sábado, 15 de maio de 2010

DÉJÀ VU É UM FENÔMENO INSTIGANTE


O fenômeno se traduz por uma estranha impressão de já ter vivenciado a cena presente e mesmo saber o que se vai passar em seguida, ainda que a situação que esteja a ser vivida seja inédita. Conhecido como déjà vu, ou paramnesia (como também é conhecido), tem sido, ao longo dos anos, objeto das mais díspares tentativas de interpretação. Para Sigmund Freud, as cenas familiares seriam visualizadas nos sonhos e depois esquecidas e que, segundo ele, eram resultado de desejos reprimidos ou de memórias relacionadas com experiências traumáticas. Fabrice Bartolomei, Neurologista francês, a paramnesia é resultado de uma fugaz disfunção da zona do córtex entorrinal, situado por baixo do hipocampo e que se sabia já implicada em situações de "déjà vu", comuns em doentes padecendo de epilepsia temporal.

Experiências, conduzidas por investigadores do Leeds Memory Group, permitiram recriar, em laboratório e através da hipnose, as sensações de "déjà vu". Outros dados explicam que situações de stress ou fadiga possam favorecer, nesse contexto disfuncional, o aparecimento do fenômeno, mas a causa precisa deste "curto-circuito" cerebral permanece, ainda, uma incógnita.

Muitos de nós já tivemos a sensação de ter vivido essa situação que acabamos de relatar. Como já ter estado em um determinado lugar ou já ter vivido certa situação presente, quando, na realidade, isto não era de conhecimento anterior? Em alguns casos, ocorre a habilidade de, até, predizer os eventos que acontecerão em seguida, o que é denominado premonição. Seria um bug cerebral, premonição ou mera coincidência? A psiquiatria e a Doutrina Espírita explicam esta questão de formas diferentes.

Sabe-se que nossa memória, às vezes, pode falhar e nem sempre conseguimos distinguir o que é novo do que já era conhecido. "Eu já li este livro?" - "Já assisti a este filme?" - "Já estive neste lugar antes?" - "Eu conheço esse sujeito?" Estas são perguntas corriqueiras de nossa vida. No entanto, essas dúvidas não são acompanhadas daquele sentimento de estranheza que é indispensável ao verdadeiro déjà vu. Para alguns estudiosos, quando a sensação de familiaridade com as situações, lugares ou pessoas desconhecidas é freqüente e intensa, pode, até, ser um dos sintomas da epilepsia, na área do cérebro responsável pela memória, mas, essa mesma sensação pode indicar outros sintomas. Déjà Vu é um fenômeno anímico muito comum , embora de complexa definição científica.

Pode ocorrer com certa freqüência em indivíduos com distúrbios neuropatológicos, como a esquizofrenia e a epilepsia. Mas há, também, outras predisposições maiores por fatores não patológicos, como fadiga, estresse, traumas emocionais, excesso de álcool e drogas. Há, ainda, as teorias da psicodinâmica, da reencarnação, holografia, distorção do senso de tempo e transferência entre hemisférios cerebrais. São tão complexas as análises, que especialistas reagem contra a limitação do "vu", que restringiria ao mundo do que pode ser "visto", e já utilizam formas paralelas que fariam referência mais específica aos vários tipos de situação: "déjà véanus" ("já vivido"), "déjà lu" ("já lido"), "déjà entendu" ("já ouvido"), "déjà visité" ("já visitado") - o que pode, um dia, acarretar um "déjà mangé" ("já comido") ou um "déjà bu" ("já bebido").

Os especialistas, ainda, não sabem, concretamente, como ocorre, exatamente, a sensação do déjà vu em pessoas não epilépticas. A que ocorre em pessoas com a doença, no entanto, existem algumas hipóteses, como a batizada, pelo psicólogo Alan Brown, de "duplo processamento". (1) Segundo o psicólogo Alan Brown, professor da Universidade Southern Methodist, nos Estados Unidos, e autor do livro "The Déjà Vu Experience" (a experiência do déjà vu), dois terços da população mundial relatam ter tido, ao menos, um déjà vu na vida.

