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domingo, 31 de julho de 2011

O AMOR A SI MESMO


o esforço como fator responsável

pela elevação espiritual do homem

(Ensaio)

Tema: O Amor a Si Mesmo

Delimitação: O Esforço

Abordagem: O esforço como fator responsável pela elevação espiritual do homem.

(Planejamento deste tema: Eliza Corte)

por Elio Mollo


Deus necessita transmitir a Sua força para continuar criando, mostrar o Seu Amor através de cada um de nós, mas não poderá fazê-lo se estivermos desanimados. A alegria, o amor próprio é indispensável.



Emmanuel no livro “O Consolador”, questão 119, respondendo a esta pergunta: Como devemos proceder para dilatar nossa capacidade espiritual? disse: Ainda não encontramos uma fórmula mais elevada e mais bela que a do esforço próprio, dentro da humildade e do amor, no ambiente de trabalho e de lições da Terra, onde Jesus houve por bem instalar a nossa oficina de perfectibilidade para a futura elevação dos nossos destinos de espíritos imortais. (Ver também in O PAI NOSSO, Meimei, psfia. F. C. Xavier)

Na questão 781 de “O Livro dos Espíritos” Allan Kardec pergunta aos Espíritos superiores se é permitido ao homem deter a marcha do progresso, e os Espíritos respondem que não, mas que podem entravá-la algumas vezes. Em LE na questão 888.a encontramos estas palavras ditadas por São Vicente de Paulo à Allan Kardec: “— Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei, divina lei pela qual Deus governa os mundos”. Em outro trecho desta mesma resposta: “...o Espírito qualquer que seja o seu grau de adiantamento, sua situação de reencarnado ou na espiritualidade, esta sempre colocado entre um superior que o guia e aperfeiçoa e um inferior perante o qual tem deveres iguais a cumprir”.

No dicionário encontramos que o Amor é o sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa, ou que o Amor é o sentimento de dedicação absoluta de um ser ao outro. (Sobre este assunto ver DICIONÁRIO DE FILOSOFIA ESPÍRITA de L. Palhano Jr. e artigo de minha autoria AMOR E CARIDADE! É BOM SABER QUEM É QUEM.

A lei de Deus é sempre o amor. O amor é a luz e a força que envolve todo o Universo. O amor é o fluido que dá movimento a tudo, que dá animo, que dá vontade de viver, que dá ação a tudo o que existe, que dá alegria. E é esse o Amor de Deus, que caminha através dos Espíritos mais evoluídos até o ser mais rudimentar. (ver resposta a questão 540 de LE) Para que esse amor floresça em cada um de nós em sua essência plena, a que se trabalhar persistentemente, sem esmorecer.

André Luiz diz, ou melhor, o instrutor Alexandre é que diz no livro “Missionários da Luz”, cap. 8 pág. 82, diz que: Toda elevação representa uma subida e toda subida pede esforço de ascensão. Neste mesmo livro na página 156 cap. 12, vamos encontrar este outro dizer de Alexandre, ...um dos mais importantes problemas da felicidade humana é o da aproximação fraternal, do perdão recíproco, da semeadura do amor, através da lei reencarcionista.

Os Espíritos através de “O Livro dos Espíritos”, obra codificada por Allan Kardec, na questão 913 nos dizem que dentre os vícios, aquele que podemos considerar como sendo o mais radical, é o egoísmo. Dizem eles que, do egoísmo deriva todo o mal. E afirmam de forma categórica que se nos estudarmos, e verificarmos em todos os vícios que porventura possuirmos, no fundo de todos existe o egoísmo. (Ver também ESE-CAP XI-11 e no OP-1ª P-EGOÍSMO E ORGULHO.)

Jesus nos disse: “Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mateus 5:48). Vamos encontrar algo semelhante no Antigo Testamento, em Deuteronômio 18:13: “Perfeito serás para com o Senhor teu Deus.” Difícil para nós, seres humanos, é atingir a perfeição absoluta, alias, seria até muita pretensão, só que todos nós somos seres em evolução, ou seja, todos devemos caminhar na direção da perfeição, esse é o significado das palavras do Cristo, assim sendo, todo o esforço deve ser feito nesse sentido. (Ver a este esforço a que Jesus se referiu no ESE-CAP XVII-2-1º§.)

