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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

PENSAMENTO E SAÚDE



Andrei Moreira *


A Doutrina espírita, enquanto filosofia e ciência de conseqüências religiosas, conforme nos afirmou Allan Kardec no livro Obras Póstumas, analisa o ser humano e a suas manifestações sob o prisma da imortalidade da alma. Nessa visão, o homem é mais que matéria, é o princípio inteligente do universo, que manifesta-se na matéria utilizando-se de inúmeros corpos, matérias em estados vibratórios diferenciados, que vão da materialidade máxima do corpo físico à sutileza espiritual, transcendente, do espírito, inteligência que espelha, de certa maneira, a inteligência suprema do universo, da qual foi criado à imagem e semelhança.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, cunhou o termo perispírito para designar o conjunto de corpos que envolvem o espírito (Per, prefixo grego = em volta de). Conhecemos, por meio da literatura mediúnica, o duplo etérico, corpo de vitalidade, presente somente nos encarnados, que vitaliza a matéria orgânica; o corpo astral, corpo das emoções, de que se utiliza o espírito para se manifestar nas dimensões mais próximas à Terra, mais ou menos materializadas, corpo este sutil, controlado pela mente do espírito, maleável e sensível às transformações do sentimento e do padrão mental; e o corpo mental, sede da mente do espírito. Haveria ainda dois outros corpos, indicados pelo conhecimento esotérico, porém ainda sem estudos na literatura espírita: corpo átmico e corpo búdico. Essa introdução é necessária para que compreendamos que o pensamento, ondas de energia sutil, emana da mente do espírito que está localizada em região supra-cerebral, não se limitando a uma secreção neuroquímica do cérebro físico, como acredita a fisiologia e a Medicina terrena.

Segundo Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, “assim como a aranha vive no centro da própria teia, o homem vive submerso nas criações do seu pensamento”. Imagem muito feliz, pois o espírito, pensando ininterruptamente, afeta com sua vibração peculiar o mundo em que vive, estabelecendo ligações com criaturas, circunstâncias e localidades, bem como edifica ou destrói o seu mundo íntimo, das células ao organismo, conforme elege a qualidade do que cultiva em seu campo mental e emocional. A aranha constrói a própria teia, que nasce dela, e nela se locomove, captura insetos, interage com o ambiente e reside. Da mesma forma o espírito, pensando cria e criando se alimenta daquilo que elegeu para sua vida interior. Afirma-nos Emmanuel, no livro Pão Nosso: “Pensar é criar. A realidade dessa criação pode não exteriorizar-se, de súbito, no capo dos efeitos transitórios, mas o objeto formado pelo poder mental vive no mundo íntimo, exigindo cuidados especiais para o esforço de continuidade ou extinção”.

Analisaremos a criação do pensamento inicialmente no mundo íntimo e, após, na realidade exterior, para compreendermos um pouco mais como o pensamento cria e controla a vida, como expressão do espírito imortal.


O Pensamento e o controle celular


No livro Roteiro, Emmanuel no ensina que “O pensamento é o gerador dos infra-corpúsculos ou das linhas de força do mundo subatômico, criador de correntes de bem ou mal, grandeza ou decadência, vida ou morte, segundo a vontade que o exterioriza e dirige”. Compreendemos com isso que o pensamento atua na base da matéria, no mundo subatômico, influenciando seu funcionamento.

No organismo humano temos a célula como unidade básica, o tijolo do corpo. Células se agrupam formando tecidos, os tecidos formam órgãos, os órgãos formam sistemas e os sistemas, o organismo. Na intimidade da célula encontramos o núcleo celular, onde se localiza o DNA, que, acredita-se, rege a vida na intimidade orgânica. Do núcleo celular partem as ordens, os comandos para produção de todas as substâncias, que são fabricadas no citoplasma da célula. Em evolução em dois mundos, André Luiz no informa que o pensamento atua influenciando e alterando, por meio do que ele chamou de bióforos (que sofrem a ação do pensamento), a interpretação a execução das ordens vindas do núcleo: Portanto, como é fácil de sentir e apreender, o corpo herda naturalmente do corpo, segundo as disposições da mente que se ajusta a outras mentes, nos circuitos da afinidade, cabendo, pois, ao homem responsável reconhecer que a hereditariedade relativa mas compulsória lhe talhará o corpo físico de que necessita em determinada encarnação, não lhe sendo possível alterar o plano de serviço que mereceu ou de que foi incumbido, segundo as suas aquisições e necessidades, mas pode, pela própria conduta feliz ou infeliz, acentuar ou esbater a coloração dos programas que lhe indicam a rota, através dos bióforos ou unidades de forca psicossomática que atuam no citoplasma, projetando sobre as células e, conseqüentemente, sobre o corpo os estados da mente, que estará enobrecendo ou agravando a própria situação, de acordo com a sua escolha do bem ou do mal”

