sexta-feira, 9 de março de 2012

RAZÕES PARA SER CONTRA O ABORTO DO ANENCÉFALO



Marlene Nobre*


À primeira vista, pode parecer que as razões contrárias ao abortamento provocado sejam exclusivamente da alçada da religião. Uma reflexão mais acurada, porém, demonstrará que elas têm raízes profundas na própria ciência. Assim, para sermos fiéis à verdade e discutirmos, sem as amarras obliterantes do preconceito, a complexa e multifacetada questão dos direitos do embrião, é indispensável analisarmos os argumentos científicos contrários ao aborto.
O primeiro passo nessa busca é a descoberta do verdadeiro significado do zigoto à luz das Ciências da Vida.
Para Moore e Persaud (2000, p. 2), “o desenvolvimento humano é um processo contínuo que começa quando o ovócito de uma mulher é fertilizado por um espermatozóide de um homem. O desenvolvimento envolve muitas modificações que transformam uma única célula, o zigoto (ovo fertilizado), em um ser humano multicelular”. Ainda segundo os ilustres embriologistas, o zigoto e o embrião inicial são organismos humanos vivos, nos quais já estão fixadas todas as bases do indivíduo adulto. Sendo assim, não é possível interromper qualquer ponto do continuum – zigoto, feto, criança, adulto, velho - sem causar danos irreversíveis ao bem maior, que é a própria vida.
Mas há muito mais sobre o zigoto. É impossível deixar de reconhecer que é uma célula extremamente especializada, que passou pelo buril do tempo, herdeira de bilhões de anos de evolução. Dos cristais minerais ao ser humano, as células primitivas passaram por um longo e extraordinário percurso, desde os procariontes ao eucariontes, dos seres mais simples aos mais complexos, até surgirem, magníficas, nas múltiplas especializações dos órgãos humanos. E a célula-ovo é um dos exemplos mais admiráveis, porque encerra em si mesma, potencialmente, todo o projecto de um novo ser, que é único e insubstituível.
Nesse sentido, a investigação sobre a estrutura do zigoto na leva necessariamente à discussão sobre a origem da vida e seu significado científico, com todas as consequências disso para discussões bioéticas, morais, políticas e religiosas. Não será possível retomar aqui toda a argumentação desenvolvida em O Clamor da Vida (NOBRE, 2000), de modo que apresentarei unicamente alguns dos pontos centrais envolvidos.
Reconhecemos o grande valor da Teoria Neodarwiniana e de seus pressupostos básicos – a evolução das espécies, a mutação e a selecção natural – já comprovados pela investigação científica. Ela, porém, tem se revelado insuficiente para explicar a evolução como um todo, porque tem no acaso um dos seus pilares. O mesmo acontece com todas as outras teorias que buscam complementá-la, mantendo a mesma base explicativa, como as de Orgel, Eigen, Gilbert, Monod, Dawkins, Kimura, Gould, Kauffman. Demonstrou-se, por exemplo, através de cálculos matemáticos, a impossibilidade estatística (101000contra um) de se juntar, ao acaso, mil enzimas das duas mil necessárias ao funcionamento de uma célula. Do mesmo modo, já se constatou que o acaso é insuficiente para explicar, passo a passo, de forma detalhada, científica, o surgimento de estruturas complexas, como o olho, o cílio ou flagelo, a coagulação sanguínea.
