terça-feira, 12 de julho de 2011

MEDITAÇÃO: UMA DISCIPLINA ESPIRITUAL


XIV Dalai Lama

(Do livro "Transformando a Mente", XIV Dalai Lama[1], trad. Waldéa Barcellos, transcrito com autorização da Editora Martins Fontes - http://www.martinsfontes.com)


O que entendemos por meditação ? Do ponto de vista budista, a meditação é uma disciplina espiritual, que nos permite algum nível de controle sobre nossos pensamentos e emoções.

Por que não conseguimos desfrutar da felicidade duradoura que buscamos ? É por que com tanta freqüência deparamos com o sofrimento e a infelicidade em seu lugar ? O budismo esclarece que, no nosso estado mental normal, nossos pensamentos são descontrolados e rebeldes; e, como nos falta a disciplina mental para dominá-los, somos incapazes de controlá-los. Resultado, são eles que nos controlam. E os pensamentos e emoções, por sua vez, costumam ser controlados pelos nossos impulsos negativos, em vez de o serem pelos positivos. Precisamos inverter esse ciclo, de modo que nossos pensamentos e emoções sejam liberados da subserviência aos impulsos negativos e que nós mesmos, na nossa individualidade, ganhemos controle sobre nossa própria mente.

A idéia de produzir uma mudança tão fundamental em nós mesmos pode à primeira vista parecer impossível. No entanto, é realmente possível realizar essa mudança através de um processo de disciplina tal como a meditação. Escolhemos um objeto específico, e então treinamos a mente desenvolvendo nossa capacidade de manter a atenção concentrada no objeto. Normalmente, se tirarmos apenas um momento para refletir, veremos que nossa mente é totalmente dispersiva. Podemos estar pensando em alguma coisa e, de repente, descobrimos que fomos distraídos porque algum outro pensamento entrou na nossa cabeça. Nossos pensamentos estão constantemente correndo atrás disso ou daquilo porque não temos a disciplina de concentrar a atenção. Portanto, através da meditação, o que podemos alcançar é a capacidade de voltar nossa mente para qualquer objeto determinado e focalizar a atenção nele, de acordo com nossa vontade.

Ora, é evidente que poderíamos decidir enfocar um objeto negativo na nossa meditação. Se, por exemplo, alguém estiver apaixonado por uma pessoa e concentrar a mente exclusivamente nesta pessoa, insistindo em pensar nas suas qualidades desejáveis, isso terá o efeito de aumentar seu desejo sexual por aquela pessoa. Mas não é esse o objetivo da meditação. De uma perspectiva budista, a meditação deve ser praticada em relação a um objeto positivo, com o que queremos dizer um objeto que aumente nossa capacidade de concentração. Através da familiaridade, nós nos aproximamos cada vez mais do objeto e temos uma sensação de envolvimento com ele. Na literatura budista clássica, esse tipo de meditação é descrito como shamatha, a permanência serena, que é uma meditação de ponto único de concentração.

A shamatha em si só não basta. No budismo, associamos a meditação de ponto único à prática da meditação analítica, que é conhecida como vipasyana, discernimento penetrante. Nessa prática, aplicamos o raciocínio. Quando reconhecemos os pontos fortes e fracos de diferentes tipos de pensamentos e emoções, bem como suas vantagens e desvantagens, conseguimos aprimorar nossos estados mentais positivos que contribuem para uma sensação de serenidade, tranqüilidade e contentamento além de reduzir a incidência daquelas atitudes e emoções que conduzem ao sofrimento e à insatisfação. Desse modo, o raciocínio desempenha um papel de grande auxílio nesse processo.

Eu deveria salientar que os dois tipos de abordagem meditativa que descrevi, a de ponto único e a analítica, não se distinguem pelo fato de cada uma contar com um tipo diferente de objeto. A diferença entre elas reside no modo pelo qual cada uma é aplicada, não no objeto escolhido.

Para esclarecer mais este ponto, vou recorrer ao exemplo da meditação sobre a impermanência. Se aquele que medita se mantiver concentrado no pensamento de que tudo muda de um momento para outro, essa é a meditação de ponto único; ao passo que, se alguém meditar sobre a impermanência através da aplicação constante, a tudo o que encontrar, dos diversos argumentos referentes à natureza impermanente das coisas, reforçando sua convicção no fato da impermanência por meio desse processo analítico, ele estará praticando a meditação analítica sobre a impermanência. As duas têm um objeto comum, a impermanência, mas o modo de aplicação de cada meditação é diferente.

