terça-feira, 8 de junho de 2010

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS PARA TRANSPLANTES É PERFEITAMENTE LEGÍTIMA


JORGE HESSEN

Nas práticas médicas de todas as especialidades , o transplante de órgãos é a que demonstra com maior clareza a estreita relação entre a morte e a nova vida, o renascimento das cinzas como Fênix: o mitológico pássaro símbolo da renovação do tempo e da vida após a morte.([1])

A temática “doação de órgãos e transplantes” é bastante coetâneo no cenário terreno. Sobre o assunto as informações instrutivas dos Benfeitores Espirituais não são abundantes. O projeto genoma, as investigações sobre células-tronco embrionárias e outras sinalizam o alcance da ciência humana. Os transplantes , em épocas recuadas repletas de casos de rejeição, tornaram-se práticas hodiernas de recomposição orgânica. O esmero "in-vivo" de experiências visando regeneração de células e a perspectiva de melhoria de vida caminham adiante , em que pese às pesquisas ensaiarem, ainda, as iniciantes marchas. Isso torna auspiciosa a expectativa da ciência contemporânea. Contudo, o receio do desconhecido paira no imaginário de muitos.

Alguns espíritas recusam-se a autorizar, em vida, a doação de seus próprios órgãos após o desencarne , alegando que Chico Xavier não era favorável aos transplantes. Isso não é verdade! Mister esclarecer que Chico Xavier quando afirmou “a minha mediunidade, a minha vida, dediquei à minha família, aos meus amigos,ao povo. A minha morte é minha. Eu tenho este direito. Ninguém pode mexer em meu corpo; ele deve ir para a mãe Terra”, fê-lo porque quando ainda encarnado Chico recebeu várias propostas [inoportunas] para que seu cérebro fosse estudado após sua desencarnação. Daí o compreensível receio de que seu corpo fosse profanado nesse sentido.

Não podemos esquecer que se hoje somos potenciais doadores, amanhã, poderemos ser ou nossos familiares e amigos potenciais receptores. "Para a maioria das pessoas, a questão da doação é tão remota e distante quanto à morte. Mas para quem está esperando um órgão para transplante, ela significa a única possibilidade de vida!”([2]) Joanna de Angelis sabendo dessa importância ressalta “(...) Verdadeira bênção, o transplante de órgãos concede oportunidade de prosseguimento da existência física, na condição de moratória, através da qual o Espírito continua o périplo orgânico. Afinal, a vida no corpo é meio para a plenitude — que é a vida em si mesma, estuante e real” ([3])

Em entrevista à TV Tupi em agosto de 1964, Francisco Cândido Xavier comenta que o transplante de órgãos, na opinião dos Espíritos sábios é um problema da ciência muito legítimo , muito natural e deve ser levado adiante.Os Espíritos, segundo Chico Xavier - não acreditam que o transplante de órgãos seja contrário às leis naturais.Pois é muito natural que, ao nos desvencilharmos do corpo físico, venhamos a doar os órgãos prestantes a companheiros necessitados deles, que possam utilizá-los com proveito. ([4])

A doação de órgãos para transplantes é perfeitamente legítima . Divaldo Franco certifica: se a misericórdia divina nos confere uma organização física sadia, é justo e válido, depois de nos havermos utilizado desse patrimônio, oferecê-lo, graças as conquistas valiosas da ciência e da tecnologia, aos que vieram em carência a fim de continuarem a jornada([5])

Não há, também, reflexos traumatizantes ou inibidores no corpo espiritual, em contrapartida à mutilação do corpo físico. O doador de olhos não retornará cego ao Além. Se assim fosse, que seria daqueles que têm o corpo consumido pelo fogo ou desintegrado numa explosão?[6]

Quando se pode precisar que uma pessoa esteja realmente morta? conforme a American Society of Neuroradiology morte encefálica é o estado irreversível de cessação de todo o encéfalo e funções neurais, resultante de edema e maciça destruição dos tecidos encefálicos apesar da atividade cardiopulmonar poder ser mantida por avançados sistemas de suporte vital e mecanismo e ventilação.”.([7]).

A grande celeuma do assunto é a morte encefálica, na vigência da qual órgãos ou partes do corpo humano são removidos para utilização imediata em enfermos deles necessitados. Estar em morte encefálica é estar em uma condição de parada definitiva e irreversível do encéfalo, incompatível com a vida e da qual ninguém jamais se recupera. [8] Havendo morte cerebral, verificada por exames convencionais e também apoiada em recursos de moderna tecnologia, apenas aparelhos podem manter a vida vegetativa, por vezes por tempo indeterminado. É nesse estado que se verifica a possibilidade do doador de órgãos "morrer" e só então seus órgãos podem ser aproveitados — já que órgãos sem irrigação sangüínea não servem para transplantes. Seria a eutanásia? Evidentemente que caracterizar o fato como tal carece de argumentação científica (...) para condenarem o transplante de órgãos: a eutanásia de modo algum se encaixaria nesses casos de morte encefálica comprovada.([9])

A medicina, no mundo todo, tem como certeza que a morte encefálica, que inclui a morte do tronco cerebral([10]) só terá constatação através de dois exames neurológicos, com intervalo de seis horas, e um complementar. Assim, quando for constatada cessação irreversível da função neural, esse paciente estará morto, para a unanimidade da literatura médica.