O DNA representa a herança de cada um de seu passado espiritual, aquilo que é necessário ser trabalhado nessa encarnação ou que foi conseqüência imediata das escolhas do passado. É selecionado pelo ser reencarnante que elege (ou tem eleitas pelos espíritos superiores que dirigem o processo encarnatório) as necessidades espirituais mais prementes, as tendências biológicas que afetarão a vida do indivíduo de tal ou tal maneira, conforme as predisposições que o espírito construiu para sua vida. Dessa forma, o DNA representa o presidente da empresa e o citoplasma, os funcionários da mesma. Acreditávamos que a célula funcionasse em regime ditatorial: o núcleo mandou, está mandado. Mas a medicina vem descobrindo, por meio da epigenética (ramo da biologia que estuda as moléculas que interferem na regulação do núcleo celular), que a realidade é outra, a célula se comporta como uma democracia, sendo que variadas condições do meio (nutrição, estresse, etc) e do comportamento mental e moral controlam a expressão do genoma humano. No DNA estão as predisposições, que serão ativadas, inibidas ou reforçadas, conforme o padrão mental, emocional e comportamental do espírito ao longo da encarnação, no que configura o seu livre arbítrio. O DNA, expressando o carma, se modifica somente de encarnação para encarnação, porém sua expressão sofre a regulação e potencialização da vontade do indivíduo que re-decide a vida à medida em que a vive. E aí temos uma das manifestações da misericórdia divina, deixando ao ser que viva não em regime de fatalidade, mas de ação e reação, em todos os instantes da vida.

O pensamento, vertendo continuamente da mente do espírito, atua na intimidade celular, por meio dos circuitos e sistema circulatório energético do organismo humano (chacras, nadis, etc) de forma a autorizar ou desautorizar continuamente os movimentos biológicos que a reencarnação apresenta. Exemplificando: se uma pessoa reencarna com uma tendência a drenagem energética e de algum conteúdo psíquico desarmônico, na forma de um câncer, aos 40 anos de idade, conclamando-a ao reequilíbrio perante a vida, a sua consciência e as leis divinas, terá a oportunidade de, durante todo esse período, trabalhar em sua intimidade as circunstâncias que a levaram ao desequilíbrio, bem como suas tendências e características interiores. Dessa maneira, ao chegar aos 40 anos de idade, poderá ter confirmado sua predisposição, reforçando a necessidade pedagógica e re-harmonizadora de um tumor maligno ou ter amenizado sua experiência, tendo aprendido e se renovado por outros caminhos, atuando beneficamente em seu mundo celular, se conectando ao amor que tudo renova e amenizando a sua experiência, que poderá ser mais branda, ou mesmo inexistir, dependo da intensidade de suas conquistas. Por isso afirmou Pedro, sabiamente: “O amor cobre a multidão de pecados” (I Pedro 4:7) , o que André Luiz, no livro Nos domínios da Mediunidade, traduziu como “a mente reanimada reergue as vidas microscópicas (células) que a servem”. No entanto, caso a pessoa em questão tenha não só deixado de aprender por outros caminhos, mas agravado suas características pela repetição das escolhas, pode, pelo mesmo mecanismo, agravar suas características biológicas, complicando a saúde e determinando lições mais intensas da vida para seu despertamento e reequilíbrio.

Saúde e doença, nessa perspectiva, são, portanto, frutos da somatória e balanço entre predisposição e necessidade, tendência e renovação, a serviço da educação espiritual do espírito imortal e seu conseqüente despertamento para o amor, síntese das leis divinas.


Pensamento e criações mentais


Do ponto de vista exterior, aprendemos com Kardec e os espíritos codificadores, em O Livro dos Espíritos, que estamos rodeados, em nossa atmosfera espiritual, por um fluido básico, denominado fluido cósmico universal e suas transformações (fluidos de variadas espécies). Na revista espírita de Junho de 1868, Kardec nos ensina que O pensamento e a vontade são para os espíritos o que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem a esses fluidos tal ou tal direção; aglomeram-nos, combinam-nos ou os dispersam; com eles formam conjuntos tendo uma aparência, uma forma, uma cor determinada (...) Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção; freqüentemente, são o produto de um pensamento inconsciente; basta ao espírito pensar numa coisa para que essa coisa se produza...”. O pensamento, sendo onda de energia sutil, em associação com o sentimento, plasma na realidade etérica a natureza de nossos interesses e preocupações, sentimentos e fixações, na forma de criações mentais, formas-pensamentos, parasitas astrais, conforme a natureza da criação, que habitam em torno do seu foco de origem, fazendo com cada indivíduo esteja permanentemente rodeado pela representação das coisas, objetos, pessoas, interesses e intenções que povoem o seu campo mental e sua vida íntima. Isso ocorre de tal forma que qualquer espírito menos obnubilado espiritualmente que de nós se aproxime poderá perceber o teor de nossas ocupações e interesses, pelo halo energético, psíquico que irradia de cada um de nós. Talvez por isso Jesus tenha afirmado que “nada há oculto, que não haja de manifestar-se, nem escondido, que não venha a ser conhecido e revelado (Lucas 8:17), visto que não há como esconder do universo nossas criações mentais e emocionais.

André Luiz, em Nos domínios da Mediunidade, nos afirma que “onde há pensamento há correntes mentais, e onde há correntes mentais existe associação. E toda associação é interdependência e influenciação recíproca”. As formas pensamentos que são criadas pela nossa vida mental e são vitalizadas pelo nosso sentimento, se associam no universo àquelas de mesmo teor energético, vibratório, formando correntes mentais de acordo com sua natureza íntima. Assim como as ondas de rádio, televisão e telefonia, existem inúmeras correntes mentais e emocionais viajando na atmosfera espiritual do planeta, tantas quantas são as emoções e pensamentos predominantes na humanidade terrestre, localizando-se em cada comunidade as que forem criadas e estiverem em sintonia com o interesse coletivo daqueles que habitam aquela área.

