sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

FOTOGRAFIA DO PENSAMENTO


Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos Justificarpublicada sob a direção de Allan Kardec
junho de 1868

O fenômeno da fotografia do PENSAMENTO se ligando ao das criações fluídicas, descrito em nosso livro da GÊNESE, no capítulo dos fluidos, para maior clareza reproduzimos a passagem desse capítulo, onde esse assunto é tratado, e o completamos com novas observações.

Os fluidos espirituais, que constituem, propriamente falando, um dos estados do fluido cósmico, são a atmosfera dos seres espirituais; é o elemento onde eles haurem os materiais sobre os quais operam; é o meio onde se passam os fenômenos especiais perceptíveis à vista e ao ouvido do Espírito, e que escapam aos sentidos carnais impressionados somente pela matéria tangível, onde se forma essa luz particular ao mundo espiritual, diferente da luz comum por sua causa e seus efeitos; é, enfim, o veículo do PENSAMENTO, como o ar é o veículo do som.

Os Espíritos agindo sobre os fluidos espirituais, não os manipulam como os homens manipulam os gases, mas com a ajuda do PENSAMENTO e da vontade. O PENSAMENTO e a vontade são para os Espíritos o que a mão é para o homem. Pelo PENSAMENTO, eles imprimem a esses fluidos tal ou tal direção; aglomeram-nos, combinam-nos ou os dispersam; com eles formam conjuntos tendo uma aparência, uma forma, uma cor determinada; mudando-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou outros corpos, os combinam segundo certas leis; é a grande oficina ou o laboratório da vida espiritual.

Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção; freqüentemente, são o produto de um PENSAMENTO inconsciente; basta ao Espírito pensar numa coisa para que essa coisa se produza, como basta modular uma ária para que essa ária repercuta na atmosfera.

É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à vista de um encarnado dotado da visão psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo, na época em que foi conhecido, tivesse tido várias encarnações depois. Ele se apresenta com a roupa, os sinais exteriores - enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc., que tinha então; um decapitado se apresentará com a cabeça a menos. Não é dizer que ele conserva essas aparências; não, certamente; porque como Espírito ele não é nem coxo, nem maneta, nem caolho, nem decapitado, mas seu PENSAMENTO reportando-se à época em que era assim, seu perispírito lhe toma instantaneamente as aparências, que deixa do mesmo modo instantaneamente, desde que seu pensamento deixa de agir. Se, pois, foi uma vez negro, outra vez branco, ele se apresentará como negro ou como branco, segundo a dessas duas encarnações sob a qual for evocado, e onde se reportar o seu PENSAMENTO.

Por um efeito análogo, o PENSAMENTO do Espírito cria fluidicamente os objetos dos quais tinha o hábito de se servir: um avaro manejará o ouro; um militar terá as suas armas e o seu uniforme; um fumante, o seu cachimbo; um lavrador, a sua charrua e seus bois; uma velha, a sua roca para afiar. Esses objetos fluídicos são tão reais para o Espírito que é, ele mesmo, fluídico, quanto eram no estado material para o homem vivo; mas, pela mesma razão que são criados pelo PENSAMENTO, a sua existência é tão fugidia quanto o PENSAMENTO.

Sendo os fluidos o veículo do PENSAMENTO, eles nos trazem o PENSAMENTO, como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer, em verdade, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.

Como se vê, é uma ordem de fatos toda nova que se passam fora do mundo tangível, e constituem, podendo-se assim dizer, a física e a química especiais do mundo invisível. Mas como, durante a encarnação, o princípio espiritual está unido ao princípio material, disto resulta que certos fenômenos do mundo espiritual se produzem conjuntamente com os do mundo material, e são inexplicáveis para quem não lhes conhece as leis. O conhecimento dessas leis é, pois, tão útil aos encarnados quanto aos desencarnados, uma vez que só elas podem explicar certos fatos da vida material.

O PENSAMENTO, criando imagens fluídicas, se reflete no envoltório espiritual como numa vidraça, ou ainda como essas imagens de objetos terrestres que se refletem nos vapores de ar; ela ali toma um corpo e se fotografa de alguma sorte. Que um homem tenha, por exemplo, a idéia de matar um outro, por impassível que seja seu corpo material, seu corpo fluídico é posto em ação pelo PENSAMENTO do qual reproduz todas as nuanças; ele executa fluidicamente o gesto, o ato que tem o desejo de realizar; seu PENSAMENTO cria a imagem da vítima, e a cena inteira se pinta, como num quadro, tal qual ela está em seu espírito.

É assim que os movimentos mais secretos da alma repercutem no envoltório fluídico; que uma alma, encarnada ou desencarnada, pode ler numa outra como num livro, e ver o que não é perceptível pelos olhos do corpo. Os olhos do corpo vêem as impressões interiores que se refletem sobre os indícios do rosto: a cólera, a alegria, a tristeza; mas a alma vê sobre os indícios da alma os PENSAMENTOS que não se traduzem ao redor.

No entanto, segundo a intenção, o vidente pode bem pressentir o cumprimento do ato que lhe será a conseqüência, mas não pode determinar o momento em que se cumprirá, nem lhe precisar os detalhes, nem mesmo afirmar que ocorrerá, porque circunstâncias ulteriores poderão modificar os planos decididos e mudar as disposições. Ele não pode ver o que não está ainda no PENSAMENTO; o que vê é a preocupação do momento, ou habitual, do indivíduo, seus desejos, seus projetos, suas intenções boas ou más; daí os erros nas previsões de certos videntes, quando um acontecimento está subordinado ao livre-arbítrio do homem; não podem senão pressentir-Ihe a probabilidade segundo o PENSAMENTO que vêem, mas não afirmar que ocorrerá de tal maneira e em tal momento. A maior ou a menor exatidão nas previsões, depende, além disso, do alcance e da clareza da visão psíquica; em certos indivíduos, Espíritos ou encarnados, ela é difusa ou limitada a um ponto, ao passo que, em outros, ela é limpa, e abarca o conjunto dos pensamentos e da vontade, devendo concorrer para a realização de um fato; mas, acima de tudo, há sempre a vontade superior que pode, em sua sabedoria, permitir uma revelação ou impedi-la; neste caso, um véu impenetrável é lançado sobre a visão psíquica mais perspicaz. (Ver na Gênese, o cap. da Presciência.)

