
segunda-feira, 21 de março de 2011
A FAMÍLIA COMO INSTRUMENTO DE REDENÇÃO ESPIRITUAL

sábado, 10 de abril de 2010
UM DISCURSO DE ALLAN KARDEC

"NA COLEÇÃO DA REVISTA ESPÍRITA HÁ TRECHOS DE PROFUNDO ENSINAMENTO SOBRE ASSUNTOS DOUTRINÁRIOS IMPORTANTES, QUE ATÉ PARECE QUE FORAM ESCRITOS HOJE POR ALLAN KARDEC".
A Revista Espírita (Revue Spirite), cujo primeiro número saiu no dia 1° de janeiro de 1858, e que se chamou igualmente, Jornal de Estudos Psicológicos, é um repositório doutrinário de alto valor histórico e cultural para o conhecimento do Espiritismo. Nenhuma fonte de consulta, no que diz respeito ao verdadeiro pensamento da Doutrina Espírita, além da própria Codificação, poderia ser mais fiel e mais autorizada. Pena é que muita gente não leia. Se há, realmente, quem não leia porque não pode, não tem ambiente nem tempo, também há quem não goste de ler, ainda que haja tempo e vagares.
Há tanta coisa importante naquela coleção da Revista. Bastaria, se não fossem outros assuntos, que todos lessem pelo menos o que está no corpo de alguns discursos de Allan Kardec, pondo em foco, em oportunidades diversas, os mais sérios e mais frisantes problemas do Espiritismo, não apenas para aquele momento, mas para o futuro.
Há trechos, por exemplo, que se ajustam inteiramente ao momento atual; até parece que Allan Kardec estava entre nós, vivendo as nossas experiências. Um dessses discursos, que são páginas de profundo e marcante ensinamento, ainda para os espiritas de hoje, foi o de 10 de abril de 1862, na abertura do ano social, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Está na Revista Espírita de junho daquele ano, logo na primeira página. Falando, a certa altura do discurso, sobre o relativo conhecimento que têm os Espiritos desencarnados, porque não possuem toda a sabedoria, como pensam, ingenuamente, certas pessoas, frisou Allan Kardec, muito de propósito, que os Espíritos estão longe de possuir a soberana ciência, e que se podem enganar. É uma verdade pacífica, uma verdade elementar, não há dúviida, mas o certo é que muita gente não admite, nem por sombra, que um espírito possa errar alguma vez ...
A palavra de um Espírito, para algumas categorias de crentes é uma sentença definitiva: "veio do Alto é a verdade, não se discute" Isto é o que se pode chamar, em tudo por tudo, um raciocínio simplista. E com essa simplicidade, que pode ser, às vezes, muito prejudicial à compreensão da própria Doutrina Espírita, certas frases cediças, que não se sabe se vieram realmente do Espírito ou do médium, passam logo a tomar foros de dogma, como se fossem a última palavra, como se fosse a própria sapiência divina. Até mesmo uma frase literária, que apenas soa muito bem aos nossos ouvidos, mas não tem a necessária consistência científica ou filosófica, pelo simples fato de ser de um Espírito, adquire uma importância tal que termina sendo, em suma, um caso de "citação obrigatória".
Tudo isto, afinal de contas, está em desacordo com o verdaadeiro espírito da Doutrina. E bom lembrar, ainda mais, a advertência de que os Espíritos, por vezes, ensina Kardec, "emitem idéias próprias, justas ou falsas". Veja-se bem: idéias próprias, diz o Codificador. A opinião de um espírito seja qual for o médium, seja qual for a categoria desse espirito - é sempre uma opinião própria, não é um princípio doutrinário. E ainda Kardec quem fala: os espíritos superiores querem que o nossso julgamento se exercite em discernir o verdadeiro do falso, aquilo que é racional daquilo que é ilógico. Nada mais sensato, mais oportuno. O problema existe, ainda hoje, os exemplos estão aí.
As palavras de Kardec, que falava em Paris, no ano de 1861, ainda servem, inteiramente, para o momento atual.
A opinião de um Espírito - seja qual for o médium, seja qual for a categoria desse Espirito - é sempre uma opinião própria, não é um princípio doutrinário.
