terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O MEMBRO FANTASMA


Bernardino da Silva Moreira

Foi o médico norte-americano Silas Weir Mitchell que cunhou a expressão “membro fantasma” depois da Guerra Civil. Ainda não havia, naquela época, os antibióticos, daí as amputações de milhares de membros infectados pela gangrena e muitos soldados voltavam para casa com membros fantasmas.

O cirurgião francês Ambroise Paré (1509-1590) considerado o “pai da cirurgia moderna”, 1 também foi testemunha da persistência da sensação em membros depois de amputados.

Depois de perder o braço direito em um ataque que não deu certo a Santa Cruz de Tenerife, Lord Nelson (1758-1805] sofreu dores terríveis no membro fantasma com a inconfundível sensação de dedos se fincando na palma da mão inexistente. Essas sensações fantasmagóricas levou o ilustre almirante dizer que o membro fantasma era “uma prova direta da existência da alma.” 2 Se um braço pode existir depois de retirado, por que a pessoa inteira não pode sobreviver à aniquilação física do corpo?

O ilustre pensador e Codificador Espírita Allan Kardec vem ao encontro do notável almirante britânico, ratificando e complementando:

“O perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito, que o tira do meio ambiente, do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da eletricidade, do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria. É o princípio da vida orgânica, porém não o da vida intelectual, que reside no Espírito. É, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, os órgãos, servindo-lhes de condutos, localizam essas sensações.” 3

E mais adiante volta a esclarecer:

“Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa.” 4

Segundo o neurologista V. S. Ramachadran não são apenas pernas e braços fantasmas, há muitos casos de seios fantasmas em muitas pacientes que sofreram uma mastectomia radical (retirada da mama). O renomado neurologista registra também um caso de apêndice fantasma onde o paciente se recusava a acreditar que o cirurgião o tinha retirado devido as dores que persistiam.

O neurocirurgião norte-americano Wilder Graves Penfild (1891-1976) durante as décadas de 1940 e 1950, estabeleceu uma distribuição topográfica detalhada das áreas sensoriais e motoras do cérebro, isto é, um mapa desenhado com informações compiladas de cérebros humanos reais. Penfild fez várias cirurgias de cérebro em pacientes sob anestesia local e como em muitas vezes grande parte do cérebro ficava exposta durante a operação, ele aproveitava a oportunidade para fazer experiências que nunca tinham sido tentadas antes. Estimulando regiões específicas dos cérebros de pacientes com um eletrodo e simplesmente perguntando o que sentiam, Penfild trouxe a tona todos os tipos de sensações, imagens e lembranças, e as áreas do cérebro puderam ser mapeadas. Penfield descobriu surpreso que a área envolvida com os lábios ou com os dedos, ocupava tanto espaço quanto a área envolvida com todo o tronco do corpo e concluiu que assim seria porque os lábios e os dedos são altamente sensíveis ao toque e capazes de discriminação muito apurada, enquanto o tronco seria menos sensível. Muito bem!

Essas questões levaram Tim Pons e seus colegas a entrarem na pesquisa:

“Sua estratégia foi registrar sinais dos cérebros de macacos que tinham sido submetidos a uma rizotomia dorsal – um procedimento em que todas as fibras nervosas que transportam informações sensoriais de um braço para a medula espinhal são completamente cortadas. Onze anos depois da cirurgia, eles anestesiaram os animais, abriram seus crânios e fizeram registros a partir do mapa somatossensório. Como o braço paralisado do macaco não estava enviando mensagens ao cérebro, não se esperava registrar quaisquer sinais quando você tocasse na mão inútil do macaco e registrasse a partir da “área da mão” no cérebro. Deveria haver um grande nesga de córtex silenciosa correspondente à área afetada.

De fato, quando os pesquisadores bateram na mão inútil, não houve nenhuma atividade nesta região. Mas, para sua surpresa, eles descobriram que, quando tocaram no rosto do macaco, as células cerebrais correspondentes à mão “morta” começaram a se excitar vigorosamente. (O mesmo aconteceu com as células correspondentes à face, mas isso já era esperado.) Aparentemente, a informação sensorial da face do macaco não somente ia para a área da face no córtex, como aconteceria num animal normal, mas também tinha invadido o território da mão paralisada!” 5

O Dr. Ramachadran resolveu também embarcar na pesquisa e descobre no rosto de Tom (um de seus pacientes com membro fantasma), um mapa completo da mão fantasma e concluiu que a maneira de explicar o toque, que gerou sensações na mão fantasma numa área tão distante do tronco (o rosto), seria no mapeamento peculiar das partes do corpo no cérebro, como rosto se localizando logo abaixo da mão.

Não satisfeito o Dr. Ramachadran continuou a explorar a superfície do corpo de Tom. Quando tocava seu tórax, o ombro direito, a perna direita ou a parte inferior das costas, ele tinha sensações apenas nesses lugares e não no fantasma. Mas pesquisa vai, pesquisa vem e o Dr. Ramachadran descobri um segundo e bem traçado mapa de sua mão desaparecida, agora na parte superior do braço esquerdo, acima poucos centímetros da linha da amputação. Quando tocava a superfície da pele deste mapa no braço de Tom, o Dr. Ramachadran provocava sensações localizadas precisamente em cada dedo. Uau!

Não demorou muito e o neurologista italiano, Dr. Salvatore Aglioti descobriu que muitas mulheres submetidas a mastectomia radical sentiam nítidos seios fantasmas. Procurando por respostas ele resolve pesquisar e descobre que estimulando regiões adjacentes no tórax, isto é, partes do esterno e da clavículas, produzia sensações no mamilo do seio fantasma.

A causa destes fenômenos não é o cérebro, como querem os acadêmicos reducionistas e sim o Espírito via perispírito. Com a palavra Allan Kardec:

“...Ora, não sendo o perispírito, realmente, mais do que simples agente de transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência, lógico será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem Espírito, aquele nada sentiria, exatamente como um corpo que morreu.” 6

Lamentamos profundamente pelo descaso dos neurocientistas que pensam que o cérebro é tudo. As vezes parecem mágicos tentando tirar da cartola não apenas coelhos, mas sim, o segredo da vida. Outras vezes parecem malabaristas e com contorcionismos mentais tentam agradar a gregos e troianos. Parece que agora temos uma neofrenologia!

Mais uma vez vamos ao encontro de Kardec, para ouvir suas advertências:

“Tomando em consideração apenas o elemento material ponderável, a Medicina, na apreciação dos fatos, se priva de uma causa incessante de ação. Não cabe, aqui, porém, o exame desta questão. Somente faremos notar que no conhecimento do perispírito está a chave de inúmeros problemas até hoje insolúveis.” 7

Vale a pena lembrar que no fenômeno da amputação o que é cortado ou retirado é a parte física do corpo. A chave para explicação dos membros ou sensações fantasmas, é o perispírito e fim papo!


Bibliografia:

  • Grande Enciclopédia Larousse Cultural, Nova Cultural, 1998, vol. 18, pág. 4452
  • Fantasmas no Cérebro – Uma investigação dos mistérios da mente humana, V.S. Ramachadran, Ph.D e Sandra Blakeslee, tradução de Antonio Machado, Editora Record, 2002, pág. 49
  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, tradução Guillon Ribeiro, 76ª edição, FEB, pág. 165, Ensaio teórico da sensação nos Espíritos.
  • Idem, pág. 167
  • Fantasmas no Cérebro – Uma investigação dos mistérios da mente humana, V.S. Ramachadran, Ph.D e Sandra Blakeslee, tradução de Antonio Machado, Editora Record, 2002, págs. 54 e 55
  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, tradução Guillon Ribeiro, 76ª edição, FEB, pág. 167, Ensaio teórico da sensação nos Espíritos.
  • O Livro dos Médiuns, Allan Kardec, tradução Guillon Ribeiro, 62ª edição, FEB, pág. 78, segunda parte, Das manifestações espíritas, capítulo 1, Da ação dos Espíritos sobre a matéria, item 54


endereço: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/bernardino/o-membro-fantasma.html
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sábado, 12 de dezembro de 2009

FLUIDOS


Jacob Melo

Fluido (lê-se fluido e não fluído) é um termo genérico empregado pata traduzir a característica "das substâncias líquidas ou gasosas", ou de substância "que corre ou se expande à maneira de um liquido ou gás; fluente"4. Por isso, popularmente falando, designamo-lo como sendo a fase não sólida da matéria, a qual pode se apresentar em quatro subfases5: pastosa, líquida, gasosa e radiante, tendo sido esta ultima apresentada à Ciência por um dos seus mais eminentes sábios, o inglês Sir William Crookes.

