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domingo, 7 de agosto de 2011

O DIA DE PENTECOSTES - A DIFUSÃO DO ESPÍRITO


Ao cumprir-se o dia de Pentecostes estavam todos reunidos no mesmo lugar; e de repente veio do céu um ruído, como de um vento impetuoso, que encheu toda a casa onde estavam sentados; e lhes apareceram umas como línguas de fogo, as quais se distribuíram para repousar sobre cada um deles; e todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.

E habitavam em Jerusalém judeus, homens religiosos, de todas as nações embaixo do céu: e quando se ouviu este ruído, ajuntou-se ali a multidão e ficou pasmada, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E estavam atônicos e maravilharam-se, perguntando: Não são galileus todos esses que estão falando? E como os ouvimos falar, cada um na língua do nosso nascimento, partos, medas, e elamitas, e os que habitam a Mesopotâmia, Judéia e Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia, a Panfília, o Egito e as partes da Líbia próximas a Cirene, e forasteiros romanos, sendo uns judeus e outros prosélitos, cretenses e árabes; como é que o ouvimos falar em nossas línguas as grandezas de Deus? E ficaram todos atônicos e perplexos e perguntavam uns aos outros: Que quer dizer isto? Outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto. - Atos, II, 1 - 13.

Vamos limitar a nossa exposição aos interessantes fenômenos de Xenoglossia, ou seja - "a faculdade de falar ou escrever em uma ou mais línguas estranhas, desconhecidas do médium, durante o transe mediúnico" .

Este fenômeno está bem caracterizado por Paulo, em sua 1ª. Epístola aos Coríntios, cap. 12, v. 10, com o título "Diversidade de Línguas". Essa faculdade mediúnica vem de tempos imemoriais.

Parece que nos tempos de Paulo era bem avultado o número de indivíduos que gozavam desse dom e naturalmente se jactavam, julgando que bastava-lhes possuí-lo para já serem considerados no Reino do Céu. Foi provavelmente o que levou o Apóstolo a dizer no Cap. XIII, Epístola 1ª aos Coríntios:

"Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos, e não tiver caridade, tenho-me tornado como o bronze que soa, ou como o sino que tine".

O "dom de línguas" não tem absolutamente o caráter sobrenatural que as igrejas de Roma e Protestante lhe querem dar, atribuindo-o a um milagre peculiar, exclusivamente dado aos Apóstolos, pela 3ª Pessoa da S.S. Trindade. Essas manifestações foram inúmeras na época do Cristianismo nascente e delas participavam homens e mulheres, livres e servos, como se irá verificar na continuação do estudo dos Atos dos Apóstolos.

A mediunidade poliglota, na fase espírita, desde o seu início, se salienta, de modo admirável, nos relatos dos sábios e investigadores.

Para não multiplicar citações, limitamo-nos a lembrar o caso da filha do Juiz Edmonds, de New York.

João W. Edmonds, 1° Juiz do Tribunal Supremo, de New York, foi um habilíssimo magistrado, homem muito benquisto pela sua honorabilidade. Ocupou nos últimos tempos os mais elevados cargos judiciais com talento, perspicácia e valor.

Referindo-se aos trabalhos do Juiz Edmonds, o grande sábio Alfred Russel Wallace escreveu:

"Os trabalhos do Juiz Edmonds são provas convincentes de fatos resultantes das experiências desse magistrado. Sua própria filha tornou-se médium, e pôs-se a falar línguas estrangeiras que lhe eram totalmente desconhecidas. Ele exprime-se do seguinte modo sobre o assunto:

"Ela não sabia outro idioma além do seu, salvo um ligeiro conhecimento de francês, aprendido na escola. Não obstante isso, tem conversado freqüentemente em nove ou doze idiomas diferentes, muitas vezes durante uma hora, com a segurança e a facilidade de uma pessoa falando sua própria língua. Não é raro que estrangeiros se entretenham, por seu intermédio com seus amigos espirituais e em seu próprio idioma. Cumpre-nos dizer como se passou tal fato em uma das circunstâncias.

Uma noite em que doze ou quatorze pessoas se achavam em meu pequeno salão, o Sr. E. D. Green, um artista desta cidade, foi introduzido em companhia de um cavalheiro que se apresentou como sendo Evangelides, natural da Grécia. Pouco depois, um Espírito falou-lhe em língua inglesa, por intermédio de Laura, e tantas cousas lhe disse que ele reconheceu estar por seu intermédio em relação com um amigo que falecera em sua casa alguns anos antes, mas de quem ninguém tinha ouvido falar. Nessa ocasião, por intermédio de Laura, o Espírito disse algumas palavras e pronunciou diversas máximas em grego, até que, enfim, o Sr. E. perguntou se ele poderia ser compreendido quando falasse em grego. O resto da conversação transcorreu durante mais de uma hora, da parte do Sr. E. inteiramente em língua grega; Laura também falava em grego e algumas vezes em inglês. Em certos momentos, Laura não compreendia a idéia sobre a qual ela ou o Sr. Evangelides falavam; mas, em outras ocasiões, a compreendia, posto que falasse em grego e ela própria se servisse de termos gregos".

Vários outros casos são conhecidos e está averiguado que essa jovem tem falado as línguas espanhola, francesa, grega, italiana, portuguesa, latina, húngara, hindu, assim como em outras que eram desconhecidas das pessoas presentes. Esses idiomas eram falados em nome de pessoas falecidas que conversavam com os seus parentes e conhecidos presentes.

Ultimamente as revistas psíquicas e espíritas têm noticiado muitos casos de "Xenoglossia" observados por pessoas de responsabilidade moral e científica.

Foram esses fenômenos que se verificaram no dia de Pentecostes, no Cenáculo, e maravilharam povos de todas as partes da Judéia, da Ásia, do Egito, etc.

Mas, como diz o Eclesiastes - "o que foi, é o que é, e o que é, é o que há de ser" - ontem como hoje, não faltaram negadores sistemáticos que, sem saber o que pensavam, nem o que diziam, afirmavam que todas aquelas pessoas reunidas no Cenáculo, em número de cento e vinte almas, já à hora terceira (9 horas da manhã) se achavam embriagadas.

O homem continua a julgar os outros por si, sem pensar nos juízos temerários que externa. Se o homem julgasse pela reta justiça, ficaria compreendendo que aqueles fatos outra cousa não eram que manifestações de Espíritos que vieram dar cumprimento à Promessa de Jesus.

Outro fenômeno, muito clássico hoje, que tem sido observado em inúmeras sessões espíritas e tem sido relatado pelos experimentadores são as luzes, flocos de luzes, bolas de luzes, que assinalam a presença dos Espíritos, fenômenos verificados no Cenáculo e qualificados por Lucas como "umas como línguas de fogo".

Cairbar Schutel


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quinta-feira, 30 de junho de 2011

COMUNICAÇÃO COM OS MORTOS: FATOS ESCONDIDOS NAS TRADUÇÕES E EXEGESES BÍBLICAS


Estávamos lendo o livro “Os 3 caminhos de Hécate”, do escritor espírita J. Herculano Pires (1914-1979), que falando das manifestações de espíritos na Bíblia, cita, entre outros, os seguintes passos: “Em Provérbios, 31:1-9, o espírito da mãe de Lamuel aparece-lhe para lhe transmitir conselhos. Em Juízes, 13, um espírito aparece a Manué e sua mulher” (p. 113). Bem curioso e até ansioso pela nova informação, fomos imediatamente conferi-la. E foi aí que vimos a verdade dos fatos que fazem de tudo para esconder.

Vejamos o passo Pr 31,1-9, do qual colocaremos apenas o versículo 1, já que é ele o que nos interessa:

Bíblia de Jerusalém: Palavras de Lamuel, rei de Massa, as quais lhe ensinou sua mãe. [...]

(Textos com mesmo sentido ao citado: Bíblia do Peregrino; Bíblia Sagrada – Santuário; Bíblia Sagrada – Vozes; Bíblia Sagrada – Ave Maria; Bíblia Shedd, Bíblia Sagrada - Pastoral e Bíblia Anotada – Mundo Cristão)

Bíblia Sagrada - Barsa: Palavras do rei Lamuel. Visão, pela qual o instruiu sua mãe. […]

(Texto com mesmo sentido ao citado: Bíblia Sagrada – Paulinas).

Novo Mundo: Palavras de Lemuel, o rei, a mensagem ponderosa que sua mãe lhe deu em correção: [...]

Bíblia Sagrada – SBB: Palavras do rei Lemuel: a profecia que lhe ensinou sua mãe. [...]

Infelizmente, percebemos que, na maioria das traduções bíblicas citadas, a passagem foi modificada (se o certo não for dizer adulterada ou corrompida) para não deixar transparecer a realidade de que essas instruções, que Lamuel (ou Lemuel) recebe de sua mãe; e pela sua redação a impressão que se tem é que elas foram recebidas de uma morta, ou seja, a mensagem foi transmitida pelo espírito de sua mãe. Apenas na narrativa de três delas podemos fazer uma análise e chegar a conclusão que se trata mesmo de uma aparição, oportunidade em que o espírito transmitiu a sua mensagem.