Como dissemos acima, que o egoísmo é o vício mais radical, então, o esforço está em transformar este defeito em qualidade, ou seja, trabalhar para que ele se transforme em amor, pois todas as substâncias se transformam na evolução para mais alto.

Quando falamos em transformação, falamos em transformação moral, e quando falamos em transformação moral dizemos que se reconhece o homem de valor pela sua contínua renovação moral e pelos esforços que faz no sentido de anular suas inclinações negativas. Semelhante em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, cap. XVII, item 4 obra codificada por Allan Kardec — Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral. E pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações. — Não se trata de esforço físico, mas de firme contenção de espírito, de um empenho que não sofra excessiva solução de continuidade. "Excessiva", porque, na verdade, também não podemos estar "continuamente" empenhados na transformação de nós mesmos. Deve haver, isto sim, uma persistência de propósito, e a esta persistência chamamos esforço. Em outras palavras, não é bom sintoma abandonar uma atividade ou desviar a energia para um curso mais fácil de ação, ao primeiro sinal de dificuldade. A referência do esforço é nesse sentido: continuidade, persistência em face das dificuldades.

Em tudo há que se ter vontade, persistência, paciência e discernimento, pois a evolução requer estes requisitos. A sensatez é capaz de nos fazer reconhecer as próprias fraquezas e limitações, podendo assim nos auto-melhorarmos.

Na questão 919 de “O Livro dos Espíritos” vamos encontrar esta pergunta que fez o Espírito de Sto. Agostinho, respondida por ele mesmo: “Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, ao entrar no mundo dos Espíritos, onde nada é oculto, teria eu a temer o olhar de alguém?” Ao que nós vamos mostrar apenas um trecho da resposta de Sto. Agostinho: “Devemos examinar o que temos feito contra Deus, depois contra o próximo e por fim o que fizemos a nós mesmos. As respostas poderão ser tranquilizadoras para a nossa consciência se estivermos agindo sensatamente, porém, poderão indicar um mal que deve ser reparado, deve ser transformado para melhor.” Diz ele ainda que: “o conhecimento de si mesmo e a chave do progresso individual”.

Imaginemos um indivíduo tentando atravessar o Canal da Mancha a nado sem considerar sua capacidade física. Para cobrir uma distância tão extensa para um nadador profissional é algo quase normal. Entretanto um indivíduo de bom senso vai analisar as condições da correnteza, antes de pular na água. Depois de avaliar bem, e perceber que não se trata de um simples rio, tentará verificar se suas forças serão suficientes para vencer a força das águas que por ali passam, para chegar à outra margem. Se não tiver conhecimento da própria força, avaliar mal e tentar a travessia, poderá fracassar ou até mesmo morrer, como já aconteceu com muitos. Um homem poderá realizar tarefas inimagináveis se tiver vontade e determinação. Mas antes de empreender uma tarefa qualquer, deverá preparar-se adequadamente, como alguém, que conhece as próprias limitações e tenta superá-las. O preparo físico, moral ou espiritual, para fazer frente aos obstáculos e desafios, resulta de um profundo conhecimento de si mesmo. Assim, todos os dias ao deitar — conselho de Sto. Agostinho na questão 919 de “O Livro dos Espíritos” — “passe em revista todos os acontecimentos do dia, se descobrir falhas nesse inventário, ore a Deus para que lhe dê forças à conseguir a reparação e, no dia seguinte faça de tudo para corrigir as falhas”.

Reconhecer as próprias fraquezas é portanto uma qualidade fundamental para o homem sensato. É necessário conhecer os pontos fracos para fortalecê-los. Perceber onde deve-se melhorar, avaliar os desafios concretamente e lutar para enfrentá-los adequadamente preparado. Por que muitos alunos fracassaram durante a vida escolar? Provavelmente estes alunos não se conheciam bem. Não tinham uma visão autêntica das próprias capacidades ou avaliaram-se erroneamente. Superestimar os próprios conhecimentos ou subestimar as dificuldades são erros que levam infalivelmente ao fracasso. O homem sensato não comete tal erro, pois conhecendo a si mesmo, procura automelhorar-se, a tal ponto, que os desafios e obstáculos são minimizados. Um halterofilista que deseje superar a marca dos 600 quilos acima dos ombros, deverá ser capaz de levantar 610 quilos. O russo Vasili Alexeiev, em 1972, bateu o recorde erguendo halteres com 640 quilos. Ë assim que o homem sensato, no esporte, na política, nos negócios ou seja aonde for que se situe, faz. Prepara-se para os desafios da vida.

