segunda-feira, 14 de setembro de 2009

EMBRIÕES CONGELADOS - CÉLULAS-TRONCO


Considerações gerais

(Texto extraído do livro "Genética... Além da Biologia", Eurípedes Kühl, Editora Fonte Viva – BH/MG, 2004)

Questão 67. Se o embrião for congelado, qual a situação do Espírito ligado a ele?

— Essa questão é, talvez, a de maior alcance e interesse da genômica.

As considerações sobre os embriões congelados trilham sobre o fio da navalha de algo tão transcendental, já largamente sendo experimentado pelos geneticistas e embriologistas: manipulação, aproveitamento, armazenamento, descarte...

O embrião manipulado em laboratório, poderá ter duas destinações: uma, para fertilização assistida, caso em que a ligação do Espírito ocorrerá da mesma forma como se dá ao natural; outra, para produção de células-tronco, para fins terapêuticos, sendo de supor que não haverá Espírito ligado a ele. Só suposição, pois certeza, só o Plano Maior tem...

- Embriões congelados

Na fertilização assistida, vários embriões são manipulados, dos quais, normalmente, quatro são implantados no útero e os demais, mantidos congelados, para eventual repetência da fertilização, caso não prospere a tentativa anterior (tem sido um problema ético mundial o descarte dos embriões congelados que já não mais interessam ao casal).

Mas também estão sendo manipulados embriões, para pesquisas, os quais permanecem congelados. Também há congelamento de células germinativas (gametas):óvulos e espermatozóides.

Vemos assim, que os embriões podem ter duas finalidades: uma reprodutiva, outra para pesquisas laboratoriais.

O nó górdio da questão é saber em qual embrião, seja para uma ou para outra destinação, há ou não Espírito a ele ligado, posto que em "A Gênese", cap. XI, item n° 18, consta que na fecundação ocorre uma expansão do perispírito daquele que irá reencarnar, atraindo-o, irresistivelmente e à medida que o feto se desenvolve, esse laço espiritual se encurta. Repetindo o que já enfatizamos, homem algum do mundo tem conhecimento se no embrião há ou não um Espírito a ele ligado.

Se um embrião ao qual está ligado um Espírito for conduzido ao congelamento — seja para pesquisa ou para futura reencarnação — e assim permanecer por longo tempo, em demorado estágio, podemos aventar algumas hipóteses espirituais que justifiquem tal condição, certamente muito desconfortável, para não dizermos sofredora:

Na hipótese formulada pela pergunta acima, a de que há embriões congelados com ligação espiritual efetuada, imaginamos que podem ocorrer as seguintes situações:

a. ali está um Espírito que se ofereceu, voluntariamente, para participar do progresso da ciência terrena, por ser dela devedor, em vidas passadas; o período do congelamento (prisional), qual casulo impenetrável, o obrigará ao mutismo e às reflexões de ajustamento futuro; isso lhe é benéfico!

b. ali está um Espírito "semimorto", transferido de um tormentoso e prolongado sono na Espiritualidade (povoado de maus sonhos), em vias de condicionar-se a futura reencarnação, pois talvez ali o sono lhe seja mais tranqüilo e recuperador!

OBS: O autor espiritual André Luiz, no cap. 27 do livro "Nosso Lar", refere-se a Espíritos adormecidos há longo tempo em uma câmara da Colônia Espiritual (do mesmo nome da obra), sofrendo pesadelos sinistros. Inferimos que a transferência de alguns desses Espíritos para tais embriões poderá representar um primeiro passo para futura reencarnação, vez que permaneceriam no sono que antecede à reencarnação (questões n°s 345 e 351 de "O Livro dos Espíritos"), ao tempo que estariam auxiliando o progresso da ciência terrena, captando tal crédito;

c. ali está um Espírito que durante sua(s) existência(s) terrena(s) amealhou inúmeros inimigos, por causa do seu grande poder e procedimento cruel, que pode até ter causado milhares de vítimas, as quais, agora no Plano Espiritual, perseguem-no obstinadamente, com propósitos vingativos; se esse Espírito for alocado num embrião congelado isso lhe proporcionará abrigo (esconderijo) indevassável, constituindo isso defesa contra tantos vingadores. Simultaneamente, receberá tratamento espiritual a cargo de enfermeiros espirituais, podendo arrepender-se e iniciar processo de reconstrução moral. Quanto mais tempo ali permanecer, maior a chance dos perseguidores evoluírem e abandonarem a idéia de vingança, ou, no mínimo, reencarnarem e temporariamente concederem trégua para esse Espírito, assim contemplado com bênção inapreciável!

