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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FILOSOFIA DA CIÊNCIA ESPÍRITA – IV - O ESPIRITISMO


Matheus Artioli Firmino


Kardec, o Galileu da Religião

No século XIX, como foi discutido no estudo anterior (Outubro), havia um movimento cultural bem definido. A Filosofia estabelecera-se como o ramo da reflexão humana, buscando as conseqüências dos fenômenos e, por análises sucessivas, remontar às causas. A Ciência tinha surgido inicialmente com Galileu ao propor um método de observações, repetições e, acima de tudo, interpretação matemática dos fenômenos. Mais tarde, muitos pensadores, "cientifizaram" diversas áreas do conhecimento, tornando-as de interpretação quantitativa. O Positivismo, uma corrente filosófica do século XIX, mostrara-se como uma "crença" de que todos os problemas humanos (sociais e morais) podem ser resolvidos apenas pela ciência e que as religiões, ainda grosseiramente não-racionais, deveria abandonar sua função consoladora para as ciências.

Os positivistas, porém, em sua maioria, eram bastante orgulhosos para mudar radicalmente seu padrão de idéias (paradigmas). Mas algo, no século XIX, abalou todos pilares conceituais da Ciência. Em 1848, enquanto a Europa estava em guerras nacionalistas internas, os Estados Unidos da América estavam em euforia. Nesse ano, foi descoberto ouro na Califórnia, acentuando o movimento migratório de pessoas de diversas áreas para o Oeste, além da imigração de estrangeiros. A família metodista Fox, John D. Fox (pai), Margareth (mãe), descolando-se do Canadá, mudara-se para a cidade de Hydisville, em busca de prosperidade. Ficaram em uma casa conhecidamente "mal-assombrada" pelos moradores locais. Pancadas e ruídos nos móveis, movimentos espontâneos de objetos, arremessos, tremores e trepidações eram freqüentes pela casa. Então, em 1848, as filhas do casal citado, as irmãs Margareth e Catherine, "desafiaram" a causa da perturbação, travando um diálogo codificado pelas pancadas. O inteligência identificando-se concordou em reproduzir suas pancadas em público. Mais tarde, toda a sociedade pensante nos Estados Unidos estavam investigando o fenômeno.

Alguns europeus interessados, mesmo sem presenciar o fenômeno, negaram a explicação oriunda da América de que as almas dos mortos eram a causa dos movimentos inteligentes espontâneos. Tentaram reproduzir o "espetáculo" da América com sucesso. Irradiando da França e da Alemanha, o estranho fato das "mesas girantes" ou "dança das mesas" tornou-se uma "febre" nos salões da Europa. Entreteve, por algum tempo, a curiosidade dos frívolos, até estes descobrirem outra moda. Contudo, as demonstrações desafiavam profundamente os positivistas. Como um corpo pesado poderia mover-se de tal forma, sem sequer alguém tocá-lo? Como soar batidas de dentro do móvel quando não há suspeita de fraude alguma? Como conceber pancadas combinando-se e produzindo respostas inteligentes, estranhas, desconhecidas e contraditória às idéias dos pesquisadores? Como aceitar que um corpo sólido atravessa outro? Como acreditar em aparições tangíveis de pessoas mortas formadas por "concentrações" de uma substância fluídica secretada de determinadas pessoas? E, o que mais confundia a negação dos positivistas, era a reprodução desses fenômenos diversos em diferentes lares e instituições, de diferentes países, de diferentes continentes, sob a sombra do Positivismo e da Ciência do século XIX racionalista.

Muitas explicações superficiais semi-racionais foram formuladas para negar a imortalidade da alma e a comunicação dos mortos, mas todas elas falharam e desapareceram devido a contradições intrínsecas e por não explicarem todos os fatos (ver O Livro dos Médiuns, item 36 e seguintes). Mesmo assim, até hoje, em pleno século XXI, materialistas, orgulhosos, pseudo-sábios "homens da ciência", amedrontados diante da inegável imortalidade da alma, reforçam que a comunicação com desencarnados, tão comum em todos os tempos, seria um fato maravilhoso e sobrenatural, por afastarem-se das leis naturais. Dessa forma, estamos ansiosos para que nos contem quais são elas, já que nós, pelo menos, não conhecemos todas as leis do Universo. Pelo contrário, houve um pensador no século XIX, no meio da explosão fenomênica exposta, disposto a estudá-la racionalmente, cientificamente (interpretações matemáticas), sem idéias pré-concebidas.

O professor pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), natural da França, Lyon e de formação acadêmica em Yverdun, Suíça, com o célebre professor Pestalozzi, discípulo de Jean Jacques Rousseau, fazia parte da comunidade pensante de Paris, participando ativamente de diversos institutos científicos, notadamente da Academia Real d’Arras. Tendo conhecimento do fenômeno, longe de ser um entusiasta dessas manifestações e absorvido por outras preocupações, esteve a ponto de as abandonar, o que talvez tivesse feito se não fossem as solicitações dos Srs. Carlotti, René Taillandier, membro da Academia das Ciências, Tiedeman-Manthèse, Sardou, pai e filho, e Diddier, editor. Entretanto, o convite do Sr. Pâtier, seu amigo sério e objetivo, levou-o a conhecer, em 1855, as mesas responderem inteligentemente a perguntas formuladas na casa da Sra. Plainemaison, às terças-feiras, à noite. Anota o professor:

"Foi aí, pela primeira vez, que testemunhei o fenômeno das mesas girantes, que saltavam e corriam, e isso em condições tais que a dúvida não era possível.

"Aí vi também alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma ardósia com o auxílio de uma cesta. Minhas idéias estavam longe de se haver modificado, mas naquilo havia um fato que devia ter uma causa. Entrevi, sob essas aparentes futilidades e a espécie de divertimento que com esses fenômenos se fazia, alguma coisa de sério e como que a revelação de uma nova lei, que a mim mesmo prometi aprofundar.(...)"

