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quinta-feira, 19 de abril de 2012

DOENÇA DE ALZHEIMER E SEUS ASPECTOS ESPIRITUAIS


Definição e Anotações sobre a Psicopatologia da Doença de Alzheimer


O “Mal de Alzheimer”, ou Doença de ALZHEIMER, é um quadro demencial, irreversível, com solapamento progressivo, principalmente, da MEMÓRIA do paciente e de outras funções cognitivas (intelectuais).
Em geral, a doença começa a partir dos 65 anos, mas há vários casos de início precoce, isto é, a partir dos 45 anos.
Para entendermos bem as características e evolução dessa Doença é preciso tentar explicar o que se denomina LEI DA REGRESSÃO MNÊMICA DE RIBOT... Segundo esta, quando uma pessoa apresenta uma alteração mnêmica (da memória) “orgânica”, primeiramente é comprometida a “memória de fixação” e “memória de curto prazo”, ou seja, a pessoa começa a se esquecer de acontecimentos ocorridos mais recentemente e, com o progredir da Doença, a memória para fatos mais antigos também será deteriorada. Outro aspecto da “Lei de RIBOT” é que as funções psíquicas mais complexas são afetadas, também, mais precocemente do que as funções mais simples. É por isso que, no início da Doença de ALZHEIMER o paciente costuma se “perder” em via pública ou mesmo esquecer-se de fatos os mais corriqueiros, pois a memória recente estando comprometida, o paciente fica “desorientado” no tempo e no espaço; além disso, o paciente costuma apresentar alterações “ético-sociais” -, o “pudor” (que é uma função complexa) fica comprometido; conseqüentemente, não é raro indivíduos bem educados apresentarem sintomas como despir-se na frente de uma multidão de pessoas, não conseguindo ajuizar eticamente a sua conduta.
A propósito, certa vez, tratamos um paciente com Doença de ALZHEIMER cujo primeiro sintoma foi urinar em via pública, exibindo a genitália para os transeuntes, no entanto, era um Sr. com um passado de moral ilibada e muito responsável e elegante...
Enfim, a Doença de ALZHEIMER vai afetando, progressivamente, as funções corticais do paciente, pois o que acontece é que há uma ATROFIA DO CÉREBRO do paciente e, por isso mesmo, as funções cognitivas (intelectuais) e até motoras (de movimento) são deterioradas pela doença, irreversivelmente, porque as células cerebrais não se regeneram, uma vez atrofiadas não são substituídas por outras, íntegras; por isto, diz-se que o tecido cerebral é “tecido nobre”, isto é, as células lesionadas não são substituídas. Exatamente como varias pessoas vivenciam: “na parte física vemos que a pessoa vai definhando, perdendo o movimento e a noção das coisas.”


Visão espírita do “Mal de Alzheimer’


Na época do lançamento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS (OLE), de ALLAN KARDEC (1857), não se conhecia a fisiopatologia da Doença de ALZHEIMER, por isso, a Codificação não se refere à Doença especificamente, porém, podemos extrair algum conhecimento sobre o que acontece com o Espírito da pessoa com essa Doença se analisarmos bem a resposta à questão
156 de OLE e, com tal análise, não podemos nos furtar a um melhor entendimento da natureza e propriedades do PERISPÍRITO e suas correlações com a MEMÓRIA e o TEMPO,,,
Assim, leiamos a questão 156 de OLE e a primeira parte da resposta:
“A separação definitiva entre a alma e o corpo pode verificar-se antes da cessação completa da vida orgânica?
“- NA AGONIA, ÀS VEZES, A ALMA JÁ DEIXOU O CORPO, QUE NADA MAIS TEM DO QUE A VIDA ORGÂNICA (...)”.

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MORTE CORPORAL E ESPÍRITO
O Espírito desliga-se definitivamente do corpo porque este está morto, mas
não é o desligamento do Espírito que causa a morte do corpo
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Parece-nos, que nas doenças crônicas em geral, que afetam o cérebro (como é o caso da Doença de ALZHEIMER), estando este deteriorado, ele não mais reagiria ao comando do Espírito - a vida na doença de ALZHEIMER se resumiria, praticamente, à vida orgânica, VEGETATIVA, “a alma já deixou o corpo”, embora não definitivamente, pois isto só ocorre na desencarnação...
A Sra. poderia, talvez, argumentar que um corpo não poderia viver sem alma, o que não seria verdade... O que mantém a vida corporal é o “FLUIDO” VITAL e não o Espírito, a vida só se extingue pela exaustão dos órgãos e não pela ausência do Espírito (cf. resp. à questão 68 de OLE). É preciso que se repita: o Espírito desliga-se definitivamente do corpo porque este está morto, mas não é o desligamento do Espírito que causa a morte do corpo...
Obviamente, ainda há uma ligação, muito tênue, entre o Espírito e o corpo de uma pessoa com Doença de ALZHEIMER, mas o rompimento de tal ligação só não é definitivo porque a pessoa ainda não desencarnou, pois o Espírito nada mais tem a fazer estando o cérebro sem NENHUM controle seu... Sabemos que a alma desprende-se do corpo, pouco a pouco, gradativamente, nas doenças orgânicas, crônicas (cf. se depreende da resposta à questão 155-A de OLE) e, num grau avançado da Doença, acreditamos que a alma está quase totalmente liberta do corpo.
Como um paciente com Doença de ALZHEIMER sente-se interiormente? Parece-nos que isto irá depender não só da evolução espiritual da pessoa, como também, do estágio evolutivo da doença, da demência. Quando as funções cognitivas (intelectuais) estão seriamente comprometidas, a pessoa nada sente, isto é, não há nenhuma repercussão ESPIRITUAL do que se passa no corpo... Aliás, KARDEC afirmava mais ou menos isto, em outras palavras, quando disse que de nada adianta ser um bom violinista se o violino estiver danificado. Como tocar boa música, nessa situação?
Prezados Srs. leitores e leitoras, o grande sofrimento na doença de ALZHEIMER é dos familiares e da Sociedade, não é do paciente. É muito duro, às vezes desesperador mesmo, ver um ente querido, um ser humano, desconhecer seus próprios parentes, não saber pronunciar seus nomes (na afasia motora) e, às vezes, nem reconhecer as coisas do ambiente (agnosia) e nem ter coordenação para os mais simples movimentos úteis, como vestir uma roupa (apraxia), certamente, como dizem alguns: “é um sofrimento ver uma pessoa tão dinâmica ir definhando aos nossos olhos.”... Aí está: a doença de ALZHEIMER é uma PROVA, extremamente difícil para os familiares e exige muita resignação e muito Amor e, antes de tudo, a certeza na IMORTALIDADE DA ALMA e de sua INDIVIDUALIDADE após a morte e confiança na Providência Divina e aí está a “vantagem” de ser espírita, se é que assim podemos nos exprimir, porque a Doutrina Espírita é Consoladora justamente porque nos dá essa CERTEZA (através de FATOS positivos) nas respostas a questões existenciais que todos já fizeram algum dia: por que aqui estamos? Para onde vamos? Por que sofremos?...
Enfim, cuidar muito bem dos pacientes, embora acreditemos que não é fácil, mas as dificuldades são postas em nossa vida para crescermos espiritualmente e, quem sabe, se este gênero de prova não foi solicitado pelos familiares. antes de reencarnar?!
A nosso ver os familiares devem ficar tranqüilos quanto ao suposto sofrimento dos pacientes, pois, praticamente ele não existe, e aí é que devemos agradecer à Providência Divina, pois, na maioria das vezes o próprio paciente não percebe o seu comprometimento cognitivo, nem se dá conta que sua memória está gravemente comprometida. Se eles forem um Espírito com certa elevação, devem estar sentindo-se muito melhor que os familiares, disto temos absoluta certeza, pois estando o Espírito dela com uma tal emancipação, as coisas terrenas praticamente não a afetariam.

Onde ficarão “impressas” as vivências presentes e passadas?


Como dissemos, o sintoma principal na Doença de ALZHEIMER é a deterioração da MEMÓRIA e tem havido muita distorção doutrinária, a nosso ver, em relação à questão do PERISPÍRITO, que, para alguns, seria o “arquivo” das nossas experiências terrenas.


O PERISPÍRITO, A MEMÓRIA E O TEMPO


Existem outras obras, além das básicas , da DOUTRINA ESPÍRITA? Creio que não, pois não me consta que a Espiritualidade Superior tenha se manifestado doutrinariamente, depois de KARDEC, com a “concordância universal dos seus ensinos”; eis, talvez, uma das causas dos aspectos polémicos citados por alguns. Há um adágio, cuja autoria eu desconheço, do qual gosto muito: quando os “espíritas” igrejeiros insistirem, estereotipadamente, em que FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO, que, aliás, é uma verdade; poderemos complementar com o adágio: - E FORA DA CODIFICAÇÃO NÃO HÁ DOUTRINA ESPÍRITA...