A teoria das criações fluídicas e, conseqüentemente, da fotografia do PENSAMENTO, é uma conquistado Espiritismo moderno, e pode ser, doravante, considerada como adquirida em princípio, salvo as aplicações de detalhes que são o resultado da observação. Esse fenômeno é, incontestavelmente. A fonte das visões fantásticas, e deve desempenhar um grande papel em certos sonhos.

Pensamos que nele se pode encontrar a explicação da mediunidade do copo com água. (Ver o art. precedente.) Desde que o objeto que se vê não está no copo, a água deve fazer o trabalho de uma vidraça que reflete a imagem criada pelo PENSAMENTO do Espírito. Esta imagem pode ser a reprodução de uma coisa real, como pode ser a de uma criação de fantasia. O copo com água não é, em todos os casos, senão um meio de reproduzi-la, mas não é o único, assim como o prova a diversidade de procedimentos empregados por alguns videntes; este, talvez, convenha melhor para certas organizações.

* * *

O PENSAMENTO IN O LIVRO DOS ESPÍRITOS (Allan Kardec)

A inteligência é uma faculdade especial, própria de certas classes de seres orgânicos, aos quais dá, com o PENSAMENTO, a vontade de agir, a consciência de sua existência e de sua individualidade, assim como os meios de estabelecer relações com o mundo exterior e de prover as suas necessidades. (Trecho da nota de Allan Kardec para a resposta dos Espíritos à q. 71)

89. Os Espíritos gastam algum tempo para atravessar o espaço?
-- Sim; mas rápido como o PENSAMENTO.

89-a. O pensamento não é a própria alma que se transporta?
-- Quando o PENSAMENTO está em alguma parte, a alma também o está, pois é a alma que pensa. O pensamento é um atributo.

100 - ...A classificação dos Espíritos funda-se no seu grau de desenvolvimento, nas qualidades por eles adquiridas e nas imperfeições de que ainda não se livraram. Esta classificação nada tem de absoluta: nenhuma categoria apresenta caráter bem definido, a não ser no conjunto: de um grau a outro a transição é insensível, pois, nos limites, as diferenças se apagam, como nos reinos da Natureza, nas cores do arco-íris ou ainda nos diferentes períodos da vida humana. Pode-se, portanto, formar um número maior ou menor de classes, de acordo com a maneira por que se considerar o assunto. Acontece o mesmo que em todos os sistemas de classificação científica: os sistemas podem ser mais ou menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para a inteligência; mas, sejam como forem, nada alteram quanto à substância da Ciência. Os Espíritos, interpelados sobre isto, puderam, pois, variar quanto ao número das categorias, sem maiores conseqüências. Houve quem se apegasse a esta contradição aparente, sem refletir que eles não dão nenhuma importância ao que é puramente convencional. Para eles O PENSAMENTO É TUDO: deixam-nos os problemas da forma, da escolha dos termos, das classificações, em uma palavra, dos sistemas.

TRANSMISSÃO OCULTA DO PENSAMENTO

419. Qual a razão por que a idéia de uma descoberta, por exemplo, surge ao mesmo tempo em muitos pontos?
-- Já dissemos que, durante o sono, os Espíritos se comunicam entre si. Pois bem, quando o corpo desperta, o Espírito se recorda do que aprendeu, e o homem julga ter inventado. Assim, muitos podem encontrar a mesma coisa ao mesmo tempo. Quando dizeis que uma idéia está no ar, fazeis uma figura mais exata do que pensais; cada um contribui, sem o suspeitar, para propagá-la.

Nota de A. Kardec: Nosso Espírito revela assim, muitas vezes, a outros Espíritos, e à nossa revelia, aquilo que constitui o objeto das nossas preocupações de vigília.

420. Os Espíritos podem comunicar-se, se o corpo estiver completamente acordado?
-- O Espírito não está encerrado no corpo como numa caixa: ele irradia em todo o seu redor; eis porque poderá comunicar-se com outros Espíritos, mesmo no estado de vigília, embora o faça mais dificilmente.

421. Por que duas pessoas, perfeitamente despertas, têm muitas vezes, instantaneamente, o mesmo pensamento?
-- São dois Espíritos simpáticos que se comunicam e vêem reciprocamente os seus PENSAMENTOS, mesmo quando não dormem.

Nota de A. Kardec: Há entre os Espíritos afins uma comunicação de PENSAMENTOS permitindo que duas pessoas se vejam e se compreendam sem a necessidade dos signos exteriores da linguagem. Poderia dizer-se que elas falam a linguagem dos Espíritos.

649. Em que consiste a adoração?
-- É a elevação do PENSAMENTO a Deus. Pela adoração o homem aproxima dEle a sua alma.

Possuímos em nós mesmos, pelo PENSAMENTO e a vontade, um poder de ação que se estende muito além dos limites de nossa esfera corpórea. A prece por outros é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar os bons Espíritos em auxílio daquele por quem pedimos, a fim de lhe sugerirem bons PENSAMENTOS e lhe darem a força necessária para o corpo e a alma. Mas ainda nesse caso a prece do coração é tudo e a dos lábios não é nada. (Nota de Allan Kardec para a resposta dos Espíritos à q. 662)

833. Há no homem qualquer coisa que escape a todo constrangimento, e pela qual ele goze de uma liberdade absoluta?
-- É pelo PENSAMENTO que o homem goza de uma liberdade sem limites, porque o PENSAMENTO não conhece entraves. Pode-se impedir a sua manifestação, mas não aniquilá-lo.

834. O homem é responsável pelo seu pensamento?
-- Ele é responsável perante Deus. Só Deus, podendo conhecê-lo, condena-o ou absolve-o, segundo a sua justiça.

835. A liberdade de consciência é uma conseqüência da liberdade de pensar?
-- A consciência é um PENSAMENTO íntimo, que pertence ao homem como todos os outros pensamentos.