Uma das primeiras observações e conclusões do emérito enciclopedista prof. Rivail foi a necessidade da presença de determinadas pessoas ("sensitivos") para facilitarem e intensificarem qualquer dos tipos de manifestações. Quanto à causa dos fenômenos:

"Apliquei a essa nova ciência, como até então o tinha feito, o método da experimentação; nunca formulei teorias preconcebidas; observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas pela dedução, pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo como válida uma explicação, senão quando ela podia resolver todas as dificuldades da questão.(...)

"Entrevi nesses fenômenos a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro, a solução do que havia procurado toda a minha vida; era, em uma palavra, uma completa revolução nas idéias e nas crenças; preciso, portanto, se fazia agir com circunspeção e não levianamente, ser positivista e não idealista, para me não deixar arrastar pelas ilusões."

E, desse modo, rejeitou a hipótese causal puramente material e espontânea, a hipótese dos gases invisíveis. "Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente". Pelas observações ficou claro a presença viva de inteligências invisíveis (algumas vezes bem visíveis) independentes (Espíritos). Os materiais e métodos eram inicialmente baseados nas pancadas das mesas. A seguir, adaptou-se um lápis em uma mesa em miniatura para facilitar a escrita. Trocaram-se as mesinhas por cestinhas, pranchetas e, mais tarde, notou-se que esses instrumentos eram apenas apêndices dos sensitivos e estes poderiam escrever mecanicamente com a própria mão, servindo de instrumento dos desencarnados.

Aplicando os métodos científicos tradicionais postulados por Galileu (vistos no estudo anterior), o Prof. Rivail "cientifizou" mais um ramo do conhecimento humano, até agora de domínio religioso. Os sensitivos, agora denominadas médiuns (intermediários), longe de serem pessoas predestinadas, endemoniadas, santificadas ou privilegiadas, são pessoas absolutamente normais. A interpretação quantitativa do problema é elegantemente simples: a mediunidade é uma faculdade humana orgânica, neurofisiológica, que possibilita a percepção de Espíritos (desencarnados). Todos temos essa faculdade conhecida de todos os tempos, mas ela varia quantitativamente na população humana por fatores genéticos, ambientais e culturais, de modo que somos todos mais ou menos médiuns, variando apenas em graus, e não em qualidade. Apenas pelo costume, chamam-se médiuns aqueles que expressam a faculdade por manifestações nas quais a comunicação dos Espíritos é mais claramente perceptível. A mediunidade, como objeto de estudos dessa nova Ciência, serviu de base para o Espiritismo, neologismo criado pelo Prof. Rivail para "A ciência que estuda a natureza, a origem e o destino dos Espíritos, bem como as suas relações com a matéria" (ver O que é o Espiritismo?). Reflete o pedagogo:

"Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os Espíritos, não sendo senão as almas dos homens, não tinham nem a soberana sabedoria, nem a soberana ciência; que o seu saber era limitado ao grau do seu adiantamento, e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. Esta verdade, reconhecida desde o começo, evitou-me o grave escolho de crer na sua infalibilidade e preservou-me de formular teorias prematuras sobre a opinião de um só ou de alguns."

E essa é a diferença fundamental entre as religiões tradicionais e essa nova Ciência. Se recordarmos o processo histórico-cultural da formação das religiões, todas elas dependeram da comunicações com os mortos (estudo de Julho). Porém, usava-se o método da submissão à revelação dos Espíritos e os médiuns eram considerados enviados dos deuses para a salvação da humanidade ou, se a mensagem dos Espíritos desagradava o poder terreno, os médiuns eram massacrados por serem enviados dos demônios. O positivista Prof. Rivail, como se vê, tem outra opinião, adotando uma postura absolutamente natural: "Eu, pois, agi com os Espíritos como teria feito com os homens: eles foram, para mim, desde o menor até o mais elevado, meios de colher informações e não reveladores predestinados."

De fato, para a formulação dos ensaios, das leis e teorias da Ciência Espírita presente em O Livro dos Médiuns, houve uma equipe de cientistas composta de encarnados e desencarnados pesquisadores, chefiados pelo Prof. Rivail. Um desencarnado, denominando-se sr. Z., informa-lhe que o conhecia o conhecia em outra encanação, nas Gálias, época quando o professor chamava-se Allan Kardec. Muitos outros Espíritos ajudavam ativamente Kardec, dentre eles, São Luís.

As primeiras hipóteses para explicar como os desencarnados podem fazer as mesas dançarem foram exemplos expressivos dessa parceria científica. Kardec e colaboradores encarnados sugeriram que os desencarnados agissem mecanicamente sobre a matéria. Já que o corpo fluídico perispírito é semi-material e pode tornar-se tangível, é razoável pensar que eles próprios empurrassem as mesas com as mãos. Porém, qual seria, então, o papel dos médiuns? Os desencarnados apresentaram uma teoria completamente diferente, muito mais simples e explicativa (ver O Livro dos Médiuns, item 72 e seguintes), aceita por Kardec por ser mais racional. No entanto, houve vários casos em que comentários de desencarnados "de renome" foram rejeitados. O Espírito Lázaro, muito conhecido no Espiritismo por sua explicação sobre a sublimação dos instintos, sensações e sentimentos em Amor, escreveu comunicações contestáveis (ver Revista Espírita, 1862) a respeito do mesmo assunto.

