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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

OS TEXTOS ORIGINAIS NA BÍBLIA


Paulo da Silva Neto Sobrinho

A quem está escutando as palavras da profecia deste livro, eu declaro: "Se alguém acrescentar qualquer coisa a este livro, Deus vai acrescentar a essa pessoa as pragas que aqui estão descritas. E se alguém tirar alguma coisa das palavras do livro desta profecia, Deus vai retirar dessa pessoa a sua parte na árvore da Vida e na Cidade Santa, que estão descritas neste livro." (Ap 22, 18-19)

Cansados de tanto ouvir de inúmeros fundamentalistas e de vários tradutores das bíblias a expressão de que ela é conforme os originais, procurarmos fazer um breve levantamento para contestar sua veracidade e provar que a mentira anda a solta por aí.

Vejamos a pesquisa que fizemos nas onze Bíblias de nossa biblioteca, das quais anotamos algumas passagens que escolhemos como a prova do crime:

Ave Maria

Lv 19, 31: Não vos dirijais aos espíritas nem adivinhos: não os consulteis,...

Lv 20, 6: Se alguém se dirigir aos espíritas ou aos adivinhos para fornicar com eles,...

Lv 20, 27: Qualquer homem ou mulher que evocar os espíritos ou fizer adivinhações, será morto....

Dt 18, 10-11: Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à evocação dos mortos.

Is 8, 19: Se vos disserem: Consultai os espíritos dos mortos, os adivinhos, os que conhecem segredos e dizem em voz baixa: Porventura um povo não deve consultar os seus deuses? Consultar os mortos a favor dos vivos? Em nota: seus deuses: os espíritos dos antepassados.

1 Sm 28, 3.7.8: ... E Saul expulsara da terra os necromantes, os feiticeiros e adivinhos... “Procurai-me uma necromante para que eu a consulte”... “Predize-me o futuro, evocando um morto; faze-me vir aquele que eu te designar”. (1 Sm 28, 3.7.8)

Como aparece a palavra necromante é porque tiveram informação da realidade, assim quando colocam espiritismo ou espírita, é porque querem atingir aos adeptos da Doutrina Espírita.

Barsa

Lv 19,31: Não vos dirijais aos mágicos, nem consulteis os adivinhos,...

Lv 20,6Se algum homem declinar para os mágicos, e adivinhos, e se der a eles por uma espécie de fornicação;...

Lv 20,27: Se qualquer homem, ou mulher tem espírito de Píton, ou espírito de adivinho, sejam punidos de morte...

Dt 18, 10-11: nem se ache entre vós quem pretenda purificar seu filho, ou filha, fazendo-os passar pelo fogo: nem quem consulte adivinhos, ou observe sonhos e agouros, nem quem seja feiticeiro, ou encantador, nem quem consulte Píton ou adivinhos, nem quem indague dos mortos a verdade.

Is 8,19: E quando vos disserem: Consultai os pitões, e os adivinhos, que murmuram em segredo em seus encantamentos: Acaso não consultará o povo ao seu Deus, há de ir falar com os mortos acerca dos vivos?

1 Sm 28, 3.7.8: ...E Saul tinha lançado fora da terra os mágicos, e adivinhos.... “Buscai-me uma mulher que tenha o espírito de Píton, e eu irei ter com ela, e a consultarei”... “Adivinha-me pelo espírito de Píton, e faze-me aparecer quem eu te disser”.

Aqui não vemos nenhum termo sendo usado para condenar o Espiritismo, o único detalhe fica por conta de ser uma Bíblia mais antiga, em geral menos preconceituosa que as atuais. Seria um sinal que antigamente “a palavra de Deus” tinha preocupações diferentes das que encontramos nas Bíblia atuais?

Bíblia de Jerusalém

Lv 19,31: Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis os adivinhos...

Lv 20,6 ; Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para se prostituir com eles, ...

Lv 20,27: O homem ou a mulher que, entre vós, forem necromantes ou adivinhos serão mortos...

Dt 18, 10-11: Que em teu meio não se encontre alguém que queime seu filho ou sua filha, nem faça presságio, oráculo, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos,que interrogue espíritos ou adivinhos, ou ainda que invoque os mortos;

Is 8,19: Se vos disserem: “Ide consultar os espíritos e os adivinhos, cochichadores e balbuciadores”, não consultará o povo os seus deuses, e os mortos a favor dos vivos?

1 Sm 28, 3.7.8: ... Saul havia expulsado da terra os necromantes e os adivinhos... “Buscai-me uma mulher que pratique a adivinhação para que eu lhe fale e a consulte”... “Peço-te que pratiques para mim a adivinhação, evocando para mim quem eu te disser”.

Embora a maioria dos textos deva ser fiel aos originais, já que naquela época as práticas eram essas, ainda assim colocam em Deuteronômio e em Isaías alguma coisa que, não obstante de forma velada, atinge ao Espiritismo. Um detalhe importante dessa tradução é que ela contou entre uma equipe de tradutores católicos e protestantes.

Bíblia do Peregrino

Lv 19,31: Não consulteis necromantes nem adivinhos...

Lv 20,6: Se alguém consultar necromantes e adivinhos para se prostituir com eles,...

Lv 20,27: O homem ou a mulher que praticar a necromancia ou a adivinhação,é réu de morte...

Dt 18, 10-11: Não haja entre os teus quem queime seus filhos ou filhas, nem adivinhos, nem astrólogos, nem agoureiros, nem feiticeiros, nem encantadores, nem espiritistas, nem adivinhos, nem necromantes.

Is 8,19: Certamente vos dirão: Consultai os espíritos e adivinhos, que sussurram e cochicham: um povo não consulta seus deuses e os mortos a respeito dos vivos, em busca de instruções seguras?

1 Sm 28, 3.7.8: ... Por outra parte, Saul havia desterrado necromantes e adivinhos... Procurai-me uma necromante para que a consulte... Adivinha para mim o futuro, evocando os mortos, e faze que me apareça quem eu te disser.

A única vacilada ficou por conta do Deuteronômio, cujo termo é diretamente usado contra o Espiritismo. Em relação a Isaias aparece, mas de forma indireta, como em outras também fizeram.

Mundo Cristão

Lv 19,31: Não vos voltareis para os necromantes, nem para os adivinhos; ...

Lv 20,6: Quando alguém se virar para os necromantes e feiticeiros para se prostituir com eles, ...

Lv 20,27: O homem ou mulher que sejam necromantes, ou sejam feiticeiros, serão mortos: ...

Dt 18, 10-11: Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador,nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos;

Is 8,19: Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos?

1 Sm 28, 3.7.8: ... Saul havia desterrado os médiuns e adivinhos... “Apontai-me uma mulher que seja médium, para que me encontre com ela e a consulte...” “Peço-te que me adivinhes pela necromancia, e me faças subir aquele que eu te disser”.

Apesar de saberem exatamente o que significa a necromancia, ainda assim colocam termos diretos contra o Espiritismo, principalmente na passagem onde Saul faz a consulta ao espírito-Samuel.

Novo Mundo

Lv 19,31: Não vos vireis para médiuns espíritas e não consulteis prognosticadores profissionais de eventos,...

Lv 20,6: Quanto à alma que se vira para os médiuns espíritas e para os prognosticadores profissionais de eventos, ...

Lv 20,27: E quanto ao homem ou à mulher em que se mostre haver um espírito mediúnico ou um espírito de predição, sem falta devem ser mortos!...

Dt 18, 10-11: Não se faça achar em ti alguém que faça seu filho ou sua filha passar pelo fogo, alguém que empregue adivinhação, algum praticante de magia ou quem procure presságios, ou um feiticeiro, ou alguém que prenda outros com encantamentos, ou alguém que vá consultar um médium espírita, ou um prognosticador profissional de eventos, ou alguém que consulte os mortos.

Is 8,19: E caso vos digam: Recorrei aos médiuns espíritas ou aos que têm espírito de predição, que chilram e fazem pronunciações em voz baixa, não é a seu Deus que qualquer poso devia recorrer? [Acaso se deve recorrer] a pessoas mortas a favor de pessoas vivas?

1 Sm 28, 3.7.8: ... Quanto a Saul, tinha removido do país os médiuns espíritas e os prognosticadores profissionais de eventos... “Procurai-me uma mulher que seja dona de mediunidade espírita, e eu irei ter com ela e a consultarei....” “Por favor, use de adivinhação para mim por meio da mediunidade espírita e faze-me subir aquele que eu te indicar”.