Visão em êxtase ou noturna, são os dois tipos de visões que aparecem na Bíblia. Fora as que se relacionam a eventos futuros, geralmente, são protagonizadas por seres espirituais. Algumas passagens do Antigo Testamento, inclusive, relatam pessoas tendo visões do Espírito de Deus, como se isso fosse um fato possível a um ser humano. E aí nos surge um questionamento: Por que Ele não aparece mais a ninguém nos dias de hoje?

Muitos dos antigos profetas eram videntes (1Sm 9,9), como, por exemplo, Samuel e Ido, citados com tal faculdade; certamente que tinham visões dos espíritos. Pedro, Tiago e João viram os espíritos Moisés e Elias conversando com Jesus (Mt 17,1-9). Zacarias vê o anjo Gabriel (Lc 1,19), que também foi visto por Daniel que disse ser ele um homem (Dn 9,21).

Uma outra visão bem interessante é a de Paulo que vê um macedônio, que lhe suplicava ir à sua cidade (At 16,9); o fato é que no passo não se dá para concluir se esse macedônio era vivo ou morto. Não estranhe, caro leitor, os vivos também podem se manifestar, pelo fenômeno da emancipação da alma - na linguagem bíblica eles são tidos como “arrebatamentos em espírito”.

Leiamos, agora, a segunda passagem:

Jz 13,2-25: Havia um homem de Saraá, do clã de Dã, que se chamava Manué. Sua mulher era estéril e não tinha filhos. O anjo de Javé apareceu à mulher e lhe disse: "Você é estéril e não tem filhos, mas ficará grávida e dará à luz um filho...” A mulher foi falar assim ao marido: "Um homem de Deus veio me visitar. Pela sua aparência majestosa, parecia um anjo de Deus…". Então Manué rezou a Javé: "Eu te peço, Senhor: que o homem de Deus que enviaste, volte e nos diga o que devemos fazer com o menino, quando ele nascer". Deus ouviu a oração de Manué, e o anjo de Deus apareceu outra vez à mulher, quando ela estava no campo. Seu marido Manué não estava com ela. A mulher foi correndo avisar o marido: "O homem que me visitou outro dia, voltou". Manué seguiu a mulher e foi perguntar ao homem: "Foi você quem falou com esta mulher?" Ele respondeu: "Sim. Fui eu mesmo". Manué disse: "Quando se realizar a sua palavra, como será o comportamento do menino? O que é que ele deve fazer?" O anjo de Javé respondeu a Manué: "A mulher não poderá fazer nada daquilo que lhe foi proibido:...". Manué disse ao anjo de Javé: "Fique conosco, que vamos preparar um cabrito para você". O anjo de Javé respondeu a Manué: "Mesmo que eu fique, não provarei a sua comida. Mas, se você quiser, prepare um holocausto e ofereça a Javé". Manué não tinha percebido que esse homem era o anjo de Javé. E Manué perguntou: "Qual é o seu nome, para que possamos agradecer a você, quando suas palavras se realizarem?" O anjo de Javé retrucou: "Por que você está querendo saber o meu nome? Ele é misterioso". Então Manué pegou o cabrito com a oferta, e ofereceu-o sobre a rocha em holocausto a Javé, que realiza coisas misteriosas. Manué e sua mulher ficaram observando. Quando a chama do altar subiu para o céu, o anjo de Javé também subiu na chama. Vendo isso, Manué e sua mulher caíram com o rosto no chão. O anjo de Javé não apareceu mais, nem para Manué nem para a sua mulher. Então Manué entendeu que era o anjo de Javé. Ele disse à sua mulher: "Certamente morreremos, porque vimos a Deus". A mulher respondeu: "Se Javé nos quisesse matar, não teria aceito o holocausto e a oferta, não nos teria mostrado tudo o que vimos, nem nos teria comunicado essas coisas"...

Para designar o mesmo ser que aparece a Manué e sua mulher, são utilizados estes termos para descrevê-lo: “anjo de Javé”, “um homem de Deus, que parecia um anjo de Deus”, “anjo de Deus”, “o homem” e “Deus”. Percebe-se a grande confusão que faziam diante das manifestações espirituais, não conseguindo, de fato, distinguir o que realmente viam.

Na verdade, o que viam eram anjos, que nada mais são que espíritos desencarnados, razão pela qual eram confundidos com homens. Para corroborar isso, basta ler em Atos o que aconteceu com Pedro. Ele estava preso a mando de Herodes, que já havia mandado matar a Tiago, irmão de João, e pretendia fazer o mesmo com Pedro, uma vez que viu que isso agradava aos judeus (At 12,1-3). Pedro após ser solto por um anjo do Senhor se dirige à casa de Maria, mãe de João, onde muitos estavam reunidos (At 12,6-12), leiamos, na própria narrativa bíblica, do que se sucede em seguida:

Bateu à porta, e uma empregada, chamada Rosa, foi abrir. A empregada reconheceu a voz de Pedro, mas sua alegria foi tanta que, em vez de abrir a porta, entrou correndo para contar que Pedro estava ali, junto à porta. Os presentes disseram: 'Você está ficando louca!' Mas ela insistia. Eles disseram: 'Então deve ser o seu anjo!' Pedro, entretanto, continuava a bater. Por fim, eles abriram a porta: era Pedro mesmo. E eles ficaram sem palavras. (At 12, 13-16).

Diante da possibilidade de Pedro estar à porta e como o supunham já morto, concluíram que só poderia ser o anjo dele que estava ali; em outras palavras: Então deveria ser o seu espírito!

R. N. Champlin, nos explica essa passagem da seguinte forma:

"Os cristãos primitivos têm com toda a razão sido criticados por essa sua atitude. Primeiramente rebateram a jovem escrava completamente, não crendo nela, preferindo acreditar que ela estava louca a crerem que as suas próprias orações haviam sido respondidas! E então, quando ela insistiu tão veementemente que não se equivocara com respeito à presença de Pedro ao portão, porquanto ele tinha um timbre de voz todo pessoal, chegaram eles a acreditar que Pedro já fora executado, à semelhança de Tiago, e que a aparição fora de seu espírito".

[...]

Aqueles primitivos crentes devem ter crido que os mortos podem voltar a fim de se manifestarem aos vivos, através da agência da alma. Observemos que a segunda alternativa, por eles sugerida, sobre como Pedro poderia estar no portão, era que ele teria sido morto e que o seu "anjo" ou "espírito" havia retornado. Portanto, aprendemos que aquilo que é ordinariamente classificado como doutrina "espírita" era crido por alguns membros da igreja cristã de Jerusalém. Isso não significa, naturalmente, que eles pensassem que tal fosse a regra nos casos de morte; porém, aceitaram a possibilidade da comunicação dos espíritos, que a atual igreja evangélica, especialmente em alguns círculos protestantes dogmáticos, nega com tanta veemência.

[…] Porém, por toda a parte abundam histórias de fantasmas, e muitos céticos negam tudo. Todavia, há muitos desses fenômenos, sob tão grande variedade, e cruzam todas as fronteiras religiosas, para que se possa duvidar dos mesmos como fatos. Algumas vezes os mortos voltam, e entram em comunicação com os vivos. Os teólogos judeus aceitavam isso como um fato, havendo entre eles a crença comum de que os "demônios" são espíritos humanos maus, desencarnados.

[...] É um equívoco cercarmos as doutrinas de muralhas, supondo em vão que somente nós, da moderna igreja cristã do século XX, temos as corretas interpretações das verdades bíblicas. Ainda temos muito a aprender, sobre muitas questões, e convém que guardemos nossas mentes abertas, pelo menos o suficiente para permitirmos a entrada de uma réstia de luz. Sabemos pouquíssimo sobre o mundo intermediário dos espíritos e supomos que o estado "eterno" já existe, o que todas as evidências mostram não ser ainda assim.

[...]

Naturalmente, sem importar o que os judeus criam a respeito dessas coisas, isso não prova nada neste caso. Porém, a experiência humana parece ser capaz de ilustrar amplamente que, algumas vezes, os espíritos dos mortos voltam a este mundo e entram em contato (pela permissão divina) com os homens. E com base nisso ficamos sabendo, pelo menos, que tais espíritos podem vir a fim de realizar determinadas missões, como também depreendemos que nossos conhecimentos sobre o mundo intermediário dos espíritos é extremamente limitado, porquanto muito nos resta ainda a apreender acerca do mundo dos espíritos, bem como sobre as capacidades e atividades dos espíritos. (CHAMPLIN, 2005, p. 250) (grifo do original).

Eis aí os fatos que comprovam o que fazem para tirar das passagens bíblicas a realidade da comunicação com os mortos. Aliás, ficamos pensando seriamente que se considerassem mesmo a Bíblia como sendo a palavra de Deus, não teriam coragem de alterá-la, modificá-la ou adulterá-la (caro leitor, escolha a que achar melhor), como flagrantemente fazem. Inclusive alguns tradutores têm o disparate de colocar em Dt 18,10-11, que sempre é citada como proibindo as comunicações com os mortos, palavras que não existiam à época que os textos bíblicos foram escritos, fora o fato de que não existem em hebraico, aramaico ou grego, como: Espiritismo, espiritistas, médiuns e médium espírita, que são neologismos criados por Kardec em abril do ano de 1857, quando publica a obra O Livro dos Espíritos.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

nov/2008

Referências bibliográficas:

CHAMPLIN, R. N., O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo, vol. 3, São Paulo: Hagnos, 2005.