Qualquer teoria, se confirmada através de estudos teológicos, provará que Cristo se preparou para a missão. Ele buscou o auto-aperfeiçoamento para ter o que dizer, mostrar e ensinar. Seus exemplos não deixavam dúvidas sobre seu poder. Sua missão provou o quanto o Mestre conhecia bem a si mesmo e do que era capaz.

Ao decidir melhorar-se o homem sensato, busca o auto-aperfeiçoamento constante, visando superar-se nos pontos fracos, nas prováveis deficiências.

Diz Emmanuel no livro “JUSTIÇA DIVINA”, pág. 49, na mensagem intitulada “Exames”: “Cada provação pode ser comparada a um banho de substâncias químicas, testando-te idéias e sentimentos, para definir-lhes a sanidade. A vida, expressando a Sabedoria Divina, observa cada um de nós, diariamente, examinando-nos o possível valor, a fim de valorizar-nos. Cultura nobre granjeia tarefas enobrecidas. Virtude alcança merecimento. Quem aprende pode ensinar. Quem semeia o melhor adquire o melhor. Quem ajuda sem recompensa colhe apoio espontâneo. Em todas as tempestades e provações, adversidades e sombras da vida, permanece fiel ao bem, no serviço incansável, para que o bem te revele através dos outros.

Não consultes a palavra “impossível”, no dicionário da experiência. Todos temos a vontade por alavanca de luz e toda criatura, sem exceção, demonstrará a quantidade e o teor da luz que entesoura em si própria, toda vez que chamada a exame, na hora da crise.”

Esse ajuste é indispensável em todas as realizações de profundidade, sobretudo naquelas que visam a imortalidade, depende sempre de decisão que se origina de uma só consciência para depois contagiar outros destinos. Favoreça encontros dessa natureza em seu mundo interior.

Animo e trabalho, harmonize corpo e alma. Predisponha-se à construtividade do melhor. (Ver BOLSO E VONTADE in Técnica de Viver, FONTE VIVA, BOM ÂNIMO, CAP 61, PALAVRAS DE VIDA ETERNA, CAP 136 de EMMANUEL)

É necessário buscar conhecimentos profundos acerca das atividades escolhidas. Os homens sensatos são experts naquilo que fazem. Foi indiscutível as habilidades de Ayrton Senna, Nelson Piquet, Alain Prost como pilotos de Fórmula Um, pelo conhecimento profundo que adquiriram sobre as pistas, carros, manobras e tudo o que se relaciona com corridas automobilísticas. Dedicaram suas vidas no aperfeiçoamento dos pontos fracos, assim possuiram um real conhecimento de si mesmos, uma qualidade essencial dos homens sensatos.

O Espírito Neio Lúcio no livro “Jesus no Lar” nos narra está história: “Relacionava Tiago, filho de Alfeu, as dificuldades naturais na preparação do discípulo, quando várias opiniões se fizeram ouvir quanto aos percalços do aprimoramento.

É quase impossível praticar as lições da Boa Nova, no mundo avesso à bondade, à renuncia e ao perdão — concluíam os aprendizes de maneira geral. A maioria das criaturas comprazem-se na avareza ou no endurecimento.

Registrava o Mestre a conceituação expendida pelos companheiros, em significativa quietude, quando Pedro O convocou diretamente ao assunto.

Jesus refletiu alguns instantes e ponderou:

— Existiu no tempo de Davi um grande artista que se especializara na harpa com tamanha perfeição que várias pessoas importantes vinham de muito longe, a fim de ouvi-lo. Grandes senhores com as suas comitivas descansavam, de quando em quando, junto à moradia dele, cercada de arvoredo, para escutar-lhe as sublimes improvisações. O admirável mestre fez renome e fortuna, parecendo a todos que ninguém o igualaria na Terra na expressão musical a que se consagrara.

