terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ANOREXIA: O SANTO PRAZER DA INAPETÊNCIA


Nos anos que vão de 1200 a1500, na Europa Medieval, muitas mulheres faziam prolongados jejuns e por conservarem-se vivas apesar do seu estado de inanição, eram tidas como santas ou milagrosas. O termo "anorexia santa" foi cunhada por Rudolph Bell que, valendo-se de uma moderna teoria psicológica que explicava o jejum, classificou-o como sintoma de anorexia.

Para chegar a uma posição espiritual mais elevada, conservarem-se distantes dos prazeeres sexuais e comprometerem-se com Deus, a Idade Média forçou as mulheres a praticarem o jejum. O registro da manifestação da anorexia, no entanto, não teve início nessa época, mas foi, sem dúvida, um instante de capital importância no estudo dos possíveis paralelos entre as diversas culturas históricas.

Ha alguns séculos, a anorexia, como um comportamento humano padronizado e não muito raro, foi descrito de forma dramática na história da medicina. Somente em 1884, através de Lasegue e Gull teve sua patologia formulada de modo compreensível. Há menos de trezentos anos, em 1694, Richard Morton apresentou o sintoma como uma forma de consumpção nervosa causada por ansiedade e tristeza. Também a anorexia mostrava-se como uma parte de um complexo sintomatológico maior e não era só ligado às mulheres.

Morton relata o caso de uma jovem de 18 anos, que sofrendo de resfriamento do corpo, completa supressão da menstruação e dada a desmaios frequentes, lembrava um "esqueleto com pele', cuja magreza nada tinha a ver com tosse, febre ou problemas respiratórios.

A doença, na ausência de estudos e pesquisas complementares, atravessou um largo período sem apresentar descobertas relevantes. Por volta de 1890, a questão mostrou-se bem próxima ao quadro atual, embora Laségue e Gull nada afirmassem quanto ao desejo manifesto de emagrecer como uma exigência de um padrão estético. Nos dias de hoje, dá-se destaque muito maior à manifestação desse desejo.

Raimbault e Eliacheff, duas psicanalistas francesas, afirmaram que não é somente das anoréxicas mas de uma grande maioria das mulheres que admiram-nas por levarem tão a sério a vontade de emagrecer.

A paciente anoréxica diferencia-se da mulher atual pelo exagerado controle das necessidade alimentares e a flagelação imposta a si mesma decorrente da recusa em ingerir comida. Reconhece-se, obviamente, a questão cultural da influência de um padrão estético valorizado socialmente, porisso está longe de explicar a anorexia nervosa. Raimbaut e Eliacheff declaram: "As anoréxicas utilizam os valores que elas mesmas dispõem em determinados momentos da história e, esses valores são os valores dominantes da sociedade em que vivem. "Dentro de uma perspectiva social diferentes objetivos e raciocínios para o controle: O Catolicismo dos séculos XII ao XVII e a era pós-industrial. Flandrin e Montanari concluem que, até o final do século XIX, as mulheres, mesmo trabalhando arduamente, consumiam menos alimentos que os homens. Esta situação parece perdurar até o século XX.

Ao fazer-se o histórico das formulações referentes à anorexia, é necessário percorrer a parte da história, que vai da Idade Média até os dias atuais, paralelamente à história da Psiquiatria. Esta última acompanha a manifestação anoréxica, separando-a de seitas religiosas, elaborando amplos estudos dos sintomas através da fisiologia das pacientes, determinando o funcionamento psiquico e retornando, de novo, ao organicismo.

Nos anos que vão de 1200 a 1500, na Europa Medieval, muitas mulheres faziam prolongados jejuns e por conservarem-se vivas apesar do seu estado de inanição, eram tidas como santas ou milagrosas. O termo "anorexia santa" foi cunhada por Rudolph Bell que, valendo-se de uma moderna teoria psicológica que explicava o jejum, classificou-o como sintoma de anorexia. Muitas mulheres consideradas santas como Catarina de Siena e Margareth de Cortuna tinham padrões de comportamennto anoréxico que se assemelhavam a anorexia nervosa.

Bell afirma que existe um que atravessou os tempos e as mudanças sociais. Para ele, a anorexia santa e a nervosa faziam parte da imensa procura pela liberação da mulher nas sociedades predominantemente masculinas.