CÉLULAS-TRONCO

54. O Espiritismo seria contrário à utilização das células-tronco dos blastócitos?

— No Espiritismo, obviamente, não há registro de células-tronco (CT).

Não obstante, o mérito de qualquer ação terá sempre alguma conotação com os ensinos de Jesus, e aí sim, encontraremos no Espiritismo, alicerce seguro para opinar.

É assim que nós, espíritas, somos radicalmente contrários à utilização do embrião, mesmo que na fase de blastócito, com utilização de células-tronco (embrionárias), para fins de clonagem terapêutica.

Sabemos, pela questão n° 344 de "O Livro dos Espíritos" que na concepção inicia-se a ligação da alma ao corpo. Logo, tal procedimento constitui um aborto — crime, segundo leis da Vida e por conseguinte, diante de Deus.

Alguém poderá argumentar que o Espiritismo esclarece que há corpos sem alma (questões n° 136.a e 136.b de "O Livro dos Espíritos") e assim sendo, o descarte de tais embriões, após deles serem extraídas as células-tronco, não constituiria aborto...

Muito bem.

Contra-argumentamos, com uma pergunta: quem, na face da Terra, pode afirmar em qual embrião inexiste a ligação de um Espírito?...

Aliás, Deus, na Sua bondade infinita, no tempo certo (antes que o uso das CT acontecesse) já permitiu à ciência descobrir que todos os indivíduos, mesmo e principalmente os adultos, têm células-tronco em si mesmos, propiciando auto-emprego com rejeição "zero", o que dispensa as alienígenas, vindas de embriões. Ou de doadores outros!

Assim, reiteramos que a descoberta das células-tronco constituem, num primeiro passo, a certeza de que essa é bênção até aqui alcançada pelas pesquisas com a clonagem, abrindo um inimaginável leque de opções na cura de doenças graves, recomposição de órgãos, etc. Bênção incalculável, sublime!

Já a utilização segura das CT, num segundo passo, é justa expectativa, empolgando o Espírito confiante e acenando ao corpo doente, com a maior de todas as forças da fé: a esperança!

* * *

01.JUNHO.2005: Vamos acrescentar alguns comentários correlatos ao tema e que não constam do livro supra referenciado.

- No 5º Congresso Nacional da Associação Médico-Espírita do Brasil foi realizado em São Paulo, em três dias de discussões (26 a 28 de maio/2005) sobre medicina, ciência e espiritualidade no cuidado com o paciente.

Participaram 850 profissionais de saúde de todo país, 45 palestrantes em 41 palestras, que mostraram as mais recentes pesquisas e as terapêuticas, discutiram a ética diante dos avanços da medicina e novos paradigmas do medico espírita.

O evento terminou com a divulgação da "Carta S.Paulo de Princípios de uma Bioética Espírita", documento da entidade que se posiciona contra o uso de embriões congelados para experiência cientifica, contra o aborto (inclusive de anencéfalos), contra a pílula do dia seguinte e contra a eutanásia e a distanásia.

Carta de Princípios de uma Bioética Espírita - Carta S.Paulo

Em relação ao aborto: nosso paradigma é o personalista espírita (contempla a dignidade ontológica, a partir do zigoto, onde inicia a vida) a vida é um bem indispensável, uma doação. O Ser Supremo, que a doa, está presente no micro e no macroscópico. Verdades evidenciadas nas pesquisas científicas, tanto pela origem da vida, quanto da embriogênese e psiquismo fetal, tendo em vista que os cientistas não definiram o que é vida e não conseguiram cria-la em laboratório.

(...)

Em relação às células-tronco: considerando que as pesquisas com células-tronco embrionárias são incipientes, com alto risco de originarem tumores, eticamente discutíveis, passíveis de provocar rejeição e realizadas com esquecimento da possibilidade da existência de vida espiritual, somos contrários à sua utilização. Considerando que as pesquisas mais recentes têm mostrado maior potencialidade das células-tronco adultas e com menor risco de rejeição ou de provocar tumores e já com bons resultados nas leucemias, cardiopatias, AVC, etc, somos favoráveis à sua utilização.