E essa parceria desdobrou-se numa nova Ciência. Porém, era impossível conceber a novidade apenas pela ciência material mais grosseira. Uma vez que esses estudos criaram um método controlado de conversar com desencarnados, foi aberto um novo campo para reflexões profundamente filosóficas, com o potencial de responder perguntas fundamentais da criatura humana. Relata o codificador:

"Só o fato da comunicação com os Espíritos, o que quer que eles pudessem dizer, provava a existência de um mundo invisível ambiente; era já um ponto capital, um imenso campo franqueado às nossas explorações, a chave de uma multidão de fenômenos inexplicados. O segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado desse mundo e seus costumes, se assim nos podemos exprimir. Cedo, observei que cada Espírito, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, desvendava-me uma fase desse mundo, exatamente como se chega a conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e condições, podendo cada qual nos ensinar alguma coisa e nenhum deles podendo, individualmente, ensinar-nos tudo. Cumpre ao observador formar o conjunto, com o auxílio dos documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e confrontados entre si."

Essas reflexões reunidas tornaram-se um corpo de doutrina filosófica baseada em princípios fundamentais da agora chamada Filosofia Espírita:

Existência de Deus: por deduções óbvias e axiomáticas, conclui-se a existência de uma causa primária de todas as coisas, com atributos infinitos em perfeição;
Imortalidade da alma: o novo método, como se disse, leva a esse corolário; filosoficamente, um Criador perfeito não governaria sobre carnes perecíveis;
Comunicabilidade dos Espíritos: é o próprio método de base; refletindo, Deus oferece essa oportunidade às criaturas com ou sem invólucro carnal;
Pluralidade das existências: além de haver evidências científicas, a reencarnação é conseqüência da Justiça infinita do Criador;
Pluralidade dos mundos habitados: também cientificamente indicado e é explicação única para a evolução do Espírito imortal e utilidade dos astros.
Inevitavelmente, como se poderia esperar, essas análises filosóficas conduziram o pensamento a posturas éticas da conduta humana. A dedução mais óbvia é a mudança de hábitos que tinham um embasamento racional dos materialistas. Diante da imortalidade e do entendimento melhor do Criador, formou-se uma atitude de religar a criatura ao Criador, justamente pela mudança ética e íntima do comportamento. A "Religião Espírita" como se caracteriza nesse momento, é o resultado, portanto, da transformação moral, porém interior, em busca da consciência universal de criatura imortal. Na prática, isso significa o reconhecimento da possibilidade de abandonar os rituais exteriores há muito ensinados, a concretização de uma fé racional "que enfrenta face a face a razão em todos os momentos da humanidade", e, no desenvolvimento intelecto-moral da criatura, a síntese de todas os deveres humanos na prática da Caridade. Não é curioso, desse modo, que a esmagadora maioria de todos os Espíritos comunicantes de todos os tempos, os do século XIX, do século XX, de hoje e de sempre, identificam-se como embaixadores de Cristo entre os homens. Perante esse horizonte agora candidamente percebido, nunca ficou tão claro a moral e os ensinos de Jesus e seu Evangelho como roteiro ideal na estrada do progresso espiritual.

O Espiritismo é, assim, resultado da ruptura da pedra sepulcral espalhando a Verdade pura. Articula-se como uma Religião racional eminentemente libertadora e consoladora com a proposta de restabelecer os ensinamentos do Cristo em bases fortes de uma nova ciência rigorosa e de uma doutrina filosófica amplamente esclarecedora das dúvidas e angústias humanas. Essa integração abrange qualquer cultura humana por desvendar a nossa origem, destino e natureza, bem como nossa relação com a matéria.


Referências bibliográficas:

Kardec, Allan (1999) A Gênese, 19a Edição. LAKE. Cap. I, III e XI.
Kardec, Allan (1999) O Livro dos Médiuns, 21a Edição. LAKE.
Kardec, Allan (1862) Revista Espírita.
Sausse, Henri. Biografia de Allan Kardec
Novembro / 2001



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domingo, 29 de agosto de 2010

FILOSOFIA DA CIÊNCIA ESPÍRITA – III - CIÊNCIA


Matheus Artioli Firmino

Continuando nossa análise sobre a construção do conhecimento, devemos lembrar que a primeira grande busca do ser humano foi em torno do sobrenatural, com conotações não racionais, desenvolvendo as religiões, que, de modo geral, eram atreladas ao Estado não permitindo ao indivíduo pensar livremente. Daí aparecerem desafiadores propondo um método reflexivo dependente apenas do ser. Através dele (especulum), o filósofo (amigo do saber) pode criar a própria explicação de um fenômeno, agora sempre natural. Porém vimos os " filósofos " da Escolástica no final da Idade Média usando o método aristotélico de forma viciosa, chegando ao ponto de não haver observações da Natureza, mas apenas a leitura dos livros de Aristóteles. Essa forma escolástica, ainda que racional, não é progressivo e paralisa o progresso.

Ao contrário do que muitos pensam, a aquisição do conhecimento segundo a História dos encarnados não se realiza numa forma contínua, acumulativa. O que acreditamos hoje pode ser considerado falso no futuro, pois a visão, a concepção e a interpretação de um certo fenômeno pode mudar radicalmente e um conceito antigo tornar-se insustentável para. Cabe ao pesquisador definir outro conceito sobre o qual serão apoiadas todas as novas idéias, mas o padrão antigo deverá ser ignorado. Desse modo, o conhecimento de hoje não se apóia totalmente numa conquista do passado.



Os períodos de produção acumulativa de informação são intermeados por tempos de discussão de conceitos. Então, por exemplo, um padrão de idéias (paradigma) numa época "sustenta" a produção de explicações até um certo ponto; chegará um momento quando, devido ao avanço da tecnologia e nos instrumentos de pesquisa, esse paradigma não mais será lógico (ponto de crise do paradigma); a seguir, os pesquisadores entrarão num tempo de discussão do padrão adotado (sem muita extração de informação a respeito do fenômeno) até que se defina um novo paradigma, servindo de base para a nova produção de conhecimento.