Em seus saraus e exibições, possuía em seu serviço pessoal um escravo aparentemente inábil e atoleimado, que servia água, doce e frutas aos convivas e que jamais conversava, fixando toda a atenção no instrumento divino, como se vivesse fascinado pelas mãos que o tangiam.

Muitos anos correram quando, certa noite, o artista volta, de inesperado, ao domicílio, findo o banquete de um amigo nas vizinhanças e, com indizível espanto, assinala celeste melodia no ar.

Alguém tocava magistralmente em sua casa solitária, qual se fora um anjo exilado no mundo.

Quem seria o estrangeiro que lhe tomara o lugar?

Em lágrimas de emoção por pressentir a existência de alguém com ideal artístico muito superior ao dele, avança devagar para não ser percebido e, sob intraduzível assombro, verificou que o harpista maravilhoso era o seu velho escravo tolo que, usando os minutos que lhe pertenciam por direito e sem incomodar a ninguém, exercitava as lições do senhor, às quais emprestava, desde muito tempo, todo o seu vigilante amor em comovido silêncio.

Foi então que o artista magnânimo e famoso libertou-o e conferiu-lhe a posição que por justiça merecia.

Diante da estranheza dos discípulos que se calavam, confundidos, o Mestre rematou:

— A aquisição de qualidades nobres é a glória infalível dos esforço. Todo homem e toda mulher que usarem as horas de que dispõem na harpa da vida, correspondendo à sabedoria e à beleza com que Nosso Pai se manifesta, em todos os quadros do mundo, depressa lhe absorverão a grandeza e as sublimidades, convertendo-se em representantes do Céu para seus irmãos em humanidade. Quando a criatura, porém, somente trabalha na cota de tempo que lhe é paga pelas mordomias da Terra, sem qualquer aproveitamento das largas concessões de horas que a Divina Bondade lhe concede no corpo, nada mais receberá, além da remuneração transitória do mundo.

Todos os homens e mulheres que venceram na vida acreditavam em si mesmos e no próprio potencial, ou melhor acreditaram em si mesmos, tiveram fé. Os homens sensatos são autoconfiantes, amam a si mesmos. Enfrentam o que precisa ser enfrentado, recuando apenas para ganhar forças, preparando novas estratégias para retomar o combate com determinação e coragem.

Todas as lições encontradas no cotidiano servem apenas para reforçar a teoria de que os homens sensatos são todos parecidos, possuem qualidades similares, e neste caso a autoconfiança é uma delas.

No mundo, aqueles que não temem os desafios, e os enfrentam destemidamente, acabam por vencer.

Ninguém deverá querer apenas vencer, deverá antes de mais nada, querer vencer a si mesmo, transformar as qualidades ruins em boas, e se tornar uma criatura sensata. Isso requererá muito do seu potencial. O fato de ainda não possuir a sensatez, entre outras coisas, é que a autoconfiança não foi totalmente desafiada. Provavelmente ainda existem dúvidas sobre as reais capacidades de realização. Falta determinação, acreditar ser capaz de se tornar um humano sensato. É necessário saber, porém, que todos os homens vencedores, mais do que qualquer outra pessoa, acreditavam em si mesmos. É necessita sentir isso também. É fundamental começar imediatamente essa tarefa.

Passe a acreditar em você, suas potencialidades, sua energia para realizar o melhor, porém, sempre respeitando aos seus semelhantes e a si próprio.

O homem sensato é o homem que ama a si próprio, é alegre, de bem com a vida, é autoconfiante, transmite segurança e não é covarde. O homem sensato é a sombra na qual se abrigam os medrosos, os tímidos e aqueles que não possuem confiança em si mesmo.

O homem que não ama a si mesmo, não consegue amar outra pessoa, pois não é seguro de si.