O entendimento espírita atribuído ao termo fluido, tal como criteriosamente assimilado por Allan Kardec, pelos Espíritos e por todos os espíritas, não se limita a tão restrita definição. Pata nós, fluido é tudo quanto importa à matéria, da mais grosseira à mais diáfana, variando em multiplicidade infinita a fim de atender a todas as necessidades físicas, químicas e inclusive vitais daquela, bem como de sua intermediação entre os remos material e espiritual. É o fluido não apenas algo que se move a exemplo dos líquidos ou gases, mas a essência mesma desses líquidos, gases e de todas as matérias, inclusive aqueles ainda inapreensíveis por nossos instrumentos físicos ou mesmo psíquicos.

Léon Denis, assimilando as teorias dos Espíritos, explicitou que "A matéria, tornada invisível, imponderável, se encontra sob formas cada vez mais sutis, que denominamos "fluidos". À medida que se rarefaz, adquire novas propriedades e uma capacidade de irradiação sempre crescente; toma-se uma das formas de energia"6. Com este conceito, remontando das conseqüências às causas, consorciava ele seu entendimento às teorias einstenianas por surgirem, chamando fluido de "uma das formas de energia", assim sinalizando o avanço profundo e além-moderno dos conceitos espiritas sobre o fluido.

Na visão do Espírito André Luiz, temos o fluido definido segundo alguns critérios mais extensivos: assim, o fluido, dessa ou daquela procedência, vem a ser"(...) Um corpo cujas moléculas cedem invariavelmente à mínima pressão, movendo-se entre si, quando retidas por um agente de contenção, ou separando-se, quando entregues a si mesmas"7. "Mas no plano espiritual - continua ele -, o homem desencarnado vai lidar, mais diretamente, com um fluido vivo e multiforme, estuante e inestancável, (...) absorvido pela mente humana, em processo vitalista semelhante à respiração, pelo qual a criatura assimila a força emanente do Criador, esparsa em todo o Cosmo, transubstanciando-a, sob a própria responsabilidade, para influenciar na Criação, a partir de si mesma. - Esse fluido é seu próprio pensamento contínuo, gerando potenciais energéticos (...)"8.

Partindo-se dessas colocações, fica fácil perceber que o fluido merece uma análise não só profunda como, inclusive, que leve em consideração o plano de observação. Por extensão, convimos que nossos conhecimentos atuais são ainda muito limitados para penetrarmos na essência desta matéria. A necessidade do entendimento da ''mecânica do pensamento'' (tema atualmente estudado por Espíritos desencarnados possuidores de conhecimentos bem avançados e evoluídos) e da própria absorção do fluido vital pela matéria são indispensáveis para o bom conhecimento de como se processa o domínio gerador do pensamento na criação de "potenciais energéticos" no "campo fluídico" esparso por todo o cosmo.

Disso decorre que muita coisa ainda ficaremos por entender, mas, se por um lado coisas existem completamente ininteligíveis para nós, outro numero satisfatoriamente razoável se nos oferece como elemento elucidativo por suas evidências e comprovações.

No que tange ao nosso entendimento dos conceitos eminentemente espíritas em face dos conceitos acadêmicos, observamos que parte de nossas atuais dificuldades se devem às atribuições dadas aos fluidos, tal como foi expandido e apreendido pela Codificação, sem considerar, por desconhecer, as teorias da física moderna, a qual criou termos novos para definir teorias e hipóteses novas, sem falar no próprio advento da Parapsicologia, da Psicotrônica e da Psicobiofísica que, por seus parapsicólogos9 e pesquisadores, abriram campo no seio acadêmico às pesquisas mais aprofundadas sobre tal elemento. Afinal, quando Albert Einstein trouxe ao mundo suas revolucionárias teorias da relatividade e dos campos unificados das forças, e Plank nos trazia à consideração as teorias quânticas, a Codificação já estava para completar seu primeiro cinqüentenário. Apesar disso, a não ser no que diz respeito a terminologias e nomenclaturas, tudo quanto ali está expresso condiz - e vai mais além - com os mais avançados postulados e conceitos das Ciências Modernas.

Por isso, concordamos que o termo fluido, em sua acepção normal, já não traduz exatamente o que ele representa no texto da Codificação. Do que assimilamos das modernas teorias físicas, os conceitos de "campos energéticos" e "campos de força" são aqueles que melhor enquadram o sentido que os Espíritos e Kardec quiseram emprestar ao termo fluido (pelo menos no que se refere à sua abrangência) pois por "campo" não se entenderia uma força unilateral, mas, uma dinâmica multidirecional. Exemplificando, seria como quando acendemos uma vela numa sala escura; a chama, que tem seu foco restrito e localizado, ilumina uma zona que lhe é o "campo" peculiar, não se restringindo esse "campo" à labareda mas à sua ação iluminativa ou, ainda, ao alcance calórico de suas irradiações térmicas.

Nosso confrade Mauro Quintella escreveu interessante artigo10 onde expressa idêntico pensamento: "Modernamente, com base nas teorias quânticas e relativistas (que, como dissemos acima, eram desconhecidas ao tempo de Kardec), a idéia de uma substância a permear o espaço, está voltando a ser reconsiderada. Se é apressado dizermos que essas novas idéias correspondem inteiramente ao conceito espírita, pelo menos temos certeza de que alguma relação guardam entre si, dada a semelhança entre elas e o postulado kardequiano" (parêntese nosso).

O conceito de "campo", todavia, também não será perfeito se não buscarmos fazer uma distinção entre causa e efeito; como, no exemplo da vela, entre a labareda Fonte; causa) e a luminosidade ou o calor (campo; efeito); sem isso, conforme nos sugere André Luiz, "A proposição de Einstein (...) não resolve o problema, porque a indagação quanto à matéria de base para o campo continua desafiando o raciocínio, motivo pelo qual, escrevendo da esfera extrafísica (...), definiremos o meio sutil em que o Universo se equilibra como sendo o Fluido Cósmico ou Hálito Divino, a força para nós inabordável que sustenta a Criação"11 (grifos originais). É uma colocação muito pertinente pois ela pinça uma situação característica de "fonte" onde temos uma marcante conceituação de "campo", ou vice-versa.

Pelo exposto, percebemos que para tratar da causa, do fluido universal (a elementaridade, a "fonte" da qual a matéria se origina), o conceito de "campo" se torna insuficiente e ineficiente mas, para atendermos aos fluidos de uma forma geral, conseqüência portanto, onde se incluem os fluidos cósmico e vital, "campo" é a teoria mais apropriada.

1. XAVIER, Francisco Cândido. Dever espírita. In "Seara dos M&1iuns", p. 123.

2. KARDEC, Allan. A criação primária. 1. "A Gênese", cap. 6, item 15.

3. Estes três assuntos serão proximamente merecedores de um estudo mais aprofundado em obra que estamos trabalhando, com o título provisório "Fluidos, perispírito, Centros de Força e Kundalini: uma abordagem racional".

4. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda "Novo Dicionário da Língua Portuguesa", p. 791.

5. Atualmente a Ciência já considera até sete subfases para a matéria.

6. DENIS, Léon. A força psíquica. Os fluidos. O magnetismo. In "No Invisível", cap. 15, pp. 175 e 176.

7. XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Alma e fluidos. In "Evolução em Dois Mundos", item Fluidos em geral, cap. 13, p. 95.

8. XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Alma e fluidos. In "Evolução em Dois Mundos", item Fluido vivo, pp., 95 e 96.

9. Entendemos por "parapsicólogos" os cientistas que estudam com seriedade os fenômenos paranormais, segundo métodos científicos, e não pessoas que se advogam como tais mas não estudam com profundidade e seriedade o assunto, apenas interpondo, empiricamente, suas observações eminentemente pessoais, destituídas de comprovações.

1.1 - O Fluido universal

Kardec perguntou se há dois elementos gerais no Universo: matéria e Espírito, ao que os Espíritos responderam: "Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas, ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o Espírito possa exercer ação sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o Espírito não o fosse. Está colocado entre o Espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a ação do Espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o Espírito se utiliza, é princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá."

E perguntou mais: "Esse fluido será o que designamos pelo nome de eletricidade?

"Dissemos que ele é suscetível de inúmeras combinações. O que chamais fluido elétrico, fluido magnético, são modificações do fluido universal, que não é, propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente"12 (grifamos).

Encontramos aio fluido universal projetado como se os conceitos de "campo" lhe fossem suficientes. A perspicácia de Kardec, entretanto, vislumbrou se tratar de algo maior, de uma "fonte" inestancável, verdadeiro "vórtice gerador matriz", pelo que ele "entrevistou" o Espírito São Luiz13, obtendo deste informações de que o fluido universal é o elemento universal, "o princípio elementar de todas as coisas e que, para o encontrarmos na sua simplicidade absoluta, precisamos ascender aos Espíritos puros". Fica assim registrado que, além de elemento, ele é o princípio, a causa, a "fonte", o que difere conceitual e estruturalmente das conseqüências, o "campo".

