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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

EU QUERO SER MÉDIUM





Embora muitos insistam em afirmar que a mediunidade é dívida, antes de qualquer outra coisa, baseando-se em uma afirmação de Emmanuel, (essa afirmação precisa ser melhor interpretada), na realidade, mediunidade é um sério compromisso que assumimos conscientemente antes de retornar à carne, seja por sugestão da espiritualidade superior ou por iniciativa nossa. Mediunidade é o instrumento de nossa evolução e oportunidade de reparação de um mais que provável passado de erros. Recusá-la quando já estamos aqui, é fugir da responsabilidade, do compromisso, que assumimos no mundo espiritual, em detrimento de nós mesmos.

O Espiritismo está conosco há cento e cinquenta anos e ainda hoje a prática mediúnica claudica em muitas casas espíritas. Não são raros os casos em que, logo na primeira visita, a pessoa é encaminhada ao desenvolvimento da sua mediunidade, mesmo não tendo nenhuma noção sobre como se processa o intercâmbio com os espíritos. O resultado disso, inúmeras vezes, é desastroso: pessoas ficam apavoradas e com idéias erradas sobre o contato entre os homens e os desencarnados. E essa mentalidade é cultivada entre nós basicamente, pelo pouco ou nenhum estudo doutrinário, sobretudo das obras básicas.

Sabemos que o fenômeno mediúnico é um bom meio de atração para os que ainda não conhecem o Espiritismo, mas não se pode inverter a escala de valores das coisas. O estudo, a divulgação da Doutrina Espírita e a reforma íntima, fundamentais para a vida futura do espírito imortal, devem ser as principais preocupações dos espíritas, principalmente dos dirigentes.

Milhares de pessoas, batem às portas dos centros espíritas, apresentando sintomas de mediunidade, desejando ser assistidas, a fim de se livrarem do desequilíbrio. Grande parte dos médiuns principiantes querem desenvolver a mediunidade, mesmo desconhecendo completamente o que isto significa, pois acreditam que, unicamente, na sessão mediúnica, desenvolverão sua mediunidade, seus obsessores serão doutrinados e alcançarão automaticamente o equilíbrio, a paz e a saúde. Em outras palavras, querem a conquista mágica e fácil, através do simples fenômeno mediúnico!

Grupos espíritas, sem conhecimento mais aprofundado do Espiritismo, ansiosos em aumentar o número de trabalhadores da casa, encaminham pessoas para a prática mediúnica, tão somente porque demonstram possuir mediunidade. Quando alertados, muitos dirigentes afirmam estar fazendo um ato de caridade, quando, na verdade, poderão estar promovendo uma tremenda desorganização psíquica, forçando o desenvolvimento mediúnico em pessoas despreparadas. O erro torna-se muito mais grave, porque a pressa com o fenômeno mediúnico, torna o fenômeno mais importante que o próprio Espiritismo. E o resultado infeliz, da soma do despreparo dos dirigentes, com a persistente má vontade dos médiuns em estudar Espiritismo.

Repetimos: O estudo continuado, a divulgação incessante da Doutrina Espírita, – principalmente pelo exemplo – e a indispensável e indelegável reforma íntima, absolutamente fundamentais para a vida futura do espírito imortal, devem ser sempre as principais preocupações dos espíritas, principalmente dos seus dirigentes.


Agnaldo Cardoso



texto - www.rcespiritismo.com.br
imagem - sitedecuriosidades.com

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O MÉDIUM DO ANTICRISTO


Hermínio C. Miranda

Um jovem de cerca de 20 anos vagava pelo Museu Hofburg, em Viena, como de costume. estava deprimido como nunca. O dia fora muito frio, pois o vento trouxera o primeiro anúncio do outono que se aproximava. Ele temia novo ataque de bronquite que se aproximava. Ele temia novo ataque no seu miserável quartinho numa pensão barata. Estava pálido, magro e de aparência doentia. Sem dúvida alguma, era um fracasso. Fora recusado pela Escola de Belas – Artes e pela Arquitetura. As perspectivas eram as piores possíveis.

Caminhando pelo museu, entrou na sala que guardava as jóias da coroa dos Hapsburg, gente de uma raça que não considerava de boa linhagem germânica.

Mergulhado em pensamentos pessimistas, nem sequer notou que um grupo de turistas, orientado por um guia, passou por ele e parou diante de um pequeno objeto ali em exibição.

-"Aqueles estrangeiros – escreveria o jovem mais tarde – pararam quase em frente ao lugar onde eu me encontrava, enquanto seu guia apontava para uma antiga ponta de lança. A princípio, nem me dei ao trabalho de ouvir o que dizia o perito; limitava-se a encarar a presença daquela gente como intromissão na intimidade de meus desesperados pensamentos. E, então, ouvi as palavras que mudariam o rumo da minha vida: "Há uma lenda ligada a esta lança que diz que quem a possuir e decifrar os seus segredos terá o destino do mundo em suas mãos, para o bem ou para o mal."

Como se tivesse recebido um choque de alertamento, ele agora bebia as palavras do erudito guia do museu, que prosseguia explicando que aquela fora a lança que o centurião romano introduzira ao lado do tórax de Jesus (João 19:34) para ver se o crucificado já estava "morto".

Tinha uma longa e fascinante história aquele rústico pedaço de ferro. O jovem mergulharia nela a fundo nos próximos anos. Chamava-se ele Adolf Hitler.

Voltou muitas vezes mais ao Museu Hofburg e pesquisou todos os livros e documentos que conseguiu encontrar sobre o assunto. Envolveu-se em mistérios profundos e aterradores, teve revelações que o atordoaram, incendiaram sua imaginação e desataram seus sonhos mais fantásticos.

Para saber mais (1)

Sabemos hoje, em face da prática e da literatura espírita, que os Espíritos, encarnados e desencarnados, vivem em grupos, dedicados a causas nobres ou sórdidas, segundo seus interesses pessoais. A inteligência e o conhecimento, como todas as aptidões humanas, são neutros em si mesmos, ou seja, tanto podem ser utilizados na prática do bem como na disseminação do mal. Dessa maneira, tanto os bons espíritos, como aqueles que ainda se demoram pelas trevas, elaboram objetivos de longo alcance visando aos interesses finais do bem ou do mal. Em tais condições, encarnados e desencarnados se revezam, neste plano e no outro, e se apoiam mutuamente, mantendo constantes entendimentos especialmente pela calada da noite, quando uma parte considerável da humanidade encarnada, desprendida pelo sono, procura seus companheiros espirituais para debater planos, traçar estratégias, realizar tarefas, ajustar situações.

Há, pois, toda uma logística de apoio aos Espíritos que se reencarnam com tarefas específicas, segundo os planos traçados.

Estudando, hoje, a história secreta do nazismo, não nos resta dúvida de que Adolf Hitler e vários dos seus principais companheiros desempenharam importante papel na estratégia geral de implantação do reino das trevas na Terra, num trabalho gigantesco que, obviamente, tem a marca inconfundível do Anticristo. Para isso, eclodem fenômeno mediúnicos, surgem revelações, encontram-se as pessoas que deveriam encontrar-se, acontecem "acasos" e "coincidências" estranhas, juntam-se, enfim, todos os ingredientes necessários ao desdobramento do trabalho.

August Kubizek descreve uma cena dramática em que Hitler, com apenas 15 anos de idade, apresenta-se claramente incorporado ou inspirado por alguma entidade desencarnada. De pé diante de seu jovem amigo, agarrou-lhe as mãos emocionado, de olhos esbugalhados e fulminantes, enquanto de sua boca fluía desordenadamente uma enxurrada de palavras excitadas. Kubizek, artudido, escreve, em seu livro:

- Era como se outro ser falasse de seu corpo e o comovia tanto quanto a mim. Não era, de forma alguma, o caso de uma pessoa que fala entusiasmada pelo que diz. Ao contrário, eu sentia que ele próprio como que ouvia atônito e emocionado o que jorrava com uma força primitiva... Como enxurrada rompendo diques, suas palavras irrompiam dele. Ele invocava, em grandiosos e inspirados quadros, o seu próprio futuro e o de seu povo. Falava sobre um Mandato que, um dia, receberia do povo para liderá-lo da servidão aos píncaros da liberdade- missão especial que em futuro seria confiada a ele.

Ao que parece, foi o primeiro sinal documentado da missão de Hitler e o primeiro indício veemente de que ele seria o médium de poderosa equipe espiritual trevosa empenhada em implantar na Terra uma nova ordem. Garantia-se a Hitler o poder que ambicionava, em troca da fiel utilização da sua instrumentação mediúnica. O pacto com as trevas fora selado nas trevas. É engano pensar que essas falanges espirituais ignoravam as leis divinas. Conhecem-nas muito bem e sabem da responsabilidade que arrostam e, talvez, até por isso mesmo, articulam seus planos tenebrosos e audaciosos, porque, se ganhassem, teriam a impunidade com que sonham milenarmente para acobertar crimes espantosos. Eles conhecem, como poucos, os mecanismos da Lei e sabem manipular com perícia aterradora os recursos espirituais de que dispõem.

Vejamos outro exemplo: o relato da Segunda visita de Hitler à lança, narrada pelo próprio.

Novamente a sensação estranha de perplexidade. Sente ele que algo poderoso emana daquela peça, mas não consegue identificar o de que se trata. De pé, diante da lança, ali ficou por longo tempo a contemplá-la:

Estudava minuciosamente cada pormenor físico da forma, da cor e da substância, tentando, porém permanecer aberto à sua mensagem. Pouco a pouco me tornei consciente de uma poderosa presença em torno dela – a mesma presença assombrosa que experimentara intimamente naquelas raras ocasiões de minha vida em que senti que um grande destino esperava por mim.

Começava agora a compreender o significado da lança – escreve Ravenscroft – e a origem de sua lenda, pois sentia, intuitivamente, que ela era o veículo de uma revelação - "uma ponte entre o mundo dos sentidos e o mundo do espírito".