PIRES, J. H. Os 3 caminhos de Hecate. São Paulo: Paidéia, 2004.

A Bíblia Anotada. 8ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.

Bíblia de Jerusalém, nova edição. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia do Peregrino. s/ed. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia Sagrada, 37a. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.

Bíblia Sagrada, 5ª ed. Aparecida-SP: Santuário, 1984.

Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1989.

Bíblia Sagrada, Edição Barsa. s/ed. Rio de Janeiro: Catholic Press, 1965.

Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. 43ª imp. São Paulo: Paulus, 2001.

Bíblia Sagrada, s/ed. Brasília – DF: Sociedade Bíblica do Brasil 1969.

Bíblia Sagrada. 68ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1989.

Bíblia Shedd. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova; Brasília: SBB, 2005.

Escrituras Sagradas, Tradução do Novo Mundo das. Cesário Lange, SP: STVBT, 1986.


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segunda-feira, 4 de abril de 2011

A CARTA COMPROMETEDORA DE ELIAS


Se não se convencem pelos fatos, menos o fariam pelo raciocínio. (Allan Kardec).

O escritor José Reis Chaves, autor do livro A Face Oculta das Religiões, em um artigo publicado, em sua Coluna, de 26.04.04, no jornal "O Tempo", de Belo Horizonte, "Ressurreição de Todos", dá-nos uma informação interessantíssima. Diz ele:

"E o desaparecimento de Elias vivo confundiu muito os teólogos sobre a ressurreição. Mas ele ficou na Terra, 
pois Jorão, depois, recebeu dele uma carta. 2 Crônicas 21,12)".

Engraçado como muitas vezes não enxergamos o óbvio, pois realmente, segundo a narrativa bíblica citada, Elias, depois de ter sido supostamente arrebatado, enviou mesmo uma carta a Jorão, filho e sucessor de Josafá, de Judá. Confirmam isso os tradutores da Bíblia de Jerusalém, quando nos oferecem a seguinte explicação para essa passagem:

"De acordo com a cronologia de 2Rs, Elias tinha desaparecido antes do reinado de Jorão de Israel (2Rs 2; 3,1) e, portanto, antes de Jorão de Judá (2Rs 8,16; cf. no entanto 2Rs 1,17). O cronista deve utilizar uma tradição apócrifa".

Mas o que há de extraordinário nisso? Bom, se a passagem mencionada for verdadeira, e aqui os defensores da inerrância bíblica, por coerência, não podem aceitar de outro modo, estaremos diante de duas alternativas. A primeira: que Elias não foi arrebatado, já que envia uma carta. Isso para nós foi o que de fato ocorreu, uma vez que é difícil sustentar que alguém tenha sido arrebatado de corpo e alma levando-se em conta que se "Deus é espírito" (Jo 4,24), nós também somos seres espirituais, já que fomos criados à Sua imagem e semelhança. Por outro lado, se "o espírito é que dá vida, a carne não serve para nada" (Jo 6,63) e que "a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus" (1Cor 15,50) não há como compatibilizar corpo físico na dimensão espiritual. A segunda alternativa, que, por certo, poderá deixar alguns fanáticos perplexos, é que, se aceitarmos que não há exceção nas Leis Divinas, Elias morreu, como irá acontecer com todo ser humano; daí, por força das circunstâncias, teremos que admitir que, do plano espiritual, ele envia uma carta ao rei. Portanto, uma ocorrência mediúnica, com alguém servindo de médium para receber essa carta e enviá-la ao destinatário, traduzindo-se isso em uma autêntica psicografia.

A título de curiosidade, observamos que os termos usados nessa narrativa aparecem, nas diversas traduções bíblicas, ora como "uma carta", ora como "uma mensagem" e ora como "um escrito", mas, no fundo, tudo é a mesma coisa. Lembramo-nos aqui do saudoso Chico Xavier que recebia, com facilidade uma imensidão de cartas dos "mortos".

Na primeira hipótese acima citada, não há nenhum fato bíblico entre "os arrebatados" que venha a sustentar a possibilidade de que, em algum momento, um deles tenha se comunicado, por qualquer meio, com os encarnados. Entretanto, quanto à segunda hipótese, ou seja, a que Elias tenha morrido, podemos comprovar biblicamente, por dois acontecimentos, os quais vêm apoiar a uma ocorrência dessa ordem.

O primeiro, narrado em 1Sm 28, 1-25, é um fenômeno mediúnico de psicofonia, que registra a ocasião em que o rei Saul vai a Endor, para que, através da pitonisa (médium) que residia nessa localidade, pudesse aconselhar-se com o profeta Samuel, já desencarnado. Como estava numa situação angustiante, pois se encontrava cercado pelo exército dos filisteus, queria saber do espírito do velho profeta sobre o que o futuro lhe aguardava em relação a essa iminente guerra.

O segundo, sempre "esquecido" dos contraditores da comunicação com os "mortos", é quando os espíritos de Moisés e Elias apareceram a Jesus, Pedro, Tiago e João, e conversaram com o Mestre. Classificamos esse fenômeno mediúnico como de "materialização", pois esses dois espíritos também foram vistos pelos três discípulos que testemunharam o fato, que, ao que tudo indica, eram os médiuns doadores da energia necessária para a produção do fenômeno, a qual chamamos de ectoplasma. Inclusive, podemos observar que, nos principais fenômenos mediúnicos produzidos por Jesus, vistos por alguns como milagres, os três apóstolos citados eram convidados por Ele, para deles participarem, pois só eles, entre os que o seguiam, possuíam essa energia de forma mais acentuada.

Há ainda um outro evento, que nunca é falado, pois não teria como ser negado: trata-se do acontecido com o próprio Jesus, que depois de morto comunicou-se com inúmeras pessoas. E, plagiando o que o apóstolo dos gentios disse aos coríntios, diríamos: "Pois se os mortos não se comunicam, também Cristo não se comunicou. Se Cristo não se comunicou ilusória a nossa fé".

Assim, com essa carta de Elias, acreditamos estar diante de mais uma ocorrência bíblica, que vem provar a comunicação entre os dois planos da vida, embora negada sistematicamente por alguns, mas que pode ser corroborada pela própria proibição bíblica de Moisés de se comunicar com os mortos (Dt 18,9-14), já que Moisés não era tão louco assim para proibir algo que não existe. Está, portanto, comprovada pela própria Bíblia, a realidade da comunicação entre os habitantes do mundo físico com os do mundo espiritual. E como diria Jesus: "Quem tem ouvidos, ouça".


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Maio/2004.



Referência Bibliográfica:

Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus, 2002.

Jornal O Tempo, de 26.04.2004, Coluna de José Reis Chaves, pág. A8.

(Publicado no Jornal Espírita, julho de 2004, nº 347, FEESP, pág. 11).


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quinta-feira, 24 de março de 2011

E ACONTECEU NO SINAI


Na própria essência de nosso esforço de compreensão está o fato, de, por um lado, tentar englobar a grande e complexa variedade das experiências humanas, e de, por outro lado, procurar a simplicidade e a economia nas hipóteses básicas. (ALBERT EINSTEIN)

Há tempos que estamos pensando em fazer um estudo específico sobre os acontecimentos no Monte Sinai, mas acabávamos sendo envolvidos por outros assuntos, por isso, esse foi sendo postergado. Entretanto, essa idéia ainda nos persegue. Vejamos, então, o que poderemos fazer.

Primeiramente, devemos dizer porque tal idéia surgiu. Como sempre estamos lendo textos da Bíblia, em certa oportunidade deparamos com um que afirmava que as “Leis do Sinai” haviam sido promulgadas pelos anjos. Isso nos despertou a curiosidade, pois, até então, sabíamos que Deus pessoalmente teria passado essas leis a Moisés.

Mas, antes de entrar no assunto, vejamos o seguinte relato a respeito dos fenômenos ocorridos naquela ocasião:

“Três dias depois, pela manhã, houve trovões e relâmpagos e uma nuvem espessa desceu sobre a montanha, enquanto o toque da trombeta soava fortemente. O povo que estava no acampamento começou a tremer. Então Moisés tirou o povo do acampamento para receber Deus. E eles se colocaram ao pé da montanha. Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé tinha descido sobre ela no fogo; a fumaça subia, como fumaça de fornalha. E a montanha toda estremecia. O som da trombeta aumentava cada vez mais, enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão. Javé desceu no topo da montanha do Sinai e chamou Moisés lá para o alto”. (Ex 19,16-20).

