
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
OMISSÂO DE DEUS?

sexta-feira, 2 de setembro de 2011
DEUS
I - EXISTÊNCIA DE DEUS
1. - Sendo Deus a causa primeira de todas as coisas, o ponto de partida de tudo, o eixo sobre o qual repousa o edifício da criação, é o ponto que importa considerar antes de tudo.
2.- É princípio elementar que se julgue uma causa por seus efeitos, mesmo quando não se vê a causa.
Se um pássaro, cortando ar, é atingido por um chumbo mortal, julga-se que um hábil atirador o feriu, embora não se veja o atirador. Não é, pois, sempre necessário ter visto uma coisa para saber que ela existe. Em tudo, é observando-se os efeitos que se chega ao conhecimento das causas.
3. - Um outro princípio também elementar, passado ao estado de axioma, por força de verdade, é que todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente.
Se se perguntasse qual é o construtor de tal engenhoso mecanismo, o que se pensaria daquele que respondesse que se fez por si mesmo? Quando se vê uma obra-prima, obra de arte ou de indústria, diz-se que isso deve ser o produto de um homem de gênio, porque uma alta inteligência deve ter presidido a sua concepção; não obstante, julga-se que um homem deveu fazê-la, porque se sabe que a coisa não está acima da capacidade humana, mas não ocorrerá a ninguém dizer que saiu do cérebro de um idiota ou de um ignorante, e ainda menos que seja o trabalho de um animal ou o produto do acaso.
4. - Por toda parte reconhece-se a presença do homem por suas obras. A existência dos homens antediluvianos não se provaria somente pelos fósseis humanos, mas, também, e com igual certeza, pela presença nos terrenos dessa época, de objetos trabalhados pelos homens; um fragmento de vaso, uma pedra talhada, uma arma, um tijolo bastarão para atestar a sua presença. Pela grosseria ou pela perfeição do trabalho se reconhecerá o grau de inteligência e adiantamento daqueles que o realizaram. Se, pois, encontrando-vos em um país habitado exclusivamente por selvagens, descobrirdes uma estátua digna de Fídias, não hesitareis em dizer que os selvagens sendo incapazes de tê-la feito, deve ser a obra de uma inteligência superior à dos selvagens.
5. - Pois bem! lançando os olhos ao redor de si, sobre as obras da Natureza, observando a previdência, a sabedoria, a harmonia que presidem a tudo, reconhece-se que não há nenhuma delas que não sobrepasse o mais alto alcance da inteligência humana. Desde que o homem não pode produzi-la, é porque são o produto de uma inteligência superior à Humanidade, a menos que se diga que há efeitos sem causa.
6. - A isto, alguns opõem o seguinte raciocínio:
As obras ditas da Natureza são o produto de forças naturais que agem mecanicamente, em conseqüência das leis de atração e de repulsão; as moléculas dos corpos inertes se agregam e se desagregam sob o império dessas leis. As plantas nascem, brotam, crescem e se multiplicam sempre do mesmo modo, cada uma em sua espécie, em virtude dessas mesmas leis; cada indivíduo é semelhante àquele do qual saiu; o crescimento, a floração, a frutificação, a coloração, estão subordinados a causas materiais, tais como o calor, a eletricidade, a luz, a umidade, etc. Ocorre o mesmo com os animais. Os astros se formam pela atração molecular, e se movem, perpetuamente, em suas órbitas, pelo efeito da gravitação. Essa regularidade mecânica, no emprego das forças naturais, não acusa uma inteligência livre. O homem movimenta seu braço quando quer, e como quer, mas, aquele que o movimentasse, no mesmo sentido, desde o seu nascimento até a morte, seria um autômato; ora, as forças orgânicas da Natureza são puramente automáticas.
Tudo isso é verdade; mas, essas forças são efeitos que devem ter uma causa, e ninguém pretende que elas constituam a Divindade. São materiais e mecânicas, não são inteligentes por si mesmas, e isso é, ainda, verdade; mas são postas em ação, distribuídas, apropriadas para as necessidades de cada coisa, por uma inteligência que não é a dos homens. A apropriação útil dessas forças é um efeito inteligente que denota uma causa inteligente. Um pêndulo se move com regularidade automática, e é essa regularidade que lhe dá o seu mérito. A força que o faz assim agir é toda material e nada inteligente; mas o que seria desse relógio se uma inteligência não houvesse combinado, calculado, distribuído o emprego dessa força para fazê-la caminhar com precisão? Do fato de que a inteligência não está no mecanismo do relógio, e de que ela não é vista, seria racional concluir que não existe? Ela é julgada pelos seus efeitos.
A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; a engenhosidade do mecanismo atesta a inteligência e o saber do relojoeiro. Quando o relógio vos dá, no momento próprio, a informação de que tendes necessidade, jamais veio ao pensamento de alguém dizer: Eis um relógio bem inteligente.
Ocorre o mesmo com o mecanismo do Universo; Deus não se mostra, mas se afirma pelas suas obras.
7. - A existência de Deus é, pois, um fato adquirido, não somente pela revelação, mas pela evidência material dos fatos. Os povos selvagens não tiveram revelação e, não obstante, crêem, instintivamente, na existência de um poder sobre-humano; vêem coisas que estão acima do poder humano, e delas concluem que provêm de um ser superior à Humanidade. Não são mais lógicos do que aqueles que pretendem que elas se fizeram sozinhas?
II - DA NATUREZA DIVINA
8. - Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para compreender Deus nos falta, ainda, o sentido que não se adquire senão pela completa depuração do Espírito.
Mas o homem não pode penetrar a sua essência, sendo a sua existência dada como premissa, pode, pelo raciocínio, chegar ao conhecimento dos seus atributos necessários; porque, em vendo o que não pode deixar, sem cessar, de ser Deus, disso conclui o que deve ser.
Sem o conhecimento dos atributos de Deus seria impossível compreender a obra da criação; é o ponto de partida de todas as crenças religiosas, e foi pela falta de a ela se referirem, como farol que poderia dirigi-las, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a onipotência, imaginaram vários deuses; as que não lhe atribuíram a soberana bondade, dele fizeram um deus ciumento, colérico, parcial e vingativo.
9. - Deus é a suprema e soberana inteligência. A inteligência do homem é limitada, uma vez que não pode nem fazer e nem compreender tudo o que existe; a de Deus, abarcando o Infinito, deve ser infinita. Se se supusesse limitada em um ponto qualquer, poder-se-ia conceber um ser ainda mais inteligente, capaz de compreender e de fazer o que o outro não faria, e, assim, sucessivamente até o infinito.
10. - Deus é eterno, quer dizer que não teve começo e nem terá fim. Se houvesse tido um começo, teria saído do nada; o nada não sendo nada, nada pode produzir; ou bem ele haveria sido criado por um ser anterior, e, então, esse ser é que seria Deus. Se se lhe supusesse um começo ou um fim, poder-se-ia, pois, conceber um ser tendo existido antes dele, ou podendo existir depois dele, e assim sucessivamente até o infinito.
11. - Deus é imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.
12. - Deus é imaterial, quer dizer, que a sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria; de outro modo, não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da matéria.
Deus não tem forma apreciável pelos nossos sentidos; sem isto, seria matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus, porque o homem, não conhecendo senão a si mesmo, se toma por termo de comparação de tudo o que não compreende. Essas imagens onde se representa Deus sob a figura de um velho de longas barbas, coberto com um manto, são ridículas; têm o inconveniente de rebaixarem o Ser supremo às mesquinhas proporções da Humanidade; daí a emprestar-lhe as paixões da Humanidade, e dele fazer um Deus colérico e ciumento, não há senão um passo.