Para os conceitos espíritas tudo o que vemos e nos emociona, agradável ou desagradavelmente, nesta e nas encarnações pretéritas, fica, indelevelmente, gravado em alguma parte da região talâmica do cérebro perispiritual, e, em algumas ocasiões, a paramnesia emerge na consciência desperta. Pode, também, ser uma manifestação mediúnica se o médium entra, em dado momento, em um transe ligeiro, sutil, e capta a projeção de uma forma-pensamento emitida por um espírito desencarnado; essa é outra possibilidade.

A tese da reencarnação é difundida há milhares de anos. No Egito, um papiro antigo diz: "o homem retorna à vida varias vezes, mas não se recorda de suas pretéritas existências, exceto algumas vezes em sonho. No fim, todas essas vidas ser-lhe-ão reveladas." (2)

Em que pese serem as experiências déjà vu, segundo o academicismo, nada mais do que incidentes precógnitos esquecidos, urge considerar, porém, que existem situações dessa natureza que não podem ser explicadas dessa maneira. Entre elas, está em alguém ir a uma cidade ou a uma casa, pela primeira vez, e tudo lhe parecer muito íntimo, ao ponto de prever, com exatidão, detalhes sobre a casa ou a cidade; descreve, inclusive, a disposição dos cômodos, dos móveis, dos objetos e outros detalhes que estão muito além do âmbito da precognição normal. "Em geral, as experiências precógnitas são parciais e enfatizam certos pontos notáveis, talvez alguns detalhes, mas nunca todo o quadro. Quando o número de detalhes lembrado torna-se muito grande, temos que desconfiar, sempre, de que se trata de lembranças de uma encarnação passada". (3)

Apesar de não serem abundantes as publicações e depoimentos sobre o assunto, há teorias que associam o déjà vu a sonhos ou desdobramento do espírito, onde o espírito teria, realmente, vivido esses fatos, livre do corpo, e/ou surgiriam as lembranças de encarnações passadas, como disse acima, o que levaria à rememoração na encarnação presente. (4) Hans Holzer, registra uma história, em que ele descreve a experiência déjà vu: "durante a Segunda Guerra Mundial, um soldado se viu na Bélgica e, enquanto seus companheiros se perguntavam como entrar em determinada casa, em uma cidadezinha daquele país, ele lhes mostrou o caminho e subiu a escada à frente deles, explicando, enquanto subia, onde ficava cada cômodo. Quando, depois disso, perguntaram-lhe se havia estado ali antes, ele negou, dizendo que nunca havia deixado seu lar nos Estados Unidos, e estava dizendo a verdade. Não conseguia explicar como, de repente, se vira dotado de um conhecimento que não possuía em condições normais". (5)

Cremos que a experiência déjà vu é muito profunda e o sentimento é de estranheza. Devemos distinguir um sintoma do outro, pois, cada caso é um caso e nada acontece por acaso. Por ser um fenômeno profundamente anímico, é prudente separarmos as teorias da reencarnação, sonhos ou desdobramentos, das teorias de desejos inconscientes, fantasias do passado, mecanismo de autodefesa, ilusão epiléptica, entre outras, para melhor discernimento do que, realmente, seja uma paramnesia e o que seja, apenas, uma fantasia de nosso imaginário fecundo.



FONTES:
(1) Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u566377.shtml
(2) Papiro Anana" (1320 A.C.)
(3) Revista Cristã de Espiritismo, edição 35
(4) Idem
(5) Idem


endereço: http://jorgehessen.net/
imagem: cloudking.com/artists/joel-biroco/deja-vu.php