Chamamos sua atenção, caro leitor, para “trovões, relâmpagos, nuvem espessa, o Sinai fumegava, o fogo, a montanha toda estremecia” coisas que, presumimos, estariam bem próximas de uma ocorrência natural, tipo vulcânica. Essa região, que faz parte da placa tectônica Africana, fica bem próxima dos limites das placas da Grécia e da Arábica, e, como sabemos, é no encontro dessas placas que ocorrem as manifestações vulcânicas. Se nessa região esses fenômenos não acontecem nos dias de hoje, poderia muito bem ter acontecido naquela ocasião uma vez que a mesma possui as condições geológicas para tal e, por outro lado, a própria narrativa nos leva a acreditar nisso.

E, como naquela época o nível de conhecimentos desses fenômenos da natureza eram completamente nulos, deviam ficar mesmo apavorados com essas ocorrências. Algumas delas julgavam ser a manifestação da ira de Deus, uma vez que tais coisas aconteciam no céu, local onde pressupunham ser a morada de Deus. “... enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão”, fica aí a comprovação da ignorância dos fenômenos, que são de ordem natural, mas naquele tempo eram considerados como sobrenaturais.

Na seqüência da narrativa, é que Moisés recebe os Dez Mandamentos: “Quando Javé terminou de falar com Moisés no monte Sinai, entregou-lhe as duas tábuas da aliança; eram tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus”. (Ex 31, 18), tábuas onde estavam escritos.

Até aqui as coisas não estavam tão complicadas, a não ser pelos fenômenos ocorridos no monte Sinai, em tudo acreditávamos sem qualquer conflito. Entretanto, inesperadamente, as coisas “estremeceram”, depois de lermos no livro Atos dos Apóstolos: “Foi ele [Moisés], na assembléia do deserto, quem serviu de intermediário entre o anjo que lhe falava no monte Sinai e os nossos pais. Ele recebeu as palavras de vida, para transmiti-las a nós”. (At 7,38).

A narrativa diz “o anjo” e, pela concepção da época, isso significava que o próprio Deus teria se manifestado, entretanto, nessa passagem, segundo o que pensamos, não seria essa a idéia a prevalecer. Um pouco antes, está narrado: “Quarenta anos depois, apareceu-lhe no deserto do monte Sinai um anjo na chama de uma sarça que ardia” (At 7,30) e, posteriormente, no versículo 53 se dirá anjos, fugindo, portanto, do conceito tradicional. E, se não estivermos enganados, em At 7,38 deveria estar “um anjo”, ao invés de “o anjo”, já que, no primeiro caso, seria o artigo indefinido ficando, portanto, condizente com At 7,30.

Em outras oportunidades encontramos a confirmação de que as leis foram passadas pelos anjos, no plural mesmo, indicando terem sido mais de um. Concluímos que, é bem provável, seja essa a realidade, pois não concebemos o próprio Deus, criador do Universo infinito, vir pessoalmente entrar em contato com os seres humanos, uma vez que usaria para isso os seus mensageiros ou anjos, pois “não são todos eles espíritos encarregados para um serviço, enviados para servir àqueles que deverão herdar a salvação?” (Hb 1,14). Vejamos, então, as seguintes passagens:

“Vocês receberam a Lei, promulgada através dos anjos, e não a observaram!” (At 7,53).

“Então, por que é que foi dada a Lei? Ela foi acrescentada para mostrar as transgressões, até a chegada do descendente, em vista do qual foi feita a promessa. A Lei foi promulgada pelos anjos e um homem serviu de intermediário”. (Gl 3,19).

“De fato, se a palavra transmitida por meio dos anjos se mostrou válida, e toda transgressão e desobediência recebeu um justo castigo,...”. (Hb 2,2).

Assim, na própria Bíblia, encontramos elementos que nos levam à conclusão de que não foi realmente Deus que esteve no monte Sinai. Pelo próprio conteúdo dessas leis já questionávamos sobre isso. Nos é passado o nono mandamento como “não cobiçar a mulher do próximo”, mas duas coisas nós podemos colocar sobre ele. Primeiro, Deus jamais diria um absurdo desse, pois se trata, com certeza, de produto de uma sociedade altamente machista, e, partindo do pressuposto de que o que não é proibido é permitido, diríamos que a mulher poderá cobiçar o marido da outra sem nenhum problema. O segundo, é que apesar de sempre o colocarem dessa forma, na verdade, esse mandamento é mais abrangente: “Não cobice a casa do seu próximo, nem a mulher do próximo, nem o escravo, nem a escrava, nem o boi, nem o jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo”. (Ex 20,17). Isto posto, iremos concordar com o pensamento do escritor Hélio Pinto que diz que os Dez Mandamentos na realidade são nove. No texto bíblico a mulher é colocada como propriedade do homem, coisa que naquela época era normal, não nos dias de hoje. E, além desse novo absurdo, podemos ainda dizer que uma Lei, para ser de origem divina, deve ser, acima de tudo “atemporal”, ou seja, serve para todos os tempos, também deve servir para todos os povos, o que não ocorre como se encontra escrita na passagem em relação a escravo, boi ou jumento, pois eram coisas de muito valor na época, já que, por exemplo, o jumento era instrumento de transporte, hoje temos os automóveis, ter bois significava ser alguém de posses, e quanto aos escravos, nos tempos atuais, dá até cadeia para quem escravizar alguém.

Nossa surpresa maior foi quando nos deparamos com a seguinte afirmativa: “Os babilônios desenvolveram as leis morais mais tarde incorporadas por Moisés nos Dez Mandamentos e que ainda hoje constituem os alicerces do cristianismo”. (LOON, 1981). Mas será que é isso mesmo? Entretanto, pesquisas posteriores acabaram por nos revelar a verdade.

Kersten, nos passa a seguinte informação: “Moisés continua a ser considerado um grande legislador, porém, é fato sabido que os Dez Mandamentos nada mais eram que o resumo de leis que vigoraram entre povos do Oriente Próximo e da Índia, muito antes do nascimento de Moisés e que eram comuns também na Babilônia, já há 700 anos. A famosa lei do rei babilônico de Hamurabi (728-1686 a.C.), inspirada no Rig-Veda dos hindus, já continha todos os dez mandamentos”. (Jesus viveu na Índia, pág. 56).

Vejamos a correlação de algumas leis:

Leis Mosaicas

Código de Hamurabi

Não tenha relações sexuais com sua mãe. Ela é de seu pai, e é sua mãe; não tenha relações sexuais com ela. (Lv 18, 7).

Se alguém for culpado de incesto com sua mãe depois de seu pai, ambos deverão ser queimados.

Se alguém ferir o seu próximo, deverá ser feito para ele aquilo que ele fez para o outro:

fratura por fratura,

olho por olho,

dente por dente.

A pessoa sofrerá o mesmo dano que tiver causado a outro: (Lv 24, 29-20).

Se um homem quebrar o osso de outro homem, o primeiro terá também o seu osso quebrado.

Se homem arrancar o olho de outro homem, o olho do primeiro deverá ser arrancado (olho por olho).

Se um homem quebrar o dente de um seu igual, o dente deste homem também deverá ser quebrado (dente por dente).

Os juízes deverão fazer cuidadosa investigação. Se a testemunha for falsa e tiver caluniado o seu irmão, então vocês a tratarão do mesmo modo como ela própria maquinava tratar o seu próximo. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio. (Dt 19, 18).

Se alguém “apontar o dedo” (enganar) a irmã de um deus ou a esposa de outro alguém e não puder provar o que disse, esta pessoa deve ser levada frente aos juízes e sua sobrancelha deverá ser marcada.

Se um homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos serão mortos, tanto o homem como a mulher. Desse modo, você eliminará o mal de Israel. (Dt 22, 22).

Se a esposa de alguém for surpreendida em flagrante com outro homem, ambos devem ser amarrados e jogados dentro d’água, mas o marido pode perdoar a sua esposa, assim como o rei perdoa a seus escravos.

Isso já tinha desestruturado todas as nossas convicções a respeito do assunto, não precisava de mais nada, entretanto mais um livro chegou às nossas mãos. Foi a gota d’água que veio, por definitivo, mudar conceitos antigos. que aprendemos como se fossem verdades absolutas.