13. - Deus é todo-poderoso. Se não tivesse o supremo poder, poder-se-ia conceber um ser mais poderoso, e, assim, sucessivamente até que se encontrasse o ser que nenhum outro poderia superar em poder, e este é que seria Deus.
14. - Deus é soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas se revela nas pequenas coisas como nas maiores, e essa sabedoria não permite duvidar nem da sua justiça, nem da sua bondade.
O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a diminuiria ou a anularia. Um ser infinitamente bom não poderia ter a menor parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau ter a menor parcela de bondade; do mesmo modo que um objeto não poderia ser de um negro absoluto com a mais leve nuança de branco, nem de um branco absoluto com a menor mancha de negro.
Deus não poderia, pois, ser, ao mesmo tempo, bom e mau, porque, então, não possuindo nem uma nem outra dessas qualidades, no grau supremo, não seria Deus; todas as coisas estariam submetidas ao capricho, e não haveria estabilidade para nada. Não poderia, pois, ser senão infinitamente bom ou infinitamente mau; ora, tendo em vista que suas obras testemunham a sua sabedoria, sua bondade e sua solicitude, é preciso disso concluir que, não podendo ser, ao mesmo tempo, bom e mau sem deixar de ser Deus, ele deve ser infinitamente bom.
A soberana bondade implica na soberana justiça; porque se agisse injustamente, ou com parcialidade, em uma só circunstância, ou com relação a uma só das suas criaturas, não seria soberanamente justo e, por conseqüência, não seria soberanamente bom.
15. - Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, porque se poderia sempre conceber um ser possuindo o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa superá-lo, é preciso que seja infinito em tudo.
Sendo os atributos de Deus infinitos, não são suscetíveis nem de aumento, nem de diminuição; sem isso, não seria infinito e Deus não seria perfeito. Se se tirasse a menor parcela de um único dos seus atributos, não se teria mais Deus, uma vez que poderia existir um ser mais perfeito.
16. - Deus é único. A unidade de Deus é a conseqüência do infinito das perfeições. Um outro Deus não poderia existir senão com a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas; porque se houvesse, entre eles, a mais leve diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder, e não seria Deus. Se houvesse, entre eles, igualdade absoluta, seria, de toda a eternidade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder; assim, confundidos em sua identidade, não seriam, em realidade, senão um único Deus .. Se cada um tivesse atribuições especiais, um faria o que o outro não faria, e, então, não teriam, entre eles, igualdade perfeita, uma vez que, nem um nem o outro, teria a soberana autoridade.
17. - Foi a ignorância do infinito das perfeições de Deus que engendrou o politeísmo, culto de todos os povos primitivos; eles atribuíram divindade a todo poder que lhes pareceu acima da Humanidade; mais tarde, a razão levou-os a confundirem essas diversas potências em uma única. Depois, à medida que os homens compreenderam a essência dos atributos divinos, suprimiram, dos seus símbolos, as crenças que dele eram a negação.
18. - Em resumo, Deus não pode ser Deus senão com a condição de não ser superado, em nada, por um outro ser; porque, então, o ser que o superasse, no que quer que seja, não fora senão na espessura de um cabelo, seria o verdadeiro Deus; por isso, é preciso que seja infinito em todas as coisas.
É assim que, estando a existência de Deus constatada pelo fato das suas obras, chega-se pela simples dedução lógica, a determinar os atributos que o caracterizam.
19. - Deus é, pois, a suprema e soberana inteligência; é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não pode ser outra coisa.
Tal é o eixo sobre o qual repousa o edifício universal; é o farol cujos raios se estendem sobre o Universo inteiro, e que, unicamente, pode guiar o homem na procura da verdade; seguindo-o, ele não se perderá nunca, e se está tão freqüentemente extraviado é por falta de ter seguido a rota que lhe estava indicada.
Tal é, também, o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas; o homem tem, para julgá-las, uma medida, rigorosamente exata, nos atributos de Deus, e pode se dizer, com certeza, que toda teoria, todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática que estivesse em contradição com um único dos seus atributos, que tendesse não somente a anulá-los, mas simplesmente enfraquecê-las, não poderia estar com a verdade.
Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, não há de verdadeiro senão aquilo que não se desvie um "iota" das qualidades essenciais da Divindade. A verdadeira religião será aquela na qual nenhum artigo de fé esteja em oposição com essas qualidades, na qual todos os dogmas poderão sofrer a prova desse controle, sem dele receber nenhum prejuízo.
III - A PROVIDÊNCIA
20. - A providência é a solicitude de Deus para com as suas criaturas. Deus está por toda a parte e tudo vê, tudo preside, mesmo às menores coisas; é nisso que consiste a ação providencial.
"Como é que Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, pode se imiscuir em detalhes ínfimos, preocupar-se com os menores atos e os menores pensamentos de cada indivíduo? Tal é a questão que o incrédulo se coloca, donde conclui que, em admitindo a existência de Deus, sua ação não deve se estender senão sobre as leis gerais do Universo; que o Universo funciona de toda a eternidade em virtude dessas leis, às quais cada criatura está submetida em sua esfera de atividade, sem que seja necessário o concurso incessante da Providência."
21. - Em seu estado atual de inferioridade, os homens não podem, senão dificilmente, compreender Deus infinito, porque o figuram restrito e limitado, igual a eles; representando como um ser circunscrito, e dele fazem uma imagem à sua imagem. Nossos quadros que o pintam sob traços humanos não contribuem pouco para manter esse erro no espírito das massas, que adoram, nele, mais a forma do que o pensamento. Para a maioria, é um soberano poderoso, num trono inacessível, perdido na imensidão dos céus; e, porque suas faculdades e suas percepções são limitadas, não compreendem que Deus possa ou se digne intervir, diretamente, nas pequenas coisas.
22. - Na impossibilidade que está o homem de compreendera própria essência da Divindade, não pode dela fazer senão uma idéia aproximada, com a ajuda de comparações, necessariamente, muito imperfeitas, mas, que podem, pelo menos, mostrar-lhe a possibilidade daquilo que, à primeira vista, parece-lhe impossível.
Suponhamos um fluido bastante sutil para penetrar todos os corpos; esse fluido, sendo ininteligente, age mecanicamente, tão-só pelas forças materiais; mas, se supusermos esse fluido dotado de inteligência, de faculdades perceptivas e sensitivas, ele agirá, não mais cegamente, mas, com discernimento, com vontade e liberdade; verá, entenderá e sentirá.
23. - As propriedades do fluido perispiritual podem nos dar uma idéia disso. Ele não é inteligente, por si mesmo, uma vez que é matéria, mas é o veículo do pensamento, das sensações e das percepções do Espírito.
O fluido perispiritual, não é o pensamento do Espírito, mas o agente e intermediário desse pensamento; como é ele que o transmite, dele está, de certa forma, impregnado, e, na impossibilidade, que estamos, de isolá-lo, parece não formar senão um com o fluido, do mesmo modo que o som parece não formar senão um com o ar, de sorte que podemos, por assim dizer, materializá-lo. Do mesmo modo que dizemos que o ar se torna sonoro, poderíamos, tomando o efeito pela causa, dizer que o fluido se torna inteligente.
