sexta-feira, 11 de novembro de 2011

OMISSÂO DE DEUS?



José Carlos Monteiro de Moura

O desconhecimento da Justiça Divina induz a pronunciamentos equivocados
1- O Papa Bento XVI, ao visitar o tragicamente famoso campo de concentração de Auschwitz, exclamou, entre outras coisas, o seguinte: "Onde estava Deus naqueles dias? Por que não se manifestou? Como pôde admitir essa matança sem limites, esse triunfo do mal"?
Tais indagações revelam, a um primeiro exame, que o ocupante do hipotético trono de São Pedro permanece, no que diz respeito a Deus, jungido ao "antropomorfismo divino", causa determinante da decretação de Sua morte pelo seu conterrâneo e precursor do nazismo, Friedrich Nietzsche.
Essa maneira de pensar é típica dos que cultivam posturas extremamente radicais e conservadoras, a exemplo do atual papa, um dos mais proeminentes teólogos da ortodoxia católica. Não se trata, por outro lado, de atitude exclusiva dos elementos mais conservadores da Igreja de Roma. As mesmas indagações foram feitas pelo teólogo protestante Erwin Lutzer1 , ao indagar, estarrecido, quando de uma visita ao mesmo campo de extermínio:
"Como Deus pôde permitir tanta crueldade?". "Onde estava a Igreja de Cristo quando seis milhões de judeus foram mortos por ordem de Hitler?"
Tanto o papa como o referido autor deixam subjacentes nos seus questionamentos uma interpretação absolutamente literal do que se acha escrito em Gn., 1 :26: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança", que os homens, incluindo-se aí os responsáveis pelas igrejas cristãs, deturparam, com a substituição do sujeito da frase que passou a ser: "E disse o homem: Façamos Deus à nossa imagem, conforme nossa semelhança".
Era a figura do antropomórfico Deus bíblico, portador em grau superlativo de todos os defeitos, falhas e vicissitudes humanas, herdada da cultura judaico-cristã ..
2. Sob tal enfoque, jamais aceito pelo Cristianismo de Jesus - que difere fundamental e ontologicamente do Cristianismo dos homens - nada há de estranhável ou surpreendente nas indagações de Bento XVI e do membro da igreja reformada. Elas funcionam como autênticas caixas de ressonância dos costumeiros favores divinos concedidos a alguns privilegiados, ou dos castigos terríveis decorrentes da ira de Deus, e que Cairbar Schutel2 reduziu à sua verdadeira insignificância ao dizer que "Deus não se presta a ficar, de chinelo na mão, a dar chineladas em nossos traseiros por causa de nossos erros".
O Deus caprichoso, voluntarioso, prepotente, vingativo e rancoroso, inatingível e distante e, ao mesmo tempo e paradoxalmente, tão perto do homem que o castiga pela menor falta cometida, ainda encontra abrigo em inúmeros segmentos do Cristianismo, que o adoram por obrigação e o temem por interesse e conveniência! Entre eles, muitos explicam e justificam as atrocidades cometidas nos campos de extermínio, principalmente as referentes à solução final, que acarretou, só em Auschwitz, a morte de quase um milhão de judeus, como mero extravasamento da cólera divina, uma vez que foram eles, os judeus, os responsáveis pela morte de Cristo. Tal idéia foi longamente cultivada pela Igreja, conforme dá conta David L Kertzer3 , tanto que somente por ocasião do Concílio Vaticano II é que foi excluída da liturgia da sexta-feira da paixão a oração pelos "nossos pérfidos irmãos judeus".
3. Como figura de destaque do Vaticano, responsável, durante o pontificado de João Paulo II, pela Congregação para a Doutrina da Fé nome moderno da Inquisição - o atual Papa conhece melhor do que ninguém a posição de ostensiva hostilidade que Roma sempre dedicou aos judeus. É notória a, no mínimo condenável, omissão de Pio XII diante do genocídio contra esse povo, retratada, fria e imparcialmente, pelo historiador e jornalista católico John Cornwe1l4. A Igreja nem sequer pode alegar em sua defesa o desconhecimento do que, na época, se passava na Europa. A respeito, Michael R. Marrus5 informa que: 'Quando os assassinatos em massa começaram, o Vaticano mantinha-se muito bem informado por intermédio de seus próprios canais diplomáticos e por um grande número de outros contatos. Os funcionários da Igreja podem ter sido os primeiros a enviar à Santa Sé relatórios sinistros, acerca do significado dos trens de deportados em 1942, e continuaram a receber informações mais minuciosas sobre o assassinato em massa no leste europeu. Porém, apesar de numerosos apelos, o papa recusou-se a denunciar explicitamente o assassinato de judeus ou a conclamar de forma direta os nazistas para interromperem a matança. Pio XII sustentou com determinação sua postura de neutralidade e recusou-se a associar-se a declarações contra os crimes de guerra nazistas".
É incontestável que o holocausto não foi obra isolada de um grupo de obsediados, mas a somatória de inúmeros fatores que se desenvolveram no curso dos dois milênios do Cristianismo, marcados, de forma determinante, pelo radicalismo da igreja, conforme o magistério de Gerald Messadié6, em livro recentemente editado no Brasil
A questão, sob esse particular as¬pecto, pode ser encerrada em face das considerações de Debórah Dwork e Robert Jan van Pelt7, a saber: "Os Exércitos não são, tipicamente. agentes de civilização. No mundo ocidental, as Igrejas - Católica e Protestante - exercem esse papel. São aí instituições encarregadas de transmitir os valores tradicionais ao futuro. Têm apenas um trabalho: ser a consciência pública, a voz da moralidade, as defensoras da justiça, a face da humanidade. Em todas essas tarefas, as Igrejas fracassaram absoluta e abissalmente durante os anos do nazismo. Não falaram em favor dos judeus. Nem lembraram aos cristão, que era imoral e eticamente errado roubar os judeus por meio da "arianização", marcar, segregar, deportar matar. As Igrejas, em suma, fizeram um silêncio ensurdecedor".
4. O holocausto, aos olhos do Espiritismo, jamais poderia ser visto nem como castigo divino, nem com resultado da omissão ou da ausência de Deus, que não podem servir d explicação para os genocídios perpetrados pelos nazistas, não só em Auschwitz, como nos inúmeros outros campos de concentração espalhados pela Europa.
Existe, não obstante, uma explicação doutrinária para acontecimentos semelhantes. É de ver-se que salvo melhor e mais abalizado juízo ocorreu, na hipótese, mais um resgate ou provação coletiva dos que periodicamente, alcançam grupos de espíritos afins, que reencarnam como membros do povo judeu. Isso não implica, contudo, que tais espíritos sejam sempre os mesmos que sofreram os cativeiros no Egito e na Babilônia, que foram massacrados por Tito na tomada de Jerusalém no ano 70, que sucumbiram no cerco ( Massada, ou foram vítimas das Cruzadas ou da Inquisição na Espanha ou Portugal, tendo em vista a reencarnação e a lei de causa e efeito Algozes de ontem, vítimas de hoje tais espíritos vêm sendo, no decurso dos milênios, sucessivamente substituídos na verdadeira "operação resgate", que significa fazer parte desse povo.
De mais a mais, o Velho Testamento é uma verdadeira coletânea de massacres cometidos pelos israelitas contra seus inimigos, contando, invariavelmente com o beneplácito e até com a colaboração de Javé, fato enaltecido como sua especial demonstração de apreço e de predileção para com o povo de Israel. Não há, contudo, justificativa para a conduta dos nazistas em relação aos judeus. A eles não competia a execução do seu carma coletivo, porquanto a Justiça Divina dispõe de mecanismos próprios para a consecução de seus fins, prescindindo de toda e qualquer ação humana que vise a substituí-los.
5. Por outro lado, deve ser levado em conta que os grandes responsáveis por semelhantes acontecimentos eram homens dotados de livre arbítrio, e que escolheram seus caminhos, livre e espontaneamente. Embora nada aconteça que não seja por vontade de Deus, Ele não interfere na liberdade de ação de seus filhos, dando-lhes autonomia para assumir as conseqüências, boas ou más, dessas ações. O que se poderia alegar, quando muito, era a inquestionável obsessão de que eram portadores, principalmente Hitler, que em seus devaneios alucinatórios de poder julgava ser a reencarnação de Tibério. Também não escapava da ação maléfica dos obsessores o encarregado de levar a termo a solução final, Heinrich Himmler, que além disso e, talvez por causa disso, era o comandante das tétricas e fantasmagóricas Schutz Staffel, as SS. A grande maioria inclusive acreditava piamente na decantada superioridade ariana, julgava que os judeus eram os grandes culpados por todos os males do mundo e que a sua eliminação traria grandes benefícios para a humanidade. As igrejas, católica e protestante, também participavam desse ponto de vista. O citado Erwin Lutzer informa que o altar da Catedral de Magdeburgo foi, desde 1933, cercado por flâmulas com suásticas, enquanto que o pastor Siegrified Leffer declarava do púlpito de sua igreja: "Na absoluta escuridão da história da igreja, Hitler se tomou, por assim dizer, maravilhosa transparência de nossa época, a janela de nossa era pela qual a luz incide sobre a história do cristianismo"8.
Em vista disso, é forçoso reconhecer que Auschwitz, Birkenau, Treblinka, Mai:danek, Sobibôr, Dachau e tantos outros tenebrosos campos de concentração erguidos pelos nazistas não passam de meras ações humanas, da mesma forma que não passaram de condenáveis ações dos homens as guerras santas, as Cruzadas, a Inquisição, a Noite de São Bartolomeu, a intolerância religiosa na Irlanda, ou o interminável conflito no Oriente Médio que, coincidentemente, tem como principal protagonista o mesmo povo de Israel.
Deus nada tem a ver com isto!