Minha impressão é que os dois tipos de meditação são de fato praticados em quase todas as tradições religiosas mais importantes. No caso da Índia antiga, por exemplo, a prática da meditação de ponto único e a aplicação da meditação analítica são comuns a todas as tradições religiosas importantes, budistas e não-budistas. Durante uma conversação com um amigo cristão alguns anos atrás, eu soube que no cristianismo, em especial na tradição ortodoxa grega, existe uma longa e sólida história de meditação contemplativa. E, da mesma forma, uma série de rabinos judeus falou comigo sobre certas práticas místicas no judaísmo que envolvem uma forma de meditação de ponto único.

É portanto possível integrar os dois tipos de meditação numa religião teísta. Um cristão, por exemplo, poderia dedicar-se à contemplação refletindo sobre os mistérios do mundo, sobre o poder da graça divina ou sobre várias razões que considere intensamente inspiradoras e que aumentem sua crença no divino Criador. Através de um processo dessa natureza, o indivíduo poderia chegar a uma profunda fé em Deus, e poderia então pousar sua mente nesse estado, mantendo o foco nesse ponto único. Desse modo, o praticante chega a uma meditação de ponto único sobre Deus através de um processo analítico. Portanto, os dois aspectos da meditação estão presentes.


Observações - GEAE

[1] Entre os grandes lideres espirituais dos nossos dias está o XIV Dalai Lama, que não só é o lider religioso do Budismo Tibetano, como até 1949, início da anexação do Tibet pela China, foi o governante deste país. Tendo sido forçado a exilar-se no Nepal, o Dalai Lama, tem dedicado sua vida a buscar uma solução pacifica e digna para a autonomia do povo tibetano, tendo inclusive recebido o premio Nobel da Paz de 1989. Paralelamente, na sua função de expoente máximo de sua religião, tem contribuído enormemente para a difusão do Budismo Tibetano, demonstrando-o na sua vivência prática, explicando-o em inumeráveis congressos ou eventos, e colocando sua riqueza doutrinária ao acesso de todos em diversos livros. Em sua longa história, o Budismo deu origem a algumas escolas de pensamento diferentes, entre as quais se encontra a presidida pelo Dalai Lama, todas elas compartilhando um profundo conhecimento da psicologia humana e da busca pela realidade interior. O texto que transcrevemos tem por objetivo mostrar aos colegas quão interessantes são estes conhecimentos para nós espíritas.


(Publicado no Boletim GEAE Número 409 de 23 de janeiro de 2001)


texto - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geae

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

O VASTO UNIVERSO HINDU


"TERCEIRA CRENÇA COM MAIS ADEPTOS NO MUNDO,
O HINDUÍSMO CARACTERIZA-SE PELA PROFUSÃO DE
DEUSES, PELOS RITUAIS E ANIMAIS SAGRADOS.ENTRE
UM FESTIVAL RELIGIOSO E OUTRO, OS HINDUS BUSCAM
O CAMINHO DA LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL."

Mal cai a noite, e o antigo centro urbano de Varanasi, no norte da India, começa a ficar agitado. As margens do Rio Ganges, as vielas, as esquinas apertadas e os templos são tomados por uma massa de peregrinos vindos de várias partes do país. É uma celebração coletiva em homenagem a Shiva, o mais incensado dos deuses do panteão hindu, que, segundo a mitologia indiana, teria escolhido Varanasi para viver na Terra. A atmosfera está impregnada pela cantoria de hinos sagrados, pelo aroma doce dos incensos e pelo constante tilintar de sinos ressoando das casas e dos templos shivaístas. Até a manhã seguinte, ninguém deve dormir: quem presta vigília em homenagem a Shiva, dizem os hindus, pode colher benefícios nesta e na próxima vida.

Num dos templos, fiéis se espremem para observar os movimentos precisos de um sacerdote hindu que executa um ritual incomum aos olhos ocidentais. Ele lava a imagem do Shiva-lingam - objeto fálico que simboliza o poder supremo da criação, a união dos sexos masculino e feminino - a princípio, com a água do Ganges, depois com iogurte, leite e, finalmente, mel. Esses são elementos considerados sagrados, dádivas dos deuses. No fim de cada uma dessas etapas, esse profissional de cerimônias, chamado pujari (autoridade religiosa que serve de conexão entre os homens e os deuses), recita em sânscrito trechos de alguma escritura sagrada. Os devotos respondem em voz alta e repetidamente o mantra Om Namo Shivaya.

