sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ESPIRITISMO E JUÍZO CRÍTICO


O que notabilizou Kardec no trabalho de codificação da Doutrina Espírita foi o bom senso. No estudo dos fenômenos mediúnicos, empregou o rigor científico. Observou, analisou, experimentou - de maneira cautelosa e racional – toda a fenomenologia espiritual. Sabiamente, e colocando à frente a inteligência lógica, elaborou suas teorias, hipóteses, e teses, até atingir o consenso que se traduz na conclusão. Deliberada e desapaixonadamente, empregou o juízo crítico para comprovar os fatos mediúnicos que se desencadeavam.

Estudioso desapaixonado – imprimiu um tom de imparcialidade como pesquisador lúcido – elaborou uma seqüência lógica e racional, e que estratificou o corpo doutrinário, preparando-o para a prospecção filosófica ampla que a Doutrina oferece. Sensível e penetrável – deixou-se envolver pelos exemplos vividos pela figura humana e soberanamente humanística de Jesus.

Em momento algum vimos Kardec impregnado pela paixão sentimentalista e cega. Tampouco captamos nele uma emotividade doutrinária neurótica ou abstracionista. Muito menos a idéia presunçosa de ser o detentor da verdade. Jamais agiu de forma a catequizar quem quer que seja. Não! Absolutamente! Nele não havia o desejo de atrair adeptos através de proselitismo, que é, indiscutivelmente, uma forma de fanatismo. Ele andava à procura da verdade dos fatos. Apenas a verdade cristalina o interessava.

Não é assim tão fácil decodificar Kardec. Interpretar as palavras de Kardec é muito difícil porque exige uma conduta intelectual de atenção e perspicácia. Antes de tudo, necessário se torna “aprender a aprender” Kardec, e a “compreender a compreender” Kardec. Ele representa o estágio de consciência do espírita maduro. Isso porque acreditamos que todo espírita passa por três fases durante o percurso pela Doutrina. Essas fases representam o tipo de interação do espírita com o espiritismo. Se não vejamos e analisemos friamente. A primeira fase é marcada por um comportamento um tanto quanto “infantil”. O recém-chegado começa a frequentar um centro e recebe as instruções necessárias e básicas. A segunda fase é definida como sendo a fase da “adolescência” espírita. O integrante da Doutrina está entumescido e maravilhado pelo que a Doutrina oferece. E a terceira fase, e mais difícil de ser atingida, é aquela caracterizada pela “maturidade” espírita. Nessa fase, o militante da doutrina de Kardec passa a praticar um espiritismo maduro, que tem como características o bom senso e o juízo crítico de Kardec, naturalmente.

Segundo palavras do psicólogo e epistemiologista suíço, Jean Piaget: “O desenvolvimento psíquico, que começa quando nascemos e termina na idade adulta, é comparável ao crescimento orgânico: como este, orienta-se, essencialmente para o equilíbrio”.

Portanto, embasado nesse cientista, asseveramos que o espírita maduro passa a aceitar certas coisas, ou passa a discordar de certas coisas que ocorrem no movimento doutrinário (não na Doutrina Espírita), porque usa, de maneira reflexológica, o juízo crítico, que é, indubitavelmente, uma expansão de sua consciência inteligente. Sendo assim, se alguém psicografa ou externa uma opinião, ou uma idéia, ele a analisa porque o seu raciocínio lógico e formal de homem, criado à imagem e semelhança de Deus, o ativa a promover reações bioquímicas e bioenergéticas no campo neuronal, através do tálamo, do hipotálamo e do sistema límbico. Em suma, a sua massa encefálica contida na caixa craniana é acionada, e o seu espírito, através dela, processa uma resposta que é fruto exclusivo da utilização do crivo da razão. E o que é razão? É a fé raciocinada. É a fé assimilada, metabolizada, dando origem a um produto da própria inteligência humana.

Para isso, não é preciso ser “intelectual”. É preciso, apenas praticar o espiritismo – sem esquecer de usar o juízo crítico.

Esse procedimento é muito importante, porque evita que os médiuns sejam verdadeiras marionetes dos presidentes de centro. Impede que médiuns e freqüentadores de centro sejam marionetes dos chamados espíritos protetores, que, a nosso ver, “às vezes”, são superprotetores e impedem que o indivíduo decida por si mesmo coisas que podem ser resolvidas através do raciocínio, apenas. O bom senso evita que se pratique um “espiritismo patológico”, no qual o médium, ou o freqüentador, acredita mais nos guias ou nas pessoas do que em si mesmo. É preciso reconhecer que isso acontece no movimento doutrinário: a isso chamamos “síndrome da despersonalização”, isso porque o indivíduo se despersonaliza, isso é, deixa de ser ele para ser outro.

É como se ele incorporasse a personalidade de outra pessoa em si. Isso é tornar-se alienado em pleno mundo, onde as transformações tecnológicas, econômicas e sociais transcorrem aceleradamente de minuto a minuto.

