sexta-feira, 15 de julho de 2011

GLÂNDULA PINEAL


Jorge Andréa
Médico e Expositor do
Instituto de Cultura Espírita do Brasil

A Glândula pineal ou epífise foi bastante conhecida dos antigos, fato observado através das descrições existentes. A escola de Alexandria participou ativamente nos estudos pineais que se achavam ligados às questões de ordem religiosa. Os gregos conheciam-na por "conarium" e os latinos por "glândula pinealis". Estes povos em suas dissertações localizavam na
glândula pineal o centro da vida.

Muito mais tarde, os trabalhos sobre a glândula pineal se enriquecem com De Graf, Stenon e Descartas. Este último fez interessante e minuciosa descrição, atribuindo até nossos dias; para ele, a alma era o hóspede misterioso da glândula pineal.

No começo deste século, os estudos tomam maior incremento com observações mais aprimoradas. Nos nossos dias, apesar de experimentações mais meticulosas, ainda não temos definitiva interpretação sobre sua real função, daí as divergências nas hipóteses apresentadas.

As pesquisas embriológicas em certos animais vertebrados (lacertídeos), notificaram a presença de um elemento que denominaram ''olho pineal", considerado por muitos como órgão sensorial destinado à visão de certos animais fósseis. Seria órgão vestigiário, órgão em repressão, cuja presença nos animais mais avançados na escala zoológica representaria o resquício de olho ímpar de certos invertebrados? Inúmeras experiências foram feitas nas
diversas espécies animais a respeito do olho pineal; as conclusões são contraditórias e pouco razoáveis.

Poderíamos pensar que o olho pineal, em vez de ser elemento regressivo, com tendências ao desaparecimento, fosse, ao contrário, elemento em desenvolvimento. Do olho externo e ímpar de certos animais haveria, aos poucos, nos lentos e meticulosos processos de mutações e transformações evolutivas que desconhecem o tempo, uma inflexão para o interior da caixa
craniana, tomando características histológicas especiais sem perderem as de sua origem. Atenderia esta formação ao controle de funções de alta relevância para o animal tais sejam os diversos mecanismos do instinto, com tonalidades próprias, conforme o desenvolvimento da espécie. Com o aparecimento progressivo em relação à escala zoológica, portanto evolutivo,
iria aparecendo ao lado do olho pineal o divertículo epifisário, até que no homem alcançaria em conjunto com as paráfises (formações embriológicas mais ou menos constantes), o estado mais completo do desenvolvimento pineal.

Desse modo, o olho poderá ser visto como o ponto em que se iniciam os verdadeiros alicerces da glândula pineal e, como tal, o início da Individualidade espiritual-as expressões de um EU em formação - que não existe nos invertebrados, cuja zona espiritual deve fazer parte de um
conjunto próprio da espécie ( alma grupo ), sem as nuanças que caracterizam o Indivíduo, o EU. Lógico seria admitir que, à medida que a escala zoológica avança, os instintos se desenvolvem atingindo seus mais altos graus; e, na espécie humana a glândula pineal responderia pelos mecanismos da meditação e ao discernimento, da reflexão e do pensamento e pela direção e orientação dos fenômenos psíquicos mais variados.

A glândula pineal ou epífise, na espécie humana, ocupa posição central em relação aos órgãos nervosos (gravura 1).

A- Cortex cerebral; B- Lobo frontal; C-Hipófise; D-Protuberância
E-Bulbo; F-Medula; G-Sist.de ativação reticular; H- cerebelo
I- Glândula Pineal; J- Região talâmica; K- Impulsos nervosos

A glândula pineal mantém relações com as glândulas endócrinas e deixa transparecer sua influência em maior ou menor grau. Ainda é difícil estabelecer as relações exatas entre a pineal e as demais glândulas embora possamos asseverar, pelos trabalhos e observações conjuntas, que a pineal seria realmente a orientadora da cadeia glandular, comunicando-se com as demais glândulas direta ou indiretamente tendo na hipófise o grande campo de
suas expansões com o organismo inteiro. Não seria a neuro-hipófise, mas precisamente, a zona por intermédio da qual a pineal orientaria todo o seu trabalho no equilíbrio endócrino?