NO VALE DO RIO KARIMABAD, NO PAQUISTÃO, OS PERSAS
CHAMAVAM ESSE RIO DE SHINDUS E, DEPOIS COMEÇARAM
A DENOMINAR OS POVOS QUE MORAVAM NAQUELA REGIÃO
DE "HINDUS".

Essa celebração, conhecida como Mahashivaratri ou "a grande noite de Shiva", é apenas um dos inúmeros festivais religiosos que ocorrem quase diariamente em toda a Índia. São celebrações inevitáveis em terras hindus, onde há milhares de deuses, santos, profetas e gurus para serem adorados, agradecidos ou simplesmente lembrados. Comemoram-se ainda eventos mitológicos, como a vitória de algum deus sobre terríveis inimiigos, e, às vezes, até datas religiosas de outra fé que foram assimiladas pelo caldeirão cultural hindu.

"Desde os primórdios, o Hinduíssmo desenvolve-se gradativamente, assimilando todas as religiões e movimentos culturais da Índia", diz o professor K.M. Tripathi, diretor da Universidade Hindu de Benares, na Índia, uma respeitada instituição humanística fundada no início do sécuulo 20. "E, ao contrário das grandes religiões do mundo, como o Cristianissmo e o Islamismo, a religião hindu não teve um fundador. Também não conta com um livro a ser seguido, como a Bíblia e o Corão."

JUNTO ÀS MONTANHAS DO HIMALAIA, O VALE DO RIO INDO
É O BERÇO DO HINDUÍSMO. IRONICAMENTE, A REGIÃO QUE
OUTRORA SERVIU AO FLORESCIMENTO DA RELIGIÃO, HOJE,
LOCALIZA-SE NO PAQUISTÃO, PAÍS GOVERNADO SOB AS LEIS
DO ISLÃ. A CRENÇA HINDU, PORÉM, CONTINUA FORTE NA ÍNDIA
E NO NEPAL."

Atrás dos óculos de lentes grossas, Tripathi expressa-se com serenidade, sem pressa. Nascido em Varanasi e acostumado desde criança a participar da incrível diversidade de ritos, ele é um entusiasta do fascinante universo hindu - uma profusão de deuses, mitos, heróis, rituais e animais sagrados.

O Hinduísmo representa hoje a terceira religião com mais adeptos no planeta, depois da crença católica e da islâmica. Estima-se que existam aproximadamente 900 milhões de devotos no mundo. Apenas na Índia, eles somam cerca de 80% da população de 1 bilhão de habitantes. Essa fé também é majoritária no Nepal, na Ilha de Bali e nas Ilhas Maurício.

A cidade de Varanasi ocupa lugar de destaque para essa imensa massa de fiéis: além de ser a morada terrena de Shiva, é banhada pelo sagrado rio Ganges. Para os hindus, o Ganges - personifiicado como a deusa Ganga - é um rio com poderes purificadores que teria descido dos céus após os pedidos de um santo chamado Bhagiratha. As águas, porém, desceram com tamanha violência que Shiva precisou aplacar tal fúria com seus longos cabelos. Os movimentos da cabeleira do deus acabaram por formar o percurso do rio na Terra. Desde um passado remoto, milhões de peregrinos rumam até Varanasi com o propósito de serem cremados às margens do Ganges. Com tal ato, estariam se libertando do carma (o destino moldado com base nas boas e más ações) de sua vida presente e futura.

BERÇO HINDU

Para entender o Hinduísmo, porém, é preciso voltar a roda do tempo. Há cerca de 5 mil anos, nos arredores das montanhas do Himalaia, floresceu uma avançada civilização no Vale do Rio Indo, onde hoje é o Paquistão. Escavações arqueológicas nas regiões de Mohenjodaro e Harappa indicam que, ao redor do ano 2500 a.c., aquele povo tinha uma religião com aspectos muito próximos ao Hinduísmo atual. Ainda há mistérios sobre a vida religiosa no Indo, mas sabe-se que deuses e deusas eram objetos de adoração.