Essa tradução é a pior de todas, pois em todos os textos há termos claros contra o Espiritismo, provando claramente a intenção de se fazer isso.

Tanto esta última tradução quanto a anterior são provenientes do protestantismo, daí se justifica porque eles, mais que os católicos, são contrários às práticas espíritas. Inclusive é onde o radicalismo impera com maior vigor.

Pastoral

Lv 19,31: Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos,...

Lv 20,6: Quem recorrer aos necromantes e adivinhos, para se prostituir com eles,...

Lv 20,27: O homem ou mulher que pratica a necromancia ou adivinhação, é réu de morte...

Dt 18, 10-11: Não haja em teu meio alguém que queime seu filho ou filha, nem que faça presságio, pratique astrologia, adivinhação ou magia, nem que pratique encantamentos,consulte espíritos ou adivinhos, ou também que invoque os mortos.

Is 8,19: Quando disserem a vocês: “Consultem os espíritos e adivinhos, que sussurram e murmuram fórmulas; por acaso, um povo não deve consultar seus deuses e consultar os mortos em favor dos vivos?”

1 Sm 28, 3.7.8: ... De outro lado, Saul tinha expulsado do país os necromantes e adivinhos. Então Saul disse a seus servos: “Procurem uma necromante, para que eu faça uma consulta”. ... “Quero que você me adivinhe o futuro, evocando os mortos. Faça aparecer a pessoa que eu lhe disser”.

A não ser o “consultar os espíritos” nada de mais grave é colocado, apesar, de que, como em outras traduções, demonstram ter conhecimento do termo correto que verdadeiramente deveria ser o empregado.

Paulinas

Lv 19,31: Não vos dirijais aos magos nem interrogueis os adivinhos,...

Lv 20,6: A pessoa que se dirigir a magos e adivinhos e fornicar com eles,...

Lv 20,27: O homem ou mulher em que houver espírito pitônico ou de adivinho, sejam punidos de morte...

Dt 18, 10-11: Não se ache entre vós quem purifique seu filho ou sua filha, fazendo-os passar pelo fogo, nem quem consulte adivinhos ou observe sonhos e agouros, nem quem use malefícios, nem quem seja encantador, nem quem consulte aos nigromantes, ou adivinhos, ou indague dos mortos a verdade.

Is 8,19: E, quando vos disserem: Consultai os magos e os adivinhos, que murmuram em segredo nos seus encantamentos, (respondei): Porventura o povo não há de consultar o seu Deus? Há de ir falar com os mortos acerca dos vivos?

1 Sm 28, 3.7.8: ...Saul tinha lançado fora do país os magos e adivinhos.... “Buscai-me uma mulher necromante, e eu irei ter com ela e a consultarei...” “Adivinha-me pelo espírito de necromante e faze-me aparecer quem eu te disser”.

Essa é a única que não traz nada contra o Espiritismo. A ressalva que fazemos é apenas em relação à expressão “indague dos mortos a verdade”, pois é totalmente divergente em relação às outras traduções.

Santuário

Lv 19,31: Não recorrais às evocações e aos sortilégios:..

Lv 20,6: Se alguém recorrer às invocações e aos sortilégios, entregando-se a essas práticas,...

Lv 20,27: O homem ou a mulher que se entregar a evocação ou sortilégio será condenado à morte;...

Dt 18, 10-11: Não haja ninguém no meio de ti que faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê à pratica de encantamento, ou se entregue à augúrios, à adivinhação ou à magia, ao feiticismo, ao espiritismo, aos sortilégios ou à evocação dos mortos.

Is 8,19: Hão de dizer-vos: consultai os espíritos e os adivinhos que murmuram e segredam. Porventura o povo não deve consultar os seus deuses e consultar os mortos acerca dos vivos para obter uma revelação e um testemunho?

1 Sm 28, 3.7.8: ... Saul tinha expulsado do país os feiticeiros e os adivinhos.... “Buscai-me uma necromante para que eu a consulte...” “Predize-me o futuro, evocando um morto, e faze-me aparecer quem eu te designar”.

A correlação ao que presumem ser o Espiritismo é clara, já que, como a maioria das pessoas, são ignorantes em relação a seus fundamentos e práticas, pressupõem que seja algo relacionado a evocação dos mortos, daí ser essa a característica predominante nessa tradução, que também não deixa de citar nominalmente o Espiritismo.

SBB

Lv 19,31: Não vos virareis para os adivinhos e encantadores; ...

Lv 20,6: Quando uma alma se virar para os adivinhadores e encantadores, para se prostituir após deles, ....

Lv 20,27: Quando pois algum homem ou mulher em si tiver um espírito de adivinho, ou for encantador, certamente morrerão:...

Dt 18, 10-11: Entre ti não achará quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador de encantamentos, nem quem consulte um espírito adivinhante, nem mágico, nem quem consulte os mortos;

Is 8,19: Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; - não recorrerá um povo ao seu Deus? a favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos?

1 Sm 28, 3.7.8: ... e Saul tinha desterrado os adivinhos e encantadores... “Buscai-me uma mulher que tenha o espírito de feiticeira, para que vá a ela e a consulte...” “Peço-te que me adivinhes pelo espírito de feiticeira, e me faças subir a quem eu te disser”.

Poderia passar despercebido se não tivesse o “consulte os mortos”, entretanto, está, como se diz popularmente, menos pior do que outras. Mais uma tradução protestante, disso poderá acertadamente concluir, caro leitor, que todas as outras são de origem católica, exceto a que já dissemos que a tradução foi feita por tradutores dessas duas correntes religiosas.

Vozes

Lv 19,31: Não recorrais aos médiuns, nem consulteis os espíritos...

Lv 20,6: Se alguém recorrer aos médiuns e adivinhos, prostituindo-se com eles,...

Lv 20,27: O homem ou a mulher que se tornar médium ou adivinho, serão mortos por apedrejamento...

Dt 18, 10-11: Não haja em teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem quem se dê à adivinhação, nem haja astrólogo nem macumbeiro nem feiticeiro; nem quem se dê à magia, consulte médiuns, interrogue espíritos ou evoque os mortos.

Is 8,19: Se vos disserem: “Consultai os necromantes e os adivinhos que sussurram e murmuram”; acaso não consultará um povo os seus deuses, os mortos em favor dos vivos?

1 Sm 28, 3.7.8: ...Saul tinha eliminado do país os necromantes e os adivinhos... “Procurai-me uma mulher entendida em evocar os mortos, pois quero ir a ela e consultá-la”... “Por favor, adivinha para mim por meio da necromancia e evoca-me aquele que eu te disser!”.

Mais uma tradução direcionada que usa termo próprio dos espíritas, numa evidente tentativa de relacioná-lo a algo condenável por Deus.

Para que você, caro leitor, possa fazer uma comparação é importante transcrevermos esses textos citados numa tradução feita diretamente dos textos hebraicos pelo escritor Severino Celestino. Vejamos:

Livro: Analisando as Traduções Bíblicas

Lv 19,31: Não ireis diante dos necromantes nem dos adivinhos. Não procureis vos contaminar com eles...

Lv 20, 6: O ser que vai diante dos necromantes e dos adivinhos para se prostituir atrás deles eu dou as minas faces contra esse ser, eu o corto do seio de seu povo.

Lv 20, 27: E o homem ou mulher em que está um necromante ou um adivinho, será condenado à morte;...

Dt 18,9-11: Não se achará em ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem adivinhador, nem feiticeiro, nem agoureiro, nem cartomante, nem bruxo, nem mago, nem quem consulte o necromante e o adivinho, nem quem exija a presença dos “mortos”.

Is 8,19: E se vos disserem consulte ou exija a presença dos antepassados ou dos patriarcas e dos adivinhos, cochichadores e balbuciadores. Por acaso o povo não poderá exigir a presença dos seus deuses? Consultar os mortos a em favor dos vivos?

Embora todos os tradutores digam que seus textos guardam fidelidade aos textos originais, percebemos claramente que só se for naquilo que lhes interessam, pois, como provamos acima, existem passagens que contêm termos que são colocados propositalmente para atingir uma outra corrente filosófico-religiosa, qual seja o Espiritismo, que, por questão de ética, não segue o mesmo comportamento utilizado por eles.