Quando pensamos fixa e continuadamente em algo criamos e criando nos vinculamos às correntes de mesma natureza, dela nos retroalimentando, fortalecendo o teor vibratório íntimo, em sistema de feedback. Marlene Nobre, citando André Luiz em seu livro A Alma da Matéria nos diz que “Uma vez emitidos, os pensamentos voltam inevitavelmente ao próprio emissor, de forma a envolver o ser humano em suas próprias ondas de criações mentais, e, muitas vezes, podem estar acrescidos dos produtos de outros seres, que com eles se harmonizam”. Essa realidade se apresenta de forma automática, natural no dia a dia de encarnados e desencarnados, de forma inconsciente mesmo, conforme ensinou Kardec. Porém se torna ainda mais complexa quando envolve situações e intenções conscientes, conforme nos explica André Luiz em Ação e Reação: “Ora, sabendo que o bem é expansão da luz e que o mal é condensação da sombra, quando nos transviamos na crueldade para com os outros, nossos pensamentos, ondas de energia sutil, de passagem pelos lugares e criaturas, situações e coisas que nos afetam a memória, agem e reagem sobre si mesmos, em circuito fechado, e trazem-nos, assim, de volta, as sensações desagradáveis, hauridas ao contacto de nossas obras infelizes”. A Medicina hoje nos explica que ao relembrarmos determinado fato temos a produção neuroquímica cerebral compatível com o ato, como se ele ocorresse naquele mesmo instante, configurando verdadeiramente um re-sentimento da circunstância feliz ou infeliz vivenciada. E André Luiz nos afirma que mesmo ao relembrar, revisitamos energeticamente os lugares, criaturas, situações e coisas ligadas ao fato, nos conectando a elas e recebendo delas seu teor energético particular. Baseado nessa consciência, Emmanuel nos adverte em Pão Nosso: “Nosso espírito residirá onde projetarmos nossos pensamentos, alicerces vivos do bem e do mal. Por isto mesmo, dizia Paulo, sabiamente: - "Pensai na coisas que são de cima.". Todo esse retorno energético, sendo reabsorvido por sintonia pelo ser espírito, visita a intimidade celular do mesmo, determinando harmonia ou desarmonia, saúde ou doença conforme a natureza da vibração.


Correntes mentais e formas parasitas


As correntes mentais de natureza inferior, distantes da vibração harmônica do amor, vivem alimentadas pelos sentimentos de ódio, vingança, maldade, inveja, etc, que são expressões da alma em perturbação interior. Essas criações, vitalizadas pela emoção e sentimento afins, ganham vida própria, existindo enquanto houver teor energético suficiente para mantê-las vitalizadas, em manifestação de vida artificial e temporária. O Espírito Ângelo Inácio, pela psicografia de Robson Pinheiro, no livro Legião, nos apresenta essa realidade em uma visita na parte astral de um grande centro urbano: “Vimos uma fina camada de algo que mais parecia uma rede, tecida em material do plano astral semelhante a fios de nylon, com coloração dourada. Com mais atenção ainda, vimos que o material se espalhava por uma área imensa da cidade ou daquele bairro onde estávamos”. Tratava-se de uma criação mental coletiva, de natureza inferior que, pairando sob o bairro, parasitava energeticamente, com sua irradiação magnética, à semelhança de tentáculos, todos aqueles que entravam em sintonia com seu teor vibratório. Estes tinham sua energia vital sugada, alimentando a criação mental, enquanto recebiam seu teor energético nocivo e deletério, que aumentava as emoções, sentimentos e pensamentos de natureza afim, agravando os conflitos internos e afetando negativamente a saúde dos indivíduos.

Todo ambiente tem a sua criação mental peculiar, de acordo com a somatória dos interesses daqueles que ali freqüentam, convivem e trabalham: “Uma assembléia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada um produz a sua nota. Disto resulta uma porção de correntes e de eflúvios fluídicos dos quais cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição”, afirmou Allan Kardec na Revista Espírita de 1864. Ângelo Inácio apresenta essa realidade falando do ambiente de saunas, igrejas e outras localidades e exortando a cada um a selecionar onde freqüentar, quando, como e com quem, visto que nos alimentamos psiquicamente e energeticamente daquilo que nos excita o interesse. Visitando um hospital de grande porte, ele narra: “Estávamos agora em um hospital, um pronto-socorro municipal (...) diversos indivíduos, que exalavam odores desagradáveis pareciam atrair formas mentais assemelhadas a aranhas, que andavam sobre seus corpos e, em determinado momento, inseriam pequenos ferrões nos corpos de suas vítimas, como se injetassem algum veneno nelas”. Sabemos que essas aranhas são criações mentais nocivas que tem essa forma devido à influência do inconsciente coletivo, que fornece os modelos de repugnância e medo daquela comunidade, formatando as formas mentais compatíveis com esses sentimentos e que são atraídas para aqueles que possuem padrão mental semelhante. No caso, os doentes afetados mantinham-se em atitude mental de rebeldia, inconformação e revolta interior, atraindo para si as formas mentais em sintonia com esse estado do pensamento e do sentimento. Da mesma forma, quando alimenta-se de esperança, paz, otimismo e alegria, o homem se conecta com as correntes mentais dessa natureza, haurindo delas a força para continuidade desse estado e a manutenção da paz interior. A prece, recurso psíquico de autodefesa mental, energética e emocional, como manifestação de nosso desejo de contato com o alto, com as correntes superiores de luz e de paz, é a força mais poderosa do universo. Não só alimenta-nos a fé, a “confiança nas coisas que se esperam e a certeza das que não se vêem (Hebreus 11:1)”, conforme asseverou Paulo, como nutre as matrizes mentais superiores, os pensamentos que nos conectam com a fonte, determinando conexão com o belo e o bem e auxiliando-nos na produção de criações e correntes mentais que nos sustentam a caminhada nos caminhos do equilíbrio e da paz.


