domingo, 5 de junho de 2011

ESPAÇO PARA DEUS


Hermínio C. Miranda

Todos nós trazemos na profunda intimidade do ser um amplo espaço reservado para Deus. São muitos, contudo, nos dias que correm, aqueles que julgam poder expulsá-lo daí. Em verdade, é como se Deus se deixasse mesmo expulsar, pois é grande seu respeito pelo nosso livre-arbítrio. E embora ele continue ali mesmo, pois não há como dissociarmo-nos dele, de vez que nada existe senão nele, as coisas se passam como se Deus não existisse mesmo, pelo menos, ali, nos limites daquele território pessoal.

Há uma personagem de Somerset Maugham, creio que em THE RAZOR'S EDGE (O FIO DA NAVALHA), que dá graças a Deus por não mais acreditar nele. Sente-se aliviado, o pobre! E a primeira coisa que lhe ocorre fazer é prestar seu tributo de gratidão a Deus por ter desocupado espaço interior.

Resta, porém, um problema: com o que preencher aquela vastidão íntima que. de repente, parece desértica, árida, morta e empenhada apenas em repetir os ecos de nossa inesperada solidão? Subitamente ficamos sem lastro, como que soltos no tempo e no espaço. sem rumo e sem retorno, livres, sim, de ir para onde quisermos, mas para onde mesmo queremos ir? Livres para fazer o que muito bem entendermos, mas o que é mesmo que estamos pretendendo fazer? O que fazer da "liberdade" recém-adquirida? E será que estávamos presos a alguma coisa antes? Ou era apenas a birra ingênua da criança que ,e solta das mãos da mãe e dá meia dúzia de passos incertos, apenas para saborear uma liberdade que não pode e não sabe como usar e nem para que a deseja?

Em livro denominado CHRISTIANITY AND THE CRISIS (1) publicado em 1933, teólogos e pensadores de formação predominantemente anglicana apresentam uma demorada reflexão, tentando caracterizar as eventuais responsabilidades do Cristianismo na crise em que mergulhara o mundo daqueles tempos, mal saído de uma guerra mundial e às vésperas de outra, ainda mais terrível e assustadora. Será que não tinha a doutrina de Jesus uma contribuição positiva para as mudanças que, evidentemente, a comunidade mundial estava a exigir?

Eram muitas as especulações e as interpretações postas no livro, dado que eram muitas as cabeças a pensar. Talvez por isso, as conclusões foram, a meu ver. desalentadoras, uma vez que o Sr. Arcebispo de York, incumbido de redigi-las, encerra seu texto com uma proposta um tanto romântica, acho eu, de arrependimento, mas que nem a ele próprio parece viável:

- Nem existe qualquer esperança prática - diz ele - de tal arrependimento até que os seres humanos acreditem efetivamente e ajam de acordo com a boa nova a respeito de Deus, segundo a palavra veiculada pelo Cristo.

Como se vê, o problema continuava posto em termos de fé. Mas como posso eu estruturar a minha fé sobre alicerces que, no meu entender, não resistem aos testes mais elementares da racionalidade de que necessito para confiar neles e na fé que me propõem?

Por isso, diferem as minhas conclusões das que propõe o Sr. Arcebispo e, conseqüentemente, minhas opções, tal como as expus, umas e outras, em livro ainda inédito (CRISTIANISMO A MENSAGEM ESQUECIDA). De forma alguma acho que o fracasso deva ser atribuído AO Cristianismo e sim a ESSE Cristianismo que nos está sendo oferecido desde muitos séculos.

E neste ponto, concordo (eliminando os talvez ) com um dos contribuintes do livro, o Dr. A. Herbet Gray, que assim escreve:

- Talvez o Cristo tenha sido largamente incompreendido ao longo de todos esses séculos. Talvez as Igrejas tenham-no deturpado. Talvez o que os seres humanos tenham rejeitado não seja o real Cristianismo do Cristo, mas algo parcialmente falsificado.