Por volta do ano 1 500 a.c., quando a civilização do Indo entrava em declínio, a região começou a ser invadida por povos oriundos provavelmente das redondezas do Mar Cáspio e do atual Irã. Eles se autodenominavam arianos ("nobres", "bons"). Politeístas, veneravam vários deuses, muitos deles representantes de fenômenos da natureza, como o vento, o sol, a água e o fogo. Os arianos impuseram sua mitologia na região do Indo e, ao mesmo tempo, absorveram crenças locais. Foi a época em que vieram à luz os quatro livros sagrados mais antigos da fé hindu: os Vedas ("Conhecimento Divino"). O primeiro deles, o Rigveda, teria sido composto no terceiro milênio a.c. e é considerado a escritura sagrada mais ancestral do mundo.

Divulgados também oralmente, os Vedas tornaram-se referência e fonte de inspiração para a produção de uma vasta série de textos sagrados, como os Upanishads. Escritos por volta do ano 800 a.c., versam sobre a origem do universo, a natureza das divindades, além da conexão da mente com a matéria. Contêm ainda investigações metafísicas, base da filosofia hindu.

O Mahabharata, ou ''A Grande Guerra dos Bharatas", é outro texto respeitado entre os hindus. Trata-se de um dos épicos mais extensos do mundo: divide-se em 18 livros, com cerca de 220 mil linhas. Os poemas narram a guerra entre os Kauravas e os Pandavas, descendentes de uma dinastia que governava o mundo há milhares de anos. Os conflitos discorrem sobre o dharma, a lei que rege a ordem secreta e pessoal que cada um traz em si. Seu episódio mais celebrado devido à beleza narrativa é o Bhagavad-Gita, um diálogo filosófico entre a "Divindade Suprema" Krishna e o guerreiro Arjuna.

Para o professor Tripathi, o Hinduísmo destaca-se por sua tendência natural em admitir e respeitar os mais diversos ensinamentos religiosos. De fato, no passado a crença hindu incorporou lições de budistas e jainistas. Religião contemporânea do Budismo, fundada pelo profeta Mahavira por volta do ano 500 a.c., o Jainismo tem como lei o ahimsa, a total obediência à não-violência. Adotada pelos hindus, tal prátiica ficou internacionalmente famosa após o Mahatma Gandhi usá-la na luta contra o imperialismo britânico na Índia, na primeira metade do século 20.

Por volta do ano 1000 da era cristã, enquanto o império muçulmano fortalecia-se em terras indianas, o Hinduísmo assimilava aspectos culturais do Islã - como a arquitetura e a música, por exemplo. Da fé hindu brotaram ainda novas ramificações. É o caso do Sikhismo, religião com características doutrinais do Hinduísmo e do Islamismo. Algumas práticas básicas do Sikhismo são seguidas pela maioria dos hindus", conta Alakha Shakti, diretora da tradicional Escola de Yoga de Bihar, no estado indiano de Bihar. Entre elas, estão a yoga e o puja. Muitas vezes confundido com "ginástica" no Ocidente, a yoga faz parte de uma tradição ancestral, que busca o autoconhecimento por meio do controle da mente e, dependendo da escola a que pertence, do treino do corpo. Já o puja refere-se às orações e cerimônias de oferendas aos deuses. "O sacrifício é outra prática hindu, que objetiva a elevação espiritual", afirma ela.

Faz muitos anos que Rama Krishna Das, um dos mestres espirituais de Alakha, obedece a um rigoroso sacrifício imposto por ele próprio. "Desde 1986, resolvi alimentar-me apenas de leite e de chá. Não como nada sólido. Aos poucos, liberto-me de todos os desejos, até mesmo do cheiro e do sabor da comida", diz ele, sentado em posição de lótus num tapete surrado de seu kuti, o pequeno templo onde vive solitário, em Pashupatinath, famoso destino de peregrinação no Nepal.

Aos 74 anos e dono de uma disposição jovial, Krishna Das é devoto fervoroso de Rama, uma das encarnações de Vishnu, deus que estabelece a verdade na Terra. Assim, ele nunca inicia um só dia sem antes prestar homenagens a Rama, o que pode incluir a repetição
sistemática de um mantra devocional à entidade por cerca de 6 mil vezes. Aos 18 anos, quando abandonou família, amigos e emprego, Krishna Das virou um sadhu - ou seja, dedica-se exclusivamente à vida espiritual e às regras místicas dos ascetas.

