, ou seja, com todos os cuidados necessários e com o máximo respeito que toda manifestação de vida deve merecer-nos.

Não obstante, o Espiritismo não rejeita aqueles que se aproximam dele com o respeito a que acima nos referimos, dispostos a desdobrar aspectos que ainda lá estão em síntese, à espera dos trabalhadores qualificados que, por certo, andam por aí e ainda virão. É o caso da mediunidade, por exemplo, para citar apenas um entre muitos aspectos. Os estudos sobre essa faculdade começaram ainda com o próprio Kardec, em “O Livro dos Médiuns”, continuaram nas notáveis obras de Gabriel Delanne. Aksakof, Lombroso e tantos outros e, ainda em nossos dias, prosseguem em novos desdobramentos, com André Luiz. E estamos longe de veros limites do território e explorar, pois os seus contornos escapam à nossa percepção. Mas, que em todos esses cometimentos não percamos de vista os parâmetros de eferição e os marcos implantados nas obras básicas, a fim de que não percamos pelos domínios da fantasia ou do personalismo doutrinário, que fraccionaria o Espiritismo em ramos e seitas que muito teríamos a no futuro. Em suma: na frase felicíssima do confrade Jorge Andréa: é preciso dinamizar Kardec, não dinamitar Kardec.

Ainda há pouco, aqui mesmo em “Obreiros do Bem” (artigo sob o título “Centenário de uma Frase”, junho de 1976) propunhamos a formulação de modelos espíritas para a sociedade futura, em vez de nos demorarmos indefinidamente pelos caminhos, a tentar convencer da realidade do Espírito aqueles que não desejam ainda ser convencidos. Dizíamos, então, que não vemos muito sentido nesse esforço gigantesco de acumular provas que, de certa forma, não servem nem a nós, os que não mais precisamos elas, nem àqueles que não as desejam aceitar, porque se obstinam em defender suas fortalezas de opereta de ceticismo estéril.

Tentemos, porém, ser mais específicos quando mencionamos os tais modelos ou matrizes, pois é necessário, desde logo, relembrar um princípio inarredável em qualquer dessas inúmeras possibilidades de ampliação e aplicação dos conceitos doutrinários: O Espiritismo não é um movimento arregimentador de massas, nem se presta a servir de base para militâncias políticas de qualquer colaboração ou tendência. Sua filosofia de ação é aquela que se dirige ao homem, ou melhor, ao Espírito imortal reencarnado, pois entende que, como soma dos indivíduos, a sociedade não poderá, jamais ser melhor do que os seus componentes. Os cemitérios da História estão cheios de doutrinas que alimentaram a ilusão de arrumar a sociedade de baixo para cima, ou seja, cuidando do ser coletivo, quando o trabalho precisa ser feito no indivíduo, por meio do despertamento para a sua realidade espiritual interior. Somos Espíritos e não unidades de produção, votos, consumidores, massa de manobra, enfim.

Sejamos ainda mais específicos, na descida cautelosa aos pormenores, ao particular.

O capítulo quarto do “O Livro dos Espíritos”, ao referir-se à questão do princípio vital, cuida dos aspectos subsidiários dos conceitos de inteligência e instinto. (Questões 71 a 75, páginas 78 e 79 da 34ª edição da FEB). O que Kardec considerou prudente perguntar e o que os Espíritos decidiram suficiente ensinar na época está, pois resumido em apenas 5 questões. É óbvio que isto não esgota a temática suscitada, nem era esse o objetivo dos elaboradores da Doutrina. Quantas sugestões preciosas, no entanto, partem daqueles discretos comentários! A que amplos desdobramentos não se prestam as sínteses propostas pelos Espíritos e as observações adicionais de Kardec!

Desejava o Codificador saber se inteligência a matéria são independentes, “porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la”. (1) A fonte da inteligência é a inteligência universal, sendo, no entanto, “faculdade própria de cada ser, e constitui sua individualidade moral”. Advertiram, porém, neste ponto, que havia limites por aí, além dos quais o homem não poderia seguir, por enquanto.

Será que o instinto dependeria da inteligência? - desejou saber Kardec.

- “Precisamente, não, - respondem os Espíritos - por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio. Por ele é que todos os seres provêem às suas necessidades”.

Instinto e inteligência acham-se tão intimamente ligados que muitas vezes se confundem. A força diretora do instinto é tão preciosa que os Espíritos acrescentaram que também ele “pode conduzir ao bem”. E mais ainda:

- “Ele quase sempre nos guia e algumas vezes com mais segurança do que a razão. Nunca se transvia”. (Os destaques são meus, evidentemente).

Ante o inusitado do ensinamento, Kardec desejou saber por que nem sempre a razão é guia infalível.

- “Seria infalível - respondem seus amigos invisíveis - se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o livre-arbítrio.

Aí está, pois, em apenas duas páginas, um mundo fascinante de sugestões para futura especulação.