É preciso levar em conta, sempre, que o médium não é um oráculo, como não é um santo: é uma criatura em situação especial na vida, com uma carga pesadíssima de responsabilidade espiritual e humana. Em lugar de se endeusar o médium, querendo fazer dele um ser infalível, como se não fosse também uma criatura humana, sujeita a certos riscos do ambiente terreno, o que se deve fazer é ajudá-lo com assistência espiritual, é apoiá-lo moralmente, evitando que certas idéias perigosas, certas presunções de superioridade ou de santidade lhe penetrem a alma. Devemos orar sempre pelo médium que é um irmão, colocado em posição delicadíssima, a fim de que ele jamais se deixe envolver por influências negativas e seja um instrumento cada vez mais eficiente na missão que a sabedoria divina lhe colocou sobre os ombros.
Não é de hoje que se observa o problema dos melindres no campo mediúnico, prejudicando e desvirtuando muitos médiuns da bendita seara da caridade. Lembremo-nos, como simples ilustração histórica, que já na época de Kardec, e vai para mais de um século. havia uns tantos casos de médiuns que desconfiavam dos outros com medo que lhe fizessem sombra ou lhe apagassem a projeção. O problema vem de muito longe. Isto, na realidade, é uma porta aberta para a desorientação, podendo levar o médium a comprometer gravemente a sua missão ou sacrificar todo o seu passado.
Quando entra qualquer forma ou resquício de suscetibilidade na esfera mediúnica, começa a aparecer também o espírito de concorrência, isto é, o médium A tem receio de que o médium B venha concorrer com ele; o médium C fica prevenido com o médium D, pensando que o outro venha a suplantá-lo e assim por diante. Muitas vezes os problemas ocorrem por culpa dos comportamentos exagerados, que formam partidos ou alas no campo mediúnico, jogando um médium contra outro. Quem o maior prejudicado? O próprio médium, não é verdade? Quem sofre com ísto: A própria causa espírita, que perde, assim, um instrumento produtivo.
Quando o médium chega a ponto de não aceitar críticas nem advertências sensatas e amigas, naturalmente já está fora das verdadeiras diretrizes da misssão mediúnica. Para rematar, vamos reproduzir, aqui, mais uma oportuníssima observação de Allan Kardec, no magistral discurso de 1862: como discutir comunicações com médiuns que não suportam a menor controvérsia, que se melindram com uma observação crítica, com uma simples observação e acham mau que não se aplaudam as coisas que recebem, mesmo aquelas inçadas de grosseiras heresias cientificas? Eis, aí, uma advertência ainda necessária, porque o problema se repete, ainda hoje, e a cada passo de nosso movimento.
Se a comunicação é do Espírito, pois o médium é apenas instrumento, não há motivo para qualquer indisposição ou mágoa do "aparelho mediúnico" diante das criticas, especialmente quando as criticas são construtivas e caridosas. Vem, por fim, nova e judiciosa observação do Codificador: Disso resulta que o médium que se acha em tais disposições está sob o império de um Espírito que merece pouca confiança, desde que mostra mais orgulho do que saber. Deixemos o resto do discurso de Allan Kardec para outros comentários, naturalmente quando houver oportunidade. A fonte está ai, já traduzída para a nossa língua, e, portanto, aberta a qualquer pessoa que se interesse pelo assunto. Seria bom, na realidade, que o maior número possível de espíritas, simpatizantes e principiantes lesse a preciosa coleção da Revista Espírita.
Não nos esqueçamos de que o médium precisa ser livre para ouvir e julgar as crííticas que se lhe fazem e, por isso mesmo, o médium não pode ficar preso a uma instituição, nem a um grupo nem a uma pessoa, como se fosse propriedade particular. O médium precisa mais de oração e solidariedade espiritual do que propriamente de aplausos ou de preferências incondicionais. E' um erro querer transformar o médium em motivo de puro vedetismo. A experiência que o diga.
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quarta-feira, 3 de março de 2010
ESTUDOS ESPÍRITAS - AMOR

Conceito - Múltiplas, através dos tempos, hão sido as conceituações do amor. Variando desde as exaltações grandiloqüentes aos excelsos ideais da Humanidade, tem descido aos mais vis estágios da sensualidade desgovernada e criminosa.
Inspirando guerras de religião, como devotamento a Deus, ou levantando Nações contra agressores infelizes, sua mensagem tem transitado das explosões bárbaras às culminâncias da santificação.