Tornar-se sadhu é libertar-se de um peso da cultura hindu: o regime de castas. Sadhus não têm castas. "Desde a chegada dos invasores ao Vale do Indo, a sociedade era dividida em três classes: os brámanes (sacerdotes), os kshatryas (guerreiros e nobres) e os vaishyas (comerciantes e artesãos)", afirma o historiador Nand Kishore Sharma, diretor de um museu em Jaisalmer, cidade no noroeste da Índia. "Mais tarde, formou-se a classe dos serventes, os sudras, que serviam às três classes superiores." Por fim, existem os párias, ou intocáveis, que muitas vezes nem mesmo são considerados como uma casta. Na verdade, essas divisões ainda se subdividem num vasto mosaico que obedece a uma série de hierarquias.

LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL

O mundo hindu é repleto de códigos e símbolos, que identificam castas e devoras. Na cidade de Jodhpur, no estado do Rajastão, moradores da casta brâmane vivem em Bramhpuri, um bairro com casas e comércio pintados de azul. Para os brâmanes, essa é a cor que remete à pureza espiritual. Nas ruas, não é difícil discernir os crentes e seus deuses. Seguidores de Vishnu, por exemplo, pintam o "u" entre as sobrancelhas. Shivaístas fazem três linhas horizontais na testa.

Complicado, porém, é identificar o vasto panteão hindu. Há perto de 330 milhões de divindades. Os deuse reencarnam e são representados sob diferentes formas. Os mais importantes deles, porém, compõem a sagrada trindade formada por Brahma, deus da criação, Vishnu, o que preserva, Shiva, o destruidor e recriador. Muitas vezes, os deuses estão associados com suas parceiras. Em uma de suas muitas encarnações, Vishnu vem acompanhado de Lakshmi, deusa da prosperidade, enquanto Brahma tem como cônjuge Sarasvati, divindade do conhecimento e das artes.

De acordo com Ramakrishna, conhecido mestre espiritual do século 19, tais manifestações divinas, e simbólicas, ajudam - aos que sabem invocá-las com fervor - a obter libertação do mundo e de suas provações. "Os deuses são os intermediários da fonte de luz, de toda a sabedoria", escreveu ele.

"O Hinduísmo ensina que progredimos por meio dos renascimentos e reencarnações, ou seja, temos oportunidades de melhorarmos, sermos mais dignos", conta o professor Tripathi. A meta hinduísta é alcançar moksha, a libertação espiritual que encerra o eterno ciclo do morrer e renascer. São muitos os hindus que escolhem o caminho da austeridade e do sacrifício em busca de tal libertação: por toda a Índia, é comum ver pessoas que renunciaram a todos os bens materiais para viver como peregrinos, portando apenas um pequeno jarro para a água e a comida.

Para muitos fiéis, o ritual da cremação representa o "último sacrifício". Afinal, os hindus não enterram seus mortos. Quem conduz a cerimônia, que sempre ocorre na beira de um rio, geralmente é o filho mais velho, que circula em volta da pira funerária no sentido horário antes de atear o fogo. Após a cremação, ritos, como a oferta diária de arroz ao morto, serão obedecidos pela família durante 11 dias. Esse é o tempo que ele levará para chegar aos céus. No décimo segundo dia, a alma terá alcançado seu destino. Para os hindus, a morte não é o contrário da vida. Na verdade, significa apenas o oposto do nascimento. É a porta para se chegar à moksha.