Dessa forma confirmamos que o fluido universal não pode ser conhecido totalmente por Espíritos de nosso nível pois para apreendê-lo em sua intimidade precisaríamos ascender a Espíritos puros; nem poderemos atribuir-lhe, com segurança, os conceitos de "campo" tal como frisamos, sob pena de restringi-lo em sua verdadeira e maior função; mas podemos assimilá-lo com suficiente segurança, pela exploração e pesquisa do fluido cósmico, até o ponto que as Ciências, espírita e oficial, forem abrindo horizontes para um melhor registro e um mais perfeito entendimento.

Apresentamos, entretanto, uma definição de fluido universal que acreditamos abarca suas mais evidentes características: O FLUIDO UNIVERSAL, como elemento cosmogônico básico, verdadeira prima-fonte, assomando a característica de matriz funcional do grande campo criador do universo material, com seus universos macros e micros, visíveis e invisíveis, densos e tênues, criados e por criarem-se, irrompe conceitualmente como a unidade criacionista das forças, a síntese das energias, o plano e o antiplano da matéria.

10.Considerações sobre o fluido cósmico universal. Correio Fraterno do ABC, edição sem data.

11. XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Fotônios e fluido cósmico. In "Mecanismos da Mediunidade", item "Campo" de Einstein, cap. 3. p. 39.

12.KARDEC, Allan. Espírito e matéria. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1:, cap. 2.

13.KARDEC, Allan. "Da teoria das manifestações físicas. In "O Livro dos Médiuns", cap. 4.

1.2 O Fluido Cósmico (ou a Grande Derivação do Fluido Universal)

A primeira grande derivação do fluido universal é o fluido cósmico, o fluido que enche todos os vazios, "o meio sutil em que o Universo se equilibra" e faz com que a matéria adquira "as qualidades que a gravidade lhe dá", um verdadeiro "campo energético" pleno de elementos transformáveis, adaptáveis, expansíveis, contráteis, manipuláveis enfim.

Anotemos as palavras do Espírito André Luiz a respeito: trata-se do "Plasma divino, hausto do Criador ou força nervosa do Todo-Sábio. Nesse elemento primordial, vibram e vivem constelações e sóis, mundos e seres, como peixes no oceano" 14 "Nessa substância original, ao influxo do próprio Senhor Supremo, operam as Inteligências Divinas a Ele agregadas, em processo de comunhão indescritível, (...) extraindo desse hálito espiritual os celeiros da energia com que constróem os sistemas da Imensidade.. "15 "Em análogo alicerce, as Inteligências humanas (...) utilizam o mesmo fluido cósmico, em permanente circulação no Universo (...) assimilando os corpúsculos da matéria com a energia espiritual que lhes é própria, formando assim o veículo fisiopsicossomático em que se exprimem ou cunhando as civilizações que abrangem no mundo a Humanidade Encarnada e a Humanidade Desencarnada. Dentro das mesmas bases, plasmam também os lugares entenebrecidos pela purgação infernal, (...) e que valem por aglutinações de duração breve (...)Na essência, toda a matéria é energia tornada visível e toda a energia, originariamente, é força divina de que nos apropriamos para interpor os nossos propósitos aos propósitos da Criação..."16. (Grifamos.)

Rapidamente percebemos que André Luiz se refere, sublinearmente, aos conceitos de "campo", chamando o fluido cósmico ora de "substância original", ora de "força divina". Deduz-se, por interpolação, que os conceitos de "fonte" não foram ali considerados.

Em "A Gênese" encontramos: "A matéria cósmica primitiva continha os elementos materiais, fluídicos e vitais de todos os universos que estadeiam suas magnificências diante da eternidade. Ela é a mãe fecunda de todas as coisas, a primeira avó e, sobretudo, a eterna geratriz. Absolutamente não desapareceu essa substância donde provêm as esferas siderais; não morreu essa potência, pois que ainda, incessantemente, dá à luz novas criações e incessantemente recebe, reconstituídos, os princípios dos mundos que se apagam do livro eterno17. (Grifamos.)

Percebamos como inicialmente foi inserido o termo "matéria cósmica primitiva" num sentido de "campo" e não de "fonte"; considerado foi que ela "continha os elementos materiais, fluídicos e vitais", e não que os gerou (atente-se que gerar é diferente de criar). No momento seguinte, quando titulada de "mãe" e "avó" a um só tempo, ficou transparente o reconhecimento de se estar lidando com dois conceitos distintos; enquanto que a "mãe fecunda" é data imagem de "campo energético", com suas cargas disseminadas e disponíveis à "manipulação", a "primeira avo , a "eterna geratriz" robustece a característica de "fonte primacial", literalmente "a mãe da mãe".

Observemos que eles retratam o quadro da "geração" do "campo cósmico" na imagem da "avó", e o painel auto-renovável daquela matéria cósmica quando lembra que ela "recebe, reconstituídos, os princípios dos mundos que se apagam do livro eterno", alusão direta ao "tudo se transforma", ao princípio da conservação de energia.

Disso tudo que temos analisado, acreditamos estar visível que fluido -mesmo o universal - não é Espírito nem princípio espiritual pois, em sua natureza, o Espírito é "O princípio inteligente do Universo"18; e inteligência é atributo que o fluido não possui, além do que "A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la"19. Assim nos dizem os Espíritos da Codificação.

Raciocinando com Kardec, o estado de eterização do fluido é considerado como o estado primitivo, normal, enquanto que o de materialização resulta das transformações daquele, ao ponto de se apresentar como matéria tangível nos seus múltiplos aspectos. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível, sem que se verifique, todavia, transição brusca. A cada, um tipo de fenômeno especial; ao segundo, os fenômenos do mundo visível; ao primeiro, do invisível. Na eterização o fluido não é uniforme; suas modificações propiciam o surgimento de fluidos distintos que, se para os homens são invisíveis, para os Espíritos é como se materiais fossem, possibilitando, inclusive, a "manipulação" dos mesmos por Espíritos esclarecidos. Mas, aí remata ele: "Ainda não conhecemos senão as fronteiras do mundo invisível; o porvir, sem dúvida, nos reserva o conhecimento de novas leis, que nos permitirão compreender o que se nos conserva em mistério"20. Sem dúvida alguma as teorias quânticas e relativistas se encontram entre ditas leis.

Uma observação, contudo, merece registro: Kardec faz referencia ao que usualmente chamamos de fluido espiritual. Nos adverte ele, com justa razão, que não se trata de uma qualificação exata pois os fluidos são sempre materiais, entretanto, tal nomenclatura exprime e transmite a idéia de estarmos nos referindo aos "fluidos utilizados pelos Espíritos, pelo que se torna pertinente o uso. Não percamos tal observação para não cairmos em desentendimentos.

14.XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Fluido cósmico. In 'Evolução em Dois Mundos", cap. 1, p. 19.

15.XAVIER, Francisco C&>dido e VIEIRA, Waldo. Co-criação em plano maior. In ~ em Dois Mundos", cap. 1, p. 19.

16.XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Co-criacão em plano maior. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 1, p. 23.

17. KARDEC, Allan. Uranografia geral. In "A Gênese", cap. 6, item 17.

18.KARDEC, Allan. Espírito e Matéria. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1:, cap. 2, questão 23.

19.KARDEC, Allan. Inteligência e instinto. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1'., cap.

4, questão 71.

20.KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 6.

1.2.1-O Princípio e o Fluido Vital

É o próprio São Luiz21, respondendo a Kardec, quem nos orienta:

"22. Se bem compreendemos o que dissestes, o princípio vital reside no fluido universal; dele o Espírito extrai o envoltório semimaterial que constitui o seu perispírito e é por meio desse fluido que atua sobre a matéria inerte.

É isso mesmo?

"Sim; isto é, ele anima a matéria por uma espécie de vida fictícia; a matéria se anima pela vida animal (...)".

Pelas colocações do sábio São Luiz, temos confirmado que a vida vem por ação do princípio vital, o qual, por dedução direta, é um "campo". Sendo "princípio" definido como "qualquer das causas naturais que concorrem pata que os corpos se movam, operem e vivam"22, vemos que o princípio vital é o "toque mágico" propiciador da vida, o "interruptor" vital que faz a interligação de um "campo" específico chamado "fluido vital" com elemento(s) proveniente(s) de outro "campo" (Principio Espiritual). Isto é interessante seja notado pois podemos ter, como temos, fluidos vitais dispersos, latentes, acumulados mesmo, nos grandes campos do fluido cósmico, sem que ali se dê a vida propriamente dita; é que aí ainda estaria faltando a "combinação" ou "interação" desses dois campos entre si a qual só se dá ante a propiciatura ativa do "princípio vital".