Um dos fatos mais famosos, que reflete não apenas a opressão da ignorância humana, mas também a crise interna da filosofia viciosa acontece no final do período medieval, com o princípio do Heliocentrismo. Cláudio Ptolomeu que viveu no século II d.C. e, baseando-se em premissas aristotélicas, concluiu que a Terra seria um ponto fixo no Universo e todos os astros (conhecidos com a tecnologia da época) giravam em torno dela. Criou dessa forma o paradigma do Geocentrismo, uma tentativa de explicar através de complicadas fórmulas matemáticas, como os astros movimentam-se em esferas. Essa tentativa possibilitou o desenvolvimento de áreas de Matemática. O problema foi devido aos filósofos do final da Idade Média não aceitarem nenhum novo paradigma. No entanto Nicolau Copérnico ( 1493 - 1543 ) apresentou um modelo astronômico-matemático em seu livro "de Revolutionibus" propondo o Heliocentrismo, no qual o Sol era o centro do Universo e a Terra um dos planetas que giram em torno. Além de explicar mais, era mais simples, comparado ao modelo de Ptolomeu. Foi uma questão de não se renovar paradigmas.

Se recordarmos o estudo anterior (Agosto), o próprio método de Aristóteles (indutivo-dedutivo) indica que o primeiro passo à formação de uma explicação é a observação, então a indução de premissas e, finalmente, as deduções. No final do período medieval, os pensadores faziam um "curto-circuito" nesse método, uma vez que mal se observava o fato, já havia deduções prontas tiradas dos livros de Aristóteles. Havia ainda o problema dos dogmas, as " verdades " inabaláveis da Igreja, impedindo novas idéias de se estabelecerem, com a pena do pesquisador ser excluído, castigado ou morto.

Francis Bacon ( 1561 - 1626 ) é considerado um dos primeiros pensadores atacantes do vício sobre Aristóteles. Afirmava que a fonte de todo o conhecimento deveria ser a própria Natureza e não os livros de Aristóteles. Iniciou, desse modo, um ramo forte na Filosofia que se tornará a base da Ciência moderna: o Empirismo. Este aceita como única fonte de conhecimento humano as observações e os experimentos. O raciocínio não poderia, sozinho, criar teorias, devendo sempre submete-las às experiências sensoriais.

Entretanto, o grande pai de todas as Ciências e o revolucionário dos paradigmas filosóficos foi Galileu Galilei ( 1564 - 1642 ). Assim como Sócrates é considerado o " fundador " da verdadeira Filosofia, Galileu pode ser visto como o criador dessa nova área, desse novo método do conhecimento chamado Ciência. Para excluir definitivamente enganos, deturpações e má interpretações dos fenômenos naturais era necessário adotar o método mais rigoroso, mais sistêmico e regular: a Matemática. Galileu estava convencido de que o livro da Natureza acha-se escrito na língua da Matemática. As qualidades de todos os objetos e fenômenos devem ser necessariamente quantificáveis, de tal forma que dois objetos são diferentes não por possuírem qualidades intrínsecas, próprias, mas sim por serem quantitativamente diferente. Por exemplo, Aristóteles via o Universo formado por quatro elementos primordiais (terra, água, ar e fogo) e a sua combinação geraria qualidades intrínsecas (pesado ou leve, frio ou quente, seco ou úmido). Já para Galileu, a diferença de algo pesado ou leve é quantidade de massa e um corpo é mais quente que outro por quantidade de temperatura (energia térmica), mas na profundidade eles possuem as mesmas qualidades (massa e energia térmica).

Dessa forma, Galileu propôs uma demarcação entre interpretações não-científicas (qualitativas) e científicas (quantitativas), para, nessas últimas, delimitar o que era aceitável e o que não era.



Assim, para pensar cientificamente não basta observar, fazer experimentos e tirar conclusões, como prega o Empirismo puro. É necessário observar quantificando o que se vê (o quanto for possível), elaborar hipóteses, testá-las, associá-las para formular explicações com idéias matemáticas implícitas. Mais tarde, John Herschel ( 1792 - 1781 ) afirmou que o cientista deve combinar as explicações para determinar Leis da Natureza, ou seja, as propriedades dos fenômenos bem como a seqüência de eventos. A associação das Leis Naturais deve levar às Teorias, isto é, inter-relações das leis desconexas através de criação de hipóteses ousadas.



Galileu foi o primeiro "cientifizador" da História. Particularmente, seus objetos de estudo eram relacionados com a Astronomia e a Física. Mas para cada área do conhecimento estudado pela Filosofia ou outros métodos racionais ou não, têm surgido "cientifizadores" dando um caráter científico a um determinado objeto (assunto) de estudo. Desse modo, vemos ao longo da História as diferentes ciências surgindo, elevando os diversos assuntos relacionados com a Natureza à categoria de um método experimental, quantitativo e rigoroso. Para citar, como exemplo algumas, lembramos:

Física (objeto: matéria de um modo geral e suas transformações reversíveis): uma das Ciências mais antigas, mesmo considerando o período quando era estudada apenas pela filosofia; Galileu lançou os primeiros argumentos quantitativos, mas Isaac Newton (1642 - 1727) formulou as teorias (quantitativas) sobre a gravidade e outras leis da dinâmica, óptica, cinemática, etc.
Química (objeto: composição íntima da matéria e suas reações): antigamente estudada pela filosofia e Alquimia; Antoine Laurent Lavosier (1743 - 1794) demonstrou a conservação das massas numa reação química; mais tarde, Dalton elaborou a teria do átomo, propondo que numa reação química, os átomos das substâncias envolvidas apenas reorganizam-se quantitativamente.
Biologia (objeto: seres vivos): em 1735, o botânico sueco Karl Von Lineu propõe regras de classificação dos seres vivos, considerando suas semelhanças e diferenças quantitativas; mais tarde, as teorias evolucionistas de Charles Darwin colocam a Biologia nos trilhos da ciência.
Medicina (objeto: doenças): no começo do século XIX, apesar das demonstrações e teorias de Hanemman, ainda a maior parte dos médicos estudavam as doenças como se fosse uma qualidade ruim exterior adquirida; então Claude Bernard publicou um método de investigação dependente da visão das doenças como uma variação quantitativa do estado fisiológico normal.
Ciências humanas: também no século XIX, houve uma conceituação científica a respeito da Sociedade, da História, Antropologia, etc. Karl Marx, Augusto Comte e outros foram os "cientifizadores".
Em síntese, depois do período medieval, Galileu inicia o processo de "cientifização" (quantificação das diferenças) na área de Física. Depois dessa Renascença Cultural (século XVI), houve o Iluminismo (século XVIII) em que filósofos renovavam os antigos conceitos e novas ciências apareceram. Foi uma época de contestação política e vários filósofos e cientistas foram mortos, como Lavosier, guilhotinado na Revolução Francesa. No século XIX, novas ciências afirmaram-se em torno do Positivismo, uma corrente filosófica cujo objetivo era "alcançar a felicidade plena do ser humano" através da prática da mais rigorosa ciência. Muitos positivistas excederam-se em seu orgulho e até mesmo "fanatismo" científico e fecharam os olhos para diversos fenômenos "tradicionalmente" considerados naturais.

Aliás, havia uma grande parte do conhecimento, crucial para o desenvolvimento sociológico e antropológico da criatura humana, que ainda estava sob as trevas da ignorância em pleno século XIX: as religiões. Conceitos como moral, por exemplo, eram vistos na forma antiga qualitativa. Assim como, na interpretação antiga, a "coisa" Luz era diferente da "coisa" Sombra, o Leve diferente do Pesado, o Quente diferente do Frio, etc., o Bem seria uma força na Natureza totalmente oposta à a força do Mal. Dificilmente através dos paradigmas antigos (dogmas) das religiões, seria concebido que, como a sombra é a ausência da luz, frio é a ausência do calor, o leve é a falta de massa, o mal é a ausência do bem.

Devemos entender, portanto, as Ciências como uma imensa porta que se abre diante da Verdade Real, base de qualquer descoberta, primeiro passo ao processo de auto-encontro. Contudo, se os fatos se sucedessem como os orgulhosos positivistas do século XIX, muitas verdades seriam abandonadas. Houve será um "cientifizador" da religião e, por conseqüência, do fenômeno mediúnico associado à suas verdades (ver estudo de Julho)? Descobriremos nas próximas páginas.


Referências Bibliográficas:

Abbagnano, Nicola (2000). Dicionário de Filosofia, 4a Edição. Martins Fontes.
Abrão, Bernadette Siqueira (1999). História da Filosofia. Nova Cultura.
Durozoi, Gerard & Boussel, André. Dicionário de Filosofia, 2a Edição. Papirus.
Losee, John (1979). Filosofia da Ciência. Itatiaia.
Kardec, Allan (1999). A Gênese, 19a Edição. LAKE. Capítulo 1.
Outubro / 2001



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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FILOSOFIA DA CIÊNCIA ESPÍRITA – II - A FILOSOFIA


Matheus Artioli Firmino

Como vimos no estudo anterior, o ser humano desenvolveu vários meios de alcançar a Verdade Real para compreender melhor a própria situação. A primeira grande tentativa ocorrida no livro da História foram as religiões, cujos objetos de estudo essenciais são Deus e a Imortalidade da Alma, possibilitando o encontro dos homens com o Criador. No entanto, observamos a deturpação da doutrinas religiosas detentoras de poder político e psicológico sobre a sociedade. Daí surgirem novas tentativas das pessoas desejosas de produzir o próprio conhecimento, sem depender totalmente da revelação passiva, mas avançar no campo da racionalidade.

Foi assim que, no ideal de derrubar o comodismo mental e elevar-se à responsabilidade e à liberdade, desenvolveu-se a Filosofia, estudo que se caracteriza pela intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade, no sentido de apreendê-la na sua totalidade, quer pela busca da realidade capaz de abranger todas as outras, quer pela definição do instrumento capaz de apreender a realidade, o pensamento, tornando-se o homem tema inevitável de consideração. Foge aos nossos objetivos aqui, enunciarmos definições e conceitos, bem como descrever suas diversas escolas orientais e ocidentais.

Dentro da idéia da "Filosofia da Ciência Espírita", não podemos esquecer Pitágoras (segunda metade do século VI a.C.) A palavra "filosofia"foi por ele usada inicialmente. Reconhecendo-se longe de toda sabedoria, mas com o desejo imenso de alcançá-la, autodenominou-se praticante de "filo-sofia" (filo: amigo; sofia: saber). Porém, sua maior contribuição foi considerar que todos os fenômenos da natureza refletem a perfeição da Matemática. Esta, deixou de ser uma técnica de agrimensura – como entre os egípcios – para constituir um conceito filosófico.

Entretanto, o pensamento filosófico consolida-se com Sócrates (c. 469 ou 470 a.C.- 399 a.C.). Muitos consideram que a Filosofia verdadeira inicia-se com ele, separando os pensadores em pré-socráticos e pós-socráticos.

Na sua época, grande número de pessoas afirmava que Sócrates era sábio. Querefonte, seu amigo, foi perguntar aos "deuses" do Santuário de Delfos se havia alguém mais sábio que Sócrates. A resposta foi negativa. Surpreendido, Sócrates começa a conversar com vários indivíduos considerados sábios. Nota que esses sábios não o eram na realidade, pois diziam conhecer um assunto que desconheciam. Desse modo, inicia seu trabalho em diálogo desenvolvendo-os de tal forma que levava as pessoas a descobrirem a essência das coisas não desviando do problema em respostas superficiais. Sócrates considerava-se com a tarefa de uma parteira, trazendo à tona um conhecimento já existente, mas latente em cada um. Confirmava os objetivos da filosofia, a produção do saber parte integramente do ser, segundo a célebre frase do mesmo santuário: "Conhece-te a ti mesmo".