Sergio T.Caldas - Revista Religião - Super interessante


texto - http://www.comunidadeespirita.com.br

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domingo, 3 de julho de 2011

PSICOSE E REENCARNAÇÃO


Com permissão do dalailam


Nesta entrevista, o Dr. Mario Sérgio Silveira, psicoterapeuta, explica como o espiritismo pode abrir novas perpectivas no tratamento das doenças mentais. O termo psicose é definido no dicionário como doença mental. Mas o psiquismo humano é algo complexo para ser explicado em poucas palavras, ainda mais quando permite a abordagem espiritual. É bastante comum, também, as pessoas associarem a psicose à loucura. Segundo o psicoterapeuta e assessor técnico do Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, em Curitiba, dr. Mário Sérgio Silveira, Loucura é uma expressão popular que é utilizada para designar comportamentos que fogem da norma. "As pessoas podem cometer loucuras e não serem necessariamente psicóticas. Deveríamos abandonar este "apelido", tão marcado pelo preconceito", diz Mário Sérgio, que também realizou recentemente uma palestra durante o II Congresso Brasileiro de Psicologia e Espiritismo, sobre o tema Psicose e Estados Alterados da Consciência. De acordo com o especialista, clinicamente os sintomas mais característicos e evidentes da psicose são as alucinações visuais e auditivas e os delírios, que muitas vezes estão associados às alucinações como tentativas que o paciente faz de tentar explicar a invasão alucinatória. Caracteriza-se pela perda de contato com a realidade, entendida como a realidade consensual de nosso nível dimensional, e principalmente, pelo elemento de certeza no que diz respeito ao delírio. É chamada de "crença delirante". Complementa, dizendo que, em investigações no hospital espírita, onde atua, os pesquisadores têm atribuído o fator "influência espiritual" como causa desencadeante em um grande número de casos de psicose. Quais são os critérios utilizados pela psiquiatria para analisar a psicose? Dr. Mário Sérgio Silveira - Além dos critérios da psiquiatria clínica, trabalhamos com a visão psicodinâmica que a psicanálise nos oferece, numa visão estrutural. 0 inconsciente freudiano é estruturado como a linguagem, opera de acordo com as leis da linguagem, através da metáfora e da metonímia. Nesta perspectiva são três grandes estruturas. As neuroses, cujo mecanismo característico é o recalcamento, que funda o inconsciente, separando-o da consciência. Seria o armazenamento de todas as memórias passíveis de serem recuperadas. Aquelas que estão disponíveis de forma mais imediata. É o que chamamos pré-consciente, bastando para isso apenas evocá-Las. A segunda estrutura são as perversões, referentes basicamente à questão da escolha do objeto sexual e da identidade sexual, cujo mecanismo é chamado "denegação". E a terceira estrutura psíquica constitui-se do que chamamos genericamente "as psicoses". Isto significa que o sujeito não dispõe do recurso simbólico da linguagem, pelo menos no que diz respeito às questões essenciais, como a sexualidade, a maternidade, paternidade e a morte. O termo preclusão é emprestado da linguagem jurídica, que significa que uma prova não foi provida em tempo dentro de um processo, ficando, portanto, de fora. Na psicose, o que não foi admitido no simbólico, permanece fora e pode retornar do real na forma de alucinação. Esta é a teoria psicanalítica e tem ainda seu lugar dentre os conhecimentos que devemos considerar na compreensão de algo tão complexo como é o psiquismo humano. Espiritualmente, como a psicose pode ser definida? Como trabalhamos hoje numa perspectiva transdisciplinar, não excluímos nenhum conhecimento. Portanto, reconhecemos a importância das pesquisas da neurociência, uma vez que precisamos entender o funcionamento do "computador cerebral". Reconhecemos que as diversas teorias psicológicas, como a psicologia comportamental, a psicanálise, o psicodrama, a Gestalt, a Bioenergética, as psicologias humanistas e existencialistas e outras mais, têm seu lugar, embora como verdades parciais. No que diz respeito à dimensão espiritual, o próprio Kardec nos convidava a estudar as antigas tradições. Isto posto, quero afirmar que as duas formas de investigação mais produtivas ao alcance de profissionais e cientistas que pretendam conhecer em profundidade o espírito humano é a regressão de memória, que dispõe hoje de diversas técnicas para este fim, e a mediunidade. Fundamentado nos estudos da consciência a partir da física quântica e da psicologia transpessoal, que estuda os diversos níveis e estados de consciência, em investigações realizadas através da terapia regressiva integral e reuniões mediúnicas de desobsessão, podemos afirmar que a psicose é a estrutura psíquica resultante de profundos desequilíbrios do ser em diversas encarnações. Como a estrutura