As palavras entre aspas são dos próprio Hitler, que prossegue:

Uma janela sobre o futuro abriu-se diante de mim, e através dela vi, num único "flash", um acontecimento futuro que me permitiu saber, sem sombra de dúvida, que o sangue que corria em minhas veias seria, um dia, o veículo do espírito de meu povo.

Ravenscroft especula sobre a revelação. Teria sido, talvez, a antevisão da cena espetaculosa do próprio Hitler a falar, anos mais tarde, ali mesmo em frente ao Hofburg, à massa nazista aglomerada, após a trágica invasão da Áustria, em 1938, quando ele disse em discurso:

A Providência me incumbiu da missão de reunir os povos germânicos...com a missão de devolver minha pátria 1 ao Reich alemão. Acreditei nessa missão. Vivi por ela e creio que cumpri.

Tudo começara com o impacto da visão da lança no museu. Já naquele mesmo dia, em que o guia dos turistas chamou sua atenção para a antiquíssima peça, ele experimentou estranhas sensações diante dela. Que fascínio poderia ter sobre seu Espírito - espetacular ele próprio – aquele símbolo cristão ? Qual a razão daquele impacto? Quanto mais a contemplava, mais forte e, ao mesmo tempo, mais fugidia e fantástica se tornava a sua impressão.

Senti como se eu próprio a tivesse detido em minhas mãos anteriormente, em algum remoto século da História – como se eu a tivesse possuído, como meu talismã de poder e mantido o destino do mundo em minhas mãos. No entanto, como poderia isto ser possível? Que espécie de loucura era aquele tumulto no meu íntimo?

Qual é, porém, a história conhecida da lança?

Para saber mais (2)

É o que tentaremos resumir em seguida.

Hitler dedicou-se daí em diante ao estudo de tudo quanto pudesse estar relacionado com o seu fascinante problema. Cedo foi dar em núcleos do saber oculto. Um dos seus biógrafos, Alan Bullock (Hitler: A Study in Tiranny), sem ter alcançado as motivações do futuro líder nazista, diz que ele foi um inconseqüente, o que se poderia provar pelas suas leituras habituais, pois seus assuntos prediletos eram a história de Roma antiga, as religiões orientais, ioga, ocultismo, hipnotismo, astrologia... Parece legítimo admitir que tenha lido também obras de pesquisa espíritas, porque os autores não especializados insistem em grupar espiritismo, magia, mediunismo e adivinhação, e muito mais sob o rótulo comum de ocultismo.

Sim, Hitler estudou tudo isso profundamente e não se limitou à teoria; passou à prática. Convencido da sua missão transcendental, quis logo informar-se sobre os instrumentos e recursos que lhe seriam facultados para levá-lo a cabo. O primeiro impacto da idéia da reencarnação em seu espírito o deixou algo atônito, como vimos, na sua primeira crise espiritual diante da lança, no museu de Hofburg; logo, no entanto, se tornou convicto dessa realidade e tratou a sério de identificar algumas de suas vidas anteriores. Esses estudos levaram-no ao cuidadoso exame da famosa legenda do Santo Graal, de que Richard Wagner, um dos seus grandes ídolos, se serviu para o enredo da ópera Parsifal.

Hitler foi encontrar nos escritos de um poeta do século XIII, por nome Wolfram von Eschenbach, a fascinante narrativa da lenda, cheia de conotações místicas e simbolismos curiosos, que captaram a sua imaginação, porque ali a história e a profecia estavam como que mal disfarçadas atrás do véu diáfano da fantasia.

Mas, Hitler tinha pressa, e, para chegar logo ao conhecimento dos mistérios que o seduziam, não hesitou em experimentar com o peiote, substância alucinógena extraída do cogumelo mexicano, hoje conhecida como mescalina. Sob a direção de um estranho indivíduo, por nome Ernst Pretzsche, o jovem Adolf mergulhou em visões fantásticas que, mais tarde, identificaria como sendo cenas de uma existência anterior que teria vivido como Landulf de Cápua, que serviu de modelo ao Klingsor na ópera de Wagner.

Esse Landulf foi um príncipe medieval (século nono) que Revenscroft declara ter sido "the most evil figure of the century" – a figura mais infame do século. Sua influência tornou-se considerável na política de sua época e, segundo Ravenscroft, "ele foi a figura central em todo o mal que se praticou então".

O Imperador Luiz II conferiu-lhe posto que o situava como a terceira pessoa no seu reino, e concedeu-lhe honrarias e poderes de toda a sorte. Landulf teria passado muitos anos no Egito, onde estudou magia negra e astrologia. Aliou-se secretamente aos árabes que, apesar de dominarem a Sicília, respeitaram seu castelo, em Carlata Belota, na Calábria. Nesse local sinistro, onde se situara no passado um templo dedicado aos mistérios, Landulf exercia livremente suas práticas horríveis e perversas que, segundo Ravenscroft, deram-lhe a merecida fama de ser o mais temido feiticeiro do mundo. Finalmente, o homem que o Imperador Luiz II queria fazer Arcebispo de Cápua, depois de elevá-la à condição de cidade metropolitana, foi excomungado em 875, quando sua aliança com o Islam foi descoberta.

Ravenscroft informa logo a seguir que, a seu ver, ninguém conseguiu exceder Wagner em inspiração, quando este coloca, na sua ópera, a figura de Klingsor ( ou seja, Landulf) como um mago a serviço do Anticristo.

Aliás, muitas são as referências ao Anticristo no livro do autor inglês, em conexão com a trágica figura de Adolf Hitler. Ainda veremos isto.

Guiado pela sua intuição, Wagner transpôs para o terreno da arte, na sua genial ópera, o objetivo de Klingsor e seus adeptos, que era "cegar as almas por meio da perversão sexual e privá-las da visão espiritual, a fim de que não pudessem ser guiadas pelas hierarquias celestiais". Essa atividade maligna Landulf desenvolveu em seu tempo e suas horríveis práticas teriam exercido "devastadora influência nos líderes seculares da Europa cristã", conforme Ravenscroft.

Mas Hitler acreditava-se também uma reencarnação de Tibério, um dos mais sinistros dos Césares. É fato sabido hoje que ele tentou adquirir ao Dr. Axel Munthe, autor de O Livro de San Michele, a ilha deste nome, que, em tempos idos fora o último reduto de Tibério, que lá morreu assassinado. O Dr. Munthe se recusou a vender a ilha porque ele próprio acreditava ter sido Tibério, o que não parece muito congruente com a sua personalidade.

Aliás, as especulações ocultistas (usemos a palavra) dos líderes nazistas estão cheias de fenômenos psíquicos e de buscas no passado. Goering dizia, com orgulho, que sempre se encarnou ao lado do Führer. Ao tempo de Landulf, ele teria sido o Conde Boese, amigo e confidente do príncipe feiticeiro, e no século XIII fora Conrad de Marburg, amigo íntimo do bispo Klingsor, de Wartburg. Goebbels, o ministro da Propaganda nazista, acreditava-se Ter sido Eckbert de Meran, bispo de Bamberg, no século XIII, que teria apresentado Klingsor ao rei André da Hungria.2

Se essas encarnações estão certas ou não, não cabe aqui discutir, mas tais especulações evidenciam o interesse daqueles homens pelos mistérios e segredos das leis divinas, que precisavam conhecer para melhor desrespeitar e burlar. Por outro lado, contêm alguma lógica, quando nos lembramos de certos aspectos que a muitos passam despercebidos. Muitos espíritos reencarnaram-se com o objetivo de infiltrarem-se nas hostes daqueles que pretendem combater, seja para destruir, seja para se apossarem da organização, sempre que esta detenha alguma parcela substancial de poder. Não seria de admirar-se, pois que um grupo de servidores das trevas, com apoio das trevas, aqui e além, fosse alçado a postos de elevada influência entre a hierarquia cristã da época, quando a Igreja desfrutava de incontestável poder. O papado não esteve imune – longe disso - e por várias vezes caiu em mãos de mal disfarçados emissários de Anticristo.

Lembremos outro pequeno e quase imperceptível pormenor. Recorda-se o leitor daquela observação veiculada por um benfeitor espiritual que relatou haver sido traçada, no mundo das trevas, a estratégia do sexo desvairado, a fim de desviar os humanos dos caminhos retos da evolução? Sexo transviado e magia negra são aliados constantes, ingredientes do mesmo caldo escuro, onde se cultivam as paixões mais torpes. Quantos não se perderam por ai...

1 Hitler era austríaco. Nasceu em 20 de abril de 1889, na encantadora vila de Braunau-am-Inn, onde também nasceram os famosos médiuns Willy e Rudi Scheider.

2 Segundo apurou Ravenscroft, esse Bispo Klingsor seria o Conde de Acerra, também de Cápua, um tipo sinistro, profundamente envolvido em magia negra e que, como Landulf, séculos antes, reuniu em torno de si um círculo de adeptos que incluía eminentes personalidades eclesiásticas da época. Afirma, ainda, o autor que foi nesse grupo que se concebeu o medonho monstro da Inquisição.

O Médium do Anticristo II

Alfred Rosemberg, o futuro teórico do nazismo, era então o profeta do Anticristo e se incumbia de questionar os Espíritos manifestantes. Ravenscroft afirma que teria sido Rosemberg quem pediu a presença da própria Besta do apocalipse, que na sua opinião(de Rovenscroft), sem dúvida dominava o corpo e a alma de Adolf Hitler, através das óbvias faculdades mediúnicas deste.

