domingo, 27 de setembro de 2009

NECESSIDADE DE ESTUDO DE KARDEC PARA DISCERNIMENTO DOUTRINÁRIO




Autor: J. Herculano Pires

Há muitas confusões, feitas intencionalmente ou não, entre o Espiritismo e numerosas formas de crendice popular, inclusive as formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, hoje largamente difundidas. adversários da doutrina espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões, com o fim de afastar do Espiritismo as pessoas cultas. Por outro lado, alguns espíritas mal-orientados, que não conhecem a própria doutrina, colaboram nesse trabalho de confusão, admitindo como doutrinárias as mais estranhas manifestações mediúnicas e as mais evidentes mistificações.

Alguns leitores se mostram justamente alarmados com a larga aceitação que vem tendo, em certos meios doutrinários, práticas de Umbanda e comunicações de Ramatis. E nos escrevem a respeito, pedindo uma palavra nossa sobre esses assuntos. Na verdade, já escreve­mos numerosas crônicas tratando da necessidade de vigilância nos meios espíritas, de maior e mais seguro conhecimento dos nossos princípios, e apontando os perigos decorrentes do entusiasmo fácil, da aceitação apressada de certas inovações. Mas, para atender às solicitações, voltaremos hoje ao assunto.

Kardec dizia, com muita razão, que os adeptos demasiado entusiastas são mais perigosos para a doutrina do que os próprios adversários. Porque estes, com­batendo o que não conhecem, evidenciam a própria fraqueza e contribuem para o esclarecimento do povo, enquanto os adeptos de entusiasmo fácil comprometem a causa. O que estamos vendo hoje, no meio espírita brasileiro, não é mais do que a confirmação dessa assertiva do codificador. Espíritas demasiado entusiastas estão sempre prontos a receber qualquer “nova revelação” que lhes seja oferecida, e a divulgá-la sofregadamente, como verdades incontestáveis. Que diferença entre o equilíbrio e a ponderação de Kardec e essa afoiteza inútil e prejudicial!

No tocante à Umbanda, já dissemos aqui, numerosas vezes, que se trata de uma forma de sincretismo religioso, ou seja, de mistura de religiões e cultos, com a qual o Espiritismo nada tem a ver. As formas de sincretismo religioso são, praticamente, as nebulosas sociais de que nascem as novas religiões. A Umbanda já superou a fase inicial de nebulosa, estando agora em plena fase de condensação. E por isso que ela se difunde com mais intensidade. Já se pode dizer que é uma nova religião, formada com elementos das crenças africanas e indígenas, misturados a crenças e formas de culto do catolicismo e do islamismo em franco desenvolvimento entre nós. O Espiritismo não participou da sua formação, embora os nossos sociólogos, em geral, exatamente por desconhecerem o Espiritismo, digam o contrário, pois confundem o mediunismo primitivo, de origem africana e indígena, com os princípios de uma doutrina moderna. Nós, espíritas, devemos respeitar na Umbanda uma religião nascente, mas não pode­mos admitir confusões entre as suas práticas sincréticas e as práticas espíritas.

Quanto às mensagens de Ramatis, também já tive­mos ocasião de declarar que se trata de mensagens mediúnicas a serem examinadas. De nossa parte, consideramo-las como mensagens confusas, dogmáticas, vaza­das na linguagem típica dos espíritos pseudo-sábios, a que Kardec se refere na escala espírita de O Livro dos Espíritos. Cheias de afirmações absurdas, e até mesmo contraditórias, essas mensagens revelam uma fonte que devia ser encarada com menos entusiasmo e com mais cautela pelos espíritas. Em geral, nossos confrades se entusiasmam com “as novas revelações” aparentemente contidas nas mesmas, esquecendo-se de passá-las, como aconselhava Kardec, pelo crivo da razão.

O que temos de aconselhar a todos, pelo menos a todos os que nos consultam a respeito, é mais leitura e mais estudo de Kardec, e menos atenção a espíritos que tudo sabem e a tudo respondem com tanta facilidade, usando sempre uma linguagem envolvente, em que nem todos sabem dividir a verdade do erro. “O Espiritismo”, dizia Cairbar Schutel, “é uma questão de bom-senso”. Procuremos andar de maneira sensata, na aceitação de mensagens mediúnicas.


