domingo, 4 de julho de 2010

CARNE: COMER OU NÃO COMER? EIS A QUESTÃO SOB A LUZ DA DOUTRINA ESPÍRITA


Alexandre Fontes da Fonseca

Centro Espírita Irmão Agostinho – Brotas – SP

Artigo publicado no jornal O Idealista, da USE – Regional Jaú, Setembro p.9 (2006).

A questão sobre a alimentação tem sido bastante discutida no movimento espírita. Mensagens como a de Emmanuel (questão 129 da Ref. 1) e de André Luiz (Cap. 4 da Ref. 2) desaconselham o uso da alimentação carnívora. Entretanto, isso parece se contrapor com a orientação básica dos Espíritos superiores presentes nas questões 722, 723, 724 e 734 do Livro dos Espíritos3. Reproduziremos aqui a questão 723:

723. A alimentação animal é, com relação ao homem, contrária à lei da Natureza?

Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização”.

Pretendemos demonstrar aqui que a recomendação de Emmanuel e André Luiz de se evitar a alimentação carnívora possui bases doutrinárias não estando, portanto, em desacordo com o Espiritismo. Para isso, recorremos à Revista Espírita de dezembro de 1863 onde Kardec reproduziu uma mensagem do Espírito Lamennais4 que esclarece de modo claro todos os ângulos dessa questão:

"Sobre a alimentação do Homem

(Sociedade de Paris, 4 de Julho de 1863. Médium: Sr. A. Didier)

O sacrifício da carne foi severamente condenado pelos grandes filósofos da antiguidade. O Espírito elevado revolta-se à idéia de sangue e, sobretudo, à idéia de que o sangue é agradável à Divindade. E notai bem, que aqui não se trata de sacrifícios humanos, mas unicamente de animais oferecidos em holocausto. Quando o Cristo veio anunciar a Boa-Nova, não ordenou sacrifícios de sangue: ocupou-se unicamente do Espírito. Os grandes sábios da antiguidade igualmente tinham horror a estas espécies de sacrifícios e eles próprios só se alimentavam de frutos e raízes. Na terra os incarnados têm uma missão a cumprir: têm o Espírito que deve ser nutrido pelo Espírito, o corpo com a matéria; mas a natureza da matéria influi - compreende-se facilmente - sobre a espessura do corpo e, em consequência, sobre as manifestações do Espírito. Os temperamentos naturalmente muito fortes para viver como os anacoretas5 fazem bem, porque o esquecimento da carne leva mais facilmente à meditação e à prece. Mas para viver assim, geralmente seria necessária de uma natureza mais espiritualizada que a vossa, o que é impossível com as condições terrestres. E como, antes de tudo, a natureza jamais age contra o bom senso, é impossível ao homem submeter-se impunemente a essas privações. Pode ser-se bom cristão e bom espírita e comer a seu gosto, desde que seja razoável. É uma questão algo leviana para os nossos estudos, mas não menos útil e proveitosa". (os grifos são nossos).

Essa mensagem explica que a dieta sem o uso da carne é melhor, pois isso “leva mais facilmente à meditação e à prece”.Isso aconteceria, pois, segundo Lamennais, a natureza da matéria influi nas manifestações do Espírito. Podemos comparar a situação com os vícios. Aquele faz uso de uma droga, por exemplo, impregna seu perispírito de vibrações que limitarão suas manifestações no mundo espiritual. Da mesma forma, o uso de uma dieta menos carnívora torna o perispírito menos “espesso” (usando aqui uma palavra que Lamennais usou no texto) o que permite que ele tenha mais facilidade em elevar seu pensamento em prece.

Porém, Lamennais, de modo responsável, deixou claro que a dieta vegetariana dependeria do aprimoramento espiritual da nossa Humanidade terrestre, o que ainda não ocorre. Daí adverte que “a natureza jamais age contra o bom senso, é impossível ao homem submeter-se impunemente a essas privações”. Por isso a questão 723 acima não condena o uso da carne. Sobre privações, a questão 724 do Livro dos Espíritos3 recomenda:

724. Será meritório abster-se o homem da alimentação animal, ou de outra qualquer, por expiação?

Sim, se praticar essa privação em benefício dos outros. Aos olhos de Deus, porém, só há mortificação, havendo privação séria e útil. Por isso é que qualificamos de hipócritas os que apenas aparentemente se privam de alguma coisa”.

Dessa forma, a privação da carne só teria mérito se ocorrer em benefício do próximo. As atividades espíritas de passes e as reuniões mediúnicas constituem exemplos em que a abstenção do uso da carne, pelo menos no dia dessas atividades, pode levar a benefícios aos assistidos encarnados ou desencarnados. Mas se o tarefeiro tiver dificuldade com isso, Raul Teixeira6 assevera que, “É mais compreensível, e me parece mais lógico, que a pessoa coma no almoço o seu bife, se for o caso, ou tome seu cafezinho pela manhã, do que passar todo o dia atormentada pela vontade desses alimentos, sem conseguir retirar da cabeça o seu uso, deixando-se de concentrar-se na tarefa, em razão da ansiedade para chegar em casa, após a reunião, e comer ou beber aquilo de que tem vontade”.