Diz Allan Kardec, no livro “O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” (cap. XXVII, item 10):

“O Espiritismo nos faz compreender a ação da prece, ao explicar a forma de transmissão do PENSAMENTO, seja quando o ser a quem oramos atende ao nosso apelo, seja quando o nosso PENSAMENTO eleva-se a ele. Para se compreender o que ocorre nesse caso, é necessário imaginar todos os seres, encarnados e desencarnados, mergulhados no fluido universal que preenche o espaço, assim como na terra estamos envolvidos pela atmosfera. Esse fluido é impulsionado pela vontade, pois é o veículo do PENSAMENTO, como o ar é o veículo do som, com a diferença de que as vibrações do ar são circunscritas, enquanto as do fluido universal se ampliam ao infinito. Quando, pois, o PENSAMENTO se dirige para algum ser, na terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece de um a outro, transmitindo o PENSAMENTO, como o ar transmite o som.

A energia da corrente guarda proporção com a do PENSAMENTO e da vontade. É assim que os Espíritos ouvem a prece que lhes é dirigida, qualquer que seja o lugar onde se encontrem, assim que os Espíritos se comunicam entre si, que nos transmitem suas inspirações, e que as relações se estabelecem à distância entre os próprios encarnados”.

in REVISTA ESPÍRITA, outubro de 1864 (TRANSMISSÃO DO PENSAMENTO - Meu fantástico)
http://aeradoespirito.sites.uol.com.br/A_ERA_DO_ESPIRITO_-_Portal/Revista_Espirita/Textos/TRANSMISSAO_DE_PENSAM.htm

...os Espíritos não têm mais necessidade da linguagem articulada; eles se compreendem sem o recurso da palavra, tão só pela transmissão do PENSAMENTO, que é a língua universal.


endereço: http://aeradoespirito2.sites.uol.com.br/RevistaEspirita/FOTOG_DO_PENSAMENTO.htm imagem: livrepensamento.com


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

OS MECANISMOS DA REENCARNAÇÃO


Quais são os fatores determinantes no processo reencarnatório?

Dr. Cícero Marcos Teixeira

Histórica e culturalmente, a gestação ou gravidez é considerada função da mulher. Isso é verdadeiro do ponto de vista biológico. Entretanto, na visão espírita, não se circunscreve apenas à mulher propriamente dita.

A gravidez é também um estado psicofísico, emocional, que envolve o homem, juntamente com a mulher, no desempenho da função procriadora de um novo corpo físico, com a participação direta, consciente ou inconsciente, do espírito reencarnante.

Portanto, no mínimo três individualidades estão diretamente envolvidas na dinâmica da gestação de um novo corpo físico.

O homem, em particular, precisa se educar e se auto-educar, no sentido de assumir e desempenhar a função da paternidade em toda a sua abrangência e plenitude conscientemente, não transferindo à mulher toda a responsabilidade na ação co-criadora da gestação de um corpo físico de um filho ou uma filha.

Preliminarmente, destaca-se a interação bioenergética anímico-mediúnica das partes interessadas na ação co-criadora da paternidade-maternidade, na dinâmica da gestação. Tal intervenção se faz consciente ou inconscientemente, além daquela psicofísica, em nível biológico propriamente dito.

Por que interação anímico-mediúnica consciencial? É de conhecimento geral que as dimensões biológicas, psicológicas, emocionais e sentimentais são componentes dinâmicos da gestação de um corpo físico para ser veículo da consciência individual reencarnante, na condição de filho ou filha. Com a interação anímico-mediúnica não há o mesmo reconhecimento. Entretanto, efetua-se nas diferentes fases da gravidez, desde a etapa que precede o grande momento da fecundação biológica, prossegue ao longo de todo o período gestacional e culmina com a fase do parto propriamente dito, ocorrendo com maior ou menor freqüência ao longo da vida de relação da vida familiar entre pais, filhos e irmãos nas mais variadas circunstâncias.


Interação mente-matéria


Tal interação se processa através das funções Psi, inerentes ao psiquismo dos pais gestantes e filho ou filha reencarnantes durante a gestação propriamente dita, através de percepções extrasensoriais.

Não se conhece ainda, em detalhes mais profundos, o dinamismo psicofísico, sensorial e extrasensorial de tal processo mento-afetivo, que não se circunscreve apenas à dimensão biológica, mas inclui também a psicológica – a emoção, o sentimento e a maior ou menor lucidez cognitiva consciencial.

Mas o que se pode afirmar, a partir do conhecimento parapsicológico das funções Psi (divididas em Psi-gamma – telepatia, clarividência e clariaudiência – e Psi-Kappa – ação da mente diretamente sobre a matéria) e dos informes dos espíritos, é que a mente reencarnante exerce sua ação teledinâmica através de campos bioenergéticos modeladores e organizadores do perispírito, interferindo na organogênese do corpo físico, com a correspondente participação dos pais gestantes. A análise de fatores intervenientes nesse processo de interação dinâmica pressupõe a constituição fisiopsicossomática do homem, cuja anatomia fisiológica é composta de outros corpos energéticos mais sutis, que servem de substrato para a composição do sistema ternário humano (corpo, espírito e perispírito) quando encarnado do ponto de vista espírita, especificamente, ou do sistema septenário, na visão de escolas espirituais orientais, sem nenhum antagonismo excludente, mas implícita e explicitamente complementares. Nesta oportunidade, não se pretende aprofundar na complexidade bioenergética da individualidade em sua dimensão extrafísica.

Entretanto, é necessário que se esclareça que, além do complexo desse sistema de interação bioenergética, o homem e a mulher que se propõem a assumir a responsabilidade da paternidade e da maternidade estabelecem um campo bioenergético extrafísico, psicodinâmico, ideoplástico, anímico e mediúnico, que pode favorecer a atração do espírito ou consciência preexistente que vive no mundo espiritual como desencarnado; no respectivo plano consciencial, compatível com o grau de evolução moral alcançado.