Uma pesquisadora da época medieval, Caroline Bynum, diz que Bell cometeu um erro ao considerar apenas um aspecto da vida das "santas'. O meio de expressar ideais religiosos funcionava através da prática alimentar. No jejum medieval, simbolizava os valores do povo, de elevação espiritual. A anoréxica moderna retrata o individualismo de nossa época, expressando-se num padrão estético socialmente aceito. Se um é ligado a devoção e crença religiosa, o outro é ligado a uma procura de perfeição de ideais físicos e não traz nenhum anseio espiritual. Nesse sentido, a ênfase de Caroline Byrum é maior do que a necessária à influência cultural. A psiquiatra busca, nas mais variadas manifestações do sintoma, as razões destas mulheres procurarem ideais, independente da época em que viviam e que exigiam um rígido controle de algo inerente a manutenção da vida e que faz do corpo um campo de indizíveis tormentos.

As "doenças da alma" são interesses que o Renascimento traz à tona. Espíritos conturbados, embora atrelados a uma visão religiosa, começam a ganhar conotações científicas. Forças de naturezas inexplicáveis que agem no organismo humano são vistas como emanações do demônio, afirma Etienne Trillat em História da Histeria (Editora Escuta, 1991). Os jejuns prolongados tornam as mulheres vítimas de possessões diabólicas. A renúncia ao ato de comer, que na Idade Média era forma de devoção, transforma-se em manifestação herética ou insana. A incipiente medicina renascentista, ainda assim interessou-se pela sobrevivência das mulheres dentro de um quadro de completa inaníção, buscando uma explicação científica. Mas, muítas vezes, constatou-se fraudes e grosseiros simulacros.

Nos princípios do século XIX, Ann Moore teve seus dias de glória através da sua inapetência. Ela tinha sido abandonada pelo marido e, trabalhando como doméstica, foi seduzida pelo patrão, tendo dois filhos desta união. Apesar da sua conduta moral ser condenável, à época, Ann conquistou a simpatia da população quando foi cuidar de um homem com chagas na pele. Sua falta de apetite teve início, então, no momento em que ao comer algo, sentiu o repugnante odor exalado pelo dooente. Sua repulsa à comida tornou-se crônico. Mas sua simpatia e comportamento irrepreensivel cresceram aos olhos de todos.

Recebeu os ensinamentos bíblicos e articulando-os às suas idéias espirituais, passou a ter uma imagem de uma beata. Pessoas de todos os lugares vinham conhecê-la. Visitas a seu leito foram comercializadas. Ann Moore despertou tanta comoção nessa época que alguns incrédulos resolveram investigá-la. Descobriram que hidratava-se com um lenço umedecido com água e vinagre e recebia pedaços de alimento através dos beijos de sua filha. A fraude foi revelada, representando o fim da anorexia santa, que durou seis longos anos de abstinência. Mas o mistério da sobrevivência de Ann permanece: como conseguiu viver com tão pouca quantidade de alimentos?

Laségue e Gull, em 1884, descrevem o ocorrido, mas são as teses do primeiro que contém uma atualidade incontestável em sua proposta terapêutica.

A nosografla psiquiátrica denomina neurose para designar uma série de afecções do sistema nervoso com sede orgânica definida (como neurose digestiva, neurose cardíaca, etc.), afecções funcionais sem inflamação ou lesão da estrutura, que são os casos de histeria e hipocondria ou doenças do sistema nervoso. O conceito de neurose do século XIX está muito próxima às noções atuais de psicossomática, dizem Laplanche e Pontalis em seu vocabulário de Psicanálise. (Martins Fontes, 1985).

Laségue é um dos precursores da Psiquiatria. Conseguiu êxito profissional sendo representante de Estado e da psiquiatria e expert em medicina legal, que defendia o fim das responsabilidades civis aos portadores de desequilíbrios mentais. É nesssa época que a ascensão do método de asilamento nos manicômios encontra total apoio das entidades governamentais. O psiquiatra não oferecia a cura, mas tão somente um certificado de Estado para o asilo do enfermo. O médico do manicômio tinha regras definidas: Autoridade, Ordem e Castigo.

O reconhecimento profissional é pouco para Laségue e seu interesse volta-se para a medicina somática, onde obtém novo sucesso. Em 1869, é nomeado catedrático da Clínica Médica em Pitié, posto que ocupará até 1883, ano de sua morte. Durante essa época, faz imensas pesquisas da sintomatologia, a que denominou como anorexia histérica, sob ressalvas. Considerava o termo inanição histérica por determinar melhor a doença, mais delicada como também mais médica", em seu dizer. Nos estudos mais recentes, conclui-se que a anoréxica não sofre da falta de apetite, mas busca um controle da fome.