Por isso, propõe ele uma volta, sem intermediários, ao Cristo, àquele "profeta campesino que fala mim tom que exige atenção".

Ao lado de muitas outras, vamos encontrar especulações semelhantes em livro bem mais recente, do eminente teólogo católico suíço Hans Küng (2), compreensivelmente em desgraça perante sua própria Igreja por causa de suas idéias não muito ortodoxas.

Após abordar com sensibilidade e inteligência a inquietação mundial em busca de alternativas, Küng parece convicto de que essa procura, que resulta em dramático esvaziamento das Igrejas em geral e não apenas da sita, é motivada pelo pouco que as teologias vigentes têm a oferecer, principalmente aos jovens. As estatísticas são particularmente contundentes neste ponto, muito embora, segundo o Dr. Küng, as hierarquias eclesiásticas não pareçam muito preocupadas com essa fuga maciça.

Mesmo a mim, leitor habitual de tais informes, surpreende-me o vertical mergulho rumo ao zero que se observa nas curas de freqüência reveladas pelo autor. Segundo ele, verificou-se, nos últimos vinte e cindo anos, entre pessoas menores de 30 anos de idade, uma queda de 13 para 2 por cento na freqüência regular aos templos protestantes e de 59 para 14 por cento nus templos católicos. O ilustre teólogo considera alarmantes tais números e o são, de fato e não hesita em atribuir a esse êxodo impressionante, "a muito lamentada perda de sentido e o vácuo de orientação-experimentados pela juventude contemporânea.

- Para muitos críticos da civilização - prossegue ele - esse vácuo de orientação e de identidade é urna das causas da óbvia crise de nossa sociedade.

É certo que o Prot Kung identifica bem as causas e prega-lhes a rótulo adequado, mas devo confessar honestamente, que não encontro nas suas propostas, por motivos igualmente óbvios para mim, remédios aplicáreis ás mazelas que aponta.

E que, a despeito de toda a sua proclamada rebeldia a importantes posturas de sua Igreja, ele continua operando dentro de um contexto pesadamente dogmático quanto a aspectos citais ao entendimento dos mecanismos da vida. A sobrevivência do ser continua posta em termas de fé, ou, no máximo, de esperança. A razão de nossa presença na Terra ainda é questão aberta; a morte, um problema espinhoso que, a seu ver, o próprio Jesus encarou com temores (?!), ao queixar-se do abandono a que havia sido relegado pelo Pai; a ressurreição do Cristo, ainda um enigma e uma exceção, não a regra; a existência terrena, uma só; o mundo póstumo, um denso mistério especulativo; a doutrina da graça persiste.

Como poderia um pensador cercado de tantas inibições propor soluções compatíveis corri a complexidade e profundidade da crise contemporânea, que transcende dogmas e ignora especulações filosóficas? Que sugestões oferecer ao jovem que busca alternativas para os regimes políticos vigentes. para a cultura, os costumes, a economia. e para a própria religião?

Se a vida é só isto aqui e ninguém lhe assegura e demonstra uma existência póstuma, que resta ao j jovem senão tentar tirar a máximo proveito desta única que ele conhece?. Dar :r sofreguidão pelo prazer, sela dual for o seu custo em termos materiais. morais, de saúde e paz interior. É tal como dizia Paulo. o primeiro e mais esquecido teólogo cristão: se a vida é só isto que se vê, então comamos e bebamos despreocupadamente, pois a morte está logo ali, à nossa espera, para levar-nos de volta ao nada, de onde viemos.

- A nossa sociedade - escreve um jovem citado por Küng - oferecer-me apenas os familiares e surrados caminhos e me concede a "liberdade” de escolher um deles. Mas eu não quero, nem estou em condições de levar uma vida pré-programada, com um dia de oito horas, seguro de vida, promoção e aposentadoria; quero, de fato, viver a minha vida.

E, para concluir, mais adiante, a razão de tudo isso:

- Esta é a minha única vida.