Essa manifestação do Anticristo em Hitler foi assegurada por mais de uma pessoa, além do lúcido e tranqüilo Dr. Walter Johannes Stein. Um desses foi outro estranho caráter, por nome Houston Stewart Chamberlain, um inglês que se apaixonou pela Alemanha e pela causa nazista. Ravenscroft classifica-o como genro de Wagner e profeta do mundo pangermânico. Também escrevia suas teses anti-racistas em transe, segundo atestou nada menos que o eminente General Von Moltke, de quem ainda diremos algo importante daqui a pouco Chamberlain era considerado um digno sucessor do gênio de Friederich Nietzsche e, segundo o próprio Hitler, em "Mein Kampf", "um dos mais admiráveis talentos na história do pensamento alemão, uma verdadeira mina de informações e de idéias". Foi quem expandiu as idéias de Wagner, desvirtuando-as perigosamente, ao pregar a superioridade da raça ariana. Segundo testemunho de Von Moltke, Chamberlain evocou inúmeros vultos desencarnados da história mundial e confabulou com eles. Que era uma inteligência invulgar, não resta dúvida. Os poderes das trevas escolheram bem seus emissários. Enganam-se, também, redondamente, aqueles que consideram Hitler um doido inconseqüente que tentou, na sua loucura, botar fogo no mundo. A julgar por todas essas revelações que ora nos chegam ao conhecimento, ele sabia muito bem o seu papel em todo esse drama. Recebeu uma fatia de poder a troco de certa missão muito específica.

No domínio do mundo, se o tivesse conseguido, ele continuaria a desfrutar de posição "invejável", como prêmio a um trabalho "bem feito". Ainda bem que falhou, pois a amostra foi terrível.

Como se explicaria, sem esse apoio maciço de espíritos encarnados e desencarnados, que um jovem pintor sem êxito, pobre, abandonado à sua sorte, rejeitado pela sociedade, tenha conseguido montar o mais tenebrosos instrumento de opressão que o mundo já conheceu? Como se explicaria que seu partido tenha emergido de um pequeno grupo político, falido e obscuro, senão que os Espíritos seus amigos o indicaram como sendo o primeiro degrau de escada que o levaria ao poder?

Hitler ainda se aprofundaria muito mais nos mistérios da sua missão tenebrosa. Precisava receber instruções mais específicas, e , como sabemos, tudo se arranja para que assim seja. A hora chegaria, no momento exato, com a pessoa já programada para ajudá-la. Um desses homens chamou-se Dietrich Eckhart.

Sua história á algo fantástico, mas vale a pena passar ligeiramente sobre ela, a fim de entendermos seu papel junto a Hitler, que, antes de encontrar-se com Eckhart, fizera apenas preparativos para o vestibular da magia e do ocultismo.

Dietrich Eckhart era um oficial do exército, de aparência afável e jovial e, ao mesmo tempo, no dizer de Ravenscroft, "dedicado satanista, o supremo adepto das artes e dos rituais da magia negra e a figura central de um poderoso e amplo círculo de ocultistas – O Grupo Thule".

Foi um dos setes fundadores do partido nazista, e, ao morrer, intoxicado por gás de mostarda, em Munich, em dezembro de 1923, disse, exultante:

Sigam Hitler! Ele dançará, mas a música é minha. Iniciei-o na "Doutrina Secreta", abri seus centros de visão e dei-lhe os recursos para se comunicar com os Poderes. Não chorem por mim: terei influenciado a História mais do que qualquer outro alemão.

Suas palavras não são mero delírio de paranóico. Há muito, nas suas desvairadas práticas mediúnicas, havia recebido "uma espécie de anunciação satânica de que estava destinado a preparar o instrumento do Anticristo, o homem inspirado por Lúcifer para conquistar o mundo e liderar a raça ariana à glória".

Quando Adolf Hitler lhe foi apresentado, ele reconheceu imediatamente o seu homem, e disse para seus perplexos ouvintes:

- Aqui está aquele de quem eu fui apenas o profeta e o precursor.

Coisas espantosas se passaram no círculo mais íntimo e secreto do Grupo Thule, numa série de sessões mediúnicas (Ravenscroft chama-as, indevidamente, de sessões espíritas...), das quais participavam dois sinistros generais russos e outras figuras tenebrosas.

A médium, descoberta por certo Dr. Nemirocitch-Dantchenko, era uma pobre ignorante camponesa, dotada de variadas faculdades. Expelia pelo órgão genital enormes quantidades de ectoplasma, do qual se formavam cabeças de entidades materializadas que, juntamente com outras, incorporadas na médium, transmitiam instruções ao círculo de "eleitos".

Certa manhã de setembro de 1912, Walter Stein e seu jovem amigo Adolf Hitler subiram juntos as escadarias do museu Hofburg. Em poucos minutos encontravam-se diante da Lança de Longinus, posta, como sempre, no seu estojo de desbotado veludo vermelho. Estavam ambos profundamente emocionados, por motivos diversos, é claro, mas, seja como for, o disparador daquelas emoções era a misteriosa lança. Dentro em pouco, Hitler parecia Ter passado a um estado de transe, "um homem – segundo Ravenscroft – sobre o qual algum espantoso encantamento mágico havia sido atirado" . Tinha as faces vermelhas e seus olhos brilhavam estranhamente. Seu corpo oscilava, enquanto ele parecia tomado de inexplicável euforia.

Toda a sua fisionomia e postura – escreve Rovenscroft, que ouviu a narrativa do próprio Stein – pareciam transformadas, como se algum poderoso Espírito habitasse agora a sua alma, criando dentro dele e à sua volta uma espécie de transfiguração maligna de sua própria natureza e poder.

Walter Stein pensou com seus botões: Estaria ele presenciando uma incorporação do Anticristo?

É difícil responder, mas é certo que terrífica presença espiritual ali estava mais do que evidente. Inúmeras outras vezes, em todo o decorrer de sua agitada existência, testemunhas insuspeitas e desprevenidas haveriam de notar fenômenos semelhantes de incorporação, especialmente quando Hitler pronunciava discursos importantes ou tomava decisões mais relevantes.

Ao narrar o fenômeno a Ravenscroft, 35 anos depois, o Dr. Stein diria que:

-...Naquele instante em que pela primeira vez nos postamos juntos, de pé, ante a Lança de Longinus, pareceu-me que Hitler estava em transe tão profundo que passava por uma privação quase completa de seus sentidos e um total eclipse de sua consciência.

Hitler sabia muito bem da sua condição de instrumento de poderes invisíveis. Numa entrevista à imprensa, documentou claramente esse pensamento, ao dizer:

Movimento-me como um sonâmbulo, tal como me ordena a Providência.

Havia nele súbitas e tempestuosas mudanças de atitude. De uma placidez fria e meditativa, explodia, de repente, em cólera, pronunciando, alucinadamente, uma torrente de palavras, com emoção e impacto, especialmente quando a conversa enveredava pelos temas políticos e raciais. Stein presenciou cenas assim no velho café em que costumava encontrar-se com seu amigo, em Viena, ali por volta de 1912/1913. Passada a explosão, Hitler recolhia-se novamente ao seu canto, como se nada tivesse ocorrido.

Naqueles estados de exaltação, transformava-se o seu modo de falar e sua palavra alcançava as culminâncias da eloqüência e da convicção. Era como se um poder magnético a elas se acrescentasse, de tal forma que ele facilmente dominava seus ouvintes. Seus próprios companheiros notariam isso mais tarde, em várias oportunidades.

Ao se ouvir Hitler – escreveu Gregor Strasser, um ex-nazista – tem-se a visão de alguém capaz de liderar a humanidade à glória. Uma luz aparece numa janela escura. Um homem com um bigode cômico transforma-se em arcanjo. De repente, o arcanjo se desprende e lá está Hitler sentado, banhado em suor, com os olhos vidrados.

Tudo fora muito cuidadosamente planejado e executado, inclusive com os sinais identificadores, para que ninguém tivesse dúvidas. Nas trágicas sessões mediúnicas do Grupo Thule, fora anunciado que o Anticristo se manifestaria depois que seu instrumento passasse por uma ligeira crise de cegueira. Isto se daria ali por volta de 1921, e seu médium teria, então, 33 anos.

Aos 33 anos de idade, em 1921, depois de recuperado de uma cegueira temporária, Hitler assumiu a incontestável liderança do Partido Nacional Socialista, que o levaria ao poder supremo na Alemanha, e, quase, no mundo.

De tanto investigar os mistérios e segredos da história universal, em conexão com os poderes invisíveis, Hitler se convenceu de realidades que escapam à maioria dos seres humanos. A história é realmente o reflexo de uma disputa entre a sombra e a luz, representadas, respectivamente, pelos Espíritos que desejam o poder a qualquer preço e por aqueles que querem implantar na Terra o reino de Deus, que anunciou o Cristo.

Hitler sabia, por exemplo, que os Espíritos trabalham em grupos, segundo o seus interesses e por isso se reencarnam também em grupos, enquanto seus companheiros permanecem no mundo espiritual – na sombra ou na luz, conforme seus propósitos – apoiando-se mutuamente. Não é à toa que Göering e Goebbels, como vimos, reconheciam-se como velhos companheiros de Hitler. Este, por sua vez, estava convencido de que um grupo enorme de Espíritos, que se encarnara no século IX, voltara a encarna-se no século XX. O notável episódio ocorrido com o eminente General Von Moltke parece confirmar essa idéia.

Vamos recordá-lo, segundo o relato de Ravenscroft.

Foi ainda na Primeira Guerra Mundial. No imenso e trágico tabuleiro de xadrez em que se transformara a Europa, havia um plano militar secreto, sob o nome de Plano Schlieffen, que previa a invasão da França através da Bélgica, antes que a Russia estivesse em condições de entrar em ação.

Helmuth Von Moltke era Chefe do Estado-Maior do Exército Alemão, sob o Kaiser. Coube-lhe a responsabilidade de introduzir alguns aperfeiçoamentos no plano e aguardar o momento de pô-lo em ação, se e quando necessário. O momento chegou em junho de 1914. Jogava-se a sorte da Europa. Von Moltke passou a noite em claro, na sede do Alto Comando, tomando as providências de última hora para que o plano entrasse em ação imediatamente. Estudava mapas, expedia ordens, conferenciava com seus oficiais. O destino de sua pátria estava em suas mãos e ele sabia disso. No auge da atividade, o eminente General perdeu os sentidos sobre a mesa de trabalho. Parecia Ter tido um enfarte. Chamaram um médico, enquanto seus camaradas, muito apreensivos depositavam o seu corpo no sofá.