Princípios Fundamentais


Propomos os seguintes princípios fundamentais do processo de gestação à luz do Espiritismo:

O ser humano é um espírito ou consciência individualizada, dotada de razão, instrumentalizada pela linguagem, livre-arbítrio, instinto, memória, emoção e sentimento;

O espírito ou o eu-consciência é arquiteto de seu próprio destino, em obediência às leis da vida: evolução, reencarnação, ação e reação ou lei do carma e lei do progresso, através da qual expande a consciência rumo à plenitude do ser;

O espírito desencarnado preexiste à formação do seu corpo físico, pensa, sente e age de acordo com o seu estágio de evolução cognitiva, sentimento e moralidade, no respectivo plano consciencial e extrafísico;

Em obediência ao principio universal de afinidade, sintonia e ressonância, quando oportuno ou necessário, o espírito, em função de sua necessidade de realização e auto-realização, vê-se na contingência de "um novo renascer" no plano físico para prosseguir sua evolução planetária;

Nessa fase de sua evolução, de acordo com sua maior ou menor autonomia volitiva, necessidade e merecimento, se propõe e/ou se dispõe a participar do planejamento de sua nova e futura reencarnação;

O planejamento reencarnatório envolve complexas medidas dinâmicas e teledinâmicas de natureza bioenergética no plano extrafísico, de acordo com a "Genética Espiritual" e lei de ação e reação que estabelecem as condições orientadoras na execução do plano reencarnatório individual, de modo a permitir que cada espírito herde de si mesmo, com a contribuição de seus pais no plano físico;

Tal planejamento é orientado e administrado nos planos extrafísicos por entidades de elevada sabedoria e hierarquia espiritual.

A maior parte da humanidade terrestre, encarnada e desencarnada, ainda se encontra nos primeiros estágios de evolução. Goza de autonomia muito restrita e não tem condições de usar o livre-arbítrio com discernimento;

Quanto maior for o grau de evolução consciencial ao longo de seu continuum histórico palingenésico maior será a participação direta do espírito reencarnante em todas as fases do planejamento e execução de sua própria reencarnação, sob a assistência técnica dos "geneticistas" e "embriologistas", podendo participar da modelagem do futuro corpo físico, em obediência às leis da "herança espiritual" condicionantes da herança psicofísica biológica.

O espírito encarnado ou desencarnado é assistido nas suas necessidades de auto-realização e progresso de acordo com a lei de merecimento;

O espírito candidato à nova experiência reencarnatória no plano físico passa por uma fase preparatória de análise e auto-análise através de um processo de profunda introspecção, mediante urna visão retrospectiva de sua história pessoal, valendo-se dos registros de sua memória absoluta, vê com clareza e em detalhes esclarecedores as ações pretéritas, podendo ser assessorado pelos mentores no planejamento de um novo projeto reencarnatório. Após esse exame analítico consciencial, cada espírito entra em uma nova etapa de programação da futura existência, em função de sua herança espiritual;

Providências gerais e específicas são tomadas no sentido de conjugar harmonicamente o livre-arbítrio e o determinismo da lei de causa e efeito, objetivando sempre o progresso e o aperfeiçoamento individual e coletivo;

Em obediência à lei de sintonia, afinidade e ressonância, cada espírito encontra-se ligado ao respectivo grupo familiar e racial, ao seu povo ou nação, ao longo do continuum histórico palingenésico;

Desse modo, a escolha do grupo familiar e dos futuros pais obedece aos princípios gerais das leis citadas, em consonância com a respectiva herança consciencial, psicológica e espiritual. Essa herança fica registrada na memória genética perispirítica através das matrizes Psi dos respectivos genes. Estes irão se expressar por meio do genótipo ou fenótipo no plano biológico, através da organogênese do futuro corpo físico, com a contribuição biogenética dos respectivos pais.


Processo Reencarnatório


Estabelecidas as diretrizes gerais e específicas para a viabilidade do planejamento reencarnatório, o espírito reencarnante entra na fase préreencarnatória, cujo tempo de execução varia de acordo com as características e necessidades específicas de cada individualidade, levando em conta todos aqueles princípios já explanados.


Fase Preparativa


Ocorre, nesta fase, na dimensão extrafísica:

Escolha dos futuros familiares e pais biológicos, em função de compromissos, comprometimentos e vinculações cármicas:

Estabelecimento do programa geral de futuras realizações e auto-realizações no plano físico, tendo em vista os objetivos educativos a serem atendidos;

Prévia escolha ou determinação de sexo genético, que se verifica de acordo com a respectiva sexualidade e características genético-espirituais do reencarnante e segundo determinantes cármicos conscienciais preexistentes, tendo em vista futuras realizações;

Definição do tipo de reencarnação: compulsório ou de livre escolha; provacional; expiatória; sacrificial ou missionária;

Execução do plano de associação e vinculação psicodinâmica, bioenergética, mental e afetiva - essa fase inclui os futuros pais gestantes e demais familiares, segundo as necessidades de harmonização, entendimento, apoio mútuo, afinidade, sintonia e ressonância.

Em conseqüência das necessidades e exigências específicas de bem cumprir os imperativos naturais das leis da vida, já citadas, nessa etapa da fase preparatória, o espírito candidato à nova reencarnação passa a conviver no clima psicofísico e emocional dos futuros pais em especial, interagindo dinamicamente com os mesmos, procurando estabelecer as melhores relações de sintonia, afinidade e ressonância indispensáveis ao êxito da concretização do complexo e laborioso planejamento reencarnatório. Múltiplas operações bioenergéticas e magnético-espirituais podem ser realizadas pelos espíritos construtores nas intervenções que se fizerem necessárias na organização perispirítica do reencarnante. Para poder efetivar a ligação com a célula-ovo no zigoto, a partir da fecundação propriamente dita, ocorre previamente no plano extrafísico, a miniaturização, que se caracteriza pela redução da forma perispirítica.

Com base na análise dos mapas cromossômicos e organogênicos, tais intervenções se fazem no sentido de orientar a modelagem bioenergética e genético-estrutural referente à embriogênese e morfogênese do futuro corpo físico, em consonância com a herança cármica e o programa de realização na nova experiência reencarnatória.

Efetuadas as operações de imantação e ligação do perispírito da consciência do reencarnante à célula-ovo, no terço médio da trompa de Falópio, segue-se a nidação no útero materno, com a participação mento-afetiva dos pais gestantes e do filho ou filhos reencarnantes.


Fase Organogênica


Após a fecundação propriamente dita, inicia-se a fase organogênica, envolvendo embriogênese, histogênese e morfogênese, em obediência às leis biogenéticas, culminando no crescimento e desenvolvimento do corpo físico que virá a nascer posteriormente.