(...)

Associação Médico-Espírita do Brasil.

V Congresso Nacional Médico-Espírita.

São Paulo, 28 de maio de 2005.


endereço: http://www.apologiaespirita.org/

imagem: comunidade.cn



quinta-feira, 10 de setembro de 2009

PAPEL DE JESUS FORA DO OCIDENTE


Valerio Melo

Minha esposa e eu temos uma dúvida sobre o papel de Jesus na mudança do mundo. Ele foi, e ainda é claro!, muito importante para nós ocidentais, mas não teve NENHUMA penetração no oriente, onde a sua passagem pelo mundo "ainda" não foi notada. O cristianismo é muito restrito, em número de adeptos, em relação às outras religiões, especialmente as orientais. Vide a população da China, Índia etc. A sensação que temos é de que, como cristãos, consideramo-nos superiores, e consideramos Jesus superior a Maomé, Buda, Confúcio etc. Como o espiritismo vê nossas duvidas? A seguir colocamos nossas discussões para enriquecer a questão.

RAZÕES PARA A DÚVIDA: Jesus não tem nenhuma importância para os orientais, assim como Maomé não representa nada pra nós (Maomé não nos diz nada ... no máximo o consideramos no aspecto histórico).

Nossa dúvida vem desse complexo de superioridade que temos por achar que Jesus (o ser perfeito, do nosso ponto de vista) nasceu aqui no ocidente. Talvez cada cultura tenha o "ser perfeito" adequado às suas possibilidades de entendimento, à sua realidade. Cada "ser perfeito" vem para ensinar às pessoas daquela sociedade, para ajudá-las na sua reforma íntima através de seus ensinamentos. Na sociedade judaica da época, Jesus era quem se faria entender. Mas entre os muçulmanos ele teria a mesma força? Ou Maomé foi o mais adequado? Assim como Buda na Índia e oriente "distante" (porque na verdade Cristo não deixa de ser meio oriental ... ao menos na nossa divisão atual de oriente/ocidente).

Então, vendo assim, seria possível afirmar que Buda, Maomé, Jesus, Confúcio são seres "iluminados" que vieram em épocas e lugares diferentes com uma missão que tinha relação com os conflitos da sociedade em que encarnaram, naquele momento, numa tentativa de superação de conflitos/problemas/defeitos ou de apenas mostrar o caminho. Se pensarmos assim, podemos ter um maior respeito pelas diferenças, sem nos julgarmos o supra-sumo da humanidade.

Mas, já que os problemas eram daquela época, porque todos esses "caras" continuam atuais? Porque eles não se propuseram a solucionar os problemas cotidianos das pessoas, mas os mais interiores, que dizem respeito à natureza humana. Talvez eles quisessem alterar os códigos sociais, mas para isso trabalharam para mudar o coração das pessoas, a base que alteraria os problemas corriqueiros (por ex.: a solução do problema do lixo não é a compra de mais 500 caminhões para coleta, mas a educação do povo).

Agora, porque vemos Jesus e talvez Buda como superiores? Talvez porque Confúcio e Maomé tenham tentado solucionar o problema atacando os sintomas, e criaram leis e mais leis, teorias políticas. Buda optou pela mente e coração dos homens como forma de mudar toda a sociedade. A sociedade é a soma de todos os homens. Se cada homem se melhorar, através do autoconhecimento e do respeito pelo mundo que o cerca, a soma de todas essas melhorias individuais vai ser um mundo melhor, uma humanidade melhor.

Pessoas que se conhecem e são equilibradas e sabem da divindade que há em tudo, e se sentem parte disso, não deixam um irmão morrer de fome ou frio. Isso era Buda. E muitos afirmam que o pensamento de Jesus foi influenciado pelo legado de Buda. Mas ele encarnou numa sociedade judaica, capitalista (os judeus sempre foram meio nômades e mercadores) em que o apelo ao autoconhecimento não tinha muita vez. Como tocar as pessoas que viviam nessa realidade?