24. - Que ocorra assim, ou não, com o pensamento de Deus, quer dizer, que ele atue diretamente ou por intermédio de um fluido, para facilidade de nossa inteligência, represente-mo-lo sob a forma concreta de um fluido inteligente, preenchendo o Universo infinito, penetrando todas as partes da criação: a Natureza inteira está mergulhada no fluido divino; ora, em virtude do princípio de que as partes de um todo são da mesma natureza, e têm as mesmas propriedades do todo, cada átomo desse fluido, se pode exprimir-se assim, possuindo o pensamento, quer dizer, os atributos essenciais da Divindade, e esse fluido estando por toda a parte, tudo está submetido à sua ação inteligente, à sua previdência, à sua solicitude; não há um ser, por ínfimo que se o suponha, que, dele não esteja de algum modo saturado. Estamos, assim, constantemente em presença da Divindade; não há uma única das nossas ações, que possamos subtrair ao seu olhar; o nosso pensamento está em contato com o seu pensamento, e é com razão que se diz que Deus lê nas mais profundas dobras do nosso coração. Estamos nele, como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo.
Para estender sua solicitude sobre todas as criaturas, Deus não tem, pois, necessidade de mergulhar seu olhar do alto da imensidade; as nossas preces, para serem ouvidas por ele, não têm necesidade de cortarem o espaço, nem de serem ditas com voz retumbante, porque, incessantemente ao nosso lado, os nossos pensamentos repercutem nele. Os nossos pensamentos são iguais aos sons de um sino, que fazem vibrar todas as moleculas do ar ambiente.
25. - Longe de nós o pensamento de materializar a Divindade; a imagem de um fluido inteligente universal não é, evidentemente, senão uma comparação, mais própria para dar uma idéia a mais justa de Deus, do que os quadros que o representam sob uma figura humana; ela tem por objeto fazer compreender a possibilidade, para Deus, de estar por toda parte e de se ocupar de tudo.
26. - Temos, incessantemente, sob os olhos, um exemplo que pode nos dar uma idéia do modo pelo qual a ação de Deus pode se exercer sobre as partes mais íntimas de todos os seres, e, por conseguinte, como as impressões, as mais sutis, da nossa alma, chegam a ele. Foi tirada de uma instrução dada por um Espírito a esse respeito.
27. - "O homem é um pequeno mundo cujo diretor é o Espírito, e no qual o princípio dirigido é o corpo. Nesse universo, o corpo representará uma criação da qual o Espírito seria Deus. (Compreendeis que não se pode ver aqui senão uma questão de analogia, e não de identidade.) Os membros desse corpo, os diferentes órgãos que o compõem, seus músculos, seus nervos, suas articulações, são igualmente individualidades materiais, se se pode dizer assim, localizadas em um lugar especial do corpo; se bem que o número dessas partes constitutivas, de natureza tão variadas e tão diferentes, seja considerável, entretanto, ninguém duvida que não possa se produzir um movimento, que uma impressão qualquer possa ocorrer em um lugar particular, sem que o Espírito disso tenha consciência. Há sensações diversas em vários lugares simultâneos? O Espírito as sente todas, discerne-as, analisa-as, assinala, para cada uma, a sua causa e o seu lugar de ação, por intermédio do fluido perispiritual.
"Um fenômeno análogo ocorre entre a criação e Deus.
Deus está por toda a parte na Natureza, do mesmo modo que o Espírito está por toda a parte no corpo; todos os elementos da criação estão em relação constante com ele, do mesmo modo que todas as células do corpo humano estão em contato imediato com o ser espiritual; não há, pois, nenhuma razão para que fenômenos da mesma ordem não se produzam da mesma forma, num e noutro caso.
"Um membro se agita: o Espírito o sente; uma criatura pensa: Deus o sabe. Todos os membros estão em movimento, os diferentes órgãos estão postos em vibração: o Espírito sente cada manifestação, distingue-as e as localiza. As diferentes criações, as diferentes criaturas se agitam, pensam, agem diversamente, e Deus sabe tudo o que se passa, assinala a cada um o que lhe é particular.
"Pode-se disso deduzir, igualmente, a solidariedade da matéria e da inteligência, a solidariedade de todos os seres, de um mundo, entre si, a de todos os mundos, enfim, a das criações e do Criador." (Quinemant, Sociedade de Paris, 1867).
28. - Compreendemos o efeito, já é muito; do efeito remontamos à causa, e julgamos da sua grandeza pela grandeza do efeito; mas a sua essência íntima nos escapa, igual a da causa de uma multidão de fenômenos. Conhecemos os efeitos da eletricidade, do calor, da luz, da gravidade; calculamo-los e, no entanto, ignoramos a natureza íntima do princípio que os produziu. E, pois, mais racional, negar o principio divino, porque não o compreendemos?
29. - Nada impede admitir, para o princípio de soberana inteligência, um centro de ação, um foco principal irradiando, sem cessar, inundando o Universo com seus fluidos, do mesmo modo que o Sol com a sua, luz. Mas onde está esse foco? E' o que ninguém pode dizer. E' provável que esteja mais fixado em um ponto determinado do que não esteja a sua ação, e que percorra, incessantemente, as regiões do espaço sem limites. Se simples Espíritos têm o dom de ubiqüidade, essa faculdade, em Deus, deve ser sem limites. Deus, preenchendo o Universo, poder-se-ia, ainda, admitir, a título de hipótese, que esse foco não tem necessidade de se transportar, e que se forma sobre todos os pontos, onde a soberana vontade julgue a propósito produzir-se, de onde se poderia dizer que ele está por toda a parte e em parte alguma.
30. - Diante desses problemas insondáveis, a nossa razão deve se humilhar. Deus existe; disso não poderemos duvidar; é infinitamente justo e bom; é a sua essência; a sua solicitude se estende a todos: compreende-mo-lo; não pode, pois, querer senão o nosso bem, e é por isso que devemos ter confiança nele: eis o essencial; quanto ao mais, esperemos que sejamos dignos de compreendê-la.
IV - A VISÃO DE DEUS
31.-Uma vez que Deus está por toda parte, porque não o vemos? Vê-lo-emos em deixando a Terra? Tais são as perguntas que se colocam diariamente.
A primeira é fácil de se resolver; nossos órgãos materiais têm percepções limitadas que os tornam impróprios à visão de certas coisas, mesmo materiais. Assim é que certos fluidos escapam totalmente à nossa visão e aos nossos instrumentos de análise, e, todavia, não duvidamos de sua existência. Vemos os efeitos da peste, e não vemos o fluido que a transporta; vemos os corpos se moverem sob a influência da força da gravidade, e não vemos essa força.
32. - As coisas de essência espiritual não podem ser percebidas por órgãos materiais; não é senão pela visão espiritual que podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial; só a nossa alma, pois, pode ter a percepção de Deus. Vê-lo-emos imediatamente depois da morte? E o que somente as comunicações de além-tumulo podem nos ensinar. Por elas, sabemos que a visão de Deus é o privilégio das almas depuradas, e que, assim, bem poucos possuem, em deixando o seu envoltório terrestre, o grau de desmaterialização necessário. Uma comparação vulgar o fará comprender facilmente.
33. - Aquele que está no fundo de um vale, mergulhado em brumas espessas, não vê o Sol; entretanto, pela luz difusa julga a presença do Sol. Se sobe a montanha, à medida que se eleva, o nevoeiro se clareia, a luz torna-se mais viva, mas não vê ainda o Sol. Não é senão depois de estar elevado acima da camada brumosa, encontrando-se num ar perfeitamente puro, que o vê em todo o seu esplendor.
