segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A PEDAGOGIA DE JESUS


O pensamento pedagógico, orientador dos processos educacionais superiores, resulta da reflexão sobre os problemas da educação. Jesus não era um educador no sentido comum da palavra. Não possuía, como homem, nenhum experiência educativa. Sua profissão era a do pai, segundo a tradição familiar: carpinteiro. Deixando de lado os problemas referentes à sua origem e natureza divinas e encarando humanamente os fatos poderíamos falar numa Pedagogia de Jesus?

A História nos mostra o aparecimento de gênios que superaram por si mesmos as deficiências de sua formação cultural e deram lições aos mestres qualificados. Esse é um capítulo que constitui verdadeiro mistério da Ontogênese, a ciência que trata da formação dos seres. Mas no Espiritismo o problema se esclarece facilmente com a lei da reencarnação. Esta lei nos explica que os espíritos se encarnam em diferentes graus de evolução, o que por sua vez explica as vocações que superam o meio cultural em que nascem certas criaturas e consequentemente resolve o problema da genialidade.

O que revela a existência de um pensamento pedagógico na orientação educacional dada por um mestre não são os seus títulos, são as coordenadas e a estrutura do seu ensino. Toda pedagogia se funda numa filosofia. No caso de Jesus a filosofia básica é a dos Evangelhos. Essa filosofia, que é a própria essência do Cristianismo, fornece a Jesus as diretrizes e dela resulta o reconhecimento, já largamente efetuado no plano pedagógico, de uma verdadeira Pedagogia de Jesus.

Francisco Arroyo, em sua monumental "História Geral da Pedagogia", sustenta o seguinte: "Com o Cristianismo aparece um novo tipo histórico de educação. –– Jesus é o modelo perfeito do mestre cristão. Clemente de Alexandria chama-o de Pedagogo da Humanidade". O mesmo autor nos fornece esta breve mas expressiva lista de obras a respeito: "Cristo como mestre e educador, de S. Raue, Berlim, 1902; "Didática de Cristo", Metzler, publicado em Kempton, 1908; "Jesus, educador de seus apóstolos", G. Delbrel, Paris, 1916".

Os historiadores da Educação e da Pedagogia, entre os quais Monroe, Hubert, Luzuriaga, Marrou, Riboulet, Messer, Bonatelli, todos reconhecem a existência de uma Pedagogia de Jesus que deu origem às várias formas da Pedagogia Cristã, nascida, como nota Arroyo, entre as formas pedagógicas da Humanitas latina e da Paidéia grega. Não se trata, pois, de uma novidade ou de um problema controverso, mas de assunto pacífico no campo pedagógico.

Fundamentos pedagógicos

Os fundamentos pedagógicos do ensino de Jesus estão na sua concepção do mundo, abrangendo o homem e a vida. Essa cosmovisão se opõe à concepção pagã e à concepção judaica. Jesus, assim, não é apenas um reformador religioso, mas um filósofo na plena acepção da palavra. Ele modifica a visão antiga do mundo e essa modificação atinge a todas as filosofias do tempo, não obstante os pontos de concordância existentes com várias delas. Bastaria isso para nos mostrar, à luz da Ciência da Educação, a legitimidade da tese que inclui Jesus entre os grandes educadores e pedagogos, colocando-o mesmo à frente de todos. Não se trata de uma posição religiosa, mas de uma constatação científica.

A comparação entre a idéia de Deus do Velho Testamento e a idéia de Deus do Novo Testamento mostra-nos a diferença entre o mundo judeu e o mundo cristão. O Deus de Jesus é o pai de todas as criaturas, sem distinção de raças ou posições sociais. Essa paternidade universal determina a fraternidade universal. O Deus-Pai do Evangelho não é vingativo nem irado, não comanda exércitos para destruir povos e nações, mas ama a todos os seus filhos, quer a salvação de todos e a todos concede o seu perdão generoso. Como diria Paulo mais tarde, o tempo da lei e da força fora substituído pelo tempo da graça e do amor.

