sábado, 24 de abril de 2010

ENSAIO TEÓRICO DA SENSAÇÃO NOS ESPÍRITOS


257. O corpo é o instrumento da dor. Se não é a causa primária desta é, pelo menos,
a causa imediata. A alma tem a percepção da dor: essa percepção é o efeito. A lembrança
que da dor a alma conserva pode ser muito penosa, mas não pode ter ação física. De fato,
nem o frio, nem o calor são capazes de desorganizar os tecidos da alma, que não é
suscetível de congelar-se, nem de queimar-se. Não vemos todos os dias a recordação ou a
apreensão de um mal físico produzirem o efeito desse mal, como se real fora? Não as
vemos até causar a morte? Toda gente sabe que aqueles a quem se amputou um membro
costumam sentir dor no membro que lhes falta. Certo que aí não está a sede, ou, sequer, o
ponto de partida da dor. O que há, apenas, é que o cérebro guardou desta a impressão.
Lícito, portanto, será admitir-se que coisa análoga ocorra nos sofrimentos do Espírito após a
morte. Um estudo aprofundado do perispírito, que tão importante papel desempenha em
todos os fenômenos espíritas; nas aparições vaporosas ou tangíveis; no estado em que o
Espírito vem a encontrar-se por ocasião da morte; na idéia, que tão freqüentemente
manifesta, de que ainda está vivo; nas situações tão comoventes que nos revelam os dos
suicidas, dos supliciados, dos que se deixaram absorver pelos gozos materiais; e inúmeros
outros fatos, muita luz lançaram sobre esta questão, dando lugar a explicações que
passamos a resumir.
O perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito, que o tira do meio
ambiente, do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da eletricidade, do fluido
magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da
matéria. É o princípio da vida orgânica, porém, não o da vida intelectual, que reside no
Espírito. É, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, os órgãos, servindolhes
de condutos, localizam essas sensações. Destruído o corpo, elas se tornam gerais. Daí o
Espírito não dizer que sofre mais da cabeça do que dos pés, ou vice-versa.
Não se confundam, porém, as sensações do perispírito, que se tornou independente, com as
do corpo. Estas últimas só por termo de comparação as podemos tomar e não por analogia.
Liberto do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é corporal, embora não
seja exclusivamente moral, como o remorso, pois que ele se queixa de frio e calor. Também
não sofre mais no inverno do que no verão: temo-los visto atravessar chamas, sem
experimentarem qualquer dor. Nenhuma impressão lhes causa, conseguintemente, a
temperatura. A dor que sentem não é, pois, uma dor física propriamente dita: é um vago
sentimento íntimo, que o próprio Espírito nem sempre compreende bem, precisamente
porque a dor não se acha localizada e porque não a produzem agentes exteriores; é mais
uma reminiscência do que uma realidade, reminiscência, porém, igualmente penosa.
Algumas vezes, entretanto, há mais do que isso, como vamos ver.
Ensina-nos a experiência que, por ocasião da morte, o perispírito se desprende mais
ou menos lentamente do corpo; que, durante os primeiros minutos depois da desencarnação,
o Espírito não encontra explicação para a situação em que se acha. Crê não estar morto, por
isso que se sente vivo; vê a um lado o corpo, sabe que lhe pertence, mas não compreende
que esteja separado dele. Essa situação dura enquanto haja qualquer ligação entre o corpo e
o perispírito. Disse-nos, certa vez, um suicida: “Não, não estou morto.” E acrescentava: No
entanto, sinto os vermes a me roerem. Ora, indubitavelmente, os vermes não lhe roíam o
perispírito e ainda menos o Espírito; roíam-lhe apenas o corpo. Como, porém, não era
completa a separação do corpo e do perispírito, uma espécie de repercussão moral se
produzia, transmitindo ao Espírito o que estava ocorrendo no corpo. Repercussão talvez não
seja o termo próprio, porque pode induzir à suposição de um efeito muito material. Era
antes a visão do que se passava com o corpo, ao qual ainda o conservava ligado o
perispírito, o que lhe causava a ilusão, que ele tomava por realidade. Assim, pois não