No fundo as mensagens de Buda e de Jesus não diferem. Ambos falam de caridade, amor, respeito. Mas eles falavam para públicos diferentes, e tinham que fazer abordagens diferentes.

Não questionamos que a mensagem de Jesus possa ser mais profunda ou melhor que a do budismo. Jesus, além de todas as suas inúmeras qualidades, pôde estudar e aperfeiçoar o pensamento de seus anteriores (e sabe-se lá quantos mais além desses que falamos...).

O que queríamos saber, e se, na visão espírita, cabe esse tipo de raciocínio que fizemos aqui.

Porque, aquela história de que Jesus nasceu no ocidente porque aqui teria mais condições de espalhar o cristianismo é uma contradição com a realidade da época, e também com a atual. Essa idéia de missionário nos lembra aqueles jesuítas do descobrimento do Brasil, destruindo os índios e sua cultura em nome de uma evangelização que eles não entendiam na teoria (na verdade, os índios possivelmente eram mais "cristãos" - no sentido filosófico e metafísico - que os próprios jesuítas). Acho que, considerando que exista um plano superior, faz mais sentido imaginar que se promova o crescimento da humanidade através de mestres que se façam entender nos diferentes ambientes. Acho que isso faz mais sentido até do ponto de vista espírita, com o crescimento em etapas, no aprendizado a partir das próprias dificuldades.

Quem mudou o mundo para os Budistas foi o Buda. Mas aí entram também as concepções de "mundo". O mundo dos judeus era um mundo de mercadores, então era um mundo geográfico, sobre o qual eles transitavam e tinham influência. O mundo de um paquistanês ou mesmo de um indiano é muito mais limitado. Eles não são povos nômades. Em alguns casos vivem em montanhas, numa economia de subsistência. O mundo deles se resume ao espaço que os cerca mais diretamente, e ao mundo interior. As montanhas convidam à introspecção. Não é a toa que os budistas são mais meditativos, enquanto que os cristãos mais "ativos".


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Papel de Jesus fora do Ocidente
Carlos Iglesia
(Referente ao comentário acima)

Caro Valério,

Creio que a solução da questão que propôs, passa por definirmos melhor o que significa a influência de Jesus sobre as pessoas e os povos. A interpretação tradicional, de que a cristianização se limita a adoção simbólica da crença através do batismo e ao fato da pessoa passar a adorá-lo como um Deus, é falha e não corresponde a essência mesma da mensagem deixada por ele no Evangelho. Consideramos mais válida a proposta espírita, de que tornar-se cristão é procurar praticar os ensinamentos de Jesus. O foco principal do cristianismo passa da "adoração" para a "vivência".

Dentro dessa visão, a implantação do cristianismo pode ser vista como um processo gradativo, que vai avançando a medida que a prática diária dos princípios cristãos se incorpora na vida cotidiana de uma pessoa, de um grupo social ou de uma civilização. Nem mesmo o Ocidente cristão é ainda cristão nesse sentido. Sofremos uma maior influência do Nazareno, mais ainda estamos avançando no entendimento do que ele ensinou e na sua prática. Outra conseqüência dessa visão é que mesmo sociedades que nominalmente não se classificam como cristãs, mas que tenham incorporados conceitos oriundos do Cristianismo, podem também ser consideradas dentro da esfera de influência de Jesus. A missão de Jesus foi de esclarecimento, de salvação através da prática do "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo a si mesmo" e não de implantar um novo culto.

A "interiorização" do Evangelho não é assunto tão simples quanto parece a primeira vista, prova disso é que estamos há 2000 anos aprendendo o evangelho e ainda temos miséria entre nós, e, mais ainda, Jesus partiu da base fornecida pela Lei Mosaica, por sua vez amparada no monoteísmo de Abrão, Isaac e Jacó. O Espiritismo é parte desse processo, e surgiu na época propícia como reafirmação e complementação da lição ministrada pelo homem de Nazaré. Querer entender o Espiritismo fora desse contexto histórico é uma tarefa bastante árdua e, em minha opinião, fadada ao fracasso. Espiritismo sem Jesus é como uma árvore sem raiz.