Na realidade, para o novo corpo físico é nascimento, mas para o espírito reencarnante é um novo renascimento. À medida que se processam as fases embriológicas e organogênicas, culminando no crescimento e desenvolvimento do feto, o reencarnante vai adensando o seu perispírito miniaturizado e, conseqüentemente, vai entrando num estado de bloqueio de memória, com o esquecimento total ou parcial de suas vivências reencarnatórias anteriores.

Essa é uma das causas do esquecimento, que constitui um mecanismo de defesa e autopreservação de natureza neurofisiológica, psicológica, consciencial e, sobretudo, de ordem ética.

As idéias deste artigo são resultado de um esforço de teorização sobre uma experiência que está em pleno desenvolvimento. Por isso, o que aqui registramos poderá ser aprofundado ao longo do tempo. Novos conceitos poderão ser propostos. A educação de pais gestantes à luz do Espiritismo é uma necessidade urgente que se situa no âmbito das finalidades educacionais e terapêuticas da casa espírita, numa perspectiva mais ampla que relaciona o Espiritismo com as áreas da educação, higiene e saúde.

Fonte: Revista Cristã de Espiritismo - ed.07

endereço: http://www.terraespiritual.locaweb. com.br/espiritismo/artigo2025.html
imagem: fraternidade-branca-semente-de-luz.blogspot.com




domingo, 3 de janeiro de 2010

A PSICOSOFIA KANTIANA E A DOUTRINA ESPÍRITA


ADILSON MARQUES

Doutor em Educação pela USP

Sócio-diretor do Círculo de São Francisco – Instituto de Animagogia

“Chegara Kant, por fim, ao termo de sua pesquisa filosófica. Procurando Deus, encontrara o Homem. ‘O Homem’, conta-nos uma lenda oriental, ‘levantou o véu da deusa de Sais e viu a si mesmo”.

Henry Thomas

Este artigo traz à luz um neologismo: Psicosofia. Esta palavra foi cunhada com o objetivo de delimitar um campo de reflexão pouco comum no meio filosófico: o campo da sabedoria espiritual (psique = espírito / Sofia = sabedoria). O termo espírito no meio filosófico quase sempre foi pensado como sinônimo de mente ou como o seu produto e, raramente, como um Ser incorpóreo autônomo e invisível para a maioria das pessoas. Assim, o termo psicosofia valorizará essa outra dimensão e será utilizado para caracterizar as teorias formuladas por diferentes filósofos ou pensadores encarnados, independente da época, sobre o mundo dos Espíritos[1].

Após esse primeiro esclarecimento, podemos dizer que o objeto desta pesquisa é compreender a psicosofia kantiana e seus pontos de contato com a Doutrina Espírita, que surgiu no século XIX na França, com a obra do pedagogo Allan Kardec. O espiritismo, como é conhecida essa Doutrina é, sem dúvida, a religião que mais descreveu o mundo dos espíritos, utilizando-se, para tanto, dos relatos mediúnicos, prática que hoje se encontra popularizada em quase todos os pontos da Terra.

é importante salientar que tais relatos também nos trazem informações contraditórias. Para um cético, seria a prova de que tudo não passaria de ilusão. Ou de que as informações teriam saído da mente ou do subconsciente do próprio médium. Mas, para quem aprecia o saber e o sabor do mundo espiritual, tais contradições são a garantia de que este mundo também é uma incógnita até para os Espíritos, pois há muitas moradas no “reino de Deus” e, em Tese, os Espíritos não passariam de seres que perderam apenas o corpo físico, mantendo a estrutura psicológica de sua última encarnação na terra.

É importante esclarecer também que a psicosofia, como aqui propomos, transcende a preocupação em constituir dogmas ou doutrinas religiosas, abrindo-se para todas as interpretações que possam enriquecer nossa compreensão sobre tão fascinante assunto. É assim que podemos compreender a existência de uma psicosofia na obra de Sócrates e em muitos outros filósofos e pensadores ocidentais e orientais.

Neste trabalho abordaremos, em linhas gerais, a psicosofia de Emmanuel Kant (1724-1804), pensador prussiano cuja obra foi uma das mais representativas do século XVIII. Kant ficou famoso mundialmente no meio filosófico por suas “críticas”. Porém, poucos estudiosos se debruçaram sobre a teoria da alma e dos espíritos que chegou a formular com muito carinho e dedicação, apesar de, posteriormente, tê-la abandonada.

Esta teoria, em linhas gerais, antecipava em quase cem anos algumas das revelações que compõem o quadro doutrinário do espiritismo. Possivelmente, se Kant não tivesse abandonado suas pesquisas sobre os espíritos, poderia ter criado um clima mais amistoso, pelo menos filosófico, para a difusão da Doutrina Espírita. Porém, é provável que nem ele estivesse preparado para compreender a importância dessa sua reflexão, uma vez que costumava apresentá-la com uma certa dose de ironia, como que tentando disfarçar o fato de estar se dedicando a um tema de “menor” importância no meio filosófico.

Kant e o vidente de espíritos


Em 1804, ano em que Kant veio a falecer, foi o ano, também, em que nasceu, na França, Allan Kardec, o codificador do espiritismo. Em 1766, porém, Kant publicou um livro incomum no meio filosófico e até hoje pouco lido e discutido. Este texto rebelde de Kant chamou-se: “Sonhos de um vidente de espíritos explicados pelos sonhos da metafísica”.

Por anteceder seus principais livros, esta obra passou a ser tratada por alguns historiadores da filosofia como uma produção inferior, como fruto do período “pré-crítico” de Kant. Alguns estudiosos se debruçaram sobre esta obra interessados em compreender a “loucura”, dando pouca atenção para a psicosofia que aí se manifestava. Acredito que este artigo seja o primeiro que procura compreendê-lo estabelecendo correlações com a doutrina dos espíritos nascida na França, em meados do século XIX.

A filosofia acadêmica não poderia (como ainda não pode) aceitar o fascínio de Kant pelas “visões e alucinações auditivas” vividas pelo famoso ocultista Swedenborg. O próprio Kant também teve receio de assumir publicamente esse fascínio pelo “vidente de espíritos” e escreveu, meio sem jeito, que refletiu sobre o livro Arcanos celestes de Swedenborg para compensar a grande despesa financeira que teve para adquirir o livro.