Desta vez o autor foi Werner Keller, que, no seu livro “e a Bíblia tinha razão...” demonstrou, de forma categórica, tudo quanto já tínhamos visto anteriormente. Vejamos suas colocações (págs. 157-160):

“Era perfeitamente possível concluir pela singularidade das leis morais, dadas por Deus ao povo de Israel, sem modelo nem paralelo no antigo Oriente, antes da descoberta dos elementos, indicando clara e inequivocamente que, precisamente em um dos seus trechos de maior relevo, ou seja, os Dez Mandamentos e demais leis promulgadas para Israel, a Bíblia não está sozinha, pois sobretudo ali ela se revela como imbuída do espírito do antigo Oriente. Assim, os Dez Mandamentos representam uma espécie de ‘documento de aliança’, ou a ‘lei básica’ da aliança entre Israel e seu Deus. Em absoluto, não surpreende o fato de corresponder, perfeitamente, aos acordos de vassalagem, celebrados no antigo Oriente, para regulamentar os vínculos entre um soberano e os reis vassalos, por ele instituídos para governar os povos subjugados. Os textos desses contratos de vassalagem sempre começavam citando o nome, título e os méritos do respectivo ‘grão-rei’. Correspondentemente, a Bíblia reza: ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei do Egito, da casa da servidão’ (Êxodo 20.2). Logo, também, ali cita-se primeiro o nome (a palavra ‘Senhor”, segundo a praxe bíblica, substituindo o nome verdadeiro de Jeová, cujo pronunciar era proibido), o título (‘Deus”) e o mérito decisivo (‘que te tirei da terra do Egito’) do grão-rei; só que, neste caso específico, tratava-se do divino ‘grão-rei’ de Israel, do Deus da aliança. Ademais, os vassalos eram proibidos de estabelecer relações com soberanos estrangeiros. A isso corresponde o mandamento ‘Não terás outros deuses diante de Mim’ (êxodo 20.3). A forma imperativa de ‘tu deves’, ‘tu não deves’ está sempre presente nos acordos entre um grão-rei e seus vassalos; portanto, ao contrário do que supõem alguns cientistas, ela absolutamente não se restringe aos Dez Mandamentos bíblicos. Por exemplo, um daqueles tratados de vassalagem reza: ‘Não cobiçarás nenhuma região do país de Hatti’, conquanto a Bíblia diga: ‘Não cobiçarás a casa do teu próximo...’ (Êxodo 20.17). Foram apuradas ainda outras concordâncias, como as referentes à guarda das tábuas como os mandamentos na arca da aliança (as cópias dos contratos de vassalagem também eram guardadas no interior do santuário), bem como à selagem dos contratos, respectivamente, dos mandamentos, com bênção e maldições, pois também Moisés falou (Deuteronômio 11.26 a 28): ‘Eis que eu ponho hoje diante dos vossos olhos a benção e a maldição; a benção, se observardes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu hoje vos prescrevo; a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, mas vos apartardes do caminho que eu hoje vos mostro...’ Aliás, o renomado cientista católico, pesquisador de Bíblia, Roland de Vaux, já mencionado por várias vezes, encontrou em diversos acordos de vassalagem hititas a disposição de ler, em intervalos regulares, o texto do acordo, as leis bíblicas deveriam ser lidas em público, pois ‘todos os sete anos, no ano da remissão, na solenidade dos tabernáculos, quando todos os filhos de Israel se juntarem para aparecer diante do Senhor teu Deus... lerás as palavras desta lei diante de todo o Israel, o qual ouvirá... para que, ouvindo, aprendam e temam o Senhor vosso Deus, e guardem e cumpram todas as palavras desta lei’ (Deuteronômio 31.1, 10 a 12)”.

“Tudo isso refere-se somente à forma externa dos Dez Mandamentos. No entanto, o que há em relação ao seu conteúdo espiritual? Tampouco, quanto a isso, faltam paralelos. Assim, na Assíria, um sacerdote, ao exorcizar os ‘demônios’ de um doente, teve de perguntar: ‘Será que ele (o doente) ofendeu um deus? Menosprezou uma deusa?... Menosprezou seu pai e sua mãe? Menosprezou a irmã mais velha?... Teria ele falado ‘não é assim, ao invés de ‘é assim” (ou vice-versa)? ... Teria ele feito pesagem falsa? Invadido a casa do seu próximo? Ter-se-ia aproximado demasiadamente da mulher do seu próximo? Teria vertido o sangue do seu próximo?...”.

“Por fim, seguem-se ainda alguns exemplos, tirados do chamado ‘ensinamento de Amenemope’, em uso no antigo Egito”:

‘Não retirarás a pedra demarcando os limites do campo e não alterarás a linha, seguida pela fita do metro; não cobiçarás nem um côvado de terra e não derrubarás a demarcação das terras de uma viúva’.

‘Não cobiçarás a propriedade de um homem de posses modestas e não terás fome do seu pão’.

‘Não regularás a balança de maneira errada, não adulterarás os pesos e não diminuirás as peças da medida dos cereais’.

‘Não farás a desgraça de ninguém perante o tribunal e não corromperás a justiça’.

‘Não darás risada de um cego, não farás troça de um anão e não desfarás os planos de um paralítico’.

“Da mesma forma, o ‘exemplo clássico’ que hoje em dia costuma ser citado pelos pesquisadores da Bíblia é a chamada ‘confissão negativa’, mencionada na introdução ao centésimo vigésimo quinto capítulo do Livro dos Mortos. No antigo Egito era crença que o defunto ingressaria em uma ‘sala de justiça’, onde, perante quarenta e dois juízes dos mortos, deveria fazer as seguintes declarações”:

‘Não fiz adoecer ninguém.

Não fiz chorar ninguém.

Não matei ninguém.

Não fiz mal a ninguém.

Não diminuí os alimentos nos templos.

Não maculei os pães oferecidos aos deuses.

Não roubei os pães destinados aos mortos, como oferendas fúnebres.

Não tive relações sexuais (proibidas).

Não tive relações sexuais contrárias à natureza’.

“E assim por diante”.

“Em outra parte veremos ainda que, graças às pesquisas mais recentes, hoje em dia já se tornou bem menos acentuada a diferença, outrora gritante, entre conceitos: ‘Aqui, a sublime fé monoteísta – ali, a multidade bizarra de deidades’. Em certa época, pelos menos nos tempos primitivos, aquela multidade de deidades existiu, inclusive em Israel, conquanto a idéia da grandiosidade de figuras divinas, reais, fosse divulgada igualmente nas crenças religiosas de outros povos, habitando as imediações da Terra Santa. Da mesma forma, cumpre fazer constar que também alhures houve moralidade; além das fronteiras de Israel, o povo era igualmente responsável, tinha modos, observava os preceitos da lei, ordem, ética e moral, e também ali as normas regendo o comportamento humano encontravam uma expressão que, tanto no espírito quanto na letra, correspondia perfeitamente aos regulamentos sagrados vigentes em Israel. E, mais uma vez, a Bíblia tem razão, no sentido de que, nos seus textos jurídicos, cuja peça principal são os Dez Mandamentos, ela nos transmite um trecho pertinente, comprovado por respectivos paralelos na história cultural e moral do antigo Oriente. O quadro assim constituído, e de modo a dificultar que fosse mantida a outrora levantada pretensão da singularidade das leis bíblicas, talvez confunda e intrigue a mente de algumas pessoas. Lamentavelmente, não há condições de eliminar tal confusão e insegurança. No entanto, hoje em dia, a confirmação extrabíblica dos respectivos textos bíblicos revela o relacionamento de Israel com seu ambiente cultural e histórico, bem como suas máximas, de uma maneira bastante mais clara e precisa do que antes...”.

Foi aqui, finalmente, que jogamos, de vez, “a tolha no chão”, vamos assim dizer, não resistindo aos inapeláveis argumentos históricos desenvolvidos por Keller.

Pode ser que eventualmente isso venha a chocar a muitos, entretanto, muitas vezes acontece isso mesmo, quando ficamos sabendo da verdade. Alguns, com certeza nos chamarão de heréticos, como se isso fosse mudar os fatos. Além de que, se o somos, estaríamos muito bem acompanhados, pois Jesus foi também herético no seu tempo. Outros, talvez, dirão que estamos possuídos por satanás, a estes pedimos estudar mais a história, pois irão ver que esse ser foi incorporado, na Bíblia, por influência da cultura persa, pela doutrina de Zoroastro.

Deveríamos fazer um estudo mais aprofundado desses assuntos bíblicos, demonstrando, por separação, a realidade da fantasia, sob pena de, no futuro, ninguém mais vai dar valor algum a ela. Pelos estudos que temos feito da Bíblia a conclusão que inevitavelmente estamos chegando é que apesar dela ter sido imposta como sendo “a palavra de Deus” ela é sim um livro histórico, em que também se encontra registrados os conceitos religiosos do povo hebreu, muitas vezes, cheios de superstições, misturadas com mitologia, lendas e conceitos pagãos, daí a necessidade de seu estudo sem preconceitos. Ressalva faremos apenas ao Evangelho de Jesus.

Mas, apesar disso tudo, ainda poderemos aceitar que os Dez Mandamentos são realmente de inspiração divina. Entretanto, teremos que identificar quem foi o “Moisés” que antes os recebeu.

Paulo Neto

Jan/2004 (revisado)

Referência bibliográfica:

KELLER, Werner, e a Bíblia tinha razão..., 22ª ed., Melhoramentos, São Paulo, 2000.

KERSTEN, Holger, Jesus Viveu na Índia, 15ª ed., Best Seller, São Paulo, 1988.

LOON, Hendrik W.V., A História da Bíblia, s.ed., Cultriz, São Paulo, 1981.

STOMIOLO, Ivo e BALANCIN, Euclides. M., Bíblia Sagrada -Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, 1991.

VESENTINI, J. W, e VLACH, V, Geografia Crítica, vol. 1, Ática, São Paulo, 13ª edição.



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sábado, 5 de março de 2011

ADÃO E EVA


A Gênese da consciência.

A lenda da origem da vida, que inclui as figuras simbólicas de Adão e Eva, envolve também a polêmica questão dogmática do pecado original.

E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.

Gênesis, 2:7.