Questão que também amiudemente é levantada é a rejeição do organismo após a cirurgia. Chico Xavier nos vem ao auxílio, explicando: André Luiz considera a rejeição como um problema claramente compreensível, pois o órgão do corpo espiritual está presente no receptor. O órgão perispiritual provoca os elementos da defensiva do corpo, que os recursos imunológicos em futuro próximo, naturalmente, vão suster ou coibir.([11]) Especialistas, a partir 1967, desenvolveram várias drogas imunossupressoras (ciclosporina, azatiaprina e corticóides), para reduzir a possibilidade de rejeição, passando então os receptores de órgãos a terem uma maior sobrevida.([12]) Estatisticamente, o que há é que a taxa de prolongamento de vida dos transplantes é extremamente elevada. Isso graças não só às técnicas médicas, sempre se aperfeiçoando, mas também pelos esquemas imunossupressores que se desenvolveram e se ampliaram consideravelmente, existindo atualmente esquemas que levam a zero por cento (0%) a rejeição celular aguda na fase inicial do transplante, que é quando ocorrem.([13])

André Luiz explica que quando a célula é retirada da sua estrutura formadora, no corpo humano, indo laboratorialmente para outro ambiente energético, ela perde o comando mental que a orientava e passa, dessa forma, a individualizar-se; ao ser implantada em outro organismo [por transplante, por exemplo], tenderá a adaptar-se ao novo comando [espiritual] que a revitalizará e a seguir coordenará sua trajetória.([14]) Condição essa corroborada por Joanna de Angelis quando expõe: (...) transferido o órgão para outro corpo, automaticamente o perispírito do encarnado passa a influenciá-lo, moldando-o às suas necessidades, o que exigirá do paciente beneficiado a urgente transformação moral para melhor, a fim de que o seu mapa de provações seja também modificado pela sua renovação interior, gerando novas causas desencadeadoras para a felicidade que busca e talvez ainda não mereça.([15])

Os Espíritos afirmaram a Karedc que o desligamento do corpo físico é um processo altamente especializado e que pode demorar minutos, horas, dias, meses.[16] Embora com a morte física não haja mais qualquer vitalidade no corpo, ainda assim há casos em que o Espírito, cuja vida foi toda material, sensual, fica jungido aos despojos, pela afinidade dada por ele à matéria. ([17]) Todavia, recordemos de situação que ocorre todos os dias nas grandes cidades: a prática da necrópsia, exigida por força da Lei, nos casos de morte violenta ou sem causa determinada: abre-se o cadáver, da região esternal até o baixo ventre, expondo-se-lhe as vísceras tóracoabdominais.([18]) Não se pode perder de vista a questão do mérito individual. Estaria o destino dos Espíritos desencarnados à mercê da decisão dos homens em retirar-lhes os órgãos para transplante, em cremar-lhes o corpo ou em retalhar-lhes as vísceras por ocasião da necrópsia?! O bom senso e a razão gritam que isso não é possível, porquanto seria admitir a justiça do acaso e o acaso não existe!([19])

Em síntese a doação de órgãos para transplantes não afetará o espírito do doador, exceto se acreditarmos ser injusta a Lei de Deus e estarmos no Orbe à deriva da Sua Vontade. Lembremos que nos Estatutos do Pai não há espaço para a injustiça e o transplante de órgãos (façanha da ciência humana) é valiosa oportunidade dentre tantas outras colocadas à nossa disposição para o exercício da amor.




[1] Mário Abbud Filho Ex-Presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São José do Rio Preto.Membro da American Society Transplant Physician. Membro da International Transplantation Society, disponível <http://members.tripod.com/themedpage/artigos_doacao.htm>acesso em 12/04/2005

[2] In Doação de Órgãos e Transplantes de Wlademir Lisso / Cleusa M. Cardoso de Paiva, disponível <http://www.lissoportalespirita.com.br/sintese.htm>acesso em 15/04/2004

[3] Franco, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos, Ditado pelo Espírito Joanna de Angelis. Salvador/Ba: Ed. LEAL, 1999, Cf. Cap. Transplantes de Órgãos:

[4] publicada na Revista Espírita Allan Kardec, ano X, n°38

[5] Franco, Divaldo Pereira. Seara de Luz, Salvador: Editora LEAL [o livro apresenta uma série de entrevistas ocorridas com Divaldo entre 1971 e 1990.]-

[6] Simonetti, Richard. Quem tem medo da morte? - São Paulo /SP: Editora Lumini ,2001

[7] In: “Dos transplantes de Órgãos à Clonagem”, de Rita Maria P.Santos, Ed. Forense, Rio/RJ, 2000, p. 41

[8] Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na Revista Reformador– outubro/1998

[9] Idem

[10] O tronco cerebral, e não o coração, é reconhecido como o organizador e “comandante” de todos os processos vitais. Nele está alojada a capacidade neural para a respiração e batimentos cardíacos espontâneos; sem tronco ninguém respira por si só.

[11] Cf. Revista Espírita Allan Kardec, ano X, n°38

[12] Folha de S.Paulo, A3, “Opinião”, 15.Maio.2001

[13] Entrevista com o Prof. Dr. Flávio Jota de Paula Médico da Unidade de Transplante Renal do HC/FMUSP. 1º Secretário da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Diretor da I Mini Maratona de Transplantados de Órgãos do Brasil. Publicado em Prática Hospitalar ano IV n º 24 nov-dez/2002

[14] Xavier, Francisco Cândido. Evolução em dois Mundos – Ditado pelo Espírito André Luiz. 5ª Ed. Rio de Janeiro, RJ: Ed FEB, 1972, cap. “Células e Corpo Espiritual”

[15] Franco, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos, Ditado pelo Espírito Joana de Angelis. Salvador: Ed. LEAL, 1999

[16] Kardec, Allan,. O Livros dos Espíritos, RJ: Ed FEB/2003, questão n° 155, Cap. XI.