1 - A CRUZ DE HITLER, Editora Vida, São Paulo, 2001.
2 - DEUS CASTIGA? CAIRBAR SCHUTEL RESPONDE, LAKE, São Paulo, 1974.
3 - O VATICANO E OS JUDEUS. OS PAPAS E A ASCENÇÃO DO ANTI-SEMITISMO MODERNO, Ed. Rocco, Rio, 2003.
4 - O PAPA DE HITLER, Imago Editora, Rio, 2000.
5 - A ASSUSTADORA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO, Ediouro, Rio, 2003.
6 - HISTÓRIA GERAL DO ANTISEMITISMO, Ed Bertrand, Rio, 2003.
7 - HOLOCAUSTO, UMA HISTÓRIA. Imago Editora, Rio, 2004.
8 - Op. cit. .p.126

Nota: o autor é aposentado e dedica-se atualmente à divulgação espírita. Vincula-se ao Centro Espírita Francisco de Assis, em Belo Horizonte-MG. Revista Internacional de Espiritismo - Outubro de 2006


texto - http://www.panoramaespirita.com.br/novo/artigos
imagem - eugeniochristi.blogspot.com

sábado, 5 de novembro de 2011

A BIOÉTICA E O HOMEM DO SÉCULO XXI


Angélica Bogatzky Ribeiro *

Quando, enfim, o Homem chega ao novo século, no limiar de uma nova era, superado o medo de que o mundo se acabaria, o cientista formado no reducionismo, com conceitos materialistas ainda firmemente apoiados na ciência mecanicista de Newton, está absolutamente convencido de que pode manipular a vida humana.