Extraído do livro: O Mistério do Bem e do Mal



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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O REMORSO

Muitas pessoas imaginam que não há grandes diferenças entre o remorso e o arrependimento. No livro Aborto à Luz do Espiritismo, Eliseu Florentino da Mota Jr., escreve que “dentre as causas determinantes das anomalias psíquicas, é indubitável que o remorso assume especial relevância, porquanto, ao contrário do arrependimento, que é o primeiro passo para a reabilitação diante de um erro cometido, ele determina o surgimento do complexo de culpa, levando a pessoa que eventualmente tenha errado a crises nervosas, chegando mesmo à loucura”.

Dessa forma, podemos entender claramente essa diferença, deixando para reflexão o quanto o remorso é prejudicial para o indivíduo.

Recentemente duas pessoas queridas de minha convivência estavam brigadas.Eu sabia do amor de uma pela outra, porém o orgulho fazia com que a reconciliação fosse evitada. Uma noite, falei para uma das partes que seu desafeto estava doente, e que ela imaginasse como se sentiria caso a outra pessoa morresse. Minutos depois, essa pessoa pegou o telefone e houve a reconciliação. Neste caso correu tudo bem, mas quantas vezes deixamos de ouvir a voz do coração para ouvir somente a do orgulho ferido ou da vaidade?

O tempo de que dispomos em uma existência não é eterno e amanhã pode ser muito tarde para tentarmos corrigir as faltas cometidas. Devemos ter em mente que o momento de agir é agora e que quanto mais tarde acordarmos para a necessidade do perdão, mais comprometidos com a Lei divina estaremos no futuro. Vitor Ronaldo Costa, em seu livro Gerenciando as Emoções, explica que “se alguém alimenta um sentimento de culpa, em decorrência de um mal cometido intencionalmente, o bom-senso recomenda que se busque a solução do impasse na prática inadiável de uma atitude enobrecida. A anulação do remorso sugere a tomada de duas providências essenciais: o cultivo da humildade e o pedido de perdão”.

No livro O Céu e o Inferno, capítulo VI, intitulado “Criminosos Arrependidos”, Allan Kardec descreve o contato feito com um jovem padre de nome Verger que havia assassinado em 3 de janeiro de 1857, Monsenhor Sibour, arcebispo de Paris, quando saia da Igreja de Saint-Étienne-du-Mont. Verger foi condenado à morte e em 30 de janeiro executado. Em nenhum momento mostrou-se arrependido do seu crime. Ele foi evocado no mesmo dia de sua execução e três dias depois. Nestes contatos, quando Verger foi indagado “Qual a vossa punição?”, ele respondeu: “sou punido por que tenho consciência da minha falta, e para ela peço perdão a Deus; sou punido porque reconheço a minha descrença nesse Deus, sabendo agora que não devemos abreviar os dias de vida de nossos irmãos; sou punido pelo remorso de haver adiado o meu progresso, enveredando por caminho errado, sem ouvir o grito da própria consciência que me dizia não ser pelo assassínio que alcançaria o meu desiderato. Deixei-me dominar pela inveja e pelo orgulho; enganei-me e arrependo-me, pois o homem deve esforçar-se sempre por dominar as más paixões – o que, aliás, não fiz”.

Quando tiramos a vida de alguém estamos retardando nossa evolução e a do outro, se ele não souber perdoar. Além do mais, é muito triste chegar ao Mundo Espiritual e sentir na consciência a dor e a vergonha de saber que mais uma oportunidade de crescimento foi perdida.

Apesar de tudo, de tantas e tantas quedas, Deus nos dá a oportunidade de reparação dos erros cometidos através das vidas sucessivas, porque Ele espera de nós, pacientemente, que aprendamos a colocar em prática os ensinamentos morais de Jesus. Esses ensinamentos se iniciam no lar, no seio da família, onde existem personalidades diversas, entendimentos diversos para um mesmo assunto, espíritos comprometidos com a lei de amor que solicitaram na espiritualidade a chance de reconciliação e reparação de faltas no aprendizado do perdão. Por fim, aprendemos a duras penas que todo ato indigno de nossa parte contra nossos irmãos termina sendo prejudicial a nós mesmos.