No caminho da vida, o esforço próprio é indispensável. (Neio Lúcio)



BIBLIOGRAFIA:

O Livro dos Espíritos - obra codificada por Allan Kardec

O Evangelho Segundo o Espiritismo - obra codificada por Allan Kardec

Alerta - Estímulos Indiretos - Joanna de Angelis - 107/109

Justiça Divina - Exames - Emmanuel - 49/50

Bolso e Vontade - Técnica de Viver - 53/55

Jesus no Lar - A Glória do Esforço - Neio Lúcio - 183/185FEB14a1986

O Consolador - Personalidade - Emmanuel - 130FEB9a1982

Como se tornar um líder - Conhecimento de si mesmo e Autoconfiança - Mathias Gonzalez - 39 à 42 - Ediouro S/A 1991



endereço: http://www.apologiaespirita.org/

imagem: www.frases-amor.net/

sábado, 24 de abril de 2010

ENSAIO TEÓRICO DA SENSAÇÃO NOS ESPÍRITOS


257. O corpo é o instrumento da dor. Se não é a causa primária desta é, pelo menos,
a causa imediata. A alma tem a percepção da dor: essa percepção é o efeito. A lembrança
que da dor a alma conserva pode ser muito penosa, mas não pode ter ação física. De fato,
nem o frio, nem o calor são capazes de desorganizar os tecidos da alma, que não é
suscetível de congelar-se, nem de queimar-se. Não vemos todos os dias a recordação ou a
apreensão de um mal físico produzirem o efeito desse mal, como se real fora? Não as
vemos até causar a morte? Toda gente sabe que aqueles a quem se amputou um membro
costumam sentir dor no membro que lhes falta. Certo que aí não está a sede, ou, sequer, o
ponto de partida da dor. O que há, apenas, é que o cérebro guardou desta a impressão.
Lícito, portanto, será admitir-se que coisa análoga ocorra nos sofrimentos do Espírito após a
morte. Um estudo aprofundado do perispírito, que tão importante papel desempenha em
todos os fenômenos espíritas; nas aparições vaporosas ou tangíveis; no estado em que o
Espírito vem a encontrar-se por ocasião da morte; na idéia, que tão freqüentemente
manifesta, de que ainda está vivo; nas situações tão comoventes que nos revelam os dos
suicidas, dos supliciados, dos que se deixaram absorver pelos gozos materiais; e inúmeros
outros fatos, muita luz lançaram sobre esta questão, dando lugar a explicações que
passamos a resumir.
O perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito, que o tira do meio
ambiente, do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da eletricidade, do fluido
magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da
matéria. É o princípio da vida orgânica, porém, não o da vida intelectual, que reside no
Espírito. É, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, os órgãos, servindolhes
de condutos, localizam essas sensações. Destruído o corpo, elas se tornam gerais. Daí o
Espírito não dizer que sofre mais da cabeça do que dos pés, ou vice-versa.
Não se confundam, porém, as sensações do perispírito, que se tornou independente, com as
do corpo. Estas últimas só por termo de comparação as podemos tomar e não por analogia.
Liberto do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é corporal, embora não
seja exclusivamente moral, como o remorso, pois que ele se queixa de frio e calor. Também
não sofre mais no inverno do que no verão: temo-los visto atravessar chamas, sem
experimentarem qualquer dor. Nenhuma impressão lhes causa, conseguintemente, a
temperatura. A dor que sentem não é, pois, uma dor física propriamente dita: é um vago
sentimento íntimo, que o próprio Espírito nem sempre compreende bem, precisamente
porque a dor não se acha localizada e porque não a produzem agentes exteriores; é mais
uma reminiscência do que uma realidade, reminiscência, porém, igualmente penosa.
Algumas vezes, entretanto, há mais do que isso, como vamos ver.
Ensina-nos a experiência que, por ocasião da morte, o perispírito se desprende mais
ou menos lentamente do corpo; que, durante os primeiros minutos depois da desencarnação,
o Espírito não encontra explicação para a situação em que se acha. Crê não estar morto, por
isso que se sente vivo; vê a um lado o corpo, sabe que lhe pertence, mas não compreende
que esteja separado dele. Essa situação dura enquanto haja qualquer ligação entre o corpo e
o perispírito. Disse-nos, certa vez, um suicida: “Não, não estou morto.” E acrescentava: No
entanto, sinto os vermes a me roerem. Ora, indubitavelmente, os vermes não lhe roíam o
perispírito e ainda menos o Espírito; roíam-lhe apenas o corpo. Como, porém, não era
completa a separação do corpo e do perispírito, uma espécie de repercussão moral se