Os deuses olímpicos, cheios de paixões humanas, e os deuses brutais dos fenícios e dos babilônios, os deuses monstruosos dos egípcios, dos indianos e dos chineses são substituídos pelo Deus-amor e paternal do Evangelho. O próprio Jeová irascível dos judeus, ciumento e vingativo, perde o seu poder sobre o mundo. Os pobres, os doentes, os sofredores, os escravos deixam de ser os condenados dos deuses e passam à categoria de bem-aventurados. A virtude não está mais na bravura e no heroísmo sangrento de gregos e romanos, mas na paciência e no perdão. Dar é melhor do que conquistar, humilhar-se é melhor do que vangloriar-se, responder ao mal com o bem é a regra da verdadeira pureza espiritual . Os mortos não estão mortos, nem mergulhados nas entranhas da terra à espera do juízo final, mas estão mais vivos que os vivos.

Da velha lei judaica não é modificado um só ponto referente ao bom procedimento do homem da Terra, mas tudo o mais é substituído pelo contrário. O culto a Deus é virado pelo avesso: nada mais de sacrifícios materiais, de rituais simbólicos, de privilégios sacerdotais. O único sacrifício é o das más paixões, do orgulho, da arrogância, da cupidez. A vaidade e a ambição devem dar lugar à humildade e à renúncia. A ignomínia da cruz transforma-se em santificação. As pitonisas e os oráculos são substituídos pelas manifestações mediúnicas das reuniões evangélicas, como vemos em Paulo, I Coríntios.

O objetivo da vida humana não é mais a conquista do céu pelo violência, mas a implantação do Reino de Deus na Terra. As riquezas e o poder não são coisas desejáveis e invejáveis, mas fascinações perigosas que podem levar a criatura humana à perdição. As crianças não são desprezíveis, mas as preferidas de Deus, e para nos tornarmos dignos d'Ele temos de nos fazer crianças. Matar os pequeninos, os inocentes, os indefesos não é prova de valentia e de coragem, mas crime aos olhos de Deus.

Não se consegue a salvação pela obediência à lei e pelos rituais do culto (as obras da lei), mas pelo aperfeiçoamento do espírito, pela purificação do coração, pela educação integral da criatura. Por isso é preciso nascer de novo –– não em forma simbólica, mas naquele sentido que Nicodemos não podia compreender: nascer da água e do espírito (a água era o símbolo da matéria, do poder fecundante e gerador), nascer para se redimir, não da desobediência de Adão e Eva, mas dos seus próprios erros, como aconteceu ao cego de Jericó, como sucedera a Elias reencarnado em João Batista.

A pedagogia da esperança

Desses princípios fundamentais resultava logicamente a Pedagogia da Esperança. A educação não era mais o ajustamento do ser aos moldes ditados pelos rabinos do Templo, a imposição de fora para dentro da moral farisaica, mas o despertar das criaturas para Deus através dos estímulos da palavra e do exemplo. A salvação pela graça não era um privilégio de alguns, mas o direito de todos. Jesus ensinava e exemplificava e seus discípulos faziam o mesmo. Chamava as crianças a si para abençoá-las e despertar-lhes, com palavras de amor, os sentimentos mais puros. Nem os apóstolos entenderam aquela atitude estranha: um rabi cheio da sabedoria da Torá perder tempo com as crianças ao invés de ensinar coisas graves aos homens. Mas Jesus lhes disse: "Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus".

Sua condição de mestre é afirmada por ele mesmo: "Vós me chamais mestre e senhor, e dizeis bem, porque eu o sou". Sim, ele é o mestre do Mundo, o senhor dos homens, de todos os homens, sem qualquer distinção. Cada criatura humana é para ele um educando, um aluno, como escreveu o Dr. Sérgio Valle: "matriculado na Escola da Terra". Assim, a Terra não é mais o paraíso dos privilegiados e o inferno dos condenados. É a grande escola em que todos aprendemos, em que todos nos educamos. A Pedagogia da Esperança oferece a todos a oportunidade de salvação, porque a salvação está na educação.

Vejamos este expressivo trecho de Francisco Arroyo em sua "História Geral da Pedagogia":

"Jesus possui todas as qualidades do educador perfeito. Os recursos pedagógicos de que se serve conduzem o educando, com feliz e profunda alegria, à verdade essencial dos seus ensinos. Por isso pode sacudir e despertar a consciência adormecida do seu próprio povo, asfixiado sob o peso excessivo da lei mosaica e da política imperialista da época".

"Os ensinos de Jesus são sempre adaptados aos ouvintes. Ele pronuncia as suas palavras de forma compreensível para todos, sempre nas ocasiões mais oportunas. Recorre freqüentemente às imagens e parábolas, dando maior plasticidade às suas idéias".