A corrida ao DNA torna-se pesquisa de ponta, estimulada pela possibilidade de que o código genético desvendaria todos os segredos que cercam a criatura humana. O sucesso da clonagem alucina os geneticistas e estes vislumbram a possibilidade de curar todas as chagas humanas. A ansiedade no meio científico é tão grande que o Homem, de repente, desperta para a sua onipotência, para a grandeza de suas possibilidades, a materialização do deus latente presente no íntimo do seu ser . O universo parece cada vez menor, neste Homem preso à matéria, submerso na sua ambição particular de poder, mascarada na potencialidade da manipulação humana como arma para combater todos os males. Esquece o Homem, ingênuo, do amor ao próximo, não este próximo, imperfeição da máquina física, que avaliza, a qualquer custo, as novas técnicas de manipulação gênica, mas este próximo que habita cada um de nós, que eclode de uma única célula e que anseia, em todas as fases de sua existência, por respeito, carinho, reconhecimento e direito à vida.
Ora... O DNA é desvendado, e nada! Não é facultado ao homem fabricar seres humanos perfeitos a partir deste conhecimento. Ah, sim! Torna-se possível diagnosticar mutações e distúrbios genéticos relacionados a determinadas doenças e mapear as predisposições mórbidas do indivíduo. E´ a nova caixa de Pandora, um universo imenso submerso na ignorância humana . Quanto mais se descobre, mais se percebe que não se sabe nada. E o Homem, uma vez mais, ingênuo, perde-se no deslumbramento de seu próprio poder e passa a vislumbrar a glória que terá no novo século, o século XXI . Na sua prepotência, o Homem larga mão dos seus princípios éticos e o novo lema da ciência passa a ser: “os fins justificam os meios” . Inicia-se a cruzada dos embriões. A crença de que todos os mistérios da vida se encerrariam na potencialidade do pequeno ser não basta para que seja preservada a sua soberania e num contra senso, a ciência o desqualifica, considerando-o apenas um amontoado de células potenciais, que objetivamente não se enquadraria no conceito de um ser vivo. Ora tudo, ora nada, numa orgia moral que a sociedade científica tenta impor ao mundo. As consciências alienadas no amor e profundamente enraizadas no materialismo tornam-se cegas frente às promessas de saúde e milagre da ciência do novo século. Afinal, os deuses descem à terra, para proporcionar aos mancos a marcha precisa; aos paralíticos, a reconstrução perfeita de suas vias nervosas; aos condenados, a promessa de longevidade... Mas e a moral? Qual é a promessa ética da ciência do século XXI ?
Torna-se, mister, portanto, que a sociedade científica vigente determine um limite para a ambição daqueles que querem tornar a ciência um trampolim para o determinismo no mundo. O nazismo científico deve ser repelido, condenado, desmistificado e combatido. A sociedade deve ser amplamente informada e educada para que, no futuro, a espécie humana, amparada na moral do amor e do respeito, possa ser preservada e a vida humana possa ser garantida com suas diferenças étnicas, físicas, sociais e religiosa (direitos totalmente desrespeitados pela ciência vigente).
A Bioética do século XXI deverá, pois, ser a arte de respeitar a vida na pesquisa científica, limitando a sua prática através do questionamento moral do que é ou não lícito pesquisar. Priorizar a preservação da espécie humana, respeitando o indivíduo e todas as suas relações com a natureza, tornar-se-á imperativo. A bioética tem, por dever, questionar as propostas científicas, investigar o conteúdo das pesquisas e fiscalizar a prática da ciência ética. A vida e a evolução das espécies qualificam o ovo, zigoto potencial para a raça humana e todas as suas derivações. Não perceber a inteligência com que o ovo se divide , ao mesmo tempo que vai multiplicando exponencialmente o seu potencial gerador de vida, é subestimar a criação inteligente que impera em cada ser humano existente, independente dos defeitos físicos, genéticos, mentais ou até mesmo morais que por ventura seja acometido.
A ciência deve respeitar a vida humana, sempre, porque esta é o objeto de seu interesse e deve comprometer-se para isso com a dignidade e a percepção moral que distinguem o homem dos outros animais.
Ao mesmo tempo, o amor deve ser, antes de tudo, o verdadeiro combustível da evolução científica. Sem ele o cientista é como uma figueira seca. Que frutos morais poderá deixar? Viverá uma vida e perceberá um dia que as suas verdades, conquistadas a custa da destruição da dignidade humana (verdades bem certo que perenes), passaram a ser rejeitadas por outra ainda mais verdadeira, ou por um novo dogma, ou por um novo paradigma, que é o caminho natural da evolução a que todos os Homens estão fadados. Descobrirá que o mecanicismo já foi superado, no século passado, pelo conceito quântico de Einstein e que novas luzes estão prometidas para o novo século, muito mais esplendorosas e sutis, que as luzes do século passado.
É a nova era! A era do amor, que agora ainda os cientistas não conseguem vislumbrar....

* Médica Ginecologista e Obstetra
1ª Secretária da AME Santos – Associação Médico-Espírita de Santos (AME-Santos)



texto - http://www.ameporto.org/pt/artigos

imagem - internet

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O CASO DAS IRMÃS FOX


Terezinha Acioli Lins

Hipótese e Discussão

Introdução

A História e a Antropologia nos revela que a humanidade, de há muito tempo, acredita em espíritos e fantasmas.

O homem primitivo, por sua vez, tinha a crença de que espíritos se encontravam em tudo, no Universo, havendo no fogo, na água, nas árvores, nas rochas etc. Essas entidades espirituais tinham poderes direcionados ao bem e direcionados ao mal, Os homens pediamlhes ajuda em troca de oferendas e orações.