Que interessante definição, por exemplo, essa de que o instinto é uma inteligência sem raciocínio, que funciona como instrumento através do qual os seres vivos atendem às suas necessidades. Podemos lembrar aqui as recentes e curiosas experiências do Prof. Bakster com as plantas, que confirmam com notável precisão os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos há mais de um século. O instinto, que ele foi descobrir nas plantas, por meio de seus sensíveis aparelhos, é exatamente isso: uma inteligência sem raciocínio a serviço da integridade da planta. Que necessidade seria mais essencial do que a da conservação? As plantas reagem nitidamente tento às vibrações de afeto com as de ódio; àquele que cuida delas ou que procura destruí-las, informa da sua alegria ao serem confortadas, com um pouco de água ou da sua apreensão ao sentirem-se em terreno ressecado. Dentro do seu limitado círculo de recursos instintivos, a planta age realmente com inteligência, ainda que desprovida de razão, pois que, se a tivesse, disporia também de livre-arbítrio, como também ensinaram os Espíritos. A razão começa junto com a consciência de si mesmo, o que nem plantas nem animais possuem.

A reflexão nos levará a inferir que o instinto é a pré-história da inteligência racional e, por isso, tem que ser mais seguro na sua direção do que a fase subseqüente. Ainda sem dispor de razão, o ser vivo não pode errar, porque não teria como corrigir o erro. Por isso os Espíritos disseram que o instinto nunca se transvia. Nunca é uma expressão de tremenda força. A possibilidade de transviamento começa, pois, quando surge a razão que nos proporciona o livre arbítrio, ou seja, a capacidade de decidir entre duas ou mais alternativas. Por outro lado, novo aspecto digno de profundas meditações é o de que a razão seria orientadora infalível dos nossos atos, se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo”.

E, assim, com esta razão falseada que as inteligências transviadas montam complexas estruturas filosóficas, aparentemente muito racionais, mas totalmente falsas, porque a razão que lhes serviu de modelo estava contaminada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo.

Lembremos aqui à razão absoluta, purificada, é que se referia Kardec ao recomendar que a fé teria que, também ela, submeter-se, e isto é tão verdadeiro que vemos variedades espúrias de fé. Paixão e razão que se misturam. A razão é fria porque neutra, embora não insensível.

Mas, nestas reflexões, por mais atraentes que sejam, nos afastamos um pouco do nosso tema. Ou não?

Retomemos o conceito de inteligência e experimentemos projetá-lo um pouco mais longe. Após os ensinamentos trazidos pelos Espíritos a Kardec, como se desenvolveu no meio científico a especulação em torno da inteligência? Que é inteligência em termos de ciência?

Uma pesquisa histórica revela que a palavra em ai foi utilizada pela primeira vez por Cícero, ao transpor a expressão dia-noesis, criada por Aristóteles, sendo útil aqui lembrar que noesis é entendimento, compreendido.

A incipiente psicologia escolástica medieval, derivada, em grande parte, dos conceitos aristotélicos, acabou cristalizando a “definição”, se assim podemos chamá-la, de que inteligência era a qualidade abstrata comum e característica dos processos intelectuais. Isso, como se vê, corresponde a declarar que a água é molhada, mas, enfim, tal era a escolástica...

Com a decadência dessa corrente filosófica, o termo entrou em desuso e só foi retomado por Herbert Spencer, já no século 19, que, no entanto, deu-lhe uma interpretação meramente biológica, ou seja, materialista e que praticamente perdura até hoje. Sem poder explicá-la em termos precisos, e desapoiado de qualquer suporte espiritualista, Spencer achava que a inteligência explicava-se pela presença dos pais na formação do ser, o que vale dizer que ele apenas transferia o problema para a geração anterior e o desta para a imediatamente anterior e assim por diante, sem chegar às raízes da questão.

Seja como for , as especulações de Spencer permitiram conceituar psicologicamente a inteligência como capacidade de resolver, com êxito, situações novas, entendimento aceitável que, ao que eu saiba, prevalece até hoje.

Inegavelmente, porém, as pesquisas em torno da inteligência ainda não se libertaram das amarras e das vendas materialistas, e ao campo da ciência ortodoxa não chegou ainda a iluminação que se irradia a partir das informações colhidas no mundo espiritual, nem das eu decorrem de todo o acervo de fatos documentados pelos investigadores da fenomenologia espírita.

Ainda se pensa que inteligência é uma questão basicamente genética colorida por influências mesológicas, ou seja, hereditária e desenvolvida sob forte pressão do meio ambiente. Para sermos justos, é preciso reconhecer que alguma influência realmente exercem a hereditariedade e o meio, mas não tanto quanto julgam os cientistas acadêmicos, e não propriamente sobre a inteligência em si, mas sobre suas manifestações.

Vamos tentar compreender melhor isso. Um casal de criaturas marcadas pela debilidade mental pode gerar uma criança também prejudicada mentalmente mas isso não significa que este novo ser seja espiritualmente um débil mental. Na verdade, pode ser um gênio que apenas não conseguiu criar no corpo físico, em gestação sob condições tão adversas, um instrumento adequado de manifestação de seu potencial. Não são raros, porém, os casos de filhos altamente inteligentes nascidos de pais deficientes. A recíproca também é válida: pais inteligentes gerando filhos retardados.