"A Pedagogia do mestre é também gradual. Não cai jamais em precipitações que possam fazer malograr o aprendizado. Semeia e espera que as sementes germinem e frutifiquem: Tenho ainda muito a vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora".

"Como todo educador genial, Jesus emprega em alto grau a arte de interrogar, de expor, de excitar o interesse dos discípulos. Seus colóquios decorrem sempre num ambiente de incomparável simpatia. É digno, severo, paciente, segundo as circunstâncias e os interlocutores".

Os seus ensinos são claros e intuitivos. Cria figuras literárias e busca exemplos da vida cotidiana para esclarecer o seu pensamento. Aperfeiçoou a forma da parábola e revestiu-a de incomparável esplendor" (Riboulet).

"Seus ensinos têm um toque de autoridade (Eu sou o caminho , a verdade e a vida, todo o poder me foi concedido). Mas exerce com suavidade a sua autoridade. Responde com bondade aos contraditores de boa fé e com energia aos que querem combatê-lo".

A revolução pedagógica

Este quadro da didática de Jesus (aplicação da sua pedagogia) mostra-nos as raízes da revolução pedagógica do Cristianismo. Costuma-se dizer, e com razão, que Rousseau produziu uma revolução copérnica na educação. Mas a seiva de toda a Pedagogia de Rousseau foi bebida na Pedagogia de Jesus. O "Emílio" começa por esta frase: "Tudo está certo ao sair das mãos do Criador". Os homens, para Rousseau, nascem bons e puros, pois Deus é bondade e pureza. Mas ao entrarem nas relações sociais do mundo sofrem a queda na maldade e na impureza. É o dogma judeu da queda de Adão e Eva racionalizado numa interpretação cristã. Para Jesus a criança é pura e boa, mas o contato com os homens vai deformá-la e os homens precisam voltar a ser crianças para entrar no Céu.

A descoberta copérnica da psicologia infantil por Rousseau corresponde à diferença estabelecida por Jesus entre a criança e o homem. A respeito de Rousseau pelo desenvolvimento natural e gradual da criança, que não deve ser perturbado por exigências prematuras do ensino, eqüivale à condenação de Jesus para todos aqueles que violentarem "um desses pequeninos". A educação natural de Rousseau, seguindo a graduação necessária do desenvolvimento psicológico e orgânico, lembra o respeito de Jesus pelas condições evolutivas do homem nos seus vários estágios, guardando os ensinos mais profundos para mais tarde. É o que Arroyo chama "o método agógico da Pedagogia de Jesus".

Uma comparação mais rigorosa e pormenorizada provaria de sobejo que é Jesus o pai e o verdadeiro inspirador da Pedagogia Moderna. Houve naturalmente o interregno do medievalismo, quando as interpretações errôneas do Cristianismo e as infiltrações de idéias judaicas e pagãs na escola cristã a deformaram. Mas essa fase já havia sido prevista pelo Mestre e esse fenômeno confirma o seu respeito pelas leis naturais da evolução humana. A parábola do grão de trigo, ensino dialético do processo histórico, é suficiente para demonstrar isso. A parábola do fermento que leveda a farinha é outra confirmação.

E dessas duas parábolas, reforçadas pela promessa do Espírito da Verdade, que seria enviado ao mundo para restabelecer os seus ensinos, ressalta que a Pedagogia Espírita é a própria ressurreição, no tempo devido e previsto no Evangelho, da Pedagogia de Jesus. A Educação Espírita que renasce em espírito e verdade.

José Herculano Pires


FONTE: Pedagogia Espírita, Edição EDICEL.

IMAGEM: Internet

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

KARDEC E DARWIN


José Reis Chaves

Kardec e Darwin foram dois grandes cientistas que vieram ao mundo no alvorecer do Século 19. O primeiro, um médico francês e aluno de Pestalozzi, foi o Codificador do Espiritismo, o segundo era um naturalista e fisiologista inglês. Kardec pesquisou a evolução dos espíritos, Darwin, a dos corpos biológicos.

Nós somos espíritos imortais. E o Nazareno disse que nós devemos buscar a perfeição de Deus, o Pai. Nós somos hoje os espíritos dos homens de ontem, inclusive os dos homens das cavernas. E depois de inúmeras reencarnações, chegamos à evolução e perfeição em que nos encontramos atualmente. Se não houvesse evolução e as reencarnações que a possibilitam, seríamos forçados a pensar que Deus foi muito injusto com aqueles espíritos de outrora dos homens da caverna, que só teriam vivido mais como bichos do que como seres humanos propriamente ditos! A evolução é, pois, uma lei natural tão real como o é a da Gravidade, e é até sagrada.