[17] Kühl Eurípedes DOAÇÃO DE ÓRGÃOS TRANSPLANTES Entrevista Virtual disponível <www.cvdee.org.br/>acesso em 24/04/2005

[18] Cf. Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na Revista Reformador– outubro/1998

[19] Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na Revista Reformador– outubro/1998

endereço: http://www.apologiaespirita.org/
imagem: corposaun.com



sábado, 5 de junho de 2010

ANIVERSÁRIO


Amigos,
este blog está comemorando hoje o seu 1º aniversário.

Em gratidão, ofereço, como lembrança, este selo a todos os amigos que enriquecem este blog com seus comentários.

Um grande e forte Abraço!!!!

Uman/Jorge


quarta-feira, 2 de junho de 2010

A DOUTRINAÇÃO: VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA COMPLEXO


Hermínio C. Miranda

EM MEMÓRIAS DE UM SUICIDA, um dos grandes livros da literatura mediúnica, narra o autor espiritual, no capítulo VI (A Comunhão com o Alto), a dramática procura de médiuns que, pela sua dedicação integral e espontânea, socorressem alguns dos trágicos transgressores das leis sagradas da vida. Chegara a um «impasse» o processo de recuperação. A despeito do desvelo e competência dos técnicos e mentores da organização espiritual especializada no tratamento dos suicidas, um grupo deles se mantinha irredutivelmente fixo nas suas angústias. Os casos estavam distribuídos, segundo sua natureza, a três ambientes distintos: o hospital propriamente dito, o isolamento e o manicômio.

Uns tantos desses, porém, permaneciam atordoados, semi-inconscientes, imersos em lamentável estado de inércia mental, incapacitados para quaisquer aquisições facultativas de progresso.

Tornara-se, pois, urgente despertá-los para a realidade que se recusavam, mais inconsciente do que conscientemente, a enfrentar. Trata-se aqui de um conhecido mecanismo de fuga defensiva. Inseguro e temeroso diante da dor que ele sabe aguda, profunda e inexorável, o espírito culpado se aliena, na esperança de pelo menos adiar o momento duro e fatal do despertamento.

Em casos como esses é necessário, quase sempre, recorrer à terapêutica da mediunidade. O Espírito precisa retomar a sua marcha e o recurso empregado com maior eficácia é o do choque, a que o autor de «Memórias de um Suicida» chama de «revivescência de vibrações animalizadas». Habituados a tais vibrações mais grosseiras, mostravam-se eles inatingíveis aos processos mais sutis de que dispõem os técnicos do Espaço. Para que fossem tocados na intimidade do ser, era preciso alcançá-los «através da ação e da palavra humanas». Como estavam, não entendiam a palavra dos mentores e nem mesmo os distinguiam visualmente, por mais que estes reduzissem o seu teor vibratório, num esforço considerável de automaterialização.

Em suma, decidiu-se encaminhar os mais necessitados a um grupo mediúnico na Terra.

Desdobra-se, então, um trabalho longo, penoso e difícil. Onde localizar um grupo desses, seguro de seus métodos, doutrinariamente esclarecido, sério, fraternal e integrado no espírito do Evangelho?

Movimentam-se os órgãos próprios da vasta e bem estruturada instituição - a Legião dos Servos de Maria. É nomeada uma comissão que se responsabilizará pela tarefa de levar à face da Terra aqueles seres tão batidos pela desgraça. Entram em ação todos os dispositivos de segurança e de informação. Na Seção de Relações Externas são consultadas as indicações sobre grupos espíritas que possam oferecer as condições desejadas para o delicado trabalho. Verifica-se a existência . de grupos em Portugal, na Espanha e no Brasil. Decide-se por este último e, em seguida, são examinadas as «fichas espirituais dos médiuns» que compõem os grupos sob exame. fiz no Brasil que se localiza magnífica falange de médiuns bem dotados para a delicada tarefa.

Nessa mesma noite, partem os dirigentes para o plano terrestre, com o encargo preliminar de selecionar os médiuns e, por conseguinte, os grupos mediúnicos aos quais levariam os doentes espirituais a tratamento. A colaboração a ser solicitada envolvia também entendimentos com os guias e mentores e certamente teria que ser inteiramente voluntária, pois seria inadmissível forçar a difícil tarefa.

A entrevista com os médiuns foi planejada para a noite, enquanto estavam parcialmente libertos pelo sono fisiológico e mais protegidos, magneticamente, pelos seus respectivos guias. Quatro cidades seriam visitadas de cada vez, em busca de socorro e colaboração mediúnica. Selecionados os instrumentos, haveria uma reunião coletiva na Espiritualidade para distribuição das tarefas.

Os médiuns foram avisados de que teriam que contribuir «com grandes parcelas de suas próprias energias para alívio dos desgraçados que lhes bateriam à porta». Por certo, sentiriam o reflexo desse estafante trabalho, a ser realizado com não pequenos sacrifícios. Seriam assaltados por angústias, mal-estar, perda de apetite, insônia e até redução de peso físico, mas estariam sob a proteção adicional da instituição que ora lhes buscava o auxílio indispensável. Estavam sendo entrevistados apenas aqueles médiuns mais dotados e cujas faculdades se apoiavam na luminosa moral cristã e a quem o autor espiritual chama de «iniciados modernos». Doze povoações foram visitadas no interior do Brasil e vinte médiuns consultados, um a um. Pois, a despeito da cuidadosa seleção prévia - entrevista apenas com os médiuns que ofereciam as condições mínimas exigidas -, apenas quatro senhoras concordaram sem restrições, entregando-se literalmente, de corpo e alma, à tarefa. Dos médiuns masculinos, somente dois se dispuseram a colaborar, «sem rasgos de legítima abnegação, é certo, mas fiéis aos compromissos de que se investiram, assemelhando-se ao funcionário assíduo à repartição por ser esse o dever do subordinado». Ou seja: por obrigação e não por amor. Os restantes dezesseis médiuns foram desobrigados, por se mostrarem desencorajados diante da magnitude e responsabilidade do sacrifício.