Por outro lado, o ambiente em que se desenvolve a criança exerce sobre sua inteligência uma influência que não pode ser desprezada, mas não deve ser exagerada, porque sob as condições mais hostis podem desenvolver-se inteligências brilhantes.

Isso tudo tem demonstrado à saciedade que a inteligência não é um fator basicamente genético ou mesológico, mas uma faculdade do Espírito preexistente, que traz para a sua nova existência os recursos intelectuais que já tenha conseguido desenvolver no passado, dentro, porém, das condicionantes criadas pelo seu comportamento moral, ou seja, pelo bom ou mau uso que deu à sua inteligência.

Voltemos, por um instante, ao ensinamento dos Espíritos.

- ... “a inteligência - dizem eles, em resposta à pergunta 72 - é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral”.

Não é exatamente isso o que provam as observações? Ou seja, que cada ser se encontra no estágio que lhe é próprio de desenvolvimento intelectual e que o uso da inteligência tem nítidas e inelutáveis implicações morais? Confere, portanto, mais este aspecto.

Enquanto isso, no entanto, os cientistas desligados das correntes espiritualistas continuam a pesquisar as razões das dessemelhanças intelectuais entre gêmeos, partindo do pressuposto de que, gerados simultaneamente, teriam de ser pelo menos semelhantes em inteligência, senão idênticos, o que está longe de ser verdadeira pois cada um deles é um Espírito diferente, em diferente estágio evolutivo.

Vejamos, porém, um pouco mais além, já que falamos em estágio evolutivo.

Ao que indica a observação apoiada no conhecimento espiritual, a inteligência é a resultante do conhecimento acumulado ao longo dos milênios e das inúmeras encarnações. (2) Não somos inteligentes por causa de uma combinação genética particularmente feliz, ou porque nos desenvolvemos em ambiente adequado, mas porque, no passado, já nos habituamos a manipulação e apropriação do conhecimento, através do estudo e do aprendizado. As noções que adquirimos, as experiências porque passamos, as coisas que descobrimos incorporam-se à nossa memória, cujos registros básicos se encontram no perispírito, e, embora armazenadas na zona crespuscular do chamado inconsciente, estão ali, à nossa disposição. Quanto mais conhecimento tenhamos adquirido no passado, mais fácil se torna “resolver com êxito situações novas”, porque temos um banco de dados mais vasto, contra o qual confrontamos analogicamente os fatos novos, as novas proposições, os novos aprendizados. É sempre mais fácil construir em cima do alicerce já consolidado.

Seria interessante, por exemplo, desdobrar ainda mais este aspecto para examinar o papel que desempenha nisso tudo a memória, ou, ainda, a intuição, mas seria ir muito longe num artiguete como este, que pretende apenas levantar questões para estudo, sem a tola pretensão de resolvê-la.

Há, também, por aqui, analogias notáveis com a cibernética, pois os computadores modernos não passam de cérebros artificiais, ainda muito primitivos e limitados em comparação com o cérebro humano. São meros bancos de dados que decidem entre duas opções, segundo um programa preestabelecido e de acordo com o acervo de informações que têm armazenado em suas memórias. É claro que não desejamos dizer que o computador seja inteligente, nem que tenha instinto, mas é certo que se utiliza de um dos dispositivos da inteligência humana, isto é, a memória.

Fiquemos aqui mesmo, para concluir.

Creio ter conseguido evidenciar, com estas reflexões, o que se costuma ter em mente ao se dizer que inúmeros conceitos formulados pelos Espíritos dentro da Codificação estão à espera de desdobramento e aplicação, sem, no entanto, mutilar a Doutrina. Esse desdobramento, no correr do tempo, há de deslocar, rearrumar e tornar obsoletos muitos dos mais caros conceitos da ciência moderna, não apenas na Psicologia, mas em todos os ramos do conhecimento, naquilo que concerne ao ser humano, como unidade social. É justo admitir, no entanto, que muitas das noções catalogadas pela ciência, serão aproveitadas e iluminadas sob um novo ângulo, com uma nova luz e acabarão por oferecer uma visão nítida do homem e do mundo que o cerca, objetivo multimilenar da especulação humana.

Que estamos esperando? Onde estão os pensadores espíritas? Os psicólogos, sociólogos, biólogos, médicos, enfim, os artífices espiritualizados e evangelizados da sociedade futura? Os temas aí estão, e a Ciência aguarda aqueles que irão conciliar conhecimento e moral, razão e fé, o homem e Deus.

(2) Relembremos o sentido da expressão noesis escolhida por Aristóteles e que quer dizer conhecimento.

(Obreiros do Bem - Agosto de 1976)


endereço: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/evolucao/meditacoes.html

imagem: www.chuvinhanocerebro.blogger.com.br


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