O caráter mágico surgiu depois e os homens passaram a usar encantamentos e fórmulas para ter o controle dos espíritos. Surgem várias ideias concernentes aos espíritos:

muitos, por não terem sido vingados, não podiam repousar em seus túmulos; outros podiam retornar, em especial, aos dos que morreram violentamente. Casos e mais casos são relatados, cujos lemas compreendem casas assombradas e fantasmas. Mas continuavam os espíritos temidos e incontroláveis pelos homens.

Pode-se afirmar que o fenômeno das mesas girantes (ou falantes) deu lugar ao Espiritismo.

E, por analogia com o fenômeno das batidas, golpes ou pancadas, chamados raps pelos anglo-saxões, nasceu em Hydesville, pequena aldeia norte-americana, o que se convencionou chamar "Modern Spiritualism" (neo-espiritualismo) e que a humilde casa de madeira da família Fox, na qual os fenômenos se verificaram, foi, algum tempo depois, transportada para a Lily Dale Camp (acampamento espírita de Lily Dale), no estado de New York e transformada em Monumento Nacional do Espiritismo.

A respeito desse fenômeno, escreveu o professor Charles Richet, médico ilustre, autor do "Tratado de Metapsíquica", em seu último livro "La Grand Espérance", (pág. 221):

"Um dos mais belos fenômenos da Metapsíquica é o dos raps, mas não é fácil obter golpes bastantes sonoros para que os percebamos com facilidade. Eis em que consistem : se, num grupo de experimentadores, entre os que colocam as mãos sobre uma mesa, se encontra um médium de certa potencialidade física, percebem-se, às vezes, vibrações sonoras na estrutura da madeira e, muito amiúde, essas vibrações, que o médium pode produzir todas as ocasiões que as suas mãos se acham imóveis em cima da mesa, são de natureza inteligente. A história dos raps é interessante e eu aconselharia um metapsiquista jovem a escrever uma monografia detalhada acerca dos mesmos."

Surgiu, então, a monografia que teve por título "Breve história dos golpes mediúnicos", da autoria do professor italiano Ernesto Bozzano. Foi no século atual, um dos escritores mais conhecidos pelos seus estudos doutrinários e científicos, publicados em vários idiomas, tais como: italiano, francês, espanhol, português, inglês e outros, tanto em livros quanto em revistas. Escreveu mais de cem trabalhos entre artigos e livros (estes mais de trinta). O Espiritismo, naturalmente, existia antes do famoso Mistério de Hydesville que é, sem dúvida, um acontecimento-marco da evolução das pesquisas psíquicas no mundo. Muitas vezes, apresenta-se combatido e deturpado.

NARRATIVA DO FENÔMENO

Entre 1843 e 1844, Hydesville era vilarejo do estado de New York e, num casebre das proximidades vivia um casal da família Beli. O marido ficou sozinho em casa por sua mulher ter viajado. Um mascate apareceu e pediu pousada, entrando para dormir e, para sempre, desapareceu.

Em 1847, o casal Bell tomou rumo desconhecido e a casa foi alugada por um casal da família Weekmann. Esse casal abandonou a casa por motivo de ocorrências estranhas,2 pancadas noturnas no solo e nas paredes, que não os deixavam dormir. Nesse mesmo ano, o metodista John D. Fox foi morar no local com sua família. 1 Os fenômenos continuaram e as meninas Margaret e Kate, de quinze e onze anos, respectivamente, envolveram-se com os mesmos. 2 Essa experiência curiosa despertara um grande interesse nacional e internacional pela comunicação com os espíritos".

A família acordava com pancadas ruidosas que não tinham explicação. Mais tarde, Margaret Fox, esposa de John, assinou uma declaração, narrando o que acontecia: "Na noite dos primeiros ruídos nós nos levantamos, acendemos uma vela, e procuramos a razão daquilo pela casa toda... Embora não muito fortes, aquelas batidas produziam sacudidelas nas camas e nas cadeiras e, quando deitados, podíamos senti-las, bem como quando estávamos de pé.

Os ruídos voltaram no dia 30 de março de 1848, continuando durante toda a noite.

Os ruídos eram ouvidos em todas as partes da casa... Ouvíamos ruídos de passos no solo e como que subindo as escadas. Não podíamos descansar. Cheguei, então, à conclusão de que a casa devia estar assombrada por algum espírito infeliz e inquieto.

Ouvira falar nessas coisas com freqüência, mas nunca testemunhara nada nesse gênero que não me fosse possível explicar".

Na noite seguinte, 31 de março, um fato despertou curiosidade no mundo espírita. O senhor e a senhora Fox, colocaram as camas de Margaret e Kate em seu próprio quarto, após o início dos misteriosos ruídos. Os ruídos recomeçaram, quando eles se deitaram. A noite era de vento, segundo afirmara o congressista Robert Dale Owen, que entrevistou a senhora Fox e suas duas filhas. John Fox pensou que o ruído poderia vir dos caixilhos das janelas estremecidas pelo vento e foi à janela tentar, com as mãos, reproduzir o mesmo ruído. De repente, Kate, então com onze anos, reparou que, a cada vez que o pai sacudia a janela, as pancadas pareciam responder. Estalando os dedos, exclamou para espanto de sua irmã:

"Vamos, senhor do Pé Rachado (referia-se ao Diabo) faça o que eu estou fazendo!" As pancadas repetiram imediatamente o estalo de seus dedos! Kate ficou tão assustada que enterrou a cabeça sob as cobertas da cama.

Sua irmã de catorze anos, Margaret, aceitou o desafio e disse: "Faça o que faço!" Bateu palmas quatro vezes e, instantaneamente, quatro pancadas ocas vieram da parede oposta.