Pois não é. E isto faz uma brutal diferença. Nós, os que nos situamos num contexto ideológico em que o conceito das vidas sucessivas é um dos seus predominantes princípios ordenadores. nem nos damos conta do quanto isso é vital para exata avaliação das opções que temos diante de pós, dado que viver é escolher. Não há como exigir ou esperar de uma pessoa enjaulada no conceito da unicidade da vida, que tenha uma visão ampla e equilibrada dos seus encaixes nas engrenagens dessa mesma vida. Falta-lhe perspectiva, é exígua demais a sua paisagem e, por isso, angustiante. É certo que a fé ou a esperança numa existência futura, ou melhor, na continuidade da vida, podem proporcionar alguns dados para um planejamento mais inteligente de nossos atos, mas o que realmente decide aqui é a c convicção da sobrevivência não a hesitante expectativa. Essa é a idéia básica que retira da morte o seu aguilhão, como está em Paulo, e nos coloca no exato ponto de onde podemos contemplar, com serenidade, mesmo as perspectivas mais remotas que a nossa visão, necessariamente limitada, não possa alcançar.

Sem isso, e programados pela noção de que a vida é só isto aqui, então Indo é válido, em termos de satisfação sensorial. de alienação, de irresponsabilidade. Tudo se pensa e faz com um toque aflitivo de que-me-importismo. Para que tensões, aflições, preocupações, se tudo se resolve com o término da existência física? Para que renúncias, aceitações relutantes e sacrifícios anônimos? Por que a dor?

E é assim que se tenta, desesperadamente, preencher o vasto espaço que se abre, quando pensamos expulsar Deus pela porta dos fundos. Assusta-nos a solidão, soam soturnamente nossos passos, no silencio que se faz, projetam-se sombras fantasmagóricas em paredes inexistentes, de cada canto escuro espreitam-nos temores desconhecidos e mistérios insondáveis, a própria vida parece tini equívoco, uma vaga piada de mau gosto. Por isso, são tantos os que procuram atordoar-se com sons ensurdecedores, com drogas alienantes, com agressividades assustadoras, com doutrinas alucinantes, com fantasias e fuga, impossíveis.

Não estaríamos vivendo esse momento trágico se a mensagem cristã tivesse sido mantida em todo o vigor da sua pureza primitiva, mas já que o estamos vivendo, é preciso entender que a única saída é por ali através da passagem que nos leva de volta à doutrina universal do amor, posta em ação dentro de um inteligente contexto de racionalidade, em que a fé amadureceu em convicção é e a esperança virou certeza.

Ao contrário do que muita gente está (desastradamente) pensando, não tentos somente uma vida. A morte é apenas mudança de estado e dimensão. Co mo poderia haver morte como extinção da vida se Deus é Vida inextinguível e nele vivemos todos?

Muito bom seria que os que levam uma existência de "faz de conta", questionassem, como Heine, citado, aliás, pelo Prof. Küng:

-Deixe dessas parábolas sagradas e hipóteses pietistas: responda-nos a estas terríveis perguntas... Nada de evasivas, por favor. Por que cambaleiam, em sangue, os homens justos, esmagados sob o peso de suas cruzes. enquanto os maus cavalgam belos corcéis, vitoriosos e felizes, bafejados pela sorte? Quem é culpado disso?. Deus não é poderoso, dotado de um poder revestido de armaduras? Ou será que o mal é de sua própria autoria" Ah, mas isso seria realmente uma vileza? E assim, perguntamos e continuamos a perguntar, até que um punhado de frio barro cale a nossa boca, afinal, com segurança... Mas, por favor, será essa a resposta?

Claro que não, meu caro Heinrich. Você morreu em 1856 e o barro frio não calou a sua boca, você pode continuar falando. Ao tapar-lhe os olhos da carne, a terra iria abriu-lhe o, do espírito para uma insuspeitada realidade, onde os justos não gemem ao peso de suas dores, nem os maus desfilam suas trágicas "vitórias". Agora você sabe. Fale, pois, a sua boca daquilo que está no seu coração.