Por isso, acreditamos que a Teoria do Planeamento Inteligente, que não tem por base o acaso e é defendida por cientistas competentes, como o bioquímico Michael Behe, a bióloga Lynn Margulis, e os físicos Ígor e Grischka Bogdanov, possui argumentos científicos bem mais sólidos para explicar a evolução dos seres vivos. Behe, em seu livro A Caixa Preta de Darwin, afirma que não importa o nome que se lhe dê, mas, para ele, indiscutivelmente, a vida tem um Planeador. Esta mesma conclusão está em Deus e a Ciência, obra de J. Guitton e dos irmãos Bogdanov. Na mesma linha de raciocínio, Margulis e Sagan (2002, p. 23) afirmam: “nem o DNA nem qualquer outro tipo de molécula, por si só, é capaz de explicar a vida”.
Esses autores foram buscar suas argumentações científicas no estudo da extraordinária maquinaria celular; no jogo de convenções inexplicáveis, como as ligações covalentes, a estabilização topológica de cargas, a ligação gene-proteína, a quiralidade esquerda dos aminoácidos e direita dos açúcares; como também, nos cálculos matemáticos das enzimas celulares e na análise de estruturas complexas, já referidos. Enfim, um mundo de complexidade, que não pode ser reduzido à simples obra do acaso.
O facto é que o cientista nem de longe nem de perto tem conseguido “fabricar” moléculas da vida. Ele desconhece, portanto, como reproduzir, em laboratório, as forças que entram em jogo neste intrincado fenómeno. Nessas circunstâncias, deveria adoptar uma atitude mais humilde, mais reverente, diante desse bem maior que é concedido ao ser humano, o de viver.
Pois a cada dia chegam novos aportes científicos para a compreensão da verdadeira natureza do embrião. Descobertas recentes, feitas pela neurocientista Candace Pert e equipe, demonstram que a memória estaria presente não somente no cérebro, mas em todo o corpo, através da acção dos neuropeptídeos, que fazem a interconexão entre os sistemas - nervoso, endócrino e imunológico - , possibilitando o funcionamento de um único sistema que se inter-relaciona o tempo todo, o corpo-cérebro.
Outras pesquisas já detectaram a presença, no zigoto, de registros (“imprints”) mnemónicos próprios, que evidenciam a riqueza da personalidade humana, manifestando-se, muito cedo, na embriogénese. São também notáveis as pesquisas da dra. Alessandra Piontelli e demais especialistas que têm desvendado as surpreendentes facetas do psiquismo fetal, através do estudo de ultra-sonografias, feitas a partir do 4º mês de gestação, e do acompanhamento psicológico pós-parto, até o 3º ou 4º ano de vida da criança. O conjunto destes e de outros trabalhos demonstra a competência do embrião: capacidade para autogerir-se mentalmente, adequar-se a situações novas; seleccionar situações e aproveitar experiências.
Se unirmos a Teoria do Planeamento Inteligente a essas novas descobertas, vamos concluir, baseados na Ciência, que a vida do embrião não pertence à mãe, ao pai, ao juiz, à equipe médica, ao Estado. Pertence, exclusivamente, a ele mesmo, porque a vida é um bem outorgado, indisponível.
Há, pois, fortes razões científicas, para ser contra o aborto, mesmo o do anencéfalo.
Aprendemos, com a genética, que a diversidade é a nossa maior riqueza colectiva. E o feto anómalo, mesmo o portador de grave deficiência, como é o caso do anencéfalo, faz parte dessa diversidade. Deve ser, portanto, preservado e respeitado.
Reconhecemos que a mulher que gera um feto deficiente, precisa de ajuda psicológica por longo tempo; constatamos, porém, que, na prática, esse direito não lhe é assegurado. Sem ajuda para trabalhar o seu sentimento de culpa, ela pode exacerbá-lo pela incitação à violência contra o feto, e mesmo permanecer nele, por tempo indeterminado. Seria importante que se inclinasse seu coração à compaixão e à misericórdia, mostrando-lhe o real significado da vida.