Eis Allan Kardec em "A Gênese"23 a respeito: "(...) Há na matéria orgânica um princípio especial, inapreensível e que ainda não pode ser definido: o princípio vital. Ativo no ser vivente, esse princípio se acha extinto no ser morto (...)" (grifos originais). E mais adiante ele afirma: tal princípio é "(...) Um estado especial, uma das modificações do fluido cósmico, pela qual este se torne princípio de vida (...)".

A vida, portanto, como "efeito" decorrente de um agente (princípio vital) sobre a matéria (fluido cósmico), tem, por sustentação, a matéria e o princípio vital em estado de interação ativa, de forma continua. Decorrente da mesma fonte original - pois "reside" no "fluido magnético animal", que, por sua vez, não é outro senão o fluido vital - tem, contudo, a condição peculiar de veicular o contato com o princípio espiritual.

Assim estabelecidos, tomemos o Espírito Emmanuel quando nos diz que a força denominada princípio vital é a "(...) essência fundamental que regula a existência das células vivas, e no qual elas se banham constantemente, encontrando assim a sua necessária nutrição, força que se encontra esparsa por todos os escaninhos do universo orgânico, combinada às substâncias minerais, azotadas e ternárias, operando os atos nutritivos de todas as moléculas. O principio vital é o agente entre o corpo espiritual, fonte da energia e da vontade, e a matéria passiva, inerente às faculdades superiores do Espírito, que o adapta segundo as forças cósmicas que constituem as leis físicas de cada plano de existência, proporcionando essa adaptação às suas necessidades intrínsecas"24 (grifamos).

Acompanhemos agora a resposta dos Espíritos dada à seguinte questão:

"Que é feito da matéria e do princípio vital dos seres orgânicos, quando estes morrem?"

"A matéria inerte se decompõe e vai formar novos organismos. O princípio vital volta à massa donde saiu"25. Interessante resposta; enquanto a matéria bruta se recomporá através de outros organismos, o princípio vital (matéria sutil) retornará à sua "massa" original (fluido cósmico). O fluido vital, quando o organismo vive, está ativado pelo princípio vital que dá àquele e a todas as suas partes "uma atividade que as põe em comunicação entre si, nos casos de certas lesões, e normaliza as funções momentaneamente perturbadas. Mas, quando os elementos essenciais ao funcionamento dos órgãos estão destruídos, ou muito profundamente alterados, o fluido vital se torna impotente pata lhes transmitir o movimento da vida, e o ser morre.

"(...)A quantidade de fluido vital não é absoluta em todos os seres orgânicos. (...) Alguns há, que se acham, por assim dizer, saturados desse fluido, enquanto outros o possuem em quantidade apenas suficiente.

"A quantidade de fluido vital se esgota. Pode tornar-se insuficiente para a conservação da vida, se não for renovada pela absorção e assimilação das substâncias que o contêm.

"O fluido vital se transmite de um indivíduo a outro"26

Por força do que vimos dizendo, falar de princípio vital requer abordemos um outro princípio: o espiritual, a fim de que não façamos confusão entre as duas coisas. Para elucidar com segurança, busquemos a Codificação:

"5 - São a mesma coisa o principio espiritual e o principio vital?

"(...) Ora, desde que a matéria tem uma vitalidade independente do Espírito e que o Espírito tem uma vitalidade independente da matéria, (.,.) essa dupla vitalidade repousa em dois princípios diferentes.

"6 - Terá o princípio espiritual sua fonte de origem no elemento cósmico universal? (...)

"Se fosse assim, o principio espiritual sofreria as vicissitudes da matéria; extinguir-se-ia pela desagregação, como o princípio vital; (...)

"7 - Admitindo-se o ser espiritual e não podendo ele proceder da matéria, qual a sua origem? (...)

"Aqui, falecem absolutamente os meios de investigação, como para tudo o que diz respeito à origem das coisas (...)"27 (grifamos).

Com essas seguras respostas, os Espíritos nos informam que ainda não chegamos ao nec plus ultra, ao nada mais além. No-los afirmam que muito haverá a ser desvendado, investigado, descoberto, trabalhado. Norteiam nosso entendimento sob vários aspectos, inclusive dando-nos uma pista que nos favorece entendamos por que os materialistas se sentem com razão quando atribuem ávida uma função meramente maquinal, material; mas não remontam à gênese.

Partindo daquelas explicações, onde o princípio vital tem um significado ímpar perante a vida, mesmo sendo fruto do fluido cósmico e não do princípio espiritual, fica fácil entendermos "a vida". Não poderíamos esperar que o Espírito agisse independente da matéria, quando ele nela se encontra encarnado. Sendo a matéria (corpo) o meio de expressão do Espírito, terá aquela, forçosamente, que fornecer as condições requeridas para que este se manifeste, qualquer que seja o nível em que isto se dê. Daí, inclusive, vermos tão profundas e estreitas ligações das potencialidades orgânicas com as manifestações do Espírito. Mas, apesar disso, não fica nenhuma dúvida quanto à dualidade do princípio criativo pois à essência espiritual a matéria não pode negar existência (...)nem explicar jamais! E isso aprendemos, de forma veemente, desde o tempo do Cristo:

"O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito"28.

Disso tudo, portanto, fica destacado que a Inteligência, o Espírito propriamente dito, se origina de outro princípio que não é o fluido universal mas sim o Princípio Espiritual (ou Princípio Inteligente Universal).

Neste ponto, podemos fazer uma síntese: (FIGURA 1)

DEUS: Pai e criador; "inteligência suprema, causa primária de todas as coisas". Dentre essas "todas as coisas" Ele criou:

O FLUIDO UNIVERSAL: "fonte" e princípio básico de todos os fluidos, o qual derivou (e continua a gerar) um grande campo:

O FLUIDO CÓSMICO: primeira (e talvez única) e maior decorrência do fluido universal, o qual, além de gerar todos os universos, macros e micros, tem dentro de si mesmo um outro campo:

O FLUIDO VITAL: que é o responsável, quando "combinado" com o fluido cósmico, ou com outras de suas derivações, através do agente chamado PRINCÍPIO VITAL segundo padrões muito especiais, pela vida.

Voltando a DEUS, na outra grande vertente da Criação, surge:

* PRINCÍPIO INTELIGENTE (UNIVERSAL): "fonte" do "elemento espiritual" que virá a ser o Espírito Imortal; o "acionador" do P. V.

21.TEORIA DAS Manifestações Físicas - II. Revista Espírita", jun. 1858, p. 155.

22.AULETE, Caldas. "Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa", vol. 4, p. 4.078.

23.KARDEC, Allan. Gênese orgânica In "A Gênese", cap., 10, itens 16 e 17.

24. XAVIER, Francisco Cândido. O corpo espiritual. In "Emmanuel", cap. 24, item "Através dos escaninhos do universo orgânico", p. 132.

25. KARDEC, Allan. A vida e a morte. XAVIER, Francisco Cândido. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1:, cap. 4. questão 70.

26. KARDEC, Allan. A vida e a morte. XAVIER, Francisco Cândido. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1:, cap. 4, questão 70.

27. KARDEC, Allan. Gênese espiritual. In "A Gênese", cap. 11, item Princípio espiritual.

28. João, III, v. 6.

1.3. - Conhecendo o Fluido

O fluido cósmico sofre, primordialmente no estado de eterização, inúmeras modificações, podendo ou não deixar de ser etéreo, vindo a formar fluidos diferentes. Não obstante a mesma origem, tais fluidos adquirem propriedades especiais. Assim como, num processo chamado alotrópico, a combinação de dois átomos de oxigênio é o que chamamos de oxigênio simples, enquanto a combinação de três desses átomos faz com que se obtenha o ozônio, assimilamos a possibilidade da autocombinação poder produzir um outro elemento de padrão diferente do original sem, contudo, destruir-lhe ou negar-lhe a origem. O mesmo se dá, em formas e condições bem diversas e mais ricas, com o fluido cósmico, que não apenas se combina de maneira alotrópica mas por uma infinidade de meios, físicos, psíquicos e químicos, que nem sequer vislumbramos a quantidade nem, muito menos, o modus operandi.

"Sabemos que o fluido universal, ou fluido cósmico etéreo, representa o estado mais simples da matéria; sua sutileza é tal que escapa a toda análise. E, entretanto, desse fluido procedem, mediante condensações graduais, todos os corpos sólidos e pesados que constituem a base da matéria terrestre"29. "O mundo dos fluidos, mais que qualquer outro, está submetido às leis de atração. Pela vontade, atraímos forças boas ou más, em harmonia com os nossos pensamentos e sentimentos". Conhecendo essas informações, podemos assegurar que "A vontade de aliviar, de curar, comunica ao fluido magnético propriedades curativas. O remédio para nossos males está em nós"31. "O magnetismo, considerado em seu aspecto geral, é a utilização, sob o nome de fluido, da força psíquica por aqueles que abundantemente a possuem"32. (Citações de Léon Denis.)