Quem sabe que se esses tradutores se esqueceram que os termos médium, espirita, espiritista e Espiritismo foram neologismos criados por Kardec em 18 de abril de 1857, quando da publicação de “O Livro dos Espíritos”, conforme ele mesmo diz na introdução desse livro. Ora, se encontramos tais termos em trechos bíblicos só há uma explicação para esse fato:vergonhosa adulteração para combater o Espiritismo, qualquer pessoa sensata verá isso, comportamento que não esperamos dos fundamentalistas.

Observar que, a bem da verdade, qualquer palavra que fosse usada deveriam estar relacionada à necromancia, que é a evocação dos mortos para fins de adivinhação, coisa que nada tem a ver com o Espiritismo, sabem muito bem disso, entretanto no combate usam de armas sutis, já que dificilmente o crente deixará de acreditar no que “está escrito” ou na palavra deles, para perceber que a verdade é bem diversa daquilo que colocam.

Nov/2004.

Referências bibliográficas:

  • SILVA, S.C, Analisando as Traduções Bíblicas. João Pessoa-PB: Idéia, 2001.
  • A Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
  • Bíblia Sagrada. 68ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1989.
  • Bíblia Sagrada, Edição Barsa. Rio de Janeiro: Catholic Press, 1965.
  • Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. 43ª imp. São Paulo: Paulus, 2001.
  • Bíblia Sagrada, 37a. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.
  • Bíblia Sagrada, 5ª ed. Aparecida-SP: Santuário, 1984.
  • Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1989.
  • Bíblia de Jerusalém, nova edição. São Paulo: Paulus, 2002.
  • Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2002.
  • Bíblia Sagrada, Sociedade Bíblica do Brasil, Brasília, DF, 1969.
  • Escrituras Sagradas, Tradução do Novo Mundo das. Cesário Lange, SP: STVBT, 1986.


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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A MULHER NA BÍBLIA


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Para os que lêem a Bíblia, sem nenhum espírito pré-concebido e, principalmente, sem se apegar aos dogmas teológicos do passado, verá que nela a figura da mulher é sempre de inferioridade em relação ao homem. É óbvio que debitamos isso aos homens, portanto nada de ser a vontade de Deus.

Por ser, naquele tempo, uma sociedade extremamente machista, ou ao menos muito mais que a atual, a mulher está retratada, no Livro Sagrado, sempre como uma personagem inexpressiva. Refletindo, pois, a nosso ver, e até que nos provem o contrário, apenas a fatores culturais de um povo, ou talvez até mesmo de toda uma época, onde o machismo era o fator que preponderava nas relações entre homens e mulheres.

Fizemos uma pesquisa, e, por ela, chegamos à conclusão que a Bíblia é um livro no qual o machismo é colocado de forma bem evidente. Causa-nos estranheza é o comportamento da mulher, pois apesar disso é ela quem mais se apega a esse livro.

Vejamos então os seguintes questionamentos: Quem foi criado em primeiro lugar, o homem ou a mulher? A mulher sendo tirada da costela do homem não induz a pensarmos (ou, quem sabe, é o que querem que pensemos) que a mulher estaria em condições de inferioridade em relação ao homem? A quem normalmente se atribui a “culpa” pelo pecado “original”, ao homem ou à mulher? Todas as genealogias constantes da Bíblia são feitas em relação aos homens ou em relação às mulheres? A maioria dos personagens em destaque na Bíblia são homens ou mulheres? Entre os 12 discípulos de Jesus tinha algum que não era homem?

Para confirmar o que estamos dizendo, vejamos, nas passagens bíblicas a seguir, alguns exemplos que nos comprovam o evidente machismo impregnado nela:

Deuteronômio 5, 21: Não cobice a mulher do próximo. (mandamento para os homens).

Deuteronômio 22, 13-15: Se um homem se casa com uma mulher e começa a detestá-la depois de ter tido relações com ela, acusando-a de atos vergonhosos e difamando-a publicamente, dizendo: ‘Casei-me com esta mulher mas, quando me aproximei dela, descobri que não era virgem, o pai e a mãe da jovem pegarão a prova da virgindade dela e levarão a prova aos anciãos da cidade para que julguem o caso.

Deuteronômio 24, 1: Quando um homem se casa com uma mulher e consuma o matrimônio, se depois ele não gostar mais dela, por ter visto nela alguma coisa inconveniente, escreva para ela um documento de divórcio e o entregue a ela, deixando-a sair de casa em liberdade.

Eclesiastes 7, 26: Então descobri que a mulher é mais amarga do que a morte, porque ela é uma armadilha, o seu coração é uma rede e os seus braços são cadeias. Quem agrada a Deus consegue dela escapar, mas o pecador se deixa prender por ela.

Eclesiástico 7, 25: Arrume casamento para sua filha, e terá realizado uma grande tarefa, mas faça que ela se casa com homem sensato.

Eclesiástico 9, 2: Não se entregue a uma mulher, para que ela não o domine.

Eclesiástico 25, 24: Foi pela mulher que começou o pecado, e é por culpa dela que todos morremos.

Eclesiástico 42, 14: É melhor a maldade do homem do que a bondade da mulher: a mulher cobre de vergonha e chega a expor ao insulto.

E para que não fiquemos somente no Antigo Testamento, já que alguém pode alegar que isso é coisa do “Velho”, vejamos também no Novo:

1 Coríntios 11, 7-9: O homem não deve cobrir a cabeça, porque ele é a imagem e o reflexo de Deus, a mulher, no entanto, é o reflexo do homem. Porque o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem. Nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem.

1 Coríntios 14, 34-35: Que as mulheres fiquem caladas nas assembléias, como se faz em todas as igrejas dos cristãos, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar submissas, como diz também a lei. Se desejam instruir-se sobre algum ponto, perguntem aos maridos em casa; não é conveniente que a mulher fale nas assembléias.

Colossenses 3, 18: Mulheres, sejam submissas a seus maridos, pois assim convém a mulheres cristãs.

1 Timóteo 2, 9-14: Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes e se enfeitem com pudor e modéstia. Não usem tranças, nem objetos de ouro, pérolas ou vestuário suntuoso; pelo contrário, enfeitem-se com boas obras, como convém a mulheres que dizem ser piedosas. Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com toda a submissão. Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Portanto, que ela conserve o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, pecou. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na santidade.

Todos nós conhecemos aquela passagem em que os escribas e fariseus apresentando a Jesus uma mulher surpreendida em adultério perguntaram-Lhe se deveriam cumprir a Lei de Moisés que exigia o apedrejamento dela. É bom que ressaltemos que se trata realmente de uma Lei de Moisés, pois se fosse Lei de Deus todos os que se dizem seguidores da Bíblia ou os que acham ser ela de capa a capa a palavra de Deus a cumpririam, não é mesmo? Como não vemos, nos dias de hoje, ninguém matando homens ou mulheres que cometeram adultério, fica evidente não se tratar mesmo de uma Lei Divina. Mas, chamamos a sua atenção ao que consta dessa Lei: estabelecia que tanto o adúltero quanto a adúltera deveriam ser punidos com a morte (Levítico 20, 10). Perguntamos, então, aonde foi parar o adúltero? Temos que convir que uma mulher não tem como adulterar sozinha já que, para isso, é necessário um homem. É a velha questão, numa sociedade machista em que também os homens é que julgavam, será que iriam condenar um homem adúltero? Achamos muito difícil. Assim, a pena cabia apenas às pobres mulheres que cometessem tal delito, contrariando, portanto, o que consta na Bíblia.

E, para que você, caro leitor, possa ter uma visão do que a Doutrina Espírita diz sobre a mulher, colocaremos algumas questões de “O Livro dos Espíritos”, cujas respostas foram dadas pelos Espíritos Superiores a Kardec. São elas:

202 – Quando se é Espírito, prefere-se encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher?

- Isso pouco importa ao Espírito; ele escolhe segundo as provas que deve suportar.

Os Espíritos se encarnam homens ou mulheres porque eles não têm sexos. Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhe oferece provas e deveres especiais, além da oportunidade de adquirir experiência. Aquele que fosse sempre homem não saberia senão o que sabem os homens.

817 – Diante de Deus, o homem e a mulher são iguais e têm os mesmos direitos?

- Deus não deu a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir?

818 – De onde se origina a inferioridade moral da mulher em certos países?