Mais tarde, múltiplas escolas aparecem, mas uma muito expressiva, norteadora do pensamento ocidental por vários séculos e que lançou os germens da Ciência, foi a de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.). Com o objetivo de gerar explicações para fenômenos de diferentes ordens, cria métodos e definições básicas para interpretá-los. A produção do saber deve ser fruto de uma reflexão, em que o pensador, mais uma vez, participa ativamente. Daí chamar-se esse método, praticamente em todo pensamento filosófico, de "especulativo" (especulum, espelho, de reflexão). Para ele, a investigação filosófica baseia-se numa progressão das observações até princípios gerais e daí de volta às observações. Afirmava que o pensador deve induzir princípios explanatórios dos próprios fenômenos observados, e, em seguida, deduzir afirmações a partir de premissas que incluem estes princípios.



Dessa forma, o filósofo precisa, primeiramente, ser "surpreendido" pelos fatos (Observações). A seguir, faz generalizações criando princípios explanatórios para todo o gênero (Indução). Finalmente, gera explicações a respeito dos acontecimentos e de suas propriedades a partir das premissas organizadas silogicamente (Dedução).

Tomemos um exemplo. Um filósofo poderia aplicar o processo indutivo-dedutivo a um eclipse lunar da seguinte maneira:

Ele começa pela OBSERVAÇÃO do escurecimento progressivo da superfície lunar;
Em seguida, INDUZ desta observação (e outras), alguns princípios gerais: a luz caminha em linha reta, corpos opacos projetam sombras e uma configuração particular de dois corpos opacos perto de um corpo luminoso coloca um destes corpos na sombra do outro;
Destes princípios gerais, e da condição de que a terra e a lua são corpos opacos, ele DEDUZ uma afirmativa sobre o eclipse lunar.
Assim, progrediu-se do conhecimento do fato de que a superfície da lua escureceu a uma compreensão do que se passou.

Através desse método indutivo-dedutivo de Aristóteles muitas explicações foram geradas, contribuindo como premissas de outras explicações. Notamos desse modo, intensa produção de conhecimento humano, verdadeiro ou não.

Notemos que as induções são generalizações sobre as qualidades do objeto considerado. Aristóteles usava largamente a idéia de que todos os corpos possuem qualidades intrínsecas e estas classificam aqueles em grupos. Desse modo, qualquer gato é mamífero porque ele possui qualidades próprias, do grupo dos mamíferos. Aristóteles considerava também a existência de dois tipos de qualidades: as primárias e as secundárias. As primárias podem ser medidas, e as secundárias não podem ser medidas e devem ser tomadas sem precisar deduzi-las (a priori). Ou seja, não haveria explicações razoáveis para algumas qualidades de certos corpos, mas, mesmo assim, podem ser usadas como premissas do método indutivo-dedutivo.

O maior exemplo de qualidades secundárias, estão nos quatro elementos que, segundo Aristóteles, compunham toda a matéria no planeta: terra, água, ar e fogo. Cada uma dessas substâncias possui qualidades secundárias próprias, tomadas a priori:

TERRA
ÁGUA
AR
FOGO

PESO Grave
Grave
Leve
Leve

TEMPERATURA Quente
Fria
Frio
Quente

UMIDADE Seco
Úmida
Úmido
Seco


Os outros corpos são formados pela "mistura" de porções variáveis dessas substâncias primitivas, originando composições dessas qualidades. E é assim que, de um modo geral, Aristóteles e a maior parte das correntes filosóficas até então, explicava a Natureza. Um corpo era pesado (grave) por possuir maior porção de terra. E a "gravidade" de um corpo impõe-lhe a posição no Universo (mais ou menos próximo do centro da terra).

No tempo, novas escolas aparecem, mas as mudanças econômicas, políticas e sociais no Ocidente abalaram a história da filosofia. Quando o Império Romano foi invadido pelos bárbaros, o povo passa a viver num clima de guerra, medo e reclusão. Na Europa Ocidental plenamente rural, o Cristianismo, a filosofia da vida, atrela-se ao Estado e transforma-se em uma religião comum, dogmática e impositiva, tal qual àquelas estudas anteriormente. O contato posterior com árabes e judeus, abriu novos horizontes para esse mundo de retraimento. A Escolástica, doutrina teológico-filosófica dominante na Idade Média dos séculos IX ao XVII caracterizadas sobretudo pelo problema da relação entre a fé e a razão, foi um novo movimento de produção do saber segundo as diretrizes de Aristóteles, todavia, sob os olhos da Inquisição, antigo tribunal eclesiástico instituído com o fim de investigar e punir os crimes contra a fé católica.

Com Robert Grosseteste (1168-1253) e Roger Bacon (1214-1292), o método indutivo-dedutivo de Aristóteles, nesse momento chamado de "resolução-composição", foi intensamente expandido e aplicado.

Contudo, no final da Idade Média, a Filosofia também foi deturpada. O método aristotélico acima explicado era usado de forma excessiva mas incompleta, viciosa. O termo "especulativo" recebeu uma conotação de artificial e superficial, uma vez que os pensadores não induziam nenhuma premissa nova, mas construíam explicações (deduções) a partir de princípios estabelecidos pelo próprio Aristóteles. Ademais, tanto as explicações finais, quanto as premissas de Aristóteles deveriam girar em torno dos conceitos indiscutíveis (dogmas) da Igreja.