Quando Kate Fox recuperara a coragem, atirou longe as cobertas e gritou para à mãe:

"Amanhã é o dia 1o de abril, dia dos tolos. Alguém está tentando fazer truques conosco ! "

A senhora Fox não concordou e, nervosa, pediu a quem estava produzindo os ruídos, um desconhecido, que batesse a número de pancadas correspondentes à idade das meninas.

De imediato, ouviram-se catorze pancadas, a idade de Margaret. Uma pausa, e então se seguiram onze pancadas, a idade de Kate.

Foi, então, que a senhora Fox se certificara de que uma inteligência qualquer estava por trás dos estranhos ruídos. A família perdeu o medo do início, notando que o 'espírito batedor' não lhes queda mal, mas apenas, entrar em comunicação.

A 31 de marco de 1848, a menina Kate manteve diálogo com as pancadas misteriosas, pedindo que elas se repetissem de acordo com certos números. As conversações foram estabelecidas através de um código convencionado. O toribismo quando apresenta um caráter inteligente é denominado de tipitalogia. Muitas comunicações inteligentes foram conseguidas através desse processo, segundo um código previamente estabelecido. Souberam, então, que o espírito pertencia a um homem de 32 anos, chamado Charles Rosma, vendedor ambulante que havia sido assassinado no local por latrocínio. 3 Indicou a local em que o corpo e o seu baú haviam sido enterrados. A escavação foi feita, mas apenas encontraram restos de um cadáver, com fragmentos de ossos e cabelos. O baú não foi encontrado.

Em 1904, cinqüenta e seis anos depois, por causa de um temporal, ruiu uma parede falsa da casa, no cômodo do porão indicado pelas pancadas. Foi construída urna parede paralela à outra e ninguém sabia de sua existência. Devido a esse fato, descobriu-se o esqueleto de Rosma e o seu baú de lata, com a alça para carregá-lo às costas.

A Sra. Fox perguntou se poderia chamar alguns vizinhas para ouvirem as batidas e o espírito respondeu com duas pancadas, código convencionado para o "sim". Entre os vizinhos visitantes, havia alguns incrédulos, julgando-se iludidos; outros aceitaram os ruídos como3 sendo de um espírito.

Segundo a Sra. Fox de uma vez, houve mais de trezentas pessoas, ou na casa, ou à espera de entrar nela.

A notícia do Caso de Hydesville espalhou-se por toda nação, com a publicidade dos jornais. Kate e Margaret, por insistência de Leah Fox Fish, sua irmã mais velha, iniciaram sessões públicas, nas quais faziam supostamente, contato com espíritos, que produziam batidas como resposta. 4

Formaram-se dois grupos: milhares de pessoas vieram e acreditaram; outras denunciaram as jovens, fazendo-lhes um desafio. Kate não se conteve e começou a chorar, assustada com aquelas mulheres enraivecidas. As pancadas tomaram-se mais fortes ainda, convencendo as mulheres de que não provinham das duas irmãs. Certa ocasião, um grupo de anti-espíritas invadiu a sessão e ameaçou linchar as apavoradas, acusando-as de cumplicidade demônio.

A publicidade de Hydesville convenceu outras pessoas de que elas também poderiam conversar com os mortos. Centenas delas apresentaram-se como médiuns.

Ira Davenport, de nove anos de idade, e seu irmão William Henry Davenport, de sete, deslumbrados com as meninas de Hydesville, tentaram fazer o mesmo. Com o passar do tempo, tornaram-se os famosos irmãos Davenport.

Hipótese e Discussão

Considerando-se a teoria espirítica, trata-se da prova da sobrevivência, com a identificação do espírito comunicante Charles Rosma.

Do ponto de vista parapsicológico, o que interessa é a confirmação da clarividência, sem possibilidade de implicação telepática. Admitindo-se a tese do professor Harry Price, de Oxford e do professor Wathely Carington, de Cambridge, de que a mente sobrevive à morte do corpo físico, agindo sobre a mente dos vivos, admitir-se-ia o fenômeno telepático, mas, voltando-se à tese espirítica. Tudo indica que, parapsicologicamente, a menina responderia pelo inconsciente através de psi-kapa, produzindo o fenômeno de psicocinesia: as pancadas nas paredes.

A legitimidade da informação do mascate foi comprovada. E, como notou Emma Hardenge, ao escrever para o Modern American Spiritualism, estava provado que o esqueleto e o baú tinham sido colocados primeiramente no local indicado pelas pancadas, sendo depois removidos para outro, quando circularam as notícias do desaparecimento do mascate, pondo em perigo de suspeita a família Bell.

Sob o ângulo científico, é necessário destacar o fato de que a percepção extra-sensorial de Kate cometeu engano. Por que ela não viu logo o local verdadeiro em que se encontravam o esqueleto e o baú de Rosma, mas o primeiro lugar onde haviam sido colocados anteriormente?

A informação viria telepaticamente? A menina teria captado o episódio no inconsciente dos Bell em algum lugar ou o inconsciente dos Bell ainda estaria voltado para o local do crime, onde a imagem é mais forte, pelo estado emocional que vivenciaram naquele momento.

Mas como justificar que essa apreensão fosse limitada ao momento da primeira inumação? Todo o processo da retirada posterior do esqueleto e do baú do local primitivo, de seu traslado secreto para o esconderijo, da construção da parede falsa, teria sido camuflado pela informação ou pela captação telepática? É admissível que a vontade de livrar-se da prisão fosse tão forte no casal Bell que apagasse a sequência culposa na mente de ambos? Declara o professor Stanley de Brath citado por Ernesto Bozzano no livro "I Morti Ritornano":

"Se a informação fosse de origem subjetiva, presume-se que, o inconsciente da médium teria de conhecer o local em que realmente estava o cadáver" E concluiu De Brath, como Bozzano, que a explicação plausível é a espirítica. "Pois é razoável presumir que o sepultamento no porão devia corresponder à última lembrança terrena do assassinado".