Disso ressalta a precisão com que o fluido interfere em nossas vidas. Sua condição de afinidade, seu atendimento pela vontade, sua harmonização com os pensamentos e sentimentos, fornecem elementos básicos à nossa tarefa de cura, tanto quanto ao alcance como à necessidade de nos posicionarmos moralmente equilibrados para melhor podermos usufruir de suas virtudes.

29. DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 20, p. 280.

30. DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 15, p. 184.

31. DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 15, p. 181.

32. DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 15, p. 180.

1.4 - Percepção - Assimilação

"Os elementos fluídicos do mundo espiritual escapam aos nossos instrumentos de análise e à percepção dos nossos sentidos, feitos para perceberem a matéria tangível e não a matéria etérea. Alguns há, pertencentes a um meio diverso a tal ponto do nosso, que deles só podemos fazer idéia mediante comparações tão imperfeitas como aquelas mediante as quais um cego de nascença procura fazer idéia da teoria das cores.

"Mas, entre tais fluidos, há os tão intimamente ligados à vida corporal, que, de certa forma, pertencem ao meio terreno. Em falta de comparação direta, seus efeitos podem observar-se, como se observam os fluidos do ímã (..,)"33. (Kardec.)

Dessas palavras deduzimos que muito acerca de fluidos só poderemos alcançar através da percepção sub-reptícia, quer tátil, quer intuitiva, ou então por dedução lógica e filosófica; entretanto, fato é que eles existem e que sua teorização não se estriba apenas em matéria impalpável tal qual eles, em sua maioria, o são. Seus efeitos são sentidos, percebidos, medidos alguns e evidenciados sempre, seja pela pujança do fato, seja pela dedução do mesmo, pelo que nos compete o estudo sério e aprofundado.

O pensar34 metaboliza o fluido cósmico, plasmando as imagens geradas pela mente, sendo, por isso mesmo, uma força criadora. O fluido vital não é mero produto mental, pois, se assim o fosse, as plantas e os animais não o possuiriam, posto que, não pensam.

Mas, isso não diz que esse fluido não seja afetado pelo impulso mental; é, e não é pouco! Pela maleabilidade e impressionabilidade dos fluidos, nosso vetor moralidade exerce forte ponderação nos destinos que lhes são decorrentes. Isto podemos confirmar numa colocação do Espírito Aulus quando explanava sobre o sistema de defesa espiritual de um médium moralmente equilibrado: "Quanto aos fluidos de natureza deletéria, não precisamos temê-los. Recuam instintivamente ante a luz espiritual que os fustiga ou desintegra. (...). Os raios luminosos da mente orientada para o bem incidem sobre as construções do mal, à feição de descargas elétricas"35. Esta colocação, inclusive, responde às duvidas muito comuns sobre o destino dos fluidos que são dispersados por ocasião dos passes. Notemos que a moralidade elevada exerce verdadeira desintegração sobre os fluidos nocivos, não alcançando estes, portanto, aquele que se exercita nas práticas morais do Evangelho de Jesus, inclusive através do passe.

Concluímos, portanto, que podemos perceber os fluidos através de nosso próprio referencial; nosso ambiente mental definirá a camada fluídica que nos rodeia e que de nós emana, em favor ou contra o próximo. Como o fluido se comporta segundo a lei de afinidade, fácil percebermos tanto o ambiente fluídico que nos envolve como nos é favorecida sua assimilação, segundo idênticos critérios.

33.KARDEC, Allan. Os fluidos. IR "A Gênese", cap. 14, item 4.

34.Pensar (atributo do Espírito), como verbo, traduz ação. Pensamento, substantivo, produto do pensar. Neste sentido é que estamos usando os termos.

35.XAVIER, Francisco Cândido. Psicofonia sonanbúlica. IR "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 8, p. 49.

33.KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 4.

34.Pensar (atributo do Espírito), como verbo, traduz ação. Pensamento, substantivo, produto do pensar. Neste sentido ~ que estamos usando os termos.

35.XAYIER, Francisco Cândido. psicofonia sonambúlica. Ia "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 8, p. 49.

1.5 - Propriedades Físicas

Retomando a "A Gênese", de Allan Kardec, ficamos sabendo que os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, que são os fluidos etéreos, não manipulando-os como os homens manipulam os gases, mas empregando, sobremaneira, o pensamento e a vontade. Por estes, e aqui relembramos a plasticidade dos fluidos etéreos, imprimem àqueles fluidos tal ou qual direção, aglomerando-os, combinando-os, dispersando-os, organizando com eles conjuntos que constituem uma aparência, uma forma, uma coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases e de outros corpos e substâncias, fazendo-os agirem e interagirem segundo certas leis.

Os fluidos não possuem qualidades "sui-generis"; as adquirem no meio onde se elaboram; modificam-se pelos eflúvios desse meio. Portanto, dizendo-se que tal fluido é bom ou mal, nos referimos ao "produto final" e não a sua generalidade. O fluido cósmico é puro e suas derivações são produto das "manipulações", em níveis e padrões variados ao infinito. Os fluidos derivados são mais ou menos úteis, para tais ou quais casos, sendo excelentes para certos usos e sofríveis para outros. O uso e a assimilação que se tenha dos fluidos é que também podem repercutir. Podemos ter um fluido "fino", bastante rarefeito, proveniente de uma fonte "elevada", mas que, para determinado tratamento, seria preferível um fluido mais material, mais denso, pelo que aquele se tornaria menos eficiente que este. De outra forma, seríamos levados a crer que os fluidos teriam personalidades próprias; não as tem, são fluidos, são matéria. Suas qualidades são produtos das "manipulações" mentais, psíquicas, espirituais, ainda que com profundas repercussões físicas.

Do ponto de vista moral, os fluidos trarão impressos em si mesmos, pelas vibrações especiais que se lhes agregam, o cunho dos sentimentos de ódio, inveja, ciúme, orgulho, egoísmo, violência, hipocrisia, bondade, benevolência, amor, caridade, humildade, doçura, afeto e carinho, com que venham a ser laborados.

No caso do fluido magnético, conforme nos assevera Michaelus, sabemos que ele, "Por si só, não apresenta nenhuma propriedade terapêutica, mas age principalmente como elemento de equilíbrio. De sorte que o desequilíbrio (...) dos fluidos magnéticos que envolvem todos os órgãos do corpo humano acarreta a desordem nas funções desses órgãos e, daí, a caracterização do que chamamos doença. Todas as vezes, portanto, que se rompe o equilíbrio, quer por excessiva condensação ou concentração, quer por excessiva dispersão de fluidos, cumpre restabelecê-lo e, daí, a cura"36.

Com esta colocação Michaelus desmistifica o fluído, mesmo o magnético. Sua propriedade básica no fenômeno das curas é o do restabelecimento do equilíbrio fluídico, através da mudança fluídica que está a gerar o fator doença.

1.6 - Os Fluidos no Magnetismo

Vamos, sucintamente, registrar as observações feitas por Michaelus, a partir de diversos magnetizadores (Deleuze, Aubin Gauthier, Du Potet e Ed. Bertholet, entre outros), e que importam ao magnetismo. Para não nos estendermos demasiadamente, aditaremos alguns breves comentários, colocando-os entre parênteses.

"1. - O fluido magnético, que se nos escapa continuamente, forma em torno do nosso corpo uma atmosfera. Não sendo impulsionado pela nossa vontade, não age sensivelmente sobre os indivíduos que nos cercam (...) (Observemos como a vontade tem um valor preponderante nas chamadas fluidificações ou influências fluídicas. Por outro lado, como toda regra tem exceção - diz a regra -, casos há em que pela excessiva sensibilidade alguém pode sentir e registrar as emanações fluídicas de uma outra pessoa, sem que seja necessariamente acionado o dispositivo da vontade do emissor; são os sensitivos em ação.)

"2. - O fluido penetra todos os corpos animados e inanimados.

"3. - O fluido possui um odor, que varia segundo o estado de saúde física do indivíduo, dos seus dotes morais e espirituais, e do seu grau de evolução e pureza. (...) O odor e a coloração do fluido estão na razão direta do estado de evolução da alma ou do Espírito (...) (Portanto, nada de se pensar que apenas as condições físicas interessam à economia fluídica do indivíduo.)

"4. - O fluido é visto pelos sonâmbulos como um vapor luminoso, mais ou menos brilhante (...) (Regra geral mas não única.)

"Os meios onde superabundam os maus Espíritos são, pois, impregnados de maus fluidos (...)

"5. - O fluido magnético não é o fluido elétrico (...)

"6. - O fluido se propaga a grandes distâncias, o que depende, entretanto, da qualidade e da força do magnetizador, e igualmente da maior ou menor sensibilidade magnética do paciente. (Por "força do magnetizador" entenda-se "força fluídica" e não física.)