Os mentores espirituais trabalhariam, pois, com número reduzido e com mais escassas possibilidades de atendimento, mas era preciso fazer algo por aqueles réprobos. Dessa forma, sem serem de todo negativos, os resultados dos contatos eram algo decepcionantes. E isso, notem bem, no Brasil, que «fora assinalado como ambiente preferível, onde se localizavam médiuns ricamente dotados, honestos, sinceros, absolutamente desinteressados!»

Começa então o ajustamento dos seis aparelhos mediúnicos, através da ação fluídica e magnética, a fim de torná-los perfeitamente aptos para o trabalho especializado, ante o qual se haviam comprometido. Alongaríamos demais este comentário se fôssemos aqui reproduzir o meticuloso procedimento clínico-espiritual a que foram submetidos os médiuns. O objetivo era ajustá-los perfeitamente para que funcionassem satisfatoriamente no momento culminante do processo: a sessão mediúnica, cujo preparo é também descrito com minúcias surpreendentes. Os Espíritos em tratamento foram então reunidos e receberam longa preleção acerca da importância da reunião e do que se esperava de cada um.

« A azáfama do plano espiritual - diz o autor - era intensa. Quanto à parte que tocava ao homem executar parecia diminuta, conforme foi fácil observar.»

Todos estão a postos, afinal. Uma parcela considerável de responsabilidade cabe, daí em diante, àquele que tem a seu cargo os trabalhos do grupo mediúnico. Dele se exigem, como condição essencial, «elevadas disposições para o Bem». A narrativa torna-se fascinante neste ponto. Os mentores espirituais da casa, harmoniosamente articulados com os técnicos espirituais visitantes, responsáveis pelos doentes, se incumbem de tarefas que nos são quase inconcebíveis. Cabe-lhes «recolher as vibrações dos pensamentos e das palavras do presidente, desenvolvidos durante o magno certame; associá-los aos elementos quintessenciados de que dispõem, de envolta com as ondas magnéticas dos circunstantes encarnados; elaborá-los e transfundi-los em cenas, dando-lhes vida e ação, concretizando-os, materializando-os até que os infelizes assistentes desencarnados sejam capazes de tudo compreender com facilidade».

E à medida que se sucedem os doentes desencarnados, os técnicos espirituais presentes cercam o dirigente encarnado dos trabalhos de toda atenção e cuidado, a fim de que, por descuido, invigilância ou perturbação, não ponha a perder tão elaborado processo de planejamento.

Num grupo que freqüentamos, um dos médiuns viu, em retrospecto, tarde da noite, depois de recolhido ao leito, todo o trabalho de preparação da sessão. Duas figuras espirituais veneráveis circularam pelos móveis já posicionados e manipularam dispositivos especiais que eles ligavam às cadeiras dos médiuns e demais assistentes. Mais tarde, foi revista a cena da nossa chegada ao recinto do trabalho, que ficara isolado, mergulhado na penumbra durante cerca de uma hora antes do início da sessão. Ao tomarmos as posições em torno da mesa, todos foram ligados àqueles dispositivos, sendo que a pessoa incumbida do trabalho de dialogar com os Espíritos recebeu tais conexões na cabeça, partindo os fios fluídicos na direção do alto.

Convém assinalar logo, porém, que a pessoa que dirige a palavra aos seres desencarnados não se coloca em posição destacada e superior, como sumo sacerdote de um novo culto. No grupo mediúnico equilibrado todos são importantes e ninguém é importante. Paulo de Tarso já sabia disso, há mais de mil e novecentos anos. Para que o grupo funcione bem, todas as peças devem estar ajustadas como as de um relógio, no qual a falha de um parafuso aparentemente sem importância perturba ou impede o funcionamento do mecanismo todo. O chamado « doutrinador poderia, talvez, ser comparado aos ponteiros que indicam, pela sua palavra, o andamento do trabalho, no desenrolar do diálogo; mas, que seria dele sem a corda que impulsiona a máquina, sem as engrenagens que transmitem o movimento ou o mostrador que lhe diz onde se encontra na face do relógio? Não podemos esquecer, por outro lado, que o doutrinador é também um médium que precisa colocar-se em sintonia com seus amigos espirituais mais esclarecidos, a fim de que possa desempenhar-se a contento de suas tarefas. Nada o credencia como um elemento à parte no grupo, com poderes especiais, portador de virtudes excepcionais.

Numa conversa reproduzida por André Luiz, em «Missionários da Luz», diz o instrutor Alexandre, falando sobre os doutrinadores:

- «Ajudando entidades em desequilíbrio, ajudarão a si mesmos; doutrinando, acabarão igualmente doutrinados.»

Esse pensamento poderá servir de ponto de partida e apoio para algumas meditações em torno do problema, ainda pouco explorado, do papel do doutrinador.