Nenhuma doença foi diagnosticada. Na verdade, Von Moltke estava em transe. Sua metódica e brilhante inteligência não previra a interferência da mão do destino, como diz Ravenscroft. Ou seria a mão de Deus?

Julgou-se, a princípio, que o poderoso General estivesse morrendo. Mal se percebia sua respiração e o coração apenas batia o necessário para manter a vida; olhos abertos vagavam, apagados, de um lado para outro. O eminente General Helmuth Von Moltke estava experimentando uma crise espontânea de regressão de memória, durante a qual em vívidas imagens que se desdobravam diante de seus olhos espirituais, ele se viu como um dos Papas do século IX, Nicolau I, o Grande, que a Igreja canonizou. Há estranhas "coincidências" aqui. Segundo os historiadores, Nicolau ascendeu ao trono papal mais por influência do Imperador Luis II do que pela vontade do clero. Lembra-se o leitor de que Luiz II foi o mesmo que protegeu o incrível Landulf, príncipe de Cápua? E que Landuf, um milênio depois, seria Adolf Hitler?

Nicolau foi um papa enérgico e brilhante. Governou somente nove anos incompletos, de 858 a 867, mas teve de tomar decisões momentosas e que exerceram profunda influência na História. Foi no seu tempo que se definiu mais nitidamente a tendência separatista entre as igrejas do ocidente e a do oriente. Foi ele quem elevou a novas culminâncias a doutrina da plenitude do poder papal. Segundo seu pensamento, o imperador era apenas um delegado, incumbido do poder civil.

Enquanto essas vivências desfilavam diante de seus olhos, Von Moltke, ainda estendido no sofá, vivia a curiosa experiência de estar situado entre duas vidas; separadas por mil anos. Em torno dele, entre as ansiosas figuras de seus generais, ele identificava alguns de seus antigos cardeais e bispos. Uma das personalidades que ele também identificou naquele desdobramento foi a de seu tio, o ilustre Marechal- de- Campo, também chamado Helmuth Von Moltke, o maior estrategista de sua época e que lutou na guerra de 1870. Fora também uma das poderosas figuras medievais, o Papa Leão IV, o chamado pontífice-soldado, que organizou a defesa de Roma e comandou seus próprios exércitos.

Outra figura identificada foi o General Von Schlieffen, autor do famoso plano Schlieffen, que também experimentara as culminâncias do poder papal, sob o nome de Bento II.

Ao despertar de sua singular experiência com o tempo, o General Von Moltke estava abalado até às raízes de seu ser. Caberia a ele, um ex-Papa, deslanchar todo aquele plano de destruição e matança? Se não o fizesse, o que aconteceria à sua então pátria?

Diz Ravenscroft que, após se reformas, Von Moltke escreveu minucioso relato daquela experiência notável. Também ele se deixou envolver pelo misterioso fascínio da Lança de Longinus, que certa vez visitou em companhia de outro General, seu amigo; e, segundo o escritor inglês, conseguiu apreender o verdadeiro sentido e importância daquela peça, "como um poderoso símbolo apocalíptico".

Acreditava ele que se deveram à sua própria atitude negativa, como Nicolau I, em relação ao intercâmbio com o mundo espiritual, os trágicos desenganos que se sucederam na História subseqüente, a começar pela separação da cristandade em duas e o progressivo abandono da realidade espiritual em favor das doutrinas materialistas, que "virtualmente aprisionaram a criatura no mundo fenomênico da medida, do número, do peso, tornando a própria existência da alma humana objeto de dúvida e debate" (Ravenscroft).

Por isso tudo, ao se erguer do sofá, Von Moltke era outra criatura. Como explicar tudo aquilo aos seus companheiros? Que decisões tomar agora, na perspectiva do tempo e dos lamentáveis enganos que havia cometido no passado, em prejuízo do curso da História? Parece, no entanto, que não dispunha de alternativa. Como Longinus, tinha de praticar um ato de aparente violência, para contornar uma crueldade maior. Tudo continuou como fora planejado, mas o Chefe do Estado-Maior não continuou como fora. Aliás, ao ser elevado àquela posição pela sua inesgotável e indiscutível capacidade profissional, houve dúvidas, em virtude do seu temperamento meditativo e tranqüilo. Seria realmente um bom General no momento de crise que exigisse decisões drásticas? Era o que se perguntavam seus adversários, mesmo reconhecendo sua enorme autoridade técnica. Ao se retirar do comando, diz Ravenscroft que ele era um homem arrasado, porque mais do que nunca estava consciente da tragédia de viver num mundo em que a violência e a matança pareciam ser os únicos instrumentos capazes de "despertar a humanidade para as realidades espirituais".

Após a sua desencarnação, em 1916, com 68 anos de idade, Von Moltke passou a transmitir uma série de comunicações através da mediunidade de sua esposa Eliza Von Moltke. Ah! que documento notável deve ser esse! Foi numa dessas mensagens que o Espírito do antigo Chefe do Estado-Maior informou que o Führer do Terceiro Reich seria Adolf Hitler, àquela época um obscuro e agitado político, aparentemente sem futuro. Foi também ele que, em Espírito, confirmou a antiga encarnação de Hitler como Landulf de Cápua, o terrível mágico medieval que vinha agora repetir, nos círculos mais fechados do Partido, os rituais de magia negra, cujo conhecimento trazia nos escaninhos da memória integral.

Faltavam ainda algumas peças importantes para consolidar as conquistas do jovem Hitler, mas todas elas apareceriam no seu devido tempo e executariam as tarefas para as quais haviam sido rigorosamente programadas nos tenebrosos domínios do mundo espiritual inferior. O General Eric Ludendorff seria uma delas. Von Moltke identificou-o com outro papa medieval, que governou sob o nome de João VIII, que Ravenscroft classifica como "o pontífice de mais negra memória que se conhece em toda a história da Igreja Romana, que, como amigo de Landulf de Cápua, ajudou-o nas suas conspirações no século IX". Novamente, sob as vestes de Eric Ludendorff, o antigo Papa daria a mão para alçar Landulf (agora Adolf) ao poder.

Outro elemento importante, nessa longa e profunda reiniciação de Hitler, foi Karl Haushofer, que, no dizer de Ravenscroft, "não apenas sentiu o hálito da Besta Apocalíptica 3 no controle do ex-cabo demente, mas também buscou, conscientemente e com maligna intenção, ensinar a Hitler como desatrelar seus poderes contra a humanidade, na tentativa de conquistar o mundo".

É um tipo estranho e mefistofélico esse Haushofer, mas, se fôssemos aqui estudar todo o elenco de extravagantes personalidades que cercaram Hitler, seria preciso escrever outro livro.

Diz, porém, Ravenscroft que foi Haushofer quem despertou em Hitler a consciência para o fato de que operavam nele as motivações da " Principalidade Luciferina", a fim de que "ele pudesse torna-se veículo consciente da intenção maligna no século vinte". (destaque do autor)

Vejamos mais um episódio.

Em 1920, era tão patente, através da Alemanha, essa expectativa messiânica, que foi lançado na Universidade de Munich um concurso de ensaios sobre o tema seguinte: "Como deve ser o homem que liderará a Alemanha de volta às culminâncias de sua glória?" O vultoso prêmio em dinheiro foi oferecido por um milionário alemão residente no Brasil (não identificado por Ravenscroft) e quem o ganhou foi um jovem chamado Rudolf Hess que, em tempos futuros, seria o segundo homem da hierarquia nazista! Sua concepção desse messias político guarda notáveis similitudes com a figura do Anticristo descrita nos famosos (e falsos) "Protocolos do Sião", segundo Ravenscroft.

Consta que Hitler considerava Rudolf Steiner, o místico, vidente e pensador austríaco como seu arquiinimigo. Segundo informa Ravenscroft, Steiner, em desdobramento espiritual, penetrava, conscientemente, os mais secretos e desvairados encontros, onde se praticavam rituais atrozes para conjurar os poderes que sustentavam a negra falange empenhada no domínio do mundo.

Que andaram muito perto dessa meta, não resta dúvida. Conheciam muito bem a técnica do assalto ao poder sobre o homem, através do próprio homem. Hugh Trevor-Roper, no seu livro "The Last Days of Adolf Hitler", transcreve uma frase do Führer, que diz o seguinte:

Não vim ao mundo para tornar melhor o homem, mas para utilizar-me de suas fraquezas.

Estava determinado a cumprir sua missão a qualquer preço.

- Jamais capitularemos – disse, certa vez, repetindo o mesmo pensamento de sempre. – Não. Nunca. Poderemos ser destruídos, mas, se o formos, arrastaremos o mundo conosco – um mundo em chamas.

Muito bem. É tempo de concluir. Por exemplo, o que aconteceu com a Lança de Longinus? Continua no Museu de Hofburg, em Viena, para onde foi reconduzida após novas aventuras. Primeiro, Hitler tomou posse dela, ao invadir a Austria, em 1938 e lançou-a para a Alemanha, cercada de tremendas medidas de segurança. Lá ficou ela em exposição, guardada dia e noite, pelos mais fiéis nazistas. Quando a situação da guerra começou a degenerar para o lado alemão, construiu-se secretíssima e inviolável fortaleza subterrânea para guardá-la. Apenas meia dúzia de elevadas autoridades do governo sabiam do plano. Uma porta falsa de garagem disfarçava a entrada desse vasto e sofisticado cofre-forte, em Nüremberg, que o Führer ordenou fosse defendido até à última gota de sangue.

Quando se tornou evidente que o Terceiro Reich se desmoronava de fato, ante o avanço implacável das tropas aliadas, Himmler achou que a Lança de Longinus precisava de um abrigo alternativo. Uma série de providências foi propaganda, com uma remoção fictícia, para um ponto não identificado da Alemanha; e outra, verdadeira, sob o véu do mais fechado segredo, para um novo esconderijo, onde o talismã do poder ficaria a salvo dos inimigos do nazismo.