Perispírito - Matéria e Espírito - Densidade e ponderabilidade da matéria

Como vários estudiosos dizem, o “perispírito” possui características “especiais” de DENSIDADE, PONDERABILIDADE e PLASTICIDADE. Está perfeito! Perguntaríamos, então, ao leitor: conhecemos a densidade e a ponderabilidade do “perispírito”?!...Embora seja “matéria”, desconhecemos a natureza íntima do perispírito. Por que? Porque só conhecemos, aliás não completamente, a matéria “terrena”. As qualidades de EXTENSÃO, IMPENETRABILIDADE e que IMPRESSIONA OS SENTIDOS cessam, quando desejamos conceituar a matéria constitutiva do perispírito (cf. resposta à questão 22 de O Livro dos Espíritos de ALLAN KARDEC).
Portanto, só podemos definir a “matéria”, muito genericamente, como “o liame que escraviza o espírito; é o instrumento que ele usa, e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação” (cf. resposta à questão 22-A, op. cit.).
A matéria com que lidamos na Terra possui densidade, ponderabilidade, contudo, a matéria considerada como derivada do “fluido universal” é IMPONDERÁVEL para nós, encarnados e imperfeitos. E isso é exposto claramente em resposta à questão 29 (op. cit.), diz ela: “A ponderabilidade é atributo essencial da matéria? E a resposta: “- Da matéria como a entendeis, sim; mas não da matéria considerada como fluido universal. A matéria etérea e sutil que forma esse fluido é imponderável para vós, mas nem por isso deixa de ser o princípio da vossa matéria ponderável.”. A seguir, KARDEC comenta:
“A ponderabilidade é uma propriedade RELATIVA (o destaque é nosso). Fora das esferas de atração dos mundos, não há peso, da mesma maneira que não há alto nem baixo.”
É interessante ressaltar que a ponderabilidade dos corpos depende, necessariamente, dos fatores cósmicos atuantes do mundo em que se encontram; da lei de gravidade, por exemplo, em nosso planeta.
Vários cientistas estudaram a questão da MATÉRIA, tais como: CHARLES RICHET, MORSELLI, CESARE LOMBROSO, W. J. CRAWFORD, WIILLIAM CROOKES, etc., inclusive estudaram os fenômenos de “ectoplasmia”. Contudo, tais estudos foram realizados, fundamentalmente, em MÉDIUNS, isto é, com “fluidos animalizados” do médium em “conjunção” com os da Espiritualidade desencarnada. Assim, W. CROOKES no seu notável estudo da médium FLORENCE COOK na qual se manifestava principalmente o espírito de KATIE KING, além dos estudos com a médium EUSÁPIA PALADINO realizados por RICHET, LOMBROSO, CRAWFORD e outros... Todas essas experiências, realizadas em geral por cientistas, a princípio, céticos em relação ao mundo espiritual, serviram para a comprovação da realidade do mundo espiritual e pouco mais se conseguiu. A propósito, na obra “O Psiquismo experimental”, ALFREDO ERNY relata que escreveu ao Sr. CROOKES, em 1892, e perguntou-lhe se KATIE KING ter-lhe-ia feito revelações sobre o outro mundo, recebendo do ilustre químico a resposta:
“Tive muitas conversações com KATIE KING, e naturalmente lhe fiz várias perguntas a respeito do outro mundo. As respostas não satisfizeram. Geralmente ela dizia que estava proibida de dar essas informações.”
Portanto, vários leitores leram algumas obras atuais estabelecendo as “correlações do Espírito com a matéria”, pontificando a natureza eletromagnética dessa matéria, tenham muito cuidado; pois no Espiritismo, infelizmente, há muitos espíritos pseudo - sábios, embora a Física moderna têm lançado muita luz sobre tais obscuros problemas. Creio que deverá demorar muito para que conheçamos, aqui na Terra, a densidade e ponderabilidade do perispírito; talvez isto ocorra com a regeneração da Terra... Talvez... Talvez... Por enquanto, há boas hipóteses-de-trabalho, nada mais, o que já é um avanço considerável...

Perispírito e participação na elaboração do pensamento e no desenvolvimento da inteligência


Não concordo com que o perispírito - embora seja matéria quintessenciada - esteja “alheio à elaboração da inteligência e do pensamento”. Na erraticidade, na Terra e em outros mundos o Espírito terá sempre o seu envoltório (perispírito), exceto os Espíritos muito Superiores e os Puros, se não estiverem encarnados; aliás, esta é uma eventualidade rara mas não impossível, embora não estejam mais sujeitos à encarnação, eles podem encarnar-se em “missão”, nada impede!... Frisamos isto, aqui, como um obstáculo aos sofismas dos roustainguistas.
Como disse a Espiritualidade Superior: “(...) o Espírito muda de envoltório, como muda de roupa.” (cf. resposta à questão 94 ‘in fine’ de O Livro dos Espíritos). Só podemos conceber o Espírito sem a matéria “pelo pensamento” (cf. resposta à questão 26, op. cit.).
Embora a Inteligência e o Pensamento sejam atributos inalienáveis do Espírito, haverá sempre co-participação do perispírito em relação ao Pensamento e à Inteligência. Por que o perispírito não está “alheio à inteligência e ao pensamento”? Justamente porque o perispírito é o liame entre o mundo espiritual e o material. Onde houver matéria, aí estará o perispírito, mais grosseiro como o nosso ou menos grosseiro como na erraticidade e nos mundos mais evoluídos.
Sem a participação do perispírito não há progresso material nem espiritual. Como citamos, anteriormente (questão 26 de OLE), a separação entre o perispírito e o espírito é uma abstração do pensamento dos encarnados e inferiores, como nós.


Memória humana (psíquica ou verdadeira) e Memória animal (Memória orgânica ou Memória - hábito) - A questão do tempo - A “durée” bergsoniana


As explicações da função do perispírito como “arquivista temporário” ou como “biblioteca do espírito”, são interessantes didaticamente, todavia, não há rigor nessas explicações... A memória humana não é um mero repositório de engramas (imagens fixadas e conservadas) “arquivados”.
Coube ao filósofo HENRI LOUIS BERGSON (1859-1941) a distinção entre MEMÓRIA ORGÂNICA (ou MEMÓRIA-HÁBITO) e MEMÓRIA PSÍQUICA (ou MEMÓRIA VERDADEIRA). Esta seria apanágio, “específico”, do ser humano.
Com o prof. NOBRE DE MELO podemos definir MEMÓRIA, genericamente, como “a propriedade ou capacidade psíquica de “fixar, conservar” (em latência) e “reproduzir”, “evocar” ou “representar” (voltar a apresentar na consciência), sob a forma de “imagens representativas ou mnêmicas” aquelas impressões sensoriais recebidas, transmitidas e conscientizadas sob a forma de sensações.” (A . L. NOBRE DE MELO. PSIQUIATRIA - Vol. I. Civiliz. Bras. / MEC, Rio de Janeiro, 1979, p. 398). Prosseguindo, diz o nosso mestre da Psiquiatria brasileira, já desencarnado:
“Mas, assim, genericamente concebida, a memória deixa de ser, é óbvio, atributo específico do ser humano”. E exemplifica: “Um cão, digamos, que, alguma vez, tenha sido corrido a pedradas, fugirá espavorido se alguém fizer menção de arremessar-lhe seja o que for, e isso, por efeito, unicamente da dolorosa lembrança anterior fixada”.(op. cit., p. 398 - 399).
Então, com aquela definição genérica, poderíamos dizer que a simples capacidade de armazenar (“arquivar”) e reproduzir impressões deixadas pelos estímulos e excitações do meio externo pode ser encontrada até nos organismos unicelulares, num disco CD, numa fita cassette e nos robôs eletrônicos da moderna Cibernética. Mas seria simplesmente isso a memória humana? Não, a memória orgânica existe no Homem como em qualquer animal, mas a memória humana tem algo de específico...Vejamos a explicação do prof. NOBRE:
“Algo diversos, sem dúvida, são os fatos que definem a chamada “memória psíquica” ou “verdadeira”, esta sim, apanágio do ser humano. Aqui, não somente se verifica a possibilidade de reprodução mecânica ou automática (ecforia) de imagens perceptivas fixadas e conservadas “(engramas)”, mas também a revivescência “(evocação) voluntária” ou “involuntária”, isto é, mercê de associações fortuitas, de estados psicológicos passados, dos pensamentos, sentimentos, emoções, desejos e fantasias, que constituem o patrimônio de nossa experiência vivida. Quer isso dizer que o homem recorda, não apenas os acontecimentos do mundo externo ou circundante, que lhe é dado aos sentidos, mas também os de sua realidade interna, e suas significações respectivas, reconhecendo-os e localizando-os em determinado momento da existência. A memória psíquica ou verdadeira implica, em suma, um FATOR INTENCIONAL SIGNIFICATIVO o destaque é nosso, que, a libera do FATALISMO destaque nosso da memória orgânica.” (op. cit., p. 399).

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MEMÓRIA HUMANA
A memória orgânica existe no Homem como em qualquer animal,

mas a memória humana tem algo de específico

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Enfim, caríssimos leitores, a “memória humana, verdadeira”, não é um simples “arquivo”, estático, de nossas vivências pretéritas. Nem a memória de um computador é assim!... O élan vital caracterizado por BERGSON implica numa continuidade do tempo e numa duração (“durée”). Ou, como dizem os filósofos existencialistas, implica numa “intencionalidade, significativa”... O movimento humano é para o futuro, evolutivo; nunca retroagimos. Nossas vivências passadas são sempre modificadas pelo nosso psiquismo presente e pelas nossas perspectivas futuras... Quando me lembro de uma vivência ocorrida na minha infância, estando com 61 anos, tal vivência não é hoje, rigorosamente, igual àquela que tive na infância. O que mudou? O meu passado? Não, eu mudei e, portanto, mudou a minha vivência.
Além disso, a lembrança ATUAL de um acontecimento será vivenciado diferentemente pelas pessoas, o que levou, inclusive, o escritor italiano LUIGI PIRANDELLO a falar na “Verdade de cada um”... Aliás, a vivência atual pode ser modificada por uma série de “associações fortuitas” como bem assinalava o prof. NOBRE. Através dessas associações há “mudanças qualitativas” na duração (“durée”) e o passado é recuperado , de acordo com o “bergsonismo” (cf. sua obra “Matéria e Memória. Ensaio sobre a Relação entre o Corpo e o Espírito”). Assim, pode ser traçado um paralelo entre o bergsonismo e a música do compositor CLAUDE ACHILLE DEBUSSY e a obra do escritor MARCEL PROUST.
Obviamente, não cabe neste artigo uma análise pormenorizada da questão do TEMPO VIVIDO, do tempo como DURAÇÃO. A propósito disse SANTO AGOSTINHO, encarnado, nas suas Confissões em relação ao que seja o tempo:
“Si nemo me quaerat, scio; se quarenti explicare velim, nescio” (Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.).cf. op. cit. Livro XI – item 14.
Ou seja, a questão do tempo implica um caráter eminentemente “intuitivo”. Ora, um filósofo, “encarnado”, afirma não poder explicar o que é o tempo, imagine-se definir o tempo vivido no mundo espiritual!...
A DURAÇÃO (“durée”) do ponto de vista “espiritual” é bem diferente da nossa e isso foi explicitado na resposta à questão 240 de O Livro dos Espíritos e KARDEC comentou a seguir:
“Os Espíritos vivem fora do tempo, tal como o compreendemos; a DURAÇÃO o destaque é nosso, para eles, praticamente não existe, e os séculos, tão longos para nós, são aos seus olhos apenas instantes que desaparecem na eternidade, da mesma maneira que as desigualdades do solo se apagam e desaparecem para aquele que se eleva no espaço”.
O “TEMPO VIVIDO” pode alterar-se em algumas doenças mentais (Esquizofrenias, depressão, etc.) e até em pessoas normais. Por exemplo, o cantor popular brasileiro ROBERTO CARLOS diz nos seus versos na canção “Amor sem limites”: “(...) Aprendi que pouco tempo é muito, se estou longe de seus braços.” . E nos pacientes com a denominada Síndrome de COTARD observa-se um “delírio de negação dos órgãos” (delírio niilista) e um “delírio de eternidade”, em conseqüência, o paciente sofre muito por julgar que nada existe e que aquela situação durará “eternamente”...
É exatamente pelo fato da “DURAÇÃO” ser diferente no mundo “espiritual”, que muitos espíritos desencarnados, ainda apegados à vida carnal, julgam-se no inferno, acreditando assim na “eternidade das penas”. Assim, KARDEC dá inúmeros exemplos dessa situação na 2ª. parte do seu livro “O Céu e o Inferno – A Justiça divina segundo o Espiritismo”. Ilustrando-se isto, sugiro ao leitor que leia o caso BENOIST (op. cit., 2ª parte, cap. VI, “Criminosos arrependidos”, especialmente as questões 3, 9 e 11); e que leia também o caso “Duplo suicídio, por amor e por dever” (op. cit., 2ª parte, Cap. V, “Suicidas”, especialmente a resposta à questão 4, atentando-se para o clamor da que foi a jovem PALMYRE: “sempre assim!”).