E se ele houvesse esperado um pouco mais, talvez chegasse a saber, mesmo aqui, deste lado da vida, pois em 1857 no ano seguinte ao da sua partida, apareceu nas vitrines das livrarias parisienses a obra que continha as respostas com as quais sonhara e que até pressentira com a sensibilidade de poeta, mas que não estava encontrando naquilo que lhe diziam ser a mensagem de Jesus, o Poeta Maior do amor universal.

O LIVRO DOS ESPIRITOS foi o título. É que nós, os humanos, nos perdêramos de novo e foi preciso virem os Espíritos nos dizer outra vez aquilo que não tínhamos o direito de ignorar.

Fique, pois, reservado em nós o espaço de Deus. Se não cremos nele. ele acredita em nós. Falemos com ele, pois ele está ali mesmo, e ouve e responde. E exatamente porque ele crê em nós é que traçou nas trilhas cósmicas do infinito um roteiro pontilhado de vidas e mais vidas, até que a gente aprenda a suprema arte de viver. Aí, sim, teremos uma só vida - a eterna, mas mesmo isto será apenas um diferente aspecto da verdade, porque tia eternidade já estamos, enquanto escrevo estas mal traçadas linhas e o leitor as lê...


Bibliografia

1- DIVERSOS - Coordenação de Percv Dearmer CHRISTIANITY AND THE CRISIS, Ed. Victor Gollancz, Londres, 1933

2- Hans Küng - ETERNAL LIFE'' Ed. Collins. Londres e Doubledav, New York, 1984, trad. de Edward Quinn do original alemão EWIGES LEBEN?, Ed. Piper&Co. Munich, 1982

7º Congresso Espírita Estadual - Águas de São Pedro - SP - 22 a 24/Agosto-86 Tema Central: O Espiritismo no Século XX


(Revista Internacional de Espiritismo - Julho de 1986)


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quinta-feira, 2 de junho de 2011

O OUTRO


Sérgio Biagi Gregório

1. INTRODUÇÃO

A finalidade deste estudo é refletir sobre o relacionamento entre o nosso "eu" e os "eus" de outras pessoas. Pergunta-se: quem é o outro? Como distinguir o meu "eu" do "eu" dos outros? Que tipo de "outro" estamos sendo para os "outros"?

2. CONCEITO

Outro – Do latim alteru (outro entre dois) significa diverso do primeiro, diferente de pessoa ou coisa especificada. Para Sartre, "o outro é o eu que não sou eu". A qualidade das relações que o homem trava com o outro depende não apenas da simpatia de que é investida, mas também, do conhecimento recíproco dos protagonistas.

3. PALAVRAS INICIAIS

Desde o início da filosofia o problema do outro e do diverso esteve em destaque. O pensamento de Parmênides era o pensamento do Mesmo (identificado com o Ser), o de Heráclito parece ter sido o do Outro. Platão introduziu o Não-ser sob a forma de o Outro. Na filosofia moderna e contemporânea, o problema do outro indica o problema da existência de outros eus (espíritos ou pessoas), independentes do eu que formula o problema. Presentemente, as Universidades e escolas de ensino médio dos EUA incluem em seus currículos uma disciplina que ensina os alunos a se relacionarem melhor, especificamente o relacionamento entre casais. Em termos científicos, há comprovação de que o sofrimento de pessoas queridas pode realmente nos atingir. Para isso, aUniversity College London, na Inglaterra, avaliou 16 casais, utilizando uma máquina de ressonância magnética e eletrodos.