haveria no caso uma reminiscência, porquanto ele não fora, em vida,
ruído pelos vermes: havia o sentimento de um fato da atualidade. Isto mostra que deduções
se podem tirar dos fatos, quando atentamente observados.
Durante a vida, o corpo recebe impressões exteriores e as transmite ao Espírito por
intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso.
Uma vez morto, o corpo nada mais sente, por já não haver nele Espírito, nem perispírito.
Este, desprendido do corpo, experimenta a sensação, porém, como já não lhe chega por um
conduto limitado, ela se lhe torna geral. Ora, não sendo o perispírito, realmente, mais do
que simples agente de transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência, lógico
será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem Espírito, aquele nada sentiria,
exatamente como um corpo que morreu. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse
perispírito, seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa. É o que se dá com os
Espíritos completamente purificados. Sabemos que quanto mais eles se purificam, tanto
mais etérea se torna a essência do perispírito, donde se segue que a influência material
diminui à medida que o Espírito progride, isto é, à medida que o próprio perispírito se torna
menos grosseiro.
Mas, dir-se-á, desde que pelo perispírito é que as sensações agradáveis, da mesma
forma que as desagradáveis, se transmitem ao Espírito, sendo o Espírito puro inacessível a
umas, deve sê-lo igualmente às outras. Assim é, de fato, com relação às que provêm
unicamente da influência da matéria que conhecemos. O som dos nossos instrumentos, o
perfume das nossas flores nenhuma impressão lhe causam. Entretanto, ele experimenta
sensações íntimas, de um encanto indefinível, das quais idéia alguma podemos formar,
porque, a esse respeito, somos quais cegos de nascença diante a luz. Sabemos que isso é
real; mas, por que meio se produz? Até lá não vai a nossa ciência. Sabemos que no Espírito
há percepção, sensação, audição, visão; que essas faculdades são atributos do ser todo e
não, como no homem, de uma parte apenas do ser; mas, de que modo ele as tem? Ignoramo-lo. Os próprios Espíritos nada nos podem informar sobre isso, por inadequada a nossa
linguagem a exprimir idéias que não possuímos, precisamente como o é, por falta de termos
próprios, a dos selvagens, para traduzir idéias referentes às nossas artes, ciências e doutrinas
filosóficas.
Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às impressões da matéria que
conhecemos, referimo-nos aos Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não
encontra analogia neste mundo. Outro tanto não acontece com os de perispírito mais denso,
os quais percebem os nossos sons e odores, não, porém, apenas por uma parte limitada de
suas individualidades, conforme lhes sucedia quando vivos. Pode-se dizer que, neles, as
vibrações moleculares se fazem sentir em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium
commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diverso e talvez, também, dando uma
impressão diferente, o que modifica a percepção. Eles ouvem o som da nossa voz,
entretanto nos compreendem sem o auxílio da palavra, somente pela transmissão do
pensamento. Em apoio do que dizemos há o fato de que essa penetração é tanto mais fácil,
quanto mais desmaterializado está o Espírito. Pelo que concerne à vista, essa, para o
Espírito, independe da luz, qual a temos. A faculdade de ver é um atributo essencial da
alma, para quem a obscuridade não existe. É, contudo, mais extensa, mais penetrante nas
mais purificadas. A alma, ou o Espírito, tem, pois, em si mesma, a faculdade de todas as
percepções. Estas, na vida corpórea, se obliteram pela grosseria dos órgãos do corpo; na
vida extracorpórea, se vão desanuviando, à proporção que o invólucro semi-material se
eteriza.
Haurido do meio ambiente, esse invólucro varia de acordo com a natureza dos
mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório, como nós
mudamos de roupa, quando passamos do inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Quando
vêm visitar-nos, os mais elevados se revestem do perispírito terrestre e então suas