Por uma dessas misteriosas razões, no entanto, um dos cinco ou seis oficiais nazistas que sabiam do segredo, ao fazer a lista das peças que deveriam ser removidas, mencionou a Lança de Mauritius, aliás, o nome oficial da peça. Acontece que, entre as peças históricas do Reich, havia uma relíquia de nome parecido, ou seja, "A Espada de Mauritius", e esta foi a peça transportada, e não a Lança de Longinus. Na Confusão que se seguiu, ninguém mais deu pelo engano, e o oficial que o cometeu, um certo Willi Liebel, suicidou-se pouco antes do colapso total do Reich. A essa altura, Nüremberg não era mais que um monte de ruínas e, por outro estranho jogo de "coincidências", um soldado americano. Perambulando pelas ruínas, descobriu um túnel que ia dar em duas portas enormes de aço com um mecanismo de segredo tão imponente como o das casas-fortes dos grandes bancos mundiais. Alguma coisa importante deveria encontrar-se atrás daquelas portas. E assim, às 14h10m do dia 30 de abril de 1947, a legítima Lança de Longinus passou às mãos do exército americano.

Naquele mesmo dia, como se em cumprimento de misterioso desígnio, Hitler suicidou-se nos subterrâneos da Chancelaria, em Berlim.

Como ficou dito atrás, a Lança de Longinus encontra-se novamente no Museu Hofburg, em Viena. Estará à espera de alguém que venha novamente disputar a sua posse para dominar o mundo?

Vejamos, para encerrar, algumas considerações de ordem doutrinária.

Haverá mesmo algum poder mágico ligado aos chamados talismãs?

Questionados por Allan Kardec ( perguntas 551 a 557), os Espíritos trataram sumariamente da questão, ensinando, porém, que "Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes só são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais".

Continuando, porém, a linha do seu pensamento, Kardec insistiu, com a pergunta 554, formulada da seguinte maneira:

Não pode aquele que, com ou sem razão, confia no que chama a virtude de um talismã, atrair um Espírito, por efeito mesmo dessa confiança, visto que, então, o que atua é o pensamento, não passando o talismã de um sinal que apenas lhe auxilia a concentração?

É verdade - respondem os Espíritos – mas da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos depende a natureza do espírito que é atraído.

Os destaques são meus e a resposta à pergunta 554 prossegue, abordando outros aspectos que não vêm ao caso tratar aqui. Nota-se, porém, que os espíritos confirmaram que os chamados talismãs servem de condensadores de energia e vontade, e podem, portanto, servir de suporte ao pensamento daquele que deseja atrair companheiros desencarnados para ajudá-lo na realização de seus interesses pessoais. Disseram mais: que os Espíritos atraídos estarão em sintonia moral com aqueles que os buscam, ou seja, se as intenções e os sentimentos forem bons, poderão acudir Espíritos bondosos; se, ao contrário, as intenções forem malignas, virão os Espíritos inferiores.

Por toda parte, no livro de Trevor Ravenscroft, há referências repetidas de que duas ordens de Espíritos estão ligadas à mística da Lança de Longinus: os da luz e os das trevas, segundo as intenções de quem os evoca.

Além disso, é preciso lembrar que os objetos materiais guardam, por milênio a fora, certas propriedades magnéticas, que preservam a sua história. Essas propriedades estão hoje cientificamente estudadas e classificadas como fenômenos de psicometria, tão bem observados, entre outros, por Ernesto Bozzano. Médiuns psicômetras, em contato com objetos, conseguem rever, às vezes com notável nitidez, cenas que se desenrolaram em torno da peça de ferro deve estar altamente magnetizada pelos acontecimentos de que foi testemunha, desde que foi forjada alhures nos tempos bíblicos, passando pelo momento do Calvário, diante do Manso Rabi agonizante, até que Hitler a perdeu em abril de 1945.

Seja como for, a peça reúne em torno de si uma longa e trágica história, tão fascinante que tem incendiado, através dos séculos, a imaginação de muitos homens poderosos e desatado muitas paixões nefandas. E, como explicaria os Espíritos a Kardec, não é a Lança por si mesma que move os acontecimentos, é o pensamento dos homens que se concentram nela e querem a todo preço fazer valer o poder que se lhe atribui. Nisso, ela é realmente um talismã.

Ainda uma palavra antes de encerrar.

É certo que Hitler foi médium dedicado e desassombrado de tremendos poderes das trevas. Esses irmãos desarvorados, que se demoram, por milênios sem conta, em caliginosas regiões do mundo espiritual, por certo não desistiram da aspiração de conquistar o mundo e expulsar a luz para sempre, se possível. Tudo farão para obter esse galardão com o qual sempre sonharam, muito embora a nós outros não nos assista o direito de duvidar de que lado ficará a vitória final.

Nesse ínterim, porém valer-se-ão de todos os meios, de todos os processos, para alcançarem seus fins.

É claro, também, que não se empenham apenas no setor político-militar, por exemplo como Hitler, mas, também procuram conquistar organizações sociais e religiosas que representem núcleos de poder. É evidente a obra maligna e hábil que se realizou com a Igreja, infiltrando-a em várias oportunidades e em vários pontos geográficos, mas sempre nos altos escalões hierárquicos, de onde melhor podem influenciar os acontecimentos e a própria teologia.

O movimento espírita precisa estar atento a essas investidas, pois é muito apurada a técnica da infiltração. O lobo adere ao rebanho sob a pele do manso cordeiro; ele não pode dizer que vem destruir, nem pode apresentar-se como inimigo; tem de aparecer com um sorriso sedutor, de amizade e modéstia, uma atitude de desinteresse e dedicação, um desejo de servir fraternalmente, sem condições e, inicialmente, sem disputar posições. Muitas vezes, esses emissários das sombras nem sabem, conscientemente, que estão servindo de instrumentos aos amigos da retaguarda. A sugestão pós-hipnótica foi muito bem aplicada por Espíritos altamente treinados na técnica da manipulação da mente alheia. É a utilização da fraqueza humana de que falava Hitler.

A estratégia é brilhantíssima e extremamente sutil, como, por exemplo, a da "atualização" e da "revisão" das obras básicas da Codificação, a da criação de movimentos paralelos, o envolvimento de figuras mais destacadas no movimento em ardilosos processos de aparência inocente ou inócua. Estejamos atentos, porque os tempos são chegados e virão, fatalmente, vigorosas investidas, antes que chegue a hora final, numa tentativa última, desesperada, para a qual valerá tudo. Muita atenção. Quem suspeitaria de Adolf Hitler, quando ele compareceu, pela primeira vez, a uma reunião de meia dúzia de modestos dirigentes do Partido dos Trabalhadores?

Para saber mais (1)

Estranha era a personalidade do futuro chefe nacional do nazismo, e duas pessoas, pelo menos, o conheceram bem nesses anos de formação e busca.

Um deles chamou-se August Kubizek e escreveu um livro sob o título O jovem Hitler – A história de nossa amizade; outro foi Walter Johannes Stein, cientista e doutor em filosofia, nascido em Viena e que mais tarde emigrou para a Inglaterra, onde morreu.*

A personalidade de Hitler parece oferecer inesgotável manancial de sugestões para os mais variados temas. Poucos livros, no entanto, serão tão fascinantes como The Spear of Destiny ( A Lança do Destino), do escritor inglês Trevor Ravenscroft, amigo pessoal do Dr. Stein, jornalista e professor de História em Londres e Edinburgh. Ravenscroft estudou o assunto Hitler durante 12 anos, parte dos quais sob a orientação do Dr. Stein. Seu livro é, pois, um documentário e não uma narrativa romanceada.

Não é fácil escolher, em obra tão densa e rica, o material a ser comentado num mero artigo como este. Tentaremos.

* O Dr. Walter Johannes Stein exerceu, na Inglaterra, o elevado cargo de Assessor Especial do Primeiro Ministro Winston Churchill para assuntos relacionados com a personalidade de Hitler. Além de sua vasta cultura, era homem de excelentes padrões morais.

Para saber mais (2)

Segundo conta Ravenscroft, a lança teria sido forjada por ordem do antigo profeta Finéias para simbolizar os poderes mágicos inerentes ao sangue do povo eleito*. A lança já era, pois, antiga, quando Josué a teria nas mãos, ao ordenar aos soldados que emitissem aquele som terrível que fez ruir os muros de Jericó. Diz-se que essa mesma lança o rei Saul atirou sobre o jovem David num impulso de cólera e ciúme. Herodes, o Grande, também teve em seu poder esse talismã, quando determinou o massacre das crianças. Foi como mandatário de seu sucessor, Herodes Antipas, que governou do ano 4 antes do Cristo até 39 da nossa era, que um oficial empunhou a lança, como símbolo da autoridade, com ordens de quebrar as pernas de Jesus crucificado.

Ao chegar à cena o contingente de guardas do templo, os soldados romanos deram às costas, enojados, enquanto os vassalos do Sumo-Sacerdote quebravam o crânio e as pernas dos dois ladrões sacrificados lateralmente ao Cristo.

Gaius Cassius era, ao que apurou Ravenscroft, de origem germânica e foi afastado do serviço ativo por causa da catarata que atacou seus olhos. Enviado a Jerusalém, ali ficou como observador dos movimentos políticos e religiosos da Palestina. Durante dois anos, acompanhou a atividade de Jesus e, depois, seguiu o doloroso processo da execução do profeta, que diziam ameaçar a autoridade de Roma. Impressionou-o a coragem e a dignidade com que o jovem pregador suportou o seu martírio. Por outro lado, entendiam os sacerdotes se indispensável mutilar seu corpo, pois era absolutamente essencial desmentir sua condição de Messias, uma vez que, segundo as escrituras, seus ossos não seriam quebrados (João 19:36). Gaius Cassius tão impressionado ficou com o tétrico espetáculo, de um lado, e com a grandeza do Cristo, de outro, que resolveu impedir que Jesus também fosse mutilado. E, assim, esporeou o cavalo na direção da cruz central e trespassou o tórax do crucificado, entre a Quarta e a Quinta costela, procedimento costumeiro dos soldados romanos quando desejavam verificar se o inimigo, ferido no campo de batalha, estava realmente morto. Não se sabe ao certo se Cassius tomou a lança da mão do comandante judeu, que a trazia em nome de Herodes, ou se usou sua própria lança. De qualquer forma, a legenda se criou e se consolidou. Gaius Cassius se converteu ao cristianismo e passou a chamar-se Longinus, nome com que continuou sua carreira através dos séculos. E a arma ficou sendo conhecida coma a lança de Longinus.