"7. - O fluido está também sujeito às leis de atração, repulsão e afinidade (...) (Isto explica muitos problemas verificados nas aplicações de passes e nas fluidoterapias em geral.)

"8. - Precisamente porque o fluido varia de indivíduo a indivíduo, é de notar-se que certos magnetizadores têm mais facilidade em curar determinadas moléstias do que outras. (...) Convém não esquecer que, além do fluido propriamente humano, outros fluidos, dotados de diferentes propriedades, que ainda não conhecemos, poderão intervir na ação magnética (...) (Parece que os magnetizadores queriam falar na ação dos Espíritos. Constatamos que certos médiuns não têm grande força ou impulsão magnética de per si, mas, passam a produzir com fartura quando submetidos à assistência Espiritual evocada e consentida, confirmando como a ação da parte dos Espíritos não só é de grande proveito, mas, diríamos, indispensável.)

"9. - O estado atmosférico pode de certo modo aumentar ou diminuir a intensidade do fluido e, portanto, a eficácia da magnetização (...) (Esta observação não faz muito sentido por dois motivos: quando lidamos com fluidos espirituais, estes não se comportam exatamente como os magnéticos, nem quando aplicados em sua forma mista; por outro lado, magnetizadores contemporâneos comprovaram que tais estados atmosféricos não influem no magnetismo animal, como o evidencia a ação da fluidoterapia a distância.)

"10. - A quantidade de fluido não é igual em todos os seres orgânicos, variando segundo as espécies, e não é constante, quer em cada indivíduo, quer nos indivíduos de uma espécie (...)

"11. - São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre os doentes, de acordo com as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e reclama tratamento prolongado; doutras vezes é rápida, como uma corrente elétrica. (...) Os fluidos que emanam de uma fonte impura são quais substâncias medicamentosas alteradas.

"12. - A ligação entre o fluido magnético e os corpos que o recebem é tão íntima que nenhuma força física ou química pode destruí-lo. Os reativos químicos e o fogo nenhum efeito têm sobre ele (...) (Mas o efeito da moralidade ou da falta dela são incontestáveis.)

"Donde se conclui que há muito pouca analogia entre os fluidos imponderáveis que os físicos conhecem e o fluido magnético.

"13. - Por último, não é demais repetir que o magnetismo ensaia os seus primeiros passos e que muito pouco sabemos sobre o seu principal veículo do fluido, e que só o estudo e a experimentação poderão um dia descortinar o vasto e ilimitado caminho a percorrer"37. (Esta é a parte mais óbvia disso tudo, mas, infelizmente, poucos têm dado a atenção que é devida a tão fascinante estudo.)

Ao final, queremos ressalvar que nem tudo o que é bom e certo para o Magnetismo, como Ciência, o é igualmente para os passes, como prática espírita, pelo que vale termos em mente o cuidado para não tomarmos a especificidade daquele pelo geral das Leis deste, ou a generalidade do Magnetismo pelas particularidades do passe Espírita.

36. MICHAELUS. 1. "Magnetismo Espiritual", cap. 10, p. 80.

37. MICHAELUS. IR "Magnetismo Espiritual", cap. 6, pp. 46 a 50.

Fonte: O Passe. Seu estudo, suas técnicas, sua prática. – FEB – Portal do Espírito



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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A CIÊNCIA ADMIRÁVEL


Agradeço ao amigo Dalailam por esta postagem


1. OS CAMINHOS DA CIÊNCIA - Assim como a religião pode ser de natureza dedutiva ou indutiva, também a ciência pode seguir um desses caminhos. As ciências da antigüidade podem ser consideradas de natureza dedutiva. Partiam de princípios gerais, de ensinos tradicionais, para aplicações dedutivas a casos particulares. O exemplo mais esclarecedor deste tipo de ciência é o que nos oferece o princípio teológico da "ciência infusa", que é recebida sem aprendizagem. Adão, o "primeiro homem", a teria recebido, e também Jesus Cristo, como homem a possuía sem ter estudado. Ciência revelada, que vem do Alto, inspiração divina, que o homem recebe e aplica às coisas da terra.

A tradição escolástica medieval é o exemplo clássico da ciência dedutiva, aristotélica, contra a qual se processou a revolução indutiva de Francis Bacon e a revolução racionalista de René Descartes. A experiência baconiana e a razão cartesiana representam as duas reações contra a autoridade da Mística e da Tradição, despertando o homem para a necessidade de verificar a exatidão e a segurança de seus pretensos conhecimentos. Dois poderes foram postos em choque, de maneira definitiva, por essas duas formas de reação: o poder da Mística Oriental, que se apresentava como revelação divina, e o poder da Tradição Aristotélica, que se definia como sujeição da razão humana àquela revelação.

A partir daquilo que podemos chamar "a revolução metódica", ou ainda "a revolução do método"- pois tanto Bacon quanto Descartes partiram da necessidade de um método para a conquista do conhecimento verdadeiro - os caminhos da ciência foram modificados. Já não bastavam a sanção das antigas escrituras sagradas, dos livros de Aristóteles ou da tradição cultural, para que a ciência se impusesse e pudesse ser transmitida como verdade. Cabia ao homem equacionar de novo os velhos problemas, para encontrar as soluções mais seguras. Já vimos o que isso representa, no processo geral da evolução humana. Mas o que agora nos importa é colocar nesse quadro o problema da ciência espírita.

Tomemos para exemplo a classificação das ciências, de Augusto Comte, que data da época de Kardec. Vemos que ela se constitui de seis ciências, correspondentes às fases da evolução fixadas na lei dos três estados. São as seguintes: 1) a Matemática, de tipo dedutivo, a mais antiga e mais simples, ao mesmo tempo a mais abstrata; 2) a Astronomia, que não poderia aparecer sem o desenvolvimento da matemática; 3) a Física, que decorre da existência das duas anteriores, e que embora tendo por objeto o concreto, depende dos conceitos abstratos da matemática; 4) a química, que não poderia existir sem o aparecimento das anteriores; 5) a Biologia, que parece nascer diretamente das duas últimas: 6) a Sociologia, que é ao mesmo tempo uma física, uma química e uma biologia social, e por isso mesmo a mais complexa e a mais recente das ciências.

Para Comte, não existia a Psicologia, uma vez que a alma se explicava como simples conseqüência do dinamismo orgânico. A Sociologia, rainha das ciências, representava o acabamento do edifício do saber. Não obstante, no volume quarto da "Revue Spirite", de abril de 1858, Kardec publica, precedido de breve comentário, interessante trecho da carta que lhe dirigira um leitor perguntando-lhe se um novo período não estava surgindo para as ciências, com a investigação dos fenômenos espíritas. Kardec concorda com o missivista, admitindo que o Espiritismo iniciou o "período psicológico". Podemos dizer que a visão comteana do desenvolvimento científico limitou-se ao plano existencial, e, portanto do concreto, do material. Da Matemática à Sociologia, tudo se passa no campo das leis físicas, materiais. Daí a razão porque Comte não admitia a Psicologia, pois esta, na verdade, nada mais era que o estudo de um epifenômeno: o conjunto de reações orgânicas da matéria.

Ao referir-se a um "período psicológico", que se iniciava com o Espiritismo, Kardec acentuou a importância moral do mesmo. O homem se destacava da matéria, libertava-se da estrutura fatalista das leis físicas, para recuperar, no próprio desenvolvimento das ciências, a sua natureza extrafísica. Convém lembrarmos a "lei dos três estados", que o Espiritismo modifica para "lei dos quatro estados". Segundo o Positivismo, a evolução humana teria sido realizada através de três fases: a teológica, a metafísica e a positiva, sendo que a primeira corresponderia a mentalidade mitológica; a Segunda, a do desenvolvimento do pensamento abstrato; a terceira, a do desenvolvimento das ciências. Já estudamos essas fases na seqüência dos horizontes culturais. Kardec acrescenta a fase psicológica, em que as ciências se abrem para a descoberta e a afirmação do psiquismo como fenômeno (e não mais como simples epifenômeno), reconhecendo-lhe a autonomia e a realidade positiva, verificável, susceptível de comprovação experimental.

Vemos a confirmação desse pensamento de Kardec ao longo de toda a sua obra. O Espiritismo é apresentado como ciência, porque, explica o mestre em A Gênese, capítulo primeiro: "Como meio de elaboração, o espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, aplicando o método experimental." E logo mais, no mesmo período, item 14: "As ciências só fizeram progressos importantes depois que basearam os seus estudos no método experimental. Até então, acreditava-se que esse método só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas." Essa posição de Kardec está hoje confirmada pelo desenvolvimento da Parapsicologia, a primeira ciência positiva, segundo afirmava o Prof. Joseph Banks Rhine, da Duke University, EE.UU., cognominado "Pai da Parapsicologia", a romper os limites da concepção física do Universo e a provar a existência do extrafísico. Como se o Espiritismo já não o tivesse feito.

