sexta-feira, 7 de agosto de 2009

NEUROFISIOLOGIA DA MEDIUNIDADE


ÁREAS CEREBRAIS EXERCEM PAPEL PREPONDERANTE NAS EXPRESSÕES MEDIÚNICAS, MAS A PARTICIPAÇÃO É MERAMENTE INSTRUMENTAL, REVELANDO A SABEDORIA DE SUA CONCEPÇÃO

O desenvolvimento da neuropsicologia apoiada por recursos propedêuticos sofisticados como a tomografia computadorizada, a ressonância magnética e a tomografia por emissão de pósitrons tem permitido uma compreensão cada vez maior dos mecanismos envolvidos na fisiologia do cérebro.

Com base nesses achados, têm surgido novas interpretações para os quadros mentais das demências, das psicoses e até dos distúrbios de comportamento.

Atualmente, admite-se que a atividade mental é resultante, em termos neurológicos, de um "concerto" de um grupo de áreas cerebrais que interagem mutuamente, constituindo um sistema funcional complexo.

Com o conhecimento espírita, aprendemos, porém, que os processos mentais são expressões da atividade espiritual com repercussão na estrutura física cerebral. A participação do cérebro é meramente instrumental.

Sabemos também que a ação do espírito sobre o cérebro, ao integrar elementos de classes diferentes (mente e matéria), implica a existência de um terceiro elemento, transdutor desse processo, que transmite e transfere as "idéias-formas" geradas pelo espírito em fluxo de pensamento expresso pelo cérebro.

Esse elemento intermediário, que imprime ao corpo físico as diretrizes definidas pelo espírito, constitui nosso corpo espiritual ou perispírito.

Após a morte, o espírito permanece com seu corpo espiritual, o qual permite sua integração no ambiente espiritual onde vive. É por esse corpo semimaterial, de que dispõem também os espíritos desencarnados, que se tornam possíveis as chamadas comunicações mediúnicas.

Para Allan Kardec, em "O Livro dos Médiuns", em diversas citações, os espíritos o esclarecem mais de uma vez que todos os fenômenos mediúnicos de efeito inteligente se processam através do cérebro do médium.

No estágio atual do conhecimento que nos fornece a neurologia, seria oportuno indagarmos se é possível uma maior compreensão do fenômeno mediúnico e se identificar no cérebro as áreas e as funções que estariam envolvidas nesses processos.

Os espíritos desencarnados devem de alguma maneira co-participarem com as funções cerebrais dos médiuns seguindo regras compatíveis com os recursos da fisiologia cerebral.

Podemos correlacionar, pelo menos hipoteticamente, quais as funções cerebrais já conhecidas que podem se prestar para a exteriorização da comunicação mediúnica.

Analisando algumas áreas cerebrais, podemos teorizar sobre as possíveis participações de cada uma delas, na expressão da mediunidade.

CÓRTEX CEREBRAL

No córtex cerebral, se origina a atividade motora, voluntária e consciente. Nele, são decodificadas todas as percepções sensitivas que chegam ao cérebro, e são organizadas todas as funções cognitivas complexas.

A atividade cerebral, para se expressar conscientemente, estabelece uma interação entre o córtex cerebral, o tálamo e a substância reticular do tronco cerebral e do diencéfalo , onde se situa o centro da nossa consciência. Uma lesão nessa área provoca o estado de coma.

A partir da substância reticular, se projetam estímulos neuronais que ativam ou inibem a atividade cerebral cortical como um todo, levando a um maior ou menor estado de atenção, alerta ou sonolência.

Pelo exposto, podemos compreender que fenômenos como a psicografia, a vidência, a audiência e a fala mediúnica, devem implicar uma participação do córtex do médium, já que aqui se situam áreas para a escrita, visão, audição e a fala.

Se o espírito comunicante e o médium não disciplinarem seu intercâmbio para promoverem um bloqueio no "sistema reticular ativador ascendente" ao qual nos referimos atrás, as mensagens serão sempre conscientes, e o médium, além de acrescentar sua participação intelectual na comunicação, poderá pôr em dúvida a autenticidade da participação espiritual do fenômeno.

Por outro lado, nenhuma mensagem poderá ser totalmente inconsciente, visto que em todas há a participação do córtex do médium e, se por acaso este não se recordar dos eventos que se sucederam durante a comunicação, o esquecimento deve ser atribuído à ocorrência de uma simples amnésia.

Considera-se, portanto, que o processo mediúnico transcorre sempre em parceria, com assimilação das idéias do espírito comunicante e a participação cognitiva do médium, sendo comum uma amnésia que ocorre logo após a rotura da ligação fluídica (interação de campos de força) entre o médium e a entidade espiritual.