Diz-se dela que representa um talismã de poder tanto para o bem como para o mal, mas, ao que parece, somente tem sido usada como instrumento de conquista e opressão, pois pertenceu, depois, a Mauritius, comandante da Legião Tebana, que, com ela nas mãos, morreu martirizado por ordem de Maximiano, ao se recusar a adorar os deuses pagãos. Em solidariedade ao chefe, que morreu cristão, seus 6.666 legionários também se recusaram, ajoelharam-se e ofereceram o pescoço à espada. Maximiano decidiu pelo espantoso massacre, como oferenda aos seus deuses. Assim, a mais valorosa legião romana daquele tempo foi sacrificada numa chacina sem precedentes na História antiga.

Seria impossível retratar toda a história da lança, mas sabe-se que ela esteve em poder de Constantino, Teodósio, Alarico, Ecius, Justiniano, Carlos Martelo, Carlos Magno, Frederico Barba-Roxa e Otto, o Grande. Em que outras mãos teria ela estado e a que propósitos inconfessáveis serviu através do tempo?

É certo, no entanto, que quem a cobiçava naquela fria tarde de outono, em Viena, era um jovem que tinha a impressão viva de tê-la já possuído alhures, no tempo e no espaço.

* Não sei se é esse o Finéias, filho de Eleazar, mencionado em Números 25:7 e Juizes 20:28 ( nota do autor)

Texto, na íntegra, publicado no Reformador de Março e Abril de 1976.


texto - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/mediunidade/o-medium-do-anticristo.html

imagem - nazismopelosalemaes.blogspot.com

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O HOMEM MEDIÚNICO



Uma Visão do ser Humano para o Futuro

Prof Dr. Nubor Orlando Facure


Carl Von Linné (1707-1778), médico e naturalista sueco publicou em 1740 a primeira edição da sua obra genial “Sistema da Natureza” introduzindo o método de classificação binária (gênero e espécie) dos seres vivos. Sua atividade científica iniciou-se muito cedo com uma publicação aos 16 anos de um livro de botânica “As Núpcias das plantas” onde ele estudou o mecanismo de fecundação das flores.

Linné, no decorrer de sua vida publicou 180 obras de cunho científico dedicadas às Ciências Naturais. Ele trabalhou com auxiliares que enviou para “todos os cantos do mundo” a fim de lhe fornecerem material para a sua monumental classificação dos seres vivos e acreditava ter contado tantas espécies quantas foram criadas inicialmente por Deus.

Aristóteles, cerca de 400 anos antes de Jesus Cristo já havia feito uma classificação mais rudimentar na qual os seres vivos eram divididos em uma hierarquia de classes, sendo alguns superiores e outros de classe inferior estando o homem acima de todos. Tanto Aristóteles como Linné, acreditavam que as espécies eram imutáveis, que foram criadas com uma determinada aparência e assim permaneceriam sem qualquer mudança física. Só bem mais tarde, já no século XVIII, Charles Darwin estabeleceria os princípios da sua Teoria sobre a “evolução das espécies”.

Na classificação geral dos seres vivos o homem moderno é rotulado de Homo sapiens notando-se de antemão que a expressão “sapiens” dá um destaque privilegiado à sua inteligência.

Percorrendo os caminhos da Filosofia e da Ciência veremos que a preocupação sobre a natureza do ser humano é antiga e quase sempre esteve ligada à noção que o homem faz de si mesmo e, principalmente, do mundo onde está inserido. Para os sábios da antigüidade parecia, inicialmente, ser mais fácil estudar o ambiente externo do homem, incluindo aí todo o Universo visível na época, do que voltar-se para dentro de si mesmo e responder as suas indagações mais íntimas. Por muitos séculos o destino do homem e todas suas mazelas ou conquistas foram regidas pela disposição dos Astros no firmamento ou pelas expressões de grandeza das forças da Natureza. A Terra, o Fogo, o Ar e a Água foram tidos como as substâncias fundamentais de todo Universo e tanto a Vida como a Morte resultavam de suas transformações.

Na antiga Grécia, Sócrates, inicia o exercício da análise interior. Ensinava a primeira regra de identificação do ser Humano: “conheça-te a ti mesmo” e ditava aos seus discípulos que “o Homem é a sua Alma”.

Na Galiléia, a grandiosidade de Jesus sobrepujou o senso comum quando, referindo-se às nossas potencialidades, nos afirmou categórico, “sois deuses”. As interpretações humanas, distorceram e adaptaram a doutrina divina de Cristo aos interesses terrenos e percorreram os séculos da Idade Média alimentando o obscurantismo. Os dogmas religiosos foram se ajustando para se adequarem ao controle dos dominadores poderosos que não admitiam perder suas regalias. E, assim, a Religião que deveria consolar, esclarecer e libertar, escravizou e oprimiu. Construiu-se para Deus uma imagem antropomórfica. A Terra era tida como o centro do Universo e só aqui florescia a vida. O Homem era um ser espiritual destinado a temer a Deus e o seu corpo seria ressuscitado no final dos tempos. Estabeleceu-se uma hierarquia de falsos valores espirituais onde, determinadas pessoas, assumiam poderes especiais, por se considerarem possuidores do mandato de Deus para julgarem seus semelhantes, podendo perdoar ou condenar em nome deste Deus. A sociedade ficou dividida entre “cristãos” e “hereges” e esta diferença permitiu legalmente que campanhas de batalhas fossem organizadas para dizimar populações inteiras por não professarem o mesmo credo e, povos primitivos, com culturas seculares eram convencidos, à força, a mudarem seus costumes, afim de serem aceitos no céus que a Igreja postulava como único e verdadeiro. O Espírito prevalecia sobre o corpo, o que justificava as penitências ou os sacrifícios e, toda fisiologia do organismo, dependia da sua atuação. Esta doutrina assimilou os princípios de Galeno que se ajustavam muito bem às suas proposições.

Galeno foi um médico grego, que trabalhou em Roma para o Imperador Marco Aurélio entre os anos 170 e 200 da era cristã. Ele propunha que as funções do nosso organismo eram sustentadas pelos “pneumas” que faziam circular o sangue, movimentar os músculos e registrar os sentidos. O princípio fundamental da vida física era o “calor vital” que resultava da circulação do “pneuma” e sustentava a tenacidade dos organismos vivos. Esta doutrina prevaleceu por mais de 15 séculos sem que ninguém ousasse contestar Galeno.

As descobertas do Novo Mundo no século XVI ampliaram as terras conhecidas dando uma dimensão maior para as expressões da vida. Plantas novas, animais exóticos e povos estranhos exigiam uma revisão nos conceitos da condição humana na Terra. Nascem as primeiras intenções de se promover um conhecimento científico da Natureza através da observação direta ao invés de se admitir, sem contestação, as leis antigas impostas pelos eclesiásticos sem comprovações experimental.

Foram surgindo assim, os novos paradigmas para reinterpretarem os fenômenos naturais e a constituição do homem.

Giordano Bruno sugeriu a existência de uma substância única na constituição de todo Universo e afirmava que a Terra e o Sol não passariam de pequena parte de um Universo muito maior. No início de 1600 ainda prevalecia a intolerância religiosa e Giordano Bruno foi levado fogueira para se “evitar que este mal se propagasse”, sem que a Ciência avaliasse a importância da sua tese.

Galileu Galilei, introduziu os primeiros princípios da experimentação científica e propôs que todo fenômeno na natureza deveria ser quantificado através de medições, as quais seriam transformadas em formulações matemáticas para serem melhor compreendidas as leis que regulam a produção e as causas destes fenômenos. A fisiologia humana, obedecendo a este mesmo critério, começou a ser avaliada pela balança, o microscópio e o termômetro que passaram a fazer parte da instrumentação médica. Assim como um relógio de cordas, o corpo humano, viria a ser analisado em cada uma de suas partes para se identificar os mecanismos íntimos que faziam esta máquina funcionar.

Foi o anatomista André Vesálius quem em 1543 começou a desfazer os rígidos dogmas de Galeno. Ele iniciou o estudo do cadáver humano dissecando músculos, nervos , veias, cérebro e vísceras expondo cada uma de suas peças anatômicas com uma nova apresentação, revolucionando os conceitos da anatomia que ele denominou de “Fábrica Humana”.

Algumas décadas depois, Willian Harvey, levou até ao Rei Charles I, na Inglaterra, o coração de um cão que ele dissecara, conseguindo demonstrar que o sangue circulava pelas artérias e retornava pelas veias às custas do impulso motor provocado pela contração dos músculos do coração. Harvey, estava confirmando a possibilidade de se analisar o corpo humano como uma máquina, que, aos poucos, estava revelando cada um dos princípios mecânicos que punham este corpo em funcionamento.

A filosofia se vê então, obrigada a repensar o mundo e René Descartes, o grande filósofo francês, estabeleceu um novo paradigma. Ele defendia o direito de duvidar de tudo ensinando que apenas o pensamento é livre e sua existência não pode ser questionada. Afirmava de maneira emblemática na sua mais famosa frase, “penso, logo existo”. Descartes, separou o campo das coisas materiais, que denominou de “rés extensa”, do conteúdo da mente, que chamou de “rés cogitans”. Estabeleceu-se desde então, um princípio dualista, ao consolidar-se um mundo físico, independente da vida espiritual que o movimenta. O corpo separa-se da Alma e passa a ser motivo de estudo como qualquer outra máquina que o homem desmonta e torna a montar para conhecer seus mecanismos.