Segundo aqueles que interpretam, de forma literal, o texto Bíblico: O pecado original, cometido e introduzido na terra por Adão, induzido pela serpente no Jardim do Éden. O estímulo da serpente fez com que Eva sugerisse a Adão que também provasse do fruto proibido, o qual foi colhido da árvore do conhecimento.

Outra forma de interpretar a Gênesis bíblica envolve a análise do significado dos símbolos utilizados no texto. Naquele período, os escritos oficiais eram os de cunho religioso e esta literatura não tinha um caráter jornalístico ou histórico.

A literatura em questão era, também, recheada de conhecimentos populares aceitos, então, como verdades indiscutíveis. Por isso, existem semelhanças com textos de outras religiões mais antigas.

O contato do povo Hebreu com outros povos, na condição de escravos ou de viajantes nômades, permitiu a absorção desses mitos de forma lenta e gradual (fato este negligenciado pelos mais avessos à História antiga por questões dogmáticas).

Sabemos que os textos sagrados foram extremamente importantes na evolução espiritual e social de um povo semi-selvagem que começava a abandonar a idolatria e o politeísmo. Esses textos elaborados sob inspiração Superior tornam-se atuais e corretos se interpretados, hoje, como um símbolo, uma metáfora.

Essa forma de interpretação, de cunho mais filosófico, é a que permite que sejam extraídas, de documentos tão antigos, verdades ainda atuais. E mais do que isso, verdades compatíveis com a ciência.

Considerando que ciência nada mais é do que o estudo sistemático das Leis da natureza e que essas Leis são Divinas em sua origem (já que é Divina a origem do Universo). Podemos concluir que, a ciência humana estuda a porção material da Criação Divina. É por isso que ela não é oposta a Deus, mas fruto Dele.

A Gênesis Bíblica.

Trata-se de uma belíssima referência á responsabilidade individual, sendo esta proporcional ao nível de conhecimento moral e ético de um povo, em função de sua história e realidade social.

Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; por que no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Gênesis, 2:17.

A árvore do conhecimento representa a capacidade de um ser humano de reconhecer o que é bom e o que é mal. A partir do momento em que o ser humano adquiriu essa capacidade, quando ele comeu o fruto da árvore do conhecimento, ele se tornou integralmente responsável pelos seus atos perante seu próximo e perante Deus.

O selvagem que utilizava o raciocínio para melhorar suas condições de sobrevivência passa, neste momento Histórico, a ser Homem espiritual já que agora distingue o certo do errado.

Neste momento, o ser em desenvolvimento de suas capacidades físicas e espirituais, torna-se responsável pelas conseqüências dos seus atos. O bem que promove, gera proximidade Divina. O mal que faz a si mesmo ou ao seu irmão, é débito moral a ser resgatado pela dor ou pela reparação integral do dano.

Entendemos, então, que Adão simboliza o momento em que os homens primitivos iniciam o conhecimento da diferença entre o certo e o errado, passando a ter condições de optar pelo caminho que prefere seguir. É aí que o homem se torna Homem e deixa de ser selvagem.

O caminho do bem leva diretamente a Deus. O caminho do mal leva à satisfação dos prazeres imediatos e individuais. Este caminho, apesar de aparentemente saboroso, é longo e inóspito.

A serpente simboliza nossas fraquezas morais e o apego material. Ela encontra-se dentro de cada ser humano e é extremamente sedutora, faz com que inúmeras justificativas sejam criadas para que se cumpra o desejo de satisfação das mais vis paixões.

Essa serpente de paixões nos consome intimamente, convidando insistentemente ao erro.

Todos temos que vencer essas tendências para que evoluamos em direção à inexorável e inevitável comunhão Divina que se dará em nosso futuro. Cedo ou tarde, conforme nosso empenho e determinação no curso do Caminho da Luz.

Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; por que no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Gênesis, 2:17.

Certamente muitas mortes físicas existem neste percurso, assim como muitas vidas físicas. Mas a vida eterna é uma só, a vida espiritual, para a qual a morte não existe.

A tese do pecado original é contraditória em sua essência já que um Ser Perfeito, Deus, não cobraria de toda a descendência o preço do pecado de um único pecador. Nem a justiça dos homens, plena de falhas e deficiências, permite que se cobre do filho a responsabilidade sobre atos ilícitos praticados pelo seu próprio pai.

Tal atitude atribuída a Deus é, na realidade, compatível com a limitação daqueles que foram responsáveis pela seleção e revisão dos Textos Sagrados. Indivíduos revestidos de poder político e religioso, mas ainda carentes, naquela época, de capacidade moral e intelectual para compreender a infinita bondade Divina.

A herança de Adão não é o pecado em si, mas sim a capacidade de lidar com novos conhecimentos, entendê-los e conscientemente optar pelo caminho longo ou curto. Isso se chama Livre Arbítrio.

Entendendo assim, somos levados a louvar a extensão e profundidade da Justiça Divina que nos permite entender nosso ambiente físico e social. Só seremos responsabilizados por nossas opções a partir do momento em que delas tornamo-nos plenamente conscientes.

Redimindo Eva.

Não podemos admitir como justa a imagem da mulher como o caminho de condução ao vício e ao erro. Seria uma visão limitada e limitante, aquém da capacidade e da real influência feminina na história da humanidade. Fato só aceitável para uma sociedade atrasada e altamente machista.

No contexto da Gênese bíblica a mulher representa o ambiente social, suas pressões e a repercussão desta na opção pelo bem ou mal. A família, a luta pela sobrevivência, o ambiente adverso e corrompido. E, paradoxalmente a Eva bíblica representa, também, o amor puro e fraternal.

São as forças que nos dirigem ora para "a porta larga" e ora para "a porta estreita". Forças essas que se aplicam conforme nossa predisposição mental.

As boas influências serão cultivadas pela nossa própria atitude diante dos fatos diários. Assim estaremos sintonizados com o bem e motivados para o bem em função de nossa opção fundamentalmente Cristã pelo ético.

Um texto alegórico contém ensinamentos que transcenderam milênios, por isso inferimos que seja um texto obtido sob inspiração Superior, já que permite que cada um, dentro de sua faixa de evolução, absorva o ensinamento com o qual sua mente é capaz de lidar.

A Luz Divina não ofusca, ilumina conforme a densidade da escuridão.


Giselle Fachetti Machado


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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

JERICÓ - A CIDADE PALCO DE FEITOS INAUDITOS


Sempre nos chamou a atenção o épico bíblico sobre a conquista da cidade de Jericó pelos hebreus, narrada no livro de Josué.

Para que possamos nos situar diante dessa história, vamos, dentro do possível, resumir sua narrativa até chegar a esse ponto da conquista. O povo hebreu pernoitava às margens do rio Jordão, já se preparando para receber a posse da terra que Deus lhe havia prometido (aliás, eliminando os donos para dá-la a ele) tem pela frente, a cidade de Jericó. Josué, que o liderava, manda dois espiões para examinarem a cidade, que são recebidos por Raab, uma prostituta. Ela os esconde do rei de Jericó, tendo deles a promessa de salvá-la quando do ataque final à cidade. Depois disso Josué instrui que, na travessia do Jordão, os sacerdotes deveriam ir à frente, carregando a Arca da Aliança; e um fato extraordinário acontece, então: o rio se divide em dois; vejamos o relato:

Josué 3,14-17: “Quando o povo deixou as tendas para atravessar o Jordão, os sacerdotes que levavam a arca da aliança caminhavam na frente do povo. Chegando ao Jordão, quando os sacerdotes que levavam a arca molharam os pés na beira da água - pois o Jordão transborda sobre as margens durante o tempo da ceifa - a água que vinha de cima parou, levantando-se num só monte, bem longe, em Adam, cidade que fica ao lado de Sartã; e a água que descia ao mar da Arabá, o mar Morto, escoou totalmente, de modo que o povo pôde atravessar diante de Jericó. Os sacerdotes, que levavam a arca da aliança de Javé, ficaram parados no leito seco, no meio do Jordão, enquanto todo o Israel atravessava a pé enxuto, até que todos acabaram de atravessar.”

Estamos diante do nosso primeiro problema, qual seja, a divisão das águas do rio Jordão. Estaria repetindo-se o acontecido no Mar Vermelho? Vamos elucidar essa questão.

Em se referindo ao fato, os tradutores Pe. Matos Soares, João Ferreira de Almeida e os missionários capuchinhos de Portugal disseram:

A grandiosidade do milagre pode ser argüida pelo fato de que se verificou no tempo e lugar preanunciado, quando o rio – por causa do degelo das neves do monte Hermon – estava em cheia e, portanto, com o dobro da largura que habitualmente tem, cerca de 60m, com águas vorticosas e rápidas que dificilmente se podia atravessar. Segundo cronista árabe Nuwairi, em 1267 as águas do Jordão interromperam o curso durante dez horas por causa de um deslizamento que lhe obstruíra o leito. Nada obsta que Deus se tenha servido de uma causa natural para conseguir seus fins. (Paulinas, 1980, p. 222-223).