4. ALGUMAS POSIÇÕES FILOSÓFICAS

4.1. LEVINAS É FILÓSOFO DA "ALTERIDADE".

Reflete em torno do "Outro". Para ele, o Outro não é o distante, o estranho, e muito menos o impessoal. O Outro é universo epifânico e dialogal. O milagre consiste em que um homem possa ter sentido para outro homem. E valoriza a presença do Outro. Levinas estabelece a relação entre ética e ontologia. "Ser-Outro é mandamento, é apelo à responsabilidade. É minha responsabilidade perante a face que me olha. (Arduini, 2002, cap. VIII)

4.2. A CONSPIRAÇÃO DE TEILHARD DE CHARDIN

Conspirar é aspirar com os outros. É formar constelação de agentes em torno de uma causa. Teilhard de Chardin salienta que "conspiração é a aptidão de diversas consciências que se juntam para construir um Todo, onde cada pessoa tem consciência de sua participação como todos os outros... Conspiração de unidades pensantes. É imperioso tecer a rede de solidariedade mundializada. (Arduini, 2002, cap. VIII)

4.3. FICHTE E O DEVER

Fichte, em Doutrina Moral (1798), afirma o caráter originário da idéia do dever, da qual deriva o reconhecimento dos outros eus. A idéia do dever é a autodeterminação originaria do eu, mas ela não poderia ser realizada se não existissem outros eus, outros sujeitos em face dos quais, somente, a idéia do dever pode ter a sua determinação e, portanto, possibilidade de realização.

5. SOLIDARIEDADE

5.1. QUEM É O OUTRO?

O outro retrata a Humanidade, no que ela tem de bom ou de ruim.

Aspectos negativos: o "outro" ocluso é hermético, o "outro" desconhecido é distante, o "outro" ameaçador inspira desconfiança, o "outro" prepotente esmaga os subalternos, o "outro" violento é agressivo, o "outro" egocêntrico encastela-se em seus próprios interesses, o "outro" constrangedor coage a liberdade e bloqueia a comunicação, o "outro" rejeitado é discriminado, o "outro" insensível não se abala com a pobreza alheia, o "outro" traiçoeiro derruba parceiros, o "outro" cínico engana a sociedade.

Aspectos positivos: o "outro" diferente revitaliza a sociedade, o "outro" companheiro caminha conosco por estradas planas e esburacadas, o "outro" solidário é pessoa com quem se pode contar nas horas de alegria e de tristeza, o "outro" aliado assume as causas legítimas da justiça, o "outro" movido pela esperança avança sempre, o "outro" audacioso suscita coragem, o "outro" honesto não se vende por bagatelas, o "outro" autêntico é reserva de humanismo, o "outro" fraterno é habitado pela caridade transparente. (Arduini, 2002, cap. VIII)

5.2. NARCISISMO

Narciso vem do grego "Nárkissos". Indica torpor, é "Narco". Daí o "narcótico". Conta o mito que Narciso era filho do rio Cesifo e da ninfa Liríope. Narciso não correspondeu ao amor de Eco. Por isso, Afrodite condena-o a mirar-se nas águas. Debruça-se sobre o rio e fica encantado com sua beleza refletida na água. Acaba enamorando-se de si mesmo.

Narciso amava a si mesmo e desprezava o amor dos outros. Narciso sobrevive na mentalidade e nas atitudes das sociedades. Há setores que estimulam o individualismo psicológico, econômico e social. (Arduini, 2002, cap. VIII)

5.3. A RESPONSABILIDADE

Cada pessoa tem a responsabilidade de ser caminho para os outros. É injusto excluir outros do caminho. Pergunta-se: estamos criando condições de potencializar o nosso próximo? Predispomo-nos a ouvi-lo com atenção? E se for um homem iletrado? Temos para com ele o respeito de um ser humano?

A responsabilidade não diz respeito somente ao ser humano, mas também em relação ao meio ambiente. Hoje, são muitas as empresas que se preocupam com o que produzem, com o tipo de lixo que estão descartando, com as condições de trabalho de seus funcionários etc.

6. REFLEXÃO EM TORNO DO EVANGELHO

6.1. PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO

É um paradigma para o estudo da caridade. Nela, um homem que descia de Jerusalém para Jericó, caiu nas mãos de ladrões que o despojaram, cobriram-no de feridas e se foram, deixando-o semimorto. Passaram pelo mesmo caminho um sacerdote, um levita e um Samaritano. Os dois primeiros desviaram-se do homem enfermo; o Samaritano, porém, foi tocado de compaixão, pensou-lhes as feridas e o conduziu a uma hospedaria. Nesta passagem, Jesus quis nos mostrar que a prática da caridade não está atrelada a religião, mas pertence ao íntimo do ser, pois o Samaritano, que era considerado herege mostrou-se mais caridoso do que aqueles que tinham o conhecimento da religião organizada.