É do conhecimento dos pesquisadores do fenômeno mediúnico que a clarividência, a telepatia e a capacidade de desenhar objetos fora do alcance da visão do médium, ocorrem com características muito semelhantes à organização de noção geométrica e espacial que ultimamente tem-se identificado na fisiologia normal do hemisfério cerebral direito.

Quando ocorrem lesões no hemisfério cerebral direito, as falhas nos desenhos são muito características. Os objetos são esquematizados com negligência de detalhes, ficando as figuras incompletas. Os óculos, por exemplo, são desenhados sem uma das hastes, e uma casa pode ser rabiscada sem um dos seus lados ou sem o telhado.

Os médiuns que captam as informações à distância, ou registram visões imateriais, também costumam descrever suas percepções com falta de detalhes ou amputação das imagens, de maneira muito semelhante à negligência observada nas síndromes do hemisfério direito.

É possível que esses médiuns registrem as imagens utilizando as áreas corticais específicas para funções visuais e gnósticas (de reconhecimento) do hemisfério direito do cérebro. O grau de distorção ou de falta de detalhes mais precisos deve depender do maior ou menor grau de desenvolvimento mediúnico.

GÂNGLIOS DE BASE

As estruturas nucleares constituídas por aglomerados de neurônios situados na profundidade da substância branca cerebral, são denominadas de gânglios ou núcleos de base. Estes são responsáveis por uma série de funções motoras automáticas e involuntárias, fazendo parte do chamado sistema extrapiramidal.

Os gânglios da base controlam o tônus muscular, a postura corporal e uma série enorme de movimentos gestuais que completam nossa movimentação voluntária.

Logo após o nascimento, a gesticulação de uma criança é visivelmente reflexa e automatizada. Progressivamente vão surgindo os movimentos intencionais (voluntários), projetados a partir do córtex piramidal (área motora principal). No processo de aprendizado, a criança vai repetindo gestos para pegar os objetos, para se levantar, para engatinhar e andar, até que, progressivamente, esses movimentos vão se sucedendo com maior facilidade, passando a realizarem-se automaticamente.

A mímica, a mastigação, a marcha, são automatismos aprendidos no decorrer do desenvolvimento da criança.

Posteriormente, uma série de automatismos mais complexos vão se desenvolvendo, como é o caso de, por exemplo, aprendermos a dirigir o automóvel, a tocar piano ou nadar.

Depois de uma certa idade, é possível de se ver facilmente que qualquer movimento voluntário que realizamos conscientemente é enriquecido com uma constelação de gestos automáticos e involuntários, que dão um colorido característico, individual e identificador do nosso modo de ser.

Esses nossos pequenos gestos estão freqüentemente muito bem fixados na imagem que nossos amigos fazem de nós. Por isso, podemos dizer que eles também servem para nos identificar.

Convém ficar claro essa noção de que nossos movimentos podem ser voluntários ou automáticos. No primeiro caso, quando são conscientes e intencionais, como, por exemplo, quando estendemos a mão para pegar um lápis. No segundo caso, o movimento é semiconsciente, automático, muito menos cansativo que o primeiro.

Os movimentos automáticos podem ser simples, como mastigar e deglutir, ou mais complexos, como, por exemplo, para dirigir um automóvel, nadar ou tocar um instrumento musical.

A execução de um ato automático mobiliza os gânglios da base e as áreas motoras complementares do lobo frontal. Mesmo os mais complexos, como, por exemplo, tocar uma partitura bem decorada ao piano, nos permite que fiquem livres outras funções do cérebro, particularmente nossa consciência e todas as demais capacidades cognitivas do cérebro. Assim, mesmo tocando ao piano ou dirigindo um automóvel, podemos manter livremente uma conversação.

Considerando o fenômeno mediúnico da psicografia e da fala mediúnica, podemos observar corriqueiramente que os médiuns, ao discursarem ou psicografarem um texto sob a influência do espírito comunicante, o fazem revelando gestos, posturas e expressões mais ou menos comuns a todos eles.

No caso da psicografia, a escrita se processa freqüentemente com muita rapidez, as palavras podem aparecer escritas com pouoca clareza, as letras às vezes são grandes, provavelmente para facilitar a escrita rápida, a caligrafia tem pouco capricho, não há necessidade do médium acompanhar o que escreve e pode ocorrer escrita em espelho.