Com os gritos da puberdade, aos 14 anos em média, a pineal chefiando a cadeia glandular e mais condicionada pelo desenvolvimento físico do indivíduo, encontra melhor campo e distribuição das emoções de vidas pregressas, cedidas pelos vórtices da zona inconsciente (zona espiritual) .
Estes profundos vórtices energéticos do inconsciente, por se acharem ligados às manifestações do sexo, causam modificações como que preparando o campo físico (através da glândula pineal) às necessidades evolutivas, onde as imensas regiões das emoções melhor se expressam. Essa glândula responderia pelos mais altos fenômenos da vida - "glândula da vida espiritual" - e por ser elemento básico e controlador das razões emocionais, o sexo em suas múltiplas manifestações dependeria integralmente de sua interferência Ainda seria por intermédio dessa glândula que os fatores propulsores de evolução espiritual (renúncia, uso equilibrado do sexo, tolerância, bondade, abnegação e disciplina emotiva por excelência) alcançariam índices bastantes elevados. Desse modo, a pineal séria a tela medianeira onde o espírito encontra os meios de aquisição dos seus íntimos valores, por um lado e, pelo outro, fornece as condições para o crescimento mental do homem em verdadeiro ciclo aberto, inesgotável de possibilidades e potencialidades. As aquisições para o espírito serão cada vez maiores e as influências do espírito na matéria serão cada vez mais potentes. Tudo se amplia e completa nas ajustadas etapas palingenéticas, como possibilidades mais lógicas da evolução no esquema cósmico.

Pelas referências acima, percebemos a influência diretora da glândula pineal sobre a cadeia glandular do organismo. A ligação que mantém com o hipotálamo e outras zonas nobres do sistema nervoso central é evidente, como também a influência que exerce no sistema neuro-vegetativo. Desse modo, jamais podemos afastar a glândula pineal da participação de inúmeras funções orgânicas, direta ou indiretamente, assim como da acentuada correlação no setor psíquico.

Porque não admitir a pineal - devido à sua situação absolutamente central em relação aos órgãos nervosos, às unidades glandulares que dirige, aos elementos somáticos que influencia, ao sistema neuro-vegetativo que atua e controla - como sendo o Centro Psíquico, o Centro Energético, o Centro Vital, que se responsabilizaria pela ativação e controle de todos os atos
orgânicos, desde os mais simples até os fenômenos mais altos da vida?

Podemos considerar a pineal como sendo a glândula da vida psíquica; a glândula que resplandece o organismo, acorda a puberdade e abre suas usinas energéticas para que o psiquismo humano, em seus intrincados problemas emocionais, se expresse em vôos imensuráveis.

A afirmação filosófica-intuitiva da escola de Alexandria, dos antigos gregos e mais modernamente de Descartes, como sendo a pineal a sede da alma, e com os estudos que atualmente possuímos, devemos meditar profundamente, sem julgarmos a priori aquilo que nossa ciência oficial ainda não alcançou.

Existe outro terreno orgânico, ainda desconhecido inexplorado, para além do físico, de energia mais sutil e menos condensada do que aquela da matéria e que por isso mesmo a dirige e orienta. É terreno puramente vibratório, não observado pelo olho humano mesmo com aparelhagem óptica especializada, contudo perceptível pelos reais efeitos: terreno no qual estaria mergulhada a energia condensada que é a matéria, obedecendo aos seus influxos, por
serem mais evoluídos, mais vividos, mais experientes e, por isso, com possibilidade de comandar inteligentemente.

Para que a ciência progrida resolva seus difíceis problemas, terá que imergir nas energias, mais precisamente nas energias do mundo psíquico, para melhor defini-lo, estudá-lo e compreendê-lo. Não mais se entenderá uma ciência que fique a arrastar-se na análise e a computar exclusivamente aquilo que os sentidos humanos possam perceber; terá que integrar-se no todo, ter a visão sintética, a visão de conjunto e não mais rastejar teimosamente em dimensões menores.

Os pesquisadores, em suas dissecções anatômicas e em seus mergulhos nos infinitamente pequenos, vão transformando a matéria de viva em morta, e com isso jamais encontram o Princípio Vital, a Essência dessas unidades de trabalho. Por assim proceder, afirmam solenemente nada existir além do que os sentidos percebem, e iludem-se com o mais densificado.