Ao ler Kant, a impressão que nos chega é a de estarmos diante de um ser incomodado. O autor parece ambíguo, ora aceitando como real as “alucinações” de Swedenborg (de que seria possível a comunicação com os mortos, ou seja, que eles poderiam nos transmitir pensamentos e até predizer o futuro), ora (como irá concluir, infelizmente) que tudo não passaria de ilusão, ou, em suas palavras, de “sonhos das sensações” (expressão que criou para diferenciar as “alucinações” de Swedenborg do que chamou de “sonhos da razão”, manifestos nos sistemas abstratos dos metafísicos).

Porém, independente da conclusão de Kant, ele foi capaz de elaborar uma reflexão filosófica sobre os espíritos, uma psicosofia que, de certa forma, poderia ter facilitado a compreensão ou preparado melhor o terreno para a doutrina espírita se ele não tivesse abandonado suas reflexões sobre o mundo dos espíritos.

Por alguma razão subjetiva Kant não se cansava de dizer que talvez as experiências ocultistas[2] com os espíritos fossem falsas, não como charlatanismo, algo que o filósofo nem chega a discutir, mas por ser, em sua opinião, o fruto de uma perturbação da inteligência, fruto de alguma afecção patológica dos sentidos e da imaginação, o que resultaria em representações simbólicas de um além impossível de ser atingido pelas mentes normais.

Kant, apesar de classificar as visões e audições descritas por Swedenberg como algo “patológico” apresentará uma hipótese bem “complexa” para um filósofo ocidental do século XVIII. Tais “patologias” poderiam, de fato, ter uma causa espiritual. Ou seja, Kant chega a admitir que os espíritos (os mortos) poderiam influenciar ou perturbar[3] as faculdades normais dos “vivos”.

Dessa forma, o filósofo chegou a admitir a possibilidade de relacionamento entre os vivos e o mundo dos espíritos, mesmo que isso produzisse um efeito patológico sobre as faculdades mentais dos primeiros.

Kant reconheceu que essa sua hipótese iria transpor os limites da racionalidade de sua época. Curiosamente, hoje, no limiar do século XXI, quando a comunicação entre encarnados e desencarnados (espíritos) está consolidada e praticamente aceita como natural, pelo menos, no meio espiritualista, ainda há quem afirme que as pessoas (médiuns) que contatam o mundo dos mortos adquirem enfermidades ou são levadas à loucura, algo já desmistificado pelo espiritismo e pelo mediunismo de uma forma geral.

Assim, é compreensível que o filósofo prussiano, no século XVIII, não aceitasse a manifestação medianímica como um fenômeno natural, tratando-a como algo patológico.

Refletindo sobre as “alucinações”, Kant irá elaborar sua teoria sobre os espíritos. Para ele, os espíritos seriam seres que ocupam o espaço físico sem o preencherem. Eles habitariam um mundo supra-sensível[4] e formariam uma comunidade de seres racionais. Para se conhecer tal comunidade, no domínio da experiência, só haveria um caminho: através do “mundo moral”.

Para Kant, na medida em que nos sentimos descontentes em viver presos aos nossos desejos sensoriais e reconhecemos que somos dependentes de uma Lei e de uma vontade que nos vem do exterior, somos atravessados por uma exigência que funda uma comunidade interdependente, à maneira de uma atração universal entre o mundo sensível dos homens e o supra-sensível dos espíritos, ou seja, dos mortos[5].

Mas Kant continuava fascinado com a “intuição alucinada” de Swedenborg que afirmava conversar cotidianamente com os mortos. Procurando compreender tais conversas, antecipa algumas das premissas que o espiritismo revelaria no século seguinte. Kant se apercebeu das seguintes questões. Os espíritos, apesar de não estarem efetivamente no espaço, utilizam-se dos pensamentos humanos e suas idéias são revestidas pela aparência do mundo sensível, em suma, o mundo dos espíritos, segundo Kant, continuaria sendo o mundo das representações humanas.

Essa leitura kantiana vem ao encontro do espiritismo. Para a doutrina espírita, a pessoa que desencarna (morre), perde apenas o seu corpo físico. Ela não se torna santa ou uma entidade angelical só porque morreu. Ela também não irá encontrar, necessariamente, Deus. Ela manterá seus próprios valores (poderíamos hoje dizer imaginário) semelhantes aos que tinha quando ainda estava encarnada. Se ela morreu tendo ódio de alguém, ela poderá continuar manifestando esse mesmo sentimento fora do corpo físico, tentando se vingar do seu desafeto agora com uma arma a mais: a invisibilidade. São os famosos casos de obsessão descritos amplamente pela fenomenologia espirítica.

Se não fosse a preocupação excessiva de Kant em classificar como patológica a comunicação com o mundo dos espíritos, possivelmente o filósofo iria reconhecer a naturalidade do mundo dos espíritos e, quem sabe, questionar-se sobre a reencarnação. Mas o filósofo prussiano prosseguiu em sua interpretação psicosófica classificando as construções subjetivas de Swedenborg, ou do “vidente de espíritos”, como sonhos, especificamente, como ilusões.

Para diferenciar, então, as ilusões dos ocultistas das ilusões dos metafísicos, Kant denominou as primeiras de sonhos dos sentidos e, as segundas, de sonhos da razão. Porém, apenas as dos ocultistas foram classificadas como patológicas.

Kant chegou a escrever que Swedenborg seria um “oráculo dos espíritos” e que teria o seu “ser interior” aberto. Ou seja, que podia ser tomado pelos espíritos. Hoje, com o advento da doutrina espírita, poderíamos dizer que o “vidente de espíritos” era, de fato, um médium e que, possivelmente, possuía a mediunidade psicofônica, conhecida também como mediunidade de incorporação, aquela que acontece quando um ser incorpóreo se utiliza do veículo físico de um encarnado para se comunicar, utilizando suas mãos, por exemplo, para escrever ou segurar objetos; suas pernas para andar pelo ambiente e, como diz o nome da mediunidade, falar (de forma audível para todos os presentes) através da boca do médium.

Mas a relutância de Kant em colocar do mesmo lado o idealismo dos metafísicos e o “delírio” dos ocultistas, particularmente de Swedenborg, levou-o a tentar definir os limites entre a razão dos metafísicos e a loucura dos ocultistas sem muito sucesso. O combate interior do filósofo era intenso pois Kant reconhecia ser pretensioso não acreditar em nada do que Swedenborg escrevia e, ao mesmo tempo, acreditar em tudo sem um exame mais rigoroso da razão.