- Do império injusto e cruel que o homem tomou sobre ela. É um resultado das instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza. Entre os homens pouco avançados do ponto de vista moral, a força faz o direito.

819 – Com que objetivo a mulher é fisicamente mais fraca que o homem?

- Para lhe assinalar funções particulares. O homem é para os trabalhos rudes, por ser o mais forte; a mulher para os trabalhos suaves, e ambos para se entreajudarem nas provas de uma vida plena de amargura.

820 – A fraqueza física da mulher não a coloca naturalmente sob a dependência do homem?

- Deus deu a uns a força para proteger o fraco, e não para se servir dele.

Deus conformou a organização de cada ser às funções que deve cumprir. Se deu à mulher uma força física menor, dotou-a, ao mesmo tempo, de maior sensibilidade, relacionada com a delicadeza das funções maternais e a fraqueza dos seres confiados aos seus cuidados.

821 – As funções para as quais a mulher está destinada pela Natureza, têm uma importância tão grande quanto às dos homens?

- Sim, e maiores; é ela que lhe dá as primeiras noções da vida.

822 – Os homens, sendo iguais diante da lei de Deus, devem sê-lo, igualmente, diante da lei dos homens?

- É o primeiro princípio de justiça: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem.

- Segundo isso, uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade dos direitos entre o homem e a mulher?

- De direitos, sim: de funções não. É preciso que cada um esteja colocado no seu lugar. Que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior, cada um segundo a sua aptidão. A lei humana, para ser eqüitativa, deve consagrar a igualdade dos direitos entre o homem e a mulher, pois todo privilégio concedido a um, ou a outro, é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o progresso da civilização, sua subjugação caminha com a barbárie. Os sexos, aliás, não existem senão pela organização física, visto que os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferença entre eles sob esse aspecto, e, por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos.

A Filosofia Espírita nos deixa bem claro que a condição de se ser mulher não indica que o homem deve subjugá-la, quer física ou moralmente, já que ambos possuem os mesmos direitos, apenas são diferentes as suas funções, que estão intimamente relacionadas à natureza da organização física de cada um.

Mas, é bem interessante que, muito antes de qualquer tipo de movimento pela emancipação da mulher sair a “campo” para lutar pela sua igualdade com o homem, o Espiritismo tratava desta questão de forma clara e objetiva, dizendo sobre a igualdade entre ambos, como fruto das orientações dos Espíritos Superiores. Se a própria sociedade como um todo vem pregando isso, temos um questionamento aos que dizem coisas sobre o Espiritismo que ele não é, qual seja: Será que todos os Espíritos que se manifestam nas Casas Espíritas são mesmo demônios como sempre apregoam determinadas correntes religiosas? Se o são, temos que convir, que devem ter se tornado bonzinhos, pelo menos os “demônios” que se manifestam nos dias de hoje, pois aconselham exatamente o que a própria sociedade vem fazendo e, diga-se de passagem, todos concordamos que isso representa mesmo uma evolução dessa sociedade, ou seja, a igualdade entre todos, até mesmo entre homens e mulheres.

Out/2002.

(Publicado na Revista Universo Espírita, nº 01, junho/2003, Ed. Universo.)


Bibliografia

  • A Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, SP, 43ª Edição, 2001.
  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, IDE, Araras, SP, 37ª Edição, 1987.


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quinta-feira, 30 de junho de 2011

COMUNICAÇÃO COM OS MORTOS: FATOS ESCONDIDOS NAS TRADUÇÕES E EXEGESES BÍBLICAS


Estávamos lendo o livro “Os 3 caminhos de Hécate”, do escritor espírita J. Herculano Pires (1914-1979), que falando das manifestações de espíritos na Bíblia, cita, entre outros, os seguintes passos: “Em Provérbios, 31:1-9, o espírito da mãe de Lamuel aparece-lhe para lhe transmitir conselhos. Em Juízes, 13, um espírito aparece a Manué e sua mulher” (p. 113). Bem curioso e até ansioso pela nova informação, fomos imediatamente conferi-la. E foi aí que vimos a verdade dos fatos que fazem de tudo para esconder.

Vejamos o passo Pr 31,1-9, do qual colocaremos apenas o versículo 1, já que é ele o que nos interessa:

Bíblia de Jerusalém: Palavras de Lamuel, rei de Massa, as quais lhe ensinou sua mãe. [...]

(Textos com mesmo sentido ao citado: Bíblia do Peregrino; Bíblia Sagrada – Santuário; Bíblia Sagrada – Vozes; Bíblia Sagrada – Ave Maria; Bíblia Shedd, Bíblia Sagrada - Pastoral e Bíblia Anotada – Mundo Cristão)

Bíblia Sagrada - Barsa: Palavras do rei Lamuel. Visão, pela qual o instruiu sua mãe. […]

(Texto com mesmo sentido ao citado: Bíblia Sagrada – Paulinas).

Novo Mundo: Palavras de Lemuel, o rei, a mensagem ponderosa que sua mãe lhe deu em correção: [...]

Bíblia Sagrada – SBB: Palavras do rei Lemuel: a profecia que lhe ensinou sua mãe. [...]

Infelizmente, percebemos que, na maioria das traduções bíblicas citadas, a passagem foi modificada (se o certo não for dizer adulterada ou corrompida) para não deixar transparecer a realidade de que essas instruções, que Lamuel (ou Lemuel) recebe de sua mãe; e pela sua redação a impressão que se tem é que elas foram recebidas de uma morta, ou seja, a mensagem foi transmitida pelo espírito de sua mãe. Apenas na narrativa de três delas podemos fazer uma análise e chegar a conclusão que se trata mesmo de uma aparição, oportunidade em que o espírito transmitiu a sua mensagem.

Visão em êxtase ou noturna, são os dois tipos de visões que aparecem na Bíblia. Fora as que se relacionam a eventos futuros, geralmente, são protagonizadas por seres espirituais. Algumas passagens do Antigo Testamento, inclusive, relatam pessoas tendo visões do Espírito de Deus, como se isso fosse um fato possível a um ser humano. E aí nos surge um questionamento: Por que Ele não aparece mais a ninguém nos dias de hoje?

Muitos dos antigos profetas eram videntes (1Sm 9,9), como, por exemplo, Samuel e Ido, citados com tal faculdade; certamente que tinham visões dos espíritos. Pedro, Tiago e João viram os espíritos Moisés e Elias conversando com Jesus (Mt 17,1-9). Zacarias vê o anjo Gabriel (Lc 1,19), que também foi visto por Daniel que disse ser ele um homem (Dn 9,21).

Uma outra visão bem interessante é a de Paulo que vê um macedônio, que lhe suplicava ir à sua cidade (At 16,9); o fato é que no passo não se dá para concluir se esse macedônio era vivo ou morto. Não estranhe, caro leitor, os vivos também podem se manifestar, pelo fenômeno da emancipação da alma - na linguagem bíblica eles são tidos como “arrebatamentos em espírito”.

Leiamos, agora, a segunda passagem:

Jz 13,2-25: Havia um homem de Saraá, do clã de Dã, que se chamava Manué. Sua mulher era estéril e não tinha filhos. O anjo de Javé apareceu à mulher e lhe disse: "Você é estéril e não tem filhos, mas ficará grávida e dará à luz um filho...” A mulher foi falar assim ao marido: "Um homem de Deus veio me visitar. Pela sua aparência majestosa, parecia um anjo de Deus…". Então Manué rezou a Javé: "Eu te peço, Senhor: que o homem de Deus que enviaste, volte e nos diga o que devemos fazer com o menino, quando ele nascer". Deus ouviu a oração de Manué, e o anjo de Deus apareceu outra vez à mulher, quando ela estava no campo. Seu marido Manué não estava com ela. A mulher foi correndo avisar o marido: "O homem que me visitou outro dia, voltou". Manué seguiu a mulher e foi perguntar ao homem: "Foi você quem falou com esta mulher?" Ele respondeu: "Sim. Fui eu mesmo". Manué disse: "Quando se realizar a sua palavra, como será o comportamento do menino? O que é que ele deve fazer?" O anjo de Javé respondeu a Manué: "A mulher não poderá fazer nada daquilo que lhe foi proibido:...". Manué disse ao anjo de Javé: "Fique conosco, que vamos preparar um cabrito para você". O anjo de Javé respondeu a Manué: "Mesmo que eu fique, não provarei a sua comida. Mas, se você quiser, prepare um holocausto e ofereça a Javé". Manué não tinha percebido que esse homem era o anjo de Javé. E Manué perguntou: "Qual é o seu nome, para que possamos agradecer a você, quando suas palavras se realizarem?" O anjo de Javé retrucou: "Por que você está querendo saber o meu nome? Ele é misterioso". Então Manué pegou o cabrito com a oferta, e ofereceu-o sobre a rocha em holocausto a Javé, que realiza coisas misteriosas. Manué e sua mulher ficaram observando. Quando a chama do altar subiu para o céu, o anjo de Javé também subiu na chama. Vendo isso, Manué e sua mulher caíram com o rosto no chão. O anjo de Javé não apareceu mais, nem para Manué nem para a sua mulher. Então Manué entendeu que era o anjo de Javé. Ele disse à sua mulher: "Certamente morreremos, porque vimos a Deus". A mulher respondeu: "Se Javé nos quisesse matar, não teria aceito o holocausto e a oferta, não nos teria mostrado tudo o que vimos, nem nos teria comunicado essas coisas"...