Antes de ir adiante, uma tentativa de definição. A expressão doutrinador, de uso corrente na prática espírita, parece algo inadequada, ou, pelo menos, incompleta, sendo admitida apenas à falta de outra mais precisa. Isso porque, na realidade, aquele que se incumbe de falar aos Espíritos manifestantes não está limitado exclusivamente a doutrinar, isto é, instruí-los quanto à Doutrina Espírita em particular. Seu objetivo é bem mais amplo e menos específico, dado que, antes de qualquer instrução ou doutrinação propriamente dita, o Espírito em crise necessita de acolhida paciente, amorosa, compreensiva, de socorro mais urgente e imediato, de tratamento de emergência que o coloque em condições de pelo menos compreender a sua posição. Por outro lado, parece igualmente inadequado posicionar aquele que dialoga com os Espíritos manifestantes como diretor ou dirigente dos trabalhos. Ele não passa de um dos componentes do grupo com atribuição específica, tal como os médiuns - psicofônicos, psicográficos, videntes ou de cura - e os que emprestam ao grupo o apoio silencioso, sem mediunidade ostensiva. De todos eles, indistintamente, precisa o grupo. Todos devem estar sintonizados com o Mundo Maior e harmonizados entre si mesmos, inteiramente voltados para as tarefas de que foram incumbidos.

As informações que hoje temos, com riqueza de pormenores, sobre o relacionamento entre o mundo dos desencarnados e o nosso, confirmam e ampliam o que os princípios da codificação deixaram estabelecidos. O chamado dirigente é apenas a pessoa que no plano dos encarnados coordena os trabalhos que ali se desenrolam. Mantém-se usualmente em estado de vigília e alertamento para melhor acompanhar o que ocorre à sua volta, dado que qualquer forma de mediunidade que provocasse seu alheamento poderia dificultar sus atuação. Por isso, deve estar sempre atento às sugestões e recomendações que recebe por via intuitiva dos verdadeiros dirigentes do grupo, que são os Espíritos mais experimentados do mundo invisível. Dessa forma, o doutrinador não é, usualmente, dotado de mediunidade ostensiva. Quando muito, dispõe de alguma vidência ou audição. A via de comunicação mais intensamente utilizada pelos seus mentores é a da intuição, que, com a prática, se desenvolve de maneira satisfatória. É preciso, para tanto, preparar-se continuamente, por meio da prece, da purificação interior, da meditação, a fim de conseguir captar os « flashes rápidos que recebe do mundo espiritual, enquanto atende seus companheiros desencarnados. É claro também que, no decorrer das tarefas mediúnicas, o padrão vibratório de todos os componentes do grupo é elevado pela concentração e pela atuação dos técnicos espirituais, a fim de afinar os trabalhadores encarnados com os desencarnados, buscando estabelecer entre eles uma aproximação que possibilite o intercâmbio.

Mas, afinal, que nome proporíamos em lugar de doutrinador ou dirigente? Instrutor? Monitor? Bem. É preciso confessar que a esta altura tão generalizado se encontra o uso da palavra doutrinador que a discussão se torna algo acadêmica. O objetivo desta digressão foi apenas mostrar que o trabalho do doutrinador nos grupos mediúnicos não é propriamente o de transmitir aos Espíritos desajustados instruções doutrinárias pura e simplesmente, consistindo antes em acolher irmãos mergulhados na dor, na revolta, na angústia, na ignorância, na alienação, na desorientação e, até, muitas vezes, na total inconsciência de si mesmos. Muitos desses Espíritos, senão a maioria deles, precisam de primeiros socorros urgentes. Trazem angústias e desordens seculares, às vezes, que não se apagam com um passe de mágica. Precisam de tempo para se colocarem em condições de receber instruções e esclarecimentos que os habilitem ao prosseguimento da jornada evolutiva. No estado de choque emocional em que estão se tornam, às vezes, inacessíveis até mesmo à voz do doutrinador, prosseguindo como surdos no alucinante monólogo da dor, girando incessantemente em torno de um núcleo interior.

Os grupos mediúnicos que se dedicam, pois, ao trabalho de atendimento espiritual, funcionam como postos avançados de pronto-socorro, ambulatórios de primeiros cuidados, recebendo seres que se desequilibraram seriamente e se perderam pelos escuros desvãos de regiões onde imperam a revolta, o ódio, a dor, a aflição em graus superlativos. Por isso, os povos da língua inglesa chamam a essa atividade de «rescue work», ou seja, trabalho de resgate. É realmente o que se passa. Por mais graves que sejam as faltas cometidas pelo Espírito, chega afinal o momento do resgate. Abnegados e competentes companheiros do mundo espiritual descem então às furnas da dor para trazê-los aos postos de atendimento. Não é fácil esta missão, porque aqueles que adquiriram domínio sobre a vitima não desejam liberá-la de maneira alguma e se defendem e reagem com inaudita violência. Tais seres, secularmente endurecidos no mal, dispõem de poderes consideráveis, comandam organizações inteiramente voltadas à prática da violência e da opressão organizadas, a serviço das suas paixões incontroladas. É difícil e arriscada a retirada de alguém que esteja aprisionado nesses autênticos infernos. O trabalho é realmente de resgate.

Trazidos, pois, aos grupos mediúnicos, os pobres irmãos que já perderam a noção do tempo e, muitas vezes, até a consciência de si mesmos, não oferecem condições de diálogo fácil. Não estão ainda em posição de serem doutrinados.