Os momentos de ironia ou as afirmações de que teria sido ingênuo ao investigar se os relatos de Swedenborg poderiam ser verídicos, não parecem desmentir que o anjo prussiano[6] não estivesse, de fato, mantendo um real interesse pelo tema.

Aliás, em carta dirigida a Mendelssohn, Kant afirmou que a “desordem coerente dos sentidos” (a causa das alucinações nos ocultistas, em sua opinião) seria um fenômeno muito mais notável do que os sofismas racionais dos metafísicos. Para Kant, os relatos de Swedenborg, no que concerne aos princípios racionais, seriam exatos, apesar de “extravagantes” e confessa que seria capaz de sustentar os devaneios do ocultista se alguém contestasse sua possibilidade. Talvez seja por essa razão que, como já afirmei anteriormente, Kant nem chegou a discutir um possível charlatanismo na obra de Swedenborg.

O dogma[7] da doutrina espírita é de que há “classes” diferentes de espíritos, variando conforme o seu padrão vibratório, ou seja, o “grau de evolução” atingido em diferentes encarnações, apesar de todos terem sido criados “simples e ignorantes”. Os espíritos alcançariam os diferentes estágios evolutivos de acordo com suas semeaduras. A doutrina espírita relata também os casos de licantropia, ou seja, quando o espírito adquire formas monstruosas em função de sua queda moral.

Nas visões de Swedenborg também aparecem as entidades angelicais e as monstruosas, confirmando a pluralidade das formas espirituais. E Kant, como uma espécie de censor, recomendava que as mulheres, sobretudo, as grávidas, não entrassem em contato com as informações referentes ao estado dos espíritos após a morte (desencarnação).

Para ilustrar estes fenômenos de licantropia, poderíamos citar o caso do médium brasileiro Chico Xavier que também afirmava ver o perispírito (corpo espiritual) dos encarnados. Assim, muitas vezes, o médium brasileiro relatou que por trás de uma aparência física repugnante, tomada por sérias enfermidades, ele via um espírito resplandecente e vice-versa.

Para a doutrina espírita, com a desintegração do corpo físico, restaria apenas a forma espiritual. E esta não poderia ser maquiada por plásticas ou silicones. A forma espiritual seria fruto do caráter moral de cada ser.

Com base nessa informação é possível que as formas espirituais que Kant desejava preservar as mulheres de ver, ou melhor, de ler, não eram das mais belas.

Mas, como dissemos, ao teorizar uma causa fisiológica e patológica para as “alucinações” do vidente de espíritos, Kant teria que, para permanecer coerente com sua teoria, aceitar que nada poderíamos aprender com os videntes. Mas não é essa sua posição. Kant se manteve dividido. De um lado, demonstrava receio das críticas e censuras dos filósofos e de seus leitores. De outro, parecia motivado em aprofundar suas teoria sobre os espíritos, mesmo reconhecendo que tal ato o levaria, necessariamente, ao abandono da “linguagem prudente da razão”.

A saída encontrada por Kant foi compreender como sonhos tanto os sistemas metafísicos como os sistemas ocultistas. A diferença entre eles, como já salientamos, é que os primeiros seriam sonhos da razão e, os segundos, sonhos da sensação. Essa analogia permitiu ao filósofo relacionar a fantasia ao seu complexo e contraditório quadro teórico. No caso da metafísica, as quimeras seriam limitadas pela percepção efetiva dos objetos e dos sentidos. No caso dos ocultistas não haveria nada capaz de entravar os desdobramentos imaginários. Possivelmente, nessa passagem, Kant compreendeu o imaginário em oposição ao real.

Porém, com base nos estudos de Projeciologia, sobretudo de autores que gozam de certa confiabilidade, como é o caso de Waldo Vieira, antigo companheiro de psicografia de Chico Xavier, o mundo material, tal qual o conhecemos através de nossos sentidos, de fato não é obstáculo para os seres incorpóreos que são capazes de atravessar o fogo, a água, paredes etc. Assim, talvez a imaginação de Swedenborg não fosse a criadora de um universo de revelações alucinadas, como pensou Kant, mas uma realidade transcendental não captada através dos sentidos físicos.

A ambigüidade de Kant não o impediu de afirmar que, em seu exame filosófico dos seres espirituais, a natureza espiritual não poderia ser conhecida, mas conjecturada. Para se pensar algo tão diferente de todo o sensível, não temos como nos repousar na experiência, mas apenas em uma “razão desamparada[8]”.

Curiosamente, essa conclusão de Kant nos parece muito atual, pois, com o aumento considerável de mensagens psicografadas, ou seja, escritas por seres incorpóreos e transmitidas para os médiuns, não é fácil admitir o que é verdade e o que não é nas informações transmitidas pelos espíritos.

Devido ao crescimento exponencial de livros psicografados, as federações espíritas passaram a criar seus próprios index, definindo qual a literatura “recomendada” para os espíritas e aquela que deveria ser evitada. Assim, nem todo livro escrito por espíritos é, de fato, um livro espírita. A doutrina espírita passou a ser mais uma doutrina dos encarnados do que dos espíritos.

Kant parece ter antecipado tal complexidade e adiantou que diante das informações que os seres incorpóreos nos trazem, nossa razão se encontra desamparada. Assim, e aqui é minha opinião, alguém definir o que é verdade e o que não é em tais comunicações parece ser, apenas, mais uma demonstração de dogmatismo, no sentido usual do termo, e não de sabedoria.

Outra questão interessante em seu pensamento, e que também se mostra atual, é sua preocupação para que o sujeito das representações não se torne prisioneiro da fantasmagoria dos espíritos. De certa forma, essa também é uma preocupação dos doutrinadores espíritas em relação aos médiuns em formação. Os espíritas classificam os médiuns que se tornam “prisioneiros” dos espíritos de “fascinados”.

Kant parece muito preocupado em estabelecer limites entre o interior e o exterior, entre o cognoscível e o incognoscível, entre os objetos percebidos e as “errâncias imaginárias” nesse complexo mundo. Possivelmente, sua teoria sobre a correlação entre o “conflito real” e o “conflito dialético”, discutido em sua obra capital, “Crítica da razão pura”, foi efeito do encontro com a obra de Swedenborg. Assim, o mundo espiritual, conforme aparece na obra do “oráculo de espíritos”, só seria possível de ser compreendida através de um novo método: a “dialética transcendental”.