Para designar o mesmo ser que aparece a Manué e sua mulher, são utilizados estes termos para descrevê-lo: “anjo de Javé”, “um homem de Deus, que parecia um anjo de Deus”, “anjo de Deus”, “o homem” e “Deus”. Percebe-se a grande confusão que faziam diante das manifestações espirituais, não conseguindo, de fato, distinguir o que realmente viam.

Na verdade, o que viam eram anjos, que nada mais são que espíritos desencarnados, razão pela qual eram confundidos com homens. Para corroborar isso, basta ler em Atos o que aconteceu com Pedro. Ele estava preso a mando de Herodes, que já havia mandado matar a Tiago, irmão de João, e pretendia fazer o mesmo com Pedro, uma vez que viu que isso agradava aos judeus (At 12,1-3). Pedro após ser solto por um anjo do Senhor se dirige à casa de Maria, mãe de João, onde muitos estavam reunidos (At 12,6-12), leiamos, na própria narrativa bíblica, do que se sucede em seguida:

Bateu à porta, e uma empregada, chamada Rosa, foi abrir. A empregada reconheceu a voz de Pedro, mas sua alegria foi tanta que, em vez de abrir a porta, entrou correndo para contar que Pedro estava ali, junto à porta. Os presentes disseram: 'Você está ficando louca!' Mas ela insistia. Eles disseram: 'Então deve ser o seu anjo!' Pedro, entretanto, continuava a bater. Por fim, eles abriram a porta: era Pedro mesmo. E eles ficaram sem palavras. (At 12, 13-16).

Diante da possibilidade de Pedro estar à porta e como o supunham já morto, concluíram que só poderia ser o anjo dele que estava ali; em outras palavras: Então deveria ser o seu espírito!

R. N. Champlin, nos explica essa passagem da seguinte forma:

"Os cristãos primitivos têm com toda a razão sido criticados por essa sua atitude. Primeiramente rebateram a jovem escrava completamente, não crendo nela, preferindo acreditar que ela estava louca a crerem que as suas próprias orações haviam sido respondidas! E então, quando ela insistiu tão veementemente que não se equivocara com respeito à presença de Pedro ao portão, porquanto ele tinha um timbre de voz todo pessoal, chegaram eles a acreditar que Pedro já fora executado, à semelhança de Tiago, e que a aparição fora de seu espírito".

[...]

Aqueles primitivos crentes devem ter crido que os mortos podem voltar a fim de se manifestarem aos vivos, através da agência da alma. Observemos que a segunda alternativa, por eles sugerida, sobre como Pedro poderia estar no portão, era que ele teria sido morto e que o seu "anjo" ou "espírito" havia retornado. Portanto, aprendemos que aquilo que é ordinariamente classificado como doutrina "espírita" era crido por alguns membros da igreja cristã de Jerusalém. Isso não significa, naturalmente, que eles pensassem que tal fosse a regra nos casos de morte; porém, aceitaram a possibilidade da comunicação dos espíritos, que a atual igreja evangélica, especialmente em alguns círculos protestantes dogmáticos, nega com tanta veemência.

[…] Porém, por toda a parte abundam histórias de fantasmas, e muitos céticos negam tudo. Todavia, há muitos desses fenômenos, sob tão grande variedade, e cruzam todas as fronteiras religiosas, para que se possa duvidar dos mesmos como fatos. Algumas vezes os mortos voltam, e entram em comunicação com os vivos. Os teólogos judeus aceitavam isso como um fato, havendo entre eles a crença comum de que os "demônios" são espíritos humanos maus, desencarnados.

[...] É um equívoco cercarmos as doutrinas de muralhas, supondo em vão que somente nós, da moderna igreja cristã do século XX, temos as corretas interpretações das verdades bíblicas. Ainda temos muito a aprender, sobre muitas questões, e convém que guardemos nossas mentes abertas, pelo menos o suficiente para permitirmos a entrada de uma réstia de luz. Sabemos pouquíssimo sobre o mundo intermediário dos espíritos e supomos que o estado "eterno" já existe, o que todas as evidências mostram não ser ainda assim.

[...]

Naturalmente, sem importar o que os judeus criam a respeito dessas coisas, isso não prova nada neste caso. Porém, a experiência humana parece ser capaz de ilustrar amplamente que, algumas vezes, os espíritos dos mortos voltam a este mundo e entram em contato (pela permissão divina) com os homens. E com base nisso ficamos sabendo, pelo menos, que tais espíritos podem vir a fim de realizar determinadas missões, como também depreendemos que nossos conhecimentos sobre o mundo intermediário dos espíritos é extremamente limitado, porquanto muito nos resta ainda a apreender acerca do mundo dos espíritos, bem como sobre as capacidades e atividades dos espíritos. (CHAMPLIN, 2005, p. 250) (grifo do original).

Eis aí os fatos que comprovam o que fazem para tirar das passagens bíblicas a realidade da comunicação com os mortos. Aliás, ficamos pensando seriamente que se considerassem mesmo a Bíblia como sendo a palavra de Deus, não teriam coragem de alterá-la, modificá-la ou adulterá-la (caro leitor, escolha a que achar melhor), como flagrantemente fazem. Inclusive alguns tradutores têm o disparate de colocar em Dt 18,10-11, que sempre é citada como proibindo as comunicações com os mortos, palavras que não existiam à época que os textos bíblicos foram escritos, fora o fato de que não existem em hebraico, aramaico ou grego, como: Espiritismo, espiritistas, médiuns e médium espírita, que são neologismos criados por Kardec em abril do ano de 1857, quando publica a obra O Livro dos Espíritos.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

nov/2008

Referências bibliográficas:

CHAMPLIN, R. N., O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo, vol. 3, São Paulo: Hagnos, 2005.

PIRES, J. H. Os 3 caminhos de Hecate. São Paulo: Paidéia, 2004.

A Bíblia Anotada. 8ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.

Bíblia de Jerusalém, nova edição. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia do Peregrino. s/ed. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia Sagrada, 37a. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.

Bíblia Sagrada, 5ª ed. Aparecida-SP: Santuário, 1984.

Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1989.

Bíblia Sagrada, Edição Barsa. s/ed. Rio de Janeiro: Catholic Press, 1965.

Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. 43ª imp. São Paulo: Paulus, 2001.

Bíblia Sagrada, s/ed. Brasília – DF: Sociedade Bíblica do Brasil 1969.

Bíblia Sagrada. 68ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1989.

Bíblia Shedd. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova; Brasília: SBB, 2005.

Escrituras Sagradas, Tradução do Novo Mundo das. Cesário Lange, SP: STVBT, 1986.


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segunda-feira, 4 de abril de 2011

A CARTA COMPROMETEDORA DE ELIAS


Se não se convencem pelos fatos, menos o fariam pelo raciocínio. (Allan Kardec).

O escritor José Reis Chaves, autor do livro A Face Oculta das Religiões, em um artigo publicado, em sua Coluna, de 26.04.04, no jornal "O Tempo", de Belo Horizonte, "Ressurreição de Todos", dá-nos uma informação interessantíssima. Diz ele:

"E o desaparecimento de Elias vivo confundiu muito os teólogos sobre a ressurreição. Mas ele ficou na Terra, 
pois Jorão, depois, recebeu dele uma carta. 2 Crônicas 21,12)".