Laségue propõe uma forma de tratamento que leva em conta a relação da paciente, seu sintoma e a família. Para isso, abandona o poder e a autoridade médica para ir conquistando aos poucos a confiança de suas pacientes. A crença era de que essa não era uma enfermidade fatal e a cura poderia vir com o passsar do tempo. Ele considerava a anorexia uma das formas de apresentação da histeria. Diferenciava os níveis de intensidade na sintomatologia, que iriam de uma repulsa por determinada comida até a abstenção total de comer.

Etienne Trillat escreve, em 1991, que "o problema da histeria, na época, era de distingui-la da epilepsia, da neurastenia (neurose de manifestação somática) e da simulação (a histeria representa sem saber, porque acredita na realidade das situações)."

É preciso considerar que, àquele tempo, a Psiquiatria não dispunha das ferramentas teóricas desenvolvidas por Freud, como a noção de inconsciente, fantasia, recalcamento, conflito defensivo, etc. Laségue vê nas anoréxicas uma obstinação em alcançar um propósito, em comparação as suas pacientes acometidas de doenças gástricas.

A anoréxica, por sua vez, vai mais além: "elabora uma hipótese teórica desenvolvida com uma lógica irrefutável, até suas conseqüências mais extremas", observa ele.

A anoréxica moderna retrata o individualismo de nossa época, expressando-se
num padrão estético socialmente aceito. Se um é ligado a devoção e crença
religiosa, o outro é ligado a uma procura de perfeição de ideais físicos e não traz
nenhum anseio espiritual.

Observa uma perversão do sistema nervoso central, que, no sentido moral, está associada a uma escolha consciente entre passar por enferma ou por caprichosa. A histérica opta pela primeira alternativa e parece gozar de um contentamennto patológico. A anoréxica, por sua vez, vai mais além: "elabora uma hipótese teórica desenvolvida com uma lógica irrefutável, até suas connseqüências mais extremas", observa ele "Este pode ser o ponto de partida de um delírio. Não se espantem ao ver-me, ao contrário de nossos hábitos, estabelecer um paralelo constante entre o estado mórbido da histeria e as preocupações de seus próximos. Ambos os termos são solidários e obter-se-ia uma noção errônea da doença ao limitarmos o exame à doente O meio em que vive a paciente exerce uma inftuência que seria igualmente lamentável ignorar ou desconhecer", escreve.

Entre 1914 a 1937, a anorexia foi tratada como uma enfermidade endócrina. Um número razoável de psicanalistas pesquisam os mecanismos intrínsecos da enfermidade e a pesquisa orgânica sai vitoriosa.

A investigação toma novos rumos, em 1965. As perturbações corporais ganham destaque. É na imagem física que está o conflito e não mais nas funções alimentares. Através do sintoma, a anorexia mostra sua incapacidade de assumir transformações próprias da adolescência. Hilde Bruch ganha a admiração dos analistas. Sua finalidade terapêutiica é a aquisição, por parte dos pacientes, de "suas próprias capacidades, seus recursos, suas atitudes interiores para pensar, julgar e sentir." Ela propõe uma terapêutica condutivista, levando em conta o processo do sujeito.

Nos princípios dos anos 80, a convergência dos vários campos de estudos para englobar os inúmeros fatores predisponentes (de ordem individual ou familiar), de elementos desencadeantes e de fatores perpetuantes.

Atualmente, o desenvolvimennto de uma linha de pesquisa para medir a eficiência dos modelos psicoterápicos é o grande desafio que a ciência enfrenta. Trabalhanndo com parâmetros objetivos na análise dos dados como melhora dos sintomas, ganho de peso, etc., médicos e psiquiatras têm obtido algum sucesso. Mas a eficácia a longo prazo ainda é duvidosa.

A enfermidade está relacionada a problemas sociais, morais e científicos de cada época em que se manifesta. Conseqüentemente, as mulheres acometidas deste mal parecem-se com heroínas, santas ou pacientes, em seu devido tempo. Elas montam um cenário trágico, pondo em evidência as suas próprias vidas.