* Médica Ginecologista, CREMESP 10304
Presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil
E-mail: amebr@uol.com.br
URL: www.amebrasil.org.br


_________

REFERÊNCIAS:
BEHE, Michael, A Caixa Preta de Darwin, O desafio da bioquímica à teoria da evolução, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997

GUITTON, Jean, BOGDANOV, Igor e Grichka, Deus e a Ciência, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992

MARGULIS, Lynn, SAGAN, D, O Que é Vida?, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002

MOORE, Keith L. e PERSAUD, T.V.N., Embriologia Clínica, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000

NOBRE, M., O Clamor da Vida, São Paulo: Editora FE, 2000



texto - http://www.ameporto.org/pt/artigos/artigo01.htm

imagem - autismorosyluzes.blogspot.com

domingo, 4 de março de 2012

A CRIANÇA OBSIDIADA


“Aliás, não é racional considerar-se a infância como um estado normal de inocência.

Não se vê em crianças dotadas dos piores instintos, numa Idade em que ainda nenhuma influência pode ter tido a educação?

Donde a precoce perversidade, senão da inferioridade do Espírito, uma vez que a educação em nada contribuiu para isso?”

(O Livro dos Espíritos, Allan Kardec questão 199-a.)

Crianças obsidiadas suscitam em nós os mais profundos senti­mentos de solidariedade e comiseração.

Tal como acontece ante as demais enfermidades que atormentam as crianças, também sentimos ímpetos de protegê-las e aliviá-las, de­sejando mesmo que nada as fizesse sofrer.

Pequeninos seres que se nos apresentam torturados, inquietos, padecentes de enfermidades impossíveis de serem diagnosticadas, cujo choro aflito ou nervoso nos condói e impele à prece imediata em seu benefício, são muita vez obsidiados de berço. Outros se apresentam sumamente irrequietos, irritados desde que abrem os olhos para o mundo carnal. Ao crescer, apresentar-se-ão como crianças-problemas, que a Psicologia em vão procura entender e explicar.

São crianças que já nascem aprisionadas — aves implumes em gaiolas sombrias —, trazendo nos olhos as visões dos panoramas apa­vorantes que tanto as inquietam. São reminiscências de vidas ante­riores ou recordações de tormentos que sofreram ou fizeram sofrer no plano extrafísico, antes de serem encaminhadas para um novo corpo. Conquanto a nova existência terrestre se apresente difícil e dolorosa, ela é, sem qualquer dúvida, bem mais suportável que os sofrimentos que padeciam antes de reencarnar.

O novo corpo atenua bastante as torturas que sofriam, torturas estas que tinham as suas nascentes em sua própria consciência que o remorso calcinava. Ou no ódio e revolta em que se consumiam.

E as bênçãos de oportunidades com que a reencarnação lhes fa­vorece poderão ser a tão almejada redenção para essas almas cow turbadas.

A Misericórdia Divina oferecerá a tais seres instantes de refa­zimento, que lhes chegarão por vias indiretas e, sobretudo, reiterados chamamentos para que se redimam do passado, através da resignação, da paciência e da humildade.

Na obra “Dramas da Obsessão”, Bezerra de Menezes narra a vida de Leonel, que desde a infância apresentou crises violentas, evi­denciando a quase possessão por desafetos do pretérito. Este mesmo Leonel, já adulto e casado, acompanhou a espinhosa existência de sua filha Alcina, que como ele era obsidiada desde o berço.

Crianças que padecem obsessões devem ser tratadas em nossas instituições espíritas através do passe e da água fluidificada, e é imprescindível que lhes dispensemos muita atenção e amor, a fim de que se sintam confiantes e seguras em nosso meio. Tentemos cativá­-las com muito carinho, porque somente o amor conseguirá refrigerar essas almas cansadas de sofrimentos, ansiando por serem amadas.

Fundamental, nesses casos, a orientação espírita aos pais, para que entendam melhor a dificuldade que experimentam, tendo assim mais condições de ajudar o filho e a si próprios, visto que são, pro­vavelmente, os cúmplices ou desafetos do pretérito, agora reunidos em provações redentoras. Devem ser instruídos no sentido de que fa­çam o Culto do Evangelho no Lar, favorecendo o ambiente em que vivem com os eflúvios do Alto, que nunca falta àquele que recorre à Misericórdia do Pai.

A criança deve ser levada às aulas de Evangelização Espírita, onde os ensinamentos ministrados dar-lhe-ão os esclarecimentos e o conforto de que tanto carece.