Assim ocorre com a alma. O envoltório perispiritual, se bem que invisível e impalpável para nós, é, para ela, uma verdadeira matéria, muito grosseira, ainda, para certas percepções. Esse envoltório se espiritualiza à medida que a alma se eleva em moralidade. As imperfeições da alma são como camadas brumosas que obscurecem a sua visão; cada imperfeição, de que ela se desfaz, é uma tarefa a menos, mas não é senão depois de estar completamente depurada, que goza da plenitude das suas faculdades.
34. - Deus, sendo a essência divina por excelência, não pode ser percebido, em todo o seu fulgor, senão por Espíritos chegados ao último grau de desmaterialização. Se os Espíritos imperfeitos não o vêem, não é porque dele estejam mais distantes do que os outros; igual a eles, igual a todos os seres da Natureza, estão mergulhados no fluido divino, como nós o estamos na luz; unicamente, as suas imperfeições são vapores que o ocultam à sua visão; quando o nevoeiro estiver dissipado, vê-lo-ão resplandecer; para isso não terão necessidade nem de subir, nem de ir procurá-lo nas profundezas do Infinito; estando a visão espiritual desembaraçada dos véus que a obscureciam, vê-lo-ão em qualquer lugar em que se encontrem, fosse mesmo sobre a Terra, porque está por a toda parte.
35. -O Espírito não se depura senão com o tempo, e as diferentes encarnações são os alambiques no fundo dos quais deixa, a cada vez, algumas impurezas. Deixando o seu envoltório corporal, ele não se despoja, instantaneamente, das suas imperfeições; é por isso que, depois da morte, não vê Deus mais do que quando estava vivo; mas, à medida que se depura, dele tem uma intuição mais distinta; se não o vê, compreende-o melhor: a luz é menos difusa. Então, pois, quando os Espíritos dizem que Deus lhes proíbe responder a tal pergunta, não é Deus que lhes aparece, ou lhes dirige a palavra para prescrever-lhes ou interditar-lhes tal ou tal coisa; não; mas o sentem, recebem os eflúvios do seu pensamento, tal como nos ocorre com relação aos Espíritos que nos envolvem em seu fluido, embora não os vejamos.
36. - Nenhum homem pode, pois, ver Deus com os olhos da carne. Se esse favor fosse concedido a alguns, isso não seria senão o estado de êxtase, quando a alma está tanto mais liberta dos laços da matéria, quanto isso seja possível durante a encarnação. Um tal privilégio, aliás, não seria senão o das almas de escol, encarnadas em missão, e não em expiação. Mas, tendo em vista que os Espíritos de ordem mais elevada resplandecem num brilho ofuscante, pode ser que Espíritos menos elevadas, tocados pelo esplendor que os envolve, tenham acreditado ver o próprio Deus. Tal se vê, às vezes, um ministro ser tomado pelo seu soberano.
37. - Sob qual aparência Deus se apresenta àqueles que se fizeram dignos desse favor? Será sob uma forma qualquer? Igual a uma figura humana, ou igual a um foco resplandecente de luz? Eis o que a linguagem humana é impotente para descrever, porque não existe, para nós, nenhum ponto de comparação que, dele, possa dar uma idéia; somos iguais a cegos a quem se procuraria, em vão, fazer compreender a luz do Sol. Nosso vocabulário está limitado às nossas necessidades e ao círculo das nossas idéias; o dos selvagens não poderia pintar as maravilhas da civilização; o dos povos mais civilizados é muito pobre para descrever os esplendores dos céus; a nossa inteligencia muito limitada para compreendê-los, e a nossa visão, muito fraca, por eles seria ofuscada.
Allan Kardec - A Gênese
texto - www.comunidadeespirita.com.br
imagem - http://7osistema7.blogspot.com
domingo, 5 de junho de 2011
ESPAÇO PARA DEUS

Hermínio C. Miranda
Todos nós trazemos na profunda intimidade do ser um amplo espaço reservado para Deus. São muitos, contudo, nos dias que correm, aqueles que julgam poder expulsá-lo daí. Em verdade, é como se Deus se deixasse mesmo expulsar, pois é grande seu respeito pelo nosso livre-arbítrio. E embora ele continue ali mesmo, pois não há como dissociarmo-nos dele, de vez que nada existe senão nele, as coisas se passam como se Deus não existisse mesmo, pelo menos, ali, nos limites daquele território pessoal.
Há uma personagem de Somerset Maugham, creio que em THE RAZOR'S EDGE (O FIO DA NAVALHA), que dá graças a Deus por não mais acreditar nele. Sente-se aliviado, o pobre! E a primeira coisa que lhe ocorre fazer é prestar seu tributo de gratidão a Deus por ter desocupado espaço interior.
Resta, porém, um problema: com o que preencher aquela vastidão íntima que. de repente, parece desértica, árida, morta e empenhada apenas em repetir os ecos de nossa inesperada solidão? Subitamente ficamos sem lastro, como que soltos no tempo e no espaço. sem rumo e sem retorno, livres, sim, de ir para onde quisermos, mas para onde mesmo queremos ir? Livres para fazer o que muito bem entendermos, mas o que é mesmo que estamos pretendendo fazer? O que fazer da "liberdade" recém-adquirida? E será que estávamos presos a alguma coisa antes? Ou era apenas a birra ingênua da criança que ,e solta das mãos da mãe e dá meia dúzia de passos incertos, apenas para saborear uma liberdade que não pode e não sabe como usar e nem para que a deseja?
Em livro denominado CHRISTIANITY AND THE CRISIS (1) publicado em 1933, teólogos e pensadores de formação predominantemente anglicana apresentam uma demorada reflexão, tentando caracterizar as eventuais responsabilidades do Cristianismo na crise em que mergulhara o mundo daqueles tempos, mal saído de uma guerra mundial e às vésperas de outra, ainda mais terrível e assustadora. Será que não tinha a doutrina de Jesus uma contribuição positiva para as mudanças que, evidentemente, a comunidade mundial estava a exigir?
Eram muitas as especulações e as interpretações postas no livro, dado que eram muitas as cabeças a pensar. Talvez por isso, as conclusões foram, a meu ver. desalentadoras, uma vez que o Sr. Arcebispo de York, incumbido de redigi-las, encerra seu texto com uma proposta um tanto romântica, acho eu, de arrependimento, mas que nem a ele próprio parece viável:
- Nem existe qualquer esperança prática - diz ele - de tal arrependimento até que os seres humanos acreditem efetivamente e ajam de acordo com a boa nova a respeito de Deus, segundo a palavra veiculada pelo Cristo.
Como se vê, o problema continuava posto em termos de fé. Mas como posso eu estruturar a minha fé sobre alicerces que, no meu entender, não resistem aos testes mais elementares da racionalidade de que necessito para confiar neles e na fé que me propõem?
Por isso, diferem as minhas conclusões das que propõe o Sr. Arcebispo e, conseqüentemente, minhas opções, tal como as expus, umas e outras, em livro ainda inédito (CRISTIANISMO A MENSAGEM ESQUECIDA). De forma alguma acho que o fracasso deva ser atribuído AO Cristianismo e sim a ESSE Cristianismo que nos está sendo oferecido desde muitos séculos.