Na comunicação oral, o médium se expressa com vozes de características variadas, o sotaque pode ser pausado, como feito com esforço, mas, em médiuns mais preparados, a fala costuma ser fluente e muito rápida, parecendo se tratar de um discurso previamente preparado ou muito bem decorado. Nota-se também que, durante a comunicação, o médium assume posturas e gestos incomuns ao seu modo de se expressar.

Quando interrogamos os médiuns conscientes, estes dizem que no decorrer do fenômeno eles como que são levados a falar ou a escrever como se isso não dependesse da contade própria.

Correlacionando agora o que vimos em termos neurológicos para a fisiologia do sistema extrapiramidal (gânglios da base e área cortical pré-motora) com as características da comunicação mediúnica, temos a impressão de que a entidade comunicante se utiliza desse sistema automático para se manifestar com maior rapidez, com o mínimo de dispêndio de energia, com menor interferência da consciência do médium e com maior possibilidade de se suceder uma amnésia.

Resumidamente, poderíamos enquadrar esse tipo de comunicação mediúnica como uma constelação de automatismos complexos, desempenhados pelo sistema extrapiramidal do médium, mas com a co-autoria do espírito comunicante.

Já vimos também que, durante nossos atos automáticos, nossa consciência está livre para a execução de atos voluntários e intencionais, podendo com eles interromper ou modificar nossos automatismos. Por isso, podemos dizer e concluir que a manifestação mediúnica, em se tratando de gestos automatizados, sofre o controle e a ingerência da consciência do médium -- o que não deixa de ser um fator inibidor, mas necessário para a própria "disciplina" da entidade quando isso se fizer necessário.

TÁLAMO

O tálamo é um núcleo sensitivo por excelência. Ele exerce um papel receptor, centralizador e seletor das informações sensitivas que se dirigem ao cérebro.

Os estímulos externos do tipo dor, tato, temperatura e pressão, percebidos em toda extensão do nosso corpo, percorrem vias neurais que terminam no tálamo (no centro do cérebro). A partir daí, esses estímulos são priorizados e selecionados para que cheguem ao cérebro apenas os estímulos convenientes, principalmente os mais urgentes, como o caso dos estímulos nocivos, que exigem uma rápida retirada. É o caso de retirarmos logo a mão de um objeto que está muito quente.

Por outro lado, mesmo para estímulos de pouca importância, o tálamo pode fornecer para a consciência as informações desejadas, quando elas forem requeridas para o córtex. É o caso de, a qualquer momento, mesmo de olhos fechados, querermos saber se estamos ou não usando uma aliança no dedo ou uma meia calçada nos pés.

Portanto, as informações sensitivas são percebidas no tálamo, e este exerce o papel bloqueador, interrompendo o caminho até o córtex cerebral, que só será alcançado quando a informação for nova ou quando despertar interesse ou risco.

As informações monótonas e corriqueiras ficam provisoriamente interrompidas no tálamo. As informações das roupas, que, por exemplo, tocam a nossa pele, não precisam afetar nossa consciência continuadamente.

É possível que muitas das nossas sensações somáticas referidas pelos médiuns que dizem perceber a aproximação de entidades espirituais, como se estes lhes estivessem tocando o corpo, seja efeito de estímulos talâmicos.

Nesse caso, pela ação do córtex do médium, os estímulos espirituais podem ser facilitados ou inibidos pela aceitação ou pela desatenção do médium, bem como por efeito de estados emocionais não disciplinados pelo médium.

GLÂNDULA PINEAL

A estrutura e as funções da glândula pineal passaram a ser estudadas com maior ênfase após a descoberta da melatonina, por Lener, em 1958.

Embora a pineal já fosse conhecida desde 300 anos D.C. (foi descoberta por Herophilus), só após a descoberta da melatonina se descobriu sua relação com a luminosidade e a escuridão.

Ficou demonstrado experimentalmente que a luz interfere na função da pineal através da retina, atingindo o quiasma ótico, o hipotálamo, o tronco cerebral, a medula espinhal, o gânglio cervical superior, chegando finalmente ao nervo conari, na tenda do cerebelo. Entre a pineal e o restante do cérebro não há uma via nervosa direta. A ação da pineal no cérebro se faz pelas repercussões químicas das substâncias que produz.

Hoje já se identificou um efeito dramático da pineal (por ação da melatonina) na reprodução dos mamíferos, na caracterização dos órgãos sexuais externos e na pigmentação da pele.

Investigações recentes mostram também uma relação direta da melatonina com uma série de doenças neurológicas que provocam epilepsia, insônia, depressão e distúrbios de movimento.

