domingo, 18 de abril de 2010

CRISTIANISMO SEM O CRISTO E O ESPIRITISMO



(10.04.10)

Atualmente, muitos religiosos se enfrentam ferozmente. São os judeus e palestinos que se matam; são os seguidores de Buda e hinduistas quem se mantêm em luta milenar; são pseudocristãos que se aniquilam em guerras absurdas, como se a Bíblia, o Evangelho, o Bhagavad Gita e o Alcorão fossem manuais de violência e, não, roteiro de iluminação espiritual.

A defecção moral, da atual liderança religiosa, demonstra que a moralidade pregada reverbera como "melosa e hipócrita", como disse Nietzsche. Sem líderes religiosos honestos, as propostas religiosas afastam pessoas, que sabem pensar, do sentimento de religiosidade superior e dão margem a que surjam críticos vigilantes, que desnudam seus erros, esmaecendo a esperança de almas primárias para a legítima fé.

Historicamente, sabemos que Sigmund Freud colocou, na berlinda, antigos e violentos conceitos CRISTÃOS e "afirmou ser o Cristianismo um movimento inútil, um infantilismo das massas." (1) O pai da psicanálise fez, das crenças, meros paliativos para neuroses individuais. O materialista Karl Marx, ao conhecer os "cristãos" (não o Cristo!), em sua profunda indignação, afirmou que o Cristianismo era o "ópio do povo" (2), ou seja, uma emanação do sistema de exploração da massa (capitalismo).

Embora a Igreja Romana e as seitas protestantes reivindiquem a herança do Cristianismo dos primeiros cristãos, que seguiam mais de perto os ensinamentos do Cristo, esse Cristianismo puro já não existe há muitos séculos. O Cristianismo, que talvez exista em nossa sociedade, é, apenas, residual.

O legítimo Cristianismo não chegou ao Século IV, exatamente, como em seus primeiros tempos, todavia, foi nesse período, sobretudo no Concílio de Nicéia, que recebeu um golpe de misericórdia. A partir de então, o decadente Império de Roma passou a reconhecer a Igreja oriunda desse Concílio, que, logo, tornou-se a religião oficial dos romanos, por decisão do Imperador Constantino e obrigatória, tanto para um terço dos cristãos, quanto para dois terços dos não-cristãos (bárbaros) do Império.

O Cristianismo entrou em um mundo no qual nenhuma religião, até então, havia penetrado com tanta força. Nesses dois mil anos de dominação cristã, no Ocidente, vimos "uma fé caolha", aliás, uma fé ser diluída, corrompida, deformada, e metamorfoseada em outra coisa, senão, negar a essência original, o Cristo.

Foram dois mil anos de busca desenfreada do poder, de privilégios, de controle de reis e de príncipes, de usos e abusos da máquina pública em seu próprio favor, sempre, aliando-se ao que haveria de vencer. A História registra que muitos colocaram as máscaras de cardeais, arcebispos, bispos, sacerdotes e pastores, a fim de se esconderem, enquanto faziam atrocidades inimagináveis contra o próximo. O Cristianismo, sem Cristo, exerceu controle sobre a massa, cobrando impostos através dos dízimos; controle sobre os homens, promovendo o medo pelas punições eternas e temporais; controle sobre a devoção, manipulando esses sentimentos, transformando-os em um suposto temor a Deus.

Atualmente, estamos assistindo ao surgimento de u'a máquina pseudorreligiosa. Máquina, como nunca fora criada antes. Máquina de comunicação, de manipulação do "sagrado", de venda de favores divinos ("milagres"), de hipnotização das pessoas ao poder e máquina que transforma a população, sem instrução, em um "rebanho de alienados". Apropriou-se, indevidamente, do nome de Jesus para ludibriar os fiéis, mantendo Maquiavel como mentor dos seus preceitos ambiciosos. Nessa atrofia religiosa, eis que surge a Doutrina Espírita, propondo a reconstrução do edifício desmoronado da fé, exaltando a verdadeira moral do Cristo que, durante séculos, permaneceu perdida, precisando, mais que nunca, ser preservada. Com o Espiritismo, Jesus ressuscita das cinzas desse "igrejismo" decadente e é entronizado como meigo condutor dos sentimentos, cujas valiosas lições de amor brilham como archote transcendente de verdades perenes.