O Jordão transbordava nos meses de maio e junho. Em Adã, cidade 25 km ao norte, o Jordão corre entre ribanceiras de barro de 13m de altura, sujeitas a desmoronamento. Podia ter sido o método que Deus usou para estancar as águas e deixar passar o povo, na hora determinada por Ele. (Vida Nova e SBB, 2005, p. 309).

A descrição das águas a amontoarem-se e as do sul a escoarem-se para o Mar Morto não nos deve levar a uma imagem pueril de duas colunas de água, por meio das quais passaram os israelitas. Vê-se que o autor pretende mostrar a intervenção miraculosa de Deus em favor do seu povo, no momento preciso e na medida necessária. Isto não exclui que Deus se tenha servido dos elementos naturais da região. Sabemos que as águas do Jordão, no seu leito estreito e profundo, vão minando as margens, provocando de vez em quando grandes desabamentos de terras que podem obstruir por completo, a torrente. A partir desse lugar, o leito permanece seco até que as águas rompem uma passagem e encontram de novo o seu caminho. A história conta-nos que isso aconteceu em 1267, 1914 e 1927. Em nada se diminuiria a ação de Deus se se tivesse servido miraculosamente nesse momento exato, destes elementos locais. (Santuário, 1984, p. 286).

É interessante como se faz questão de enxergar milagre em todos os fenômenos de ordem natural, como se Deus fosse um mágico retirando variados objetos de sua cartola.

Em Josué 2,7 fala-se em “vaus do Jordão”, ou seja, havia, nesse rio, trechos rasos, pelos quais se podia passar a pé ou a cavalo. Explicado isso, vejamos o que sobre o assunto disse Werner Keller:

Hoje há uma pequena ponte sobre o vau. O Jordão é estreito, muito estreito, e sempre apresentou muitos vaus. A população local conhece-os perfeitamente. Próximo de Jericó, as águas sujas de lama amarela durante a seca mal atingem dez metros de largura.

Quando Israel chegou ao Jordão, o rio estava cheio. “Porque o Jordão, sendo tempo de ceifa, inundava as margens do seu leito” (Josué 3.15). Como acontece todos os anos, havia começado o degelo das neves do Hermon. “As águas, que vinham de cima, pararam num só lugar, e levantando-se à maneira de um monte...” - como que se empilharam - “... perto da cidade de Adom... e todo o povo de Israel ia passando pelo leito do rio a pé enxuto” (Josué 3.26 e 17). El Damiyeh, um vau muito usado no curso médio, lembra esse sítio de Adom. Se as águas crescerem subitamente, poderá se formar nesse lugar raso, durante um breve período, uma espécie de açude natural, enquanto o curso inferior se mantém quase inteiramente seco.

Entretanto, o represamento da água do Jordão, que tem sido testemunhado diversas vezes, é devido sobretudo a terremotos. O último dessa espécie aconteceu em 1927. Devido a um violento abalo desmoronaram-se as margens do rio, e grandes massas de terra das pequenas colinas que se erguem ao longo de todo o curso serpeante rolaram para o rio. A água ficou inteiramente represada durante vinte e uma horas. Em 1924, ocorreu a mesma coisa. Em 1906, o Jordão entulhou-se de tal modo devido a um terremoto, que o leito do rio abaixo de Jericó ficou inteiramente seco durante vinte e quatro horas. Narrativas árabes falam de um acontecimento semelhante em 1267 da nossa era. (KELLER, 2000, p. 176-177). (grifo nosso).

Eis as explicações da arqueologia, contra a qual não adiantará protestar. Demonstrado, portanto, o caso como fenômeno de ordem puramente natural, causado por terremotos na região, que fazem com que se deslizem, para o leito do rio Jordão, grande quantidade de terra.

Estamos agora do outro lado do rio, perto de Jericó, quando Josué tem uma grata surpresa:

Josué 5,14: “... Josué levantou os olhos e viu em pé diante de si um homem com a espada desembainhada na mão. Josué se aproximou dele e perguntou: 'És a nosso favor ou a favor dos nossos inimigos?' Ele respondeu: 'Eu sou o chefe do exército de Javé, e acabo de chegar'. Então Josué prostrou-se com o rosto por terra e o adorou...”

Como se diz: gente, com uma ajuda dessa quem não ganharia uma guerra? Veja bem, caro leitor, o próprio “Chefe do Exército de Javé” (nem sabia que existia esse cargo) desce para ajudar o povo hebreu, evidenciando a tomada de partido por Deus, contrariando o fato de que “Deus não faz acepção de pessoas” (Dt 10,17; 2Cr 19,7; At 10,34; 15,9; Rm 2,11; Gl 2,6; 3,8; Ef 6,9; Cl 3,25 e 1Pe 1,17).

Agora sim, estamos diante do dia “D”; leiamos:

Josué 6,1.5: Jericó estava rigorosamente fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía e ninguém entrava. Quando derem um toque prolongado, quando ouvirdes o som da trombeta, todo o povo lançará um grande grito; o muro da cidade virá abaixo, e o povo subirá, cada um à sua frente.

É a única cidade conquistada literalmente no grito, de que temos conhecimento. Vejamos as opiniões dos tradutores bíblicos sobre isso:

O cap. 6 oferece algumas dificuldades quanto à conservação do texto e quanto à critica literária. É, entretanto, evidente que pretende mostrar a coragem dos guerreiros e principalmente o auxilio sobrenatural. As procissões têm uma finalidade religiosa: invocar a ajuda de Deus e implorar a maldição sobre a cidade. É natural que ao mesmo tempo servissem para atemorizar os habitantes de Jericó e para os distrair, enquanto os hebreus preparavam os seus dispositivos para o ataque. De fato, em 24,11 fala-se de combate em Jericó. A narrativa, em estilo épico, não nos permite saber com exatidão como foi tomada a cidade. As repetidas escavações arqueológicas em Jericó não nos dão informações muito precisas quanto ao período a que se refere o texto sagrado, ou seja cerca de 1210 a.C. Recentemente sugere-se a hipótese de um grande túnel aberto pelos hebreus para entrarem na cidade. A poeira levantada pelas procissões não teria permitido aos habitantes que se apercebessem desses trabalhos. Como quer que fosse, a tomada de Jericó foi na mente do autor sagrado um grande milagre de Javé em favor do seu povo. (Santuário, 1984, p. 289). (grifo nosso).

Na origem deste relato há uma tradição do santuário de Guilgal que testemunhava uma liturgia ao redor de Jericó ao som de trombetas, clamores, circum-ambulação durante sete dias. Essa liturgia celebrava a providência de Deus que tinha feito desmoronar a muralha, sinal da invencibilidade das cidades. O relato antigo foi transformado tanto para acentuar seu aspecto litúrgico (arca, sacerdotes), como para dele fazer um relato de guerra sacral (Anátema); não é um relato guerreiro. O texto hebraico é notavelmente mais longo que o da LXX, omite numerosas expressões (entre parêntesis no texto). Mesmo sob sua forma primitiva, o relato não é histórico como relato de conquista, mas testemunha a seu modo a entrada das tribos em Canaã. A primeira cidade encontrada já estava destruída. A arqueologia não fornece nenhuma indicação de uma destruição de Jericó pelo fim do séc. XIII a.C. (Paulus, 2002, p. 319). (grifo nosso).

O relato da tomada de Jericó é uma espécie de modelo da estratégia usada na conquista das cidades-estado de Canaã. Na ocasião da conquista, Jericó não tinha muralhas, e talvez já nem fosse habitada, pois tinha sido destruída fazia dois séculos. Provavelmente, foi nesse lugar que começou a ser celebrada a representação ritual de uma guerra santa com pormenores litúrgicos (arca, procissão, sacerdotes, sete dias, toque de trombeta) e guerreiros (arca, guerreiros, grito de guerra, toque de trombeta). (Paulus, 2001, p. 247). (grifo nosso).

Por ocasião da conquista, Jericó não tinha muralhas e talvez nem fosse habitada, pois já fora destruída há dois séculos. Temos aqui uma comemoração festiva de caráter litúrgico (arca, procissão, sacerdotes, 7 dias, grito, toque de trombeta) e guerreiro (arca, tropas de guerra, grito, toque de trombeta, talvez a representação ritual de uma guerra santa. O tema central é a conquista maravilhosa da cidade: Deus venceu o inimigo para dar a Terra ao seu povo. (Vozes, 1989, p. 241). (grifo nosso).

Chama-nos a atenção o fato de que sabem muito bem que o acontecimento bíblico não ocorreu; mas, mesmo assim, afirma-nos tratar-se de um milagre, como é caso desta tradução, que, em se referindo a passo Js 6,20-21, diz:

A queda dos muros de Jericó não se deveu nem ao grito de guerra, nem ao som das trombetas, e não se pode explicar senão como um milagre. Portanto, toda outra interpretação deve ser rejeitada como falsa e arbitrária (Hebr. 11,30). O autor quer fazer ressaltar a intervenção divina. (Paulinas, 1980, p. 225).