Perdão, criações mentais superiores e saúde


Baseado em todo esse conhecimento, podemos concluir que Jesus nos legou elevado código científico de saúde e harmonia quando nos afirmou que ele, expressão do amor, é o caminho, a verdade e a vida, exortando-nos a perdoar incondicionalmente. A mágoa, como nódoa energética interior, símbolo de nossas fragilidades feridas em contato com o mundo, e a postura e o desejo de vingança, representam sintonia e conexão com criaturas e criações mentais deletérias, que nos fortalecem a desconexão com o Pai e nos afastam da paz de consciência tão desejada. Não perdoar, dizia Shakespeare, é “tomar veneno desejando que o outro morra”. O perdão, em contrapartida, sendo uma decisão pela paz, uma postura de humildade no reconhecimento de nossas necessidades íntimas, nossas fragilidades e desafios, nossas susceptibilidades e carências, beneficia primeiramente a nós mesmos, conectando-nos à fonte e às criações mentais sublimes que nos elevam e dão centramento na caminhada da vida.


Conclusão


Tendo em vista o poder do pensamento, em conexão com as emoções e o sentimento, dos quais não há como se dissociar, nos mostra que cada espírito é senhor de si mesmo, construtor de seu destino e de sua realidade física, energética e espiritual, escolhendo a cada instante ao que se liga ou desliga, conforme elege no que pensa e cultiva em sua intimidade. Renovar as matrizes mentais, tantas vezes já comprometidas com o reflexo de nosso passado espiritual, pelos caminhos do desamor, se apresenta como a necessidade urgente de todo filho de Deus que constata e deseja assumir a sua felicidade como responsabilidade pessoal e intransferível.

O amor, longe de ser apenas um símbolo religioso, se converte em uma verdade científica à luz da Ciência espírita, apresentando-se como o caminho mais fácil curto e o menos dispendioso para a paz e a felicidade, construção do reino de Deus em nós. Disse Jesus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos que vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”. (Mateus 11 28-30). Pensar amorosamente, conectado à compaixão e à ternura divina, manifestações da misericórdia do senhor, é o caminho para a vitalização da alma e a conexão com o bem, construtores de saúde física e espiritual. Concluímos com Emmanuel, que com sua sabedoria afirma, pela psicografia de Chico Xavier, em Pensamento e vida: “O nosso pensamento cria a vida que procuramos, através do reflexo de nós mesmos, até que nos identifiquemos, um dia, no curso dos milênios, com a Sabedoria Infinita e com o Infinito Amor, que constituem o pensamento e a Vida de Nosso Pai.”


* Médico generalista integrante de uma equipe do PSF em BH/MG

Presidente da Associação Médico-Espírita de MG

ammsouza@hotmail.comwww.amemg.com.br


Fontes

1. A Bíblia Sagrada – tradução de João Ferreira de Almeida

2. O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

3. Obras Póstumas – Allan Kardec

4. Nos domínios da Mediunidade – André Luiz/Francisco Cândido Xavier. Ed. Feb

5. Ação e Reação - André Luiz/Francisco Cândido Xavier. Ed. Feb

6. Evolução em dois mundos - André Luiz/Francisco Cândido Xavier. Ed. Feb

7. Pão Nosso – Emmanuel/ Francisco Cândido Xavier. Ed. Feb

8. Pensamento e Vida - Emmanuel/ Francisco Cândido Xavier. Ed. Feb

9. Roteiro - Emmanuel/ Francisco Cândido Xavier. Ed. Feb

10. Legião – Ângelo Inácio/Robson Pinheiro – Casa dos Espíritos editora

11. Revista Espírita, junho de 1868 – Allan Kardec

12. Revista Espírita, 1864 – Allan Kardec

13. A Alma da Matéria – Marlene Nobre, Ed Fe



endereço: internet

imagem: pensamentostextospoesias.blogspot.com




Amigos!!


Chegou o Natal, e Jesus continua a nos esperar. Comemorar o seu nascimento é exercitar o Amor que Ele nos ensinou. Somos seus instrumentos aqui na Terra para ajudar, segundo nossa capacidade, aos irmãos com maiores dificuldades. Deixemos que nosso coração, mesmo que fracamente, brilhe no Amor, pois o que falta na humanidade é este Amor Divino.

Se há muita festa, ainda há muitas lágrimas a enxugar.

Se não podemos realizar, em açoes, façamos uma prece sentida em prol dos que mais sofrem.