O filósofo Francis Bacon criou na Inglaterra em 1640, o método indutivo na investigação científica, estabelecendo uma nova relação entre causa e efeito. Todos os fenômenos naturais passam a ser compreendidos a partir da observação minuciosa que permite descobrir-se as leis que regem cada um deles. Ficam superadas as Teorias antigas baseadas na intuição ou nas deduções de racionalidade aparente mas, sem qualquer vínculo com a realidade que agora terá que ser quantificada pela observação.

O corpo humano acometido pela doença se transforma e degenera mas, a Ciência agora, usa o bisturi na cirurgia ou na necrópsia e começa pela observação minuciosa a revelar a extensão destas lesões. Giovani Morgani aos 22 anos de idade assombrou a medicina italiana esclarecendo a patologia humana que havia por traz de cada uma das doenças que analisava. Ele reunia os dados clínicos que colhia exaustivamente para depois estudar o cadáver em todas suas perturbações descobrindo a causa de cada uma das moléstias que estudava.

O naturalista Robert Hooke montou um conjunto de lentes criando o primeiro microscópio e consegui identificar num pequeno fragmento de cortiça a formação de um amontoado de lojas que mais tarde foram denominadas de células. A partir do uso do microscópio percebeu-se que plantas e animais e, na verdade, todos os seres vivos eram constituídos destas células que variavam enormemente de forma e tamanho para cada organismo estudado. Marcelo Malpighi usando um microscópio, descobriu pequenos vasos que promoviam a união das artérias com as veias completando o circuito da circulação que Willian Harvey havia descoberto. Faltavam serem descritos os capilares que Malpighi descubriu para se compreender como o sangue passava das artérias para as veias voltando ao coração sem necessidade do pneuma vital sugerido por Galeno.

O médico alemão Rudolf Virchow adquire renome em Berlim aos 36 anos de idade quando criou a primeira revista de anatomia patológica introduzindo o estudo microscópico na patologia, revolucionando, mais uma vez, o estudo no corpo humano, esclarecendo as causas e a natureza das doenças.

Os Alquimistas da Idade Média procuraram em vão descobrir o “Elixir da Juventude” e a “Pedra Filosofal” que permitiria transformar todos materiais em ouro. Suas experiências contribuíram para descobertas importantes na química que, Paracelsus, soube aproveitar empregando o antimônio, o mercúrio e o ouro como recursos terapêuticos com alguns casos de sucesso.

Paracelsus, ao introduzir a química na Medicina, estimula os estudos da digestão, da fermentação dos alimentos, da composição da saliva e dos líquidos do estômago. Inicia-se com a química a idéia da existência de um metabolismo celular que através da digestão poderia explicar o misterioso “fenômeno da vida”.

Nesta época, a Medicina ainda se debate no grande dilema entre a Ciência e a Alma, mas, a cada investigação nova, no entanto, os fenômenos naturais vão se revelando, cada vez mais, como processos químicos e mecânicos que podem ser medidos e reproduzidos nos laboratórios. Vai perdendo sentido a existência de uma “entidade imaterial” no domínio da fisiologia orgânica.

A descoberta das células na estrutura que tece cada um dos parênquimas de cada órgão, punha a descoberto a possibilidade de se compreender a fisiologia de todo organismo. A respiração passa a ser vista como uma troca de gases e o oxigênio foi revelado como fonte de sobrevivência. Os músculos ao se contraírem justificam, a força do coração que bombeia o sangue e a agilidade com que se contraem braços e pernas explicando os movimentos. A mecânica do relógio de cordas ou dos moinhos tinham muito a ver com o conceito de “máquina humana” que aos poucos vinham se revelando na fisiologia de cada uma de suas peças.

A visão mecanicista na compreensão dos fenômenos orgânicos se expandia com os instrumentos de medida e observação quando, na França, Claude Bernard, inicia uma nova fase ao introduzir a experimentação médica sistemática como meio de investigação dos fenômenos fisiológicos. A anatomia já se servira do estudo de animais para correlacionar seus dados com os achados no organismo humano. Agora, no laboratório, Claude Bernard trazia os coelhos que submetia à experiências e controles que lhe permitiram a descoberta da homeostasia. Demonstrou que o equilíbrio químico e hemodinâmico do organismo condiciona a harmonia da vida.

Em pleno século XVIII as propostas materialistas do Mecanicismo ainda não tinham conseguido afastar de vez a Alma da fisiologia humana. É por isto que George Stahl, mantém sua Teoria vitalista na base de todos fenômenos naturais. Os “fluidos” de Galeno são vistos agora como um “éter” que emana da Alma sustentando a vida. A circulação se mantém as custas de uma tonicidade das artérias e os músculos se contraem por força do livre arbítrio que a Alma escolhe e determina.

As linhas de pesquisa na Medicina se detinham e se aprofundavam nos aspectos materiais da anatomia e da fisiologia humana quando, a partir de 1784, a cidade de Viena é agitada pela atividade inusitada do famoso magnetizador Frans Anton Mesmer. Na sua Tese de doutorado, Mesmer, tinha defendido a atuação dos Astros na produção das doenças e propagava que esta influência era exercida por um “fluido” que penetrava todas as coisas. Mesmer chamou este elemento imaterial de “fluido magnético” e supunha que ele podia ser transferido de uma pessoa para outra. Na sua clínica, o Dr. Mesmer, dizia curar seus pacientes às custas da transmissão destes fluidos que ele conseguia mobilizar em seus pacientes.

Durante as aplicações do fluido magnético, Mesmer, produzia em suas pacientes um estado de agitação convulsiva e sonolência que ele chamou de “crise sonambúlica”. As pessoas que entravam nestas crises eram extremamente sensíveis ao comando de Mesmer e, mais tarde, seus discípulos vieram a confirmar, que a crise mesmérica era provocada, mais por sugestão, que pela ação do fluido magnético. Com Mesmer, estavam nascendo as primeiras experiências que, de alguma maneira, permitiam a investigação da mente humana nos domínio da sua intimidade. Certas pessoas se mostravam extremamente sensíveis à sugestão sendo predispostas a obedecer e executar atitudes e comportamentos sugeridos após despertarem da crise sonambúlica. Este fenômeno foi descoberto por um discípulo de Mesmer, o Marques de Puysègur, que o reconheceu como efeito de sugestão pós-sonambúlica.

Em Manchester, na Inglaterra, o Dr. James Braid publicou, em 1840, seus estudos sobre o mesmerismo concluindo que podia induzir a “crise” mantendo o paciente com o olhar preso a um objeto brilhante e com a atenção fixada em palavras repetidas pausadamente sugerindo relaxar e dormir. O Dr. Braid propunha que o sonambulismo descoberto por Mesmer, estaria relacionado diretamente com a atividade cerebral, tendo denominado este estado de “sono nervoso” ou hipnose.

O paciente sob hipnose pode receber sugestões e ficar livre de sintomas que o molestam ou de traumas psíquicos que o afetam. Aprofundando o transe ele pode ser submetido a cirurgia sem sentir dor e apresentar pouco sangramento quando cortado. Estas propriedades da hipnose foram percebidas desde o início da sua descoberta e, em meados do século passado, na França, numa clínica rural próximo a Nancy, um médico abnegado, o Dr. Liébeault, chegou a tratar por mais de vinte anos uma enorme clientela com a qual ele conseguia enorme sucesso aplicando as técnicas da hipnose. Nesta ocasião, começava a se destacar a eminente figura do neurologista francês, Jean Martin Charcot, que é tido como o fundador da neurologia francesa ao criar no Hospital de La Salpetriere, em Paris, a sua Escola Neurológica. Entre os seus assistentes encontravam-se Pierre Janet e Sigmund Freud cujos trabalhos vieram a ter grande repercussão na compreensão dos processos mentais. Por influência de Charles Richet, fundador da Metapsíquica e famoso fisiologista francês, o Dr. Charcot passou a se interessar por hipnose utilizando-a no tratamento de suas doentes portadoras de histeria. No quadro clínico da histeria podem ocorrer paralisias, anestesia e perda de fala que são totalmente revertidas através da sugestão hipnótica. A relação entre histeria e hipnose serviu de motivo para calorosa polêmica travada entre os médicos da Clinica de Nancy e o professor Charcot. Em Nancy afirmava-se que a hipnose seria uma condição humana possível de se provocar em qualquer pessoa, ao passo que na escola de Charcot acreditava-se que apenas a mulher histérica era passível de ser hipnotizada. No meio desta polêmica, Sigmund Freud, conhece a Clinica de Nancy e inicia com a hipnose seus primeiros estudos que resultaram no grande monumento da psicanálise. Conforme Freud e Pierre Janet puderam perceber, a histeria parecia provocar uma cisão na personalidade e a paciente perdia o controle dos seus atos.

Pierre Janet introduziu o conceito de automatismo psicológico, no qual, em certas circunstância, o psiquismo provocaria comportamentos ou atos motores automáticos. Neste grupo de manifestações, Janet, incluiu a catalepsia, a psicografia e relatos semiconsciente que ele denominou de vidas sucessivas. Estava diante de Janet, todo um material precioso de manifestações mediúnicas embora ele não o tenha conseguido identificar como sendo atividade espiritual ou, como teria dito Charles Richet, como manifestações de forças inteligentes estranhas ao ambiente.

Sigmund Freud, não se revelou um bom hipnotizador, tendo baseado seu diálogo terapêutico na livre associação, na análise dos sonhos, no significado dos atos falhos e na regressão aos fatos e conflitos da infância. Freud, põe a descoberto a grande realidade do inconsciente, no qual, cada um de nós faz submergir os desejos não manifestos, reprimidos pela censura do consciente. Cada um dos nossos comportamentos passa a ser compreendido como manifestações destes desejos ocultos que, de alguma forma, vem a tona pelas emoções, pelos gestos impensados ou pelas decisões de racionalidade aparente.