quarta-feira, 12 de maio de 2010

150 ANOS DA TEORIA DA EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES






Gerson Simões Monteiro

Desde a mais remota era, o homem procura a sua origem. Durante muito tempo, o criacionismo religioso considerava que os seres vivos foram criados por um Ser Supremo, e suas diferentes espécies teriam surgido de uma só vez, prontas e acabadas.
Essa idéia, baseada em interpretação distorcida do livro Gênesis, da Bíblia, acaba por constituir-se em tese insustentável perante a Ciência, apesar de ser correta ao admitir Deus como Inteligência Suprema do Universo.
Para corrigir essa posição equivocada dos criacionistas religiosos do século 18, a partir do trabalho de cientistas como Charles Darwin e Russel Wallace, novas idéias surgiram sobre a origem e a evolução dos seres vivos, idéias que são aprimoradas constantemente, até hoje. A palavra final, porém, ainda não foi dita e a Ciência atual se apóia nas seguintes conclusões:
A Terra se formou há pelo menos 4,5 bilhões de anos, pela condensação de poeira cósmica liberada pela grande explosão (Big Bang) que originou o Universo. É bom salientar que, enquanto os criacionistas admitem ter o planeta, somente, de 6 a 10 mil anos de existência, o pesquisador e escritor norte-americano Henry Thomas, no livro A História da Raça Humana¹, diz que "foram necessários 40 milhões de anos para que o macaco se transformasse no homem-macaco. Mais de 300 mil anos o levou para aprender a andar de cabeça erguida e para matar sua presa com instrumentos de pedra". O "macaco" não dá origem ao "homem-macaco". Ambos têm um ancestral comum. O macaco e o homem-macaco são "primos".
Depois de 1,5 bilhão de anos, com o resfriamento da superfície terrestre, esta abrigou as primeiras organizações moleculares. Delas, apareceram os sistemas protéicos, e estes primitivos elementos foram tornando-se cada vez mais complexos, até se tornarem às células que hoje conhecemos como seres unicelulares, tanto vegetais quanto animais.
As condições físicas e ambientais promoviam mutações que modificavam o material genético, transmitido na reprodução dos seres. Apenas as modificações que os tornavam mais aptos às adversidades do meio eram fixadas e transmitidas para outras gerações, enquanto as alterações que em nada contribuíam para o aprimoramento das espécies, tendiam a desaparecer.

A TEORIA DA EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

Em seu livro, A Origem das Espécies, publicado em 1859, Charles Darwin (1809-1882), naturalista inglês, demonstrou a tendência dos animais a se afastarem de sua origem ancestral por mutação genética e seleção natural, formando novas espécies com características diferentes. Ele chegou a essa conclusão através das pesquisas e estudos realizados a partir de 31 de dezembro de 1831.
Com algumas inovações, introduzidas pelos recentes avanços da Ciência, a teoria de Charles Darwin é ainda a que melhor explica a biodiversidade de nosso planeta. Para notar-se uma característica diferente, e inaugurar uma nova espécie, gastam-se talvez milhões de anos, mas é sabido que nenhuma espécie está estacionária. Um exemplo esclarece a questão: o corpo do homem é o produto evolutivo de uma espécie simiesca cujos ancestrais já desapareceram. Ou seja: uma determinada espécie de macaco, há milhares de anos, começou a se desenvolver na direção do que somos hoje fisicamente. Nenhuma outra espécie de primata seguiu esta rota evolutiva, mas cada uma percorre caminhos paralelos.
Quando aceita o convite para tornar-se membro de uma expedição científica a bordo do navio Beagle, Darwin passa cinco anos (de 1831 a 1836) navegando pela costa do Pacífico e pela América do Sul. Durante este período, o Beagle aportou em quase todos os continentes e ilhas maiores à medida que contornava o mundo, inclusive no Brasil. Darwin fora chamado para exercer as funções de geólogo, botânico, zoologista e homem de ciência. Esta viagem foi uma preparação fundamental para a sua vida subsequente de pesquisador e escritor.
Não obstante, é de lamentar saber-se que, após 150 anos da publicação da obra A Origem das Espécies, há ainda quem admita que o homem foi criado do barro e a mulher da costela de Adão!