Fonte: Nos Alicerces do inconsciente - Jorge Andréa


imagem - gnosisonline.org

terça-feira, 12 de julho de 2011

MEDITAÇÃO: UMA DISCIPLINA ESPIRITUAL


XIV Dalai Lama

(Do livro "Transformando a Mente", XIV Dalai Lama[1], trad. Waldéa Barcellos, transcrito com autorização da Editora Martins Fontes - http://www.martinsfontes.com)


O que entendemos por meditação ? Do ponto de vista budista, a meditação é uma disciplina espiritual, que nos permite algum nível de controle sobre nossos pensamentos e emoções.

Por que não conseguimos desfrutar da felicidade duradoura que buscamos ? É por que com tanta freqüência deparamos com o sofrimento e a infelicidade em seu lugar ? O budismo esclarece que, no nosso estado mental normal, nossos pensamentos são descontrolados e rebeldes; e, como nos falta a disciplina mental para dominá-los, somos incapazes de controlá-los. Resultado, são eles que nos controlam. E os pensamentos e emoções, por sua vez, costumam ser controlados pelos nossos impulsos negativos, em vez de o serem pelos positivos. Precisamos inverter esse ciclo, de modo que nossos pensamentos e emoções sejam liberados da subserviência aos impulsos negativos e que nós mesmos, na nossa individualidade, ganhemos controle sobre nossa própria mente.

A idéia de produzir uma mudança tão fundamental em nós mesmos pode à primeira vista parecer impossível. No entanto, é realmente possível realizar essa mudança através de um processo de disciplina tal como a meditação. Escolhemos um objeto específico, e então treinamos a mente desenvolvendo nossa capacidade de manter a atenção concentrada no objeto. Normalmente, se tirarmos apenas um momento para refletir, veremos que nossa mente é totalmente dispersiva. Podemos estar pensando em alguma coisa e, de repente, descobrimos que fomos distraídos porque algum outro pensamento entrou na nossa cabeça. Nossos pensamentos estão constantemente correndo atrás disso ou daquilo porque não temos a disciplina de concentrar a atenção. Portanto, através da meditação, o que podemos alcançar é a capacidade de voltar nossa mente para qualquer objeto determinado e focalizar a atenção nele, de acordo com nossa vontade.

Ora, é evidente que poderíamos decidir enfocar um objeto negativo na nossa meditação. Se, por exemplo, alguém estiver apaixonado por uma pessoa e concentrar a mente exclusivamente nesta pessoa, insistindo em pensar nas suas qualidades desejáveis, isso terá o efeito de aumentar seu desejo sexual por aquela pessoa. Mas não é esse o objetivo da meditação. De uma perspectiva budista, a meditação deve ser praticada em relação a um objeto positivo, com o que queremos dizer um objeto que aumente nossa capacidade de concentração. Através da familiaridade, nós nos aproximamos cada vez mais do objeto e temos uma sensação de envolvimento com ele. Na literatura budista clássica, esse tipo de meditação é descrito como shamatha, a permanência serena, que é uma meditação de ponto único de concentração.

A shamatha em si só não basta. No budismo, associamos a meditação de ponto único à prática da meditação analítica, que é conhecida como vipasyana, discernimento penetrante. Nessa prática, aplicamos o raciocínio. Quando reconhecemos os pontos fortes e fracos de diferentes tipos de pensamentos e emoções, bem como suas vantagens e desvantagens, conseguimos aprimorar nossos estados mentais positivos que contribuem para uma sensação de serenidade, tranqüilidade e contentamento além de reduzir a incidência daquelas atitudes e emoções que conduzem ao sofrimento e à insatisfação. Desse modo, o raciocínio desempenha um papel de grande auxílio nesse processo.

Eu deveria salientar que os dois tipos de abordagem meditativa que descrevi, a de ponto único e a analítica, não se distinguem pelo fato de cada uma contar com um tipo diferente de objeto. A diferença entre elas reside no modo pelo qual cada uma é aplicada, não no objeto escolhido.