A Igreja, como afirma o sábio francês padre François Brune, acredita na vida após a morte, ou a chamada vida eterna, mas na prática, tem agido como se ela não existisse, pois não a estuda, e é até contrária ao seu estudo. A mesma coisa se pode dizer dos nossos irmãos protestantes. Isso nos faz lembrar do que o Mestre afirmou, ao referir-se aos sacerdotes judeus de sua época: "Não entram no reino dos céus, e não deixam outros entrarem!". É necessário, pois, que os católicos e protestantes despertem também para o estudo do espírito, e não só do corpo, como vêm fazendo há séculos, pois o espírito é mais importante do que o corpo. "A carne para nada aproveita, o que importa é o espírito que dá vida" (João 6, 63).

Foi revolucionário o livro de Darwin: "Da Origem das Espécies" (1859), principalmente porque ele entrou em choque com as idéias da interpretação literal da Bíblia, quando a exegese e a hermenêutica ainda eram muito elementares e tímidas. A Igreja estava, pois, sem força moral para enfrentar aquele poderoso materialismo efervescente, após a Revolução Francesa, o que se agravava mais ainda pelo fato de ela estar, justamente naquela época, deixando a Inquisição. Foi quando surgiram também os não menos revolucionários livros científicos e espiritualistas de Kardec, entre eles o "O Livro dos Espíritos" (1857), os quais deram um verdadeiro "chega-pra-lá" nas idéias materialistas e anti-religiosas de Darwin e de seus contemporâneos Marx e Compte. Por isso dizemos com o escritor e pastor presbiteriano do Rio de Janeiro, Neemias Marien": "O maior reformador do Cristianismo não é Lutero, mas Allan Kardec." De fato, até Kardec, não se tinha feito ainda um estudo racional e científico da Bíblia.

Darwin foi um dos grandes cientistas da evolução da vida material, e Kardec o foi da evolução da vida do espírito na matéria e fora da matéria!


texto - http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo1540.html

imagem - internet

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FILOSOFIA DA CIÊNCIA ESPÍRITA – IV - O ESPIRITISMO


Matheus Artioli Firmino


Kardec, o Galileu da Religião

No século XIX, como foi discutido no estudo anterior (Outubro), havia um movimento cultural bem definido. A Filosofia estabelecera-se como o ramo da reflexão humana, buscando as conseqüências dos fenômenos e, por análises sucessivas, remontar às causas. A Ciência tinha surgido inicialmente com Galileu ao propor um método de observações, repetições e, acima de tudo, interpretação matemática dos fenômenos. Mais tarde, muitos pensadores, "cientifizaram" diversas áreas do conhecimento, tornando-as de interpretação quantitativa. O Positivismo, uma corrente filosófica do século XIX, mostrara-se como uma "crença" de que todos os problemas humanos (sociais e morais) podem ser resolvidos apenas pela ciência e que as religiões, ainda grosseiramente não-racionais, deveria abandonar sua função consoladora para as ciências.

Os positivistas, porém, em sua maioria, eram bastante orgulhosos para mudar radicalmente seu padrão de idéias (paradigmas). Mas algo, no século XIX, abalou todos pilares conceituais da Ciência. Em 1848, enquanto a Europa estava em guerras nacionalistas internas, os Estados Unidos da América estavam em euforia. Nesse ano, foi descoberto ouro na Califórnia, acentuando o movimento migratório de pessoas de diversas áreas para o Oeste, além da imigração de estrangeiros. A família metodista Fox, John D. Fox (pai), Margareth (mãe), descolando-se do Canadá, mudara-se para a cidade de Hydisville, em busca de prosperidade. Ficaram em uma casa conhecidamente "mal-assombrada" pelos moradores locais. Pancadas e ruídos nos móveis, movimentos espontâneos de objetos, arremessos, tremores e trepidações eram freqüentes pela casa. Então, em 1848, as filhas do casal citado, as irmãs Margareth e Catherine, "desafiaram" a causa da perturbação, travando um diálogo codificado pelas pancadas. O inteligência identificando-se concordou em reproduzir suas pancadas em público. Mais tarde, toda a sociedade pensante nos Estados Unidos estavam investigando o fenômeno.