Fonte: Soraia Bento Gorgati ("Corpos Desencarnados - Um histórico da anorexia") - Revista Intrigante


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sábado, 4 de dezembro de 2010

A DOR




Tudo o que vive neste mundo, natureza, animal, homem, sofre e, todavia, o amor é a lei do Universo e por amor foi que Deus formou os seres. Contradição aparentemente horrível, problema angustioso, que perturbou tantos pensadores e os levou à dúvida e ao pessimismo.
O animal está sujeito à luta ardente pela vida. Entre as ervas do prado, as folhas e a ramaria dos bosques, nos ares, no seio das águas, por toda a parte desenrolam-se dramas ignorados. Em nossas cidades prossegue sem cessar a hecatombe de pobres animais inofensivos, sacrificados às nossas necessidades ou entregues nos laboratórios ao suplício da vivissecção*.
Quanto à Humanidade, sua história não é mais que um longo martirológio. Através dos tempos, por cima dos séculos, rola a triste melopéia dos sofrimentos humanos; o lamento dos desgraçados sobre com uma intensidade dilacerante, que tem a regularidade de uma vaga.
A dor segue todos os nossos passos; espreita-nos em todas as voltas do caminho. E, diante desta esfinge que o fita com seu olhar estranho, o homem faz a eterna pergunta: Por que existe a dor?
É, no que lhe concerne, uma punição, uma expiação, como o dizem alguns? É a reparação do passado, o resgate das faltas cometidas? Fundamentalmente considerada, a dor é uma lei de equilíbrio e educação. Sem dúvida, as falhas do passado recaem sobre nós com todo o seu peso e determinam as condições de nosso destino. O sofrimento não é, muitas vezes, mais do que a repercussão das violações da ordem eterna cometidas; mas, sendo partilha de todos, deve ser considerado como necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condição do progresso. Todos os seres têm de, por sua vez, passar por ele. Sua ação é benfazeja para quem sabe compreendê-lo; mas, somente podem compreendê-lo aqueles que lhe sentiram os poderosos efeitos. É principalmente a esses, a todos aqueles que sofrem, têm sofrido ou são dignos de sofrer que dirijo estas páginas.
A dor e o prazer são as duas formas extremas da sensação. Para suprimir uma ou outra seria preciso suprimir a sensibilidade. São, pois, inseparáveis em princípio e ambos necessários à educação do ser, que, em sua evolução, deve experimentar todas as formas ilimitadas, tanto do prazer como da dor.
A dor física produz sensações; o sofrimento moral produz sentimentos.
Mas, como já vimos, no sensório íntimo, sensação e sentimento confundem-se e são uma só e mesma coisa.
O prazer e a dor estão, pois, muito menos nas coisas externas do que em nós mesmos; incumbe, pois, a cada um de nós, regulando suas sensações, disciplinando seus sentimentos, dominar umas e outras e limitar-lhes os efeitos.
Epíteto dizia: “As coisas são apenas o que imaginamos que são.” Assim, pela vontade podemos domar, vencer a dor ou, pelo menos, fazê-la redundar em nosso proveito, fazer dela meio de elevação.
A idéia que fazemos da felicidade e da desgraça, da alegria e da dor, varia ao infinito segundo a evolução individual. A alma pura, boa e sábia não pode ser feliz à maneira da alma vulgar. O que encanta uma, deixa a outra indiferente. À medida que se sobe, o aspecto das coisas muda. Como a criança que, crescendo, deixa de lado os brinquedos que a cativaram, a alma que se eleva procura satisfações cada vez mais nobres, graves e profundas. O Espírito que julga com superioridade e considera o fim grandioso da vida achará mais felicidade, mais serena paz num belo pensamento, numa boa obra, num ato de virtude e até na desgraça que purifica, do que em todos os bens materiais e no brilho das glórias terrestres, porque estas o perturbam, corrompem, embriagam ficticiamente.
É muito difícil fazer entender aos homens que o sofrimento é bom. Cada qual quereria refazer e embelezar a vida à sua vontade, adorná-la com todos os deleites, sem pensar que não há bem sem dor, ascensão sem suores e esforços.
O gênio não é somente o resultado de trabalhos seculares; é também a apoteose, a coroação de sofrimento. De Homero a Dante, a Camões, a Tasso, a Mílton, todos os grandes homens, como eles, têm sofrido. A dor fez-lhes vibrar a alma, inspirou-lhes a nobreza dos sentimentos, a intensidade da emoção que souberam traduzir com os acentos do gênio e que os imortalizou. É na dor que mais sobressaem os cânticos da alma. Quando ela atinge as profundezas do ser, faz de lá saírem os gritos eloqüentes, os poderosos apelos que comovem e arrastam as multidões.
Dá-se o mesmo com todos os heróis, com todos os grandes caracteres, com os corações generosos, com os espíritos mais eminentes. Sua elevação mede-se pela soma dos sofrimentos que passaram. Ante a dor e a morte, a alma do herói e do mártir revela-se em sua beleza comovedora, em sua grandeza trágica, que toca às vezes o sublime e o nimba de uma luz inextinguível.