André Luiz no livro Nosso Lar, descreve as palavras de consolo do benfeitor Clarêncio: “Aproveita os tesouros do arrependimento, guarda a bênção do remorso, embora tardio, sem esquecer que a aflição não resolve problemas”.

Elizeu Florentino cita em seu livro que uma pessoa que cometeu aborto, por exemplo, e está profundamente arrependida desse ato, pode ser levada, pelo arrependimento, à ação benéfica de trabalhos beneficentes em prol de crianças carentes e até mesmo à adoção, o que faz com que melhore sua auto-estima e sua situação junto à Lei divina, enquanto que o remorso, sem levar a criatura a agir, acaba por criar nela anomalias psíquicas graves.

Dias atrás, recebi um e-mail que conta a história de uma senhora de 87 anos, chamada Rose. Em determinado momento, ela comenta o mal que faz o remorso. Sua história é uma lição de vida tão maravilhosa, que resolvi reproduzi-la, para que possamos aproveitar seus ensinamentos:

“No primeiro dia de aula nosso professor se apresentou aos alunos e nos desafiou a que nos apresentássemos a alguém. Eu fiquei em pé para olhar ao redor quando uma mão suave tocou meu ombro. Olhei para trás e vi uma pequena senhora, velhinha e enrugada, sorrindo radiante para mim. Um sorriso lindo que iluminava todo o seu ser. Ela disse: “Hei, bonitão. Meu nome é Rose. Eu tenho oitenta e sete anos de idade. Posso te dar um abraço?” Eu ri e respondi entusiasticamente: “É claro que pode!”, e ela me deu um gigantesco apertão. Não resisti e perguntei-lhe: “Por que você está na faculdade em tão tenra e inocente idade?”, e ela respondeu brincalhona: “Estou aqui para encontrar um marido rico, casar, ter um casal de filhos, e então me aposentar e viajar”. “Está brincando”, eu disse. Eu estava curioso em saber o que havia a motivado a entrar neste desafio com a sua idade, e ela disse: “Eu sempre sonhei em ter um estudo universitário, e agora estou tendo um!”. Após a aula nós caminhamos para o prédio da união dos estudantes, e dividimos um milkshake de chocolate. Nos tornamos amigos instantaneamente. Todos os dias nos próximos três anos nós teríamos aula juntos e falaríamos sem parar. Eu ficava sempre extasiado ouvindo aquela “máquina do tempo” compartilhar sua experiência e sabedoria comigo. No decurso de um ano, Rose tornou-se um ícone no campus universitário, e fazia amigos facilmente, onde quer que fosse. Adorava vestir-se bem, e revelava-se na atenção que lhe davam os outros estudantes. Estava curtindo a vida! No fim do semestre nós convidamos Rose para falar no nosso banquete de futebol. Jamais esquecerei o que ela nos ensinou. Rose foi apresentada e se aproximou do podium. Quando ela começou a ler a sua fala, já preparada, deixou cair três, das cinco folhas no chão. Frustrada e um pouco embaraçada, ela pegou o microfone e disse simplesmente: “Desculpem-me, eu estou tão nervosa! Eu não conseguirei colocar meus papéis em ordem de novo, então me deixem apenas falar para vocês sobre aquilo que eu sei”. Enquanto nós ríamos, ela limpou sua garganta e começou: ‘Nós não paramos de jogar porque ficamos velhos; nós nos tornamos velhos porque paramos de jogar. Existem somente quatro segredos para continuarmos jovens, felizes e conseguir sucesso. Primeiro você precisa rir e encontrar humor em cada dia. Segundo você precisa ter um sonho. Quando você perde seus sonhos, você morre. Nós temos tantas pessoas caminhando por aí que estão mortas e nem desconfiam! Terceiro há uma enorme diferença entre envelhecer e crescer. Se você tem dezenove anos de idade e ficar deitado na cama por um ano inteiro, sem fazer nada de produtivo, você ficará com vinte anos. Se eu tenho oitenta e sete anos e ficar na cama por um ano e não fizer coisa alguma, eu ficarei com oitenta e oito anos. Qualquer um, mais cedo ou mais tarde ficará mais velho. Isso não exige talento nem habilidade, é uma conseqüência natural da vida. A idéia é crescer através das oportunidades.