O espírita, para colaborar na definitiva transformação moral do planeta, precisa pautar-se pelo desapego, pela humildade, pela simplicidade, lembrando, aos comprometidos com a tarefa de "unificação", que não será com construções de Centrões Espíritas luxuosos; com disputas de cargos para militância político-partidária; com brigas por cargos de destaque na Casa Espírita; com o vedetismo nas tribunas; com as questiúnculas dos simpósios e congressos "grandiosos", atualmente, vilmente, industrializados; ou, furtando-se ao estudo de Kardec e ao serviço da caridade, que iremos mudar a opinião de agentes formadores de opinião, seguidores de Freud, Marx, Nietzsche e outros.

Todos nós necessitamos palmilhar pela fé racional, a fim de compreendermos melhor o Espiritismo, todavia, reconhecemos, também, que não é a destruição inapelável dos símbolos religiosos aquilo de que mais necessitamos para fomentar a harmonia e a segurança entre as criaturas, mas, sim, a nova interpretação deles, até porque, "sem a religião, orientando a inteligência, cairíamos, todos, nas trevas da irresponsabilidade, com o esforço de milênios, volvendo, talvez, à estaca zero, do ponto de vista da organização material da vida do Planeta." (3)


FONTES:
(1) Freud Sigmund. O Futuro de uma Ilusão, Rio de Janeiro: Editora Imago, 1997
(2) Marx Karl. O Capital, São Paulo: Ed. Centauro, 1997
(3) Mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, em Uberaba/MG, na tarde de 18/08/71, para a reportagem da revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro, publicada na edição de 1/09/71.



endereço: http://jorgehessen.net/
imagem: dasalado trono.blogspot.com



12 comentários:

ValériaC disse...

Jorge querido, excelente texto do Prof. Jorge Hessen...infelizmente quem sempre "estragou" tudo, foram homens sedentos de poder, manipuladores de um povo e sua "ignorância".
Por conta disso, as diferentes igrejas em muito caíram em descrédito.
E muitos vistos como intelectuais, julgaram de maneira equivocada, no caso do Cristianismo, mal dizendo Cristo. No entanto, Cristo é modelo perfeito, quem sempre se disse agindo em seu nome , que fez erro atrás de erro.
Por fim, a Doutrina Espírita vem como uma bela proposta Cristã, de simplicidade, caridade, paz, Amor, enfim...algo que ao meu ver se parece mais com o exemplo deixado por Jesus.
Amo a doutrina e a sigo, seguindo ao máximo o que Jesus nos ensinou.
Boa semana amigo!!!
Beijos...

Uman disse...

ValeriaC, grande amiga!!

O problema, como sempre, são os homens. As religiões são boas, o problema são aqueles que as seguem. Pela dificuldade de se reformar intimamente, buscam modificar ou ter a própria visão da religião que seguem. Daí, as barbáries que falam e fazem em nome de uma religião que nada tem de religião.

Anjo, um doce beijo,
Jorge

Maria José disse...

Jorge, meu querido amigo. Um centro espírita é um grupo coordenado por várias pessoas, que devem pautar sua conduta nos preceitos do Evangelho de Jesus. As pessoas que ali trabalham devem estar sempre orando e vigiando, para não serem instrumento da maldade de espíritos infelizes. Há pessoas que, por se sentirem mais fortes, decisivas e poderosas que as outras, e algumas, por apresentarem grande mediunidade, embriagam-se com a ilusão do poder, desrespeitando os direitos alheios. Onde há seres humanos, e mesmo que seja numa Casa Espírita, existe orgulho e vaidade. Mais importante que se preocupar com aqueles que ainda não aprenderam a lição socrática da humildade intelectual, é continuar a estudar a Doutrina, a praticar a caridade e a seguir os mandamentos de Jesus. Este post é fundamental para todos nós Espíritas. Parabéns pela publicação e pelo compartilhamento desse conhecimento. Beijos e tenha uma semana feliz.