DARWIN E KARDEC

É oportuno lembrar o pensamento lúcido da bióloga e geneticista Hebe Laghi de Souza, no livro Darwin e Kardec: Um Diálogo Possível². Para ela, "A Bíblia encerra grandes lições, todavia, no que se refere às obras da criação, foi moldada pelos conhecimentos da época, pela capacidade de compreensão humana, bem diferente da atual".
Complementando tais considerações, finalizo com a palavra de Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo, no item 10 do capítulo IV de A Gênese³, obra publicada em 1868:

"Deveríamos, por respeito aos textos vistos como sagrados, impor silêncio à Ciência? Isso seria algo tão impossível quanto impedir a Terra de girar. As religiões, quaisquer que sejam, jamais ganharam coisa alguma sustentando erros evidentes. A missão da Ciência é descobrir as leis da natureza, ora, como essas leis são obras de Deus, elas não podem ser contrárias às religiões fundadas sobre a verdade. (...) Condenar o progresso, como atentatório à religião, é ir contra a vontade de Deus, sendo, por outro lado, trabalho inútil, uma vez que todas as maldições do mundo não impedirão que a Ciência avance, e que a verdade apareça. Se a religião se recusa a avançar com a Ciência, a Ciência avançará sozinha".

OS NEODARWINISTAS

É preciso fazer justiça a Charles Darwin na atualidade, e ela se impõe, em razão da vertente que hoje se denomina darwinista (na realidade, neodarwinista). Foram eles que preencheram lacunas deixadas por Darwin, com as leis da Genética, e atribuíram ao "acaso" aquilo que não puderam explicar, porque Darwin, após a conclusão de seu trabalho, chamou a atenção para o fato de que sua teoria não era capaz de explicar o todo, mas sim parte da evolução das espécies, e afirmou em seu livro que "a origem da vida foi planejada primitivamente por um criador".
Portanto, o criacionismo, no qual tudo deriva de Deus, é perfeitamente compatível com o evolucionismo, pois tudo na vida é de constante transformação. Assim, com toda razão podemos concluir que Charles Darwin, acusado injustamente de ser "assassino" de Deus e de ter "criado" o homem, indiscutivelmente é, na verdade, um grande revelador das sábias Leis do Criador.


BIBLIOGRAFIA

¹ THOMAS, Henry. A História da Raça Humana. 9.ed. São Paulo: Ed. Globo.

² SOUZA, Hebe Laghi de. Darwin e Kardec: Um Diálogo Possível. Campinas: Centro Espírita "Allan Kardec" - Departamento Editorial, 2002.

³ KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: CELD, 2003.

Publicado no Jornal Correio Espírita Setembro - 2008 - edição 39


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imagem: ccepa.blogspot.com


domingo, 9 de maio de 2010

CÓDIGO PENAL DA VIDA FUTURA




in O Céu e o Inferno, capVII - obra codificada por Allan Kardec



O Espiritismo não se apoia, pois, numa autoridade de natureza particular para formular um código fantasioso. Suas leis, no que toca ao futuro da alma são deduzidas de observações positivas sobre fatos e podem ser resumidas da seguinte maneira:

1o. A alma ou Espírito sofre, na vida espiritual, as conseqüências de todas as imperfeições das quais não se despojou, durante a vida corporal. Seu estado, feliz ou infeliz, é inerente ao grau de sua depuração ou de suas imperfeições.

2o. A felicidade perfeita está ligada à perfeição, quer dizer, à depuração completa do Espírito. Toda imperfeição é, ao mesmo tempo, uma causa de sofrimento e de privação de prazer, do mesmo modo que, toda qualidade adquirida, é uma causa de prazer e de atenuação dos sofrimentos.

3o. Não há uma única imperfeição da alma que não carregue consigo as suas conseqüências deploráveis, inevitáveis, e uma única boa qualidade que não seja a fonte de um prazer. A soma das penas é assim proporcional à soma das imperfeições, do mesmo modo que a dos gozos está em razão da soma das qualidades. A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que aquela que não as tem senão três ou quatro; quando, dessas dez imperfeições, não lhe restar senão a quarta parte ou a metade, sofrerá menos, e, quando não lhe restar nenhuma delas, não sofrerá mais de qualquer coisa e será perfeitamente feliz. Tal, sobre a Terra, aquele que tem várias enfermidades sofre mais do que aquele que não tem senão uma, ou que não tem nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez qualidades goza mais do que aquela que as tem menos.