percepções se produzem como no comum dos Espíritos. Todos, porém, assim os inferiores como os superiores, não ouvem, nem sentem, senão o que queiram ouvir ou sentir. Não possuindo órgãos sensitivos, eles podem, livremente, tornar ativas ou nulas suas percepções. Uma só coisa são obrigados a ouvir - os conselhos dos Espíritos bons. A vista, essa é sempre ativa; mas, eles podem fazer-se invisíveis uns aos outros. Conforme a categoria que ocupem, podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, porém não dos que lhes são superiores. Nos primeiros instantes que se seguem à morte, a visão do Espírito é sempre turbada e confusa. Aclara-se, à medida que
ele se desprende, e pode alcançar a nitidez que tinha durante a vida terrena,
independentemente da possibilidade de penetrar através dos corpos que nos são opacos.
Quanto à sua extensão através do espaço indefinito, do futuro e do passado, depende do
grau de pureza e de elevação do Espírito.
Objetarão, talvez: toda esta teoria nada tem de tranqüilizadora. Pensávamos que,
uma vez livres do nosso grosseiro envoltório, instrumento das nossas dores, não mais
sofreríamos e eis nos informais de que ainda sofreremos. Desta ou daquela forma, será
sempre sofrimento. Ah! sim, pode dar-se que continuemos a sofrer, e muito, e por longo
tempo, mas também que deixemos de sofrer, até mesmo desde o instante em que se nos
acabe a vida corporal.
Os sofrimentos deste mundo independem, algumas vezes, de nós; muito mais vezes,
contudo, são devidos à nossa vontade. Remonte cada um à origem deles e verá que a maior
parte de tais sofrimentos são efeitos de causas que lhe teria sido possível evitar. Quantos
males, quantas enfermidades não deve o homem aos seus excessos, à sua ambição, numa
palavra: às suas paixões? Aquele que sempre vivesse com sobriedade, que de nada
abusasse, que fosse sempre simples nos gostos e modesto nos desejos, a muitas tribulações
se forraria. O mesmo se dá com o Espírito. Os sofrimentos por que passa são sempre a
conseqüência da maneira por que viveu na Terra. Certo já não sofrerá mais de gota, nem de
reumatismo; no entanto, experimentará outros sofrimentos que nada ficam a dever àqueles. Vimos que seu sofrer resulta dos laços que ainda o prendem à matéria; que quanto mais livre
estiver da influência desta, ou, por outra, quanto mais desmaterializado se achar, menos
dolorosas sensações experimentará. Ora, está nas suas mãos libertar-se de tal influência
desde a vida atual. Ele tem o livre-arbítrio, tem, por conseguinte, a faculdade de escolha
entre o fazer e o não fazer. Dome suas paixões animais; não alimente ódio, nem inveja, nem
ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons
sentimentos; pratique o bem; não ligue às coisas deste mundo importância que não
merecem; e, então, embora revestido do invólucro corporal, já estará depurado, já estará
liberto do jugo da matéria e, quando deixar esse invólucro, não mais lhe sofrerá a
influência. Nenhuma recordação dolorosa lhe advirá dos sofrimentos físicos que haja
padecido; nenhuma impressão desagradável eles deixarão, porque apenas terão atingido o
corpo e não a alma. Sentir-se-á feliz por se haver libertado deles e a paz da sua consciência
o isentará de qualquer sofrimento moral.
Interrogamos, aos milhares, Espíritos que na Terra pertenceram a todas as classes da
sociedade, ocuparam todas as posições sociais; estudamo-los em todos os períodos da vida
espírita, a partir do momento em que abandonaram o corpo; acompanhamo-los passo a
passo na vida de além-túmulo, para observar as mudanças que se operavam neles, nas suas
idéias, nos seus sentimentos e, sob esse aspecto, não foram os que aqui se contaram entre os
homens mais vulgares os que nos proporcionaram menos preciosos elementos de estudo.
Ora, notamos sempre que os sofrimentos guardavam relação com o proceder que eles
tiveram e cujas conseqüências experimentavam; que a outra vida é fonte de inefável ventura
para os que seguiram o bom caminho. Deduz-se daí que, aos que sofrem, isso acontece
porque o quiseram; que, portanto, só de si mesmos se devem queixar, quer no outro mundo,
quer neste.