Suprimi a dor e suprimireis, ao mesmo tempo, o que é mais digno de admiração neste mundo, isto é, a coragem de suportá-la. O mais nobre ensinamento que se pode apresentar aos homens não é a memória daqueles que sofreram e morreram pela verdade e pela justiça? Há coisa mais augusta, mais venerável que seus túmulos? Nada iguala o poder moral que daí provém. As almas que deram tais exemplos avultam aos nossos olhos com os séculos e parecem, de longe, mais imponentes ainda; são outras tantas fontes de força, mais imponentes ainda; são outras tantas fontes de força e beleza onde vão retemperar-se as gerações. Através do tempo e do espaço, sua irradiação, como a luz dos astros, estende-se sobre a Terra. Sua morte gerou a vida, e sua lembrança, como aroma sutil, vai lançar em toda a parte a semente dos entusiasmos futuros. É, como nos ensinaram essas almas, pela dedicação, pelo sofrimento dignamente suportados que se sobem os caminhos do céu. A história do mundo não é outra coisa mais que a sagração do espírito pela dor. Sem ela, não pode haver virtude completa, nem glória imperecível.
É necessário sofrer para adquirir e conquistar. Os atos de sacrifício aumentam as radiações psíquicas. Há como que uma esteira luminosa que segue, no Espaço, os Espíritos dos heróis e dos mártires.
Aqueles que não sofreram, mal podem compreender estas coisas, porque, neles, só a superfície do ser está arroteada, valorizada. Há falta de largueza em seus corações, de efusão em seus sentimentos; seu pensamento abrange horizontes acanhados. São necessários os infortúnios e as angústias para dar à alma seu aveludado, sua beleza moral, para despertar seus sentidos adormecidos. A vida dolorosa é um alambique onde se destilam os seres para mundos melhores. A forma, como o coração, tudo se embeleza por ter sofrido. Há, já nesta vida, um não sei quê de grave e enternecido nos rostos que as lágrimas sulcaram muitas vezes. Tomam uma expressão de beleza austera, uma espécie de majestade que impressiona e seduz.
Michelangelo adotara como norma de proceder os preceitos seguintes:
“Concentra-te e faze como o escultor faz à obra que quer aformosear. Tira o supérfluo, aclara o obscuro, difunde a luz por tudo e não largues o cinzel.” Máxima sublime, que contém o princípio de todo o aperfeiçoamento íntimo. Nossa alma é nossa obra, com efeito, obra capital e fecunda, que sobrepuja em grandeza todas as manifestações parciais da Arte, da Ciência, do gênio.
A dor não fere somente os culpados. Em nosso mundo, o homem honrado sofre tanto como o mau, o que é explicável. Em primeiro lugar, a alma virtuosa é mais sensível por ser mais adiantado o seu grau de evolução; depois, estima muitas vezes e procura a dor, por lhe conhecer todo o valor.
A dor física é, em geral, um aviso da Natureza, que procura preservar-nos dos excessos. Sem ela, abusaríamos de nossos órgãos até ao ponto de os destruirmos antes do tempo. Quando um mal perigoso se vai insinuando em nós, que aconteceria se não lhe sentíssemos logo os efeitos desagradáveis? Iria cada vez lavrando mais, invadir-nos-ia e secaria em nós as fontes da vida. Às almas fracas, a doença ensina a paciência, a sabedoria, o governo de si mesmas. Às almas fortes pode oferecer compensações de ideal, deixando ao Espírito o livre vôo de suas aspirações até ao ponto de esquecer os sofrimentos físicos.
A ação da dor não é menos eficaz para as coletividades do que o é para os indivíduos. Não foi graças a ela que se constituíram os primeiros agrupamentos humanos? Não foi a ameaça das feras, da fome, dos flagelos que obrigou o indivíduo a procurar seu semelhantes para se lhe associar? Foi da vida comum, dos sofrimentos comuns, da inteligência e labor comuns que saiu toda a Civilização, com suas artes, ciências e indústrias!
A dor é como uma asa dada à alma escravizada pela carne para ajudá-la a desprender-se e a elevar-se mais alto. Por trás da dor, há alguém invisível que lhe dirige a ação e a regula
segundo as necessidades de cada um, com uma arte, uma sabedoria infinitas, trabalhando por aumentar nossa beleza interior nunca acabada, sempre continuada, de luz em luz, de virtude em virtude, até que nos tenhamos convertido em Espíritos celestes. Por mais admirável que possa parecer à primeira vista, a dor é apenas um meio de que usa o Poder Infinito para nos chamar a si e, ao mesmo tempo, tornar-nos mais rapidamente acessíveis à felicidade espiritual, única duradoura. É, pois, realmente, pelo amor que nos tem, que Deus envia o sofrimento. Fere-nos, corrige-nos como a mãe corrige o filho para educá-lo e melhorá-lo; trabalha incessantemente para tornar dóceis, para purificar e embelezar nossas almas, porque elas não podem ser verdadeiras, completamente felizes, senão na medida correspondente às suas perfeições.
À medida que avançamos na vida, as alegrias diminuem e as dores aumentam; o corpo e o fardo da vida tornam-se mais pesados. Quase sempre a existência começa na felicidade e finda na tristeza. O declínio traz, para a maior parte dos homens, o período moroso da velhice com suas lassidões, enfermidades e abandonos. As luzes apagam-se; as simpatias e as consolações retiram-se; os sonhos e as esperanças desvanecem-se; abrem-se, cada vez mais numerosas, as covas em roda de nós. É então que vêm as longas horas de imobilidade, inação, sofrimento; obrigam-nos a refletir, a passar muitas vezes em revista os atos e as lembranças de nossa vida. É uma prova necessária para que a alma, antes de deixar seu invólucro, adquira a madureza, o critério e a clarividência das coisas que serão o remate de sua carreira terrestre. Por isso, quando amaldiçoamos as horas aparentemente estéreis e desoladas da velhice enferma, solitária, desconhecemos um dos maiores benefícios que a Natureza nos roporciona; esquecemos que a velhice dolorosa é o cadinho onde se completam as purificações.