6.2. FAZER AO OUTRO O QUE GOSTARÍAMOS QUE NOS FIZESSE

Esta frase tem cunho de uma ordem. Ela está ligada a uma outra que diz: "Amai ao próximo como a si mesmo". Quer dizer, o outro é o nosso próximo e o próximo mais próximo é o nosso familiar, aquele que convive conosco, sob o nosso teto. Caso vivamos sozinhos, o nosso próximo passa a ser o que convive conosco no trabalho, na empresa, ou na igreja que freqüentamos. De modo que em toda a ocasião de nos relacionarmos com o próximo, podemos por em pratica esses ensinamentos. É preciso, pois, penetrar na sua profundidade, ou seja, dar ao outro o que ele precisa e não aquilo que nos sobra, que está nos atrapalhando. É o caso de desfazermos de alguns bens para o auxilio ao próximo. Damos coisas sujas, roupas que não terão mais uso, roupas que deverão ir para o lixo.

6.3. O PROBLEMA DIFÍCIL

O mais intricado problema do mundo é o de cada homem cuidar dos próprios negócios, sem intrometer-se nas atividades alheias.

Para ilustrar esta tese, o Espírito Néio Lúcio conta a história de um sábio e as ordens dadas aos seus três filhos, em razão da discussão sobre o problema mais difícil para alcançar o progresso espiritual. O pai, para tornar prático o ensinamento, propõe-lhes a tarefa de levar algumas dádivas ao palácio do príncipe governante: o primeiro seria o portador de rico vaso de argila preciosa; o segundo levaria uma corça rara; o terceiro transportaria um bolo primoroso da família.

No caminho, cada irmão ficou preocupado com a tarefa do outro. Assim, O que carregava a corça, preocupado com o condutor do vaso, descuida da própria tarefa e tenta ajudar a posição do vaso. Com isso, o vaso cai e quebra-se. Com o choque, o condutor da corça perde o controle do animal, que foge espantado. O carregador de bolo avança para sustar-lhe a fuga, internando-se no mato e o bolo espatifa-se no chão.

Desapontados, voltam à casa materna sem terem cumprido a obrigação. O sábio disse-lhes: se cada um de vocês estivesse vigilante na própria tarefa, não colheriam as sombras do fracasso. (Xavier, 1966, cap. 36)

7. CONCLUSÃO

O eu não existe sem o outro. Tudo o que fazemos, por mais insignificante que seja, é sempre direcionado ao outro. Mesmo o maior dos egoístas, quando desencarna a sua riqueza a sua herança vai para as mãos de seus descendentes.


8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ARDUINI, Juvenal. Antropologia: Ousar para Reinventar a Humanidade. São Paulo: Paulus, 2002. (Coleção estudos antropológicos)

XAVIER, F. C. Jesus no Lar, pelo Espírito Néio Lúcio. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1966.

São Paulo, junho de 2005


texto - http://www.ceismael.com.br/filosofia

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sábado, 28 de maio de 2011

AS MEMÓRIAS HUMANAS


Marta Antunes Moura


O Dicionário Médico Enciclopédico Taber informa, na página 1.103 da 17a edição, que “memória é registro, retenção e recordação mental da experiência, conhecimento, idéias, sensações e pensamentos passados”. Apresenta, em seguida, significados de vários tipos de memória humana. A Neurobiologia e a Psicologia Cognitiva apresentam conceitos semelhantes, destacando que não existe uma memória, mas várias. Médicos, biólogos e psicólogos concordam que a memória é a base do conhecimento, independentemente da forma com que se apresente. Deve, pois, ser estimulada e desenvolvida para que experiências humanas se acumulem e sejam capazes de imprimir significado à vida cotidiana.