4o. Em virtude da lei do progresso, tendo, toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, e de se desfazer do que ela tem de mau, segundo os seus esforços e a sua vontade, disso resulta que o futuro não está fechado para nenhuma criatura. Deus não repudia nenhum dos seus filhos; recebe-os, em seu seio, à medida que atingem a perfeição, deixando, assim, a cada um, o mérito das suas obras.

5o. Estando o sofrimento ligado à imperfeição, do mesmo modo que o prazer está à perfeição, a alma carrega, consigo mesma, o seu próprio castigo, por toda parte onde se encontre; para isso, não tem necessidade de um lugar circunscrito. O inferno, pois, está por toda parte onde haja almas sofredoras, do mesmo modo que o céu está por toda parte onde haja almas felizes.

6o. O bem e o mal que se faz são o produto das boas e das más qualidades que se possui. Não fazer o bem que se poderia fazer é, pois, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é uma fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não apenas por todo o mal que fez, mas por todo o bem que poderia fazer, e não fez, durante a sua vida terrestre.

7o. O Espírito sofre pelo próprio mal que ele fez, de maneira que, estando a sua atenção incessantemente centrada sobre as conseqüências desse mal, compreende melhor os seus inconvenientes e está estimulado a dele se corrigir.

8o. Sendo a justiça de Deus infinita, tem uma conta rigorosa do bem e do mal; se não há uma única ação má, um único mau pensamento que não tenha as suas conseqüências fatais, não há uma única boa ação, um único bom movimento da alma, o mais leve mérito, em uma palavra, que seja perdido, mesmo entre os mais perversos, pois é um começo de progresso.

9o. Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não for numa existência, será na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias, umas com as outras. Aquilo que se paga na existência presente não deverá ser pago por segunda vez.

10o. O Espírito sofre a pena das suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal, são conseqüências de nossas imperfeições, de expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes. Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes que se experimentam na vida corporal, pode-se julgar da natureza das faltas cometidas, em uma precedente existência, e das imperfeições que lhes são causa.

11o. A expiação varia segundo a natureza e a gravidade das faltas; a mesma falta pode, assim, dar lugar a expiações diferentes, segundo as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, nas quais foram cometidas.

12o. Não há, sob o aspecto da natureza e da duração do castigo, nenhuma regra absoluta e uniforme; a única lei geral é que toda falta recebe a sua punição, e toda boa ação a sua recompensa, segundo o seu valor.

13o. A duração do castigo está subordinada à melhoria do Espírito culpado. Nenhuma condenação, por tempo determinado, é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr termo aos seus sofrimentos, é uma melhora séria, efetiva, e um retorno sincero ao bem. O Espírito é, assim, sempre, o árbitro da sua própria sorte; pode prolongar os seus sofrimentos pelo endurecimento no mal, abranda-los ou abrevia-los por seus esforços para fazer o bem.

Uma condenação, por um tempo determinado qualquer, teria o duplo inconveniente ou de continuar a ferir o Espírito que teria se melhorado, ou de cessar quando este ainda estaria no mal. Deus, que é justo, pune o mal quando ele existe; e cessa de punir quando o mal não existe mais; ou, si se quer, sendo o mal moral, por si mesmo, uma causa de sofrimento, o sofrimento dura tão longo tempo quanto o mal subsista; a sua intensidade diminui à medida que o mal se enfraquece.

14o. Estando a duração do castigo subordinada ao melhoramento, disso resulta que o Espírito culpado que não se melhora nunca, sofrerá sempre, e que, para ele, a pena seria eterna.

15o. Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é a de não ver o termo de sua situação, e de crer que sofrerão sempre. É, para eles, um castigo que lhes parece que será eterno.