E neste ponto, concordo (eliminando os talvez ) com um dos contribuintes do livro, o Dr. A. Herbet Gray, que assim escreve:
- Talvez o Cristo tenha sido largamente incompreendido ao longo de todos esses séculos. Talvez as Igrejas tenham-no deturpado. Talvez o que os seres humanos tenham rejeitado não seja o real Cristianismo do Cristo, mas algo parcialmente falsificado.
Por isso, propõe ele uma volta, sem intermediários, ao Cristo, àquele "profeta campesino que fala mim tom que exige atenção".
Ao lado de muitas outras, vamos encontrar especulações semelhantes em livro bem mais recente, do eminente teólogo católico suíço Hans Küng (2), compreensivelmente em desgraça perante sua própria Igreja por causa de suas idéias não muito ortodoxas.
Após abordar com sensibilidade e inteligência a inquietação mundial em busca de alternativas, Küng parece convicto de que essa procura, que resulta em dramático esvaziamento das Igrejas em geral e não apenas da sita, é motivada pelo pouco que as teologias vigentes têm a oferecer, principalmente aos jovens. As estatísticas são particularmente contundentes neste ponto, muito embora, segundo o Dr. Küng, as hierarquias eclesiásticas não pareçam muito preocupadas com essa fuga maciça.
Mesmo a mim, leitor habitual de tais informes, surpreende-me o vertical mergulho rumo ao zero que se observa nas curas de freqüência reveladas pelo autor. Segundo ele, verificou-se, nos últimos vinte e cindo anos, entre pessoas menores de 30 anos de idade, uma queda de 13 para 2 por cento na freqüência regular aos templos protestantes e de 59 para 14 por cento nus templos católicos. O ilustre teólogo considera alarmantes tais números e o são, de fato e não hesita em atribuir a esse êxodo impressionante, "a muito lamentada perda de sentido e o vácuo de orientação-experimentados pela juventude contemporânea.
- Para muitos críticos da civilização - prossegue ele - esse vácuo de orientação e de identidade é urna das causas da óbvia crise de nossa sociedade.
É certo que o Prot Kung identifica bem as causas e prega-lhes a rótulo adequado, mas devo confessar honestamente, que não encontro nas suas propostas, por motivos igualmente óbvios para mim, remédios aplicáreis ás mazelas que aponta.
E que, a despeito de toda a sua proclamada rebeldia a importantes posturas de sua Igreja, ele continua operando dentro de um contexto pesadamente dogmático quanto a aspectos citais ao entendimento dos mecanismos da vida. A sobrevivência do ser continua posta em termas de fé, ou, no máximo, de esperança. A razão de nossa presença na Terra ainda é questão aberta; a morte, um problema espinhoso que, a seu ver, o próprio Jesus encarou com temores (?!), ao queixar-se do abandono a que havia sido relegado pelo Pai; a ressurreição do Cristo, ainda um enigma e uma exceção, não a regra; a existência terrena, uma só; o mundo póstumo, um denso mistério especulativo; a doutrina da graça persiste.
Como poderia um pensador cercado de tantas inibições propor soluções compatíveis corri a complexidade e profundidade da crise contemporânea, que transcende dogmas e ignora especulações filosóficas? Que sugestões oferecer ao jovem que busca alternativas para os regimes políticos vigentes. para a cultura, os costumes, a economia. e para a própria religião?
Se a vida é só isto aqui e ninguém lhe assegura e demonstra uma existência póstuma, que resta ao j jovem senão tentar tirar a máximo proveito desta única que ele conhece?. Dar :r sofreguidão pelo prazer, sela dual for o seu custo em termos materiais. morais, de saúde e paz interior. É tal como dizia Paulo. o primeiro e mais esquecido teólogo cristão: se a vida é só isto que se vê, então comamos e bebamos despreocupadamente, pois a morte está logo ali, à nossa espera, para levar-nos de volta ao nada, de onde viemos.
- A nossa sociedade - escreve um jovem citado por Küng - oferecer-me apenas os familiares e surrados caminhos e me concede a "liberdade” de escolher um deles. Mas eu não quero, nem estou em condições de levar uma vida pré-programada, com um dia de oito horas, seguro de vida, promoção e aposentadoria; quero, de fato, viver a minha vida.
E, para concluir, mais adiante, a razão de tudo isso:
- Esta é a minha única vida.
Pois não é. E isto faz uma brutal diferença. Nós, os que nos situamos num contexto ideológico em que o conceito das vidas sucessivas é um dos seus predominantes princípios ordenadores. nem nos damos conta do quanto isso é vital para exata avaliação das opções que temos diante de pós, dado que viver é escolher. Não há como exigir ou esperar de uma pessoa enjaulada no conceito da unicidade da vida, que tenha uma visão ampla e equilibrada dos seus encaixes nas engrenagens dessa mesma vida. Falta-lhe perspectiva, é exígua demais a sua paisagem e, por isso, angustiante. É certo que a fé ou a esperança numa existência futura, ou melhor, na continuidade da vida, podem proporcionar alguns dados para um planejamento mais inteligente de nossos atos, mas o que realmente decide aqui é a c convicção da sobrevivência não a hesitante expectativa. Essa é a idéia básica que retira da morte o seu aguilhão, como está em Paulo, e nos coloca no exato ponto de onde podemos contemplar, com serenidade, mesmo as perspectivas mais remotas que a nossa visão, necessariamente limitada, não possa alcançar.
Sem isso, e programados pela noção de que a vida é só isto aqui, então Indo é válido, em termos de satisfação sensorial. de alienação, de irresponsabilidade. Tudo se pensa e faz com um toque aflitivo de que-me-importismo. Para que tensões, aflições, preocupações, se tudo se resolve com o término da existência física? Para que renúncias, aceitações relutantes e sacrifícios anônimos? Por que a dor?
E é assim que se tenta, desesperadamente, preencher o vasto espaço que se abre, quando pensamos expulsar Deus pela porta dos fundos. Assusta-nos a solidão, soam soturnamente nossos passos, no silencio que se faz, projetam-se sombras fantasmagóricas em paredes inexistentes, de cada canto escuro espreitam-nos temores desconhecidos e mistérios insondáveis, a própria vida parece tini equívoco, uma vaga piada de mau gosto. Por isso, são tantos os que procuram atordoar-se com sons ensurdecedores, com drogas alienantes, com agressividades assustadoras, com doutrinas alucinantes, com fantasias e fuga, impossíveis.
Não estaríamos vivendo esse momento trágico se a mensagem cristã tivesse sido mantida em todo o vigor da sua pureza primitiva, mas já que o estamos vivendo, é preciso entender que a única saída é por ali através da passagem que nos leva de volta à doutrina universal do amor, posta em ação dentro de um inteligente contexto de racionalidade, em que a fé amadureceu em convicção é e a esperança virou certeza.
Ao contrário do que muita gente está (desastradamente) pensando, não tentos somente uma vida. A morte é apenas mudança de estado e dimensão. Co mo poderia haver morte como extinção da vida se Deus é Vida inextinguível e nele vivemos todos?