As pesquisas científicas mais significativas são recentes (segunda metade do século vinte), a despeito de existirem informações que se reportam a Sócrates e Aristóteles. Os estudos das diferentes memórias são complexos e envolvem uma gama de conhecimentos especializados, sobretudo investigações sobre fatores neurofisiológicos, bioquímicos, moleculares e emocionais. Importa considerar que a memória não se restringe a um “local” ou “setor” em nosso cérebro, onde são guardados os registros do mundo e de nós próprios. Por não ser também uma função única de retenção de dados informativos, evita-se hoje falar em memória, no sentido singular, mas em vários sistemas ou tipos de memórias, que abarcam mecanismos, tipos e formas relacionados a diferentes funções mentais.

A memória humana está, atualmente, classificada em dois tipos, segundo os critérios de duração, funções cerebrais envolvidas, grau de retenção, conteúdos e processamentos neurológicos: memória declarativa e memória de procedimentos.

A primeira, relacionada à capacidade de verbalizar fatos e eventos, depende do esforço de evocação ou de recordação. Está subdividida em:

a) memória imediata, assim denominada porque tem duração de segundos, ou menos, sendo apagada em seguida. Exemplo: capacidade de repetir mentalmente um número antes de uma discagem telefônica;

b) memória de curto prazo ou, segundo a Psicologia Cognitiva, memória de trabalho. A duração é de algumas horas, deixando traços na mente. Está vinculada às emoções, às sensações e aos hábitos. O cérebro registra apenas o que precisa ser lembrado e utilizado. Exemplos: lembranças sobre alimentos ingeridos no almoço ou de atividades realizadas no dia anterior;

c) memória de longo prazo. Esta memória abrange períodos de tempo maiores, meses ou anos. Exemplo: aprendizado de uma nova língua.

O segundo tipo de classificação da memória – a de procedimentos ou não-declarativa – diz respeito à capacidade mental de reter e processar informações que não podem ser verbalizadas. Exemplos: tocar um instrumento musical, andar de bicicleta, executar uma atividade manual (bordar ou costurar, pintar uma parede) ou procedimento técnico (fazer incisão cirúrgica). Trata-se de uma memória mais permanente, difícil de ser perdida.

Existem outros tipos de memórias que podem ser inseridos nessa classificação, como as memórias implícita e explícita, comumente identificadas nas abordagens cognitivistas. As duas estão relacionadas à capacidade mental de “lembrar de informações armazenadas em diferentes tipos de memórias, como a declarativa (fatos) e procedural (movimentos)”.1 Há também as memórias semântica e episódica. A semântica refere-se à retenção de informações solidamente aprendidas, tais como conceitos, habilidades, fatos e raciocínios: “Seria uma memória de domínio, expertise, de informações utilizadas de forma adequada e freqüentemente (por exemplo, gramática, matemática, vocabulários, fatos) associadas a abstrações e linguagem”.2 A memória episódica está associada à lembrança de eventos pontuais que especificam quando, onde e como aconteceram em nossa vida. Depende, pois, do contexto espaço- temporal.2

Doenças físicas e psíquicas, traumas psicológicos ou provações previstas no planejamento reencarnatório podem afetar os diferentes tipos de memória. As patologias neurológicas (AVC,Doença de Alzheimer, amnésias, etc.), em especial, têm servido de referência para estudos avançados. O padrão comum, no que diz respeito aos dispositivos reencarnatórios em vigência no Planeta, é ode não se recordar de experiências pregressas vividas em outras existências ou no plano espiritual. Recordações espontâneas de vidas passadas ainda representam exceção à regra.