Kant, ao definir a razão como a arte de arquitetar problemas sem solução, parece ainda preocupado em encontrar uma solução para a questão dos espíritos. Será através da noção de númeno que Kant atribuiu um lugar para além do fenomenal. Assim, a positividade do mundo fenomenal passa a adquirir sentido em oposição à negatividade do númeno. O filósofo não afirma que tal negatividade seja absoluta, pois o fenômeno também não é tudo, fixando, assim, o estatuto de transcendente, abrindo a possibilidade de se compreender o complexo mundo dos espíritos, o mundo que nós viveremos ao deixar o corpo físico.

Algumas conclusões

É interessante assinalar a desconfiança da filosofia com o mundo espiritual. Na Antiguidade, Sócrates já afirmava ver e conversar com o seu daimon, o que hoje a doutrina espírita chama de mentor ou guia espiritual. Pitágoras, Platão, São Francisco, entre outros pensadores ocidentais foram reencarnacionistas.

Para o senso comum, aceitar a idéia de que a vida continua para além da morte física seria um dogma criado pelo espiritismo, uma religião irracionalista, segundo alguns acadêmicos. Mas não é no campo da filosofia que iremos encontrar as provas mais evidentes da continuidade da vida. O século XX conheceu, graças a mediunidade de Chico Xavier, um avanço nos meios de comunicação entre espíritos encarnados e espíritos incorpóreos. A cademia ainda não se deu conta, mas a literatura mediúnica possui a forca da literatura dos viajantes que, no século XVI, descrevia o mundo novo desconhecido para os europeus.

Em minha opinião, todos tem o direito de não acreditar no espiritismo ou em qualquer outra religião, mas não aceitar o fenômeno mediúnico como real é uma enorme demonstração de irracionalismo.

No século XIX, o filosofo alemão Schopenhauer afirmou: “hoje em dia não acreditar no magnetismo não é ceticismo, é ignorância”. Poderíamos trocar a palavra magnetismo por mediunismo e a frase do filósofo seria adequada para esse limiar de século XXI.

Atualmente, a literatura mediúnica é uma realidade mundial e as centenas de livros psicografados por Chico Xavier, envolvendo mais de 2000 escritores incorpóreos, não pode ser menosprezada pelo nosso preconceito religioso ou materialista.

Mas não precisamos ser adepto de nenhuma religião para tomarmos consciência de que a vida continua após a morte do corpo físico. As pesquisas independentes de Grof ou as contribuições da Psicologia Transpessoal e da Projeciologia, ciências que não possuem vínculos doutrinários, demonstram também que a comunicação entre os dois planos da vida é mais comum do que possamos imaginar. Assim, é um falso enigma, o shakesperiano texto que afirma ser a morte uma região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou.

Emmanuel Kant, o pequeno sábio aleijado prussiano, costuma ser classificado como um filósofo idealista. Entretanto, talvez a classificação mais adequada seria como filósofo espiritualista. Kant viveu intensamente o paradoxo encontro entre o romantismo alemão inspirado por Goethe e o Iluminismo que procurava varrer o irracionalismo da Europa.

Apesar da infância humilde e pobre, Kant e seus dez irmãos foram educados em um meio religioso rico de alimento mental e inspiração moral. Sua família era Pietista, uma seita puritana conhecida como “soldados da paz”. Desde pequeno apreciou os valores éticos do Pietismo, mas teve verdadeira aversão pelas intermináveis formalidades cerimoniosas.

Ao preferir se dedicar à Filosofia e não a Teologia, desiludindo seus pais, Kant mergulhou profundamente sobre todo o mundo conhecido do século XVIII, indo desde as abstrações da metafísica até as realidades da física, da psicologia, da astronomia e das demais ciências de sua época. Notou, porém, que tudo o que a ciência estudava parecia se constituir em uma propriedade infinita com um amo ausente: Deus.

A partir desse momento, Kant decidiu consagrar sua vida ao exame da propriedade e à procura do amo, afirmando: “nada desviar-me-á desse curso”. O contato com a fascinante obra do vidente Swedenborg quase o fez mergulhar no profundo e também pantanoso mundo dos espíritos. Mas não teve a coragem ou o apoio suficiente para continuar nesse caminho, classificando, infelizmente, como ilusão o mundo que atualmente a literatura mediúnica vem a cada dia revelar como natural.

A comunicação entre encarnados e espíritos além de não ser patológica, não possui nada de sobrenatural e fantasioso, apenas regras que devem ser observadas.


[1] Assim, a animagogia, outro neologismo criado por nós, refere-se ao conhecimento ou ao saber adquirido com seres incorpóreos e, a psicosofia, ao saber espiritual elaborado por encarnados.

[2] Como o termo mediunidade só surgiu com Kardec, no século XIX, as experiências de comunicação com os espíritos que Swedenborg descreve em seu livro foram classificadas por Kant como ocultismo.

[3] Hoje sabemos que a obsessão (espiritismo) ou o assédio extra-físico (projeciologia) é uma patologia causada por espíritos, mas não era nesse sentido que Kant estava pensando.

[4] É interessante assinalar que ele fala em mundo supra-sentido e não em sobrenatural.

[5] No livro mecanismos da mediunidade, obra psicografada pelo médium Chico Xavier, o Espírito André Luiz discute a atração eletromagnética entre encarnados e espíritos, fruto, sobretudo, dos pensamentos emitidos por cada ser. O pensamento seria um grande imã capaz de atrair seres de uma mesma vibração, independente de estarem no mundo encarnados ou não.

[6] Expressão utilizada pelo filósofo espírita José Herculano Pires em seu livro Os Filósofos para se referir a Kant.

[7] Entendendo dogma em seu sentido grego original, ou seja, como opinião.

[8] E Kant teve razão, uma vez que o médium é um instrumento dos espíritos e não o contrário, o que impede algumas pesquisas espirituais gerando o ceticismo naqueles que querem “ver para crer”, esquecendo-se que mesmo as pesquisas acadêmicas precisam de critérios e métodos.


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