Alguns europeus interessados, mesmo sem presenciar o fenômeno, negaram a explicação oriunda da América de que as almas dos mortos eram a causa dos movimentos inteligentes espontâneos. Tentaram reproduzir o "espetáculo" da América com sucesso. Irradiando da França e da Alemanha, o estranho fato das "mesas girantes" ou "dança das mesas" tornou-se uma "febre" nos salões da Europa. Entreteve, por algum tempo, a curiosidade dos frívolos, até estes descobrirem outra moda. Contudo, as demonstrações desafiavam profundamente os positivistas. Como um corpo pesado poderia mover-se de tal forma, sem sequer alguém tocá-lo? Como soar batidas de dentro do móvel quando não há suspeita de fraude alguma? Como conceber pancadas combinando-se e produzindo respostas inteligentes, estranhas, desconhecidas e contraditória às idéias dos pesquisadores? Como aceitar que um corpo sólido atravessa outro? Como acreditar em aparições tangíveis de pessoas mortas formadas por "concentrações" de uma substância fluídica secretada de determinadas pessoas? E, o que mais confundia a negação dos positivistas, era a reprodução desses fenômenos diversos em diferentes lares e instituições, de diferentes países, de diferentes continentes, sob a sombra do Positivismo e da Ciência do século XIX racionalista.

Muitas explicações superficiais semi-racionais foram formuladas para negar a imortalidade da alma e a comunicação dos mortos, mas todas elas falharam e desapareceram devido a contradições intrínsecas e por não explicarem todos os fatos (ver O Livro dos Médiuns, item 36 e seguintes). Mesmo assim, até hoje, em pleno século XXI, materialistas, orgulhosos, pseudo-sábios "homens da ciência", amedrontados diante da inegável imortalidade da alma, reforçam que a comunicação com desencarnados, tão comum em todos os tempos, seria um fato maravilhoso e sobrenatural, por afastarem-se das leis naturais. Dessa forma, estamos ansiosos para que nos contem quais são elas, já que nós, pelo menos, não conhecemos todas as leis do Universo. Pelo contrário, houve um pensador no século XIX, no meio da explosão fenomênica exposta, disposto a estudá-la racionalmente, cientificamente (interpretações matemáticas), sem idéias pré-concebidas.

O professor pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), natural da França, Lyon e de formação acadêmica em Yverdun, Suíça, com o célebre professor Pestalozzi, discípulo de Jean Jacques Rousseau, fazia parte da comunidade pensante de Paris, participando ativamente de diversos institutos científicos, notadamente da Academia Real d’Arras. Tendo conhecimento do fenômeno, longe de ser um entusiasta dessas manifestações e absorvido por outras preocupações, esteve a ponto de as abandonar, o que talvez tivesse feito se não fossem as solicitações dos Srs. Carlotti, René Taillandier, membro da Academia das Ciências, Tiedeman-Manthèse, Sardou, pai e filho, e Diddier, editor. Entretanto, o convite do Sr. Pâtier, seu amigo sério e objetivo, levou-o a conhecer, em 1855, as mesas responderem inteligentemente a perguntas formuladas na casa da Sra. Plainemaison, às terças-feiras, à noite. Anota o professor:

"Foi aí, pela primeira vez, que testemunhei o fenômeno das mesas girantes, que saltavam e corriam, e isso em condições tais que a dúvida não era possível.

"Aí vi também alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma ardósia com o auxílio de uma cesta. Minhas idéias estavam longe de se haver modificado, mas naquilo havia um fato que devia ter uma causa. Entrevi, sob essas aparentes futilidades e a espécie de divertimento que com esses fenômenos se fazia, alguma coisa de sério e como que a revelação de uma nova lei, que a mim mesmo prometi aprofundar.(...)"

Uma das primeiras observações e conclusões do emérito enciclopedista prof. Rivail foi a necessidade da presença de determinadas pessoas ("sensitivos") para facilitarem e intensificarem qualquer dos tipos de manifestações. Quanto à causa dos fenômenos:

"Apliquei a essa nova ciência, como até então o tinha feito, o método da experimentação; nunca formulei teorias preconcebidas; observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas pela dedução, pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo como válida uma explicação, senão quando ela podia resolver todas as dificuldades da questão.(...)