Freud, pela primeira vez, organiza uma estrutura para nossa constituição psíquica. O Id, o Ego e o Superego constróem nosso aparelho psíquico que começa a se organizar nas fases que se iniciam logo após o nascimento: a fase oral, a anal, a narcisista e finalmente a maturidade sexual. Os conflitos vivenciados em cada fase ou a possibilidade de se estacionar em uma delas, vão produzir as manifestações neuróticas que nos martirizam pela vida a fora.

O inconsciente, trazido a tona por Freud, revela um mundo interior jamais suspeitado até mesmo pelos grandes filósofos da Grécia. Neste inconsciente, está representado todo o conflito humano, na sua mais dramática complexidade. A definição de quem somos, depois de Freud, teve que obrigatoriamente vasculhar os porões do inconsciente em que cada um de nós deixa submergir seus mais ardentes desejos ou sufocar seus maiores tormentos.

Pouco antes do surgimento da Escola Neurológica de La Salpêtrière, o médico alemão Franz Joseph Gall, imaginou existir uma relação entre as diversas aptidões humanas e as saliências palpáveis no crânio das pessoas que examinava. Ele catalogou a benevolência, a humildade, a inteligência, a firmeza de caráter, a combatividade entre inúmeras outras habilidades como possíveis de se confirmar, no crânio, a sua maior ou menor desenvoltura. Esta hipótese teve o mérito de reconhecer, pela primeira vez, que existem no cérebro, áreas especializadas para cada atividade, o que era um grande avanço para época. Este estudo pseudo-científico denominado por Gall de frenologia, mostrou-se totalmente incorreto e caiu no descrédito, tendo nos dias de hoje, interesse apenas histórico.

O método de avaliação, em que se atribui às aparências externas, uma relação direta com as aptidões psicológicas ou com as características da personalidade, teve, de novo, grande aceitação com os estudos de Cesare Lombroso. Ele sugeria haver, na aparência fisionômica do indivíduo, traços, que nos permitiriam reconhecer uma propensão para o crime. A criança já nasceria, de alguma forma, predestinada a se tornar um criminoso pelos traços fisionômicos que herdasse. Na doutrina forense esta tese prevaleceu por muito tempo, notando-se até hoje, sinais que refletem sua aceitação. Cada um de nós sabe, e muito bem, como somos, de maneira insensata, tentados a dar parecer e fazer julgamentos precipitados, sobre as pessoas que nos cercam, emitindo observações baseadas numa simples aparência de um olhar ou de um sorriso. Sabemos, também, pela experiência pessoal, que na maioria das vezes as aparências já nos pregaram grandes decepções.

Foi a partir de 1869 que o cirurgião e antropólogo francês Paul Brocá confirmou a especialização das áreas cerebrais no desempenho de cada uma de suas funções. Ele confirmou que a área da fala, mais precisamente da linguagem falada, se localizava no pé da circunvolução frontal esquerda e, a partir daí, uma série de estudos foram mapeando, no cérebro, cada uma de suas inúmeras funções. Criou-se assim, um novo campo de estudo, no qual, se via no cérebro, a justificativa de todos nossos movimentos, percepções, desempenhos, reações reflexas e, mais tarde, até mesmo as aptidões psicológicas e as emoções, se renderam, revelando também suas localizações anatômicas. Surgiu a idéia de que a mente não existiria independente do cérebro com queria René Descartes, e que seria mero produto emanente da complexa atividade cerebral. O dualismo Corpo-Alma parecia, agora, que deveria subjugar-se ao conceito moderno de interação cérebro-mente no qual ambos seriam indissociáveis.

Recentemente, o avanço da fisiologia cerebral foi enriquecido com os estudos das formulações matemáticas que constroem computadores cada vez mais complexos. A relação entre a complexidade dos computadores e a estrutura das redes de neurônios que se organizam no cérebro, fez surgir a ciência que levou à criação da Inteligência Artificial. Esta forma de equacionar soluções que exigem a rapidez nos cálculos e a possibilidade da máquina tomar decisões, permitiu a fabricação de robôs extremamente versáteis, ao mesmo tempo que fez surgir com mais força, a antiga comparação do homem com a máquina, com o agravante agora, de que é a máquina que está imitando o Homem e com perfeição cada vez maior.

Nas últimas décadas do século passado o meio científico foi abalado pela mais espetacular Teoria sobre as origens da vida e a natureza do ser humano. Foi Charles Darwin que em 1869 publicou, depois de 20 anos de hesitação, sua Teoria sobre a evolução das espécies. Os seres vivos passaram a ter uma origem comum primitiva e, no decurso da sobrevivência, os mais aptos foram paulatinamente sendo selecionados numa competição permanente de adaptação para proliferação das espécies. Cai por terra a visão Criacionista de origem bíblica, para surgir uma proposta revolucionária que mantém para o ser humano um vínculo biológico com todos os demais seres vivos. Somos produtos de um processo de seleção natural onde prevaleceu a maior capacidade de adaptação para permitir que o material genético pudesse dar seqüência às gerações futuras.

Além dos aspectos biológicos que nos prende aos animais que nos precederam, estão implícitas também, nesta evolução milenar, às aptidões psicológicas, comprovadas agora, como resultado desta jornada que nos permitiu acumular nas experiências da sobrevivência, as aquisições mentais que fizeram desabrochar o instinto, o discernimento, o raciocínio e a inteligência. Desta maneira, os biólogos de hoje, identificam em cada um dos nossos comportamentos, mesmos os mais sofisticados relacionados com as emoções, com a racionalidade ou com o aprendizado corriqueiro, uma ligação direta com o comportamento animal das espécies que coabitam conosco todo cenário da vida que povoa nosso planeta. Assim, a ligação afetiva com os filhos, a cooperação com os elementos da mesma espécie, a aquisição de linguagem, os acertos e erros nos processos de aprendizado, as reações reflexas de sobrevivência que nos predispõe a lutar ou fugir, a escolha de caminhos mais adequados, o julgamento que nos permite distinguir o certo do errado tem, todos estes comportamentos um fundamento biológico que nossos ancestrais primitivos foram acumulando no decorrer dos milênios. Com esta percepção da evolução das espécies, a condição humana, em termos biológicos não nos faz superior ou inferior a qualquer um dos animais que transitam conosco nesta jornada evolutiva.

Foi nesta mesma ocasião, quando Charles Darwin assombrava o mundo com a Teoria da Evolução das Espécies, que surge na França a codificação da Doutrina Espírita por Allan Kardec. Num questionário dirigido aos Espíritos, Allan Kardec, recebeu as revelações de uma doutrina que posicionava definitivamente a origem da vida, a natureza do ser humano, o significado do seu sofrimento e o destino que o futuro lhes reserva. Somos todos Espíritos imortais que ocupamos temporariamente o corpo físico para nosso desenvolvimento e progresso espiritual. Todo ser vivo está sujeito à evolução que, através de vidas sucessivas favorece a oportunidade de renovação e crescimento com destino à perfeição. Somos todos irmãos em situações diversas de aprendizado, vivenciando experiências onde o princípio espiritual estagiou no mineral, na planta e nos animais para chegar a desfrutar milênios depois da condição de ser humano. Neste e noutros mundos, continuaremos a jornada evolutiva pelo infinito a fora. Nosso cérebro não tem ainda condições de fixar em sua memória as experiências de nossas vidas anteriores mas, o inconsciente de cada um de nós, retém os dramas fundamentais destas vivências que, com freqüência, estão repercutindo em nossas decisões e comportamentos. Estamos todos mergulhados num mundo espiritual que nossos sentidos grosseiros ainda não nos permite perceber em sua plenitude. Este mundo espiritual é habitado pelos espíritos desencarnados que estabelecem conosco uma relação contínua de mútua interferência. Os Espíritos participam de nossos mais íntimos pensamentos e, com freqüência, envolvem-se em nossos acertos e erros durante toda nossa vida. Através da aptidão da mediunidade, determinadas pessoas tem a capacidade de entrar em sintonia com os espíritos desencarnados e receber ostensivamente sua comunicação. No futuro todo homem terá esta aptidão e o Homem mediúnico terá condições de transitar livremente pelas dimensões do plano espiritual. O Espírito é energia de criação divina que atua presidindo todos os fenômenos físicos e psicológicos que se processam em nosso organismo. Para que esta ação possa ocorrer entre a dimensão física e a espiritual se situa o perispírito, ou corpo espiritual, que serve de intermediário entre o corpo o e espírito. Através dos fluidos que constituem o perispírito, é que se processam todos os fenômenos mediúnicos e, quando um espírito se comunica com o outro, seus pensamentos se transmitem de um para o outro através dos fluidos que emanam de seus respectivos perispíritos. Através da atuação persistente do pensamento o perispírito assume a forma que o espírito lhe impuser podendo assim, cada espírito, se apresentar com a aparência que considerar ser mais apropriada. As nossas condutas, principalmente morais, imprimem em nosso perispírito as influências que nossos desejos bons ou maus fixam no campo de ação do nosso perispírito. Assim, cada um de nós. não tem como disfarçar sua verdadeira aparência psíquica. quando se mostra no plano espiritual. Em nossa volta, os fluidos espirituais imprimem as formas que nossos pensamentos constróem por força dos desejos que cultivamos com intensidade.

A Doutrina Espírita, como se percebe, ampliou o conhecimento sobre o ser humano. A Anatomia tem que acrescentar agora o corpo espiritual e suas relações com o mundo espiritual. A fisiologia é forçada a entender o Espírito como agente direto dos fenômenos vitais e a patologia tem que considerar as construções que o pensamento materializa no campo de ação do corpo espiritual e seus desdobramentos na auto-obsessão.

É este ser humano com sua transcendência e seu destino comprometido com a perfeição que o Espiritismo propõe para nossa reflexão. Às custas deste esclarecimento veremos nascer um Homem comprometido com suas origens espirituais. O Homem mediúnico, estendendo nossas sensibilidades para as dimensões espirituais. vai ampliar os horizontes da humanidade e a sua participação na vida deste planeta.


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imagem: amigofraternidade.blogspot.com



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