*

O número de crianças obsidiadas tem aumentado consideravel­mente. Há bem pouco tempo chegaram às nossas mãos, quase simul­taneamente, cinco pedidos de orientação a crianças que se apresen­tavam todas com a mesma problemática de ordem obsessiva.

Um desses casos era gravíssimo.

Certa criança de três anos e alguns meses vinha tentando o suicídio das mais diferentes maneiras, o que lhe resultara, inclusive, ferimentos: um dia, jogou-se na piscina; em outro, atirou-se do alto do telhado, na varanda de sua casa; depois, quis atirar-se do carro em movimento, o que levou os familiares a vigiá-la dia e noite. Seu comportamento, de súbito, tornou-se estranho, maltratando especial­mente a mãe, a quem dirigia palavras de baixo calão que os pais nunca imaginaram ser do seu conhecimento.

Foram feitas reuniões de desobsessão em seu benefício, quando se verificaram as origens do seu estado atual. Atormentada por muitos obsessores, seu comprometimento espiritual é muito sério.

As outras crianças mencionadas tinham sintomas semelhantes: acordavam no meio da noite, inconscientes, gritando, falando e rindo alto, não atendiam e nem respondiam aos familiares, nem mesmo dando acordo da presença destes.

Todas são menores de cinco anos.

Com a terapêutica espírita completa, essas crianças melhoraram sensívelmente, sendo que três retornaram ao estado normal.

OBSESSÃO E DESOBSESSÃO

SUELY CALDAS SCHUBERT



imagem - bruno-tavares.zip.net

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

BASES ESPÍRITAS NA PSICOLOGIA


Por Dr. Jorge Andrea

A psicologia, sem sombras de dúvidas, sofre grande impulso científico com o advento dos trabalhos de Freud, logo seguindo-se Jung com maior riqueza científica.

No final do século XIX e início deste, era voz corrente entre os estudiosos e laboradores da psicologia que, se abandonássemos as idéias freudianas, inapelavelmente cairíamos em Jung, porquanto, nesta época, os descortinadores dos véus da alma mostravam-se, com certa eficiência, dentro das razões científicas. Entretanto, novas escolas e modificações nos conceitos dos criadores da psicologia profunda muito deve a Jung, não só pela retomada das idéias freudianas onde ele parou, mas, principalmente, pelo enriquecimento de conceitos e hipóteses de trabalho. Jung divergiu de Adler, também seu contemporâneo por este ter tomado rumos que se afastavam da psicanálise – em reentronizando o EU, fez uma espécie de volta da psicologia à superfície do psiquismo, valorizando, quase com exclusividade, a zona consciente, sem a devida penetração na energética de profundidade como exigência de uma época. Jung, ao contrário, ofereceu bons mergulhos no inconsciente criando muitas luzes, mas, mesmo assim, deu violentas paradas por faltarem lastros científicos de elementos outros que tinha receio de admitir oficialmente – a imortalidade do inconsciente (Espírito) e o processo renovador das reencarnações.

Todas essas discussões mostravam as fraquezas da psicologia profunda diante das estruturas de suas hipóteses. Os mais atilados de antanho e dos nossos dias, não combatem a idéia do inconsciente, pois reconhecem as autenticidades desse bloco de energias que carregamos; discutes-se, sim, principalmente nos dias atuais, a origem da zona inconsciente e sua estruturação.

Se Adler fez um retorno à zona consciente, Jung mergulha no estofo do bloco anímico. Freud fica numa posição intermediária com o mérito de ter sido o responsável pela abertura dos véus da alma. Foram, justamente, essas três escolas que possibilitaram os sentimentos onde o movimento psicanalítico tomava assento. Em seu movimento inicial, na Europa, houve muitas discussões, especulações, desconfianças, confianças excessivas, de modo a redundar num mar de hipóteses e interpretações; mas, com o tempo, se foi fixando e tomando um sentido baseado nas escolas que lhe modelaram os fundamentos.