Com o espiritismo, portanto, a ciência mais complexa, a da alma, que Augusto Comte não considerava possível, abandonou também o caminho das deduções, como o fizeram as anteriores, para entrar no caminho das induções. É da observação dos fatos positivos que o Espiritismo parte para a comprovação da realidade extrafísica. Kardec ainda afirma, no mesmo período citado: "Não foram os fatos que confirmaram, a posteriori, a teoria, mas a teoria que veio, subseqüentemente, explicar e resumir os fatos."


2. DUALIDADE NA UNIDADE - Chegamos assim a uma constatação curiosa: o desenvolvimento científico leva as próprias ciências à dicotomia que elas insistentemente rejeitam. A dualidade cartesiana, hoje considerada herética, tanto nas ciências quanto na filosofia volta a se impor, no momento mesmo em que as ciências parecem dominar soberanamente o mundo do conhecimento. Quando a realidade extrafísica era mais fortemente repudiada, para sustentar-se, como base única da certeza do conhecimento e da segurança do homem, apenas a realidade física, eis que esta desmorona, ao impacto das investigações parapsicológicas, que nada mais são do que o desenvolvimento, no plano material, das pesquisas espíritas e metapsíquicas.

Mas além desse impacto, outro ainda mais forte vem atingir a sólida muralha dos conceitos físicos: a própria Física, para progredir, se desfaz em Energética. O desenvolvimento da Física Nuclear nada mais é do que a negação da matéria, segundo as próprias expressões de Albert Einstein, Arthur Compton, e outros físico eminente. Assim, em dois sentidos diversos: nas ciências do homem e nas ciências da natureza, o Materialismo e o Positivismo se desfazem, como simples miragens científicas. E, em lugar de ambos, impõe-se a realidade da Ciência Espírita.

Kardec afirmou, há mais de cem anos, em O Livro dos Espíritos, com a serenidade do homem que realmente sabia o que estava escrevendo: "O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual, bem como as suas relações com o mundo corpóreo." Vemos isso no item 5° do capítulo 10, do livro citado. E logo mais, no item 8°, acentuou: "A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana. Uma revela as leis do mundo material, e a outra as do mundo moral, tendo, no entanto, umas e outras, o mesmo princípio: Deus; razão porque não podem contradizer-se".

Como Ciência nova, última da escala das ciências, o Espiritismo abre uma nova era na história do conhecimento. E como todas as eras novas, esta se apresenta confusa, aparentemente cheia de contradições. A primeira e a mais forte dessas contradições, a que mais perturba os homens de ciência, é precisamente a da dicotomia a que já nos referimos. Como admitir-se depois dos próprios esforços de Einstein para provar a unidade das leis naturais, através de sua teoria do campo unificado, a dualidade que ora se apresenta? Temos então dois campos: um físico e outro extrafísico; e consequentemente duas formas de ciência, as físicas e as não físicas? Voltamos à dualidade cartesiana, ou o que parece ainda pior, à dualidade primitiva das superstições tribais ou do período metafísico?

Kardec explica, nos capítulos VII e VIII da "Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita", que a ciência propriamente dita, ou seja, as chamadas ciências positivas, tem por objeto a matéria. O Espiritismo, entretanto, tem por objeto o Espírito, ou princípio inteligente do Universo". E acrescenta: "A ciência propriamente dita, como ciência é, portanto, incompetente para se pronunciar a respeito da questão do Espiritismo: não lhe compete ocupar-se do assunto, e o julgamento, qualquer que ele seja, favorável ou não, não teria nenhuma importância".

É que, enquanto o Espiritismo é uma forma de concepção geral do Universo e da Vida, as ciências não podem abranger o conjunto. Que fazem elas, senão enfrentar os problemas concernentes ao plano existencial? Quando estamos nesse plano, encarado apenas como o da realidade física, não percebemos o outro. Aliás, a própria fragmentação da Ciência, em tantas ciências quanto os campos específicos que tiveram de enfrentar, obrigou-as a buscar uma forma de reunificação no plano filosófico, com a Filosofia das Ciências. Não é esta, também, uma forma de volta à Metafísica, embora com os dados da Física? A dicotomia, como se vê, é um fantasma permanente, que nenhum exorcismo científico conseguiu afastar.
Os esforços do Reflexiologismo russo e do Condutismo norte-americano em Psicologia, para reduzirem o psiquismo a um simples epifenômeno, foram superados violentamente pelo desenvolvimento da Psicanálise e do que hoje denominamos Psicologia Profunda. Os esforços da Física, para dominar todo o campo das ciência, naturais e humanas, foram inúteis, quando ela mesma superou os seus próprios quadros, revelando a inexistência da matéria como tal. Mas essa mesma revelação, que para as ciências positivas parece um golpe de morte, para o Espiritismo não é mais do que a confirmação da unidade na dualidade, que ele sustentou desde o princípio. Não há dualidade, mas multiplicidade, pluralismo, uma riqueza infinita e inconcebível de planos de manifestação, mas esta manifestação é a de uma realidade única, a espiritual, princípio e fundamento de tudo. Por isso, Kardec advertiu que a Ciência e a Religião tem um mesmo princípio e não podem contradizer-se.

Compreendendo essa verdade, mas em plena era metafísica a Escolástica medieval quis subordinar a revelação científica, então entendida como filosófica, à dogmática teológica. Não sendo possível nem admissível a contradição, a ciência humana tinha de servir à ciência divina, e a filosofia devia conservar-se na posição de serva da teologia. Basta pensarmos na divisão do conhecimento humano, feita por Santo Agostinho, em "iluminação" e "experiência", para entendermos a subordinação lógica da razão à revelação. Mas Kardec demonstra a existência de duas formas de revelação: a divina e a humana, ambas conjugadas num mesmo processo cognitivo. A raiz, aliás, se mostra no próprio plano etimológico: revelar é apenas por às claras o que estava oculto, e isso, tanto no referente às coisas materiais, quanto às espirituais. Ainda aqui, a dualidade na unidade.

Mas nem por isso podemos deixar de respeitar a dualidade como uma realidade que se impõe à condição humana. E assim como, nas próprias ciências positivas, encontramos a multiplicidade de objetos e métodos - não apenas dualidade, mas multiplicidade - assim também, no tocante ao Espiritismo, como ciência do espiritual, e às ciências positivas, como ciências do material, temos de considerar a necessidade de métodos diferentes, para objetos diversos. É o problema da moderna ontologia do objeto. Da mesma maneira por que os métodos da experimentação física não serviram à pesquisa psicológica ou sociológica, os métodos cientifico positivos são insuficientes para a investigação espírita. A ciência espírita tem os seus próprios métodos. E tanto isso é necessário e cientificamente válido, que, atualmente, a Física se desdobra em Física Nuclear ou Para-Física, e a Psicologia em Parapsicologia.


3. ESPÍRITO E MATÉRIA - A ciência espírita não procede por exclusão, mas procura a síntese. As ciências positivas, até agora, procederam por exclusão. Não podendo admitir a existência do espírito, deixaram-no à margem das suas cogitações, e acabaram por tentar excluí-lo definitivamente da realidade universal. Apesar disso, tiveram sempre de admiti-lo, na forma de um epifenômeno. Não era possível negar a evidência do espírito, tanto no processo individual da manifestação humana, quanto no processo coletivo, da vida social. Daí o aparecimento da Psicologia, que os mais renitentes materialistas procuraram reduzir à Fisiologia, e o aparecimento da Sociologia, que acabou exigindo a formulação de uma Para-Sociologia, com a Psicologia Social.

Espírito e matéria, como sustenta a ciência espírita, são duas constantes da realidade universal. Por isso, Kardec declara no item 16 do capítulo primeiro de A Gênese: "O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente. A Ciência, sem o Espiritismo, não pode explicar certos fenômenos, somente pelas leis da matéria. O Espiritismo, sem a Ciência, careceria de apoio e confirmação." Ao fazer essa declaração, Kardec teve em mira o pensamento positivo e a possibilidade de comprovar-se a existência do espírito através dos fenômenos físicos.

Seria possível essa comprovação? Tanto o Espiritismo, como a Ciência Psíquica inglesa e Metapsíquica de Richet já o demonstraram, no século passado. Hoje, coube à Parapsicologia reafirmar aquelas demonstrações e procurar aprofundá-las, dentro das próprias exigências metodológicas das ciências positivas. Que estas exigências não se adaptam à natureza diversa do objeto, como dizia Kardec, também se comprova. As investigações parapsicológicas apenas arranham o litoral do imenso continente do espírito, e a todo momento se emaranham em dúvidas e controvérsias. Mas o espírito se afirma, independentemente das interpretações diversas, como uma realidade fenomênica.