Para-psicologicamente, tudo leva a acreditar que a teoria da clarividência é mais lógica do que a telepática, pois a jovem sensitiva poderia ter a sua atenção atraída para os restos do cadáver que ficaram no local primitivo, e ali se fixado. Até em experiências de laboratório4 podem ocorrer casos de fixação dessa natureza. Que se esclareça desde já, que o agente psi percebe o fato numa indiferenciação do tempo e dentro do aspecto seletivo.

Há um caso ainda mais enfático, mostrando que é possível no campo das relações humanas, a manifestação da clarividência pura, ressaltando-se que ninguém sabia sobre o que se havia passado.

No condado de Sussex, Inglaterra, um pastor foi procurado por um homem que pediu a sua ajuda num caso de infestação. A esposa do consulente era filha de um homem muito rico que morrera na paróquia e que agora lhe apareceu em sonhos, reclamando que tinham construído o seu túmulo sobre a sepultura de outra pessoa. As aparições eram frequentes e a mulher estava prestes a enlouquecer. O coveiro, ao ser interrogado, afirmou ser impossível esse engano. E o caso deu-se por encerrado. Volta o homem e afirma que a infestação continuava. Diante dessa situação, uma verificação legal foi providenciada, constatando-se que, na realidade, o túmulo havia sido construído sobre uma cova vizinha. Corrigido o erro, desapareceram as manifestações.

Pode auxiliar nessa compreensão, a teoria da duração, de Henri Bergson, e do tempo corno fracionamento daquela - sucessão de imagens fracionadas da duração, como as fotos de um filme em projeção. Se existe uma estrutura do tempo, que poderia ser o fluir da duração do conceito bergsoniano, é provável que a mente possa percorrê-la, libertando-se do condicionamento físico "do aqui e do agora" em que nos encontramos. São momentos furtivos e excepcionais da liberdade existencial, que, em geral, implicam fenômenos de percepção sincrônica do tempo.

No recente livro do médico Andija Puharich, o "Cogumelo Sagrado" há um exemplo interessante. Conta o autor que, no dia 13 de dezembro de 1954, após três dias de atividade física intensa, sem dormir ou descansar, foi para o quarto e deitou-se sem trocar a roupa.

Adormeceu imediatamente pelo cansaço. Mas, logo se viu a si mesmo como um espírito livre do corpo, flutuando no espaço. Viu seu próprio corpo na cama e pensou em visitar alguém nesse estado de libertação. Dirigiu-se à casa da Sra. Garret, em New York, e em seguida saiu à procura da Sra. Alice Bouverie, encontrando-a numa ampla sala de uma casa que não conhecia. Fixou alguma coisa do ambiente para verificação posterior. Chamou a sua atenção o brocado doirado das paredes e nele fixou-se. Desejou voltar com urgência ao seu quarto, no Estado de Maryland, acordando com sua filha batendo na porta.

Puharich fez uma verificação posterior do que vira. Na casa, que lhe era estranha. A sala fora claramente descrita, mas as paredes eram forradas de branco. Todavia, há quarenta anos as paredes tinham os brocados doirados excitantes que o médico vira em seu desprendimento. O que ocorreu? O tempo percebido se mistura com fragmentos do passado ou do futuro, em sua indiferenciação, à semelhança da mistura bizarra de certos sonhos.

FENÔMENO PSI: DIFICULDADES DE PESQUISA

Quanto ao fenômeno psi: a própria caracterização desse fenômeno (objeto de estudo e pesquisa da Ciência Parapsicológica) já constitui um entrave ao bom andamento e sucesso da pesquisa:

raridade: por não se deparar comumente, no dia-a-dia com o fenômeno, o pesquisador deve sempre predispor-se à sua busca constante, onde quer que ele esteja, o que exige trabalho e gasto financeiro.

fugacidade: o fenômeno é efêmero, fugaz (exceto em alguns casos, como o de ideoplastia, em que a "entidade" permaneceu por duas horas), não dando margem a uma documentação eficiente através de material técnico, através de gravadores, máquinas fotográficas, filmadoras etc. dificuldade de repetir-se à vontade: nem sempre e agente psi está em disponibilidade de eclosão de fenômeno, sem condições psicológicas (bloqueios, ruídos subjetivos, falsas interpretações), como o caso de Thomas Green Morton. caráter de imprevisível e inesperado: isso deixa o pesquisador em situações difíceis quanto ao momento exato de eclosão do fenômeno, podendo apanhá-lo desprevenido. 5 Imprecisão e insegurança de testemunhos puramente pessoais: principalmente, quando se quer reproduzir um fenômeno já vivenciado há algum tempo e que depende muito do problema de memória, da fantasia e interpretação do narrador, mesmo quando digno de confiança.

Quanto ao pesquisador: que o seu histórico de vida denuncie confiança, idoneidade e experiência no campo de trabalho; que use do rigor científico, usando métodos e técnicas de consenso universal; que acredite na probabilidade de erro em sua pesquisa, assumindo-o e não passando a terceiros; que ame o exercício de sua profissão, que se atualize, avançando e inovando seus conhecimentos; que, dentro do rigor científico, atenha-se aos limites do seu campo de trabalho, não misturando o seu objeto de estudo com religião, esoterismo e misticismo, isto não querendo dizer que o parapsicólogo desconheça a rica interdisciplinaridade da Parapsicologia e que ele possa utilizar subsídios de outras ciências para o enriquecimento próprio de sua área. Deve, portanto, ter uma formação cultural vasta e atualizada para melhor administrar a sua pesquisa.