Freud foi o pioneiro pela descoberta das atividades do inconsciente (a idéia do inconsciente é bem mais antiga); por ser mais um pesquisador deu pouca atenção à terapêutica nestes arraiais em que os médicos procuravam arrecadar novos conceitos. Tanto assim que Alexander, uma das grandes estrelas da psiquiatria, disse: "Essa tradição de pesquisa talvez seja uma das razões pelas quais o método de tratamento psicanalítico mudou muito pouco desde sua origem". Acrescentamos: o método, com sua evolução natural dentro dos conceitos psicológicos, seria mais um método antropológico do que terapêutico; método que buscará, nas novas aquisições por virem, a descoberta do próprio Espírito.

Jung, ao mergulhar no psiquismo, define o inconsciente coletivo, seus arquétipos e símbolos, faltando-lhe homologar o lastro imenso do pretérito, resultado de autênticas vivências sempre reedificadas pelo mecanismo reencarnatório. A estrutura do inconsciente, apresentada por Jung em 1902, foi o resultado de um estudo atento e bem penetrante sobre o desenvolvimento anímico de uma sonâmbula. Jung percebeu a existência dos mecanismos do inconsciente, mas esbarrou no processo de imortalidade. Isolando esta proposta, além da difícil aceitação pelo meio científico, criou, com sua enciclopédica cultura, uma psicologia de difícil entendimento. Em 1916, fez novo retoque sobre a conceituação do inconsciente e nos dá uma palavra final sobre o assunto, em 1928, assim mesmo afirmando que cabe ao futuro uma melhor avaliação de sua energética. Entretanto, deixou bem demarcado que a mente possui legados de conteúdos históricos, verdadeiras moldagens arcaicas que se tornam presentes na zona consciente, por diversos motivos, principalmente os de caráter emocional. Muitos quadros clínicos da psiquiatria, lastreados em exaltação emocional manifesta, podem remover para a zona periférica do psiquismo (zona consciente) aqueles blocos de energias internas como se fora uma drenagem.

Tudo isso vem mostrar uma verdade psicológica que só poderá ser entendida com a idéia de perenidade do inconsciente; o que vale dizer, de imortalidade. Inconsciente imortal, com seus conteúdos históricos, só poderá ser compreendido como o Espírito perene, lastreado nas experiências reencarnatórias. Dentro do pensamento espírito (imortalidade, reencarnação, comunicações entre Espíritos) melhor compreenderemos a abertura freudiana e a construção junguiana, apesar das suas ainda limitadas proposições.

Até hoje os psicologistas não conseguem bem entender Jung sobre os arquétipos, a ponto de Ramon Sarró dizer que os arquétipos não podem ser "a decantação de vivências de nossos antepassados pré-históricos. Serão produtos das atividades da imaginação? Mas, que é a imaginação? Mas, qualquer que seja o pensamento sobre os arquétipos a realidade dos mesmos não pode ser negada". A personalidade Maná, abordada por Jung, com suas estruturas arquetípicas, mostra a importância desses fatos psicológicos. Personalidade Maná – ser pleno de qualidades ocultas – em termos junguianos é merecedora de análise: "Reconheço que em mim atua um fator psíquico que se oculta diante de minha vontade consciente. Inspira-me idéias extraordinárias, ao lado de produzir afetos e caprichos em minha natureza. Sinto-me importante diante desses fatos e o que considero pior, estou atado a esses fatos de modo a admirá-los". Muitos consideram e traduzem essa confissão como típica de um temperamento artístico e mesmo filosófico. Acentua ainda Jung: "A personalidade Maná é dominante no inconsciente coletivo, é o arquétipo do homem poderoso em forma de herói, mago, santo, curandeiro, dono de homens e Espíritos, amigo de Deus".

Não podemos deixar de ver e sentir o tácito reconhecimento de Jung dos processos espirituais na psicologia, embora tendo de contorná-los e aproximá-los da ciência de seu tempo. Basta, para isso, analisar a essência da Doutrina Espírita.