produzia, transmitindo ao Espírito o que estava ocorrendo no corpo. Repercussão talvez não
seja o termo próprio, porque pode induzir à suposição de um efeito muito material. Era
antes a visão do que se passava com o corpo, ao qual ainda o conservava ligado o
perispírito, o que lhe causava a ilusão, que ele tomava por realidade. Assim, pois não
haveria no caso uma reminiscência, porquanto ele não fora, em vida,
ruído pelos vermes: havia o sentimento de um fato da atualidade. Isto mostra que deduções
se podem tirar dos fatos, quando atentamente observados.
Durante a vida, o corpo recebe impressões exteriores e as transmite ao Espírito por
intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso.
Uma vez morto, o corpo nada mais sente, por já não haver nele Espírito, nem perispírito.
Este, desprendido do corpo, experimenta a sensação, porém, como já não lhe chega por um
conduto limitado, ela se lhe torna geral. Ora, não sendo o perispírito, realmente, mais do
que simples agente de transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência, lógico
será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem Espírito, aquele nada sentiria,
exatamente como um corpo que morreu. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse
perispírito, seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa. É o que se dá com os
Espíritos completamente purificados. Sabemos que quanto mais eles se purificam, tanto
mais etérea se torna a essência do perispírito, donde se segue que a influência material
diminui à medida que o Espírito progride, isto é, à medida que o próprio perispírito se torna
menos grosseiro.
Mas, dir-se-á, desde que pelo perispírito é que as sensações agradáveis, da mesma
forma que as desagradáveis, se transmitem ao Espírito, sendo o Espírito puro inacessível a
umas, deve sê-lo igualmente às outras. Assim é, de fato, com relação às que provêm
unicamente da influência da matéria que conhecemos. O som dos nossos instrumentos, o
perfume das nossas flores nenhuma impressão lhe causam. Entretanto, ele experimenta
sensações íntimas, de um encanto indefinível, das quais idéia alguma podemos formar,
porque, a esse respeito, somos quais cegos de nascença diante a luz. Sabemos que isso é
real; mas, por que meio se produz? Até lá não vai a nossa ciência. Sabemos que no Espírito
há percepção, sensação, audição, visão; que essas faculdades são atributos do ser todo e
não, como no homem, de uma parte apenas do ser; mas, de que modo ele as tem? Ignoramo-lo. Os próprios Espíritos nada nos podem informar sobre isso, por inadequada a nossa
linguagem a exprimir idéias que não possuímos, precisamente como o é, por falta de termos
próprios, a dos selvagens, para traduzir idéias referentes às nossas artes, ciências e doutrinas
filosóficas.
Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às impressões da matéria que
conhecemos, referimo-nos aos Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não
encontra analogia neste mundo. Outro tanto não acontece com os de perispírito mais denso,
os quais percebem os nossos sons e odores, não, porém, apenas por uma parte limitada de
suas individualidades, conforme lhes sucedia quando vivos. Pode-se dizer que, neles, as
vibrações moleculares se fazem sentir em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium
commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diverso e talvez, também, dando uma
impressão diferente, o que modifica a percepção. Eles ouvem o som da nossa voz,
entretanto nos compreendem sem o auxílio da palavra, somente pela transmissão do
pensamento. Em apoio do que dizemos há o fato de que essa penetração é tanto mais fácil,
quanto mais desmaterializado está o Espírito. Pelo que concerne à vista, essa, para o
Espírito, independe da luz, qual a temos. A faculdade de ver é um atributo essencial da
alma, para quem a obscuridade não existe. É, contudo, mais extensa, mais penetrante nas
mais purificadas. A alma, ou o Espírito, tem, pois, em si mesma, a faculdade de todas as
percepções. Estas, na vida corpórea, se obliteram pela grosseria dos órgãos do corpo; na
vida extracorpórea, se vão desanuviando, à proporção que o invólucro semi-material se
eteriza.
Haurido do meio ambiente, esse invólucro varia de acordo com a natureza dos
mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório, como nós