Animais injetados com altas doses de melatonina desenvolvem incoordenação motora, perda da motricidade voluntária, relaxamento muscular, queda das pálpebras, piloereção, vasodilatação das extremidades, redução da temperatura e respiração agônica.

Descobriu-se também que a melatonina interage com os neurônios serotoninérgicos e com os receptores benzodiazepínicos do cérebro, tendo, portanto, um efeito sedativo e anti-convulsivante.

Pacientes portadores de tumores da pineal podem desenvolver epilepsia, por depleção da produção de melatonina.

A melatonina parece ter também um papel importante na gênese de doenças psiquiátricas, como depressão e esquizofrenia.

Outros estudos confirmam uma propriedade analgésica central da melatonina, integrando a pineal à analgesia opiácea endógena.

A literatura espírita há muito vem dando destaque para o papel da pineal como núcleo gerador de irradiação luminosa, servindo como porta de entrada para a recepção mediúnica.

Como a pineal é sensível à luz, não será de estranhar que possa ser mais sensível ainda à vibração eletromagnética. Sabemos que a irradiação espiritual é essencialmente semelhante à onda eletromagnética que conhecemos, compreendendo-se assim sua ação direta sobre a pineal.

Podemos supor que um contato da entidade espiritual com a pineal do médium possibilitaria a liberação de melatonina, predispondo o restante do cérebro ao "domínio" do espírito comunicante. Essa participação química do fenômeno mediúnico poderia nos explicar as flutuações da intensidade e da freqüência com que se observa a mediunidade.

Até o presente, a espécie humana recebe a mediunidade como carga pesada de provas e sacrifícios. Raras vezes como oportunidade bem aproveitada para prestação de serviço e engrandecimento espiritual.

A evolução, no entanto, caminha acumulando experiências, repetindo aprendizados. Aos poucos, iremos acumulando, tanto espiritualmente como fisicamente, modificações no nosso cérebro. O homem do futuro deverá dispor da mediunidade como dispõe hoje da inteligência. Confiemos que a misericórdia de Deus nos conceda a bênção de saber usar bem as duas a partir de hoje.


Prof. Dr. Nubor Orlando Facure

Fonte: Revista Internacional de Espiritismo - Agosto/2000


endereço: http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo663.html
imagem: neurosoftbrasil.com.br

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ORÍGENES E A PALINGENESIA


Supõe-se que Origenes tenha nascido em Alexandria, por volta do ano 185. Depois do martírio de seu pai Leônidas (202), cuidou da família, dedicando-se ao ensino. Em 202, quando Clemente abandona a Escola Alexandrina, Origenes o substitui. Durante o seu magistério a Escola atingiu o seu apogeu de esplendor. Ensinando teologia e filosofia, Origenes, por sua vez, estudava, completando sua formação filosófica com o neoplatônico Ammônio Sacas. Para consultas diretas às fontes bíblicas, aprendeu hebreu. Levava vida de rigoroso ascetismo. Em 212 visitou Roma, em 230, a Grécia. Foi ordenado presbítero na Palestina, apesar de ser eunuco e sem o consentimento do bispo Demétrio. Este, aborrecido, nos sínodos de Alexandria em 231 e 232 degradou-o, expulsando-o da comunidade de Alexandria.

Dirigiu-se a Cesaréia, na Palestina, sendo bem acolhido pelo bispo Teoctisto. Ali fundou uma escola semelhante à de Alexandria, tornando-se célebre por sua cultura. Um seu discípulo, Ambrósio, pôs à sua disposição sete taquígrafos e numerosos copistas e calígrafos, para que recolhessem o que ditava. Em 232 Júlia Mamea, mão do imperador Alexandre Severo, chamou-o a Antióquia, Síria, desejando ser instruída por ele. Na perseguição movida por Décio, foi encarcerado e atormentado barbaramente. Em razão dos maus tratos sofridos veio a falecer em Tiro, aos setenta anos, em 254 ou 255.

É o maior teólogo da escola oriental; sua influência foi universal; é o pai da teologia grega. Já em vida Origenes foi muito discutido, apreciado por uns e combatido por outros. Os padres gregos do século IV veneraram-no com um Mestre, mas a partir de 543 passa a ser anatematizado por “seus erros”, à sua excomunhão aderindo todos os Concílios orientais. Na Idade Média passou por herege. A partir do Renascimento e especialmente em nosso tempo reconhece-se a grande importância teológica de Origenes, e isso, segundo a Igreja, apesar de sua “doutrinas errôneas”. Entre essa “doutrinas errôneas”, ensinadas por Origenes, a reencarnação reponta como a mais significativa.