"Entrevi nesses fenômenos a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro, a solução do que havia procurado toda a minha vida; era, em uma palavra, uma completa revolução nas idéias e nas crenças; preciso, portanto, se fazia agir com circunspeção e não levianamente, ser positivista e não idealista, para me não deixar arrastar pelas ilusões."

E, desse modo, rejeitou a hipótese causal puramente material e espontânea, a hipótese dos gases invisíveis. "Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente". Pelas observações ficou claro a presença viva de inteligências invisíveis (algumas vezes bem visíveis) independentes (Espíritos). Os materiais e métodos eram inicialmente baseados nas pancadas das mesas. A seguir, adaptou-se um lápis em uma mesa em miniatura para facilitar a escrita. Trocaram-se as mesinhas por cestinhas, pranchetas e, mais tarde, notou-se que esses instrumentos eram apenas apêndices dos sensitivos e estes poderiam escrever mecanicamente com a própria mão, servindo de instrumento dos desencarnados.

Aplicando os métodos científicos tradicionais postulados por Galileu (vistos no estudo anterior), o Prof. Rivail "cientifizou" mais um ramo do conhecimento humano, até agora de domínio religioso. Os sensitivos, agora denominadas médiuns (intermediários), longe de serem pessoas predestinadas, endemoniadas, santificadas ou privilegiadas, são pessoas absolutamente normais. A interpretação quantitativa do problema é elegantemente simples: a mediunidade é uma faculdade humana orgânica, neurofisiológica, que possibilita a percepção de Espíritos (desencarnados). Todos temos essa faculdade conhecida de todos os tempos, mas ela varia quantitativamente na população humana por fatores genéticos, ambientais e culturais, de modo que somos todos mais ou menos médiuns, variando apenas em graus, e não em qualidade. Apenas pelo costume, chamam-se médiuns aqueles que expressam a faculdade por manifestações nas quais a comunicação dos Espíritos é mais claramente perceptível. A mediunidade, como objeto de estudos dessa nova Ciência, serviu de base para o Espiritismo, neologismo criado pelo Prof. Rivail para "A ciência que estuda a natureza, a origem e o destino dos Espíritos, bem como as suas relações com a matéria" (ver O que é o Espiritismo?). Reflete o pedagogo:

"Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os Espíritos, não sendo senão as almas dos homens, não tinham nem a soberana sabedoria, nem a soberana ciência; que o seu saber era limitado ao grau do seu adiantamento, e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. Esta verdade, reconhecida desde o começo, evitou-me o grave escolho de crer na sua infalibilidade e preservou-me de formular teorias prematuras sobre a opinião de um só ou de alguns."

E essa é a diferença fundamental entre as religiões tradicionais e essa nova Ciência. Se recordarmos o processo histórico-cultural da formação das religiões, todas elas dependeram da comunicações com os mortos (estudo de Julho). Porém, usava-se o método da submissão à revelação dos Espíritos e os médiuns eram considerados enviados dos deuses para a salvação da humanidade ou, se a mensagem dos Espíritos desagradava o poder terreno, os médiuns eram massacrados por serem enviados dos demônios. O positivista Prof. Rivail, como se vê, tem outra opinião, adotando uma postura absolutamente natural: "Eu, pois, agi com os Espíritos como teria feito com os homens: eles foram, para mim, desde o menor até o mais elevado, meios de colher informações e não reveladores predestinados."

De fato, para a formulação dos ensaios, das leis e teorias da Ciência Espírita presente em O Livro dos Médiuns, houve uma equipe de cientistas composta de encarnados e desencarnados pesquisadores, chefiados pelo Prof. Rivail. Um desencarnado, denominando-se sr. Z., informa-lhe que o conhecia o conhecia em outra encanação, nas Gálias, época quando o professor chamava-se Allan Kardec. Muitos outros Espíritos ajudavam ativamente Kardec, dentre eles, São Luís.

As primeiras hipóteses para explicar como os desencarnados podem fazer as mesas dançarem foram exemplos expressivos dessa parceria científica. Kardec e colaboradores encarnados sugeriram que os desencarnados agissem mecanicamente sobre a matéria. Já que o corpo fluídico perispírito é semi-material e pode tornar-se tangível, é razoável pensar que eles próprios empurrassem as mesas com as mãos. Porém, qual seria, então, o papel dos médiuns? Os desencarnados apresentaram uma teoria completamente diferente, muito mais simples e explicativa (ver O Livro dos Médiuns, item 72 e seguintes), aceita por Kardec por ser mais racional. No entanto, houve vários casos em que comentários de desencarnados "de renome" foram rejeitados. O Espírito Lázaro, muito conhecido no Espiritismo por sua explicação sobre a sublimação dos instintos, sensações e sentimentos em Amor, escreveu comunicações contestáveis (ver Revista Espírita, 1862) a respeito do mesmo assunto.