Assim, a filosofia representa o encontro da criatura humana consigo, abrindo novos horizontes de liberdade e razão. Mas novas tentativas deveriam estabelecer um método mais rigoroso de investigação, que não possibilite viciações. Qual será esse método? Veremos nos próximos estudos.


Referências Bibliográficas:

Abbagnano, Nicola (2000). Dicionário de Filosofia, 4a Edição. Martins Fontes. Verbete Aristotelismo: página 79.
Abrão, Bernadette Siqueira (1999). História da Filosofia. Nova Cultura. Capítulo 3: p. 41-44.
Durozoi, Gerard & Boussel, André. Dicionário de Filosofia, 2a Edição. Papirus. Verbete Filosofia: p. 190.
Losee, John (1979). Filosofia da Ciência. Itatiaia. Capítulo 1: p. 15-26.
Kardec, Allan (1999). A Gênese, 19a Edição. LAKE. Capítulo 1: item 7 e 8.
Agosto / 2001


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terça-feira, 24 de agosto de 2010

FILOSOFIA DA CIÊNCIA ESPÍRITA – I – A RELIGIÃO


Matheus Artioli Firmino


O Espiritismo é considerado por alguns como mais uma filosofia espiritualista. Outros já o enquadram como uma ciência rigorosa, empírica, não apresentando nenhum compromisso com princípios metafísicos. Outras correntes admitem um caráter eminente-mente religioso e moral, sem reflexões filosóficas ou teorias científicas. Finalmente, há aqueles que o classificam como mais uma técnica de cura ou terapêutica de medicina alternativa.

O que é realmente o Espiritismo ? Emmanuel ensina-nos que encontramos um tríplice aspecto, intrínseco em cada conceito espírita: ciência, filosofia, religião [1]. Assim ele divide os tópicos de seu livro O Consolador. Mas o que significa cada um desses termos e quais são as implicações desse entendimento? Vale a pena pensar nisso? Sabemos que sim, para descobrirmos os objetivos e método em que se formou a Doutrina Espírita. E, para compreendermos melhor, estudaremos nesta e nas próximas páginas esses três conceitos.

Na verdade, desde a pré-história humana, quando o homem ainda não desenvolvera a escrita, percebemos a busca incessante da felicidade. E, para chegar à felicidade, as experiências terrenas sempre levam a um questionamento sobre a realidade e as causas dos fenômenos que nos envolvem.

Entretanto, segundo Allan Kardec, "sendo o progresso uma condição da natureza humana, ninguém tem o poder de se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não asfixiar."[2] Vemos o ser primitivo inteiramente preocupado com a satisfação de seus interesses materiais. Nada podendo ainda conceber fora do mundo visível e tangível, imagina toda a realidade constituindo-se dos seres e das coisas com que se deparam. Mais tarde, torna-se necessário, para entender a si próprio, a compreensão do abstrato, para então, aos poucos, adentrar na essência espiritual da vida: a Verdade Real.[3]

Nesse sentido, diversas formas (métodos) de obter o conhecimento da Verdade a respeito de numerosos assuntos (objetos) foram construídos pela sociedade, em todos os períodos da humanidade. Não pretendemos aqui, definir cada método, mas os estudiosos do saber humano classificam o Conhecimento em dois grande grupos: o não-racional e o racional. Toda obtenção passiva, exterior, sem análise, pertence ao primeiro grupo: as diferentes superstições, as ideologias e, como veremos a seguir, as religiões. Por outro lado, todo conhecimento elaborado, refletido, pertence ao segundo grupo: a filosofia e a ciência.



Isso não implica dizer que a informação obtida é verdadeira ou falsa. A Verdade pode estar em qualquer uma dessas formas, mas elas se diferem pelo método, pelo meio de atingi-la. Muitas vezes, a conhecimento racional erra enquanto o não-racional detêm a veracidade.

A primeira grande organização do saber foram as religiões. Sabemos que os objetos (os assuntos) principais de qualquer religião são a Existência de Deus e a Imortalidade da Alma. Derivada do verbo latino "religare", a religião representa um laço de união entre a criatura e o Criador [4]. Por que, então, é classificada, de um modo geral, como uma forma não-racional do saber, até mesmo como uma superstição melhorada? Porque a esmagadora maioria desenvolve-se segundo o método da Revelação.

Revelar, do latim "revelare", cuja raiz é "velum", véu, significa literalmente "sair de sob o véu", figuradamente, descobrir, fazer conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. No sentido especial da fé religiosa, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados como profetas ou messias, isto é, enviados, missionários, incumbidos de transmiti-la aos homens. Considerada sob esse ponto de vista, a revelação implica passividade absoluta; é aceita sem controle, sem exame, sem discussão. A submissão faz aceitar "de fora para dentro"[5].

Notemos um exemplo. As primeiras civilizações desenvolvidas no transcurso da história, as Sociedades Hidráulicas, apoiavam-se totalmente na religião. Nessas organizações, a distinção social começou a se fazer notar quando a luta pela posse das áreas cultiváveis em torno de rios (Nilo, Tigres, Eufrates, Jordão, etc.) levou a se defrontarem os camponeses, na posição de possuidores da força de trabalho, e os proprietários patriarcais das terras, que delas se apoderaram e as mantinham invocando a proteção dos deuses e dos sacerdotes. Pelo "respeito" ao mais velho (patriarca) ou mais forte, os camponeses trabalhavam exaustivamente, organizavam exércitos, executavam ordens, mas não eram considerados escravos [6].

Desse modo, enquanto uma grande massa de trabalhadores produziam alimentos para a sociedade, os sacerdotes, a nobreza e o governante tinham mais tempo para estudar os fenômenos naturais, desenvolvendo a astrologia, a matemática, a religião, etc. Um fato da natureza de especial interesse nesse momento foi a mediunidade ostensiva, havendo intensas comunicações com os "mortos". Espíritos familiares instruíam o clero de forma característica para cada povo. Os "estudiosos" interpretavam segundo suas idéias necessariamente limitada, restrita à mentalidade da época, embutindo ilusões e imaginações, corrompendo a verdade.