Engraçado como muitas vezes não enxergamos o óbvio, pois realmente, segundo a narrativa bíblica citada, Elias, depois de ter sido supostamente arrebatado, enviou mesmo uma carta a Jorão, filho e sucessor de Josafá, de Judá. Confirmam isso os tradutores da Bíblia de Jerusalém, quando nos oferecem a seguinte explicação para essa passagem:

"De acordo com a cronologia de 2Rs, Elias tinha desaparecido antes do reinado de Jorão de Israel (2Rs 2; 3,1) e, portanto, antes de Jorão de Judá (2Rs 8,16; cf. no entanto 2Rs 1,17). O cronista deve utilizar uma tradição apócrifa".

Mas o que há de extraordinário nisso? Bom, se a passagem mencionada for verdadeira, e aqui os defensores da inerrância bíblica, por coerência, não podem aceitar de outro modo, estaremos diante de duas alternativas. A primeira: que Elias não foi arrebatado, já que envia uma carta. Isso para nós foi o que de fato ocorreu, uma vez que é difícil sustentar que alguém tenha sido arrebatado de corpo e alma levando-se em conta que se "Deus é espírito" (Jo 4,24), nós também somos seres espirituais, já que fomos criados à Sua imagem e semelhança. Por outro lado, se "o espírito é que dá vida, a carne não serve para nada" (Jo 6,63) e que "a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus" (1Cor 15,50) não há como compatibilizar corpo físico na dimensão espiritual. A segunda alternativa, que, por certo, poderá deixar alguns fanáticos perplexos, é que, se aceitarmos que não há exceção nas Leis Divinas, Elias morreu, como irá acontecer com todo ser humano; daí, por força das circunstâncias, teremos que admitir que, do plano espiritual, ele envia uma carta ao rei. Portanto, uma ocorrência mediúnica, com alguém servindo de médium para receber essa carta e enviá-la ao destinatário, traduzindo-se isso em uma autêntica psicografia.

A título de curiosidade, observamos que os termos usados nessa narrativa aparecem, nas diversas traduções bíblicas, ora como "uma carta", ora como "uma mensagem" e ora como "um escrito", mas, no fundo, tudo é a mesma coisa. Lembramo-nos aqui do saudoso Chico Xavier que recebia, com facilidade uma imensidão de cartas dos "mortos".

Na primeira hipótese acima citada, não há nenhum fato bíblico entre "os arrebatados" que venha a sustentar a possibilidade de que, em algum momento, um deles tenha se comunicado, por qualquer meio, com os encarnados. Entretanto, quanto à segunda hipótese, ou seja, a que Elias tenha morrido, podemos comprovar biblicamente, por dois acontecimentos, os quais vêm apoiar a uma ocorrência dessa ordem.

O primeiro, narrado em 1Sm 28, 1-25, é um fenômeno mediúnico de psicofonia, que registra a ocasião em que o rei Saul vai a Endor, para que, através da pitonisa (médium) que residia nessa localidade, pudesse aconselhar-se com o profeta Samuel, já desencarnado. Como estava numa situação angustiante, pois se encontrava cercado pelo exército dos filisteus, queria saber do espírito do velho profeta sobre o que o futuro lhe aguardava em relação a essa iminente guerra.

O segundo, sempre "esquecido" dos contraditores da comunicação com os "mortos", é quando os espíritos de Moisés e Elias apareceram a Jesus, Pedro, Tiago e João, e conversaram com o Mestre. Classificamos esse fenômeno mediúnico como de "materialização", pois esses dois espíritos também foram vistos pelos três discípulos que testemunharam o fato, que, ao que tudo indica, eram os médiuns doadores da energia necessária para a produção do fenômeno, a qual chamamos de ectoplasma. Inclusive, podemos observar que, nos principais fenômenos mediúnicos produzidos por Jesus, vistos por alguns como milagres, os três apóstolos citados eram convidados por Ele, para deles participarem, pois só eles, entre os que o seguiam, possuíam essa energia de forma mais acentuada.

Há ainda um outro evento, que nunca é falado, pois não teria como ser negado: trata-se do acontecido com o próprio Jesus, que depois de morto comunicou-se com inúmeras pessoas. E, plagiando o que o apóstolo dos gentios disse aos coríntios, diríamos: "Pois se os mortos não se comunicam, também Cristo não se comunicou. Se Cristo não se comunicou ilusória a nossa fé".

Assim, com essa carta de Elias, acreditamos estar diante de mais uma ocorrência bíblica, que vem provar a comunicação entre os dois planos da vida, embora negada sistematicamente por alguns, mas que pode ser corroborada pela própria proibição bíblica de Moisés de se comunicar com os mortos (Dt 18,9-14), já que Moisés não era tão louco assim para proibir algo que não existe. Está, portanto, comprovada pela própria Bíblia, a realidade da comunicação entre os habitantes do mundo físico com os do mundo espiritual. E como diria Jesus: "Quem tem ouvidos, ouça".


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Maio/2004.



Referência Bibliográfica:

Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus, 2002.

Jornal O Tempo, de 26.04.2004, Coluna de José Reis Chaves, pág. A8.

(Publicado no Jornal Espírita, julho de 2004, nº 347, FEESP, pág. 11).


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quinta-feira, 24 de março de 2011

E ACONTECEU NO SINAI


Na própria essência de nosso esforço de compreensão está o fato, de, por um lado, tentar englobar a grande e complexa variedade das experiências humanas, e de, por outro lado, procurar a simplicidade e a economia nas hipóteses básicas. (ALBERT EINSTEIN)

Há tempos que estamos pensando em fazer um estudo específico sobre os acontecimentos no Monte Sinai, mas acabávamos sendo envolvidos por outros assuntos, por isso, esse foi sendo postergado. Entretanto, essa idéia ainda nos persegue. Vejamos, então, o que poderemos fazer.

Primeiramente, devemos dizer porque tal idéia surgiu. Como sempre estamos lendo textos da Bíblia, em certa oportunidade deparamos com um que afirmava que as “Leis do Sinai” haviam sido promulgadas pelos anjos. Isso nos despertou a curiosidade, pois, até então, sabíamos que Deus pessoalmente teria passado essas leis a Moisés.

Mas, antes de entrar no assunto, vejamos o seguinte relato a respeito dos fenômenos ocorridos naquela ocasião:

“Três dias depois, pela manhã, houve trovões e relâmpagos e uma nuvem espessa desceu sobre a montanha, enquanto o toque da trombeta soava fortemente. O povo que estava no acampamento começou a tremer. Então Moisés tirou o povo do acampamento para receber Deus. E eles se colocaram ao pé da montanha. Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé tinha descido sobre ela no fogo; a fumaça subia, como fumaça de fornalha. E a montanha toda estremecia. O som da trombeta aumentava cada vez mais, enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão. Javé desceu no topo da montanha do Sinai e chamou Moisés lá para o alto”. (Ex 19,16-20).

Chamamos sua atenção, caro leitor, para “trovões, relâmpagos, nuvem espessa, o Sinai fumegava, o fogo, a montanha toda estremecia” coisas que, presumimos, estariam bem próximas de uma ocorrência natural, tipo vulcânica. Essa região, que faz parte da placa tectônica Africana, fica bem próxima dos limites das placas da Grécia e da Arábica, e, como sabemos, é no encontro dessas placas que ocorrem as manifestações vulcânicas. Se nessa região esses fenômenos não acontecem nos dias de hoje, poderia muito bem ter acontecido naquela ocasião uma vez que a mesma possui as condições geológicas para tal e, por outro lado, a própria narrativa nos leva a acreditar nisso.

E, como naquela época o nível de conhecimentos desses fenômenos da natureza eram completamente nulos, deviam ficar mesmo apavorados com essas ocorrências. Algumas delas julgavam ser a manifestação da ira de Deus, uma vez que tais coisas aconteciam no céu, local onde pressupunham ser a morada de Deus. “... enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão”, fica aí a comprovação da ignorância dos fenômenos, que são de ordem natural, mas naquele tempo eram considerados como sobrenaturais.

Na seqüência da narrativa, é que Moisés recebe os Dez Mandamentos: “Quando Javé terminou de falar com Moisés no monte Sinai, entregou-lhe as duas tábuas da aliança; eram tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus”. (Ex 31, 18), tábuas onde estavam escritos.