Nesse momento da existência, os raios e as forças que, durante os anos da juventude e da virilidade, dispersávamos para todos os lados em nossa atividade e exuberância, concentram-se, convergem para as profundezas do ser, ativando a consciência e proporcionando ao homem mais sabedoria e juízo. Pouco a pouco vai-se fazendo a harmonia entre os nossos pensamentos e as radiações externas; a melodia íntima afina com a melodia divina.
Há, então, na velhice resignada, mais grandeza e mais serena beleza que no brilho da mocidade e no vigor da idade madura. Sob a ação do tempo, o que há de profundo, de imutável em nós, desprende-se e a fronte dos velhos aureola-se de claridades do Além.
A todos aqueles que perguntam: Para que serve a dor? Respondo: Para polir a pedra, esculpir o mármore, fundir o vidro, martelar o ferro. Serve para edificar e ornar o templo magnífico, cheio de raios, de vibrações, de hinos, de perfumes, onde se combinam todas as artes para exprimirem o divino, prepararem a apoteose do pensamento consciente, celebrarem a libertação do Espírito!
E vede qual o resultado obtido! Com o que eram em nós elementos esparsos, materiais informes e, às vezes até, o vicioso e decaído, ruínas e destroços, a dor levantou, construiu no coração do homem um altar esplêndido à Beleza Moral, à Verdade Eterna!
A dor será necessária enquanto o homem não tiver posto o seu ensamento e os seus atos de acordo com as leis eternas; deixará de se fazer sentir logo que se fizer a harmonia. Todos os nossos males provêm de agirmos num sentido oposto à corrente divina; se tornarmos a entrar nessa corrente, a dor desaparece com as causas que a fizeram nascer.
Por muito tempo ainda a Humanidade terrestre, ignorante das leis superiores, inconsciente do futuro e do dever, precisará da dor para estimulá-la na sua via, para transformar o que nela predomina, os instintos primitivos e grosseiros, em sentimentos puros e generosos. Por muito tempo terá o homem de passar pela iniciação amarga para chegar ao conhecimento de si mesmo e do alvo a que deve mirar. Presentemente ele só cogita de aplicar suas faculdades e energias em combater o sofrimento no plano físico, a aumentar o bem-estar e a riqueza, a tornar mais agradáveis as condições da vida material; mas, será em vão. Os sofrimentos poderão variar, deslocar-se,mudar de aspecto; a dor persistirá, enquanto o egoísmo e o interesse regerem
as sociedades terrestres, enquanto o pensamento se desviar das coisas profundas, enquanto a flor da alma não tiver desabrochado. Ó vós todos que vos queixais amargamente das decepções, das pequeninas misérias, das tribulações de que está semeada toda a existência e que vos
sentis invadidos pelo cansaço e pelo desânimo: se quereis novamente achar a resolução e a coragem perdidas, se quereis aprender a afrontar alegremente a adversidade, a suportar resignados a sorte que vos toca, lançai um olhar atento em roda de vós!
Considerai as dores tantas vezes ignoradas dos pequenos, dos deserdados, os sofrimentos de milhares de seres que são homens como vós; considerai estas aflições sem conta; cegos privados do raio que guia e conforta, paralíticos impotentes, corpos que a existência torceu, ancilosou, quebrou, que padecem de males hereditários! E os que carecem do necessário, sobre quem sopra, glacial, o inverno! Pensai em todas essas vidas tristes, obscuras, miseráveis; comparai vossos males muitas vezes imaginários com as torturas de vossos irmãos de dor, e julgar-vos-eis menos infelizes,ganhareis paciência e coragem e de vosso coração descerá sobre todos os peregrinos da vida, que se arrastam acabrunhados no caminho árido, o sentimento de uma piedade sem limites e de um amor imenso!
Às vezes julgamo-nos capazes e dignos de chegar às grandes altitudes, e,sem o sabermos, mil cadeias acorrentam-nos ainda a este planeta inferior.
Não compreendemos o amor em sua essência sublime, nem o sacrifício como é praticado nas Humanidades purificadas, em que ninguém vive para si ou para alguns, mas para todos. Ora, só os que estão preparados para tal vida podem possuí-la. Para nos tornarmos dignos dela, será preciso desçamos de novo ao cadinho, à fornalha, onde se fundirão como cera as durezas do nosso coração.
E, quando tiverem sido rejeitadas, eliminadas as escórias de nossa alma, quando nossa essência estiver livre de liga, então Deus nos chamará para uma vida mais elevada, para uma tarefa mais bela.
O mal moral existe na alma somente em suas dissonâncias com a harmonia divina. Mas, à medida que ela sobe para uma claridade mais viva, para uma verdade mais ampla, para uma sabedoria mais perfeita, as causas do sofrimento vão-se atenuando, ao mesmo tempo que se dissipam as ambições vãs, os desejos materiais. E de estância em estância, de vida em vida, ela penetra na grande luz e na grande paz onde o mal é desconhecido e onde só reina o bem!