Allan Kardec

O Livro dos Espíritos, ed. FEB, ed. 76


imagem: blogs.opovo.com.br


12 comentários:

Maria José disse...

Bela reflexão. Estou passando aqui para regar nossa amizade e desejar-lhe um excelente final de semana. Beijos.

ValériaC disse...

Querido Jorge...texto excelente...um grande alerta.
A vida continua...deixamos o corpo, mas continuamos em outra roupagem, no plano que tivermos mais afinidade, do mesmo "jeitinho" que saimos daqui. Acreditar que o fato de desencarnar é eterno descanso, fim dos sofrimentos...pode ser uma grande ilusão...talvez não venha ser bem assim, muito vai depender do que cada um plantou por aqui...sei que posso estar sendo dura, mas, ninguém vira "santo" só porque morreu.. por isso é tão importante nos depurarmos aqui, trabalharmos nosso desenvolvimento ainda na matéria, para que depois os efeitos sentidos sejam em muito minimizados. É nossa a responsabilidade de todas as nossas escolhas, sempre.
Tenha um final de semana maravilhoso...
Beijos no coração...
Valéria

*Teresa Cristina* disse...

Este seu post me fez lembrar ...e o semeador saiu a semear....o que será q estamos semeando??...nunca é demais se indagar, e dentro desta proposta procurar se conhecer e dentro do autoencontro se modificar para evoluir....é preciso amor e humildade, sempre!
bjss

Uman disse...

Maria José, a cada nossa visita, vamos regando a nossa amizade.

Um beijo, Anjo!!!
Jorge

Uman disse...

ValeriaC, doce amiga,

para o outro lado apenas levamos os nossos méritos e deméritos.
Sofrimento lá é consequencia do daqui. E para não se sofrer lá, mudemos aqui a nossa maneira de ser.

Anjo, um super-beijo!!
Jorge

Uman disse...

Teresa,

o que se semeia, se colhe necessariamente. A vida aqui é tão rica de oportunidades de crescermos, que às vezes nos perguntamos porque não queremos crescer. E ainda reclamamos que a dor e o sofrimento em nós não é justo!

Anjo amiga, beijo de luz!
Jorge

Cacau Loureiro disse...

Olá meu amigo, através dos espíritos amigos a gente se encontra não?! Já li tudo de Kardec, e sempre quando releio aprendo coisas novas, tenho uma maior dimensão de suas palavras, ensinamentos; neste mundo "cão" que possamos sempre trazer uma palavra de esperança e otimismo, pois que somente nestas duas vertentes poderemos saber o real sentido da caridade, parabéns pelo blog, o meu forte abraço, bj!

Uman disse...

Cacau, minha amiga,

Ler Kardec é aprender e apreender coisas novas. Nos faz abrir o leque da nossa visão para olharmos a vida com mais compreensão e amor.

Prazer em conhecê-la e obrigado pela sua visita!!!

Com muito carinho,
Jorge

Jeanne disse...

A evolucão da humanidade é muuuuito lenta.
Mas dos espiritas espera-se mais, porque muito será cobrado a quem muito foi dado. Então evangelho na veia! Evangelhoterapia...
Beijos

Mara Virginia disse...

Olá, adorei o texto, obrigada por compartilhar, bnjos fraternos

Uman disse...

Jeanne, minha amiga,

é lenta mesmo. Na Natureza nada dá saltos e se sobe degrau a degrau em todos os sentidos. Inclusive e principalmente a nossa evolução.

Anjo, beijo, com todo carinho!!
Jorge

Uman disse...

Mara,

eu que agradeço pela tua visita sempre tão gratificante.

Um super beijo, minha amiga!
Jorge

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