Por esse motivo tem-se feito em torno de sua obra uma conspiração de silêncio. Ruffinus, traduzindo o texto do “De Principiis”, em quatro livros, sua obra mais conhecida e onde se encontram seus “principais erros”, suprimiu o que se referia à palingenesia. Essa versão duvidosa pode, no entanto, ser corrigida por citações de S. Jerônimo e outros (Ed. Koetschan, CB, 3; Freiburg, 1894).

Para desembaraçar a doutrina de Cristo de toda a relação com a reencarnação e ao mesmo tempo diminuir a importância da palavra de Origenes, os escritores ortodoxos passaram a dizer que este grande “Pai da Igreja” tirou seus erros de Platão. Não é assim. Origenes aceitara essa doutrina – diz Pascal – de Clemente de Alexandria, que, por sua vez, a recebeu de Pantène, discípulo dos primeiros cristãos. Pantène foi primeiro mestre da Escola de Alexandria. Desde o ano de 181 é encontrado expondo e explicando o Cristianismo em Alexandria. As convicções reencarnacionistas de Pantène certamente se fortaleceram quando, por volta de 190, no “interesse do Cristianismo”, fez uma viagem à Índia, isto é, ao sua da Arábia. A doutrina palingenésica na Índia parece ser imemorial. Ali Pantène deve ter visto confirmado o que aprendera da primeira geração cristã. Sabe-se que seu mais ilustre discípulo foi Clemente de Alexandria que, por sua vez foi orientador de Origenes. Como se viu, Origenes substituiu-o à cabeça da Escola. Pantène morreu por volta do ano de 202 depois de Cristo. Dos seus numerosos escritos subsistem apenas dois pequenos fragmentos (V. Enc. De Berthelot, pág. 956, t, XXV).

Contrariando os seus intérpretes, o próprio Origenes protesta mais de uma vez conta a concepção platônica da palingenesia. Em “Contra Celso” (livro IV, c. XVII), obra em que refuta um platônico e racionalista, que pinta Jesus Cristo como um mentiroso e seus milagres como fraude de seus discípulos, fazendo a propagação do Cristianismo um efeito do terror pelo juízo de Deus, Origenes escreve:

Celso é completamente ignorante do objetivo de nossos escritos; é sobre a interpretação que ele dá que leva ao descrédito, e não sobre a sua significação real. Se ele houvesse refletido sobre o que é necessário a uma alma destinada à vida eterna, se ele houvesse pensado na natureza da sua essência e de seu princípio, não teria tornado ridícula a entrada do que é imortal em um corpo mortal, entrada que se efetua, não segundo o ensinamento platônico da metempsicose, mas segundo uma visão mais elevada deste fato.

Aqui, pois, vemos Origenes discordando do “ensinamento platônico” da metempsicose”. Qual é o seu ensinamento? É difícil de ser apresentado com clareza. Ele o envolveu em reticências e o expôs em uma linguagem para a qual a filosofia atual nem sempre conhece a chave. Todavia ele surge completo. Abarca a preexistência e a reencarnação, e mesmo certas associações particulares de almas humanas com almas animais, associações já antes dele assinaladas e que, no dizer de Pascal, são fatos capitais na misteriosa metempsicose. Em nosso tempo André Luiz lança forte jorro de luz sobre o fenômeno nebulosamente pressentido ao longo dos tempos, enquadrando-o nas diversas caracterizações da licantropia espiritual.

Mas, eis como Origenes explica a preexistência das almas nos universos anteriores:

A alma não tem começo nem fim ( “De Principiis”, liv. III, c.V).

As criaturas razoáveis existiam desde o começo destes séculos, que nos não vemos e que são eternos. Houve aí a descida de uma condição superior a uma condição inferior, não somente entre as almas que mereceram esta mudança por suas ações, mas também entre as que, para servirem o mundo, deixaram as altas esferas pela nossa. O Sol, a Lua, as estrelas e os anjos servem o mundo, servem as almas cujos defeitos mentais as condenaram a encarnar-se em corpos grosseiros, e é por interesse das almas que tem necessidade de corpos densos, que o mundo foi criado... A variedade deste arranjo foi obra de Deus, que estabeleceu segundo as causas que o livre arbítrio das almas criaram no passado (“De Principiis”, liv. III, c.V).

A evolução no curso dos renascimentos é claramente indicada; a desigualdade de condições provém de vidas anteriores:

Não é razoável que as almas sejam introduzidas nos corpos em relação com seus méritos e as suas ações anteriores, e que aquelas que utilizaram os seus corpos para praticarem a maior soma de bem possível tenham direito a um corpo dotado de qualidades superiores aos outros corpos? (“Contra Celso”, liv. I).