Monografia Espírita disse...

Excelente post!!! Realmente é muito difícil observar que há um longo caminho ainda para que a Verdade conquiste o mundo inteiro.

E quando digo Verdade, não ouso resumir a mesma como sendo o Espiritismo a única linguagem, já que muitas outras doutrinas e filosofias, apesar de não tão claramente, já apontaram o caminho, e ainda o fazem, brilhantemente.

Até porque, como no próprio texto, o que muda é o entendimento da Verdade, através da criação de símbolos, que podem e devem ser interpretados.

Um abraço


É duro constatar que a culpa reside ainda em nosso nível médio de evolução, já que a máquina religiosa de dominação sempre existiu, mas que tem agora meios mais amplos de disseminação.

Como se deixa notar no texto, creio que o exemplo é a melhor forma de pregação. O verdadeiro Espiritismo realmente é simples, humilde e perseverante.

Mais uma vez, congratulações

*Teresa Cristina* disse...

"É indispensável manter o Espiritismo, qual foi entregue pelos Mensageiros Divinos a Allan Kardec, sem compromissos políticos, sem profissionalismo religioso, sem personalismos deprimentes, sem pruridos de conquista a poderes terrestres transitórios." (Bezerra de Menezes)...É td tão simples....basta amor, humildade, sem em tds os aspectos de nossa caminhada mantivermos realmente a vontade de aprender, auxiliar e diante desta proposta...se transformar .
Lindo post, obg por compartilhar.
Ótima semana pra vc!
Bjs

Uman disse...

Maria José,

O Espiritismo não pode ser destruido por forças externas. O mesmo não se pode dizer de forças internas. Porque a Doutrina é sólida, construida pelo bom-senso, lógica, racional nos mostrando que a fé precisa ser raciocinada, ou melhor dizendo, conscientizada. Somos ainda orgulhosos, é fato, e o conhecimento pode estimular a isso massageando o nosso ego; então o que fazer? Jesus nos trouxe o roteiro. Mas este roteiro não apenas a prática do bem externo, mas começando, aceitando e fortalecendo o Amor em nós. Creio que isso é desenvolver a plena consciência, que fará dos Espíritas, cristãos como o eram no início.

Anjo, um beijo de luz!
Jorge

Uman disse...

Amigo Monógrafo

A verdade é absoluta apenas com o Pai; a nossa verdade é sempre relativa e quanto mais próximo da verdade divina, mais estamos evoluindo. Se olharmos para trás, o homem evoluiu, basta olhar a lei civil de hoje e comparar com leis antigas. Mas, o homem desenvolveu principalmente no campo da inteligência deixando a parte moral para trás. Creio que a resposta disso é porque a inteligência é mais fácil de se alcançar, mas a da moral, precisa-se se conhecer antes (Sócrates já dizia isso a 2500 anos)e isso leva a saber quem é, o que é, e como é o seu caráter e personalidade, com consciência. O que ocorre no campo da religião é isso. O domínio do homem e não das palavras do Cristo, ou de Missionários que vieram antes ou mesmo depois. Foi deixado para trás a religiosidade que iguala as religiões na sua verdade, no seu objetivo valrizando mais os egos dos supostos mensageiros de Deus.
Até quando a humanidade suportará isso? Não sei realmente. Mas para modificar, o homem deve-se modificar antes.

Amigo, um forte abraço
Jorge

Uman disse...