(Léon Denis - Obra: O Problema do Ser, do Destino e da Dor)


texto - http://irmaosfraternos.blogspot.com (Cristina)

imagem - conexoesdeluz.blogspot.com

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O CÉREBRO PRIMITIVO DO ANENCÉFALO


Dra. Marlene Nobre

Colegas da AME-Brasil (Associação Médico-Espírita do Brasil) têm se sur-preendido, tanto quanto eu mesma, com as colocações de confrades, em conversas nas Casas Espíritas, em artigos na internet, ou mesmo em cartas, a favor do aborto do anencéfalo.

Muitos alegam que o feto nessas condições não possui cérebro, sendo óbvio, portanto, que não tenha nenhum espírito ligado a ele. Este argumento, porém, não tem o respaldo da embriologia. Durante a sua formação, o feto anencéfalo pode ter, por distúrbios ou falhas do sistema vascular, a paralisação do desenvolvimento do Sistema Nervoso Central em pontos distintos. Assim, pode ter um único hemisfério cerebral, não ter nenhum, mas, sem dúvida, terá o diencéfalo ou as estruturas reptilianas responsáveis pelas funções primitivas e inconscientes. Tanto é verdade que o anencéfalo tem todas as atividades instintivas básicas preservadas, como o pulsar do coração e a possibilidade de expandir os pulmões, nos movimentos respiratórios normais. Não se pode dizer, portanto, que ele não tem cérebro, nem tampouco que morre ou pára de respirar ao nascer. Há inúmeros anencéfalos que persistem vivos por horas ou dias, após o nascimento, mesmo desconectados do cordão umbilical, justamente porque possuem o cérebro primitivo, responsável pelas funções básicas instintivas.
Perante o anencéfalo é como se estivéssemos diante de uma pessoa adulta em estado de coma profundo: o coração bombeia, os pulmões recebem a carga necessária, os órgãos trabalham, mas ele não tem consciência.