Muito bom seria que os que levam uma existência de "faz de conta", questionassem, como Heine, citado, aliás, pelo Prof. Küng:
-Deixe dessas parábolas sagradas e hipóteses pietistas: responda-nos a estas terríveis perguntas... Nada de evasivas, por favor. Por que cambaleiam, em sangue, os homens justos, esmagados sob o peso de suas cruzes. enquanto os maus cavalgam belos corcéis, vitoriosos e felizes, bafejados pela sorte? Quem é culpado disso?. Deus não é poderoso, dotado de um poder revestido de armaduras? Ou será que o mal é de sua própria autoria" Ah, mas isso seria realmente uma vileza? E assim, perguntamos e continuamos a perguntar, até que um punhado de frio barro cale a nossa boca, afinal, com segurança... Mas, por favor, será essa a resposta?
Claro que não, meu caro Heinrich. Você morreu em 1856 e o barro frio não calou a sua boca, você pode continuar falando. Ao tapar-lhe os olhos da carne, a terra iria abriu-lhe o, do espírito para uma insuspeitada realidade, onde os justos não gemem ao peso de suas dores, nem os maus desfilam suas trágicas "vitórias". Agora você sabe. Fale, pois, a sua boca daquilo que está no seu coração.
E se ele houvesse esperado um pouco mais, talvez chegasse a saber, mesmo aqui, deste lado da vida, pois em 1857 no ano seguinte ao da sua partida, apareceu nas vitrines das livrarias parisienses a obra que continha as respostas com as quais sonhara e que até pressentira com a sensibilidade de poeta, mas que não estava encontrando naquilo que lhe diziam ser a mensagem de Jesus, o Poeta Maior do amor universal.
O LIVRO DOS ESPIRITOS foi o título. É que nós, os humanos, nos perdêramos de novo e foi preciso virem os Espíritos nos dizer outra vez aquilo que não tínhamos o direito de ignorar.
Fique, pois, reservado em nós o espaço de Deus. Se não cremos nele. ele acredita em nós. Falemos com ele, pois ele está ali mesmo, e ouve e responde. E exatamente porque ele crê em nós é que traçou nas trilhas cósmicas do infinito um roteiro pontilhado de vidas e mais vidas, até que a gente aprenda a suprema arte de viver. Aí, sim, teremos uma só vida - a eterna, mas mesmo isto será apenas um diferente aspecto da verdade, porque tia eternidade já estamos, enquanto escrevo estas mal traçadas linhas e o leitor as lê...
Bibliografia
1- DIVERSOS - Coordenação de Percv Dearmer CHRISTIANITY AND THE CRISIS, Ed. Victor Gollancz, Londres, 1933
2- Hans Küng - ETERNAL LIFE'' Ed. Collins. Londres e Doubledav, New York, 1984, trad. de Edward Quinn do original alemão EWIGES LEBEN?, Ed. Piper&Co. Munich, 1982
7º Congresso Espírita Estadual - Águas de São Pedro - SP - 22 a 24/Agosto-86 Tema Central: O Espiritismo no Século XX
(Revista Internacional de Espiritismo - Julho de 1986)
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segunda-feira, 23 de maio de 2011
QUE É DEUS?

Paulo Roberto Martins
O professor Rivail, já utilizando desde então o codinome "Allan Kardec", abre o capítulo primeiro, do livro primeiro da codificação da Doutrina (Ensinamentos) dos Espíritos, com a pergunta título deste artigo.
Kardec já tomava por base que para iniciar e ter total empenho nas suas pesquisas espíritas, nunca seria demais a máxima frieza e o sistemático controle das paixões evitando descambar-se para a religiosidade muito forte da época, para a curiosidade pueril, para a sede do sobrenatural ou quaisquer manifestações deste gênero. Tanta convicção tinha neste comportamento que mais adiante advertiria os seus seguidores: "O Espiritismo será científico ou não subsistirá".
Recebeu dos Espíritos que "assinam" os prolegômenos de "O livro dos Espíritos" a resposta mais próxima da verdade científica até hoje já concebida: - Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.
A lei básica que rege o Universo (todas as coisas) é a lei de Causa e Efeito ou Ação e Reação, como é conhecida no meio científico. Para um efeito inteligente sempre haverá uma causa inteligente correspondente.
Para que possamos chegar próximos a entender o que é Deus, devemos fazer um esforço para idealizarmos mais ou menos o que seria o Universo, começando portanto pela tomada de consciência do espaço tridimensional (comprimento, largura e altura) que ocupamos no mesmo, passando daí para a percepção do espaço da nossa residência, bairro, cidade, estado, país, continente e planeta Terra com seus 40.000 quilômetros de extensão na circunferência. A Terra faz parte de um sistema solar que possui apenas 9 planetas com 57 satélites no total de 68 corpos celestes. A "grosso modo" em relação a outros astros do sistema solar, a Terra possui um volume 49 vezes maior que o da lua e 1.300.000 vezes menor que o do sol. É preciso que tenhamos noção de sua pouca importância diante do restante do Universo.
Nosso sistema solar faz parte de uma pequena galáxia conhecida por Via Láctea, um aglomerado de cerca de 100 bilhões de estrelas, com pelo menos cem milhões de planetas e conforme os astrônomos, no mínimo cem mil com vida inteligente e mil com civilizações mais evoluídas que a nossa.
As últimas observações do telescópio Hubble (em órbita), elevaram o número de galáxias conhecidas para 50 milhões. Em 1991, em Greenwich, na Inglaterra, o observatório localizou um quasar (possível ninho de galáxias) com a luminosidade correspondente a 1 quatrilhão de sóis.
Diante destes números pensaríamos haver chegado na idéia do que é o Universo; ledo engano, pois estas áreas, ou melhor, volumes, representariam apenas 3% do que seria a totalidade de tudo dentro do tridimensional e espaço / tempo como conhecemos. Os espaços interplanetários, interestrelares e intergalácticos, obviamente, formariam a maior parte daquilo que chamamos de Universo.
Os fenômenos de aporte (transporte de matéria através de outras dimensões) tão conhecidos dos pesquisadores da paranormalidade e a anti-matéria já produzida em laboratórios experimentais mais desenvolvidos através do planeta, nos dão a confirmação dos estudos de pesquisadores da capacidade de um Friedrich Zöllner, que no século passado , comprova a existência da quarta dimensão e conseqüentemente outros tantos Universos, quantas tantas dimensões for possível conhecermos.
A teoria mais moderna da criação do Universo, nos remete não apenas para o Bigbang (a grande explosão) início de tudo, mas, para a idéia de vários bigbangs, com Universos cíclicos através de quatrilhões ou mais de anos.
E aí? Será que conseguimos chegar perto da idéia da concepção e tamanho da obra de Deus, para tentar entendê-lo?
Não seria no mínimo estranho que após esta monumental obra inteligente, Deus colocasse em um planeta que representa um ínfimo grão de areia em uma cadeia de montanhas como o Himalaia, sua grande criação, o homem, feito sua imagem e semelhança?
Nosso grande irmão e amigo Jesus, há 2000 anos, já passava em forma de contos e parábolas vários conhecimentos intelectuais e morais que possuía devido ao seu grande estado evolutivo, quando em missão entre nós, confiada pelo Criador afirmou: "Na casa de meu pai existem muitas moradas".
Para concluirmos esta nossa pequena intenção de lançarmos nossos confrades na especulação ao entendimento do que seria Deus, iremos nos valer da "coleção de livros" chamada Bíblia, que no entender do grande intelectual e eminente espírita Dr. Carlos Imbassahy, é um livro como outro qualquer, em que nos seus textos contém tudo que a gente queira para justificar, a favor ou contra qualquer coisa.
No Antigo Testamento, Livro Gênesis, Capítulo 1 (Criação do homem), versículo 26 temos: "e (por fim) disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (sic...)".