Nem os que professam a mesma religião não se entendem, pois esse último pertence ao mesmo segmento religioso dos outros citados um pouco antes. Mas não vamos deixar os católicos sozinhos, pois, certamente nos acusariam de parcialidade; portanto, vejamos a opinião dos protestantes:

A tentativa de asseverar-se que a queda de Jericó ocorrera devido a qualquer causa que não seja um milagre, é totalmente contrária à natureza deste capítulo. Fala-se de um terremoto, da queda dos muros, de um assalto súbito depois de ter dado aos guardas, sobre os muros, a impressão de que se tratava apenas de procissões religiosas. O que deu força aos invasores foi verificar que Deus estava cumprindo, de maneira bem dramática as Promessas concedidas a Abraão, a Moisés e a Josué. Sem um milagre desta natureza, a poderosa fortaleza nunca cederia perante aquelas tribos do deserto, e os israelitas nunca poderiam ter tomado ânimo para empreender uma conquista, que nem mesmo o império do Egito tinha poder para realizar naquela época. (Vida Nova e SBB, 2005, p. 312). (grifo nosso).

E a arqueologia, o que ela nos diz a respeito disso? É o que veremos agora em duas obras especializadas em assuntos dessa ciência:

Teria ela [Jericó] caído vítima de quaisquer conquistadores, posteriormente integrados ao reservatório humano chamado “Israel” e cujas conquistas acabaram por passar para a Bíblia, conforme o relato bíblico da “tomada da terra”? Se, de fato, somente na época da “tomada da terra”, ou seja, em meados ou fins do século XIII a.C., os israelitas alcançam Jericó, então nem precisavam conquistá-la, pois ela já havia sido abandonada por seus habitantes! (KELLER, 2000, p.180) (grifo nosso).

Jericó estava entre as mais importantes. Como já observamos, as cidades de Canaã não eram fortificadas, e não existiam muralhas que pudessem desmoronar. No caso de Jericó, não havia traços de nenhum povoamento no século XIII a.C., e o antigo povoado, da Idade do Bronze anterior, datando do século XIV a.C., era pequeno e modesto, quase insignificante, e não fortificado. Também não havia nenhum sinal de destruição. Assim, a famosa cena das forças israelitas marchando ao redor da cidade murada com a Arca da Aliança, provocando o desmoronamento das poderosas muralhas pelo clangor estarrecedor de suas trombetas de guerra, era para simplificar, uma miragem romântica. (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 119) (grifo nosso).

Confirma, portanto, o que alguns tradutores já haviam colocado. Mas, se a cidade não era habitada, a narrativa da conquista de Jericó compromete a Bíblia quanto ao seu valor histórico. Pior ainda fica quanto à sua suposta inspiração divina agindo sobre os que a escreveram.

Pelo relato bíblico, depois de incendiarem completamente a cidade, Josué mandou alguns homens até Hai, a fim de espionar a terra. Voltaram dizendo que apenas um dois o três mil homens seriam suficientes para derrotá-la (Js 7,2-3). Entretanto...: “Hai devia estar em ruínas já no tempo de Josué, mas podia servir de refúgio e habitação para algumas pessoas.” (Santuário, 1980, p. 290). O que também pode-se confirmar com: “Hai (nome que significa 'a ruína' é atualmente et-Tell (que em árabe tem o mesmo sentido). O lugar estava em ruínas há muito tempo, na época de Josué, e é difícil atribuir a esta narrativa valor histórico”. (Paulus, 2002, p. 321). Pior ainda se quisermos atribui-lo como algo de inspiração divina.

Conforme sugestão, foram enviados os três mil homens para combater Hai; entretanto, foram derrotados. Josué ficou “possesso”, chegando a questionar Deus de tê-los deixado passar o Jordão para morrer nas mãos dos amorreus. A resposta não tardou, foram acusados por Deus de terem tomado coisas consagradas ao anátema. A questão seguinte seria descobrir-se o culpado disso, que teria como pena ser queimado; para isso lançaram-se as sortes. A maioria das pessoas que lêem a Bíblia não faz a menor idéia do que seja isso; mas é interessante explicar. Os sacerdotes carregavam duas pedras, tidas como sagradas, chamadas de urim e tumim, com as quais faziam as suas consultas à divindade. Feita a pergunta, lançavam-se essas duas pedras e, de acordo com a maneira que caíam, era obtido um sim ou um não, como resposta de Deus. Simplesmente, um verdadeiro “cara ou coroa”. Diante desse processo o culpado foi identificado como Acã, filho de Zara. Esse pobre coitado, juntamente com toda a sua família, foi queimado no fogo. Dessa forma, Israel reconciliou-se com Deus, aplacando a Sua ira.

Em Josué 8,1-29 trata exatamente da conquista de Hai; entretanto, como acabamos por adiantar, a coisa não ocorreu bem assim; vejamos o que nos explicam os tradutores bíblicos:

Como Jericó, Hai já estava em ruínas no tempo da conquista. Provavelmente, a narrativa visa mostrar outra estratégia de guerra usada contra as cidades-estado de Canaã. O comando de Javé não dispensa a prudência e o emprego de estratégias no momento oportuno. (Paulus, 2001, p. 249). (grifo nosso).

Hai, como Jericó, não era habitada por ocasião da conquista. O episódio assemelha-se a Jz 20,14-48; é possível que um episódio a famoso de conquista, do tipo estratagema, foi pouco a pouco localizado, graças ao nome sugestivo do lugar ('Ay, em hebraico, significa ruina, cf. v. 28). (Vozes, 1989, p. 243). (grifo nosso).

Ainda bem, pois seria mais uma carnificina onde passaram a fio de espada todos os habitantes de Hai; ao total doze mil pessoas, entre homens e mulheres (Js 8,24-25), sendo que o rei foi enforcado (Js 8,29).

Espalhado o terror pela região, não restou alternativa aos reis da Cisjordânia senão se unirem para combater os hebreus. Os gabaonitas tentaram uma aliança com os hebreus; entretanto, foram transformados em escravos, é o que consta no capítulo nove, fato que provocou a união dos cinco reis amorreus – os reis de Jerusalém, de Hebron, de Jarmut, de Laquis e de Eglon – que marcharam contra Gabaon, afim de a atacarem. Nessa situação drástica os gabaonitas recorreram a Josué, que marchou contra eles. Neste ponto, para garantir aos hebreus a vitória, acontece mais um extraordinário fenômeno:

Js 10,13-14: “E o sol se deteve e a lua ficou parada, até que o povo se vingou dos inimigos. No Livro do Justo está escrito assim: 'O sol ficou parado no meio do céu e um dia inteiro ficou sem ocaso. Nem antes, nem depois houve um dia como esse, quando Javé obedeceu à voz de um homem. É porque Javé lutava a favor de Israel'”.

Eis aí a prova de que consideravam a Terra como o centro do Universo. Entretanto, o que não sabiam era que o Sol não para, porém, mesmo que parasse não aumenta o dia em um minuto sequer, pois o que faz o ciclo “dia e noite” é a Terra girar em torno do seu próprio eixo. Fato desconcertante para quem acredita piamente em tudo que está escrito na Bíblia. Deus, o supremo criador do cosmo infinito, que estabeleceu todas as leis, que fazem esse maravilhoso mecanismo girar, não sabia desse pequeno detalhe.

Na seqüência do livro de Josué só vemos os hebreus matando: homens, mulheres e crianças, dominando toda a região. Disso resultou na morte de trinta e um reis, que, juntos com os seus respectivos povos, foram passados a fio de espada; somente se salvaram os gabaonitas; mas foram submetidos à escravidão.

Assim, temos a descrição da empreitada de conquista pelos hebreus, da terra prometida, que se tem como sendo “desse modo, Javé deu a Israel toda a terra que jurara dar a seus antepassados. Eles tomaram posse e nela se estabeleceram” (Js 21,43). Sei que é estranho, mas foi o próprio Javé quem disse aos hebreus: “Eu dei a vocês uma terra que não lhes custou nada,...” (Js 24,13). Absurdo pagamento de promessa: manda matar todos os povos de uma região para entregá-la aos hebreus como cumprimento de uma promessa feita; nem um ser humano faria uma coisa dessa... Será que as vidas das pessoas não valiam nada?

Quanto mais estudamos a Bíblia, maior fica a nossa convicção que ela não pode, sem prejuízo de amesquinhar a Deus, ser a Sua palavra. Só mesmo por fanatismo não se enxerga isso. Diria Jesus: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo!” (Lc 23,34).


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Maio/2008.

Referências bibliográficas:

Bíblia Sagrada, 37ª edição. São Paulo: Paulinas, 1980.

Bíblia Sagrada, 5ª edição. Aparecida – SP: Santuário, 1984.

Bíblia Sagrada, 43ª impressão. São Paulo: Paulus, 2001.

Bíblia Sagrada, 8ª edição. Petrópolis – RJ: Vozes, 1989.

Bíblia de Jerusalém, nova edição. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia Shedd, 6ª edição. São Paulo: Vida Nova; Brasília: SBB, 2005.

KELLER, W. e a Bíblia tinha razão... São Paulo: Melhoramentos, 2000.

FINKELSTEIN, I. e SILBERMAN, N. A. A Bíblia não tinha razão, São Paulo: Girafa, 2003


endereço: http://www.apologiaespirita.org/

imagem: passandoaregua.wordpress.com

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