Meus amigos blogueiros ou leitores, estamos juntos no mesmo barco onde jesus é o nosso leme. Rememos o nosso barco com vigoroso amor e alegria rumo aos páramos celestes levando em nosso coração a certeza de que fizemos o nosso melhor. O resultado, pertence, sempre a Jesus.

Desejo, pois, um Natal maravilhoso e que o Novo Ano que surge no horizonte, façamos dele um roteiro e vivencia de luz!!!


Com muito amor, carinho e amizade,


Uman




quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A CURA NA VISÃO ESPÍRITA


- uma análise baseada nas curas de Jesus -


Andrei Moreira *


A cura na visão da OMS


A saúde, na definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) está definida como um “estado de completo bem estar físico, psíquico e social e não meramente a ausência de doenças”. Essa definição, embora bastante ousada e vanguardista, data de 1949 e representa o ideal que todos nós perseguimos, mas que não conseguimos alcançar. Não conseguimos porque diante dos inúmeros desafios na vida, raros são aqueles que conseguem manter o equilíbrio em todas as áreas, quanto mais o completo bem estar, como pretende a OMS. A prática de saúde atual, a despeito de todos os avanços científicos, apresenta-se fragmentada e focada na super-especialização e no tecnicismo, e está muito longe de fornecer ao indivíduo recursos de auto-conhecimento, instrução e auto-amor que o capacite a sedimentar a busca pela saúde de forma eficaz e permanente,


A cura na visão espírita


Na visão espírita, a saúde é entendida sob o prisma da imortalidade da alma e as experiências de vida como construções pessoais, intransferíveis. Emmanuel nos afirma que “Saúde é a harmonia da alma”, dando-nos a orientação precisa para compreender que o foco de atenção é o espírito imortal, viajante da eternidade, construtor de seu destino e mantenedor dos estados íntimos que constituem a saúde e a doença.

Harmonia significa sintonia com seu momento de vida, seu estágio de amadurecimento, suas necessidades psicológicas, sociais e biológicas, bem como integração com o meio e interação consciente e útil com a sociedade e o universo. Harmonia não depende de ausência de doenças, podendo se manifestar mesmo na presença destas. Chico Xavier trazia o corpo coberto de enfermidades e o coração pacificado em Deus, harmonizado com sua proposta e sua missão. Já Hitler, pegando os extremos como exemplo, trazia o corpo aparentemente saudável e a alma desarmonizada, desconectada com o seu papel no universo e em seu momento evolutivo. Harmonia representa o resultado do plantio, a resposta da vida à busca consciente por sentido e significado mais profundos, por entendimento de si mesmo e seu papel no atual contexto encarnatório, mas, sobretudo, a conseqüência natural das ações no bem particular e coletivo.

Joseph Gleber, no livro O Homem Sadio, nos propõe que ‘Saúde é a real conexão criatura-criador e a doença o contrário momentâneo de tal fato’, rementendo-nos a reflexão à relação do ser com o Pai, com a fonte de sabedoria e supremo amor. O apóstolo João nos informa que “aquele que não ama não conhece a Deus porque Deus é amor” (I João 4:8). Jesus, a manifestação direta do Pai, o “melhor e maior modelo dado por Deus aos homens (LE q625), nos advertiu que sadio, portanto, é aquele que ama, independente de sua crença, de sua posição social, econômica, política ou religiosa, visto que o amor é a síntese da ética cósmica, a própria expressão do criador, no qual “vivemos, existimos e nos movemos”, conforme asseverou Paulo de Tarso (Atos 17:28).

A cura, na visão espírita, é resultado de um movimento pessoal, de um encontro do ser consigo mesmo e com o Deus que habita em si. Ela é fruto do despertar gradual que o espírito realiza enquanto caminha em direção à morada do Pai (sua intimidade), retornando ao seio daquele que é todo justiça, poder e bondade. É resultado da harmonia que é conseqüente ao esforço de auto-superação e desenvolvimento das potencialidades amorosas da alma, virtudes divinas existentes em gérmen na intimidade humana.


A cura segundo Jesus


“E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas, e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias no meio do povo...” (Mateus 4: 23). Se analisarmos a postura terapêutica do Cristo e suas curas, encontraremos farto material simbólico e arquetípico a nos direcionar o pensamento e o sentimento para a consciência de nosso papel co-criador e auto-curativo. Analisaremos cinco curas, de forma integrada, propondo uma visão possível dentre as inúmeras sugeridas pela ação crística.