mudamos de roupa, quando passamos do inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Quando
vêm visitar-nos, os mais elevados se revestem do perispírito terrestre e então suas
percepções se produzem como no comum dos Espíritos. Todos, porém, assim os inferiores como os superiores, não ouvem, nem sentem, senão o que queiram ouvir ou sentir. Não possuindo órgãos sensitivos, eles podem, livremente, tornar ativas ou nulas suas percepções. Uma só coisa são obrigados a ouvir - os conselhos dos Espíritos bons. A vista, essa é sempre ativa; mas, eles podem fazer-se invisíveis uns aos outros. Conforme a categoria que ocupem, podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, porém não dos que lhes são superiores. Nos primeiros instantes que se seguem à morte, a visão do Espírito é sempre turbada e confusa. Aclara-se, à medida que
ele se desprende, e pode alcançar a nitidez que tinha durante a vida terrena,
independentemente da possibilidade de penetrar através dos corpos que nos são opacos.
Quanto à sua extensão através do espaço indefinito, do futuro e do passado, depende do
grau de pureza e de elevação do Espírito.
Objetarão, talvez: toda esta teoria nada tem de tranqüilizadora. Pensávamos que,
uma vez livres do nosso grosseiro envoltório, instrumento das nossas dores, não mais
sofreríamos e eis nos informais de que ainda sofreremos. Desta ou daquela forma, será
sempre sofrimento. Ah! sim, pode dar-se que continuemos a sofrer, e muito, e por longo
tempo, mas também que deixemos de sofrer, até mesmo desde o instante em que se nos
acabe a vida corporal.
Os sofrimentos deste mundo independem, algumas vezes, de nós; muito mais vezes,
contudo, são devidos à nossa vontade. Remonte cada um à origem deles e verá que a maior
parte de tais sofrimentos são efeitos de causas que lhe teria sido possível evitar. Quantos
males, quantas enfermidades não deve o homem aos seus excessos, à sua ambição, numa
palavra: às suas paixões? Aquele que sempre vivesse com sobriedade, que de nada
abusasse, que fosse sempre simples nos gostos e modesto nos desejos, a muitas tribulações
se forraria. O mesmo se dá com o Espírito. Os sofrimentos por que passa são sempre a
conseqüência da maneira por que viveu na Terra. Certo já não sofrerá mais de gota, nem de
reumatismo; no entanto, experimentará outros sofrimentos que nada ficam a dever àqueles. Vimos que seu sofrer resulta dos laços que ainda o prendem à matéria; que quanto mais livre
estiver da influência desta, ou, por outra, quanto mais desmaterializado se achar, menos
dolorosas sensações experimentará. Ora, está nas suas mãos libertar-se de tal influência
desde a vida atual. Ele tem o livre-arbítrio, tem, por conseguinte, a faculdade de escolha
entre o fazer e o não fazer. Dome suas paixões animais; não alimente ódio, nem inveja, nem
ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons
sentimentos; pratique o bem; não ligue às coisas deste mundo importância que não
merecem; e, então, embora revestido do invólucro corporal, já estará depurado, já estará
liberto do jugo da matéria e, quando deixar esse invólucro, não mais lhe sofrerá a
influência. Nenhuma recordação dolorosa lhe advirá dos sofrimentos físicos que haja
padecido; nenhuma impressão desagradável eles deixarão, porque apenas terão atingido o
corpo e não a alma. Sentir-se-á feliz por se haver libertado deles e a paz da sua consciência
o isentará de qualquer sofrimento moral.
Interrogamos, aos milhares, Espíritos que na Terra pertenceram a todas as classes da
sociedade, ocuparam todas as posições sociais; estudamo-los em todos os períodos da vida
espírita, a partir do momento em que abandonaram o corpo; acompanhamo-los passo a
passo na vida de além-túmulo, para observar as mudanças que se operavam neles, nas suas
idéias, nos seus sentimentos e, sob esse aspecto, não foram os que aqui se contaram entre os
homens mais vulgares os que nos proporcionaram menos preciosos elementos de estudo.
Ora, notamos sempre que os sofrimentos guardavam relação com o proceder que eles
tiveram e cujas conseqüências experimentavam; que a outra vida é fonte de inefável ventura
para os que seguiram o bom caminho. Deduz-se daí que, aos que sofrem, isso acontece
porque o quiseram; que, portanto, só de si mesmos se devem queixar, quer no outro mundo,
quer neste.

Allan Kardec

O Livro dos Espíritos, ed. FEB, ed. 76


imagem: blogs.opovo.com.br


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