Saber que pesquisador (sujeito) e pesquisado (objeto) se interrelacionam, interferindo, desse modo, no resultado da pesquisa. Daí, evitar a não-rigidez de julgamento unilateral do pesquisador; selecionar certas aplicações técnicas do passado e encarar a metodologia como um caminho a seguir do pesquisador, dependendo de sua personalidade, e que não existe, rigorosamente, uma metodologia própria, alertando que o fenômeno não deve ser adaptado ao método, mas este ao fenômeno; e, em se tratando de experiências com crianças, redobrar o zelo, os cuidados e atenção, sempre procurando obedecer às suas necessidades e interesses, dentro do acompanhamento de suas fases psicológicas.

semelhança de certos fenômenos paranormais com acontecimentos puramente normais: a hiperestesia, o "ínsight", o déjà vu, situação de pânico etc.

Hiperestesia: leitura através de vibrações musculares, da face, mudança da sede dos órgãos dos sentidos: leitura através dos dedos das mãos, cheiro através do cotovelo etc. Daí, a necessidade de identificação do conteúdo paranormal, que o distingue de outros tipos de fenômenos. Insight: chegada inesperada de uma solução que se busca (entre os artistas, iluminação)

Déjà vu: podendo ser descrito corno um sonho precognitivo esquecido e, uma vez, em contato com a cena, surge a familiaridade.

Situação de pânico: a pessoa se encontra em estado emocional intenso, passando por um processo de auto-hipnose, como o caso do indivíduo que, fugindo de uma situação de perigo (chega a acidentar-se) toma atitudes que não faria em seu estado "normal", utilizando-se de reservas energéticas e de certas substâncias analgésicas lançadas no organismo (ultrapassar certas barreiras consideradas impossíveis, fora desse estado); acidentar-se, fugindo do perigo, e não perceber e nada sentir, pelo fato de estar, durante esse processo, anestesiada.

ação intencional de um agente inteligente, que pode burlar o controle e a vigilância do pesquisador: temos o caso de telecinesia do final do século passado, em que as mesas girantes se tornaram moda nos Estados Unidos e na Europa; até o aspecto lúdico aparecia nessas experiências: quando o indivíduo tentava deter uma mesa, medindo força com ela, depois de rodopiar, a mesa, inclinando-se, sacudia-lhe de lado; o caso do piano, na Casa Branca, em que o Presidente Abrahan Lincoln, pulou em cima para detê-lo e também fora sacudido fora.

o pesquisador ainda desconhece mecanismos e leis que regem esse tipo de fenômeno: isso constitui uma barreira seríssima, pois tomamos conhecimento da entrada do fenômeno, a nível inconsciente (inputs) e da saída (outputs), mas desconhecemos "como" se processa ("modus operandi"), impedindo a realização de uma teoria geral de fenomenologia psi.

o campo do fenômeno: direcionamento, por parte do pesquisador para o seu devido campo psicológico, psiquiátrico ou parapsicológico. É neste campo, que o pesquisador atuará, te que não lhe cabe o papel de terapeuta, mas de orientador num trabalho de consultoria do fenômeno, tentando familiarizar o agente com sua modalidade de fenômeno. Deve observar, ainda, o que há de comum nessa fenomenologia e as circunstâncias em que o fenômeno6 ocorre.

preconceito material: opinião de certos pesquisadores ortodoxos que delimitam o campo de pesquisa ao mundo físico e suas leis e o preconceito religioso - que não admite especulações sobre o divino, o sobrenatural.

CONCLUSÃO

O Caso das Irmãs Fox, de Hydesville, inclui-se entre as manifestações de assombramento. Nem sempre essas manifestações apresentam as mesmas características.

Tudo indica que nessas casas, subsiste alguma coisa de material em conexão com as pessoas que as habitaram. É o que algumas observações parecem indicar.

Muitos casos não apresentaram autenticidade havendo ilusões, erros, falsas apresentações e fraudes.

As próprias Irmãs Fox negaram as manifestações de espíritos, afirmando ser tudo falso e que elas produziam os ruídos com seu próprio corpo, mexendo os dedos dos pés. Mais tarde, elas falaram em público novamente, dizendo que foram induzidas por indivíduos que não aceitavam o Espiritismo e as forçaram a dar aquela primeira declaração. Confirmaram que tudo que ocorreu era verdade e que as manifestações existiam.

Há casos de casas mal-assombradas que passam ignorados e desprezados por longo tempo e que vêm a ser abonados por testemunhas idôneas. Os cientistas rigorosos, capacitados e isentos de preconceitos ainda são em pequeno número para que constatem os casos de fraude e que o público seja enganado pelos próprios moradores das casas.

Às vezes, as comunicações nesses casos são feitas por entidades totalmente desconhecidas do agente psi, o que é aconselhável não dar nenhum valor ás suas declarações, enquanto o trabalho de averiguação não for completo e satisfatório, destacando-se como de total importância o conteúdo paranormal que deve concatenar-se com a realidade.

Há muito tempo que esses fenômenos de assombramento foram reunidos sob o nome de Espíritos turbulentos, estudados sobretudo na Alemanha e aí denominados poltergeist (de polter, fazer barulho e geist, espírito). Deve ser esclarecido que esses fenômenos também são multiformes e, muitas vezes, revelam ação oculta de pessoas falecidas: outros há inteiramente diferentes com pancadas, passos, audições variadas produzidas por causas inapreciáveis e que implicam em um estudo especial para responder á pergunta: Que causa lhes poderemos atribuir. Animismo, faculdades humanas desconhecidas, fragmentos da alma terrena? A Parapsicologia recorre à fonte inconsciente, reconhecendo-lhe o seu grande poder de associação livre, intuição e criatividade, despenhados, principalmente, pela emoção, considerada acionador por excelência da dinâmica inconsciente.