E por último não tenha remorsos. Os velhos geralmente não se arrependem por aquilo que fizeram, mas sim por aquelas coisas que deixaram de fazer. As únicas pessoas que têm medo da morte são aquelas que têm remorso’. Ela concluiu seu discurso cantando corajosamente “A Rosa”. Desafiou a cada um de nós a estudar poesia e vivê-la em nossa vida diária. No fim do ano Rose terminou o último ano da faculdade que começara há tantos anos atrás. Uma semana depois da formatura, Rose morreu tranqüilamente em seu sono. Mais de dois mil alunos da faculdade foram ao seu funeral, em tributo à maravilhosa mulher que ensinou, por meio de seu exemplo, que nunca é tarde demais para ser tudo aquilo que você pode provavelmente ser, se realmente desejar.

Estas palavras têm sido divulgadas por amor, em memória de “Rose”. Uma grande mulher. Na verdade um grande ser humano. Lembre-se: Envelhecer é inevitável, mas crescer é opcional!”


Marco Tulio Michalik




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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

OMISSÃO DE DEUS?



O desconhecimento da Justiça Divina induz a pronunciamentos equivocados

1- O Papa Bento XVI, ao visitar o tragicamente famoso campo de concentração de Auschwitz, exclamou, entre outras coisas, o seguinte: "Onde estava Deus naqueles dias? Por que não se manifestou? Como pôde admitir essa matança sem limites, esse triunfo do mal"?

Tais indagações revelam, a um primeiro exame, que o ocupante do hipotético trono de São Pedro permanece, no que diz respeito a Deus, jungido ao "antropomorfismo divino", causa determinante da decretação de Sua morte pelo seu conterrâneo e precursor do nazismo, Friedrich Nietzsche.

Essa maneira de pensar é típica dos que cultivam posturas extremamente radicais e conservadoras, a exemplo do atual papa, um dos mais proeminentes teólogos da ortodoxia católica. Não se trata, por outro lado, de atitude exclusiva dos elementos mais conservadores da Igreja de Roma. As mesmas indagações foram feitas pelo teólogo protestante Erwin Lutzer1 , ao indagar, estarrecido, quando de uma visita ao mesmo campo de extermínio:

"Como Deus pôde permitir tanta crueldade?". "Onde estava a Igreja de Cristo quando seis milhões de judeus foram mortos por ordem de Hitler?"

Tanto o papa como o referido autor deixam subjacentes nos seus questionamentos uma interpretação absolutamente literal do que se acha escrito em Gn., 1 :26: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança", que os homens, incluindo-se aí os responsáveis pelas igrejas cristãs, deturparam, com a substituição do sujeito da frase que passou a ser: "E disse o homem: Façamos Deus à nossa imagem, conforme nossa semelhança".

Era a figura do antropomórfico Deus bíblico, portador em grau superlativo de todos os defeitos, falhas e vicissitudes humanas, herdada da cultura judaico-cristã ..

2. Sob tal enfoque, jamais aceito pelo Cristianismo de Jesus - que difere fundamental e ontologicamente do Cristianismo dos homens - nada há de estranhável ou surpreendente nas indagações de Bento XVI e do membro da igreja reformada. Elas funcionam como autênticas caixas de ressonância dos costumeiros favores divinos concedidos a alguns privilegiados, ou dos castigos terríveis decorrentes da ira de Deus, e que Cairbar Schutel2 reduziu à sua verdadeira insignificância ao dizer que "Deus não se presta a ficar, de chinelo na mão, a dar chineladas em nossos traseiros por causa de nossos erros".