16o. O arrependimento é o primeiro passo para a melhoria; mas só ele não basta, é preciso, ainda, a expiação, a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento abranda as dores da expiação, no que traz a esperança e prepara os caminhos da reabilitação; mas unicamente a reparação pode anular o efeito, em destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.

17o. O arrependimento pode ocorrer em qualquer parte e em qualquer tempo; se é tardio, o culpado sofre por maior tempo. A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a conseqüência da falta cometida, seja desde a vida presente, seja, depois da morte, na vida espiritual, seja em nova existência corporal, até que os traços da falta tenham se apagado.

A reparação consiste em fazer o bem àquele a quem se fez o mal. Aquele que não reparar os seus erros nesta vida, por impossibilidade ou má vontade, se reencontrará numa existência ulterior, em contato com as mesmas pessoas que tiveram do que se lastimar dele, e em condições escolhidas por ele mesmo, de maneira a poder provar-lhes o seu devotamento, e fazer-lhes tanto bem quanto lhes haja feito de mal.

Nem todas as faltas acarretam um prejuízo direto e efetivo; nesse caso, a reparação se cumpre: fazendo o que se devia fazer e não se fez, cumprindo os deveres que foram negligenciados ou desconhecidos, as missões em que se faliu; praticando o bem em sentido contrário àquilo que se fez de mal; quer dizer, sendo humilde onde se foi orgulhoso, brando onde se foi duro, caridoso onde se foi egoísta, benevolente se foi malévolo, trabalhador se foi preguiçoso, útil se foi inútil, moderado se foi dissoluto, de bom exemplo se deu maus exemplos, etc. É assim que o Espírito progride, aproveitando o seu passado.

18o. Os Espíritos imperfeitos estão excluídos dos mundos felizes, onde perturbariam a harmonia; permanecem nos mundos inferiores onde expiam as suas faltas pelas tribulações da vida, e se purificam das suas imperfeições, até que mereçam se encarnar nos mundos mais avançados, moral e fisicamente. Si se pode conceber um lugar de castigo circunscrito, é nesses mundos de expiação, porque é ao redor desses mundos que pululam os Espíritos imperfeitos desencarnados, à espera de uma nova existência que, lhes permitindo reparar o mal que fizeram, ajudará o seu adiantamento.

19o. Tendo o Espírito o seu livre arbítrio, seu progresso é, algumas vezes, lento, e sua obstinação no mal muito tenaz. Pode nisso persistir anos e séculos; mas, chega sempre um momento no qual a sua teimosia, em afrontar a justiça de Deus, se dobra diante do sofrimento, e no qual, malgrado a sua fanfarrice, reconhece a força superior que o domina. Desde que se manifestam nele os primeiros clarões do arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança.

Nenhum Espírito está nas condições de não se melhorar nunca; de outro modo, estaria fatalmente destinado a uma eterna inferioridade, e escaparia da lei do progresso que rege, providencialmente, todas as criaturas.

20o. Quaisquer que sejam a inferioridade e a perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm o seu anjo guardião, que vela sobre eles, espreita os movimentos da sua alma, e se esforça em suscitar, neles, bons pensamentos, o desejo de progredir e de reparar, numa nova existência, o mal que fizeram. Entretanto, o guia protetor age, o mais freqüentemente, de maneira oculta, sem exercer nenhuma pressão. O Espírito deve se melhorar em razão da sua própria vontade, e não em conseqüência de um constrangimento qualquer. Age bem ou mal em virtude do seu livre arbítrio, mas sem estar fatalmente impulsionado num sentido ou no outro. Se fez mal, sofre-lhe as conseqüências por tão longo tempo quanto tenha permanecido no mau caminho; desde que dê um passo em direção do bem, sente-lhe imediatamente os efeitos.