Os fenômenos em estudo no campo da Parapsicologia são produtos do dinamismo universal e que os nossos cinco sentidos ainda nos põem numa relação incompleta em relação a ele.

As forças psíquicas ainda não são suficientemente observadas.

Essas forças são de ordem superior às analisadas na Mecânica, Física e Química. Elas têm algo de vital e possuem uma mente que compartilha com o Universo e, por meio dela os seres podem relacionar-se à distância. Não deixa ela de ter semelhança com o "Od" de Reichenbach e Du Prel, e com o "Geon" do Dr. Javorski.

Tudo indica que há no Universo alguma coisa a mais que a pretensa matéria – um elemento psicodinâmico - tornando-se incompleta a explicação mecânica da Natureza.

Muito pouco sabemos do Universo que nos rodeia: ou vemos seletivamente, ou não vemos, ou vemos deformado. E, se antes, a preocupação do pesquisador era o vivo, hoje a busca do saber já atinge o morto e, ultimamente, um outro elemento que se agregou aos dois - o elemento estranho. E cada um, em seus devidos espaços e campos de estudo, são objetos de pesquisa: o terrestre, o extraterrestre e o espírito.

Cabe ao parapsicólogo, diante do exposto, atualizar-se em seus conhecimentos unindo à pesquisa pura e levantamento de dados, a pesquisa de campo e de laboratório. 7

Deve avançar sempre, reciclar-se, tornando-se um pesquisador capacitado, consciente de seu alto nível de trabalho, de mente aberta e pensamento livre.

O rigor científico deve fazer parte de seu objetivo de trabalho, procurando sempre, como um pesquisador da atualidade, o que há de comum na fenomenologia psi e as circunstâncias em que o fenômeno ocorre.

Em suma, conscientizar-se de que a Parapsicologia é ciência como outra qualquer e, como tal se situa dentro de um processo cumulativo, que compreende verdades provisórias

que dão margem a uma renovação constante e novas descobertas. Daí, as probabilidades acontecerem com mais freqüência do que a pretensa certeza absoluta.

NOTAS

(1) A única coisa excepcional na vida de John era o álcool, que ele jurava abandonar. Na juventude, sustentava a mulher e quatro filhos, trabalhando como ferreiro, mas o amor pelo álcool destruiu-lhe o trabalho, as finanças e a paciência da esposa, causando uma duradoura discórdia em seu casamento. Após renunciar ao álcool, reconciliou-se com a esposa. Abstêmio, tornou-se mal humorado e taciturno, conseguindo ainda ser pai de mais duas crianças.

(2) Quando Margaret e Catherine - apelidadas de Maggie e Kate nasceram, os pais já estavam na meia idade. Assim, eram as únicas que moravam com o casal, ao se mudarem para a cidadezinha de Hydesville, no estado de Nova York, em busca de uma nova vida. Em dezembro de 1847, a família alugou uma decadente casa de fazenda e, quando chegou a primavera de 1848, John Fox passou a cultivar hortelã, estando ele e a esposa na casa dos sessenta anos. Para as duas meninas, a vida era desolada, porque Hydesville oferecia pouca distração para os jovens e, a maior parte do tempo, Maggie e Kate ficavam isoladas na casa miserável, apenas contando com os seus pais. Não dispunham de recursos intelectuais nem primavam pela boa escolaridade. Maggie tinha olhos castanhos, era uma adolescente vivaz, embora desprovida de atrativos - "decididamente não era uma beldade", como disse depois um observador. Kate, menos esperta, porém com olhos cinzentos, bonita e com uma palidez delicada, era apreciada na época. As meninas viviam entediadas e inquietas, quando, de repente, o tédio cessou depois que a família se recolheu, começando os estranhos ruídos que começavam a sacudir a casa.

(3) E. E. Lewis, do estado de Nova York, chegou ao local curioso com as histórias que ouvira do conturbado morto. Entrevistou a família e os vizinhos e publicou às pressas um folheto chamado "Relato dos Misteriosos Ruídos Ouvidos na Casa do Sr. John D. Fox". Lewis não poderia saber, mas seu livreto ocuparia um lugar na história como a primeira publicação espírita.

(4) As meninas, Margaret e Kate, descobriram que, quando estalavam as juntas dos dedos dos pés, em especial contra o pé da cama ou contra o chão, conseguiam fazer, às ocultas, batidas bem satisfatórias. E o vendedor assassinado estava-se tornando, cada vez mais loquaz. Graças a um novo código começa a expandir seu vocabulário muito além de um lacônico sim ou não. Leah Fox Fish, a irmã mais velha das meninas, levou as irmãs para muito além daquela fazenda - para salas mal iluminadas de sessões espíritas e vastos salões de conferências, para as casas dos ilustres e poderosos, para um lugar na história. Leah iria prosperar e florescer. Da mesma forma Maggíe e Kate, por certo tempo. No caminho das irmãs Fox, o espiritismo desenvolveu-se. E, cinco anos após, os ruídos de Hydesville, havia, segundo cálculos, aproximadamente trinta mil médiuns, profissionais e amadores, só nos Estados Unidos.

(5) Em suas "Gregórias Admiráveis" (II, 489) afirmava Virgílio: "Felix qui potent rerum cognoscere causas" (Feliz o que pode conhecer as causas), destacando a inteligência que penetra os segredos da Natureza e foge às vulgaridades.

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Este texto foi publicado no ANUÁRIO BRASILEIRO DE PARAPSICOLOGIA, No 3, Edição 1998.

http://www.parapsicologia.org.br/artigo04.htm


texto - http://www.apologiaespirita.org/apologia

imagem - geocities.ws


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