EPÍLOGO


Acreditamos que nossas vivências sejam “impressas” em nosso cérebro e aquelas mais importantes espiritualmente (intelectuais e morais) são levadas ao Espírito, através do perispírito. Mas, tais vivências não ficam ali “arquivadas”, o Espírito as modifica de acordo com o seu “livre – arbítrio”.
Admitir-se o perispírito como “arquivista temporário” ou como “biblioteca do espírito” é admitir-se a “memória orgânica”, pura e simplesmente, e, portanto, cair num “fatalismo materialista mecanicista”, ao qual muitos expositores que se dizem “espíritas” e defensores do “Evangelho de JESUS” são conduzidos, alguns até bem-intencionados...
Caro leitor, estou terminando este artigo... Precisarei utilizar o comando “Salvar como” do meu computador para que ele fique arquivado. Toda vez que clicarmos no título “O PERISPÍRITO, A MEMÓRIA E O TEMPO”, aparecerá na tela todo o meu artigo, porque ele ficará na “memória” do meu computador...
Embora as minhas vivências significativas também fiquem “arquivadas” no meu Espírito, o comando “Salvar como” é sempre “Salvar automaticamente” e eu terei acesso a elas clicando não o título, mas sim a “tecla” VONTADE, aqui ou na erraticidade; contudo, nem todo o “texto” estará disponível para ser revivenciado na minha consciência, como numa “ecmnesia” (revivescência do passado individual), pois a “Providência Divina” interdita pensamentos, emoções, sentimentos, etc. que sejam inúteis para o nosso progresso espiritual.
Gostaríamos de dizer que as vivências do Espírito desses pacientes são “qualitativamente” diferentes das dos seus familiares, pois o Espírito deles estão parcialmente EMANCIPADOS do corpo, ao passo que os familiares e nós, encarnados, vivemos as nossas experiências na “prisão” da carne... O “Mal de ALZHEIMER” aniquila a vivência do tempo para o corpo, porque este não “obedece” ao comando do Espírito.


Autor: Iso Jorge Teixeira


texto - www.jornallivre.com.br/203772/
imagem - angelfairylove.blogspot.com

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

MEDICINA DA ALMA


Ricardo Di Bernardi


Cada vez mais, “minorias criativas” buscam a integração entre Fé e Razão, tendo em vista que é impossível compreender o mundo, o universo e o próprio ser humano, sem as luzes de um paradigma, de um modelo, que contemple todas as áreas das cogitações humanas. As revoluções conceituais da física , no século XX, muito contribuíram para essa nova visão da realidade, demonstrando que a matéria cedeu lugar à energia, o tempo é variável, o movimento descontínuo, a interconectividade não localizada, e a consciência é capaz de influir nos eventos, selecionando possibilidades. Nesse novo tempo, especialistas passaram a enxergar o ser humano de forma integral, conectado a uma imensa rede invisível, que engloba todas as coisas, do micro ao macrocosmo, e não têm nenhum pudor em reconhecer a complementaridade entre Ciência e Religião, valorizando a integração da Espiritualidade à vida humana.

Foi assim que ganhou impulso, na década 1970, uma dessas minorias criativas, formada por médicos que buscam implantar nas universidades estudos de Medicina e Espiritualidade. Sob essa denominação, já há cursos regulares ou opcionais, e também de pós-graduação, em 2/3 das universidades americanas, entre outras, nas Escolas Médicas de Harvard, com Herbert Benson, judeu, de Duke, com Harold Koenig, católico, do Novo México, com William Miller, luterano. Afirmamos, com renovada alegria, que nós, médicos espíritas, fazemos parte de uma dessas minorias criativas que tenta levar Espiritualidade às universidades, porque os fundamentos da Medicina Espírita estão em sintonia com o que é realizado, hoje, na maioria das universidades norte-americanas.

A obra do ilustre físico e humanista Fritjof Capra, especialmente, O Ponto de Mutação , está na vanguarda dessa luta em favor de um novo paradigma para a humanidade, em particular para a Medicina, com sua proposta de Assistência Holística à Saúde, que contempla o ser humano integral – Mente-Corpo. Nessa luta por um novo modelo de saúde, engajou-se também o físico quântico, Amit Goswami, com sua teoria sobre a Consciência, exposta em sua obra, especialmente, O Universo Autoconsciente. Nela, ele sustenta que a Consciência está fora da matéria, sendo, na verdade, fonte criadora do mundo material.

Hoje, tanto quanto nos séculos XIX e XX, há fortes evidências científicas da existência do Espírito. Pesquisadores, em sua maioria não espíritas, têm investigado casos de Experiências de Quase Morte (EQM), Visões no Leito de Morte, Experiências Fora do Corpo, Transcomunicação Instrumental e Reencarnação, acumulando evidências em favor da sobrevivência da alma.

O neuropsiquiatra, Peter Fenwick, os cardiologistas Michael Sabom e Pim Van Lommel, os psiquiatras, Raymond Moody Jr , Elizabeth Kübler-Ross e Sarah Kreutziger, o pediatra Melvin Morse, os psicólogos, Kenneth Ring, Phillis Atwater e Margot Grey, entre outros, relataram casos de EQM, contando o que centenas de sobreviventes da morte vivenciaram, quando foram considerados clinicamente mortos. A conclusão dos pesquisadores e dos sobreviventes é de que algo imaterial sobrevive à morte do corpo físico.

Na alentada obra Reincarnation and Biology, de Ian Stevenson , professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Virgínia, EUA, constatamos também, nos 2.600 casos pesquisados, não apenas evidências da sobrevivência do espírito, mas igualmente da reencarnação, podendo-se acompanhar, inclusive, a correlação entre as marcas de nascença e os defeitos congênitos da existência atual com as vivências anteriores.

Hoje, já há centenas de trabalhos publicados em revistas científicas prestigiadas, como The Lancet, New England Journal of Medicine; British Medical Journal, JAMA etc. sobre o valor da prece na terapêutica (ver site: www.ncbi.nlm.nih.gov, do NIH). Do mesmo modo, experiências realizadas pelo psicólogo brasileiro, Júlio Peres, em parceria com o neurocientista, Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, EUA, evidenciaram áreas do cérebro em funcionamento, que são ativadas e rebaixadas, durante as sessões de Terapia por Regressão de Memória, realizadas com pacientes do Instituto Nacional de Terapia de Vivências Passadas (INTVP) do Brasil. Essas pesquisas, somadas às que o dr. Newberg realizou com pessoas em estado de vigília e meditação, mostram um campo promissor para o estudo do Espírito e sua atuação sobre a matéria.

No Japão, Massaru Emoto, após 8 anos de investigação, publicou o livro, Messages from the Water, mostrando como a água pode formar cristais perfeitos ou não, conforme a ação exercida sobre ela pelos pensamentos e sentimentos humanos. Tanto as experiências de Andrew Newberg e Júlio Peres, quanto as de Massaru Emoto trazem subsídios importantes para validar a Terapêutica Complementar Espiritual e entreabrem novos campos para a pesquisa em medicina energética.

Hoje, com o progresso vertiginoso da Ciência e, igualmente, o aumento maciço das doenças da alma, é imperioso que esses cursos de Medicina e Espiritualidade se multipliquem nas Escolas Médicas do mundo. A mudança de mentalidade, porém, não é nada fácil. Há três séculos, a ênfase tem sido para a visão de um ser humano esquizofrênico, dividido entre as investigações científicas e a busca religiosa, consideradas e alimentadas como irreconciliáveis. Esse paradigma antigo, materialista reducionista , está calcado no predomínio do egoísmo sobre o amor, do intelecto sobre o sentimento, e tem sido responsável pelo recrudescimento da violência, da ambição sem freios, dos vícios, da intolerância religiosa e das grandes desigualdades e calamidades sociais. Nele, o ser humano é reduzido tão-somente às funções neuroquímicas do cérebro, destituído de qualquer elemento imaterial que anime suas células. Com esse modelo, não haverá paz no mundo.