Narra-nos o evangelista Marcos (Marcos 10: 46-52), que Jesus passava pela cidade de Jericó, acompanhado por grande multidão, quando um cego que mendigava à beira o caminho, de nome Bartimeu, o filho de Timeu, ouvindo que a turba se aproximava e que o messias nazareno se encontrava dentre eles, começou a clamar: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim. E clamava em altos brados e de tal forma que os que acompanhavam Jesus o advertiram para que não molestasse o mestre. Ele, tocado em suas fibras mais íntimas, sentindo certamente que seu momento de despertar espiritual era chegado, clama sem cessar até que o mestre, parando, manda que ele venha ter com ele. Interessante a postura de Jesus, que não vai até o cego, não se compadece do mendigo à maneira habitual, acreditando-lhe necessitado eterno. Ele ordena que ele, mesmo cego, levante-se e vá ter com ele, que se encontra no meio da multidão. Narra-nos o evangelista que Bartimeu, lançando de si a capa (tudo aquilo que encobria seu ser), levanta e vai ter com Jesus. O filho de Timeu, esquecendo-se de suas ilusórias limitações, levanta-se, mostra-se tal qual é, resgatando sua espontaneidade e naturalidade ao influxo da palavra do mestre e busca Jesus. Importante observação para todos aqueles que vivem a vida à semelhança do mendigo de Jericó, à espera da migalha alheia na forma de afeto, atenção, consideração e valor pessoal, sem conhecer as próprias capacidades e belezas, sem encarar a sua possibilidade de enfrentar a multidão dos seus desafios pessoais com otimismo e confiança em si mesmo e na vida. Tomar a iniciativa de buscar a Jesus é imprescindível atitude no caminho de reequilíbrio, pois o Cristo representa as leis divinas, a moral e a ética cósmica, transpessoal, capaz de nortear, como uma bússola segura, a nau que ameaça soçobrar nos mares da existência em busca de porto firme... Quando Bartimeu alcança Jesus, o divino pedagogo, conhecedor profundo da alma humana lhe questiona: que queres que te faça? Certamente que o Cristo, enviado celeste, sabia o que tinha para oferecer, mas àquele que busca a cura torna-se essencial a consciência do processo. Bartimeu tinha desejos, expectativas, visões que foram validadas pelo Mestre quando lhe questionou a que veio e o que desejava dele. E o filho de Timeu, tocado em sua alma pela sabedoria e maturidade lhe respondeu: Senhor, que eu veja... que eu possa enxergar os caminhos da vida por onde minhas pernas haverão de trilhar, por onde haverei de buscar a minha felicidade e a minha alegria, a realização de minha alma... Que eu veja os roteiros de luz que tu tens para me indicar a fim de que possa restabelecer a minha auto-estima e sedimentar a minha confiança na rocha firme das convicções profundas que me direcionem para a auto-sustentação e auto-gerência com dignidade e eficácia na busca pela felicidade... E as vistas de Bartimeu se abrem por ordem de Jesus, que afirma-lhe que a sua fé o havia salvado, o seu amadurecimento o havia libertado. Jesus representa o eterno amor de Deus disponibilizado para as criaturas, incondicionalmente, à espera de que estas possam usufruir desse estímulo e sustento divino na conquista de si mesmos.

Mas Jesus continua sua caminhada e vamos encontrá-lo agora na varanda do templo de Jerusalém, à beira do tanque de Betesda, ou piscina das ovelhas, como era conhecido aquele tanque cujas propriedades da água, acreditava-se, eram milagrosas. De tempos em tempos um anjo viria do alto a balançar as águas e o primeiro que lá dentro se atirasse seria curado de suas enfermidades. E essa crença era de tal forma arraigada naquele povo, que uma multidão se acotovelava naquelas paragens à espera de um milagre. Assim também a humanidade atual, que acredita que as respostas para seus dramas e a cura para as doenças do corpo e da alma virão exclusivamente de fora, da ciência, da psicologia ou da religião, e aguardam imóveis a solução miraculosa que as liberte de seu sofrimento e de seu vazio interior. Narra-nos o evangelista João (João 5: 1 – 15) que naquele local estava um homem que há 38 anos jazia enfermo, deitado sobre um catre, aguardando a cura de sua enfermidade. Jesus, em nova postura terapêutica, não aguarda seu pedido, não o conclama a vir até ele, mas reconhecendo a circunstância educativa em que o homem se inseria, vai até ele e chama-lhe pelo nome dizendo: queres ficar são? O paralítico, ainda mergulhado na parcial ilusão de sua dependência, mas certamente já amadurecido pelos anos de enfermidade e reflexão, responde a Jesus que esse era seu desejo, mas tão logo o anjo balançava as águas da piscina, outro se atirava à sua frente e ele não conseguia a cura almejada. Vigora ainda hoje na humanidade a crença de que a cura, a felicidade e a realização são frutos de disputa e que uma vez o outro tendo conquistado-a não há espaço para conquistas semelhantes ou mesmo que as haja, a disputa, a inveja e a comparação destróem as melhores aspirações... Jesus, ignorando a ilusão na alma do doente lhe chama à ordem e ao equilíbrio determinando, com seu magnetismo vigoroso, que ele se levantasse, tomasse a sua cama e andasse. A paralisia é curada e o homem tem seus membros, dantes atrofiados, rejuvenescidos e agora vigorosos para caminhar pela vida com liberdade e consciência de seu papel e dever perante si mesmo, o outro e Deus. Na seqüência da narrativa, Jesus encontra-lhe no templo, local dedicado à adoração ao Pai e o Cristo, percebendo-lhe em adoração íntima e verdadeira, presenteia-o e a nós todos com a lição magistral: “eis que já estás são (pois que reconectado ao criador); não tornes a pecar para que não te suceda algo pior”. O pecado, quando exprimido por Jesus, segundo estudiosos, tinha sentido bem diferente do que entendemos hoje. A palavra hebraica que o originou, traduzida para o grego, segundo o teólogo Jean Yves Leloup, dizia-se Hamartia, que ‘em sentido literal significa: perder o eixo, o centro, visar ao largo, ao lado, estar fora do alvo”. Assim como ele advertiu a mulher considerada adúltera (João 8:3-11), mostrando-lhe a ausência de julgamento exterior e integrando-a na posse consciente de sua experiência de vida, para que fosse e não pecasse mais, ele advertiu ao ex-paralítico da piscina e a todos nós, para que diante dos insucessos de nossos caminhos evolutivos, não nos deixássemos dominar pela culpa, orgulho e desânimo, recomeçando sempre a busca pela cura de nossas almas e o encontro da paz. Ao ex-paralítico Jesus pareceu querer dizer que agora que suas pernas estavam reabilitadas e seu coração entregue ao Senhor, que ele redimensionasse seus objetivos, propósitos e instrumentos para alcançar os alvos destinados pelo seu interesse e coração, na conquista da felicidade permanente em sua alma. Sem culpas, sem medos, sem amarras, mas com coragem, que, literalmente, significa agir com o coração. Percebemos aqui que o olhar restabelecido no cego de Jericó tem a continuidade nas pernas revitalizadas na piscina de Betesda. Mas Jesus prossegue e não pára por aí...