21o. Ninguém é responsável senão pelas suas faltas pessoais; ninguém sofrerá as penas das faltas dos outros, a menos que lhes haja dado lugar, seja em provocando-as com o seu exemplo, seja em não as impedindo quando tinha esse poder.
Assim é que, por exemplo, o suicida é sempre punido; mas aquele que, pela sua dureza, leva um indivíduo ao desespero, e daí a se destruir, sofre uma pena ainda maior.
22o. Embora a diversidade das penas seja infinita, há as que são inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas conseqüências, salvo algumas nuanças, são quase idênticas. A punição mais imediata, sobretudo entre aqueles que são apegados a vida material, negligenciando o progresso espiritual, consiste na lentidão da separação da alma e do corpo, nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na duração da perturbação, que pode persistir por meses e anos. Entre aqueles, ao contrário, cuja consciência é pura, que, em sua vida, se identificaram com a vida espiritual e se desligaram das coisas materiais, a separação é rápida, sem abalos, o despertar pacífico e a perturbação quase nenhuma.
23o. Um fenômeno, muito freqüente entre os Espíritos de uma certa inferioridade moral, consiste em se crerem ainda vivos, e essa ilusão pode se prolongar durante anos, durante os quais sofrem todas as necessidades, todos os tormentos e todas as perplexidades da vida.