O Deus caprichoso, voluntarioso, prepotente, vingativo e rancoroso, inatingível e distante e, ao mesmo tempo e paradoxalmente, tão perto do homem que o castiga pela menor falta cometida, ainda encontra abrigo em inúmeros segmentos do Cristianismo, que o adoram por obrigação e o temem por interesse e conveniência! Entre eles, muitos explicam e justificam as atrocidades cometidas nos campos de extermínio, principalmente as referentes à solução final, que acarretou, só em Auschwitz, a morte de quase um milhão de judeus, como mero extravasamento da cólera divina, uma vez que foram eles, os judeus, os responsáveis pela morte de Cristo. Tal idéia foi longamente cultivada pela Igreja, conforme dá conta David L Kertzer3 , tanto que somente por ocasião do Concílio Vaticano II é que foi excluída da liturgia da sexta-feira da paixão a oração pelos "nossos pérfidos irmãos judeus".

3. Como figura de destaque do Vaticano, responsável, durante o pontificado de João Paulo II, pela Congregação para a Doutrina da Fé nome moderno da Inquisição - o atual Papa conhece melhor do que ninguém a posição de ostensiva hostilidade que Roma sempre dedicou aos judeus. É notória a, no mínimo condenável, omissão de Pio XII diante do genocídio contra esse povo, retratada, fria e imparcialmente, pelo historiador e jornalista católico John Cornwe1l4. A Igreja nem sequer pode alegar em sua defesa o desconhecimento do que, na época, se passava na Europa. A respeito, Michael R. Marrus5 informa que: 'Quando os assassinatos em massa começaram, o Vaticano mantinha-se muito bem informado por intermédio de seus próprios canais diplomáticos e por um grande número de outros contatos. Os funcionários da Igreja podem ter sido os primeiros a enviar à Santa Sé relatórios sinistros, acerca do significado dos trens de deportados em 1942, e continuaram a receber informações mais minuciosas sobre o assassinato em massa no leste europeu. Porém, apesar de numerosos apelos, o papa recusou-se a denunciar explicitamente o assassinato de judeus ou a conclamar de forma direta os nazistas para interromperem a matança. Pio XII sustentou com determinação sua postura de neutralidade e recusou-se a associar-se a declarações contra os crimes de guerra nazistas".

É incontestável que o holocausto não foi obra isolada de um grupo de obsediados, mas a somatória de inúmeros fatores que se desenvolveram no curso dos dois milênios do Cristianismo, marcados, de forma determinante, pelo radicalismo da igreja, conforme o magistério de Gerald Messadié6, em livro recentemente editado no Brasil

A questão, sob esse particular as¬pecto, pode ser encerrada em face das considerações de Debórah Dwork e Robert Jan van Pelt7, a saber: "Os Exércitos não são, tipicamente. agentes de civilização. No mundo ocidental, as Igrejas - Católica e Protestante - exercem esse papel. São aí instituições encarregadas de transmitir os valores tradicionais ao futuro. Têm apenas um trabalho: ser a consciência pública, a voz da moralidade, as defensoras da justiça, a face da humanidade. Em todas essas tarefas, as Igrejas fracassaram absoluta e abissalmente durante os anos do nazismo. Não falaram em favor dos judeus. Nem lembraram aos cristão, que era imoral e eticamente errado roubar os judeus por meio da "arianização", marcar, segregar, deportar matar. As Igrejas, em suma, fizeram um silêncio ensurdecedor".

4. O holocausto, aos olhos do Espiritismo, jamais poderia ser visto nem como castigo divino, nem com resultado da omissão ou da ausência de Deus, que não podem servir d explicação para os genocídios perpetrados pelos nazistas, não só em Auschwitz, como nos inúmeros outros campos de concentração espalhados pela Europa.

Existe, não obstante, uma explicação doutrinária para acontecimentos semelhantes. É de ver-se que salvo melhor e mais abalizado juízo ocorreu, na hipótese, mais um resgate ou provação coletiva dos que periodicamente, alcançam grupos de espíritos afins, que reencarnam como membros do povo judeu. Isso não implica, contudo, que tais espíritos sejam sempre os mesmos que sofreram os cativeiros no Egito e na Babilônia, que foram massacrados por Tito na tomada de Jerusalém no ano 70, que sucumbiram no cerco ( Massada, ou foram vítimas das Cruzadas ou da Inquisição na Espanha ou Portugal, tendo em vista a reencarnação e a lei de causa e efeito Algozes de ontem, vítimas de hoje tais espíritos vêm sendo, no decurso dos milênios, sucessivamente substituídos na verdadeira "operação resgate", que significa fazer parte desse povo.