Se tomarmos como verdadeira a hipótese de que a Bíblia é a palavra de Deus, qual seria a imagem correta do nosso Criador? Um homem ou mulher? Velho, ariano de barbas longas ou de cor negra, e magro como os etíopes (teoricamente os primeiros hominídeos) ?
Não seria melhor tentarmos entender uma concepção mesmo que não a conheçamos bem? Como por exemplo: o que sabemos a respeito do que somos (espírito)? Qual a imagem fiel que temos do mesmo? Ninguém sabe, ou melhor, conhecemos bem o corpo material, e relativamente o periespiritual, mas não o espírito. Conforme Allan Kardec, o espírito é alguma coisa formado por uma substância, mas cuja matéria, que afeta nossos sentidos, ele não nos pode dar uma idéia.
Pode-se compará-lo a uma chama ou centelha cujo clarão varia de acordo com o grau de sua depuração. Sendo assim, pois, teríamos o entendimento melhor de nossa imagem de acordo com a de Deus.
No tocante a semelhança é mais fácil a sua comparação quando procuramos compreender a eternidade, já que a palavra pressupõe algo que não tem início nem fim, como Deus; que é infinito, único, perfeito e todo-poderoso. Já ao passo que nós somos algo como semi-eternos; tivemos um começo criado por Ele e evoluímos na Sua direção conforme o Seu desejo.
e-mail : poncy@ig.com.br
Artigo publicado no Jornal Espírita de Pernambuco / Julho 2000
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
DEUS E O UNIVERSO
O verdadeiro Deus é o mesmo para tudo e para todos.
Shan Gris Lah
Evidentemente, não é a principal preocupação dos astrofísicos provarem ou negarem a existência de Deus, mas, evidentemente, pesquisando os recônditos do Universo, faz parte do trabalho verificar se, de fato, existe, neste imenso espaço cósmico algum lugar que possa caracterizar o destino das almas segundo as religiões e, infelizmente, até a atualidade, nada descobriram a favor ou contra a existência de tais tugúrios.
Quando Copérnico afirmou que a Terra girava em torno do Sol, toda a Gênese bíblica se ruiu, pois como se sabe, Ptolomeu foi o pseudo-astrônomo que se baseou nela para escrever seu projeto, o geocentrismo. Era a afirmação da Gênese, sem qualquer outra base senão a palavra do seu autor. Portanto, Copérnico, ao negar tal afirmativa, baseou-se nas observações siderais para provar a verdade sobre o sistema solar e daí em diante, tudo o que se refere ao espaço sideral passou a não ter mais nenhum valor relativo à Gênese bíblica.
Começando, pois, da estaca zero, pode-se dizer que a revolução do conhecimento relativo ao Universo teve início com Edwin Powell Hubble (1889 – 1953), astrônomo norte-americano, quando, em 1929 detectou os primeiros indícios da expansão universal estudando o efeito Doppler-Fiseau atribuído por ele às estrelas da nebulosa de Andrômeda (M-31), determinando a curvatura do Universo pelo afastamento das nebulosas em si e confirmando a equação de Pierre de Fermat (1631) mostrando que a menor distância (no caso, a sideral) era uma catenária.
Sem dúvida, muito da teoria da relatividade restrita de Einstein estava também comprovada pela observação astronômica.
Deve-se ainda a este astrônomo a primeira teoria relativa ao Universo considerando-o pulsante a anisotrópico, ou seja, um Universo que se expande e se encolhe (pulsante) e que não é como o pêndulo que volta pelo mesmo caminho (isotrópico) porque, na retração, a implosão do sistema não obedece ao ciclo inverso da progressão na expansão, que, no caso, faz com que o sistema evolva. Na retração, ele não regride e, ao tornar a um novo ciclo de existência, este Universo continua sua linha evolutiva.
Seria um processo reencarnatório, em síntese, que os cristãos não aceitam, porque contraria a lei divina da Bíblia, para a qual a criatura vai a um julgamento perante Deus.
Mas aí está a grande diferença: ante este Universo pulsante, a figura do Deus religioso não tem procedência.
Evidentemente, esse Deus antropomórfico, religioso, não tem a mínima condição de comandar o Universo em seus diversos ciclos evolutivos. Inda mais levando-se em conta que o religioso teria feito o mundo como centro de tudo e se preocupado exclusivamente com a criatura humana, sua “obra prima da criação” e tudo prova que a Terra é um planeta inferior e muito atrasado, existindo civilizações superiores à da Terra fora do nosso orbe.
As evidências dessas civilizações alienígenas ficaram comprovadas quando um oficial americano veio a público declarar que ele fora encarregado de analisar a tecnologia de uma nave que caíra no México – é documentário de TV – e, com a tecnologia dos aludidos óvnis ele conseguiu fazer com que os foguetes da NASA pudessem levar ao espaço os primeiros astronautas, inclusive os que visitaram a Lua.
Mais recentemente, os próprios russos declararam que, ante a sinceridade dos americanos – e está num documentário que alguns canais de TV por assinatura têm transmitido – eles eram compelidos a esclarecer que, também tiveram a oportunidade de estudar a tecnologia de um óvni derrubado por um Mig – avião russo – que se assemelhava a um charuto de grande porte e que continha seres alienígenas a bordo que foram levados pela KGB (motivo por que não sabiam seu destino) e cuja tecnologia foi sua base para construírem a aeronave espacial que permitiu a Yuri Gagarim sair da atmosfera terrena e dar diversas voltas em torno do nosso planeta antes que a equipe da NASA obtivesse algo neste sentido.
O canal de TV History Chanel já passou, por diversas vezes, este documentário provando que temos subsídios suficientes para admitir que haja vida além da Terra – negada pelos evangélicos e outros religiosos – e que é superior à nossa em conhecimento.
Portanto, o Deus antropomórfico só pode existir para a nossa imaginação de terráqueos cujo conhecimento sobre o Universo ainda é muito restrito a observações telescópicas de aparelhos imprecisos, por melhores que sejam, para detectar tudo o que se possa saber a respeito do que exista em nosso espaço sideral.
Hoje em dia, admitir que só haja vida na Terra é um absurdo que apenas os fanáticos religiosos são capazes de afirmar. E mais ainda: que sejamos a criação mais perfeita do Universo, porque, sem dúvida, se o fôssemos, não precisaríamos estudar as naves espaciais alienígenas para nos mostrar como navegar fora da atmosfera. Além disso, nosso domínio sobre o que se expande no espaço sideral não seria tão medíocre, a ponto de se ter, a cada instante, uma nova descoberta para desmentir, principalmente, a teoria do “Criacionismo”.
Hoje em dia se tem como certo de que o Universo se expande e se retrai em ciclos sucessivos e que, para tal, haja um comando cujo poder e ação jamais se restringiria a um Ente religioso que se configurasse com a criatura humana (antropomórfico), pelo nosso ínfimo adiantamento cultural. Caso contrário, se, de fato, tivéssemos a semelhança do Criador, este dito cujo não teria a mínima condição de governar o sistema anisotrópico de existência cósmica.
Portanto, a formação do Universo jamais (e cabe o destaque) poderia se restringir às concepções religiosas de um Deus pseudo-onipotente cuja imagem e semelhança fosse a da criatura humana.