Até aqui as coisas não estavam tão complicadas, a não ser pelos fenômenos ocorridos no monte Sinai, em tudo acreditávamos sem qualquer conflito. Entretanto, inesperadamente, as coisas “estremeceram”, depois de lermos no livro Atos dos Apóstolos: “Foi ele [Moisés], na assembléia do deserto, quem serviu de intermediário entre o anjo que lhe falava no monte Sinai e os nossos pais. Ele recebeu as palavras de vida, para transmiti-las a nós”. (At 7,38).

A narrativa diz “o anjo” e, pela concepção da época, isso significava que o próprio Deus teria se manifestado, entretanto, nessa passagem, segundo o que pensamos, não seria essa a idéia a prevalecer. Um pouco antes, está narrado: “Quarenta anos depois, apareceu-lhe no deserto do monte Sinai um anjo na chama de uma sarça que ardia” (At 7,30) e, posteriormente, no versículo 53 se dirá anjos, fugindo, portanto, do conceito tradicional. E, se não estivermos enganados, em At 7,38 deveria estar “um anjo”, ao invés de “o anjo”, já que, no primeiro caso, seria o artigo indefinido ficando, portanto, condizente com At 7,30.

Em outras oportunidades encontramos a confirmação de que as leis foram passadas pelos anjos, no plural mesmo, indicando terem sido mais de um. Concluímos que, é bem provável, seja essa a realidade, pois não concebemos o próprio Deus, criador do Universo infinito, vir pessoalmente entrar em contato com os seres humanos, uma vez que usaria para isso os seus mensageiros ou anjos, pois “não são todos eles espíritos encarregados para um serviço, enviados para servir àqueles que deverão herdar a salvação?” (Hb 1,14). Vejamos, então, as seguintes passagens:

Vocês receberam a Lei, promulgada através dos anjos, e não a observaram!” (At 7,53).

“Então, por que é que foi dada a Lei? Ela foi acrescentada para mostrar as transgressões, até a chegada do descendente, em vista do qual foi feita a promessa. A Lei foi promulgada pelos anjos e um homem serviu de intermediário”. (Gl 3,19).

“De fato, se a palavra transmitida por meio dos anjos se mostrou válida, e toda transgressão e desobediência recebeu um justo castigo,...”. (Hb 2,2).

Assim, na própria Bíblia, encontramos elementos que nos levam à conclusão de que não foi realmente Deus que esteve no monte Sinai. Pelo próprio conteúdo dessas leis já questionávamos sobre isso. Nos é passado o nono mandamento como “não cobiçar a mulher do próximo”, mas duas coisas nós podemos colocar sobre ele. Primeiro, Deus jamais diria um absurdo desse, pois se trata, com certeza, de produto de uma sociedade altamente machista, e, partindo do pressuposto de que o que não é proibido é permitido, diríamos que a mulher poderá cobiçar o marido da outra sem nenhum problema. O segundo, é que apesar de sempre o colocarem dessa forma, na verdade, esse mandamento é mais abrangente: “Não cobice a casa do seu próximo, nem a mulher do próximo, nem o escravo, nem a escrava, nem o boi, nem o jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo”. (Ex 20,17). Isto posto, iremos concordar com o pensamento do escritor Hélio Pinto que diz que os Dez Mandamentos na realidade são nove. No texto bíblico a mulher é colocada como propriedade do homem, coisa que naquela época era normal, não nos dias de hoje. E, além desse novo absurdo, podemos ainda dizer que uma Lei, para ser de origem divina, deve ser, acima de tudo “atemporal”, ou seja, serve para todos os tempos, também deve servir para todos os povos, o que não ocorre como se encontra escrita na passagem em relação a escravo, boi ou jumento, pois eram coisas de muito valor na época, já que, por exemplo, o jumento era instrumento de transporte, hoje temos os automóveis, ter bois significava ser alguém de posses, e quanto aos escravos, nos tempos atuais, dá até cadeia para quem escravizar alguém.

Nossa surpresa maior foi quando nos deparamos com a seguinte afirmativa: “Os babilônios desenvolveram as leis morais mais tarde incorporadas por Moisés nos Dez Mandamentos e que ainda hoje constituem os alicerces do cristianismo”. (LOON, 1981). Mas será que é isso mesmo? Entretanto, pesquisas posteriores acabaram por nos revelar a verdade.

Kersten, nos passa a seguinte informação: “Moisés continua a ser considerado um grande legislador, porém, é fato sabido que os Dez Mandamentos nada mais eram que o resumo de leis que vigoraram entre povos do Oriente Próximo e da Índia, muito antes do nascimento de Moisés e que eram comuns também na Babilônia, já há 700 anos. A famosa lei do rei babilônico de Hamurabi (728-1686 a.C.), inspirada no Rig-Veda dos hindus, já continha todos os dez mandamentos”. (Jesus viveu na Índia, pág. 56).

Vejamos a correlação de algumas leis:

Leis Mosaicas

Código de Hamurabi

Não tenha relações sexuais com sua mãe. Ela é de seu pai, e é sua mãe; não tenha relações sexuais com ela. (Lv 18, 7).

Se alguém for culpado de incesto com sua mãe depois de seu pai, ambos deverão ser queimados.

Se alguém ferir o seu próximo, deverá ser feito para ele aquilo que ele fez para o outro:

fratura por fratura,

olho por olho,

dente por dente.

A pessoa sofrerá o mesmo dano que tiver causado a outro: (Lv 24, 29-20).

Se um homem quebrar o osso de outro homem, o primeiro terá também o seu osso quebrado.

Se homem arrancar o olho de outro homem, o olho do primeiro deverá ser arrancado (olho por olho).

Se um homem quebrar o dente de um seu igual, o dente deste homem também deverá ser quebrado (dente por dente).

Os juízes deverão fazer cuidadosa investigação. Se a testemunha for falsa e tiver caluniado o seu irmão, então vocês a tratarão do mesmo modo como ela própria maquinava tratar o seu próximo. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio. (Dt 19, 18).

Se alguém “apontar o dedo” (enganar) a irmã de um deus ou a esposa de outro alguém e não puder provar o que disse, esta pessoa deve ser levada frente aos juízes e sua sobrancelha deverá ser marcada.

Se um homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos serão mortos, tanto o homem como a mulher. Desse modo, você eliminará o mal de Israel. (Dt 22, 22).

Se a esposa de alguém for surpreendida em flagrante com outro homem, ambos devem ser amarrados e jogados dentro d’água, mas o marido pode perdoar a sua esposa, assim como o rei perdoa a seus escravos.

Isso já tinha desestruturado todas as nossas convicções a respeito do assunto, não precisava de mais nada, entretanto mais um livro chegou às nossas mãos. Foi a gota d’água que veio, por definitivo, mudar conceitos antigos. que aprendemos como se fossem verdades absolutas.

Desta vez o autor foi Werner Keller, que, no seu livro “e a Bíblia tinha razão...” demonstrou, de forma categórica, tudo quanto já tínhamos visto anteriormente. Vejamos suas colocações (págs. 157-160):