Para esclarecer mais este ponto, vou recorrer ao exemplo da meditação sobre a impermanência. Se aquele que medita se mantiver concentrado no pensamento de que tudo muda de um momento para outro, essa é a meditação de ponto único; ao passo que, se alguém meditar sobre a impermanência através da aplicação constante, a tudo o que encontrar, dos diversos argumentos referentes à natureza impermanente das coisas, reforçando sua convicção no fato da impermanência por meio desse processo analítico, ele estará praticando a meditação analítica sobre a impermanência. As duas têm um objeto comum, a impermanência, mas o modo de aplicação de cada meditação é diferente.

Minha impressão é que os dois tipos de meditação são de fato praticados em quase todas as tradições religiosas mais importantes. No caso da Índia antiga, por exemplo, a prática da meditação de ponto único e a aplicação da meditação analítica são comuns a todas as tradições religiosas importantes, budistas e não-budistas. Durante uma conversação com um amigo cristão alguns anos atrás, eu soube que no cristianismo, em especial na tradição ortodoxa grega, existe uma longa e sólida história de meditação contemplativa. E, da mesma forma, uma série de rabinos judeus falou comigo sobre certas práticas místicas no judaísmo que envolvem uma forma de meditação de ponto único.

É portanto possível integrar os dois tipos de meditação numa religião teísta. Um cristão, por exemplo, poderia dedicar-se à contemplação refletindo sobre os mistérios do mundo, sobre o poder da graça divina ou sobre várias razões que considere intensamente inspiradoras e que aumentem sua crença no divino Criador. Através de um processo dessa natureza, o indivíduo poderia chegar a uma profunda fé em Deus, e poderia então pousar sua mente nesse estado, mantendo o foco nesse ponto único. Desse modo, o praticante chega a uma meditação de ponto único sobre Deus através de um processo analítico. Portanto, os dois aspectos da meditação estão presentes.


Observações - GEAE

[1] Entre os grandes lideres espirituais dos nossos dias está o XIV Dalai Lama, que não só é o lider religioso do Budismo Tibetano, como até 1949, início da anexação do Tibet pela China, foi o governante deste país. Tendo sido forçado a exilar-se no Nepal, o Dalai Lama, tem dedicado sua vida a buscar uma solução pacifica e digna para a autonomia do povo tibetano, tendo inclusive recebido o premio Nobel da Paz de 1989. Paralelamente, na sua função de expoente máximo de sua religião, tem contribuído enormemente para a difusão do Budismo Tibetano, demonstrando-o na sua vivência prática, explicando-o em inumeráveis congressos ou eventos, e colocando sua riqueza doutrinária ao acesso de todos em diversos livros. Em sua longa história, o Budismo deu origem a algumas escolas de pensamento diferentes, entre as quais se encontra a presidida pelo Dalai Lama, todas elas compartilhando um profundo conhecimento da psicologia humana e da busca pela realidade interior. O texto que transcrevemos tem por objetivo mostrar aos colegas quão interessantes são estes conhecimentos para nós espíritas.


(Publicado no Boletim GEAE Número 409 de 23 de janeiro de 2001)


texto - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geae

imagem - malu-cantinhodamalu.blogspot.com

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O VASTO UNIVERSO HINDU


"TERCEIRA CRENÇA COM MAIS ADEPTOS NO MUNDO,
O HINDUÍSMO CARACTERIZA-SE PELA PROFUSÃO DE
DEUSES, PELOS RITUAIS E ANIMAIS SAGRADOS.ENTRE
UM FESTIVAL RELIGIOSO E OUTRO, OS HINDUS BUSCAM
O CAMINHO DA LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL."

Mal cai a noite, e o antigo centro urbano de Varanasi, no norte da India, começa a ficar agitado. As margens do Rio Ganges, as vielas, as esquinas apertadas e os templos são tomados por uma massa de peregrinos vindos de várias partes do país. É uma celebração coletiva em homenagem a Shiva, o mais incensado dos deuses do panteão hindu, que, segundo a mitologia indiana, teria escolhido Varanasi para viver na Terra. A atmosfera está impregnada pela cantoria de hinos sagrados, pelo aroma doce dos incensos e pelo constante tilintar de sinos ressoando das casas e dos templos shivaístas. Até a manhã seguinte, ninguém deve dormir: quem presta vigília em homenagem a Shiva, dizem os hindus, pode colher benefícios nesta e na próxima vida.