Mais difíceis, porém, são aqueles que exercem no mundo das trevas essa terrível liderança de opressão. São Espíritos prepotentes, acostumados ao mando incontestado, inteligentes, sutis, envolventes, violentos, que há séculos não experimentam um sentimento de piedade, de afeição ou de paz. Vivem num processo contínuo de alucinação, inteiramente voltados para o livre exercício de suas paixões. Têm, no entanto, nítida consciência de suas responsabilidades. Conhecem as leis divinas e sabem como, onde e por que a estão desrespeitando. Sabem das conseqüências da rebeldia e sabem que um dia, afinal, não importa quando, terão de enfrentar a dura realidade do resgate. Nada disso, porém, importa, porque enquanto se acharem envolvidos no processo da vingança, do ódio, da violência, estão ao abrigo da dor maior do arrependimento. Sabem disso muito bem. Suas organizações são fundadas em estrito regime disciplinar e hierárquico e sabem que, enquanto ali estiverem, estarão sob a proteção da própria violência. Enquanto infligem a dor aos outros, esquecem-se das próprias, num processo de auto-anestesia da sensibilidade. Protegem-se a todo custo de qualquer aproximação amorosa, de qualquer movimento conciliador, de qualquer socorro através da prece. Quando as equipes do bem conseguem resgatar algum tutelado que considerem importante, ou interferir de maneira decisiva nas suas atividades, dificultando-lhes o trabalho impiedoso e os planos de longo curso, ficam alucinados de ódio e se atiram com todos os seus recursos à vingança, à tentativa de aniquilamento e destruição dos que ousaram perturbar o andamento de suas tarefas. Ai daquele que se atreve a interromper um processo de obsessão, ou a subtrair uma vítima inerme das garras do seu verdugo implacável!

Nesse estado de exaltação e rancor é que costumam manifestar-se através de médiuns dedicados. Por isso, os grupos mediúnicos precisam estar muito bem preparados e protegidos pela prece, pelas boas intenções, pelo sentimento de fraternidade. Têm de contar com muito boa assistência das mais elevadas entidades espirituais e com a presença de Espíritos que conheçam profundamente os mecanismos que se põem em movimento para que se realize uma sessão espírita.

O trabalho do doutrinador é, então, alta­mente crítico. Sua atitude mental e emocional, sua posição espiritual, seus conhecimentos doutrinários, sua familiaridade com os processos mediúnicos são de vital importância, dado que por um simples descuido seu muitas dores angustiantes podem ter o seu fim adiado por tempo indeterminado.

Em primeiro lugar, o doutrinador nunca sabe que tipo de Espírito se aproxima, em que condições e com que problemas. Desconhece, de início, suas intenções e propósitos. Sabe, por outro lado, que o ser manifestante pode levar a grande vantagem inicial de estar na posse de conhecimentos do lado espiritual da vida de que ele, doutrinador, não dispõe. Persegue-se, oprime, ou obsidia alguém que o grupo foi incumbido de tentar socorrer, o perseguidor vem munido de fatos que os encarnados desconhecem. Sabe dos antecedentes do processo, está convencido da legitimidade de seu direito de perseguir e odiar. De certa forma, não deixa de ter alguma razão, porque a lei divina que protege a todos nós foi desrespeitada por aquele que o feriu no passado. Foi aquele mesmo que agora o grupo pretende proteger, e para quem se pede perdão e piedade, que lhe roubou a esposa, que o arruinou, que o levou ao crime, à vergonha, à miséria, à desonra. Foi aquele que lhe tirou a vida, que o traiu na sua confiança, que o levou ao desespero e ao suicídio.

Os primeiros apelos ao perdão não lhe fazem o menor sentido. No seu raciocínio deformado, o próprio Deus permitiria a vingança porque se Deus não o quisesse nada daquilo seria possível. Ou, então, ele não acredita na justiça divina e resolveu tomar a vingança em suas próprias mãos. Não venham, pois, pedir perdão para quem o arrasou. Precisavam ver que monstro foi aquele que agora comparece em lágrimas para implorar socorro!...

De outras vezes, o processo da perseguição e da opressão tornou-se, por assim dizer, impessoal. O Espírito violento e arbitrário não se interessa pessoalmente pela sua vítima. Ele faz parte de uma organização com objetivos bem demarcados e com planejamentos em longo prazo; recebe uma tarefa específica que lhe cumpre desempenhar com dedicação e rigor, seja quem for à vítima, porque do bom desempenho do seu trabalho depende sua promoção na escala hierárquica da organização a que serve, como em qualquer instituição humana que premia aqueles que lhe são úteis e fiéis. Recebem condecorações e galgam postos importantes à medida que se destacam no trabalho bem feito, ou seja, quanto mais eficientes forem nas odiosas e lamentáveis tarefas a que se entregam. A estes também não adianta o apelo à clemência. São frios executores de um planejamento global. Não se sentem nem mesmo responsáveis ou culpados pela dor que infligem, porque, segundo dizem, apenas cumprem ordens superiores. Se há culpa, não lhes cabe nenhuma parcela e sim aos seus mandantes. Foram treinados para isso e condicionados a esse procedimento. Dão sempre as mesmas respostas e têm atrás de si a segurança que julgam incontestável da terrível organização a que pertencem.

Quanto aos que planejam, colocados, evidentemente, em plano superior de inteligência e conhecimento, também não se julgam responsáveis. São meros teóricos. Não executam ninguém, não julgam ninguém: limitam-se a traçar os programas estratégicos de ação; não descem aos pormenores da execução propriamente dita.

Há, ainda, os terríveis juristas do Espaço. Estes também, autoritários e seguros de si, exoneram-se facilmente de qualquer culpa porque, segundo informam ao doutrinador, cingem-se aos autos do processo. Na sua opinião, qualquer juiz terreno, medianamente instruído, proferiria a mesma sentença diante daqueles fatos. Todo o formalismo processualístico ali está: as denúncias, os depoimentos, as audiências, os pareceres, os laudos, as perícias, os despachos e, por fim, a sentença - invariavelmente condenatória. E até as revisões, e os apelos, quando previstos nos «códigos» pelos quais se orientam (ou melhor: se desorientam).