Com o Espiritismo aprendemos que a alma secreta os pensamentos de maneira extra-física e é muito mais importante que o próprio cérebro orgânico, porque o comanda, ainda que precariamente nos casos de lesões graves, sobrevivendo à sua morte. É o que acontece nos vários graus do estado de coma.

Se somos espíritas, a explicação para os fetos anencéfalos é muito mais lógica e racional. Não podemos nos esquecer de que só o Espírito tem capacidade de agregar matéria. Se não tivesse um Espírito no comando, o anencéfalo não poderia formar os seus próprios órgãos − e o fazem a tal ponto que eles são cogitados para transplantes −, não cumpriria o seu metabolismo basal, e não teria preservadas as suas funções vitais.

O Espírito expressa-se através do perispírito ou do corpo espiritual e este, por sua vez, modela o corpo físico. Se há erros ou deficiências na modelagem, isto significa que o Espírito deformou o seu perispírito por faltas cometidas em outras vidas. Assim como podem ocorrer deficiências nos mais variados órgãos, a questão não é diferente em relação ao cérebro.

No caso do anencéfalo, o perispírito está lesado, principalmente, em seu centro de força cerebral que é responsável pela percepção (visão, audição, tato etc), pela inteligência (palavra, cultura, arte, saber) e atua no córtex. O Espírito com este tipo de má-formação errou, portanto, na aplicação da inteligência e da percepção.
Os confrades favoráveis ao aborto do anencéfalo alegam que nele não há Espírito destinado à reencarnação conforme explica "O Livro dos Espíritos" (São Paulo: Petit Editora). Aqui, detectamos um erro clássico, não se pode basear unicamente em uma resposta dos instrutores espirituais. Levantemos todas as respostas que eles nos dão acerca da formação dos seres humanos e destaquemos as mais importantes para a elucidação deste assunto.

Na questão 344, eles afirmam que a união da alma com o corpo dá-se no momento da concepção; um pouco mais adiante, na pergunta 356, advertem que há corpos para os quais nenhum Espírito está destinado, explicando que isto acontece como prova para os pais. E ainda no desdobramento desta questão enfatizam que a criança somente será um ser humano se tiver um espírito encarnado. Se juntarmos todas estas respostas, concluiremos que os corpos para os quais poderíamos afirmar que nenhum espírito estaria destinado seriam os dos fetos teratológicos, monstruosos, que não têm nenhuma aparência humana, nem órgãos em funcionamento. Como vimos, nada disto se aplica ao anencéfalo, porque o espírito comanda, ainda que precariamente, um organismo vivo.

Resgate
Há ainda outros equívocos no raciocínio dos que são favoráveis ao aborto. Alguns ponderam que, tendo a mãe ou o casal nascido numa época em que a ciência já pode detectar prematuramente o problema, eles teriam o direito de evitar essa expiação, promovendo o aborto. Aqui, a pergunta é inevitável: desde quando se evita o sofrimento, provocando a morte de um ser indefeso? Jamais o aborto aliviará o resgate de alguém, muito pelo contrário, somente o agravará. Só haveria um meio de se adiar esse compromisso, seria pelo impedimento da concepção, porque, quando a vida se manifesta no zigoto, entra em jogo um Poder Superior, que é responsável por ela, e ao qual devemos obediência e respeito.

O raciocínio, portanto, deve ser outro: diante do feto deficiente, é preciso que os pais pensem no grau de comprometimento que têm para com esta alma doente, e nos esforços que devem empreender para ajudá-la a recuperar-se. Também não há nenhuma razão para se invocar direitos que não existem, como o da mãe, o do pai, o da equipe médica ou o do Estado, de provocar o aborto, porque o anencéfalo constitui-se em um organismo humano vivo. Eliminá-lo, portanto, é crime.
A consciência responde-nos, portanto, que a única atitude compatível com a lei do amor é a da misericórdia, a da compaixão, para com o feto anencéfalo.

*Médica Ginecologista. Presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil e Internacional. A autora de diversos livros - entre eles "O clamor da vida", também é diretora responsável do jornal "Folha Espírita" no qual o texto acima foi originalmente publicado


texto - http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo2334.html

imagem - internet

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