Num dos templos, fiéis se espremem para observar os movimentos precisos de um sacerdote hindu que executa um ritual incomum aos olhos ocidentais. Ele lava a imagem do Shiva-lingam - objeto fálico que simboliza o poder supremo da criação, a união dos sexos masculino e feminino - a princípio, com a água do Ganges, depois com iogurte, leite e, finalmente, mel. Esses são elementos considerados sagrados, dádivas dos deuses. No fim de cada uma dessas etapas, esse profissional de cerimônias, chamado pujari (autoridade religiosa que serve de conexão entre os homens e os deuses), recita em sânscrito trechos de alguma escritura sagrada. Os devotos respondem em voz alta e repetidamente o mantra Om Namo Shivaya.

NO VALE DO RIO KARIMABAD, NO PAQUISTÃO, OS PERSAS
CHAMAVAM ESSE RIO DE SHINDUS E, DEPOIS COMEÇARAM
A DENOMINAR OS POVOS QUE MORAVAM NAQUELA REGIÃO
DE "HINDUS".

Essa celebração, conhecida como Mahashivaratri ou "a grande noite de Shiva", é apenas um dos inúmeros festivais religiosos que ocorrem quase diariamente em toda a Índia. São celebrações inevitáveis em terras hindus, onde há milhares de deuses, santos, profetas e gurus para serem adorados, agradecidos ou simplesmente lembrados. Comemoram-se ainda eventos mitológicos, como a vitória de algum deus sobre terríveis inimiigos, e, às vezes, até datas religiosas de outra fé que foram assimiladas pelo caldeirão cultural hindu.

"Desde os primórdios, o Hinduíssmo desenvolve-se gradativamente, assimilando todas as religiões e movimentos culturais da Índia", diz o professor K.M. Tripathi, diretor da Universidade Hindu de Benares, na Índia, uma respeitada instituição humanística fundada no início do sécuulo 20. "E, ao contrário das grandes religiões do mundo, como o Cristianissmo e o Islamismo, a religião hindu não teve um fundador. Também não conta com um livro a ser seguido, como a Bíblia e o Corão."

JUNTO ÀS MONTANHAS DO HIMALAIA, O VALE DO RIO INDO
É O BERÇO DO HINDUÍSMO. IRONICAMENTE, A REGIÃO QUE
OUTRORA SERVIU AO FLORESCIMENTO DA RELIGIÃO, HOJE,
LOCALIZA-SE NO PAQUISTÃO, PAÍS GOVERNADO SOB AS LEIS
DO ISLÃ. A CRENÇA HINDU, PORÉM, CONTINUA FORTE NA ÍNDIA
E NO NEPAL."

Atrás dos óculos de lentes grossas, Tripathi expressa-se com serenidade, sem pressa. Nascido em Varanasi e acostumado desde criança a participar da incrível diversidade de ritos, ele é um entusiasta do fascinante universo hindu - uma profusão de deuses, mitos, heróis, rituais e animais sagrados.

O Hinduísmo representa hoje a terceira religião com mais adeptos no planeta, depois da crença católica e da islâmica. Estima-se que existam aproximadamente 900 milhões de devotos no mundo. Apenas na Índia, eles somam cerca de 80% da população de 1 bilhão de habitantes. Essa fé também é majoritária no Nepal, na Ilha de Bali e nas Ilhas Maurício.

A cidade de Varanasi ocupa lugar de destaque para essa imensa massa de fiéis: além de ser a morada terrena de Shiva, é banhada pelo sagrado rio Ganges. Para os hindus, o Ganges - personifiicado como a deusa Ganga - é um rio com poderes purificadores que teria descido dos céus após os pedidos de um santo chamado Bhagiratha. As águas, porém, desceram com tamanha violência que Shiva precisou aplacar tal fúria com seus longos cabelos. Os movimentos da cabeleira do deus acabaram por formar o percurso do rio na Terra. Desde um passado remoto, milhões de peregrinos rumam até Varanasi com o propósito de serem cremados às margens do Ganges. Com tal ato, estariam se libertando do carma (o destino moldado com base nas boas e más ações) de sua vida presente e futura.