E essa parceria desdobrou-se numa nova Ciência. Porém, era impossível conceber a novidade apenas pela ciência material mais grosseira. Uma vez que esses estudos criaram um método controlado de conversar com desencarnados, foi aberto um novo campo para reflexões profundamente filosóficas, com o potencial de responder perguntas fundamentais da criatura humana. Relata o codificador:

"Só o fato da comunicação com os Espíritos, o que quer que eles pudessem dizer, provava a existência de um mundo invisível ambiente; era já um ponto capital, um imenso campo franqueado às nossas explorações, a chave de uma multidão de fenômenos inexplicados. O segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado desse mundo e seus costumes, se assim nos podemos exprimir. Cedo, observei que cada Espírito, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, desvendava-me uma fase desse mundo, exatamente como se chega a conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e condições, podendo cada qual nos ensinar alguma coisa e nenhum deles podendo, individualmente, ensinar-nos tudo. Cumpre ao observador formar o conjunto, com o auxílio dos documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e confrontados entre si."

Essas reflexões reunidas tornaram-se um corpo de doutrina filosófica baseada em princípios fundamentais da agora chamada Filosofia Espírita:

Existência de Deus: por deduções óbvias e axiomáticas, conclui-se a existência de uma causa primária de todas as coisas, com atributos infinitos em perfeição;
Imortalidade da alma: o novo método, como se disse, leva a esse corolário; filosoficamente, um Criador perfeito não governaria sobre carnes perecíveis;
Comunicabilidade dos Espíritos: é o próprio método de base; refletindo, Deus oferece essa oportunidade às criaturas com ou sem invólucro carnal;
Pluralidade das existências: além de haver evidências científicas, a reencarnação é conseqüência da Justiça infinita do Criador;
Pluralidade dos mundos habitados: também cientificamente indicado e é explicação única para a evolução do Espírito imortal e utilidade dos astros.
Inevitavelmente, como se poderia esperar, essas análises filosóficas conduziram o pensamento a posturas éticas da conduta humana. A dedução mais óbvia é a mudança de hábitos que tinham um embasamento racional dos materialistas. Diante da imortalidade e do entendimento melhor do Criador, formou-se uma atitude de religar a criatura ao Criador, justamente pela mudança ética e íntima do comportamento. A "Religião Espírita" como se caracteriza nesse momento, é o resultado, portanto, da transformação moral, porém interior, em busca da consciência universal de criatura imortal. Na prática, isso significa o reconhecimento da possibilidade de abandonar os rituais exteriores há muito ensinados, a concretização de uma fé racional "que enfrenta face a face a razão em todos os momentos da humanidade", e, no desenvolvimento intelecto-moral da criatura, a síntese de todas os deveres humanos na prática da Caridade. Não é curioso, desse modo, que a esmagadora maioria de todos os Espíritos comunicantes de todos os tempos, os do século XIX, do século XX, de hoje e de sempre, identificam-se como embaixadores de Cristo entre os homens. Perante esse horizonte agora candidamente percebido, nunca ficou tão claro a moral e os ensinos de Jesus e seu Evangelho como roteiro ideal na estrada do progresso espiritual.

O Espiritismo é, assim, resultado da ruptura da pedra sepulcral espalhando a Verdade pura. Articula-se como uma Religião racional eminentemente libertadora e consoladora com a proposta de restabelecer os ensinamentos do Cristo em bases fortes de uma nova ciência rigorosa e de uma doutrina filosófica amplamente esclarecedora das dúvidas e angústias humanas. Essa integração abrange qualquer cultura humana por desvendar a nossa origem, destino e natureza, bem como nossa relação com a matéria.


Referências bibliográficas:

Kardec, Allan (1999) A Gênese, 19a Edição. LAKE. Cap. I, III e XI.
Kardec, Allan (1999) O Livro dos Médiuns, 21a Edição. LAKE.
Kardec, Allan (1862) Revista Espírita.
Sausse, Henri. Biografia de Allan Kardec
Novembro / 2001



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