Para uns significa o alvo legítimo das nobres emoções do sentimento elevado; para outros é impulso grotesco da carne, em conúbio com a ambição desatrelada e a posse insaciada.
Empédocles, por exemplo, motivado pela vitalidade poderosa do amor, definiu-o como sendo a "força que preside à ordem no mundo", incidindo, sem dúvida, no conceito de que a Divindade é amor, enquanto a Criação resulta de um ato de amor. Já Heráclito, desapercebido da transcendência do amor, informava que o amor tem como estímulo os contrastes, sem mais significativas conseqüências. Sócrates, na sua doutrina Maiêutica, distinguia-o pela feição divina - aquela que reúne todos e tudo - e pela expressão vulgar - como corrupção, aquela que abastarda os homens e os vence inexoravelmente.
A doutrina hedonista, de Epicuro, não conseguiu situá-lo além das exigências de natureza fisiológica e sensual, animalizando-o apenas.
Zenão tomou-o pelo ideal de beleza, que engendra a força estóica da libertação dos sentidos mais grosseiros, elevando o ser.
Plutarco descobriu-lhe as exteriorizações em forma de paixão arrastadora como de fervor enobrecido.
Os modernos pensadores da linhas utilitaristas, os sensualistas e existencialistas reduzem-no ao apetite sexual, desconcertando o equilíbrio dos centros genésicos, e, estimulados pela idéia da libido freudiana, não fazem honesta distinção entre o fator eminentemente reprodutor no uso do sexo e a perversão do abuso, no prazer anestesiante das imposições grandulares.
Os santos, os heróis da abnegação, os apóstolos da Ciência, da Arte, do Humanismo e da Fé; no entanto, nele encontraram sempre o élan de enobrecimento e a força superior que os sustentaram nas ingentes batalhas que empreenderam pela beleza, pela vida, pelo progresso, pelo engrandecimento dos homens.
Jesus exalçou-o à maior culminância, lecionando-o pela vivência e assim reformulando os ideais e os conceitos éticos até então vigentes, conclamando a que todos se amassem, mesmo em relação com os inimigos e verdugos, por serem exatamente esses os mais carecentes da força persuasiva e poderosa do amor.
Com a dinâmica do amor, Ele revitalizou as esperanças humanas e inaugurou um reino ideal de paz e fraternidade, que lentamente, vem dominando a Terra, fazendo desde agora antever-se a possibilidade de felizes e prósperos dias para todas as criaturas do futuro.
O amor, sem dúvida, é hábito divino fecundando a vida, pois que, sem o amor, a Criação não existiria.
Nos vórtices centrais do Universo o amor tem caráter preponderante como força de atração, coesão e repulsão que mantém o equilíbrio geral.
Desenvolvimento - Um estudo filosófico do amor apresentando-o sob dois aspectos a considerar: o que procede das tendências eletivas e o das inclinações domésticas. No primeiro grupo estão as expressões do ideal ou manifestações platônicas, o que dimana da razão, o sensual, o fisiológico... E no outro, os da consangüinidade, tais: o amor familial, o conjugal...
O amor por eleição procede das fontes íntimas do sentimento e se expressa na oscilação variável dos impulsos imediatos, desde a brutalidade, em que se exterioriza, animalizado, até às excelentes manifestações do fervor estético e estésico, em que se sublima, nas culminâncias da santidade.
Desse modo, mesmo quando enlouquecido, enseja experiência de aprimoramento, transitando do campo das formas para as rutilâncias da renunciação.
Assim, o egoísmo, que se traduz como amor ao próprio eu, é enfermidade de largo porte, em cujo campo medram problemas e desaires de complexidades diversas.
A ambição resulta do desconcerto do amor, que desvaira.
A calúnia traduz a loucura do amor.
A renúncia representa a sublimação do amor.
A fraternidade exterioriza o amor que se espraia.
A autodoação manifesta o amor que encontrou Deus e se oferece ao próximo.
Há sempre lugar e oportunidade para o elevado exercício do amor. Inserto no espírito por herança divina, revela-se a princípio como posse que retém, desejo que domina, necessidade que se impõe, a fim de agigantar-se, logo depois, em libertação do ser amado, compreensão ampliada, abnegação feliz, tudo fazendo por a quem ama, sem imediatismo, nem tormento, nem precipitação. Sabe esperar, consegue ceder, lobriga entender sempre e sempre desculpar.