Os ciclos de existência do nosso Universo ainda não puderam ser detectados, por diversos motivos: primeiramente porque nossa técnica e nossa aparelhagem óptica sequer é capaz de determinar o começo do aludido “Big-bang” que originou a formação do nosso ciclo atual, quanto mais caracterizar os seus anteriores!
Mas, a suposição é a de que cada astro tenha tido seu representante no ciclo anterior e, dessa maneira, a Terra também seria um planeta habitado por seres correlatos com os atuais. Ao ser reestruturada no atual ciclo, ela, evidentemente, deve ter tido um período evolutivo compatível com seu progresso anterior e, com isso, suas etapas existenciais teriam sido exatamente, conforme a Paleontologia registra, de uma lenta transformação de planeta atrasado para atingir a atual fase de progresso. Nos primórdios de sua formação, evidentemente, só os seres biológicos primitivos puderam habitar a Terra, mas, sob ação dos já citados frameworkers com sua influência nos ciclos de transformação da vida, seres gradativamente superiores foram se sucedendo e, para tal, usando os ditos biologicamente inferiores para transformá-los em uma nova espécie imediatamente acima dela.
A evolução da espécie é um fato comprovado: cada ser biológico é a transformação do ser imediatamente inferior sem destruí-lo, sob ação dos prováveis “agentes estruturadores” previstos por Gell Mann para as partículas, só que em escala não mais atômica, porém biológica.
A contraposição alegada pelos criacionistas é a de que a espécie imediatamente inferior continua existindo e não se transformou, em sua totalidade, na imediatamente superior, como se este fato desmentisse a evolução existente.
Uma coisa não invalidada a outra: os agentes gradativamente superiores, para formarem a vida biológica correspondente não precisam fazer com que a vida abaixo deles se extingua para que possam existir.
A pá de cal no criacionismo foi dada quando a equipe de Palomar descobriu a quinta força do Universo – peso sem massa – estudando a formação de planetas em torno da estrela Alfa Centauro. Na época (1988), a mídia deu a notícia, evidentemente, restringindo-se às descobertas astrofísicas sem qualquer outra análise. Em linguagem simples para leigos, pode-se dizer que existe atuando no cosmo uma quinta força estranha que é capaz de agregar a poeira cósmica, formando planetas, o que elimina a idéia de que estes possam ter sido bolas de fogo desprendidas de estrelas, que se esfriaram.
No caso, as bolas esfriariam do centro para a periferia e não da crosta para dentro. O fogo interno é devido justamente às pressões externas. Desta forma, o planeta criado começa a sofrer as transformações naturais para se apresentar com novas estruturas, inclusive de vida, tudo sob ação externa que leva os seres inferiores a se transformarem gradativamente em espécies imediatamente superiores. É o evolucionismo comprovado.
Então surge o sacerdote religioso e afirma que esta força é divina e que seria “a vontade de Deus” só que ela é inteiramente incompatível com o aludido Deus das religiões. Jamais um Ente espiritual à imagem dos homens poderia ter tal poder de ação que seria restrita à formação terráquea e nunca estelar.
A seqüência de descobertas nos deu a conhecer a energia escura e a massa ou matéria escura, cujas radiações deram origem a seus respectivos nomes, mostrando que nada foi ou possa ter sido feito do barro, principalmente a vida biológica, afinal, este não contém carbono e não há possibilidade de se transformar nesta substância química. Outra assertiva contrária ao criacionismo, para o qual Deus teria feito o homem do barro.
Sten Odenwald, no seu estudo “A Teoria do Nada” nos diz que o Universo é constituído de 27% de energia e 73% de nada e compara o espaço cósmico a uma tina de espuma de sabão, onde as bolhas fazem com que, aparentemente, a tina esteja lotada, mas, na verdade, se estas se estourarem, o que vai restar será uma camada de emulsão de sabão no seu fundo.
No caso da tina, os espaços vazios em seu interior estão cheios de ar. E no espaço cósmico? O que enche este espaço? Já houve quem arriscasse supor que este local que preenche nosso espaço sideral seria a “Espiritualidade” mas, resta ainda imaginar que é uma afirmação hipotética porque nossa aparelhagem ainda não tem condições de detectar a existência da “vida espiritual” e, em decorrência, em que seja contida. Portanto, este espaço pode ser ou não o local onde os ditos desencarnados possam se encontrar e conviver simultaneamente com a matéria, o que justificaria a existência da alma encarnada: ela preencheria este espaço do corpo somático dando-lhe vida.
A inconsistência religiosa não permite ao crente ver a verdade relativa às descobertas atuais, porque, para eles, os textos que seguem são sagrados, embora sem qualquer prova ou evidência de suas origens. É dogma: dogma não se discute; crê porque crê.
Não se pode, portanto, dialogar com o fanático porque, para ele, seria Satanás que comanda tal “heresia”, outro Ente religioso que nunca foi comprovado. Mas, resolve o problema deles.
Um outro grande problema é que Deus teria feito tudo fixo e estaria contido nele como se fosse um Ente espiritual semelhante ao homem, mas o homem nasceria do sopro divino no momento do parto, coisa absurda porque Deus teria que estar assoprando os ventres maternos a todo tempo, em decorrência dos nascimentos em diversos países do planeta e, com isto, não teria mais tempo para nada.
As discrepâncias religiosas a respeito de Deus são tantas que só os fanáticos poderiam aceitá-las e combater o raciocínio.
E tudo vai mais além: apenas a Terra tem características humanas; o restante do Universo mostra que, cada astro, cada nebulosa, enfim, cada sistema sideral tem características totalmente incompatíveis com uma configuração terrena e que, como tal, o Grande Agente capaz de comandar tudo isso jamais poderia ser alguém exclusivamente preocupado com a humanidade.
E tudo se complica quando os mais avançados estudos cosmológicos nos falam dos “buracos de minhoca” (worm holes) que permitem a passagem de pontos do Universo distantes para outros encurtando distâncias, o que explicaria os possíveis deslocamentos siderais de pontos distantes anos luz por frações de tempo, sem necessidade de romper as leis da velocidade da dita luz. Algo tão transcendental que até Deus duvida!
Assim, cabe indagar: se a finalidade de Deus era, apenas, criar a criatura humana à sua imagem e semelhança, por que teria feito um Universo tão complicado e intrínseco, se, para tal, bastaria a existência da Terra onde nela sua criação iria habitar?
Agora, as perguntas finais: onde estaria o Deus religioso neste contexto? Externamente ao Universo? Então, como poderia atuar dentro dele? Se, dentro dele, como ainda não foi sequer rastreado? Afinal, Ele pôde, até, conversar com Moisés! Ou não teria sido Deus?
O Universo é algo perfeito e exato; sem dúvida, comandado por um Agente superior a qualquer concepção humana e cuja “inteligência” está acima de nossa compreensão. Daí, todavia, julgar que tal Agente seja qualquer Deus religioso, cheio de qualidades e sentimentos humanos – na verdade, defeitos, para um Ente Superior –, vai larga distância! Mas, qual deles? Já que cada religião tem seu próprio Ser divino. Afinal, o homem é uma insignificância de vida perdida num ínfimo planeta de um sistema solar dos menores, perdido dentro da Via Láctea, uma das menos importantes galáxias do Universo.
E os deuses religiosos – afinal, cada religião tem o seu próprio – são inteiramente incompatíveis com o Universo.
* * *
Artigo recebido do articulista, via e-mail, em 24 de abril de 2009 (Friday, April 24, 2009 5:18 PM).
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imagem: terrabrasil.org.br