Muitos se dizem trabalhadores fiéis do Cristo e lutam denodadamente pelo restabelecimento de sua «verdadeira igreja». Citam os mesmos textos evangélicos para dizer coisas diametralmente opostas à lei universal do amor e da tolerância que o Cristo pregou. Se advertidos quanto à violência que empregam, invocam invariavelmente a cena da expulsão dos mercadores do templo.

É difícil o trato com esses irmãos desesperados. Não podemos recebê-los como celerados, mas como companheiros doentes que se comprometeram profundamente ante as leis de Deus. Não podemos responder à sua violência com a nossa. Por outro lado, muitos são os que se tornaram inacessíveis à linguagem de excessiva doçura, pois algumas verdades precisam e devem ser ditas a eles. Mas como? Que verdades? O que lhes convém dizer? De que maneira? Pouco sabemos deles, a não ser o que eles próprios revelam no diálogo penoso e fragmentário que se desenvolve. O melhor é deixá-los falar por algum tempo, depois de recebê-los amorosamente, com o Espírito desarmado e atento, tranqüilo e vigilante. Pouco a pouco, vão revelando suas motivações e impulsos. Qual o momento de interferir com uma palavra mais firme? Será agora, desta primeira vez, ou convém esperar um pouco mais? Devemos dar-lhe um passe? Qual o melhor momento para a prece? Quais são as razões profundas da sua dor?

No fundo há sempre a dor que eles, naturalmente, não admitem. Mas, fogem dela, procurando esconder-se de si mesmos. Quando lhes dizemos que a razão do sofrimento está no seu próprio passado, reagem energicamente à idéia de uma incursão pelos porões da memória, porque regra geral sabem muito bem que lá é que se escondem as raízes profundas das suas angústias e não se julgam ainda preparados para identificá-las. E se no fundo do ser está a dor, lá também está o amor, porque são legião aqueles de nós que nos despenhamos nos abismos da dor pelo amor frustrado, traído, maculado, e de lá saímos pelo amor restaurado, compreendido, redimido. Que tremenda força tem esse sentimento que constitui a essência mesma de Deus! Nos corações mais duros, mais frios, mais implacavelmente voltados ao ódio, remanesce sempre, invariavelmente, a chama adormecida de amores milenares, talvez esquecidos, quase sempre soterrados nas cinzas dos séculos, mas ainda vivos. Cabe-nos descobrir naquele mar tormentoso de paixões desencadeadas o remanso tranqüilo onde se depositou o amor. Se tivermos paciência e sabedoria para esperar o momento certo e soprar amorosamente o coração chagado pela angústia, veremos que debaixo da cinza dormitam fagulhas que um dia reacenderão aquela chama dourada do amor que aquece sem queimar e que ilumina sem ofuscar. Há sempre, alhures, naquele tumulto interior, a memória querida de uma dedicada mãe, de um filho inesquecível, de uma esposa muito amada, de um irmão, de um amigo que parecia esquecido.

A despeito disso, o Espírito atormentado se defende, porque, consciente ou inconscientemente, ele sabe que, se fraquejar, ou seja, se abrir a menor fresta à penetração da luz, todo o seu interior se iluminará e ele não poderá mais impedir que as suas pesadas culpas se identifiquem e se apresentem diante da sua consciência atribulada.

Cabe ao doutrinador dizer a palavra oportuna, no momento exato. Precisa ser doce e humilde, mas também positivo e firme. Sua própria autoridade moral é importante, porque o Espírito que o enfrenta respeita-o por isso, mas quem de nós na Terra, nas lutas contra imperfeições e mazelas que remanescem teimosamente, tem condições morais para impor-se ao pobre irmão que sofre? Muitas vezes ele sabe de nossas fraquezas tanto quanto nós. Ele nos vigia, nos observa, nos analisa, nos estuda de uma posição vantajosa para ele, na invisibilidade. Segue-nos nas nossas atividades diárias, acompanha-nos ao trabalho. Vê como agimos com os semelhantes e por aí afere a nossa personalidade e propósitos. É fácil para ele apurar se no nosso relacionamento humano agimos dentro da mesma moral que pregamos a ele. Ele percebe mais as nossas intenções, a intensidade e sinceridade do nosso sentimento do que o mero som das palavras que pronunciamos. Se estivermos recitando lindos textos evangélicos sem a sustentação da afeição legítima, ele o saberá também. E é preciso ter muito amor a dar, para distribuí-lo assim, indiscriminadamente, a qualquer companheiro espiritual que se manifeste. Muitas vezes, o médium doutrinador não se encontra na sua vida de encarnado cercado pelo sentimento de afeição de familiares e companheiros. Tem seus parentes, vive rodeado de conhecidos no ambiente de trabalho, mas não conta com grandes afeições e dedicações. A sustentação do seu teor vibratório no campo do amor deverá vir de cima e, para isso, precisa estar lado aos planos superiores que o ajudam e assistem a distância. Sem amor profundo, pronto na doação, incondicional, legítimo, sincero, é impraticável o trabalho mediúnico realmente produtivo e libertador. Esse dispositivo emocional, afetivo, precisa estar solidamente conjugado com boa dose de conhecimento doutrinário, adquirido não apenas na prática prolongada, na observação atenta dos fenômenos e mecanismos envolvidos, mas também no estudo repetido, continuo dos textos elucidativos da Doutrina Espírita. Ninguém deveria aventurar-se a esse trabalho sem preparo prévio. É claro que um coração amoroso, habituado a doar-se sem reservas ao semelhante, supre em grande parte o despreparo doutrinário. Numa situação mais critica, porém, diante de um Espírito mais artificioso, intelectualmente bem preparado e amoral, podem resultar embaraços bastante penosos para o doutrinador, os quais, de tão sérios, às vezes chegam a acarretar a desagregação do grupo.