O amor é tudo. Resume-se em amar.
O trânsito das exteriorizações em que se expressa é caminho para as suas próprias culminâncias.
Jesus e Amor - Quantos O precederam na condição de Seus embaixadores, compreenderam-lhe o impositivo e alguns tentaram vivê-lo. Muitos que vieram depois, sob
Sua inspiração, conseguiram exemplificá-lo. Foi, porém, Ele quem o atingiu na mais pura exteriorização, fazendo de todas as suas horas, palavras, pensamentos e ações, atos de amor.
Grassando a hediondez da brutalidade, a se traduzir pela violência da força e mediante a vilania da corrupção, Sua vida é uma resposta aos vencedores-vencidos em si mesmos, mantendo inalterada serenidade, com absoluto desinteresse pelas ilusões da transitoriedade física, de tal modo característica e real que reformulou o código vigente e reestruturou o pensamento dos dias porvindouros.
Amou os não amados sem se preocupar com os perseguidores dos fracos, fracos que também são em si mesmos.
Amou os vencidos sem recear os seus escravizadores, a seu turno escravos de outros senhores, que podem ser: paixões, posições ou engodos.
E quando instalou o primado do amor na Terra, deixou-se crucificar para adubar o solo das almas com o seu sacrifício, como a dizer que no amor se encontram o princípio e o fim de tudo e de todas as criaturas.
Estudo e Meditação:
"O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejáramos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos. (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 886)
"O amor é de essência divina e todos vós, do primeiro ao último, tendes, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado. É fato, que já haveis podido comprovar muitas vezes, este: o homem, por mais abjeto, vil e criminoso, que seja, vota a um ente ou a um objeto qualquer viva e ardente afeição, à prova de tudo quanto tendesse a diminuí-la e que alcança, não raro, sublimes proporções." (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. XI, item 9.)
Texto extraído do livro Estudos Espíritas, de Divaldo Pereira Franco pelo espírito de Joanna de Ângelis.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
A FAMÍLIA COMO INSTRUMENTO DE REDENÇÃO ESPIRITUAL

Autores: Deolindo Amorim e Hermínio C. Miranda.
... Reconcilia-te com o teu adversário – advertiu Cristo – enquanto estás a caminho com ele.
E não é precisamente no círculo aconchegante da família que estamos a caminho com aquele que a nossa insensatez converteu em adversário?
O espiritismo coloca, pois, sob perspectiva inteiramente renovada e até inesperada, além de criativa e realista, a difícil e até agora inexplicável problemática do inter-relacionamento familial. Se um membro de nossa família tem dificuldades em nos aceitar, em nos entender, em nos amar, podemos estar certos de que tais dificuldades foram criadas por nós mesmos num relacionamento anterior em que as nossas paixões ignoraram o bom senso.
- E a repulsão instintiva que se experimenta por algumas pessoas, donde se origina? Perguntou Kardec aos seus instrutores (LIVRO DOS ESPÍRITOS, Pergunta 389).
- São espíritos antipáticos que se adivinham e reconhecem, sem se falarem.
O ponto de encontro de muitas dessas antipatias, que necessitam do toque mágico do amor e do entendimento, é a família consangüínea, célula de um organismo mais amplo que é a família espiritual, que por sua vez, é a célula da instituição infinitamente mais vastas que são a família mundial e, finalmente, a universal.
A Doutrina considera a instituição do casamento como instrumento do “progresso na marcha da humanidade” e, reversamente, a abolição do casamento como “uma regressão à vida dos animais”. (Questões 695 e 696, de O LIVRO DOS ESPÍRITOS). Como vimos há pouco, é também essa a opinião dos cientistas especializados responsáveis.
Ao comentar as questões indicadas, Kardec acrescentou que – “O estado de natureza é o da união livre e fortuita dos sexos. O casamento constitui um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna e se observa entre todos os povos, se bem que em condições diversas”.
No que, mais uma vez, estão de acordo estudiosos do problema do ponto de vista científico e formuladores e divulgadores da Doutrina Espírita.
Isto nos leva à delicada questão do divórcio, reconhecido como uma das principais causas desagregadoras do casamento e, por extensão, da família.