biopsíquica do ser é construída à partir das informações do perispírito, que contém as memórias milenares da caminhada evolutiva do espírito, no encontro com os recursos genéticos e psíquicos de seus futuros pais, podemos compreender que o desequilíbrio energético (informacional), vai repercutir severamente, causando o que chamamos de doenças. No plano psíquico, o sentimento de culpa pode ser devastador, por desajustar a organização mental, além de manter o ser imantado às outras consciências que possa ter prejudicado.Assim, podemos definir a psicose, do ponto de vista espiritual, que constitui a essência do ser, como a "impossibilidade de construir uma personalidade, um "eu atual", em razão da predominância das subpersonalidades anteriores, ainda presas aos dramas ocorridos em outros tempos, incluindo também os demais co-participantes que eventualmente não se libertaram pelo benefício que somente o perdão poderia proporcionar. Deste modo, o ego, esta instância psíquica responsável pela noção de identidade, responsável pelo "critério de realidade", não pode operar, uma vez que não se constituiu, ficou com um "defeito", que chamamos anteriormente "preclusão". Como " a vivência da realidade é função do estado de consciência" (postulado transpessoal) o ser fica à mercê da invasão de "outras vivências de realidade". E aí estamos na experiência psicótica, no que a psiquiatria denomina "delírios e alucinações". Não fosse a interferência dos mecanismos psíquicos, que transformam a apresentação das memórias inconscientes como ocorre nos sonhos, teríamos puras lembranças de vidas passadas. O sujeito dito "normal", que funciona com o ego estruturado de acordo com o recalcamento, tem a capacidade de rememorar vidas ou vivências passadas. Já o psicótico, experimenta este "retorno" na forma de imagens alucinatórias, delírios e confusão mental. Os demais sintomas são decorrências do desmoronamento do mundo simbólico e de sua relação com esta realidade consensual: embotamento afetivo, depressão, sensações corporais estranhas, hipocondria etc. Como identificar um quadro de psicose? Respondendo rapidamente, reconhecemos quando a pessoa entra no que chamamos de "surto", que é um estado de confusão mental, com delírios e alucinações (as mais características são auditivas, quando o paciente refere ouvir vozes), às vezes com liberação de auto e/ou hétero agressividade. Para um diagnóstico mais preciso é necessário a avaliação de um especialista. Existem gêneros específicos de psicose? Quais são os mais comuns? No Brasil, nós utilizamos o Código Internacional de Doenças, que já está em sua décima revisão (CID 10), que é o manual europeu de classificação das doenças. O capítulo V trata dos Transtornos Mentais e Comportamentais, que possui 99 subtítulos. Os mais importantes são: Transtornos mentais orgânicos, transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas, as esquizofrenias, transtornos de personalidade, demências e atualmente o mais comum, pelo menos em nossa prática no Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, os transtornos do humor. A psiquiatria atual preferiu o termo transtorno, para caracterizar um conjunto de sintomas, dentro de certos critérios, inclusive o tempo de duração. Isto é importante, porque conferiu um caráter transitório para os quadros e não mais um rótulo definitivo. Antigamente, tínhamos apenas o diagnóstico de "psicose maníaco-depressiva". Agora, com os transtornos do humor, temos mais nove títulos e dezenas de subtítulo, alguns sem sintomas psicóticos. Isto representa uma segurança muito maior para o paciente, que terá um diagnóstico mais preciso e conseqüentemente uma terapêutica mais adequada. Para melhor esclarecimento, os transtornos do humor variam do pólo depressivo ao eufórico, com ou sem sintomas psicóticos.A psicose pode se manifestar na infância ou "surge" pela primeira vez na idade adulta?É mais raro manifestar-se na infância, embora a estrutura psicótica se estabeleça nesta fase. A primeira infância é fundamental na construção da personalidade. O desencadeamento pode ocorrer na adolescência e na fase adulta, quando alguns fatores podem ser decisivos, como o encontro com a sexualidade, a paternidade, a maternidade ou a morte. Em nossas investigações no hospital, temos atribuído o fator "influência espiritual" como causa desencadeante em um grande número de casos.Existem recursos médicos e espirituais para se evitar ou minimizar um quadro psicótico? A prevenção primária depende da evolução moral da humanidade. Quando pais mais equilibrados recebem em família espíritos em desajuste, maiores chances de recuperação, pois esses espíritos desajustados têm mais possibilidades de construírem uma nova personalidade sadia. Quanto a minimizar, melhor seria dizer tratar, terapeutizar. Neste sentido, os recursos são muito