Contra ele, a favor da integração espírito-matéria, coloca-se o movimento em prol da Medicina e da Espiritualidade. Com a preponderância deste modelo, que tem na solidariedade uma de suas importantes vigas-mestras, acreditamos que os médicos estarão muito mais aptos a lidar com a dor humana, esforçando-se por diminuir os sofrimentos e angústias dos seus irmãos em humanidade.


texto - www.rcespiritismo.com.br

imagem - kellydeoliveira.blogspot.com

sábado, 24 de setembro de 2011

VIDA INTELIGENTE NO UNIVERSO - II


Francisco Curado


Os problemas que poderão obstar à existência de vida num planeta não têm a ver apenas com a dificuldade da sua origem, mas também com a sua sobrevivência nesse planeta.
Um dos factores determinantes é a existência de uma atmosfera em redor do planeta. Esta tem a dupla função de suportar os fenómenos respiratórios dos seres vivos, mas também o de travar os objectos celestes que se despenham sobre o planeta, pondo em causa a sobrevivência dos seres.


Planetas habitados: quantos?


Outro factor a ter em conta é a intensidade da chuva de meteoritos, asteróides e cometas a que um planeta pode estar sujeito. Estima-se que a Terra tenha sido durante milhões de anos bombardeada por estes corpos, de tal forma que mesmo que a vida emergisse nalgum local do planeta, as probabilidades de ela subsistir seriam muito reduzidas. Por fim há que ter em conta um outro factor que até há bem pouco tempo era uma preocupação fundamental da Humanidade e que muitos pensadores ponderavam se seria uma vocação das sociedades tecnolo-gicamente avançadas: a autodestruição.
Tendo em conta alguns destes factores, Frank Drake, presidente do Instituto de Pesquisa de Vida Extraterrestre (SETI), estabeleceu uma equação que estima o número (N) de civilizações tecnológicas detectáveis no universo: N = R * fp * ne * fl * fi * fc * L
O significado dos parâmetros desta equação é descrito no final deste artigo, para que o leitor possa fazer os seus cálculos. De acordo com tal fórmula, resolvemos fazer um cálculo, usando alguns números que não são os mais optimistas:

a=Idade do Universo: 15.000 milhões de anos

b=Nº de Galáxias: 100.000 milhões

c=Nº médio de estrelas por galáxia: 300.000 milhões

d=b x c: total de estrelas do Universo: 30.000.000.000.000.000 milhões

arbitrando fp = 10%, ne = 0.1%, fl = fi = fc = 1% (probabilidades não muito optimistas) para os parâme-tros da equação de Drake e L=100 anos (uma estimativa pessimista para a duração de uma sociedade tecnologicamente avançada), calculando R = d/a, obtém-se o valor de N= 20.000 planetas.

Resumindo, com base em números pessimistas, e nos nossos conhecimentos actuais, seria de esperar que o número de planetas habitados semelhantes ao nosso fosse da ordem das dezenas de milhar, só na parte do Universo por nós conhecido!
Note-se que este cálculo diz respeito apenas a civilizações com tecnologia avançada (segundo os nossos prismas), com capacidade de usar sinais inteligentes para comunicar no Espaço. Na realidade, o número de "civilizações" poderá ser muito maior, e o número de planetas habitados (mas sem sociedades organizadas) poderá ser muitíssimo superior, tendo em conta as probabilidades.
Se os números parecem ser tão optimistas, por que não detectam os pesquisadores outras civilizações no Espaço? Que pesquisas estão a ser feitas?

Pesquisas de vida extraterrestre

A Agência Espacial Norte-Americana (NASA) suporta já há longos anos um programa de pesquisa de inteligência extraterrestre (o programa SETI) que actualmente foca a vizinhança de mil estrelas do tipo do Sol (usando 28 milhões de canais de radiotelescópio) para tentar detectar sinais de civilizações com um grau de evolução tecnológico equiparado ou superior ao nosso.
A Sociedade Planetária (sediada nos Estados Unidos) tem suportado projectos de pesquisa baseados nos mesmos princípios tecnológicos, embora pesquisando diferentes zonas do Espaço. Actualmente, esta sociedade implementou um dos mais ambiciosos e caros projectos nesta área, utilizando centenas de milhões de canais de radiotelescópio em simultâneo na sua tentativa de detecção de sinais inteligentes.
Para além disso, lembramos que todas as missões de sondas espaciais enviadas a outros planetas do nosso Sistema Solar (Lua e Marte sobretudo) fazem recolha de amostras bioquímicas, tendo como um dos objectivos a pesquisa de vida ou pelo menos de matéria orgânica na superfície desses planetas.
Não se pode dizer, portanto, que no nosso século a ciência e a tecnologia tenham descurado a pesquisa de vida fora da Terra.
Quanto aos resultados, eles são bem menos animadores: a matéria orgânica tem sido detectada em corpos celestes como meteoritos e asteróides, mas não mais do que isso. Quanto à pesquisa de sinais de rádio no Espaço, alguns sinais intrigantes têm sido detectados, mas sem se poder concluir que se trata de mensagens com conteúdo inteligente.
A realidade deste tipo de pesquisa é que ela é bastante exigente em termos de recursos tecnológicos e as probabilidades de se conseguir receber sinais são baixas, uma vez que os radiotelescópios são geralmente apontados a uma pequena faixa do firmamento. Estas áreas do universo são seleccionadas para pesquisa com base no conhecimento dos astrónomos em relação à presença de estrelas com possíveis sistemas planetários — trata-se na realidade de um jogo probabilístico. Cobrir toda a esfera celeste neste tipo de missão seria impraticável.

Visitantes de outros planetas?

Se o tema da existência de extraterrestres tem dado lugar a aceso debate, mais candente ainda é a questão do seu aparecimento na Terra vulgarmente conhecida pela designação de fenómeno OVNI. Não se pode tentar sustentar uma posição relativa a este assunto sem conhecimentos empíricos. Mas, a menos que uma posição preconceituosa nos leve à partida a negá-lo, pode abordar-se a questão da possibilidade do fenómeno, sob um ponto de vista teórico.
Uma das questões que se coloca quando se fala de viajantes interestelares é a incomensurabilidade das distâncias a percorrer, relativamente à duração da vida de um ser do tipo humano. Ora a teoria da relatividade restrita veio já há alguns anos dar uma achega à questão, demonstrando que o tempo não passa da mesma forma para observadores em repouso e para observadores em movimento — concretamente, tal como foi já provado experimentalmente, o tempo passa mais lentamente para os observadores em movimento.
Assim, para um ser a viajar a uma velocidade próxima da luz, o tempo passaria muito lentamente e dar-lhe-ia a possibilidade de viajar enormes distâncias no Espaço, no tempo correspondente à duração da sua vida.
Exemplificando, para um viajante numa nave espacial, a 99,999% da velocidade da luz, o tempo passaria 224 vezes mais lentamente do que para um irmão seu que tivesse ficado na Terra. Em 10 anos, o viajante percorreria 2239,98 anos-luz; na Terra teriam passado 2240 anos, enquanto para ele teriam passado apenas 10 anos! Como efeito colateral, o nosso astronauta teria viajado não só no espaço, mas também no tempo.
É claro que viajar à velocidade da luz, ou próximo disso, é um feito tecnologicamente inalcançável para a nossa civilização actual. Mas não podemos estabelecer limites aonde nos poderá levar o progresso, se nos for dado o tempo suficiente.
Mais recentemente, outras descobertas da física-matemática vieram reequacionar as possibilidades de viajar no espaço-tempo(21). Derivadas da teoria da relatividade de Einstein, começaram a surgir novas teorias que incluem fenómenos tão exóticos como os buracos-negros e os buracos-de-verme.
Segundo alguns dos mais conceituados físicos da actualidade, o Universo estará permeado de buracos-de-verme, que são túneis no espaço-tempo que poderiam ser usados e até construídos por civilizações muito avançadas para viajar, ultrapassando as limitações teóricas impostas pela velocidade-limite da luz. Estes túneis do espaço-tempo permitiriam, entre outras coisas, passar de um Universo para outro.

À luz do espiritismo

Não podemos deixar de esboçar por vezes um ligeiro sorriso, quando deparamos com algumas das conclusões científicas como as acima referidas, e por dois motivos: um pelo reconhecimento daquilo que algumas revelações espíritas têm vindo a afirmar ainda antes de os cientistas estarem dispostos a aceitar tais teses; o outro, perante uma certa ingenuidade da abordagem científica. Tentemos refinar estas duas afirmações.
Em primeiro lugar, o espiritismo não vem tentando aproveitar da ciência aquilo que lhe interessa para suporte das suas teses, rejeitando tudo o que com elas não se compatibiliza. Acontece na realidade que o espiritismo tem tido uma capacidade de previsão e de explicação notável dos fenómenos, o que em ciência é sempre considerado como a melhor prova da correcção de uma teoria.
Em segundo lugar, nós espíritas não podemos deixar de sorrir por vezes perante o preconceito com que a ciência oficial encara toda a fenomenologia que escapa às ferramentas do seu método habitual. É interessante assinalar, por exemplo a posição de um dos autores atrás citados sobre este tema da origem da vida, quando classifica de «recurso ao sobrenatural» as teses que recorram a intervenções externas para dinami-zar a vida no nosso planeta. É uma atitude equivalente a desprezar o pensamento de um indígena que, ao encontrar um relógio perdido num deserto, associasse o maravilhoso do mecanismo à intervenção de outros seres mais evoluídos. Se não se deve, na realidade, em ciência, fomentar o mito, também não é adequado deitar fora elementos de trabalho que poderiam revelar-se fundamentais.
Por fim, uma palavra de apreço à ciência por muito do que sabemos e outra de advertência. Foi com o método científico que aprendemos a ser meticulosos nas nossas observações e cautelosos nas nossas conclusões. Allan Kardec ensinou-nos a respeitar estes princípios e dessa forma incorporou o método científico no espiritismo.
Em ciência, constrói-se passo a passo, sem precipitações, aproveitando os alicerces e o edifício já edificado por outros anteriormente, sempre na esperança de que esses precursores tenham tido o mesmo cuidado na sua construção.
Mas por vezes alguns dos que se dizem cientistas não estão livres de preconceito, nem escapam à tentação de querer ver apenas aquilo que querem ver.
A história da pesquisa científica sobre a origem da vida está eivada de casos deste género, que contaminarão durante muito tempo o edifício científico nesta área. É necessário separar o trigo do joio.