“Era perfeitamente possível concluir pela singularidade das leis morais, dadas por Deus ao povo de Israel, sem modelo nem paralelo no antigo Oriente, antes da descoberta dos elementos, indicando clara e inequivocamente que, precisamente em um dos seus trechos de maior relevo, ou seja, os Dez Mandamentos e demais leis promulgadas para Israel, a Bíblia não está sozinha, pois sobretudo ali ela se revela como imbuída do espírito do antigo Oriente. Assim, os Dez Mandamentos representam uma espécie de ‘documento de aliança’, ou a ‘lei básica’ da aliança entre Israel e seu Deus. Em absoluto, não surpreende o fato de corresponder, perfeitamente, aos acordos de vassalagem, celebrados no antigo Oriente, para regulamentar os vínculos entre um soberano e os reis vassalos, por ele instituídos para governar os povos subjugados. Os textos desses contratos de vassalagem sempre começavam citando o nome, título e os méritos do respectivo ‘grão-rei’. Correspondentemente, a Bíblia reza: ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei do Egito, da casa da servidão’ (Êxodo 20.2). Logo, também, ali cita-se primeiro o nome (a palavra ‘Senhor”, segundo a praxe bíblica, substituindo o nome verdadeiro de Jeová, cujo pronunciar era proibido), o título (‘Deus”) e o mérito decisivo (‘que te tirei da terra do Egito’) do grão-rei; só que, neste caso específico, tratava-se do divino ‘grão-rei’ de Israel, do Deus da aliança. Ademais, os vassalos eram proibidos de estabelecer relações com soberanos estrangeiros. A isso corresponde o mandamento ‘Não terás outros deuses diante de Mim’ (êxodo 20.3). A forma imperativa de ‘tu deves’, ‘tu não deves’ está sempre presente nos acordos entre um grão-rei e seus vassalos; portanto, ao contrário do que supõem alguns cientistas, ela absolutamente não se restringe aos Dez Mandamentos bíblicos. Por exemplo, um daqueles tratados de vassalagem reza: ‘Não cobiçarás nenhuma região do país de Hatti’, conquanto a Bíblia diga: ‘Não cobiçarás a casa do teu próximo...’ (Êxodo 20.17). Foram apuradas ainda outras concordâncias, como as referentes à guarda das tábuas como os mandamentos na arca da aliança (as cópias dos contratos de vassalagem também eram guardadas no interior do santuário), bem como à selagem dos contratos, respectivamente, dos mandamentos, com bênção e maldições, pois também Moisés falou (Deuteronômio 11.26 a 28): ‘Eis que eu ponho hoje diante dos vossos olhos a benção e a maldição; a benção, se observardes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu hoje vos prescrevo; a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, mas vos apartardes do caminho que eu hoje vos mostro...’ Aliás, o renomado cientista católico, pesquisador de Bíblia, Roland de Vaux, já mencionado por várias vezes, encontrou em diversos acordos de vassalagem hititas a disposição de ler, em intervalos regulares, o texto do acordo, as leis bíblicas deveriam ser lidas em público, pois ‘todos os sete anos, no ano da remissão, na solenidade dos tabernáculos, quando todos os filhos de Israel se juntarem para aparecer diante do Senhor teu Deus... lerás as palavras desta lei diante de todo o Israel, o qual ouvirá... para que, ouvindo, aprendam e temam o Senhor vosso Deus, e guardem e cumpram todas as palavras desta lei’ (Deuteronômio 31.1, 10 a 12)”.

“Tudo isso refere-se somente à forma externa dos Dez Mandamentos. No entanto, o que há em relação ao seu conteúdo espiritual? Tampouco, quanto a isso, faltam paralelos. Assim, na Assíria, um sacerdote, ao exorcizar os ‘demônios’ de um doente, teve de perguntar: ‘Será que ele (o doente) ofendeu um deus? Menosprezou uma deusa?... Menosprezou seu pai e sua mãe? Menosprezou a irmã mais velha?... Teria ele falado ‘não é assim, ao invés de ‘é assim” (ou vice-versa)? ... Teria ele feito pesagem falsa? Invadido a casa do seu próximo? Ter-se-ia aproximado demasiadamente da mulher do seu próximo? Teria vertido o sangue do seu próximo?...”.

“Por fim, seguem-se ainda alguns exemplos, tirados do chamado ‘ensinamento de Amenemope’, em uso no antigo Egito”:

‘Não retirarás a pedra demarcando os limites do campo e não alterarás a linha, seguida pela fita do metro; não cobiçarás nem um côvado de terra e não derrubarás a demarcação das terras de uma viúva’.

‘Não cobiçarás a propriedade de um homem de posses modestas e não terás fome do seu pão’.

‘Não regularás a balança de maneira errada, não adulterarás os pesos e não diminuirás as peças da medida dos cereais’.

‘Não farás a desgraça de ninguém perante o tribunal e não corromperás a justiça’.

‘Não darás risada de um cego, não farás troça de um anão e não desfarás os planos de um paralítico’.

“Da mesma forma, o ‘exemplo clássico’ que hoje em dia costuma ser citado pelos pesquisadores da Bíblia é a chamada ‘confissão negativa’, mencionada na introdução ao centésimo vigésimo quinto capítulo do Livro dos Mortos. No antigo Egito era crença que o defunto ingressaria em uma ‘sala de justiça’, onde, perante quarenta e dois juízes dos mortos, deveria fazer as seguintes declarações”:

‘Não fiz adoecer ninguém.

Não fiz chorar ninguém.

Não matei ninguém.

Não fiz mal a ninguém.

Não diminuí os alimentos nos templos.

Não maculei os pães oferecidos aos deuses.

Não roubei os pães destinados aos mortos, como oferendas fúnebres.

Não tive relações sexuais (proibidas).

Não tive relações sexuais contrárias à natureza’.

“E assim por diante”.

“Em outra parte veremos ainda que, graças às pesquisas mais recentes, hoje em dia já se tornou bem menos acentuada a diferença, outrora gritante, entre conceitos: ‘Aqui, a sublime fé monoteísta – ali, a multidade bizarra de deidades’. Em certa época, pelos menos nos tempos primitivos, aquela multidade de deidades existiu, inclusive em Israel, conquanto a idéia da grandiosidade de figuras divinas, reais, fosse divulgada igualmente nas crenças religiosas de outros povos, habitando as imediações da Terra Santa. Da mesma forma, cumpre fazer constar que também alhures houve moralidade; além das fronteiras de Israel, o povo era igualmente responsável, tinha modos, observava os preceitos da lei, ordem, ética e moral, e também ali as normas regendo o comportamento humano encontravam uma expressão que, tanto no espírito quanto na letra, correspondia perfeitamente aos regulamentos sagrados vigentes em Israel. E, mais uma vez, a Bíblia tem razão, no sentido de que, nos seus textos jurídicos, cuja peça principal são os Dez Mandamentos, ela nos transmite um trecho pertinente, comprovado por respectivos paralelos na história cultural e moral do antigo Oriente. O quadro assim constituído, e de modo a dificultar que fosse mantida a outrora levantada pretensão da singularidade das leis bíblicas, talvez confunda e intrigue a mente de algumas pessoas. Lamentavelmente, não há condições de eliminar tal confusão e insegurança. No entanto, hoje em dia, a confirmação extrabíblica dos respectivos textos bíblicos revela o relacionamento de Israel com seu ambiente cultural e histórico, bem como suas máximas, de uma maneira bastante mais clara e precisa do que antes...”.

Foi aqui, finalmente, que jogamos, de vez, “a tolha no chão”, vamos assim dizer, não resistindo aos inapeláveis argumentos históricos desenvolvidos por Keller.

Pode ser que eventualmente isso venha a chocar a muitos, entretanto, muitas vezes acontece isso mesmo, quando ficamos sabendo da verdade. Alguns, com certeza nos chamarão de heréticos, como se isso fosse mudar os fatos. Além de que, se o somos, estaríamos muito bem acompanhados, pois Jesus foi também herético no seu tempo. Outros, talvez, dirão que estamos possuídos por satanás, a estes pedimos estudar mais a história, pois irão ver que esse ser foi incorporado, na Bíblia, por influência da cultura persa, pela doutrina de Zoroastro.

Deveríamos fazer um estudo mais aprofundado desses assuntos bíblicos, demonstrando, por separação, a realidade da fantasia, sob pena de, no futuro, ninguém mais vai dar valor algum a ela. Pelos estudos que temos feito da Bíblia a conclusão que inevitavelmente estamos chegando é que apesar dela ter sido imposta como sendo “a palavra de Deus” ela é sim um livro histórico, em que também se encontra registrados os conceitos religiosos do povo hebreu, muitas vezes, cheios de superstições, misturadas com mitologia, lendas e conceitos pagãos, daí a necessidade de seu estudo sem preconceitos. Ressalva faremos apenas ao Evangelho de Jesus.

Mas, apesar disso tudo, ainda poderemos aceitar que os Dez Mandamentos são realmente de inspiração divina. Entretanto, teremos que identificar quem foi o “Moisés” que antes os recebeu.

Paulo Neto

Jan/2004 (revisado)

Referência bibliográfica:

KELLER, Werner, e a Bíblia tinha razão..., 22ª ed., Melhoramentos, São Paulo, 2000.

KERSTEN, Holger, Jesus Viveu na Índia, 15ª ed., Best Seller, São Paulo, 1988.

LOON, Hendrik W.V., A História da Bíblia, s.ed., Cultriz, São Paulo, 1981.

STOMIOLO, Ivo e BALANCIN, Euclides. M., Bíblia Sagrada -Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, 1991.

VESENTINI, J. W, e VLACH, V, Geografia Crítica, vol. 1, Ática, São Paulo, 13ª edição.



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