fartos, atualmente, com o avanço das pesquisas psicofarmacológicas, com as antigas e novas psicoterapias, terapia ocupacional, terapias complementares etc. Quanto à dimensão espiritual, penso que os centros espíritas e também os centros de umbanda são grandes centros de profilaxia e tratamento. Em geral, os filmes de terror e suspense mostram os psicóticos como pessoas de personalidade agressiva e imprevisível, que podem matar uma pessoa a qualquer momento. Essas tendências são verdadeiras ou é exagerada pela mídia em geral? Infelizmente, estes casos ocorrem, muitas vezes comandados por vozes que induzem ao homicídio e ao suicídio.Relate alguns casos de pacientes que passaram pelo tratamento e como esses casos se desenvolveram? Vou relatar o caso de uma menina de 14 anos, com o diagnóstico de hebefrenia, ou seja, um quadro psicótico desencadeado ainda na adolescência. Ela chegou no hospital muito prostrada, afeto embotado, confusão mental, ouvindo vozes, apresentando grande dificuldade de contato. Foi medicada com psicofármacos, estimulada a participar de atividades terapêuticas, porém pouco respondia. Seu quadro começou a melhorar quando passou a ser medicada também com homeopatia e seu nome foi incluído no SAE - Serviço de Atendimento Espiritual. No grupo de desobsessão, foi atendida em desdobramento (projeção), o que facilitou muito o contato, pois adquiria maior consciência. Assim, nós soubemos que o tio que a abusou sexualmente, tendo desencadeado seu surto, tinha sido seu marido numa outra existência, quando em estado de embriaguês a matou. O próprio tio, em desdobramento, admitiu que preferia não ter nenhum parentesco, pois a desejava como mulher. Soubemos, também, que o obsesso, desafeto de outra existência, planejou sua vingança agindo sobre seus centros nervosos, de modo a embaralhar suas memórias de vidas passadas, como um arquivo que tivesse suas fichas todas misturadas.Felizmente, tivemos a oportunidade de ajudá-la a acessar estas memórias, revivendo-as e "fechando estas portas", uma a uma, num total de quatro encarnações. O obsessor foi afastado para tratamento e a equipe espiritual relatou a realização de uma espécie de cirurgia nos tecidos sutis de seu perispírito, reconstituindo o "buraco" que havia sido aberto pela aço espiritual. leão é preciso dizer que sua melhora foi surpreendente para os parâmetros da psiquiatria. Em outros casos, encontramos, através do desdobramento, personalidades de outras encarnações que se recusam a aceitar o novo corpo, a família atual, geralmente composta de desafetos de outras existências, e também a condição social que ora se encontram. São "almas" orgulhosas, arrogantes, que não desejavam reencarnar e passar pela experiência retificadora. Provavelmente, se trata de reencarnações compulsórias. Existe cura para a psicose? Existem raros relatos na literatura. O que podemos oferecer é, através do tratamento, a estabilização do quadro e melhor qualidade de vida. Mas se considerarmos que a doença e o sofrimento de hoje fazem parte da cura da alma, temos muito a oferecer. A psicose, analisada espiritualmente, está sempre associada a uma obsessão? Penso que sim, que podemos generalizar, pois todos trazemos dentro de nós personalidades de outras existências muito mal resolvidas, incluindo outras ligações através do ódio e da culpa. Devemos incluir aí a auto obsessão, como nos casos que relatei anteriormente. Qual é o tratamento adequado para o paciente psicótico? O tratamento adequado é interdisciplinar, no mínimo. No Hospital Espírita Bom Retiro caminhamos rumo a transdisciplinariedade, numa visão bio-psico-sóciocultural e espiritual, onde o espiritual ocupa o centro de integração dos diversos saberes, das diversas disciplinas e especialidades. Precisamos superar a divisão, a comparti mentalização, caminhando para uma visão integral. Precisamos abandonar o formalismo, seja científico, filosófico ou religioso. Em suma, o tratamento médico, psicoterápico, ocupacional, familiar, energético e espiritual, de forma integrada. Deixe-nos uma mensagem final.Minha mensagem é de esperança. É necessário que confiemos que todos nós temos um Eu Divino, onde mora a saúde, a paz e principalmente o Amor que tudo equilibra, dentro de um tempo que é transitório e diante da vida que é eterna. A tarefa desta encarnação é a de nos reencontrarmos com o nosso verdadeiro Eu, ainda encoberto pela sombra de nossos enganos na caminhada evolutiva. Evitemos os julgamentos, a culpa e o remorso. Vamos apenas assumir a responsabilidade de "perdoar aos que nos ofenderam, para que o Deus em nós possa nos perdoar".

Notas: (Extraído da Revista Cristã de Espiritismo nº 27, páginas 06-11)


texto - http://tamoporai.blogspot.com/2010/02/psicose-e-reencarnacao.html

imagem - reescrevase.wordpress.com

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