__________

Parâmetros da fórmula de Drake: R : Taxa de formação de estrelas susceptíveis de gerar condições para a vida. fp : fracção de estrelas com sistemas planetários. ne: fracção de planetas com condições ambientais para suportar vida. fl : fracção de planetas com condições apropriadas, que suportam vida actualmente. fi : fracção de planetas com vida, que terão vida inteligente. fc : fracção de civilizações com capacidade tecnológica para serem detectadas no espaço. L :indicador da duração de uma civilização capaz de enviar para o espaço sinais inteligentes detectáveis. N = número de civilizações tecnológicas detectáveis no Universo.


Referências bibliográficas:

(1) Stephen Hawking .O Fim da Física. Gradiva (1994).
(2) B.Yavorsky, A.A.Detlaf. Prontuário de Física. Edit. Mir (Moscovo 1984).
(3) Máximo Ferreira, G. Almeida. Introdução à Astronomia e às Observações Astronómicas.
Plátano edit. (1993).
(4) Robert Burnham. Glorious Universe. Astronomy-Out-1992.
(5) Belind Wilkes.The emerging pictures of quasares. Astronomy-Dez-1991.
(6) Jeff Kanipe. Rethinking the Big-Bang. Astronomy-Abr-1992.
(7) David Bruning. Lost and found: pulsar planets. Astronomy-Jun-1992.
(8) David Brunning. Desperately seeking Jupiters. Astronomy-Jul-1992.
(9) Seth Shostak. Listening for life. Astronomy-Out-1992.
(10) Christopher Chyba. The cosmic origins of life on Earth. Astronomy-Nov-1992.
(11) Ken Croswell. Have Astronomers solved the quasar enigma?. Astronomy-Fev-1993.
(12) Alan Dyer. A new map of the Universe. Astronomy-Abr-1993.
(13) Julie Paque. A friend for life? . Astronomy-Jun-1995.
(14) Richard Monda. Shedding light on Dark Matter. Astronomy-Fev-1992.
(15) Planetary Society. Planetary Report; vol. xiii, nº 5.
(16) Planetary Society. Planetary Report; vol. xv, nº 3.
(17) Michio Kaku. What happened before the Big-Bang?. Astronomy-Mai-1996.
(18) Patrick Moore. The New observer’s book of Astronomy. Warne publ. (Londres 1962).
(19) Robert Naeye. New solar systems. Astronomy-Abr-1996.
(20) Robert Shapiro.
Origens - A criação da vida na Terra, um guia para o céptico. Gradiva (1987).
(21) Barry Parker. Tunnels through time. Astronomy-Jun-1992.


Revista de Espiritismo nº. 33, Outubro/Dezembro 1996



texto - http://www.panoramaespirita.com.br/novo/artigos/ciência

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

VIDA INTELIGENTE NO UNIVERSO - I


Francisco Curado

O tema do aparecimento da vida, da sua evolução e da sua possível distribuição no Universo tem sido um dos mais controversos quer no campo científico quer religioso.
Abrangendo áreas tão diversas como a biologia, a química, a física, a astronomia, etc., este tema deveria ser abordado por todos com a necessária dose humildade para reconhecer que nunca se pode abranger todas as áreas do conhecimento e que cada vez se torna mais difícil dominar a diversidade das matérias mesmo numa só área. Acresce que a própria ciência tem constatado ao longo dos séculos que o conhecimento não pode ser algo estabelecido e que os paradigmas de hoje poderão não servir amanhã. Sobretudo, a ciência tem demonstrado que o preconceito é o maior inimigo do conhecimento. Esta demonstração da dinâmica do conhecimento, e as suas implicações filosóficas, tem sido um dos maiores serviços que a ciência tem prestado à Humanidade. Por outro lado, a ciência é um dos pilares do espiritismo. Por estas razões, parece-nos importante começar a abordagem deste tema baseando-nos, dentro das nossas limitações, no estado actual do conhecimento nalgumas áreas da ciência, deixando para o final os comentários que o tema nos merece.

Alguns conceitos e constantes

Velocidade da luz - a velocidade da luz no vazio é de aproximadamente 300 mil km/s e é postulada pela teoria de relatividade especial (Einstein) como a velocidade máxima possível no Universo, isto é, nenhum sinal, energético ou material poderá, segundo a teoria, propagar-se no espaço a uma velocidade superior à daquela constante(2).
Distâncias - face à enormidade das distâncias com que se trabalha em astronomia e cosmologia, estas ciências adoptaram novas unidades para as medir; as mais utilizadas são: Unidade Astronómica - corresponde à distância média da Terra ao Sol e equivale a 149.600.000 km. Ano-luz - corresponde à distância percorrida durante um ano à velocidade da luz e é aproximadamente igual a 9.460.000.000.000 km.
Galáxias - as galáxias são aglomerados de estrelas e, consequentemente, de sistemas solares e seus planetas. As galáxias representam possivelmente a unidade arquitectónica básica da estrutura organizativa do Universo. As galáxias são usualmente classificadas de acordo com a sua forma em espirais (como a nossa Via Láctea), elípticas e irregulares. Estrelas e planetas - As estrelas caracterizam-se essencialmente por possuírem luz própria, enquanto os planetas não têm tal luminosidade. Para além disso, algumas características como a massa (peso) e as dimensões destes corpos são vulgarmente usadas para os distinguir. Estrelas simples/múltiplas: o nosso Sol é uma estrela simples - ela é a única a exercer influência na sua esfera de acção gravitacional, nomeadamente no nosso sistema solar. No entanto existem imensos sistemas de sóis duplos, triplos, quádruplos, em que essas estrelas se orbitam mutuamente umas às outras.
Constelações - são agrupamentos das estrelas convencionados pelos povos da Antiguidade, com base nas posições relativas dos astros visíveis a olho-nu, o que permitia a esses povos identificá-las mais facilmente no céu. Assim temos constelações com nomes de animais, de heróis e outras figuras lendárias (18) (ex.: Ursa, Escorpião, Pégaso, Virgem, etc.). O nosso lugar no Universo(3): embora seja impossível no nosso actual estado do conhecimento pensar em estabelecer a nossa posição absoluta (se é que tal existe) no Cosmos, podemos no entanto situar-nos relativamente a sistemas mais simples. Assim, a Terra é um dos planetas do nosso Sistema Solar, girando em torno de uma estrela de grandeza média denominada Sol. Por sua vez esta estrela central do nosso sistema é uma dos muitos milhões (400 mil milhões) de estrelas que povoam a galáxia a que pertencemos, designada Via Láctea.
Algumas distâncias do nosso planeta a outros objectos celestes: à estrela Sírio (no Cão Maior): 8,7 anos-luz; à estrela Polar (na Ursa Menor): 680 anos-luz; à galáxia de Andrómeda: 500 milhões de anos-luz! Universo observável: actualmente é possível observar da Terra mil milhões de galáxias.

Origem e evolução do Universo

O modelo actualmente mais aceite pela ciência (mas não o único) para a origem do Universo assenta num fenómeno designado por Big-bang (Grande Explosão). De acordo com este modelo, tudo (o nosso espaço-tempo) teria começado numa singularidade que concentraria, com uma densidade extraordinariamente elevada, toda a massa actual do Universo - ao explodir essa singularidade daria origem à matéria e energia do Universo actual, que desde então ainda não parou de se expandir. Esta teoria tem vindo a ser suportada por muitas das observações astronómicas, entre as quais se encontra a detecção da existência de uma radiação de fundo (de micro-ondas) que parece banhar todo o Universo.
À luz desta teoria tem-se tentado explicar não só a origem, mas também a estrutura actual e a evolução do Universo, tentando prever também o seu futuro, i.e., derivou-se uma cosmologia a partir do modelo do Big-bang. Uma das suas consequências é que o Universo teve um início catastrófico e provavelmente terá um fim.
Embora esta cosmologia seja a que mais adeptos tem granjeado, alguns astrofísicos adoptam posições alternativas e têm vindo a apresentar argumentos de peso em desfavor da teoria do Big-bang(6). Uma destas posições corresponde à cosmologia do Plasma, segundo a qual não há início nem fim (no tempo) para o Universo.
Recentemente, uma nova Cosmologia tem vindo a ser divulgada. Trata-se de uma tentativa de unificar a mecânica quântica (que é aplicada no estudo das partículas subatómicas) com a cosmologia baseada na relatividade geral de Einstein (que é uma teoria da gravidade). Esta nova ciência tem tido a adesão de físicos como Stephen Hawking e o prémio Nobel Murray Gall-Mann.
O mais interessante desta nova abordagem da cosmologia é que os novos modelos para a origem do Universo estabelecem que não teria surgido um Universo, mas sim um Multiverso, ou seja uma multidão de Universos (17).O nosso Universo não seria mais do que uma bolha quântica num oceano infinito de universos paralelos. Nesta visão, os big-bangs ocorrem a todo o momento, e o vácuo está constantemente a gerar novos universos. Com se isto não fosse suficientemente surpreendente, físicos como Stephen Hawking visualizam o nosso universo como estando ligado a todos os outros através de uma teia infinitamente vasta de ligações constituídas pelos túneis no espaço conhecidos por wormholes (buracos de verme).