Todas as almas alcançaram o mesmo fim (“Contra Celso”, liv. I); as almas engrandecem-se pouco a pouco, atingem a Terra e aprendem as lições que ela lhes pode dar, depois sobem a um lugar melhor e chegam finalmente ao estado de perfeição (“De Principiis”, liv. I, c. VI). Mediante vidas repetidas em diversas esferas onde elas tomam corpos em relação com o mundo que habitam, estas almas caídas reconquistarão a pureza e a bondade (“Contra Celso”, c.VI e VII). Certas almas chegadas ao repouso completo voltam em novos corpos, em mundos novos; umas conservam-se fiéis, as outras degeneram-se de tal forma que se tornam demônios (“De Principiis”, liv. IV, c.IV).

E alhures:

A alma, sendo imaterial e invisível, não pode existir em nenhum lugar material sem revestir corpos apropriados a este lugar; ela rejeita, num dado momento, um corpo que era necessário até aí, mas do qual não tem necessidade, e ela o troca por outro. (“Contra Celso”, liv. VII, c. XXXII).

Origenes serviu-se muito da doutrina dos renascimentos para criticar e justificar os livros sagrados. Fazendo alusão a certas passagens da Bíblia, ele diz:

Se o nosso destino atual não era determinado pelas obras de nossas existências passadas, como poderia Deus ser justo, permitindo que primogênito servisse ao mais jovem e fosse odiado, antes de haver cometido atos merecendo a servidão e o ódio? Só as vidas anteriores podem explicar a luta de Jacob e Esaú, antes do seu nascimento, a eleição de Jeremias durante o tempo em que estava ainda no seio de sua mãe..., e tantos outros fatos que atirarão o descrédito sobre a justiça divina, se não forem justificados por atos bons ou maus, cometidos ou praticados em existências passadas (“Contra Celso”, liv. I, III).

Se bem que a “metensomatose”, isto é, a verdadeira doutrina de Origenes, não seja apresentada sob uma forma clara, a palingenesia não é posta em dúvida por ele, que influenciou consideravelmente os filósofos cristão dos primeiros séculos e foi acolhido com simpatia até a sua condenação no Sínodo de Constantinopla. As seitas da época, conforme argumenta Pascal, e as do séculos consecutivos – simonistas, basilistas, velencianistas, marcionistas, gnósticos, maniqueus, priscilianos, cátaros, tártaros, albigenses, bogomilenses, etc. – eram todas reencarnacionistas.

O Sínodo de Constantinopla ocorreu em 543. Foi nesta data precisamente que se condenou ao esquecimento um ensinamento sublime que a Igreja tinha o dever de conservar preciosamente e transmitir às gerações futuras como um farol em meio aos escolhos sociais, um ensinamento que teria desenraizado esse egoísmo estúpido que ameaça aniquilar o mundo, que nos dá uma perfeita idéia da justiça de Deus, contrapondo-se á velha doutrina das graças e das predestinações, que anula o valor do esforço humano em detrimento de afirmativas inconsistentes e originárias de uma escolástica profundamente humana.

Em 553, no grande Concílio realizado em Constantinopla, convocado por Justiniano, que se envolvia em questões teológicas, tratou-se de três pequenos escritos diferentes, que não se conhecem mais em nossos dias. Eram denominados “os três capítulos”. Disputou-se também sobre algumas passagens de Origenes.

O bispo de Roma, um certo Virgílio, quis ir lá ter em pessoa; mas Justiniano fê-lo pôr em cadeia. O patriarca de Constantinopla presidiu a este Concílio. Nele não compareceu ninguém da Igreja latina, porque, então, o grego não era mais compreendido no Ocidente, tornado inteiramente bárbaro (Voltaire, Dict. Phisosophique, pág. 609).

A respeito, a “Encyclopédie de Berthelot” comenta o seguinte:

Em 2 de junho, tendo já proclamado o direito da Igreja de pronunciar uma condenação póstuma contra um herético, resumiu as sua decisões precedentes e condenou formalmente os três capítulos e, em outra, a pessoa de Teodoro. Estes anátemas foram pronunciados com expressões análogas aqueles em que Justiniano se serviu nos seus éditos. Ele adotou semelhantemente, contra os ERROS DE ORIGENES as condenações contidas num édito de Justiniano e confirmadas por um precedente Concílio de Constantinopla. Virgílio resignou-se finalmente a aprovar todas essas decisões, etc. (E. H. Vollet. Pág. 627).