Teresa,

pode ser tudo simples, mas gostamos de complicar, ao invés de simplificar, não é?
Acabamos chegando a conclusão que o homem é o responsável pelo que acontece e somente ele pode modificar. A religião, em realidade devia ser aquele que mostra o caminho mais simples para o Pai; mas se se tem o poder de magnetizar multidões, vai seguir a sua própria maneira de ser, ou seja, a seu favor.
Esperemos que o Espiritismo não siga este caminho tão tortuoso, mas já vemos estes sintomas à vista.
Jorge Hessen foi muito feliz neste texto para nossa reflexão, mas também nos indagando o que estamos fazendo da nossa religiosidade.

Minha amiga, um beijo de luz!!
Jorge

Marcia disse...

O compromisso com a Doutrina que abracamos é imenso, verdadeiramente muito grande, e isto significa muita reforma íntima, oracao e observacao se de fato quizermos passar os verdadeiros ensinamentos Cristaos.
Recordo-me de um excelente palestrante que veio do Brasil e nos falou abertamente que é uma verdadeira luta contra a vaidade intelectual que se tem que travar, e que ele próprio sofre deste mal, sendo que antes quando ele nao possuía tanto conhecimento ele era simples.
Aqui especialmente onde estamos tentando divulgar o Espiritismo a nossa responsabilidade é ainda maior perante a fidelidade da doutrina. Também temo pela elitizacao do Espiritismo, visto que, as vezes para participarmos de determinados eventos temos que desembolsar valores considerados altos. Depois de tanto descrédito das religioes tradicionais, o Espiritismo é a nossa esperanca para a ajudar na transformacao do homem e dos seus vícios e, fortalecer-nos neste momento de transicao. Recordemos que a alma do Cristianismo puro estava na plenitude da força, do entusiasmo, nas cidades de Nazaré, Jericó, Cafarnaum, Betsaida, dentre outras, e era diferente daquele Cristianismo das querelas de Jerusalém. Tomemos por exemplo pois hoje por causa disso, diferentes igrejas e religioes caíram no descrédito.
Respeito muito e admiro o Professor Jorge Hessen pela sua coerência e firmeza para tratar determinados assuntos.

Marcia disse...

Olá amigo bom dia!
Agora lendo o seu comentário acima, quero dizer que concordo com você, qdo diz que já vemos estes sintomas a vista.... Aqui, já vemos uma certa sofisticacao nas palestras; até tenho saudades das palestras aí do Brasil, onde o palestrante tira as palavras e os exemplos a passar do seu coracao. Numa certa oportunidade, senti-me constrangida ao ser convidada para fazer uma prelecao, pois eu nao conseguia me concentrar e ao mesmo tempo utilizar o computador para projetar imagens e textos. "Entao fiquei ultrapassada."
Você disse tudo:...o caminho mais simples para o Pai.
Beijos

Marcia disse...

Olá amigo bom dia!
Agora lendo o seu comentário acima, quero dizer que concordo com você, qdo diz que já vemos estes sintomas a vista.... Aqui, já vemos uma certa sofisticacao nas palestras; até tenho saudades das palestras aí do Brasil, onde o palestrante tira as palavras e os exemplos a passar do seu coracao. Numa certa oportunidade, senti-me constrangida ao ser convidada para fazer uma prelecao, pois eu nao conseguia me concentrar e ao mesmo tempo utilizar o computador para projetar imagens e textos. "Entao fiquei ultrapassada."
Você disse tudo:...o caminho mais simples para o Pai.
Beijos

Uman disse...

Márcia, Anjo Luz

Estamos sofisticando e não sei realmente aondo isso nos leva. Uma coisa eu acredito que sei: mexe-nos no orgulho e mesmo porque com tecnologias não precisamos estudar tanto o tema do que a tecnologia em si.

Grande amiga, permita-nos Deus não perdermos o ensejo de crescer com a nossA doutrina que é uma alavanca e um suporte pra tanto. Que possamos simplificar ao invés de complicar.

Um beijo, de luz, em teu coração!!!
Jorge

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