Planetas versus estrelas

Os planetas são, no entender da maioria dos cientistas, o berço da vida. Esta consideração prende-se com as condições ambientais que os planetas podem oferecer, já que corpos como as estrelas produzem uma tal quantidade de energia que inviabiliza a formação de compostos estáveis e será impensável encontrar matéria orgânica numa estrela. Da mesma forma, corpos mais pequenos como asteróides ou cometas não disporiam das condições necessárias de estabilidade para assegurar a presença de vida. Parece-nos que mesmo de um ponto de vista científico, esta visão da vida é fortemente antropocêntrica e que a discussão do tema centrada nestas ideias deveria ter um título menos genérico. De qualquer forma alguns autores como Carl Sagan sugeriram já formas de vida alternativas muito exóticas, que poderiam habitar planetas para nós tão inóspitos como Vénus ou Júpiter.
O modelo mais aceite para a formação de planetas consiste na condensação da matéria que em forma de poeira orbita ainda a maior parte das estrelas após a sua formação. A condensação irregular desta poeira, dará origem a pequenos corpos, que por sua vez, através da atracção gravítica, irão incorporando mais matéria, até formarem corpos individualizados de grandes dimensões como os planetas. Este processo levaria cerca de 10 milhões de anos a consumar-se, esgotando a nuvem de poeira.
Calcula-se que actualmente 60 por cento das estrelas jovens apresentem discos de poeira em redor de si. Esta estimativa aponta portanto para uma probabilidade relativamente elevada de existência de sistemas planetários orbitando grande parte das estrelas. A pesquisa de planetas noutros sistemas solares é no entanto extremamente difícil, e para já não é possível de forma directa, i.e., não existem meios actualmente para observar planetas fora do nosso sistema solar; a sua detecção é feita de forma indirecta, através das perturbações que os planetas provocam nas órbitas das estrelas que circundam, bem como na luminosidade observável dessas estrelas. Muito recentemente, considerava-se que seriam necessários 20 a 30 anos de investigação para detectar um planeta com a massa de Saturno noutro sistema solar. Considerava-se também que apenas estrelas simples permitiriam a formação de discos de poeira de onde poderiam originar-se planetas. Para além disso, apenas estrelas bem comportadas (estáveis) como o nosso Sol permitiriam a coexistência de sistemas planetários. Como se estima que apenas 20 a 40 por cento das estrelas do tipo do Sol serão estrelas simples, aquele factor condicionaria muito a possibilidade de formação de planetas semelhantes ao nosso. Assumia-se também que para além de uma certa massa crítica (aproximadamente a massa do planeta Júpiter), não se poderia formar um planeta - estaríamos em presença da génese de uma estrela. No entanto, diversas descobertas recentes demonstraram a falibilidade de algumas destas considerações. Entre as novidades mais recentes conta-se a detecção de dois planetas com as dimensões da Terra orbitando uma pulsar(7) (uma estrela na fase final do seu colapso, que roda a velocidades vertiginosas, emitindo feixes de energia periódicos, como um farol no espaço), a descoberta de planetas orbitando sistemas estelares múltiplos e a descoberta de novos planetas com massas iguais e superiores à de Júpiter(19). Para além disso, a técnica de detecção de planetas tem evoluído muito rapidamente nos últimos anos, tendo-se detectado planetas bastante exóticos e em condições bastante inesperadas. Parece, pois, poder concluir-se que a probabilidade de existência de planetas em torno das estrelas será bastante superior ao que se vinha estimando.

A estrutura do Universo

Os astrónomos já há muito que concluíram que o nosso Universo não é apenas um mar de estrelas e seus planetas dispersos pelo espaço. Pelo contrário, apresenta uma estrutura bem evidente, a diversos níveis. Assim, as estrelas encontram-se agrupadas em galáxias, as galáxias constituem grupos de ordem mais elevada designados enxames (clusters), e estes por sua vez formam super-enxames, presumindo-se que estes representem a hierarquia máxima dos sistemas ligados por forças gravitacionais. O enxame ao qual pertence a nossa galáxia é denominado Grupo Local e por sua vez faz parte do super-enxame da Virgem. Num mapa do Universo recentemente elaborado por investigadores do Harvard-Smithsonian Center of Astrophysics, revela-se a estrutura dos grandes grupos, circundados por grandes espaços vazios(12). Este tipo de estrutura é um dos grandes mistérios da cosmologia actual, uma vez que, partindo de uma origem explosiva como o Big-bang, seria mais razoável esperar que a matéria estivesse uniformemente distribuída pelo Universo. Existe um princípio fundamental na Física (mais concretamente o segundo princípio da termodinâmica) que postula que num sistema deixado entregue a si próprio a entropia tende a aumentar, a desordem tende a ser máxima; isto é precisamente o contrário do que observamos no nosso Universo.

Criação-destruição contínua material

Tal como já foi atrás referido, a propósito da cosmologia quântica, aceita-se que nova matéria esteja constantemente a ser gerada do "nada".

De forma semelhante, supõe-se que determinados objectos cósmicos como os quasares e os buracos-negros sejam verdadeiros devoradores de matéria. Os quasares geram quantidades tão grandes de energia que hoje em dia a única explicação para tal é a de que aqueles objectos gigantes estejam a devorar e esmagar galáxias inteiras, emitindo a energia que está associada a tais processos.
Por seu lado, os buracos-negros serão singularidades espaciais que concentram matéria num estado de densidade tão elevado que nada, nem mesmo a luz, consegue escapar ao seu campo gravitacional, tornando-os desta forma invisíveis. Este corpos têm assim a capacidade de atrair e devorar irremediavelmente tudo (estrelas incluídas) o que possa cair na sua esfera de influencia. Supõe-se existir um desses buracos-negros no centro da nossa galáxia, para além de outros já terem sido detectados de forma indirecta.

Planetas-urbe

Desde há muito que a hipótese de existirem outros planetas habitados para além do nosso tem vindo a ser colocada, sobretudo nos meios científicos. De facto, atentando na grandeza do Universo de que temos estado a falar, deixou de fazer sentido pensar que a Terra poderia ser um caso especial como único planeta votado ao aparecimento de vida. Como veremos mais à frente, o número de corpos celestes observáveis é tão grande que o número de planetas que se calcula existirem no Universo deve ser suficiente para, com base em cálculos probabilísticos simples, podermos asseverar que deve existir vida semelhante à nossa em muitos outros sistemas planetários.

A origem da vida na Terra

A história da origem da vida na Terra tem sido apresentada nas últimas dezenas de anos com base no modelo que Urey e Miller derivaram nos anos 50 das suas experiências com alguns dos presumíveis elementos constituintes do habitat terrestre há cerca 3500 milhões de anos: a água, a amónia e o metano entre outros, e a energia associada aos raios ultravioleta e às descargas eléctricas na atmosfera (relâmpagos). Segundo este modelo, a vida teria surgido espontaneamente, com base naqueles ingredientes, na Terra primitiva. Este modelo foi de tal forma aceite pela generalidade da comunidade científica que ainda hoje é aquilo que se ensina aos jovens nas escolas, quase como uma verdade absoluta. No entanto, não só não é o único modelo existente, como nem sequer é universalmente aceite pela comunidade científica. Na realidade, a implantação deste paradigma é mais um exemplo de como, em ciência, muitas vezes se acaba por aceitar aquilo que em dado momento é útil aceitar. Robert Shapiro, um bioquímico, professor na Universidade de Nova Iorque, no seu cativante livro "Origens..." aborda o tema da origem espontânea da vida referindo os estudos que alguns teóricos efectuaram, aplicando o cálculo de probabilidades. Assim, Hoyle e Wickramasinghe, dois cientistas que inicialmente subscreveram a hipótese da geração espontânea, calcularam a probabilidade de que se formasse espontaneamente não uma bactéria, mas apenas o conjunto das enzimas que a integram: a probabilidade de isto acontecer seria 1 em 1.040.000 (1 seguido de 40 mil zeros) que os autores compararam à de que «um tornado atingisse uma lixeira e montasse um Boeing 747 a partir dos materiais aí depositados». Como se estes cálculos não bastassem, um físico da Universidade de Yale, Harold Morowitz efectuou cálculos mais rigorosos e obteve a probabilidade inimaginável de 1 em 10.100.000.000.000, um valor tão esmagadoramente baixo, que o tempo necessário para a tornar viável é infinitamente maior do que a duração previsível do nosso Universo.
Afigura-se compreensível portanto que os especialistas tentem encontrar alternativas para aquele modelo.
Entre outras hipóteses alternativas coloca-se hoje a da origem cósmica da vida na Terra. Assim, a Terra teria sido "contaminada" com matéria orgânica trazida por corpos celestes tais como meteoritos que bombardearam intensamente o nosso planeta até há cerca de 3500 milhões de anos, precisamente a idade que se estima para a vida na Terra. Esta hipótese é tanto mais verosímil quanto mais se sabe hoje que o nosso planeta continua a receber partículas de pó interplanetário que contribuem com cerca de 300 toneladas de matéria orgânica por ano. O problema com a hipótese da origem cósmica da vida na Terra é que esta não faz mais do que adiar a questão - temos sempre que colocar a pergunta: mas então como se formou a vida no local de onde proveio? A questão continua em aberto.


Revista de Espiritismo nº. 32, Julho-Agosto-Setembro 1996



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sexta-feira, 15 de julho de 2011

GLÂNDULA PINEAL


Jorge Andréa
Médico e Expositor do
Instituto de Cultura Espírita do Brasil

A Glândula pineal ou epífise foi bastante conhecida dos antigos, fato observado através das descrições existentes. A escola de Alexandria participou ativamente nos estudos pineais que se achavam ligados às questões de ordem religiosa. Os gregos conheciam-na por "conarium" e os latinos por "glândula pinealis". Estes povos em suas dissertações localizavam na
glândula pineal o centro da vida.

Muito mais tarde, os trabalhos sobre a glândula pineal se enriquecem com De Graf, Stenon e Descartas. Este último fez interessante e minuciosa descrição, atribuindo até nossos dias; para ele, a alma era o hóspede misterioso da glândula pineal.

No começo deste século, os estudos tomam maior incremento com observações mais aprimoradas. Nos nossos dias, apesar de experimentações mais meticulosas, ainda não temos definitiva interpretação sobre sua real função, daí as divergências nas hipóteses apresentadas.

As pesquisas embriológicas em certos animais vertebrados (lacertídeos), notificaram a presença de um elemento que denominaram ''olho pineal", considerado por muitos como órgão sensorial destinado à visão de certos animais fósseis. Seria órgão vestigiário, órgão em repressão, cuja presença nos animais mais avançados na escala zoológica representaria o resquício de olho ímpar de certos invertebrados? Inúmeras experiências foram feitas nas
diversas espécies animais a respeito do olho pineal; as conclusões são contraditórias e pouco razoáveis.