Em Lucas 17:11-19 vamos encontrar o mestre diante de dez leprosos, os portadores antigos do mal de Hansen da atualidade, infecção bacteriana pelo bacilo de Koch que naquela época era desconhecida. Essa doença caracteriza-se por afetar, predominantemente, o sistema nervoso e tegumentar (a pele e camadas mais superficiais), gerando lesões de grande impacto e sofrimento, nas fases mais avançadas da doença. Sem acesso à real compreensão da moléstia, os portadores da Lepra eram discriminados e estigmatizados pela sociedade, que os considerava impuros e os proscrevia em sociedades isoladas da comunidade majoritária, nos chamados vales dos leprosos, onde sofriam na solidão e no quase total abandono o avanço da doença. Aqueles doentes observavam Jesus de longe, sem coragem de se aproximarem, seguindo os preceitos sociais da época. O Cristo, em nova postura terapêutica, vendo-os se compadece e manda que eles se dirijam ao sacerdote e a ele se apresentem. Mandava a lei mosaica que quando um leproso fosse curado pelo poder divino, que ele devia se apresentar ao sacerdote para que fosse considerado purificado e pudesse se reinserir na sociedade de origem. Enquanto se dirigiam para o templo, ficaram curados e se maravilharam disso. Dos dez, apenas um retornou a agradecer ao senhor e a bendizer-lhe a intervenção divina. Jesus, vendo-o, questionou: não foram dez os curados? Onde estão os outros nove? E sem aguardar resposta disse: vá, a tua fé te curou. Embora a intervenção do alto se dê indistintamente, poucos são aqueles que cogitam de cura real e aproveitam das divinas concessões para purificar a alma nos caminhos da vida. O amor de Deus, disponível a justos e injustos, testemunha aquilo que Jesus afirmou, ao repetir as palavras do profeta Oséias: “misericórdia quero, e não sacrifício” (Oséias 6:6 e Mateus 9:13). A Hanseníase, nesse contexto, simboliza tudo aquilo que isola e afasta o homem do convívio sadio com os seus, com a sociedade de que faz parte, no cumprimento de seu papel e sua missão. A pele é símbolo da troca, do afeto. É o que nos limita e nos separa do outro, mas também é a fonte da sensibilidade e da percepção a interação com o meio, bem como o sistema nervoso representa a fonte de orientação e ação, o guia e controlador do corpo. Nessa interpretação, os hansenianos simbolizam a doença da separatividade, do isolamento, do preconceito e discriminação, em todas as formas que ela se apresente. Curando-os, Jesus convida a toda a sociedade a se reinserir no seu papel co-criador, a curar as relações que são a fonte da vida e se restabelecer na expressão da sensibilidade e do afeto inerentes às almas que se conectam com a fonte de compaixão, ternura e misericórdia que emana do Pai. Diante do olhar curado de Bartimeu, para enxergar a vida, das pernas restabelecidas do paralitico da piscina de Betesda para caminhar pela vida, Jesus nos direciona os passos convidando o candidato à cura real do espírito a assumir seu papel social como um digno representante de Deus, como um ser consciente que implementa ações transformadoras pelo afeto, que foca nas relações investido de alteridade verdadeira e que busca a sua realização na capacidade de interagir ofertando o seu melhor.