BERÇO HINDU

Para entender o Hinduísmo, porém, é preciso voltar a roda do tempo. Há cerca de 5 mil anos, nos arredores das montanhas do Himalaia, floresceu uma avançada civilização no Vale do Rio Indo, onde hoje é o Paquistão. Escavações arqueológicas nas regiões de Mohenjodaro e Harappa indicam que, ao redor do ano 2500 a.c., aquele povo tinha uma religião com aspectos muito próximos ao Hinduísmo atual. Ainda há mistérios sobre a vida religiosa no Indo, mas sabe-se que deuses e deusas eram objetos de adoração.

Por volta do ano 1 500 a.c., quando a civilização do Indo entrava em declínio, a região começou a ser invadida por povos oriundos provavelmente das redondezas do Mar Cáspio e do atual Irã. Eles se autodenominavam arianos ("nobres", "bons"). Politeístas, veneravam vários deuses, muitos deles representantes de fenômenos da natureza, como o vento, o sol, a água e o fogo. Os arianos impuseram sua mitologia na região do Indo e, ao mesmo tempo, absorveram crenças locais. Foi a época em que vieram à luz os quatro livros sagrados mais antigos da fé hindu: os Vedas ("Conhecimento Divino"). O primeiro deles, o Rigveda, teria sido composto no terceiro milênio a.c. e é considerado a escritura sagrada mais ancestral do mundo.

Divulgados também oralmente, os Vedas tornaram-se referência e fonte de inspiração para a produção de uma vasta série de textos sagrados, como os Upanishads. Escritos por volta do ano 800 a.c., versam sobre a origem do universo, a natureza das divindades, além da conexão da mente com a matéria. Contêm ainda investigações metafísicas, base da filosofia hindu.

O Mahabharata, ou ''A Grande Guerra dos Bharatas", é outro texto respeitado entre os hindus. Trata-se de um dos épicos mais extensos do mundo: divide-se em 18 livros, com cerca de 220 mil linhas. Os poemas narram a guerra entre os Kauravas e os Pandavas, descendentes de uma dinastia que governava o mundo há milhares de anos. Os conflitos discorrem sobre o dharma, a lei que rege a ordem secreta e pessoal que cada um traz em si. Seu episódio mais celebrado devido à beleza narrativa é o Bhagavad-Gita, um diálogo filosófico entre a "Divindade Suprema" Krishna e o guerreiro Arjuna.

Para o professor Tripathi, o Hinduísmo destaca-se por sua tendência natural em admitir e respeitar os mais diversos ensinamentos religiosos. De fato, no passado a crença hindu incorporou lições de budistas e jainistas. Religião contemporânea do Budismo, fundada pelo profeta Mahavira por volta do ano 500 a.c., o Jainismo tem como lei o ahimsa, a total obediência à não-violência. Adotada pelos hindus, tal prátiica ficou internacionalmente famosa após o Mahatma Gandhi usá-la na luta contra o imperialismo britânico na Índia, na primeira metade do século 20.

Por volta do ano 1000 da era cristã, enquanto o império muçulmano fortalecia-se em terras indianas, o Hinduísmo assimilava aspectos culturais do Islã - como a arquitetura e a música, por exemplo. Da fé hindu brotaram ainda novas ramificações. É o caso do Sikhismo, religião com características doutrinais do Hinduísmo e do Islamismo. Algumas práticas básicas do Sikhismo são seguidas pela maioria dos hindus", conta Alakha Shakti, diretora da tradicional Escola de Yoga de Bihar, no estado indiano de Bihar. Entre elas, estão a yoga e o puja. Muitas vezes confundido com "ginástica" no Ocidente, a yoga faz parte de uma tradição ancestral, que busca o autoconhecimento por meio do controle da mente e, dependendo da escola a que pertence, do treino do corpo. Já o puja refere-se às orações e cerimônias de oferendas aos deuses. "O sacrifício é outra prática hindu, que objetiva a elevação espiritual", afirma ela.

Faz muitos anos que Rama Krishna Das, um dos mestres espirituais de Alakha, obedece a um rigoroso sacrifício imposto por ele próprio. "Desde 1986, resolvi alimentar-me apenas de leite e de chá. Não como nada sólido. Aos poucos, liberto-me de todos os desejos, até mesmo do cheiro e do sabor da comida", diz ele, sentado em posição de lótus num tapete surrado de seu kuti, o pequeno templo onde vive solitário, em Pashupatinath, famoso destino de peregrinação no Nepal.