Foram as expansões dos arquétipos que propiciaram a Jung a construção de interessantes explicações de muitos fenômenos psicopatológicos, incluindo as neuroses, afastando-se das idéias freudianas que tudo localizavam na infância. Ampliando os conceitos das neuroses chega a admitir uma espécie de amestralidade dos arquétipos neste contexto, coisa, aliás, que ficou muito a desejar. Tudo isso porque o método psicanalítico e os de psicanálise conduzem ao conhecimento das estruturas psíquicas, jamais a um vibrante método de analises do psiquismo como métodos de pesquisa antropológica. É bem verdade que diante de um melhor conhecimento poderemos ter melhores possibilidades de tratamento. A sondagem em uma boa trilha pode levar ao tratamento, mas ela, por si só, não é método terapêutico.

Se atentarmos para os arquétipos, a personalidade Maná, o relacionamento com as neuroses e tantas outras explosões do inconsciente na zona consciente, anotadas por Jung, quer as de caráter hígido e as conotações patológicas, chegamos à conclusão de quanto os conceitos da Doutrina Espírita asseguram melhor compreensão e avaliação da zona inconsciente que, em última análise, representa o espírito.

Os arquétipos junguianos, nas malhas estruturais do inconsciente coletivo, só podem mostrar, autêntico sentido, se dermos a eles a natural formação arquimilenar ao lado da constante construção maturativa nas experiências das etapas reencarnatórias. Quando Ramon Sarró conclama que o arquétipo não pode ser a decantação de vivências de nossos antepassados pré-históricos e que somente a imaginação poderá assim concebê-los, é por ter ficado num grande impasse ao perceber, no arquétipo, a história da humanidade. Podemos mesmo afirmar: os arquétipos são as construções adquiridas nas imensas etapas reencarnatórias, às expensas das diversas personalidades corpóreas que vamos desfilando pela vida afora.

Por tudo, achamos que Jung foi um dos grandes missionários da psicologia: muito fez e mostrou, tentou muitas vezes aproximar-se da metafísica, naquilo que a ciência do seu tempo podia suportar. Se hoje retomarmos à psicologia de Jung e conceituamos as zonas do psiquismo, colocando os arquétipos sob forma de núcleos em potenciação e os situando numa zona específica denominada de inconsciente passado, e admitindo a esses núcleos um constante burilamento e crescimento diante das experiências milenares das reencarnações, cremos que melhor atenderemos à psicologia. Diante da imortalidade do inconsciente ou zona espiritual e da comunicabilidade dos Espíritos em face dos fenômenos mediúnicos com suas múltiplas facetas, melhor entenderemos os complexos afetivos e a personalidade Maná tão bem equacionados por Jung. Com isso, poderemos ajudar a construção da psicologia com as exigências próprias de cada época, compreendendo os lidadores e construtores onde os lugares de Freud e Jung já estão reservados.

A Doutrina Espírita, perante as aquisições e pesquisas dos dias atuais, lastreada nas experiências de todas as épocas, possui condições de oferecer ao homem aturdido de nossos tempos um caminho bem autentico, sem afastá-lo de suas verdades científicas. A Doutrina Espírita se faz, por excelência, dinâmica, acompanhando o pensamento humano, dando-lhe, entretanto, lógica e fé raciocinada como elementos indispensáveis para o surgimento do homem novo. O homem novo, que nada mais seria do que a velha estrutura, mais bem burilada e temperada nos contratempos e gratificações psicológicas, em novos corpos, mais ágeis, exigindo, principalmente das estruturas espirituais, temas da evolução, o esclarecimento das estruturas espirituais.


Fonte: Enfoques científicos na Doutrina Espírita, Jorge Andréa.


Extraído do site ICEB – http://sites.uol.com.br/iceb



texto - papaumbu.vilabol.uol.com.br/psique/psicoesp.htm

imagem - jornallivre.com.br

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