Um exemplo clássico disso, foi o surgimento do princípio da Metempsicose. Essa doutrina, oriunda dos egípcios e, posteriormente, na Grécia Antiga (Pitágoras), aceita a Lei da Reencarnação, mas professa a possibilidade de uma alma humana renascer num corpo de um animal inferior, retrocesso na árvore evolutiva. Sabemos, porém, que a reencarnação, apesar de ser bem estabelecida como verdade inabalável, tem como finalidade o progresso sem retorno. Uma provável origem dessa crença na Metempsicose, foi a aparição de Espíritos desencarnados, tão grosseiros e inferiores, que plasmaram no corpo espiritual (perispírito) suas idéias bestiais, aparecendo sob a forma temporária de animais. A interpretação da natureza animal desses seres podem ter levado à Metempsicose ou, indo mais além, a crença em deuses zoomórficos (forma total de animais) ou antropozoomórficos (com forma semi-humana e semi-animal) [7].

Outro fato digno de nota é a questão da Ressurreição, professada inicialmente pelos princípios hebraicos, no entanto aceita largamente por várias doutrinas cristãs. Está bem claro que um corpo morto não pode retomar à vida orgânica original, mas entra no ciclo inviolável da natureza de transformações. Além da reencarnação, retorno à vida orgânica em um novo corpo, pode ter gerado confusão, outro fato provavelmente levou à idéia de ressurreição. Um Espírito desencarnado, principalmente aqueles cujo desenlace da matéria foi recente, apresenta-se geralmente com o perispírito da mesma forma do último corpo. Uma aparição aos sacerdotes nessa forma, fez surgir uma conclusão precipitada, de que a pessoa ainda estava ainda viva com o mesmo corpo [2] .

E de todos os tempos, os "reveladores" da verdade, ainda extremamente encoberta por fantasias, sempre dependentes de médiuns, sob nomes diversos, como sacerdote, rabino, padre, píton, profeta, pastor, pajé, lama, monge, etc., arrogavam-se o privilégio de relacionar-se com a Divindade. O servos submissos, suportando horas de trabalho árduo, esperavam ansiosos receber "os recados confortadores dos deuses", pela voz de seus superiores. Por isso, entendemos as religiões detendo uma razão de ser providencial, apropriadas ao tempo e ao meio, ao gênio particular dos povos. Apesar do erro dessas doutrinas, não deixaram de agitar os espíritos e, mesmo por isso, de semear os germens do progresso, que mais tarde haviam de alastrar-se ou se alastrarão à luz brilhante do cristianismo [5].

No entanto, esses reveladores, engajados em cargos políticos, transformaram a religião em instrumento de dominação; com ambições secundárias sociais, de fama, têm explorado a credulidade em proveito de seu orgulho, da sua cupidez ou de sua indolência e acham mais cômodo viver à custa dos iludidos [5]. Além das interpretações surgirem erradas por precipitação, alguns conceitos foram cortados ou incluídos propositalmente. A crença no sobrenatural e no poder milagroso possuído pela nobreza e clero, foi um artifício psicológico de controle que, em termos de eficiência, é muito mais interessante que um exército gigantesco. Lembremos que a mediunidade é uma faculdade natural da criatura humana, variando em intensidade, mas não escolhe a classe social em que desabrocha. Por isso perguntamos, quantos médiuns ostensivos que apareceram na população mais carente, com expressiva percepção da vida futura, não foram ignorados, discriminados, condenados ou mortos?

Nessa forma de religião passiva, não é nem um pouco interessante que a população pense, conheça ou saiba usar os fenômenos. Para os governantes, o comodismo das massas é o melhor meio de atingir os interesses pessoais. Os conceitos devem, então, ser intocáveis, como dogmas. Daí a necessidade de surgirem outros métodos para atingir a Verdade. Emergiram pensadores desafiadores da religião, não por rejeitarem seus conceitos, mas para produzirem o próprio conhecimento, mesmo errando, porém com a possibilidade de discutir e usufruir o direito da Liberdade.

Toda essa busca levará o homem a entender que religião, crença, rótulo, sem religiosidade, isto é, sem vivência dos princípios aceitos, estaciona e detém em alguma parte do processo em estudo.

Portanto, "a Religião é sempre a face augusta e soberana da Verdade; porém, na inquietação que lhes caracteriza a existência na Terra, os homens se dividiram em numerosas religiões, como se a fé também pudesse ter fronteiras, à semelhança de pátrias materiais, tantas vezes mergulhadas no egoísmo e na ambição de seus filhos."[1]li Firmino

Referências Bibliográficas:
[1] Emmanuel (1988). O Consolador, 14a Edição. FEB. Definição, página 19; item 292.
[2] Kardec, Allan (1994). O Livro dos Espíritos, 54a Edição. LAKE. Terceira Parte, Capítulo 8: item
783.
[3] Kardec. Allan (1979). O Céu e o Inferno, 3a Edição. LAKE. Primeira Parte, Capítulo 9: item 2.
[4] Durozoi, Gerard e Roussel, André (1996). Dicionário de Filosofia, 2a Edição. PAPIRUS. Verbete
Religião: página 406.
[5] Kardec, Allan (1999). A Gênese, 19a Edição. LAKE. Capítulo 1: item 7 e 8.
[6] Arruda, JJA, Fernandes, SR, Turin, E (1999). História Antiga e Medieval. SOL. Capítulo 3: 13-19.
[7] Ângeles, Joana de (1982) . Estudos Espíritas. FEB. Renascer: página 71.
Julho/2001


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