Aos 74 anos e dono de uma disposição jovial, Krishna Das é devoto fervoroso de Rama, uma das encarnações de Vishnu, deus que estabelece a verdade na Terra. Assim, ele nunca inicia um só dia sem antes prestar homenagens a Rama, o que pode incluir a repetição
sistemática de um mantra devocional à entidade por cerca de 6 mil vezes. Aos 18 anos, quando abandonou família, amigos e emprego, Krishna Das virou um sadhu - ou seja, dedica-se exclusivamente à vida espiritual e às regras místicas dos ascetas.

Tornar-se sadhu é libertar-se de um peso da cultura hindu: o regime de castas. Sadhus não têm castas. "Desde a chegada dos invasores ao Vale do Indo, a sociedade era dividida em três classes: os brámanes (sacerdotes), os kshatryas (guerreiros e nobres) e os vaishyas (comerciantes e artesãos)", afirma o historiador Nand Kishore Sharma, diretor de um museu em Jaisalmer, cidade no noroeste da Índia. "Mais tarde, formou-se a classe dos serventes, os sudras, que serviam às três classes superiores." Por fim, existem os párias, ou intocáveis, que muitas vezes nem mesmo são considerados como uma casta. Na verdade, essas divisões ainda se subdividem num vasto mosaico que obedece a uma série de hierarquias.

LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL

O mundo hindu é repleto de códigos e símbolos, que identificam castas e devoras. Na cidade de Jodhpur, no estado do Rajastão, moradores da casta brâmane vivem em Bramhpuri, um bairro com casas e comércio pintados de azul. Para os brâmanes, essa é a cor que remete à pureza espiritual. Nas ruas, não é difícil discernir os crentes e seus deuses. Seguidores de Vishnu, por exemplo, pintam o "u" entre as sobrancelhas. Shivaístas fazem três linhas horizontais na testa.

Complicado, porém, é identificar o vasto panteão hindu. Há perto de 330 milhões de divindades. Os deuse reencarnam e são representados sob diferentes formas. Os mais importantes deles, porém, compõem a sagrada trindade formada por Brahma, deus da criação, Vishnu, o que preserva, Shiva, o destruidor e recriador. Muitas vezes, os deuses estão associados com suas parceiras. Em uma de suas muitas encarnações, Vishnu vem acompanhado de Lakshmi, deusa da prosperidade, enquanto Brahma tem como cônjuge Sarasvati, divindade do conhecimento e das artes.

De acordo com Ramakrishna, conhecido mestre espiritual do século 19, tais manifestações divinas, e simbólicas, ajudam - aos que sabem invocá-las com fervor - a obter libertação do mundo e de suas provações. "Os deuses são os intermediários da fonte de luz, de toda a sabedoria", escreveu ele.

"O Hinduísmo ensina que progredimos por meio dos renascimentos e reencarnações, ou seja, temos oportunidades de melhorarmos, sermos mais dignos", conta o professor Tripathi. A meta hinduísta é alcançar moksha, a libertação espiritual que encerra o eterno ciclo do morrer e renascer. São muitos os hindus que escolhem o caminho da austeridade e do sacrifício em busca de tal libertação: por toda a Índia, é comum ver pessoas que renunciaram a todos os bens materiais para viver como peregrinos, portando apenas um pequeno jarro para a água e a comida.

Para muitos fiéis, o ritual da cremação representa o "último sacrifício". Afinal, os hindus não enterram seus mortos. Quem conduz a cerimônia, que sempre ocorre na beira de um rio, geralmente é o filho mais velho, que circula em volta da pira funerária no sentido horário antes de atear o fogo. Após a cremação, ritos, como a oferta diária de arroz ao morto, serão obedecidos pela família durante 11 dias. Esse é o tempo que ele levará para chegar aos céus. No décimo segundo dia, a alma terá alcançado seu destino. Para os hindus, a morte não é o contrário da vida. Na verdade, significa apenas o oposto do nascimento. É a porta para se chegar à moksha.

Sergio T.Caldas - Revista Religião - Super interessante


texto - http://www.comunidadeespirita.com.br

imagem - magodamtarot.blogspot.com

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