O problema da indissolubilidade do casamento foi abordado pelos Espíritos, de maneira bastante sumária, na Questão nº. 697. Perguntados sobre se “Está na lei da Natureza, ou somente na lei humana a indissolubilidade absoluta do casamento”, responderam na seguinte forma:
- É uma lei muito contrária à da Natureza. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis.
O que, exatamente, quer dizer isso?
Em primeiro lugar, convém chamar a atenção para o fato de que a resposta foi dada no contexto de uma pergunta específica sobre a indissolubilidade absoluta. Realmente, a lei natural ou divina não impõe inapelavelmente um tipo rígido de união, mesmo porque o livre arbítrio é princípio fundamental, direito inalienável do ser humano. “Sem o livre arbítrio – consta enfaticamente da Questão nº. 843 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS – o homem seria máquina”.
A lei natural, por conseguinte, não iria traçar limites arbitrários às opções humanas, encadeando homens e mulheres a um severo regime de escravidão, que poderá conduzir a situações calamitosas em termos evolutivos, resultando em agravamento dos conflitos, em lugar de os resolver, ou pelo menos atenuá-los.
Ademais, como vimos lembrando repetidamente, o Espiritismo não se propõe a ditar regras de procedimento específico para cada situação da vida. O que oferece são princípios gerais, é uma estrutura básica, montada sobre a permanência e estabilidade de verdades testadas e aprovadas pela experiência de muitos milênios. Que dentro desse espaço se movimente a criatura humana no exercício pleno de seu livre arbítrio e decida o que melhor lhe convém, ante o conjunto de circunstâncias em que se encontra.
O casamento é compromisso espiritual previamente negociado e acertado, ainda que nem sempre aceito de bom grado pelas partes envolvidas. São muitos, senão maioria, os que se unem na expectativa de muitos anos de turbulência e mal-entendidos porque estão em débito com o parceiro que acolhem, precisamente para que se conciliem se ajustem, se pacifiquem e se amem ou, pelo menos, se respeitem e estimem.
Mergulhados, porém, na carne, os bons propósitos do devedor, que programou para si mesmo um regime de tolerância e autocontrole, podem falhar. Como também pode exorbitar da sua desejável moderação o parceiro que vem para receber a reparação, e em lugar de recolher com serenidade o que lhe é devido (e outrora lhe foi negado) em atenção, apoio, segurança e afeto, assume a atitude do tirano arbitrário que, além de exigir com intransigência o devido, humilha, oprime e odeia o parceiro que, afinal de contas, está fazendo o possível, dentro das suas limitações, para cumprir seu compromisso. Nesses casos, o processo de ajuste – que será sempre algo difícil mas poderá desenrolar-se em clima de mútua compreensão – converte-se em vingança irracional.
Numa situação dessas, mais freqüentes do que poderíamos supor, a indissolubilidade absoluta a que se refere a Codificação seria, de fato, uma lei antinatural. Se um dos parceiros da união, programada com o objetivo de promover uma retificação de comportamento, utilizou-se insensatamente da sua faculdade de livre escolha, optando pelo ódio e a vingança, quando poderia simplesmente recolher o que lhe é devido por um devedor disposto a pagar, seria injusto que a lei recusasse a este o direito de recuar do compromisso assumido, modificar seus termos, ou adiar a execução, assumindo, é claro, toda as responsabilidades decorrentes de seus atos, como sempre, aliás.
A lei divina não coonesta a violência que um parceiro se disponha a praticar sobre o outro. Além do mais, a dívida não é tanto com o indivíduo prejudicado quanto com a própria lei divina desrespeitada. No momento em que arruinamos ou assassinamos alguém, cometemos, claro, um delito pessoal de maior gravidade. É preciso lembrar, contudo, que a vítima também se encontra envolvida com a lei, que, paradoxalmente, irá exibir a reparação da falta cometida, não para vingá-la, mas para desestimular o faltoso, mostrando-lhe que cada gesto negativo cria a sua matriz de reparação. O Cristo foi enfático e preciso ao ligar sempre o erro à dor do resgate. “Vai e não peques mais, para que não te aconteça coisa pior”, disse ele.