Posto que o processo de evangelização do mundo ainda não terminou, nem mesmo no Ocidente "cristão", é um tanto prematuro dar um veredicto final sobre esse processo no resto do mundo. Temos que pensar em termos parecidos ao do plano espiritual, em longo prazo, pois somos espíritos que vivem inumeráveis vezes sobre o nosso planeta, aprendendo lições para o nosso progresso espiritual e, para as quais, cada civilização ou povo representa diferentes cursos do currículo.

Mas mesmo considerando o momento histórico atual, você poderá constatar que a civilização ocidental atual exerceu e exerce imensa influência sobre as outras civilizações contemporâneas (e também é influenciada por elas é claro). O contato do Ocidente com o resto do mundo tem transformado estruturas sociais e modos de pensar. Ora, a civilização ocidental atual nada mais é do que o resultado de séculos de ensinamento cristão agindo sobre os povos bárbaros e os restos da civilização greco-romana. Em suma, quando outros povos adotam nossos conceitos de liberdade individual, de sociedades organizadas democraticamente, de direitos humanos, não estão adotando somente heranças romanas ou hebraicas, estão também adotando a influência transformadora do evangelho sobre essa herança: Estão sendo influenciados por Jesus.

Quanto à comparação de povos e civilizações, há um critério que pode ser aplicado sem medo de Eurocentrismo:

"De dois povos chegados ao cume da escala social, só poderá dizer-se o mais civilizado, na verdadeira acepção do termo, aquele em que se encontre menos egoísmo, menos cupidez e menos orgulho; onde os hábitos sejam mais intelectuais e morais que materiais; onde a inteligência possa se desenvolver com mais liberdade; onde haja mais bondade, boa-fé e benevolência e generosidade recíprocas; onde os preconceitos de casta e de nascimento estejam menos enraizados, porque esses preconceitos são incompatíveis com o verdadeiro amor ao próximo; onde as leis não consagrem nenhum privilégio e sejam as mesmas para o último, como para o primeiro; onde a justiça se exerça com menos parcialidade; onde o fraco encontre sempre apoio contra o forte; onde a vida do homem, suas crenças e suas opiniões sejam melhor respeitadas, onde haja menos infelizes e, enfim, onde todos os homens de boa vontade estejam sempre seguros de não lhes faltar o necessário". (Allan Kardec, "O Livro dos Espíritos", comentários ao tema "Civilização" tratado nas questões 790 a 793. Tradução de Salvador Gentile para o Instituto de Difusão Espírita).

Enfim, há muito chão a percorrer e, somente completando, o Espiritismo respeita todas as crenças sinceras, bem como seus ensinamentos e homens excepcionais, que não deixam de ser Espíritos evoluídos encarnados entre nós, para nos indicar o caminho do progresso.

Atenciosamente,
Carlos Iglesia


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Papel de Jesus fora do Ocidente
Elzio Souza
(Referente aos comentários acima)

Jesus não nasceu no Ocidente, mas no Oriente, era um oriental.

No Oriente, Jesus não é um desconhecido. Na Índia, ele é profundamente respeitado por todos os grandes mestres. Existem livros escritos por autores hindus, inclusive swamis, e referências dos mestres à grandeza de Jesus. Eu possuo alguns. Ramakrishna teve, inclusive, uma visão de Jesus em que ele foi anunciado como o "Rei dos Yogues".

Os judeus, no tempo de Jesus, que viviam na Palestina, constituíam uma sociedade agrícola, como pode atestar o sistema de tributos para o Templo - a temurá, o primeiro dízimo, o segundo dízimo, o terceiro dízimo, e a renda do quarto ano. Naturalmente, eram ligados também ao pastoreio, como relembra a parábola da ovelha perdida, mas sobretudo o número de vítimas animais que eram mortas durante a páscoa. Os que viviam na diáspora eram também contribuintes. Eles não eram nômades.

Os islamitas têm Jesus como um profeta*. A inclinação guerreira do fundamentalismo islâmico encobre a bela mensagem do sufismo e até do sikkismo, embora os seguidores do guru Nanak tenham ultimamente se envolvido em disputas religiosas sangrentas na Índia.