Lamennais ainda disse que "Pode ser-se bom cristão e bom espírita e comer a seu gosto" sem esquecer que isso deve ser feito “desde que seja razoável”, isto é, sem exageros.

Portanto, a recomendação de Emmanuel e André Luiz é válida e está de acordo com o Espiritismo, mas não deve ser considerada uma exigência para a realização de um bom trabalho espírita ou uma boa reunião mediúnica. Lembremos, afinal, que Jesus em Mateus, Cap. 15 e vers. 11 disse que: "Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina”.E, para aprimorar o que sai de “nossa boca” e de nossos atos, devemos nos esforçar pela reforma íntima e no estudo doutrinário.


Referências

[1] Emmanuel, psicografia de F. C. Xavier, O Consolador, FEB, 20ª Edição (1999).

[2] André Luiz, psicografia de F. C Xavier, Missionários da Luz, FEB, 26ª Edição (1995).

[3] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a Edição, (1995).

[4] Lamennais, Revista Espírita Dezembro, pp. 387—388 (1863).

[5] Anacoreta é uma pessoa que se retira a um local isolado para dedicar-se a meditação e oração.

[6] D. P. Franco e J. R. Teixeira, Diretrizes de Segurança, Editora FRATER, 8ª Edição (2000).


endereço: http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo2345.html
imagem:
www.forumbtt.net


10 comentários:

*Teresa Cristina* disse...

Ótimo seu post!
Aqui em casa já diminuimos até q bem, porém ainda não totalmente o consumo de carne, estamos aprendendo a usar mais soja, esfiha mesmo só de soja, é mais leve até....e assim vamos nos educando.
Uma linda semana pra ti, de muita paz!
Bjs

Jorge disse...

Teresa,

tirar a carne do cardápio não é tão difícil que tirar vícios íntimos, né?

Anjo, beijo!!!

bioamiga disse...

Olá Jorge,
Legal seu post, muito informativo.
Tenho tentado diminuir o consumo da carne, mas por questão de cultura tem sido um tanto difícil deixar totalmente.

Muita paz!

Marlene Oliveira disse...

Jorge,
gostei demais do estudo postado aqui. Li com atenção. Desde que minha filha deixou de comer todo tipo de carne há onze meses eu tenho tentado fazer o mesmo, sem sucesso.
Minha justificativa é: "minha filha nunca gostou de carne. Eu gosto!". Mas entre tentativas e fracassos já notei o quanto faz bem pra saúde, desde que substituamos adequadamente. A proteína de soja é substituta perfeita, do ponto de vista nutricional.

Alegria e Paz!

Carllos Allberto disse...

Olá Jorge!
Muito bom mesmo esse post.
Muito esclarecedor.
Penso exatamnete como na colocação em que ditas que por constituirmos matéria densa, ainda nescessitamos alimentar-mo-nos de carne,porém de uma forma leve, quando houver a nescessidade e o nosso organismo assim o exigir. O que pesa muito em nossas energias, é a maneira ou forma,ou os motivos muitas vezes extremamente fúteis de abatimentos animais.Visando somente o comércio, lucros, esquecendo que por baixo de um couro, unido aquela carne, vibrava também uma alma em evolução.Que aprendessemos pelo menos ter respeito pela vida dos animais, e consumíssimos somente o nescessário.

Um fraterno abraço amigo.

Jorge disse...

Carlos Alberto,

creio na necessidade de disciplina. A questão. creio, não comer carne, mas sim tr o domínio e consci~encia de quanto comer e quando.
Homem consciente é homem responsáve.

Obrigado pela visita, meu amigo!!!

Leide disse...

Olá Jorge!

ótima postagem.....já faz um ano que deixamos de comer carne...é muito bom e não foi difícil, pois, era um sonho meu....

Tenha uma semana iluminada!

Anthar César disse...

Onde está a evolução humana, tão propalada pela doutrina espírita quando defende que o consumo de carne, proveniente do sofrimento dos animais não faria tão mal assim? Ou vocês imaginam que a morte de um ser vivente é coisa normal, mesmo que para alimentar os instintos dos "homens da caverna"?. É para rir ou chorar??

Rubens Tadeu Garcia Mariano disse...

Devemos levar em consideração que O Livro dos Espíritos foi ditado a mais de 150 anos, sendo as considerações de Emmanuel e André Luiz são mais recentes.
Quanto à questão 724 do LE raciocinemos que os primeiros beneficiados seriam os próprios animais, nossos próximos, ou não?
Até quando vamos buscar a fala de Jesus em Mateus para justificar um hábito primitivo que o homem debelaria facilmente com sua inteligência?

Unknown disse...

Como espíritas sabemos que somos espíritos em processo de evolução, intelectual e moral. Essa evolução também inclui a alimentação. Hoje dispomos de conhecimentos na área da nutrição que não possuíamos antes. O Irmão X também nos aletou na mensagem Treino para a morte:"Comece a renovação de seus costumes pelo prato de cada dia. Diminua gradativamente a volúpia de comer a carne dos animais. O cemitério na barriga é um tormento, depois da grande transição. O lombo de porco ou o bife de vitela, temperados com sal e pimenta, Não nos situam muito longe dos nossos antepassados, os tamoios e os caiapós, que se devoravam uns aos outros".

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