Salientamos que a função do espiritismo não é a de nos adentrar para conviver com os “guias espirituais”, tampouco “santificar” a quem quer que seja. A real função da Doutrina Espírita é ajudar o homem a encontrar a si mesmo. E o homem só encontra a si mesmo, vivendo no mundo dos encarnados na luta do dia-a-dia, no meio social; lidando com as alegrias e tristezas; criando garra, tenacidade, coragem, esperança e, sobretudo, fé. Fé em Deus. Fé em si mesmo. E fé em companheiros espirituais que “poderão” auxiliá-lo “se for permitido pelo Pai”. É preciso meditar, calmamente, nessas palavras contidas nesse parágrafo. Se houver dúvida, convém relê-las. A função do espiritismo é a de preparar o homem para a convivência dinâmica na sociedade – não como um ser mitificado – mas na condição de um indivíduo atuante e operante em todos os setores da atividade humana. É necessário muita cautela, porque o sentimentalismo religioso exacerbado embota o raciocínio e cria espíritas repletos de esteriótipos, que o colocam em distorção com a realidade social. A divagação filosófica mal orientada, ou levada ao pé da letra, aliena o indivíduo e o coloca em confusão quanto ao que é real e o que é ideal.

Por outro lado, a colaboração intelectual acadêmica é de grande valia para a Doutrina Espírita e, em especial, para o movimento espírita, desde que não haja a presunção de transformar o centro espírita numa universidade, ou desde que não exista a intenção ou a presunção de promover uma dicotomia intelectual no centro espírita em detrimento do relacionamento sociológico entre os integrantes do grupo. Em suma, afirmamos que o que realmente importa é o desejo de aprimoramento, sobretudo moral. Evidentemente, subestimar o estudo ou deixar de adequá-lo à realidade do mundo, através de uma metodologia moderna e condizente com o grau de cultura dos integrantes do grupo é, realmente, um erro clamoroso! Espiritismo não é só evangelho confortador. “Espiritismo é, também, ciência e ciência é fé raciocinada e comprovada laboratorialmente. Ciência só é ciência se aprovada pelo juízo crítico”.

Enfatizamos que o iletrado e o intelectual são todos colaboradores idênticos. O espiritismo não faz distinção cultural, apenas, tanto um quanto o outro, precisa usar o bom senso, o que não se adquire numa universidade. É uma faculdade imanente no homem, ou, pelo menos, deve ser uma característica dos homens lúcidos portadores de uma visão abrangente do horizonte.

Portanto, o modus operandi do comunicador espírita (orador, expositor, tribuno, presidente de centro, etc.) deve metamorfosear-se para um espiritismo dinâmico e prático, atual e concreto. Hoje em dia não mais há lugar para espíritas sectários, radicais e pragmáticos. Um ecletismo sóbrio e inteligente é preferível a um radicalismo polarizante e anacrônico. O espírita deve ser menos angelical e mais natural. Aberto, sociável e social, porque, se assim ele não for, correrá o risco de ficar obsoleto, desusado, “defasado” no tempo e no espaço.

A função social do espírita extrapola o trabalho assistencial aos carentes, quer através do prato de sopa ou da campanha do quilo. A função social do espírita não é apenas o de dar passes, fazer palestras etc.

O espírita maduro, ou amadurecido, é aquele que procura exercitar o “amai-vos uns aos outros” de maneira não surrealista, não mística, mas com absoluta naturalidade e espontaneidade de uma pessoa normal. O importante é cada um se esforçar para descobrir a si mesmo e, nesse particular, os dirigentes têm uma função importante – da qual não podem e nem devem fugir. Devem orientar os seguidores da Doutrina a caminhar com seus próprios pés. Isso, sim, é espiritismo!

O espiritismo de Kardec é aquele que lembra ao indivíduo que ele tem que enxergar com seus próprios olhos. Ouvir com seus próprios ouvidos. Falar com seu próprio aparelho fonador. Movimentar com seu próprio corpo. Sentir com o diapasão da própria sensibilidade.

Trabalhar, lutar, sofrer – às vezes por si e em si mesmo: isto é – em silêncio, dando assim, ao espírita, uma postura de equilíbrio pessoal e sensatez. O importante é ensinar o espírita a lutar – limpa e honestamente – usando de energia, às vezes; da coragem, sempre; da fé em todos os momentos; e da prática do evangelho de Jesus.

Espiritismo não é isolacionismo. O “estar no mundo” Jasperiano do espírita deve ser verdadeiramente consciente e coerente com a liberdade responsável, e com o espírito operante e atuante, participativo e convicto de que a certeza de sua fé está voltada para uma atitude preponderantemente interior. Isto porque o trabalho interior, que cada qual deve operar em si, adquire valor real e substantivo a partir do momento em que é executado em silêncio. Espiritismo é ação em silêncio. É juízo crítico.


José de Mello Filho


imagem: www.guiadeubatuba.com

2 comentários:

Malu disse...

E mesmo assim com toda essa ciência muitos não acreditam na profundidade desta doutrina.
Mas há que se respeitar opiniões.
Um abraço

Jorge Nectan disse...

Malu,

tamanha diversidade de pensamento,de gostos, de convicções que a melhor maneira de viver bem é aceitando cada um com sua maneira de ser e de pensar.
O Espiritismo nos ensina isso também.

Um grande beijo, Coração!

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