Com estas decisões infelizes, roubou-se a reencarnação ao Cristianismo. O trabalho dos Espíritos Superiores, através de Allan Kardec conseguiria a sua reincorporação tal qual a temos hoje, enquanto homens de ciência, o Dr. Ian Stevenson, por exemplo, tornam “best-seller”, um livro contendo “Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação”. Taxado de herege e relegado ao esquecimento, Origenes pode voltar a ter o seu momento entre os precursores da Revelação. Excetuando-se João Crisóstomo e Agostinho, nenhum dos Pais da Igreja o comparam pela sua cintilante inteligência e erudição. Eusébio denomina-o: “o homem de aço”.

Para os espíritas Origenes ergue-se agora como um desafio crítico.


FONTE: Anuário Espírita 1971 – Wallace Leal Rodrigues


endereço: http://www.apologiaespirita.org/

imagem: www.biografiasyvidas.com


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SELO: MOUSE DE OURO


Gentilmente ganhei esse pequeno selo da Maria José, do blog “Arca do AutoConhecimento”, http://arcadoconhecimento.blogspot.com/ que me deixou muito feliz pelo carinho e gentileza.

O que representa o Prêmio Mouse de Ouro: O reconhecimento aos blogueiros que transmitem amizade, gentilezas, respeito, carinho. Prêmio criado com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros na Blogosfera.

Quem recebe o Prêmio Mouse de Ouro e o aceita deve seguir algumas regras:

1- exibir o selo;
2- linkar o blog pelo qual recebeu o prêmio:
http://arcadoconhecimento.blogspot.com/
3- escolher outros blogs (quantos quiser) que queira entregar o prêmio.

Blogs indicados:

- Um Pouco de Tudo
- Anseios da Vida
- Um Sublime Peregrino
- Meu Lar Interior
- Consciência e Vida
- Espiritismo Comentado
- Pensando Bem
- Manancial de Luz
- Tamoporai
- Estudando Kardec

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O ESPAÇO E O TEMPO


"OS ESPÍRITOS ESTÃO EM DIMENSÃO MAIS ALTA QUE A NOSSA,
NÓS NÃO OS VEMOS, MAS A ALMA VÊ."

Define-se espaço como: extensão superficial limitada, extensão indefinida, distância entre dois pontos, etc. .. Mas se o espaço for a distancia entre dois pontos, o que será que transcende esse limite? Logo a distância entre dois pontos ou dois corpos é nada mais que uma região do espaço, isto é, uma parte infinitesimai do espaço.

Extensão superficial limitada também não, já que toda distância, extensões possíveis e imagináveis formam regiões no espaço, dado o caráter de possibilidades infinitas de criações. Como definir espaço, então?

Sabemos que todas as coisas estão inseridas no espaço, isso nos induz a sofismar que espaço seria o Universo; mas se assim procedermos, poderemos cair nos mesmos erros dos cientistas que definiram o átomo (o elemento indivisível) como as "moléculas" em que trabalhavam,já que o átomo nada mais é que uma molécula formada de outras partículas menores, definido por Kardec em A Gênese, que também são formadas de partículas menores, verificando mais tarde essas sendo divisíveis, pois podem existir outros Universos, como nos diz Allan Kardec na Revista Espírita de 1869. Logo, o somatório desses Universos é que seria o verdadeiro UNIVERSO. Como definir, então? Arriscamos a designar por definição sendo espaço: onde existe tudo o que foi criado. Notem que não usei a expressão "lugar onde", já que lugar também remete à noção de região. Como, assim? É porque todas as coisas têm que estar no espaço, visto que o espaço é uma criação de Deus. Ora, o nada não existe. O espaço, nós designamos por espaço universal e as outras definições por regiões do espaço ou "locais".

O espaço por definição é infinito, pois que a criação de Deus é infinita, e também para abranger todas as coisas e criações espirituais, isto é, de todos os Espíritos, independente do grau evolutivo. Deus também está no espaço, pois que preenche todas as coisas, logo Deus é imóvel, isto é, não há um local em que Deus não esteja; o UNIVERSO é pleno Dele! Daí tiramos outra conclusão: não existe no universo a treva absoluta, já que Ele está em todo lugar e Ele é luz; ninguém está sozinho; por mais baixo que o ser humano possa descer às trevas interiores, existe sempre Deus com ele.