De mais a mais, o Velho Testamento é uma verdadeira coletânea de massacres cometidos pelos israelitas contra seus inimigos, contando, invariavelmente com o beneplácito e até com a colaboração de Javé, fato enaltecido como sua especial demonstração de apreço e de predileção para com o povo de Israel. Não há, contudo, justificativa para a conduta dos nazistas em relação aos judeus. A eles não competia a execução do seu carma coletivo, porquanto a Justiça Divina dispõe de mecanismos próprios para a consecução de seus fins, prescindindo de toda e qualquer ação humana que vise a substituí-los.

5. Por outro lado, deve ser levado em conta que os grandes responsáveis por semelhantes acontecimentos eram homens dotados de livre arbítrio, e que escolheram seus caminhos, livre e espontaneamente. Embora nada aconteça que não seja por vontade de Deus, Ele não interfere na liberdade de ação de seus filhos, dando-lhes autonomia para assumir as conseqüências, boas ou más, dessas ações. O que se poderia alegar, quando muito, era a inquestionável obsessão de que eram portadores, principalmente Hitler, que em seus devaneios alucinatórios de poder julgava ser a reencarnação de Tibério. Também não escapava da ação maléfica dos obsessores o encarregado de levar a termo a solução final, Heinrich Himmler, que além disso e, talvez por causa disso, era o comandante das tétricas e fantasmagóricas Schutz Staffel, as SS. A grande maioria inclusive acreditava piamente na decantada superioridade ariana, julgava que os judeus eram os grandes culpados por todos os males do mundo e que a sua eliminação traria grandes benefícios para a humanidade. As igrejas, católica e protestante, também participavam desse ponto de vista. O citado Erwin Lutzer informa que o altar da Catedral de Magdeburgo foi, desde 1933, cercado por flâmulas com suásticas, enquanto que o pastor Siegrified Leffer declarava do púlpito de sua igreja: "Na absoluta escuridão da história da igreja, Hitler se tomou, por assim dizer, maravilhosa transparência de nossa época, a janela de nossa era pela qual a luz incide sobre a história do cristianismo"8.

Em vista disso, é forçoso reconhecer que Auschwitz, Birkenau, Treblinka, Mai:danek, Sobibôr, Dachau e tantos outros tenebrosos campos de concentração erguidos pelos nazistas não passam de meras ações humanas, da mesma forma que não passaram de condenáveis ações dos homens as guerras santas, as Cruzadas, a Inquisição, a Noite de São Bartolomeu, a intolerância religiosa na Irlanda, ou o interminável conflito no Oriente Médio que, coincidentemente, tem como principal protagonista o mesmo povo de Israel.

Deus nada tem a ver com isto!

José Carlos Monteiro de Moura


BIBLIOGRAFIA

1 - A CRUZ DE HITLER, Editora Vida, São Paulo, 2001.

2 - DEUS CASTIGA? CAIRBAR SCHUTEL RESPONDE, LAKE, São Paulo, 1974.

3 - O VATICANO E OS JUDEUS. OS PAPAS E A ASCENÇÃO DO ANTI-SEMITISMO MODERNO, Ed. Rocco, Rio, 2003.

4 - O PAPA DE HITLER, Imago Editora, Rio, 2000.

5 - A ASSUSTADORA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO, Ediouro, Rio, 2003.

6 - HISTÓRIA GERAL DO ANTISEMITISMO, Ed Bertrand, Rio, 2003.

7 - HOLOCAUSTO, UMA HISTÓRIA. Imago Editora, Rio, 2004.

8 - Op. cit. .p.126

Nota: o autor é aposentado e dedica-se atualmente à divulgação espírita. Vincula-se ao Centro Espírita Francisco de Assis, em Belo Horizonte-MG.


Revista Internacional de Espiritismo - Outubro de 2006


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