A sociedade judaica não pode ser denominada capitalista, utilizando-se os parâmetros atuais. O Judaísmo criou um sistema de controle social através da shemitá - o ano sabático, no qual além de outras medidas, como o perdão das dívidas e os empréstimos aos pobres sem juros em dinheiro ou alimentos, os produtos que cresciam de modo espontâneo no campo (durante este ano não se trabalhava a terra) pertenciam a todos (eram socializados), servos, estrangeiros, empregados, animais, - e do yovel - ano do jubileu (a cada 50 anos) com perdão das dívidas, libertação de escravos, devolução da terra a seu antigo dono, etc., e possuía uma série de direitos concernentes aos pobres como o da respiga da colheita, o recolhimento de feixes esquecidos durante a época da colheita e o do canto do campo deixado para eles. A beneficência era um direito dos pobres, e todas as dádivas entendidas como "presentes de Deus". A caridade não era produto da compaixão para com eles, mas de respeitar-lhes os direitos, por ser uma obrigação perante Deus.


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Nota do GEAE
* ¨E depois deles (profetas), enviamos Jesus, filho de Maria, corroborando a Tora que o precedeu; e lhe concedemos o Evangelho que encerra Orientação e Luz, o qual confirma a Tora, e é Orientação e exortação para os tementes.¨ 5.a Surata, ¨A Mesa Servida¨ , versículo 46 - Os Significados dos Versículos do Alcorão Sagrado, tradução do Prof. Samil El Hayek para o Centro de Divulgação do Islam para a América Latina. (retorna ao texto)

(Publicado no Boletim GEAE Número 355 de 27 de julho de 1999)


endereço: http://www.panoramaespirita.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=3633

imagem: duard.com.br



segunda-feira, 7 de setembro de 2009

FERNANDO PESSOA, POETA E MÉDIUM


O poeta - No século 19, o movimento de caráter filosófico, científico e pedagógico, iniciado no ocidente europeu, promovido pelos enciclopedistas, e que se costuma designar iluminismo, abrangia pesquisas, teatro, romance e poesia. Os adeptos dessa corrente intelectual sofreram sérias perseguições, cujas obras pioneiras e ousadas chocavam-se com o meio social conservador: elas refletiam a inclinação elegante e mundana, característica das sociedades cultas da época. No começo do século 20, com tendência nacionalisticas, o iluminismo despontou em Portugal e teve em Fernando Pessoa sua expressão máxima na poesia.

Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888. Tendo sua família transferido residência para a província de Natal - União Sul Africana, fez seus estudos na High School, em Durban, lá recebendo educação inglesa, marcando-o para o resto da vida. Ainda jovem, Fernando regressou a Portugal, no período em que despontava o modernismo, corrente literária caracterizada pelo refinamento de forma com forte tendência para a renovação literária moderna. Desenvolvida na França e na Itália, se espalhou rapidamente por toda a Europa.

Revelando tendência para as letras e, ainda familiarizado com a literatura inglesa, Fernando aproximou-se de autores portugueses. Aos 25 anos lançou o poema Pauis, publicado na revista literária Orfeu. A obra foi considerada ponto de partida para a instalação definitiva do modernismo em Portugal. Entusiasmada, a geração de Fernando Pessoa foi entrando na vida literária e revelaram talentosos poetas, que se encarregaram de levar o modernismo ao público, em diversas revistas e obras, já com propósitos de doutrinação e crítica.

Assim, a partir de Fernando Pessoa e de sua obra singular, teve início em Portugal uma fase de criação poética que derrubou os padrões românticos. Ele passou a escrever em seu próprio nome e usando heterônimos (nomes imaginários). A despersonalização, real ou fingida, que Fernando manifestava com relação aos seus heterônimos, era de qualquer modo, um elemento definido: Ricardo Reis, Alberto Carrero, Álvaro de Campos, nomes imaginários, que assumem na obra de Fernando Pessoa atitudes diversas, representando, inclusive, estéticas diferentes, com a publicação de poemas que se tornaram o grito de guerra da renovação moderna.

A vida de Fernando Pessoa, que se conservou celibatário, transcorreu no ambiente da pequena burguesia de Lisboa, sendo o poeta obrigado a trabalhar como tradutor correspondente, saltando sempre de um humilde emprego para outro do mesmo nível. De físico discreto, hábitos moderados, embora se excedesse às vezes na bebida, jamais procurou uma correspondência entre a sua extraordinária capacidade intelectual e seu comportamento cotidiano. Após atravessar grave crise de neurastenia, morreu de infecção pulmonar, em 20 de novembro de 1935, aos 47 anos.