Poderíamos pensar que o olho pineal, em vez de ser elemento regressivo, com tendências ao desaparecimento, fosse, ao contrário, elemento em desenvolvimento. Do olho externo e ímpar de certos animais haveria, aos poucos, nos lentos e meticulosos processos de mutações e transformações evolutivas que desconhecem o tempo, uma inflexão para o interior da caixa
craniana, tomando características histológicas especiais sem perderem as de sua origem. Atenderia esta formação ao controle de funções de alta relevância para o animal tais sejam os diversos mecanismos do instinto, com tonalidades próprias, conforme o desenvolvimento da espécie. Com o aparecimento progressivo em relação à escala zoológica, portanto evolutivo,
iria aparecendo ao lado do olho pineal o divertículo epifisário, até que no homem alcançaria em conjunto com as paráfises (formações embriológicas mais ou menos constantes), o estado mais completo do desenvolvimento pineal.

Desse modo, o olho poderá ser visto como o ponto em que se iniciam os verdadeiros alicerces da glândula pineal e, como tal, o início da Individualidade espiritual-as expressões de um EU em formação - que não existe nos invertebrados, cuja zona espiritual deve fazer parte de um
conjunto próprio da espécie ( alma grupo ), sem as nuanças que caracterizam o Indivíduo, o EU. Lógico seria admitir que, à medida que a escala zoológica avança, os instintos se desenvolvem atingindo seus mais altos graus; e, na espécie humana a glândula pineal responderia pelos mecanismos da meditação e ao discernimento, da reflexão e do pensamento e pela direção e orientação dos fenômenos psíquicos mais variados.

A glândula pineal ou epífise, na espécie humana, ocupa posição central em relação aos órgãos nervosos (gravura 1).

A- Cortex cerebral; B- Lobo frontal; C-Hipófise; D-Protuberância
E-Bulbo; F-Medula; G-Sist.de ativação reticular; H- cerebelo
I- Glândula Pineal; J- Região talâmica; K- Impulsos nervosos

A glândula pineal mantém relações com as glândulas endócrinas e deixa transparecer sua influência em maior ou menor grau. Ainda é difícil estabelecer as relações exatas entre a pineal e as demais glândulas embora possamos asseverar, pelos trabalhos e observações conjuntas, que a pineal seria realmente a orientadora da cadeia glandular, comunicando-se com as demais glândulas direta ou indiretamente tendo na hipófise o grande campo de
suas expansões com o organismo inteiro. Não seria a neuro-hipófise, mas precisamente, a zona por intermédio da qual a pineal orientaria todo o seu trabalho no equilíbrio endócrino?

Com os gritos da puberdade, aos 14 anos em média, a pineal chefiando a cadeia glandular e mais condicionada pelo desenvolvimento físico do indivíduo, encontra melhor campo e distribuição das emoções de vidas pregressas, cedidas pelos vórtices da zona inconsciente (zona espiritual) .
Estes profundos vórtices energéticos do inconsciente, por se acharem ligados às manifestações do sexo, causam modificações como que preparando o campo físico (através da glândula pineal) às necessidades evolutivas, onde as imensas regiões das emoções melhor se expressam. Essa glândula responderia pelos mais altos fenômenos da vida - "glândula da vida espiritual" - e por ser elemento básico e controlador das razões emocionais, o sexo em suas múltiplas manifestações dependeria integralmente de sua interferência Ainda seria por intermédio dessa glândula que os fatores propulsores de evolução espiritual (renúncia, uso equilibrado do sexo, tolerância, bondade, abnegação e disciplina emotiva por excelência) alcançariam índices bastantes elevados. Desse modo, a pineal séria a tela medianeira onde o espírito encontra os meios de aquisição dos seus íntimos valores, por um lado e, pelo outro, fornece as condições para o crescimento mental do homem em verdadeiro ciclo aberto, inesgotável de possibilidades e potencialidades. As aquisições para o espírito serão cada vez maiores e as influências do espírito na matéria serão cada vez mais potentes. Tudo se amplia e completa nas ajustadas etapas palingenéticas, como possibilidades mais lógicas da evolução no esquema cósmico.

Pelas referências acima, percebemos a influência diretora da glândula pineal sobre a cadeia glandular do organismo. A ligação que mantém com o hipotálamo e outras zonas nobres do sistema nervoso central é evidente, como também a influência que exerce no sistema neuro-vegetativo. Desse modo, jamais podemos afastar a glândula pineal da participação de inúmeras funções orgânicas, direta ou indiretamente, assim como da acentuada correlação no setor psíquico.

Porque não admitir a pineal - devido à sua situação absolutamente central em relação aos órgãos nervosos, às unidades glandulares que dirige, aos elementos somáticos que influencia, ao sistema neuro-vegetativo que atua e controla - como sendo o Centro Psíquico, o Centro Energético, o Centro Vital, que se responsabilizaria pela ativação e controle de todos os atos
orgânicos, desde os mais simples até os fenômenos mais altos da vida?

Podemos considerar a pineal como sendo a glândula da vida psíquica; a glândula que resplandece o organismo, acorda a puberdade e abre suas usinas energéticas para que o psiquismo humano, em seus intrincados problemas emocionais, se expresse em vôos imensuráveis.

A afirmação filosófica-intuitiva da escola de Alexandria, dos antigos gregos e mais modernamente de Descartes, como sendo a pineal a sede da alma, e com os estudos que atualmente possuímos, devemos meditar profundamente, sem julgarmos a priori aquilo que nossa ciência oficial ainda não alcançou.

Existe outro terreno orgânico, ainda desconhecido inexplorado, para além do físico, de energia mais sutil e menos condensada do que aquela da matéria e que por isso mesmo a dirige e orienta. É terreno puramente vibratório, não observado pelo olho humano mesmo com aparelhagem óptica especializada, contudo perceptível pelos reais efeitos: terreno no qual estaria mergulhada a energia condensada que é a matéria, obedecendo aos seus influxos, por
serem mais evoluídos, mais vividos, mais experientes e, por isso, com possibilidade de comandar inteligentemente.

Para que a ciência progrida resolva seus difíceis problemas, terá que imergir nas energias, mais precisamente nas energias do mundo psíquico, para melhor defini-lo, estudá-lo e compreendê-lo. Não mais se entenderá uma ciência que fique a arrastar-se na análise e a computar exclusivamente aquilo que os sentidos humanos possam perceber; terá que integrar-se no todo, ter a visão sintética, a visão de conjunto e não mais rastejar teimosamente em dimensões menores.

Os pesquisadores, em suas dissecções anatômicas e em seus mergulhos nos infinitamente pequenos, vão transformando a matéria de viva em morta, e com isso jamais encontram o Princípio Vital, a Essência dessas unidades de trabalho. Por assim proceder, afirmam solenemente nada existir além do que os sentidos percebem, e iludem-se com o mais densificado.