24o. Para o criminoso, a visão incessante das suas vítimas e das circunstâncias do crime é um cruel suplício.
25o. Certos Espíritos são mergulhados em espessas trevas; outros estão num isolamento absoluto, no meio do espaço, atormentados pela ignorância da sua posição e da sua sorte. Os mais culpados sofrem torturas tanto mais pungentes quanto não lhes vêm o fim. Muitos estão privados de verem os seres que lhes são caros. Todos, geralmente, suportam, com relativa intensidade, os males, as dores e as necessidades que fizeram os outros experimentarem, até que o arrependimento e o desejo de reparação, vêm e trazem um abrandamento, fazendo-os entreverem a possibilidade de colocarem, por si mesmos, um fim a essa situação.
26o. É um suplício para o orgulhoso ver, acima dele, na glória, cercado de festas, aqueles que havia desprezado na Terra, ao passo que está relegado às últimas posições; para o hipócrita, se ver traspassado pela luz que põe a nu os seus mais secretos pensamentos, que todo o mundo pode ler: nenhum meio há, para ele, de se esconder e se dissimular; para o sensual, ter todas as tentações sem poder satisfaze-las; para o avaro, ver o seu ouro dilapidado e não poder retê-lo; para o egoísta, ser abandonado por todos e sofrer tudo o que os outros sofreram por ele: terá sede, e ninguém lhe dará de beber; terá fome, e ninguém lhe dará de comer; nenhuma só mão amiga vem apertar a sua, nenhuma voz complacente vem consola-lo; não pensou senão em si, durante a sua vida, e ninguém pensa nele e o lamenta depois da sua morte.
27o. O meio de evitar ou atenuar as conseqüências dos defeitos na vida futura é deles se desfazer, o mais possível, na vida presente; é reparar o mal para não ter que repara-lo, mais tarde, de maneira mais terrível. Quanto mais se tarda, em se desfazer dos defeitos, mais as suas conseqüências são penosas, e mais rigorosa deve ser a reparação que se deve cumprir.
28o. A situação do Espírito, desde a sua entrada na vida espiritual, é aquela que ele se preparou, pela vida corporal. Mais tarde, uma nova encarnação lhe é dada para a expiação e a reparação, por meio de novas provas; mas a aproveita mais ou menos, em virtude do seu livre arbítrio; se não a aproveita, é uma tarefa a recomeçar, cada vez em condições mais penosas; de sorte que aquele que sofre muito na Terra, pode-se dizer que tinha muito a expiar; os que gozam de uma felicidade aparente, malgrado os seus vícios e a sua inutilidade, estejam certos de pagá-la caro numa existência ulterior. Foi nesse sentido que Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados”.
29o. A misericórdia de Deus, sem dúvida, é infinita, mas não é cega. O culpado ao qual perdoa, não está exonerado, e, enquanto não tenha satisfeito à justiça, sofre as conseqüências das suas faltas. Por misericórdia infinita, é preciso entender que Deus não é inexorável, e que deixa sempre aberta a porta de retorno ao bem.
30o. Sendo as penas temporárias, e subordinadas ao arrependimento e à reparação, que dependem da livre vontade do homem, são, ao mesmo tempo, os castigos e os remédios que devem curar as feridas do mal. Os Espíritos em punição estão, pois, não como forçados condenados a determinado tempo, mas, iguais a doentes no hospital, que sofrem da doença que, freqüentemente, decorre das suas faltas, e os meios dolorosos de que necessita, mas, que têm a esperança de sarar, e que saram tanto mais depressa quanto sigam exatamente as prescrições do médico, que vela sobre eles com solicitude. Se prolongam os seus sofrimentos, por suas faltas, o médico nada tem com isso.
31o. Às penas que o Espírito sofre na vida espiritual, vêm se juntar as da vida corporal, que são a conseqüência das imperfeições do homem, de suas paixões, do mau uso das suas faculdades, e a expiação das faltas presentes e passadas. É na vida corporal que o Espírito repara o mal das suas existências anteriores, que põe em prática as resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam essas misérias e essas vicissitudes que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser, e são de toda justiça desde que são a quitação do passado e servem para o nosso adiantamento.
32o. Deus, diz-se, não provaria maior amor pelas suas criaturas, se as tivesse criado infalíveis e, conseqüentemente, isentas das vicissitudes relativas à imperfeição? Seria necessário, para isso, que criasse seres perfeitos, nada tendo a adquirir, nem em conhecimentos e nem em moralidade. Sem nenhuma dúvida, poderia faze-lo; se não o fez, foi porque na Sua sabedoria, quis que o progresso fosse a lei geral.
Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos às vicissitudes mais ou menos penosas; é um fato que é preciso aceitar, uma vez que existe. Disso inferir que Deus não é bom e nem justo, seria uma revolta contra ele. Haveria injustiça se tivesse criado seres privilegiados, uns mais favorecidos do que os outros, gozando, sem trabalho, a felicidade que os outros alcançam com dificuldade, ou não podem jamais alcança-la. Mas onde a sua justiça brilha é na igualdade absoluta, que preside à criação de todos os Espíritos; todos têm um mesmo ponto de partida; nenhum que seja, na sua formação, é melhor dotado do que os outros; nenhum cuja marcha ascensional seja facilitada por exceção; os que chegaram ao objetivo passaram, como quaisquer outros, pela fileira das provas e da inferioridade.
Isto admitido, o que de mais justo do que a liberdade de ação deixada a cada um? O caminho da felicidade está aberto a todos; o objetivo é o mesmo para todos; as condições, para alcança-lo, são as mesmas para todos; a lei, gravada em todas as consciências, é ensinada a todos. Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favor, a fim de que cada um dela tivesse o mérito; ninguém está livre de trabalhar ou de nada fazer para o seu adiantamento; aquele que trabalha muito, e depressa, disso é mais cedo recompensado; aquele que se extravia do caminho ou perde o seu tempo, retarda a sua chegada, e isso não pode atribuir senão a si mesmo. O bem e o mal são voluntários e facultativos; sendo o homem livre, não é impelido nem para um e nem para o outro.
33o. Malgrado a diversidade dos gêneros e dos graus de sofrimento dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode se resumir nestes três princípios:

O sofrimento está ligado à imperfeição.

Toda imperfeição e toda falta que lhe é conseqüente carrega consigo o seu próprio castigo, por suas conseqüências naturais e inevitáveis, como a doença é a conseqüência dos excessos, o tédio e da ociosidade, sem que haja uma condenação especial para cada falta e cada indivíduo.
Todo homem, podendo se desfazer das suas imperfeições, por efeito da sua vontade, pode se poupar dos males que são as suas conseqüências, e assegurar a sua felicidade futura.
Tal é a lei da justiça divina; a cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra.


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