Embora durante muitos anos tenha publicado contos, novelas, traduções e ensaios, o genial poeta português só foi devidamente apreciado por poucos. Somente após a sua morte, com a publicação de Obras completas, contendo boa parte de seus escritos, o grande público pôde sentir a extraordinária e complexa riqueza de sua obra: ela constitui, no seu conjunto, a mais profunda e bela criação poética da língua portuguesa da atualidade. Fernando Pessoa passou a ser considerado o maior poeta português do século 20 e um dos maiores nomes da poesia universal.

O médium - Tudo indica que Fernando Pessoa pertencia a uma família de médiuns. Frequentemente, confessava a amigos que fazia parte de um pequeno grupo de sessões práticas de Espiritismo. Nelas, sua mãe apresentava, segundo o poeta, expressivas manifestações mediúnicas. Além da participação de sua família, ele sempre mencionava sua tia Anica e uma senhora de nome Maria, ambas médiuns de escrita automática. Consta que Fernando Pessoa tornou-se médium de escrita automática - psicomecânica e também médium vidente, aos 28 anos.

Sua primeira comunicação mediúnica foi através da escrita de seu falecido tio Cunha. A expressiva mediunidade psicomecânica, ou de escrita automática, como Fernando Pessoa classificava, não interferia na mente do médium, nem havia, tão pouco, alterações de personalidade, mas, segundo o poeta, por vezes ficava inconsciente, magnetizado e caindo para o lado.

Quanto à sua mediunidade de vidência, Fernando Pessoa conseguia ver com absoluta nitidez a sua aura, a irradiação de suas mãos e a presença de Espíritos benfeitores que o assistiam nas horas de necessidade.

Num difícil momento de sua existência, Fernando Pessoa demonstrou ser médium sensitivo: quando do suicídio de seu fiel amigo, o poeta Sá Carneiro. Na ocasião, levado por uma forte depressão, revelou claro sintoma do chamado envolvimento, quando se dá a imantação de um Espírito em uma pessoa. O fato ocorreu logo após a morte de Sá Carneiro. O citado fenômeno é comum e naturalmente tratado nos Centros Espíritas peelos médiuns passistas e doutrinadores. Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec faz minucioso exame e elucida todos os gêneros de manifestações mediúnicas. Kardec discorreu a respeito da ação dos Espíritos sobre a matéria e a importância do comportamento dos médiuns no intercâmbio espiritual.

Os heterônimos - É muito provável que os heterônimos Ricardo Reis, Alberto Carrera e Álvaro Campos, com quem Fernando Pessoa assinava seus poemas, sejam nomes dados por poetas quando encarnados, o que demonstra que a autoria desses versos seja de Espíritos desencarnados e não dele mesmo. Para um espírita esclarecido e conhecedor da Doutrina dos Espíritos, é um caso banal, pois são cientes de que há inúmeros livros de poesia mediúnica já publicados, entre eles: Parnaso de Além Túmulo (FEB), com poemas recebidos por Francisco Cândido Xavier; Antologia dos Imortais (FEB), por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira; Antologia do Mais Além, por Jorge Rizzini (esgotado); Novos Cânticos (Edições Correio Fraterno), por Dolores Bacelar. Deve-se ao heterônimo Álvaro de Campos a manifestação de um elemento bem fora do comum, que se tornou comum à personalidade de Fernando Pessoa - o ocultismo.

Fernando Pessoa nunca assumiu a autoria de sua poesia mediúnica, senão teria posto os nomes de seus verdadeiros autores. Grande poeta e também grande médium, ele fez uso de sua notável capacidade intelectual, dando mais prioridade aos interesses espirituais que aos terrestres. Esta posição com bases nos conhecimentos e esclarecimentos da Doutrina Espírita são renegados até hoje, por milhares de conterrâneos seus em Portugal, por ainda possuírem certas traves em suas mentes.

Maria A. Romano - Jornal O Semeador - julho/09


endereço: http://www.comunidadeespirita.com.br/

imagem: internet



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