Acontece, também, que alguns dos Espíritos que se apresentam diante de nós conhecem-nos do passado mais recente ou mais remoto, de outras encarnações alhures. Sabem de nossas tendências, conhecem mais de nossa história pregressa do que nós mesmos e fazem bom uso de seus conhecimentos. Vendo-nos hoje a falar-lhes como santarrões, que ainda não somos, vêm-lhes à lembrança as figuras hediondas que fomos no passado. Odeiam-nos, às vezes, pelas nossas crenças ou descrenças, pela oposição em que nos colocamos no passado, ou no presente. Esses ódios e rancores são particularmente dramáticos quando estamos em campos religiosos opostos. Poucas paixões são tão persistentes e nefastas como essas. Permanecemos, com freqüência, agarrados durante séculos inteiros às mesmas idéias religiosas, insuscetíveis de evolução, refratários a elas, inimigos delas. E os que nos conheceram como «bons» religiosos no passado, isto é, fanáticos, e nos vêem hoje ligados a um movimento herético, como classificam o Espiritismo, nos detestam veementemente, mesmo que nada lhes devamos em termos cármicos. O ódio deles é pronto, verbal, agressivo, irracional. Estão convictos de defenderam a pureza dos dogmas a que se aferraram tenazmente e tudo e todos quantos se lhes oponham devem ser removidos a ferro e fogo, a qualquer custo, por amor do Cristo, dizem, de quem se julgam trabalhadores fiéis. E quantas vezes, mergulhando no passado distante, acabam descobrindo que ajudaram a cravar um prego nas mãos do Mestre, de quem se julgavam defensores intransigentes!

Chega, então, o momento difícil e doloroso da crise. Desarma-se subitamente toda a estrutura da proteção, da defesa. O Espírito não pode mais fugir de si mesmo. A tarefa que vê à frente é gigantesca, pois aquele que desceu para os abismos, espalhando dores e espinhos, tem de retraçar os seus passos e não encontrará pelos caminhos de retorno outra coisa senão espinhos e dores. Mesmo assim, tem de palmilhá-lo, inapelavelmente, pois não há outro roteiro...

O primeiro impulso de ódio é ainda contra o doutrinador. Ele é o agente da sua dor, é aquele que teve a audácia de despertá-lo e, como qualquer um de nós, ele reage contra aquele que o sacudiu e o arrancou da anestesia cômoda do sono profundo que o isentava da dor. Terminou a fuga e o primeiro momento é absorvido pela revolta. Depois vem o duro choque da, realidade, o arrependimento, a terrível sensação de esmagamento ante a magnitude de suas culpas e das tarefas de recuperação que o esperam. É um ser arrasado, um trapo humano que não pode mais fugir de si mesmo, nem desaparecer no não-ser. Ele sabe que a vida continua inexoravelmente.

É chegado o momento em que o doutrinador tem de se portar com a maior grandeza e tato. Tem de evitar o agravamento das dores, a implantação do desânimo, o esmagamento pelo rolo compressor do arrependimento. Não pode o doutrinador apresentar-se como cobrador da lei, nem como aquele que venceu, afinal. Ao irmão que ali está, mais do que nunca deve servir, oferecer o braço amigo, ainda que também fraco e imperfeito; colocar à disposição do companheiro tão fundamente atingido o abrigo precário e provisório de seu próprio coração, assegurar-lhe o amparo de companheiros mais esclarecidos e competentes, mostrar-lhe que o caminho é longo, mas é possível, é necessário, é o único; que ele terá repouso e instrução. Será preparado para as tarefas que o esperam, reencontrará afeições profundas que pareciam esquecidas. Não se deve afligir ante a aspereza da dor, porque as leis divinas não dosam o resgate acima das nossas resistências e possibilidades. Que chegou, afinal e graças a Deus, o momento da verdade, quando os nossos passos deixam de nos aprofundar nos escuros caminhos da angústia, para nos dirigirem à escalada na direção da paz. Tenha o irmão confiança em si e nos poderes superiores que velam por nós todos. É também chegado o momento da prece de recomendação e despedida. Se antes oramos para encontrar o caminho de seu coração, agora oramos para que ele o siga amparado pelos que o amam e há tanto tempo esperam por ele. Há, sempre uma mãe carinhosa ali, ou um filho esquecido, ou uma companheira amada que os séculos guardaram para nós.

E enquanto agradecemos a Jesus por mais um Espírito que, por nosso intermédio, se entregou aos trabalhadores da luz, voltamo-nos para outro médium para receber novo irmão desarvorado a deblaterar enraivecido e alucinado, sem saber ainda que está desesperado pela salvação. Talvez Jesus permita que possamos recolhê-lo também. Recomeça o ciclo: vigilância, paciência, ternura, compreensão, firmeza, lealdade, humildade, amor,.amor, amor...

E o que o mundo espiritual espera de nós. Lembremo-nos disso, quando nos sentarmos em torno da mesa de trabalho. E o Cristo não se esquecerá de nós...


Fonte: Reformador – Fevereiro/1975


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