Os Espíritos estão em uma dimensão acima da nossa, não os vemos com olhos, só os sentimos, mas a alma vê, pois nosso psiquismo pleno abarca todas as dimensões (a centelha divina), já que vibra no padrão divino e quanto mais evoluímos mais capacidade temos de varar as dimensões, por isso no mundo da verdade, o plano espiritual, existem várias regiões para diferentes categorias de Espíritos.

Quando eles intervém em nossa dimensão, podem eles até retirar ou arrebatar objetos para si e colocar em outro lugar, conhecido como fenômeno de transporte (O Livro dos Médiuns cap. V itens 96 ao 99), mas também todas as dimensões estão contidas no espaço, quanto mais se livra dos pesares da matéria, téria mais capacidade tem o ser de superar esses limites dimensionais, se bem que a diferença entre alguns Espíritos é uma questão de densidade e peso específico.

O tempo: a melhor definição de tempo É a do Espírito Galileu em A Gênese, os milagres as predições segundo o Espiritismo, da Allan Kardec, que diz ser o tempo a sucessão das coisas. Mas quando nasceu o tempo? Quando corneçou a existir?

O espaço e o tempo estão ligados entre si, dai Einstein se ver obrigado a colocar em suas equaações o tempo como uma variável a mais. Não se pode desvincular o tempo do espaço, pois que nós estamos ligados sobremaneira à matéria.

O tempo existe desde que exista espaço, pois que tempo é a sucessão de coisas criadas, que só podem existir no espaço universal. Então nos perguntamos: E Deus? Deus é atemporal, isto é, não está sujeito ao tempo e nem ao espaço, existe antes desses dois, Deus existe por ele mesmo, antes do espaço e do tempo existe O Criador, Deus soberano, mas Deus também está na sua criação em todo lugar, por isso, um dos atributos de Deus é ser imóvel! Definição de Parmênides; filósofo-540 a. c., e depois confirmado pelo espírito Erasto, na Revista Espírita de março de 1864. Em nosso estágio o tempo é uma consequência meramente material, dada a nossa materialidade, nossa mente está "presa nas sucessões de coisas materiais",donde vem a noção imperfeita de ser o tempo uma coisa material, apesal de não ser matéria, e não conseguirmos entender o SER incriado.

A mente perfeita transcende as sucessões materiais, logo transcende nossa noção de tempo, os superiores mais acima da matéria superam as dificuldades da matéria e logo unem o passado, o presente e em muitos casos o futuro, que consiste nas consequências naturais, mas nunca chegam a transcender todo espaço e o tempo, já que só é possível a Deus, o incriado, sempiterno, imóvel, imanente e transcendente. Vide Jesus: "quanto aquele dia e aquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do céu, nem o filho, só o Pai" Matheus 24vv36. Logo o tempo existe desde sempre !

É redundante? Desde quando isto existe? Por definição, desde sempe, já que só poderíamos conceber Deus trabalhando ! Nunca inativo. Estas definições se perdem num axioma que se eleva acima das alturas do filho de Deus. As almas presas na matéria sofrem com a dificuldade de se apossar do seu passado, como nos romances espíritas.

Para nós começarmos a tentar entender essas coisas podemos começar a fazer um exercício com a imaginação, quem está preso em uma espécie de labirinto não pode sair dele, só ir para frente ou para trás, mas quem está em uma dimensão acima vê esse individuo, consegue prever seus movimentos e suas consequências e até estando no espaço superar num instante as distâncias, ver, atuar à crente desse outro; quem está numa dimensão acima prevê o futuro, em aiguns casos inspirados pelo absoluto supremo.

Quando se estuda a matéria pela matéria pode-se encontrar algumas anomalias como os efeitos relativísticos da dilatação e contração do espaço e do tempo, já que esses são reflexo de quem observa apenas do ponto de vista material. Um trem que passa com uma velocidade perto ou igual a da luz, nós percebemos como se ele fossse menor do que é, mas isso é um efeito, o trem não mudou sua estrutura, mas nós é que interpretamos assim, dado aos nossos sentidos acanhados e todos os efeitos materiais. Como o paradoxo dos gêmeos, que diz que se um dos gêmeos viajasse na velocidaade da luz a uma região remota e voltasse, ao final da viagem um deles estaria mais velho que o outro, que por si só é um absurdo, uma anomalia da interpretação puramente material, principalmente sabendo que essa hipótese por si já nega o primeiro postulado relativístico, já que é uma situação em que o referencial é não inercial. No mais, só os purificados no amor têm a capacidade de transpor as dimensões e por antecipação nos revelar o futuro distante, para a nossa felicidade!

Jorge Medeiros - Jornal Espírita - janeiro/09


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