Jesus prossegue o seu caminho e agora vamos percebê-lo na região de Gadara (Mateus 8: 28-34), a encontrar os enfermos que estavam possessos e viviam nos sepulcros, tomados por uma legião de espíritos que com eles se afinizava e entrava em sintonia. Jesus, em postura terapêutica singular, não lhes dá conversa, não perdendo tempo com o mal temporário e apesar de seus protestos liberta os enfermos que haviam cedido a sua vontade à dominação da vontade alheia, pela concordância e aceitação dos pensamentos, ações e sentimentos inspirados, deixando à legião de espíritos transviados no mal a companhia da manada de porcos, símbolo da queda moral, que, perturbada pela vibração adoecida daqueles seres, se agita, precipitando-se no mar. A possessão, representando o estágio máximo do fenômeno obsessivo, simboliza a letargia espiritual, a rebeldia e a dor de estar apartado do bem e da paz. Chama-nos Jesus a atenção para a conseqüência do afastamento do bem e a intensidade de desequilíbrio a que se arroja o ser quando se desvia do amor e dos esforços por conquistá-lo. O mal, sem ter existência real, assim como a sombra, desaparece ao raiar o dia na alma do filho de Deus que deseja reencontrar-se e assumir seu destino com consciência e integridade. A liberdade relativa dada por Deus aos homens limita-se na escolha dos mecanismos de amor e de amar, visto que só há liberdade verdadeira para o bem. Quando nos transviamos na maldade ou na crueldade para conosco mesmo ou para com nosso semelhante, a vida aciona mecanismos automáticos de retorno ao equilíbrio, fazendo a separação do joio e do trigo, ainda que por meio da dor. Jesus simboliza nessa passagem, a intervenção misericordiosa de Deus pondo termo ao conluio de mentes e vontades adoecidas devido ao afastamento do bem. Libertando os endemoniados gadarenos, o Cristo convida a humanidade esclarecida a exercer a sua liberdade para o usufruto dos dons divinos, no exercício da criatividade elevada para o belo e para o bem, a serviço da educação espiritual do ser humano. O olhar de Bartimeu que enxerga os caminhos, que caminha nas pernas do paralítico da piscina de Betesda, a caminho da inserção social necessária e profícua, é agora individualizada na edificação da identidade sagrada e única do filho de Deus que desperta para seguir louvando ao senhor em seus testemunhos diários.

Finalmente, o evangelista nos apresenta a cena em que o Mestre, em dia de sábado, encontra-se no templo a louvar a Deus e desejoso de dar uma lição importante à hipocrisia religiosa dominante naquela época e em todas as épocas, cura o jovem que tinha a mão mirrada dizendo: abra-te, e ela se abriu (Lucas 6: 6 – 11). Feliz é a alma que se encontra no reconhecimento da grandeza do senhor e se identifica com ela, louvando a Deus em toda parte. Mas Jesus testemunha que mais feliz ainda são aqueles que, adorando ao senhor, não se circunscrevem à adoração dos lábios e das atitudes inúteis, fazendo da sua comunhão com o Pai um exercício de fé, vitalidade e amor prático a serviço do semelhante, a serviço do alívio da dor humana e do cultivo do otimismo e da esperança nos corações necessitados. Abrindo a mão do jovem no templo, o senhor sintetiza a proposta de cura do evangelho sugerindo-nos que o adorador de Deus abre as mãos na direção do seu irmão, estabelecendo ligações, conectando as almas e sentindo a todos como família irmanada em Deus, nosso Pai.


Conclusão


Enxergar, caminhar, interagir e integrar, individualizar e finalmente servir, eis a síntese luminosa da proposta de cura da alma expressa no evangelho para o filho pródigo que retorna à casa paterna, em busca de aconchego, trabalho e consideração. “Vai, a tua fé te curou”, representa o coroamento de um trabalho longo de auto-burilamento, auto-consciência e superação pessoal na direção do alvo sagrado da renovação de alma para a felicidade almejada. O amparo divino não escasseia em nenhum tempo e em nenhuma época, sendo abundante fonte de nutrição e consolo, estímulo e sustento na caminhada de todo filho de Deus. Ecoa em nossos ouvidos a mensagem do Cristo aos apóstolos, diante das dificuldades e limitações da jornada a afirmar: “eis que estarei até o fim convosco”; “Aquele que perseverar até o fim será salvo”, dando-nos a exata noção da responsabilidade que nos é devida e da misericórdia que nos é concedida diuturnamente.

A visão de saúde da Organização Mundial de Saúde e a proposta espírita se interlaçam na busca pela harmonia da alma e o equilíbrio dinâmico do bem estar holístico. O Espiritismo, enquanto ciência do espírito, nos convida à individualização com Jesus, na renovação do homem velho em homem novo, vitalizado pela revelação da boa nova e as vibrações do amor. Como conseqüência desse movimento de cura interior nasce o homem de bem, que vencendo as suas dores interiores, parceiras ainda presentes no atual estágio de saúde possível ao homem da Terra, mostra-se comprometido com o coletivo, com a utilidade geral, consciente de si mesmo e conectado à fonte suprema, bebendo da fonte sagrada da inspiração superior e atento ao questionamento do mestre aos discípulos despertos para as verdades superiores da vida: e Tu, (diante da cura que construístes e conquistaste) que fazeis de especial (Mateus 5:47) ?

* Médico generalista integrante de uma equipe do PSF em BH/MG

Presidente da Associação Médico-Espírita de MG

ammsouza@hotmail.comwww.amemg.com.br



Fontes

1) A Bíblia Sagrada – tradução de João Ferreira de Almeida

2) O Consolador – Emmanuel/Francisco Cândido Xavier, Ed. Feb

3) O Homem Sadio, uma nova visão – autores diversos, psicografia de Alcione Albuquerque e Roberto Lúcio Vieira de Souza, Ed. Fonte Viva

4) O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

5) O Romance de Maria Madalena – Jean Yves Leloup, Ed. Vozes

6) Preamble to the Constitution of the World Health Organization as adopted by the International Health Conference, New York, 19-22 June, 1946; signed on 22 July 1946 by the representatives of 61 States (Official Records of the World Health Organization, no. 2, p. 100) and entered into force on 7 April 1948.


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