Não há sofrimento inocente, nem cobrança injusta ou indevida. O que deve paga e o que está sendo cobrado é porque deve. Assim a própria vítima de um gesto criminoso é também um ser endividado perante a lei, por alguma razão concreta anterior, ainda que ignorada. Se, em lugar de reconciliar-se, ela se vingar, estará reabrindo sua conta como novo débito em vez de saldá-la.
A lei natural, portanto, não prescreve a indissolubilidade mandatária e absoluta do casamento, como a caracterizou Kardec na sua pergunta. Conseqüentemente, a lei humana não deve ser mais realista do que a outra que lhe é superior; deve ser flexível, abrindo espaço para as opções individuais do livre arbítrio.
Isso, contudo, está longe de significar uma atitude de complacência ou de estímulo à separação dos casais em dificuldades. O divórcio é admissível, em situações de grave conflito, nas quais a separação legal assume a condição de mal menor, em confronto com opções potencialmente mais graves que projetam ameaçadoras tragédias e aflições imprevisíveis: suicídios, assassinatos, e conflitos outros que destroem famílias e acarretam novos e pesados compromissos, em vez de resolver os que já vieram do passado por auto-herança.
Convém, portanto, atentar para todos os aspectos da questão e não ceder precipitadamente ao primeiro impulso passional ou solicitação do comodismo ou do egoísmo. Dificuldades de relacionamento são mesmo de esperar-se na grande maioria das uniões que se processam em nosso mundo ainda imperfeito. Não deve ser desprezado o importante aspecto de que o casamento foi combinado e aceito com a necessária antecipação, precisamente para neutralizar diferenças e dificuldades que persistem entre dois ou mais Espíritos.
O que a lei divina prescreve para o casamento é o amor, na sua mais ampla e abrangente conotação, no qual o sexo é apenas a expressão física de uma profunda e serena sintonia espiritual. Estas uniões, contudo, são ainda a exceção e não a norma. Ocorre entre aqueles que, na expressão de Jesus, Deus juntou, na imutável perfeição de suas leis. Que ninguém os separe, mesmo porque, atingida essa fase de sabedoria, entendimento e serenidade, os Espíritos pouco se importam de que os vínculos matrimoniais sejam indissolúveis ou não em termos humanos, dado que, para eles vige a lei divina que já os uniu pelo vínculo supremo do amor.
Em suma, recuar ante uma situação de desarmonia no casamento, de um cônjuge difícil ou de problemas aparentemente insolúveis é gesto e fraqueza e covardia de graves implicações. Somos colocados em situações dessas precisamente para resolver conflitos emocionais que nos barram os passos no caminho evolutivo. Estaremos recusando exatamente o remédio prescrito para curar mazelas persistente que se arrastam, às vezes, por séculos ou milênios aderidas à nossa estrutura espiritual.
A separação e o divórcio constituem, assim, atitudes que não devem ser assumidas antes de profunda análise e demorada meditação que nos levem à plena consciência das responsabilidades envolvidas.
Como escreveu Paulo com admirável lucidez e poder de síntese.
_ “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”.
O Espiritismo não é doutrina do não e sim da responsabilidade, Viver é escolher, é optar, é decidir. E a escolha é sempre livre dentro de um leque relativamente amplo de alternativas. A semeadura, costumamos dizer, é voluntária; a colheita é que é sempre obrigatória.
É no contexto da família que vem desaguar um volume incalculável de conseqüências mais ou menos penosas resultantes de desacertos anteriores, de decisões tomadas ao arrepio das leis flexíveis e, ao mesmo tempo, severas, que regulam o universo ético em que nos movimentamos.
Para que um dia possamos desfrutar o privilégio de viver em comunidades felizes e harmoniosas, aqui ou no mundo póstumo, temos de aceitar, ainda que relutantemente, as regras do jogo da vida. O trabalho da reconciliação com espíritos que prejudicamos com o descontrole de nossas paixões, nunca é fácil e, por isso, o comodismo nos empurra para o adiantamento das lutas e renúncias por onde passa o caminho da vitória.
Como foro natural de complexos problemas humanos e núcleo inevitável das experiências retificadoras que nos incumbe levar a bom termo, a família é instrumento da redenção individual e, por extensão, do equilíbrio social.
Não precisaria de nenhuma outra razão para ser estudada com seriedade e preservada com firmeza nas suas estruturas e nos seus propósitos educativos.
endereço: http://www.oespiritismo.com.br/textos/ver.php?id1=125
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