Parece haver uma contradição nessa curiosa posição da fenomenologia paranormal. Mas a contradição decorre apenas da posição mental dos pesquisadores. Porque, se a realidade se constitui de espírito e matéria, e se o espírito se manifesta no existencial através da matéria, a própria realidade nada mais é do que uma manifestação paranormal. Tudo quanto existe é fenômeno, mas o é em função do número kantiano, da essência espiritual que se manifesta na existência. Dizer, pois, que o Espiritismo, em vez de espiritualizar os homens, materializa espíritos, é simplesmente sofismar. Não se pode espiritualizar os homens sem lhes dar a consciência de sua natureza espiritual, não através de uma imposição dogmática, hoje inadequada e perigosa, - que leva a maioria das pessoas à dúvida ou ao ceticismo - mas através da prova científica.

Como ciência do espírito, e portanto do elemento espiritual constitutivo do Universo, o Espiritismo procede de maneira analítica, no plano fenomênico. Mas, ao se elevar às conclusões indutivas, atinge, natural e fatalmente, o plano da síntese. É esse o motivo porque Richet considerou Kardec excessivamente crente, ingênuo, precipitado. Para o fisiologista que era Richet, a síntese das verificações fenomênicas não poderia jamais superar o plano da realidade fisiológica. Teria de ser uma síntese parcial, uma conclusão tirada apenas dos dados positivos, que no caso seriam os dados materiais da investigação. Para o espírita Kardec, dava-se exatamente o contrário. A síntese tinha de ser completa, uma vez que os dados materiais revelavam a presença do espiritual, a sua manifestação.

Impõe-se, neste caso, a observação de Descartes, de que é mais fácil conhecermos o nosso espírito do que o nosso corpo. A realidade espiritual nos é mais acessível, porque é a da nossa própria natureza. A realidade material é-nos estranha e quase inacessível. Quando o cientista da matéria observa os fenômenos, procurando explicações no plano dos seus conceitos habituais, acaba emaranhando-se nas dúvidas e perplexidades que aturdiram tantos investigadores. Quando, porém, como no caso de William Crookes ou Alfred Russell Wallace, o cientista da matéria não se esquece da sua natureza espiritual, a realidade transparece nos dados materiais da investigação.

Nosso conhecimento das coisas materiais é extremamente mutável, em virtude da própria natureza mutável dessas coisas. Mas nosso conhecimento de nós mesmos, ou das coisas espirituais, é estável, e podemos mesmo considerá-lo imutável. Por que esse conhecimento nos é dado por intuição direta, por uma percepção que coincide com a própria natureza do percipiente. Sujeito e objeto se confundem no processo da relação cognitiva. Tocamos de novo o problema que dividiu os filósofos jônicos e eleatas, na Grécia clássica: a realidade móvel de Heráclito e a estável de Zenon. O que nos mostra, mais uma vez, a acuidade intuitiva dos gregos, pois os dois aspectos universais continuam a aturdir-nos.

Certas pessoas querem negar a natureza científica do Espiritismo, por considerarem a "crença" espiritual uma simples superstição. Alegam que desde as eras mais remotas os homens acreditaram em espíritos. Mas não é o fato de sempre haverem acreditado o que importa, e sim o fato das próprias investigações científicas modernas confirmarem essa crença. Enquanto, por exemplo, a concepção geocêntrica do universo, tão arraigada, teve de modificar-se, diante da evidência científica, a concepção espiritual do homem, pelo contrário, mostrar-se irredutível. A ciência espírita só tem motivos para firmar-se nos seus conceitos, e não para ceder aos conceitos mutáveis das ciências materiais.


4. SEMENTES DE FOGO - Podemos dizer, diante da validade dos princípios espirituais, afirmados e reafirmados através do tempo, como dizia Descartes: "temos em nós sementes de ciências, como o sílex tem sementes de fogo". Kardec citou, na Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Sócrates e Platão como precursores da Doutrina. Essa citação não nos impede, pelo contrário nos estimula, a verificar a existência de outros precursores no campo da ciência e da filosofia, antigas e modernas. Entre eles, não há dúvida que devemos colocar René Descartes, na própria França em que surgiria mais tarde o Consolador.

Na noite de 10 para 11 de novembro de 1619, Descartes, então jovem soldado acampado em Ulm, na Alemanha, sentiu-se tomado por intensas agitações. Seu amigo, biógrafo e correspondente, o Abade Baillet, diria mais tarde que ele: "entregou-se a uma espécie de entusiasmo, dispondo de tal maneira do seu espírito já cansado, que o pôs em estado de receber as impressões dos sonhos e das visões". De fato, Descartes, que se preocupava demasiado com a incerteza dos conhecimentos humanos, transmitidos tradicionalmente, deitou-se para dormir e teve nada menos de três sonhos, que considerou bastante significativos. O mais curioso é que esses sonhos já lhe haviam sido preditos pelo Demônio, que à maneira do que se verificava com Sócrates, o advertia de coisas por acontecer.

A importância desses sonhos, como sempre acontece quando se trata de ocorrências paranormais, não foi até hoje apreciada pelos historiadores e pelos intérpretes do filósofo. Mas Descartes declarou que eles lhe haviam revelado "os fundamentos da ciência admirável", uma espécie de conhecimento universal, válido para todos os homens e em todos os tempos. Essa ciência não seria elaborada apenas por ele, pois tratava-se de "uma obra imensa, que não poderia ser feita por um só". Comentando o episódio, acentua Gilbert Mury "Esse homem voluntarioso e frio tem qualquer coisa de um profeta. Anuncia a Boa Nova. Escolheu a rota da sabedoria, e nela permanecerá."

Descartes sentiu-se de tal maneira empolgado pelos sonhos que acreditou haver sido inspirado pelo Espírito da Verdade. O Abade Baillet registra esse fato em sua biografia do filósofo. Foi tal a clareza da intuição recebida, em forma onírica, que Descartes se considerou capaz de pulverizar a velha e falsa ciência escolástica, que lhe haviam impingido desde criança. Pediu a Deus que o amparasse, que lhe desse forças para realizar a tarefa que lhe cabia, na grande obra a ser desenvolvida. Rogou a Deus que o confirmasse no propósito de elaborar um método seguro para a boa direção do espírito humano. E desse episódio originou-se toda a sua obra, que abriu os caminhos da ciência moderna.

Não tinha Descartes, nessa ocasião, mais do que 23 anos .

Julgou-se, por isso mesmo, demasiado jovem para tão grande e perigosa empreitada. Não obstante, como um verdadeiro vidente, empenhou, dali por diante, todos os seus esforços, no sentido de adquirir conhecimentos e condições para o trabalho entrevisto. E dezoito anos depois lançou o "Discurso do Método", que rasgaria os novos caminhos da ciência. Cauteloso, diante dos perigos que ameaçavam os pensadores livres da época, Descartes não deixou, entretanto, de cumprir o seu trabalho, que Espinosa prosseguiria mais tarde, e que mais tarde ainda se completaria com a dedicação de Kardec.

A epopéia do "cógito", realizada no silêncio da meditação é uma indicação de rumos à nova ciência. Descartes mergulhou em si mesmo, negando toda a realidade material, inclusive a do próprio corpo, na procura de alguma realidade positiva, que se afirmasse por si mesma, de maneira indubitável. Foi então que descobriu a realidade inegável do espírito, proclamando, no limiar da nova era: "Cógito, ergo sum", ou seja: "Penso, logo existo." E no mesmo instante em que reconheceu essa verdade, julgou-se isolado do universo, perdido em si mesmo. Só podia afirmar a sua própria existência. Nada mais sabia, nem podia saber.

A maneira por que Descartes retoma contato com a realidade exterior é outra indicação de rumos. Descobre no fundo do "cógito", no seu próprio pensamento, a realidade suprema de Deus. Essa descoberta lhe devolve o Universo perdido. O filósofo da negação se converte no cientista da afirmação. Deus existe e o Universo é real. Espinosa escreverá a "Ética", mais tarde, sua obra máxima, a partir de uma premissa fixada por Descartes: a existência de Deus. É fácil compreendermos que a ciência admirável tinha um fundamento sólido, poderoso e amplo, que a ciência materialista rejeitou posteriormente. Mas, depois disso, quando a ciência admirável conseguiu, apesar da repulsa dos homens, novamente firmar-se em França, o fez de braços abertos para todos os fragmentos em que se partira a ciência da matéria.

Este é um tema que os estudiosos do Espiritismo precisam desenvolver. Num curso de introdução doutrinária, é bom que o coloquemos, a título de orientação para os estudantes e de sugestão para as suas futuras investigações. A chamada revolução cartesiana foi precursora da revolução espírita. A ciência admirável de Descartes é a mesma ciência espiritual de Kardec, ainda em desenvolvimento, por muito tempo, em nosso planeta.

J. Herculano Pires




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