Fonte: Nos Alicerces do inconsciente - Jorge Andréa


imagem - gnosisonline.org

domingo, 3 de julho de 2011

PSICOSE E REENCARNAÇÃO


Com permissão do dalailam


Nesta entrevista, o Dr. Mario Sérgio Silveira, psicoterapeuta, explica como o espiritismo pode abrir novas perpectivas no tratamento das doenças mentais. O termo psicose é definido no dicionário como doença mental. Mas o psiquismo humano é algo complexo para ser explicado em poucas palavras, ainda mais quando permite a abordagem espiritual. É bastante comum, também, as pessoas associarem a psicose à loucura. Segundo o psicoterapeuta e assessor técnico do Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, em Curitiba, dr. Mário Sérgio Silveira, Loucura é uma expressão popular que é utilizada para designar comportamentos que fogem da norma. "As pessoas podem cometer loucuras e não serem necessariamente psicóticas. Deveríamos abandonar este "apelido", tão marcado pelo preconceito", diz Mário Sérgio, que também realizou recentemente uma palestra durante o II Congresso Brasileiro de Psicologia e Espiritismo, sobre o tema Psicose e Estados Alterados da Consciência. De acordo com o especialista, clinicamente os sintomas mais característicos e evidentes da psicose são as alucinações visuais e auditivas e os delírios, que muitas vezes estão associados às alucinações como tentativas que o paciente faz de tentar explicar a invasão alucinatória. Caracteriza-se pela perda de contato com a realidade, entendida como a realidade consensual de nosso nível dimensional, e principalmente, pelo elemento de certeza no que diz respeito ao delírio. É chamada de "crença delirante". Complementa, dizendo que, em investigações no hospital espírita, onde atua, os pesquisadores têm atribuído o fator "influência espiritual" como causa desencadeante em um grande número de casos de psicose. Quais são os critérios utilizados pela psiquiatria para analisar a psicose? Dr. Mário Sérgio Silveira - Além dos critérios da psiquiatria clínica, trabalhamos com a visão psicodinâmica que a psicanálise nos oferece, numa visão estrutural. 0 inconsciente freudiano é estruturado como a linguagem, opera de acordo com as leis da linguagem, através da metáfora e da metonímia. Nesta perspectiva são três grandes estruturas. As neuroses, cujo mecanismo característico é o recalcamento, que funda o inconsciente, separando-o da consciência. Seria o armazenamento de todas as memórias passíveis de serem recuperadas. Aquelas que estão disponíveis de forma mais imediata. É o que chamamos pré-consciente, bastando para isso apenas evocá-Las. A segunda estrutura são as perversões, referentes basicamente à questão da escolha do objeto sexual e da identidade sexual, cujo mecanismo é chamado "denegação". E a terceira estrutura psíquica constitui-se do que chamamos genericamente "as psicoses". Isto significa que o sujeito não dispõe do recurso simbólico da linguagem, pelo menos no que diz respeito às questões essenciais, como a sexualidade, a maternidade, paternidade e a morte. O termo preclusão é emprestado da linguagem jurídica, que significa que uma prova não foi provida em tempo dentro de um processo, ficando, portanto, de fora. Na psicose, o que não foi admitido no simbólico, permanece fora e pode retornar do real na forma de alucinação. Esta é a teoria psicanalítica e tem ainda seu lugar dentre os conhecimentos que devemos considerar na compreensão de algo tão complexo como é o psiquismo humano. Espiritualmente, como a psicose pode ser definida? Como trabalhamos hoje numa perspectiva transdisciplinar, não excluímos nenhum conhecimento. Portanto, reconhecemos a importância das pesquisas da neurociência, uma vez que precisamos entender o funcionamento do "computador cerebral". Reconhecemos que as diversas teorias psicológicas, como a psicologia comportamental, a psicanálise, o psicodrama, a Gestalt, a Bioenergética, as psicologias humanistas e existencialistas e outras mais, têm seu lugar, embora como verdades parciais. No que diz respeito à dimensão espiritual, o próprio Kardec nos convidava a estudar as antigas tradições. Isto posto, quero afirmar que as duas formas de investigação mais produtivas ao alcance de profissionais e cientistas que pretendam conhecer em profundidade o espírito humano é a regressão de memória, que dispõe hoje de diversas técnicas para este fim, e a mediunidade. Fundamentado nos estudos da consciência a partir da física quântica e da psicologia transpessoal, que estuda os diversos níveis e estados de consciência, em investigações realizadas através da terapia regressiva integral e reuniões mediúnicas de desobsessão, podemos afirmar que a psicose é a estrutura psíquica resultante de profundos desequilíbrios do ser em diversas encarnações. Como a estrutura biopsíquica do ser é construída à partir das informações do perispírito, que contém as memórias milenares da caminhada evolutiva do espírito, no encontro com os recursos genéticos e psíquicos de seus futuros pais, podemos compreender que o desequilíbrio energético (informacional), vai repercutir severamente, causando o que chamamos de doenças. No plano psíquico, o sentimento de culpa pode ser devastador, por desajustar a organização mental, além de manter o ser imantado às outras consciências que possa ter prejudicado.Assim, podemos definir a psicose, do ponto de vista espiritual, que constitui a essência do ser, como a "impossibilidade de construir uma personalidade, um "eu atual", em razão da predominância das subpersonalidades anteriores, ainda presas aos dramas ocorridos em outros tempos, incluindo também os demais co-participantes que eventualmente não se libertaram pelo benefício que somente o perdão poderia proporcionar. Deste modo, o ego, esta instância psíquica responsável pela noção de identidade, responsável pelo "critério de realidade", não pode operar, uma vez que não se constituiu, ficou com um "defeito", que chamamos anteriormente "preclusão". Como " a vivência da realidade é função do estado de consciência" (postulado transpessoal) o ser fica à mercê da invasão de "outras vivências de realidade". E aí estamos na experiência psicótica, no que a psiquiatria denomina "delírios e alucinações". Não fosse a interferência dos mecanismos psíquicos, que transformam a apresentação das memórias inconscientes como ocorre nos sonhos, teríamos puras lembranças de vidas passadas. O sujeito dito "normal", que funciona com o ego estruturado de acordo com o recalcamento, tem a capacidade de rememorar vidas ou vivências passadas. Já o psicótico, experimenta este "retorno" na forma de imagens alucinatórias, delírios e confusão mental. Os demais sintomas são decorrências do desmoronamento do mundo simbólico e de sua relação com esta realidade consensual: embotamento afetivo, depressão, sensações corporais estranhas, hipocondria etc. Como identificar um quadro de psicose? Respondendo rapidamente, reconhecemos quando a pessoa entra no que chamamos de "surto", que é um estado de confusão mental, com delírios e alucinações (as mais características são auditivas, quando o paciente refere ouvir vozes), às vezes com liberação de auto e/ou hétero agressividade. Para um diagnóstico mais preciso é necessário a avaliação de um especialista. Existem gêneros específicos de psicose? Quais são os mais comuns? No Brasil, nós utilizamos o Código Internacional de Doenças, que já está em sua décima revisão (CID 10), que é o manual europeu de classificação das doenças. O capítulo V trata dos Transtornos Mentais e Comportamentais, que possui 99 subtítulos. Os mais importantes são: Transtornos mentais orgânicos, transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas, as esquizofrenias, transtornos de personalidade, demências e atualmente o mais comum, pelo menos em nossa prática no Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, os transtornos do humor. A psiquiatria atual preferiu o termo transtorno, para caracterizar um conjunto de sintomas, dentro de certos critérios, inclusive o tempo de duração. Isto é importante, porque conferiu um caráter transitório para os quadros e não mais um rótulo definitivo. Antigamente, tínhamos apenas o diagnóstico de "psicose maníaco-depressiva". Agora, com os transtornos do humor, temos mais nove títulos e dezenas de subtítulo, alguns sem sintomas psicóticos. Isto representa uma segurança muito maior para o paciente, que terá um diagnóstico mais preciso e conseqüentemente uma terapêutica mais adequada. Para melhor esclarecimento, os transtornos do humor variam do pólo depressivo ao eufórico, com ou sem sintomas psicóticos.A psicose pode se manifestar na infância ou "surge" pela primeira vez na idade adulta?É mais raro manifestar-se na infância, embora a estrutura psicótica se estabeleça nesta fase. A primeira infância é fundamental na construção da personalidade. O desencadeamento pode ocorrer na adolescência e na fase adulta, quando alguns fatores podem ser decisivos, como o encontro com a sexualidade, a paternidade, a maternidade ou a morte. Em nossas investigações no hospital, temos atribuído o fator "influência espiritual" como causa desencadeante em um grande número de casos.Existem recursos médicos e espirituais para se evitar ou minimizar um quadro psicótico? A prevenção primária depende da evolução moral da humanidade. Quando pais mais equilibrados recebem em família espíritos em desajuste, maiores chances de recuperação, pois esses espíritos desajustados têm mais possibilidades de construírem uma nova personalidade sadia. Quanto a minimizar, melhor seria dizer tratar, terapeutizar. Neste sentido, os recursos são muito fartos, atualmente, com o avanço das pesquisas psicofarmacológicas, com as antigas e novas psicoterapias, terapia ocupacional, terapias complementares etc. Quanto à dimensão espiritual, penso que os centros espíritas e também os centros de umbanda são grandes centros de profilaxia e tratamento. Em geral, os filmes de terror e suspense mostram os psicóticos como pessoas de personalidade agressiva e imprevisível, que podem matar uma pessoa a qualquer momento. Essas tendências são verdadeiras ou é exagerada pela mídia em geral? Infelizmente, estes casos ocorrem, muitas vezes comandados por vozes que induzem ao homicídio e ao suicídio.Relate alguns casos de pacientes que passaram pelo tratamento e como esses casos se desenvolveram? Vou relatar o caso de uma menina de 14 anos, com o diagnóstico de hebefrenia, ou seja, um quadro psicótico desencadeado ainda na adolescência. Ela chegou no hospital muito prostrada, afeto embotado, confusão mental, ouvindo vozes, apresentando grande dificuldade de contato. Foi medicada com psicofármacos, estimulada a participar de atividades terapêuticas, porém pouco respondia. Seu quadro começou a melhorar quando passou a ser medicada também com homeopatia e seu nome foi incluído no SAE - Serviço de Atendimento Espiritual. No grupo de desobsessão, foi atendida em desdobramento (projeção), o que facilitou muito o contato, pois adquiria maior consciência. Assim, nós soubemos que o tio que a abusou sexualmente, tendo desencadeado seu surto, tinha sido seu marido numa outra existência, quando em estado de embriaguês a matou. O próprio tio, em desdobramento, admitiu que preferia não ter nenhum parentesco, pois a desejava como mulher. Soubemos, também, que o obsesso, desafeto de outra existência, planejou sua vingança agindo sobre seus centros nervosos, de modo a embaralhar suas memórias de vidas passadas, como um arquivo que tivesse suas fichas todas misturadas.Felizmente, tivemos a oportunidade de ajudá-la a acessar estas memórias, revivendo-as e "fechando estas portas", uma a uma, num total de quatro encarnações. O obsessor foi afastado para tratamento e a equipe espiritual relatou a realização de uma espécie de cirurgia nos tecidos sutis de seu perispírito, reconstituindo o "buraco" que havia sido aberto pela aço espiritual. leão é preciso dizer que sua melhora foi surpreendente para os parâmetros da psiquiatria. Em outros casos, encontramos, através do desdobramento, personalidades de outras encarnações que se recusam a aceitar o novo corpo, a família atual, geralmente composta de desafetos de outras existências, e também a condição social que ora se encontram. São "almas" orgulhosas, arrogantes, que não desejavam reencarnar e passar pela experiência retificadora. Provavelmente, se trata de reencarnações compulsórias. Existe cura para a psicose? Existem raros relatos na literatura. O que podemos oferecer é, através do tratamento, a estabilização do quadro e melhor qualidade de vida. Mas se considerarmos que a doença e o sofrimento de hoje fazem parte da cura da alma, temos muito a oferecer. A psicose, analisada espiritualmente, está sempre associada a uma obsessão? Penso que sim, que podemos generalizar, pois todos trazemos dentro de nós personalidades de outras existências muito mal resolvidas, incluindo outras ligações através do ódio e da culpa. Devemos incluir aí a auto obsessão, como nos casos que relatei anteriormente. Qual é o tratamento adequado para o paciente psicótico? O tratamento adequado é interdisciplinar, no mínimo. No Hospital Espírita Bom Retiro caminhamos rumo a transdisciplinariedade, numa visão bio-psico-sóciocultural e espiritual, onde o espiritual ocupa o centro de integração dos diversos saberes, das diversas disciplinas e especialidades. Precisamos superar a divisão, a comparti mentalização, caminhando para uma visão integral. Precisamos abandonar o formalismo, seja científico, filosófico ou religioso. Em suma, o tratamento médico, psicoterápico, ocupacional, familiar, energético e espiritual, de forma integrada. Deixe-nos uma mensagem final.Minha mensagem é de esperança. É necessário que confiemos que todos nós temos um Eu Divino, onde mora a saúde, a paz e principalmente o Amor que tudo equilibra, dentro de um tempo que é transitório e diante da vida que é eterna. A tarefa desta encarnação é a de nos reencontrarmos com o nosso verdadeiro Eu, ainda encoberto pela sombra de nossos enganos na caminhada evolutiva. Evitemos os julgamentos, a culpa e o remorso. Vamos apenas assumir a responsabilidade de "perdoar aos que nos ofenderam, para que o Deus em nós possa nos perdoar".

Notas: (Extraído da Revista Cristã de Espiritismo nº 27, páginas 06-11)


texto - http://tamoporai.blogspot.com/2010/02/psicose-e-reencarnacao.html

imagem - reescrevase.wordpress.com

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