O grande desafio apresentado às ciências biomédicas é o de precisar onde e como são processadas as informações que caracterizam as memórias: no cérebro ou na mente? Os cientistas concordam que os processos de memórias ocorrem nos lobos cerebrais, sendo que os lobos frontais têm ação específica porque fazem conexões com outras estruturas do cérebro, como o hipocampo e a amídala neural. Essa concordância não se estabeleceu, porém, em bases pacíficas, provocando uma polêmica que parece não ter fim. Há cientistas que defendem a idéia de que o cérebro serve apenas de suporte para a manifestação da mente; outros argumentam que o cérebro em atividade “cria” a mente.3

A Doutrina Espírita não tem dúvidas a esse respeito. Como espíritas, sabemos que o comando de todos os processos intelectivos e morais cabe ao Espírito. A mente é de natureza extrafísica e dirige todas as funções fisiológicas, sobretudo as neurológicas, com auxílio do perispírito. O perispírito serve de intermediário entre o Espírito e o corpo, transmitindo sensações e percepções. “[...] Relativamente às que vêm do exterior, pode-se dizer que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite e o Espírito, que é o ser sensível e inteligente, a recebe. Quando o ato é de iniciativa do Espírito, pode dizer-se que o Espírito quer, o perispírito transmite e o corpo executa”.4

O assunto, entretanto, é bem mais complexo do que imaginamos. O Espírito André Luiz esclarece que o acesso a memórias é feito por meio de ações apropriadas no cérebro (físico e/ou perispiritual), conforme demonstra a experiência vivida por dona Laura e o esposo Ricardo, personagens de Nosso Lar: “[...] Depois de longo período de meditação [...] fomos submetidos a determinadas operações psíquicas, a fim de penetrar os domínios emocionais das recordações. Os espíritos técnicos no assunto nos aplicaram passes no cérebro, despertando certas energias adormecidas... [...]”.5

Os lobos frontais do cérebro, objeto de importantes estudos atuais, desenvolvidos pela Ciência, são especialmente manipulados quando se deseja acessar arquivos de memórias. No Mundo Maior, há o relato
da ação de Cipriana no cérebro de Ismênia, visando a liberação de memórias específicas (memória episódica): “[...] nossa diretora, cingindo-lhe os lobos frontais com as mãos, a envolvê-la em abundantes irradiações magnéticas, insistia, meiga, provocando a emersão da memória em seus mais importantes
centros perispiríticos [...]”.6

André Luiz, na tentativa de esclarecer a relação que existe entre o cérebro e a mente do Espírito, revela a importância de ambos nos processos de memórias e do psiquismo humano:

“Erguendo-se sobre os vários departamentos do corpo [...] o cérebro, com as células especiais que lhe são próprias, detém verdadeiras usinas microscópicas [...].

É aí, nesse microcosmo prodigioso que a matéria mental, ao impulso do Espírito, é manipulada e expressa [...].

Nas reentrâncias de semelhante cabine, de cuja intimidade a criatura expede as ordens e decisões [...] temos, no córtex, os centros da visão, da audição, do tato, do olfato, do gosto, da palavra falada e escrita, da memória [destacamos] e de múltiplos automatismos, em conexão com os mecanismos da mente, configurando os poderes da memória profunda, do discernimento, da análise, da reflexão, do entendimento e dos multiformes valores morais de que o ser se enriquece no trabalho da própria sublimação”.7


Referências:

1- BERTOLOZZI, Márcia Regina. Um estudo sobre a memória e solução de problemas: enfoque das neurociências. Dissertação apresentada à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo para obtenção
do título de Mestre em Engenharia.
São Paulo: USP, 2004. p. 26.

2- Idem, ibidem. p. 27.

3- Idem, ibidem. p. 25.

4-KARDEC, Allan. Obras póstumas. 38. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Primeira parte, “Manifestações dos Espíritos”, item 10, p. 49-50.

5-XAVIER, Francisco Cândido. Nosso lar. Pelo Espírito André Luiz. 56. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 21, p. 136-137.

6- No mundo maior. Pelo Espírito André Luiz. 24. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Cap. 19, p. 296.

7- XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo. Mecanismos da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 9, p. 81-82.


Reformador - Novembro 2006


texto - http://www.panoramaespirita.com.br/novo/artigos/50-ciencia/
imagem - prevenlife.blogspot.com

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